quarta-feira, 20 de maio de 2026

Coração Puro

   





 Um dia, novamente nos encontraremos para um passeio, com o pensamento tranquilo e o coração puro. 

 Nós caminhamos por muitas ruas e estradas, e eu amei tudo aquilo. Minha vida parecia um furacão com tantas idas e vindas, e você sabe que eu não tinha descanso.
     Quando nos vimos pela última vez, você sequer imaginou como as coisas terminariam, e depois disso tudo se foi.
      Hoje, olhando você assim tão presente na internet, vestindo trajes diferentes, fico feliz por parecer tão bem.
      Sabe a sua timidez? Ela ainda persiste e acho que é para a vida toda. Apesar disso, você está melhor agora, e poucos vêem isso, por que, lá atrás,  você se refugiava em seus dramas.
      Quanto a mim: eu sempre fui diferente, mas era tudo defesa. No fundo das minhas polêmicas e reivindicações sempre esteve a pessoa assustada com a possibilidade do amor. E, diga-se de passagem, eu me intoxiquei de muitas coisas, principalmente com minhas razões e certezas absolutas. E, se hoje eu sei disso, entendo com clareza que era tudo para fugir da realidade, porque minha vida era como flashes luminosos que necessitavam de admiração.
       Você sabe que em nossos momentos bons havia criatividade e nos maus era destruição.
       Tenho total consciência que ainda hoje você vive sob o peso da minha imagem na lembrança, mesmo depois de todos esses anos. Eu entendo que você não merece arrastar isso, porque agora é uma pessoa melhor que eu, e fico feliz em imaginar a sua vida  completamente refeita.
     Quero que saiba que não tenho raiva de nada.
     Quando a minha ilusão foi derrubada e meu corpo sentiu, o coração se partiu em pedaços, mas isso não me matou e nem matou a minha inspiração.
     Posso afirmar que ainda recebo  coisas boas daqueles que se compadeceram comigo. E essa energia me fez transformar palavras em sensações reconfortantes, talvez por isso a criatividade nunca acabou.
     Se agora eu pudesse, seguraria a sua mão e caminharíamos abraçados, admirando com empolgação o céu salpicado de estrelas. A vida não nos permite isso novamente, mas as palavras me levam ao infinito e me fazem sonhar essas coisas.
      Eu sei que compreenderá com parcimônia o que há aqui, pois tem bom coração. Tenho certeza que na ocasião certa falaremos sobre tudo isso - talvez durante seu sono ou via energia cósmica.
      Um dia, num lugar especial, nos reencontraremos para uma reconciliação espiritual, pode esperar. Nessa ocasião eu lhe abraçarei, citarei versos do livro que lhe dei e você nunca leu.
      A novidade do momento é que você está tão bem nas fotos do quintal. Continua a mesma pessoa tímida e com o olhar para o vazio, permanece em busca das coisas que nunca encontrou - em busca do seu Eu.
    Creio que isso vale para você bem mais que a fama, o sucesso ou o reconhecimento que espera por seus esforços. Você sempre soube que no fundo tudo é ilusão.
    Nós andaremos de mãos dadas novamente como antes, e isso será maravilhoso. Você me sentirá com o seu coração e não mais apenas com a cabeça, e então você verá a luz. Mesmo que permaneça de olhos fechados você saberá que sou eu, como se fosse um raio rasgando a noite para guiar seus passos. Por que, um dia, eu aprendi com você como fazer a palavra virar luz de forma espontânea.
    Não pense em mim no passado, pois eu estou no presente e torço por sua vida refeita e iluminada. Amo você mais do que nunca. Sua imagem estará para sempre guardada em meu coração, bem juntinho daquela nossa canção especial, a canção do refrão apaixonado.
    Que aquela trilha sonora de estrelas, que sempre salpicou de luz o nosso caminho, continue guiando o seu. E jamais esqueça que para voltarmos a passear juntos, basta um pensamento luminoso e um coração puro.


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Mentiras

   Durante muito tempo você se manteve em posição de defesa - foi quando o seu coração atravessou noites sem consolo. Ninguém jamais viu os seus olhos molhados no escuro do seu quarto – eram noites e noites em transe com as lembranças daquelas palavras doloridas que aos poucos iam lhe corroendo por dentro.
   Numa época à frente, livre em parte de tal desespero, sentiu que tinha forças para lutar e seguiu em busca de um alento que amparasse tantas dúvidas permanentes sobre a própria existência. Foi quando encontrou a mim pelo meio do caminho, e assim entrei por um tempo em sua vida - acho que eu estava muito a fim de descobrir se mantinha ou não a posse do meu juízo perfeito, digo, para encarar novamente um compromisso com alguém tão legal como você era à primeira vista.
     Porém, sem demorar muito, logo percebi que seu olhar era de quem praticamente estivesse à beira da loucura, guiando-se em seus exemplos por experiências malfadadas do passado - as histórias que contava eram como um labirinto de ficções intermináveis – em nenhum momento parecia dizer alguma verdade que me convencesse, mesmo de alguma questão simples – quando começava  a falar eu já sabia como terminaria e quais os fatos que citaria para dar mais ênfase ao seu ponto de vista. Rapidamente adquiriu esse hábito e dele criou um grande leque de possibilidades para a mesma história fantasiosa, que se repetia em versões mais elaboradas com o passar do tempo. Você temia tanto o confronto com a verdade, em seu modo arisco de ser, que quando uma ponta de mentira me motivava desconfiança, você fingia um acesso histérico e dava às costas pisando duro como se fosse vítima da maior ofensa.
      Muitas lacunas ficaram de nossas conversas, inclusive em discussões prolongadas que aparentemente tinham um tom de sinceridade.
    O tempo passou e você nunca mencionou alguém que gostasse em sua infância, ou uma brincadeira especial ou, quem sabe, o desejo do que queria ser quando crescesse - jamais me falou de uma rua onde pulava corda ou de um parquinho onde brincava no balanço ou escorregador. Quando um dia lhe perguntei como tinha sido sua infância, apenas me disse que nadava na piscina (até me deu uma foto daquela época feliz, lembra disso?). Nunca presenciei um vislumbre em que recordasse uma cena da qual sentisse orgulho na pré-adolescência - dando sempre a entender - na expressão sisuda - que jamais se deixaria escorregar numa emoção do passado, quando as respostas satisfatórias seriam: onde, como, ou os porquês das coisas terem evoluído assim. Várias vezes eu tentei que relembrasse, mas foi em vão. Parece que os detalhes daquele tempo lhe causavam tédio ou trauma profundo. Quando finalmente um dia relatou algo interessante, era como se fosse uma cena tirada de um folheto de viagens ou de algum livro antigo de histórias infantis.
     As reclamações do seu passado, quando no auge da vida adulta, eram sim muito marcantes. Não havia uma só pessoa de quem não falasse mal – o tempo que dispúnhamos era preenchido com reclamações de tudo quanto era tipo, fossem fatos passados ou presentes que tirariam qualquer um do sério. Nada parecia trazer mais alívio do que reclamar em tom de desabafo - demonstrando raiva e indignação - e no final quase derramar uma lágrima sentida. Tive a impressão que você se tornou outra pessoa, não era mais quem eu conheci com tanto brilho – aos poucos apodreceu e rachou ao meio. Cheguei a conclusão que depois de tudo desvendado, você imaginava que eu teria mente fraca e não conseguiria unir os pontos para observar todas as contradições pelas quais passamos juntos. O grande problema é que sempre tive excelente memória para aquilo que vejo ou escuto. Justamente por isso seria praticamente impossível que eu não reconhecesse um jogo de trapaça, ou distorção, a fim de semear uma nova ilusão em mim. Esse era o seu jogo sempre – e eu só podia me revoltar cada vez mais com esse seu mundo de mentiras e falsificações de intenções. Não é de se estranhar, portanto, que inventasse tudo para o seu próprio prazer em presenciar o meu sofrimento por te amar, e, inevitavelmente, após algumas cobranças, chegava sempre uma hora que diria do alto da sua imponente sabedoria: “Você não passa de uma pessoa patética!”. Não se cansou de demonstrar que eu não era suficiente, pelo menos em sua visão turva, para participar do seu mundo - às vezes chegava ao cúmulo de dizer que minhas perguntas e observações eram tão insignificantes que não mereciam sua atenção. O pior de tudo é que nunca se arrependia do que fazia. Isso era muito triste!
     Pois é, infelizmente, são essas coisas que rompem o encanto.
    Você insistiu tempo demais nessa combinação diabólica, habilmente mascarada por ações inocentes, que me fazia acreditar que o mal era eu. Não podia ser eu, pois você sempre se mostrou imune a todo mal que viesse de fora mantendo-se inatingível.
     Sei que se nesse momento soubesse da minha reflexão solitária, novamente estaria me desejando o pior. Motivo, talvez, pelo qual imagina que pode seguir pela vida como se passa entre labaredas sem se chamuscar. Uma hora, quando menos esperar, esse fogo poderá se rebelar e lhe causar queimaduras com cicatrizes permanentes. E, algum dia, em seu rosto torcido pela dor, lembrará que mentir, enganar e torcer as coisas ao seu bel prazer não leva a lugar algum.
     Nós dois sabemos que jamais admitirá abertamente que tudo isso aconteceu assim, digo, na minha versão, quando afirmo que mentia sempre, com ou sem motivo. Mentia inclusive dizendo que era meio vidente e conseguia ver o avesso das pessoas descobrindo o mal dentro delas para se proteger. Mentiras dirigidas, com um objetivo certo de intimidar reações. Garanto que seria mais simples, por exemplo, dizer que eu não era interessante e você não tinha vontade de prosseguir. Ao invés disso, encompridava as mentiras e inventava historias para exagerar as dificuldades em estarmos juntos e felizes. Porém, saiba que não foi o mal-feito que fortaleceu minha ira a cada dia, porque acredito que todo mal vindo da perversidade deve ser destruído; esse tipo de coisa fez a sua vida perecer aos poucos, e não a minha; mesmo que aparentemente mantivesse o sorriso e a impressão de tudo certo.
      Daí veio a total consciência do quanto uma estabilidade emocional pode ser colocada à prova em nome de um bem maior – talvez por cegueira ou a teimosia em prosseguir apesar das consequências. No entanto reconheço que o mundo de enganos e encantamentos que me levou até você, foi para que eu colhesse bons frutos de tudo que passou, e ao final você apenas seguisse adiante em seu mesmo passo.
    Nesse momento, no final do monólogo - antes tão constante em nossa relação - estou finalmente fora do mundo que criamos juntos, um mundo obsessivo, um mundo que eu erroneamente julgava de direito e beleza, um mundo de esperança. E se de verdade um dia tive uma esperança sincera é por que existe alguém lá em cima que gosta muito de mim, ainda que você tenha se esforçado ao máximo para mina-la aos poucos com o seu silêncio intenso e aquele profundo desprezo por belas sensações e nobres sentimentos.

sábado, 16 de maio de 2026

Quatro Passos


           
Existe um grande lema do conhecimento universal dividido em 4 passos “saber, querer, ousar e calar”. Quando você sabe o que quer, é o primeiro passo para que tudo comece a se manifestar; o segundo passo é o quanto você quer determinada coisa e está disposta a colocar foco naquilo abrindo mão de outras coisas importantes; ousar é trilhar com sabedoria o caminho, ainda que seja para travar os duros combates até a superação; calar é estar em vigilância dominando o mais que puder o cenário ao seu redor e depois se guardar em sua fé não aceitando a interferência dos outros.
      Uma coisa eu digo: quando se tem fé você tem certeza absoluta do “eu” que você é.
      Tudo na vida é treino. Ter fé é a absoluta concentração através dos 5 sentidos que fazem parte da essência de cada um e são sempre aliados prontos a nos servir. Viver o presente pleno de forma radiante e envolvente é como deveria ser para todo mundo. Bastaria aprender a observar, tocar e sentir os cheiros, e também ouvir com sabedoria qualquer palavra que se desse ou recebesse.
     Acompanhando esse raciocínio eu digo que dentro de cada pessoa deve existir um espaço vazio que precisa ser preenchido, pois quando esse vazio se apresenta existe a chance de ser envolvido com coisas boas. Enquanto o espaço permanecer lotado de preconceitos, dogmas, crenças e certezas absolutas sobre tudo, não haverá como colocar mais nada para dentro. Aprender a excluir, expurgando o que não serve parece uma boa ação. Desta forma se abrirá uma grande porta para que tudo comece a acontecer de forma satisfatória – talvez até com uma nova postura.
      Viver o presente sem pensamentos atormentadores e em estado de alerta, é importante para qualquer situação se transformar, é acima de tudo o caminho que leva ao amor. É bem obvio que a primeira coisa é aprender a amar a si próprio para amar ao próximo e saber respeitar. Quando você ama e respeita o próximo também será amada e respeitada. E por amar e ser amada tudo passará a acontecer de uma forma muito simples, sem sacrifícios, desavenças ou renúncias.
      Outra coisa: nunca é apropriado se remeter ao passado com comparações ou lamentações, muito menos se basear em experiências de vidas alheias em comparação ao que acontece com você agora. Viva o presente, pois, o futuro é incerto e quase uma profecia. Ou, dependendo de como enxerga a vida, pode ser uma energia jogada adiante para que ela se manifeste para você no tempo certo. Mas, na dúvida, do tipo de energia que está emanando, o ideal mesmo é viver o presente para chegar a algum lugar, só poderá fazer isso voltando toda a atenção para dentro de si. Quando se coloca essa atenção de forma interior tudo acontece, pois, o que se busca está dentro de nós, seja pelo lado sentimental, espiritual ou material.
     Quando se quer muito alguma coisa, mesmo que não a tenha, de tanto querer, um dia ela acontece. Então, se você deseja chegar a algum lugar, atraía essa energia para si. Tudo o que está buscando vem de dentro para fora. Quando ocorre o oposto a vida parece amarrada e chega uma frustração danada.
     Veja bem: logo que acontecerem algumas coisas chatas, ou alguém passar a depender de você, e isso for superior às suas forças, não imagine que o pior seria abandonar a luta, o pior seria esquecer que pode enfrentá-la. É muito triste quando uma pessoa começa a reclamar e se torna rabugenta, ou seja, quando não se dá conta que tem o dom do intelecto para infinitas possibilidades através de sua criatividade nata.
     Tudo o que se vive tem que ter foco e atenção definida, não se pode duvidar nunca daquilo que está buscando. Se por acaso a vida mudar e surgir um clima de tempestade não tem problema, não reclame, pois quando há o domínio daqueles 4 passos essenciais (saber, querer, ousar e calar), logo a tempestade passa. É importante sempre caminhar olhando adiante e em direção ao horizonte, e nunca, nunca mesmo, voltar para trás. Trabalhe apenas em cima dos seus sonhos e desejos mais profundos. Não olhe para os outros, olhe apenas para você. Entende o que eu quero dizer? Não é egoísmo. A vida dos outros não interessa, eles escolheram o próprio rumo, eles não têm a sua energia pessoal e não vivem a sua realidade, não estão na sua pele. Olha só: não importa como está a vida daqueles que contam que vivem bem ou dos que reclamam a todo instante, o mais importante é a sua vida que precisa crescer e ter uma base sólida onde manter o equilíbrio. Tem um momento na vida de todo mundo que se torna necessário entender uma série de coisas que passaram despercebidas. E se um dia alguém lhe prejudicou, e você se magoou por muito tempo com isso, e continua magoada, com certeza houve um por quê. Tudo tem uma motivação que vira um aprendizado quando nos damos conta do acontecido, e acabamos tirando novas energias não se sabe de onde para aguentar, ainda que possa ser muito dolorido.
   Pois é... Dominando aqueles 4 passos e entendendo melhor os 5 sentidos, tenho certeza que fará de você, ou quem quer que seja, uma pessoa melhor. Dê atenção a si mesma, não espere isso dos outros, não crie expectativas, tenha paciência com aqueles a quem considera diferentes de você – isso é uma grande virtude. Porém, nunca faça a alguém o que não deseja para si própria. Faça movimentos para enxergar a luz além da escuridão e nunca o inverso. Largue mão dessa visão turva ou de procurar por desespero crenças infundadas.
    Eu acredito que tudo na vida pode ser uma ilusão criada por nós mesmos, essa ilusão muitas vezes ultrapassa a realidade, e é nesse momento que a fé e o autodomínio são testados, pois parece muito difícil “se desiludir” ao abrir mão de tudo que já foi estabelecido – que foi ensinado. Principalmente na forma de encarar as pessoas; suas incoerências e contradições; os sentimentos alheios, as próprias ações, reações, orgulho ou arrependimento tardio diante do caminho escolhido. Sempre há tempo. E se você não pode controlá-lo, com certeza, poderá administrá-lo, basta querer e agradecer por existir nesse universo que lhe propicia experiências a respeito de tudo. Esse é o princípio da vida e o caminho que cada um tem para trilhar. Quando você sabe de verdade o que quer e sabe como tratar disso, abrem-se todos os caminhos. Tente, vá em frente, atravesse as fronteiras, quebre os bloqueios, não permaneça no deserto! E que a sua vontade sempre prevaleça para o bem.

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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Bruxas Existem!

   

 Quem visse de perto aquela mulher, com os seus
 anos de estrada, dificilmente imaginaria que em outras épocas, - tempo de menos esclarecimento popular – ela teria sido queimada viva numa enorme fogueira em praça pública.
  Uma vez, há muito tempo, ela me disse: “Sou bruxa mesmo, mas e daí?” Garantia em tom jocoso os seus atributos pouco ortodoxos de sentir energias e receber algo parecido com premonições. No mesmo instante me lembrei daquelas bruxas que me faziam morrer de medo nos filmes de televisão, - ainda em preto e branco - isso já por volta dos meus sete ou oito anos de idade. Eram as bruxas pretensamente do mal, vestidas com roupas pretas, mais o chapéu pontiagudo e com uma ou duas verrugas no nariz comprido. Elas afirmavam aos quatro ventos que adoravam sexta-feira 13, especialmente em agosto, e a data 31 de outubro. Nunca esqueço aquela risada horrorosa e estridente que assustava os bichos da floresta (cruz credo!). Sempre no final de tarde tinha aquela bruxinha do bem que eu gostava de assistir, - por que achava muito engraçada e bonitinha - a Samantha, daquele seriado "A feiticeira". Lembram? Bom... De qualquer forma, naquele tempo ou hoje em dia, tudo parece historinha para criança. Acontece que depois cresci e aprendi a observar melhor as pessoas e acabei descobrindo que existem bruxas de verdade. Descobri que elas estão por aí em qualquer canto ou esquina da nossa vida. São muito mais numerosas do que qualquer ser normal poderia imaginar. Elas se parecem com qualquer um de nós e não voam em vassouras. Muito pelo contrário, elas viajam em carros, motocicletas ou barcos, lotam ônibus, metrô e até fazem uma longa caminhada no parque pela manhã. Podem ter curso universitário com várias especializações ou trabalham diariamente em escritórios, galerias de arte ou ateliês. Escrevem livros ou deixam suas opiniões em blogs. Fazem conferências e dão aulas de massoterapia ou se misturam como mestres e aprendizes nos cursos de artesanato e nutrição. Administram grandes ou pequenos negócios e, depois da jornada de trabalho, vão ao terapeuta holístico – onde desenvolvem técnicas de trabalhos naturais em busca do auto-equilíbrio corpóreo / psico / social. Trabalham a correção e a harmonização de seus próprios recursos físicos, emocionais e energéticos com o objetivo de transformar tudo em autoconhecimento.
    A grande diferença entre elas e os mortais comuns (nós) é que as bruxas têm hábitos um tanto esquisitos. Algumas até remexem caldeirões e fazem poções mágicas às escondidas - no melhor estilo de qualquer filme do Harry Potter. Conhecem a cabala e vivem murmurando palavras estranhas em noite de lua negra. São até capazes de inventar feitiços que curam os amados ou que amaldiçoam os desafetos. Usam palavras que transformam qualquer pequeno objeto num grande amuleto que atrai amor e dinheiro (putz... estou precisando de um desses!). Estes são os tipos de algumas bruxas que já conheci de pertinho. Eu disse de pertinho? Sim! Bem de pertinho mesmo! E garanto uma coisa: para os dois lados dessa vida - do bem e do mal.
   Essas pessoas demonstravam a sensibilidade desenvolvida, com o dom que os leigos chamam de “sexto sentido”. Foi assim que depois de muita pesquisa descobri que tive uma geração de bruxas em família.
    Minha mãe contava que durante a época da caça às bruxas, os objetos tradicionais usados pelas feiticeiras, como o bastão de pitonisa e as varetas mágicas, foram banidos para não despertar suspeitas - os quais foram substituídos por instrumentos de cozinha usados no cotidiano que não despertariam o olhar curioso, como, por exemplo, a colher de pau. Era apenas mais uma estória que a mãe contava para o filho pequeno, mesmo assim entendi por que bruxas adotam grandes colheres de pau para mexer no caldeirão. Ela, (a minha mãe) descendente de italianos misturados com um povo cigano que não sei falar o nome, aprendeu a feitiçaria com os requintes das mitologias grega e celta. Por uma dessas coincidências do destino, ela acabou sendo a caçula da dinastia das bruxas e não passou o “bastão” adiante por que não teve filhas e nem sobrinhas. Mas no fundo o seu desejo era ter 7 filhas. Ela me contou que logo aos 5 anos já era uma bruxinha muito malvada e sabia de cor as palavras para enfeitiçar. Foi crescendo e aprendeu entrar em sintonia com a natureza e seus elementos, – terra, fogo, ar e água – rapidamente conseguia transformar os frutos da terra em seus aliados – conversava dia e noite com as plantas e acariciava árvores. Aos 10 anos já sabia fazer um tipo de elixir contra inveja e dor de cabeça. Que maravilha! Uma bela surpresa com grande orgulho para a bruxa velha e caolha que só falava italiano; a minha avó. Ela ainda deu detalhes que na sua infância, dos 5 aos 10 anos, ouvia vozes estranhas, ruídos inexplicáveis pela casa e tinha visões de sombras passando pela parede. Foi assim que começou a se interessar pela bruxaria e outras coisas estranhas ao olhar comum. Afirmou durante anos todos os dias que bruxaria não é um privilégio das mulheres e eu, como seu único filho, deveria seguir os ensinamentos. Mas eu sempre fui muito dispersivo para certas coisas - achava bobagem aquelas alquimias estranhas feitas no fogão a lenha. Para ser bem sincero morria de dó dos gatos pretos presos nas gaiolas individuais lá no fundo do quintal. E fazia questão de passar bem longe dos livros de filosofia Rosa Cruz pendurados na velha estante da sala - alinhados e misturados com os de física Quântica que eu nem imagina o que deveria ser. Depois de anos descobri do que se tratava toda aquela literatura, bem diferente do tempo em que eu mal sabia o alfabeto e via aqueles livros como grandes volumes encostados um no outro. Era muito estranho quando eu pensava que eles voavam por serem livros de magia – mas a mudança de lugar era por conta de tantas consultas noturnas feitas por ela.
Os anos passaram e foram várias as noites que a via debruçada sobre a mesa tentando decifrar a cabala para desvendar o mistério das coisas que a perturbavam. Com base nesses conhecimentos ela preparava talismãs para algumas pessoas que começaram a pagar pelos serviços. As essências de florais viraram uma febre para alguns clientes especiais que pagavam caro por um frasquinho com meia dúzia de gotinhas. A conta bancária cresceu e a vida melhorou – até comprou um carro usado vermelho. Também tinha um tipo de reunião que ela fazia semanalmente com mais 12 bruxas em roupas de cerimônia. Eram organizadas gravuras do sol e da lua sobre a mesa comprida; traduções da energia masculina e feminina para o ritual. Enfileiradas apareciam adagas e, na sequência, vários pentagramas, um cálice, uma espada e pedras brilhantes; símbolos bem tradicionais da magia - que nada mais eram que os veículos da energia concentrada pela força do pensamento. No final faziam orações mentalizando soluções para os problemas individuais e exteriores – como os prejuízos causados pelo homem ao meio ambiente. Pareciam muito unidas e determinadas defensoras da natureza quando saiam juntas à rua. Odiavam, com olhos arregalados, quando algum leigo fazia chacota chamando cada uma de bruxa ou a todas de seguidoras de satã. Poucos passos à frente o infeliz camarada poderia dar uma topada ou cair num buraco enquanto elas se esbaldariam de tanto rir com o acontecimento. Mas se na queda ele quebrasse o pé ou a perna, imediatamente elas prestariam os primeiros socorros, como qualquer pessoa normal a acudir o coitado.
    A moral da história é que existem muitas bruxas que já flertaram com as práticas de satanismo antes de abraçar a bruxaria, a magia ou a crença Wicca - inclusive a minha mãe, mas não garanto que fosse nessa vida.
    Um dia as bruxas acabam ensinando aos incautos que tudo o que se faz de mal aos outros volta em dobro. Usam como filosofia de vida a forma cósmica da força do pensamento e orações transformadas numa energia que transcende o entendimento – e isso independentemente no que se crê.
    Para entender melhor acontecimentos como estes é preciso estudar mais, observar e vivenciar – de preferência por alguns anos. Assim se acaba tomando a Bruxaria como uma arte que é tão necessária à vida quanto outras com a mesma dedicação. No presente os hábitos danosos aos outros devem ser mudados e os pensamentos em constantes transmutações devem ser filtrados. Deve-se sempre estar disposto a enfrentar tempestades emocionais e sociais, ou mesmo – e as piores de todas – as tempestades internas. Eu sei que é difícil entregar-se totalmente quando não se conhece algo, porém, é necessário a entrega com árdua dedicação para vivenciar a magia na plenitude.       Minha mãe explicou que é muito comum a bruxa ter poucos amigos. Não por ser pessoa tímida ou algo assim, mas por gostar de apalpar durante muito tempo o terreno que pisa antes da plena confiança. E se você não for uma pessoa que respeita pontos de vista diferentes ou não sabe guardar segredos dificilmente conseguirá ser amigo de uma bruxa. Ela nunca lhe contará sobre suas experiências mágicas e certeiras. A magia nada mais é que a canalização de energia para um determinado ponto. Enfeitiçar não é privilégio só das bruxas, qualquer um pode ter esse poder que vai da sedução à vingança, da bondade à maldade. Eis aí o maior de todos os seus dilemas: escolha como será na hora que desprender tal energia de si. E saiba que mais cedo ou mais tarde ela voltará bem mais ampliada do que quando saiu”.
    Bom, diante de tudo isso, concluo o seguinte e fico a pensar num velho ditado espanhol: “No Creo en las brujas, pero que las hay, las hay”.  

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domingo, 10 de maio de 2026

Equívocos Acontecem...

               Na tez pesada, com ar determinado e cruel, olhos negros, frios, redondos e fixos.
        Ergo-me do tombo e depois, como se tivesse me decidido pelo silêncio, viro a cabeça e vou. 
        Sigo através da rua escura, sinto sonolência e admiro cada ponta de estrela no céu.
        No pequeno pensamento reconheço bem, e naturalmente, o que foi secretamente agradável, e  quase me convenço que estou livre de todas as culpas.
        Uma voz interior explica as razões. Mas ainda não me soa convincente.
        Então do nada a voz diz: “Você é um imbecil!”
        Toda a vida reluz, todo o sentido da emoção revive, lateja e pesa sobre os ombros que arquejam e eu choro.
      
        Sou como todos aqueles que têm sofrimentos e misérias privadas nas escolhas erradas e vivem num mundo sem esperança carregando a culpa.
        É nessa hora que todos os acontecimentos ressurgem e são enfiados goela abaixo do ego ferido, num baque na vaidade.

        Apenas mais um passeio pelas mesmas ruas noite após noite até a desesperança tomar conta da mente insana...
       
        De vez em quando, com sombria satisfação, eu penso em outro modo de vida.
        Imagino se faria alguma diferença agir de outro jeito.
        O ciclo chegou ao fim em algum lugar que não sei exatamente onde.
        Esse fim que me fez desacreditar em toda a obrigação com amores, ódios, preconceitos, armações e rebeldia. 
        Aprendi a ser só, único, ego próprio, com a esperança do entusiasmo renascer para viver todo o tempo que ainda tenho - o que poderia  trazer ideias brilhantes com sugestões exequíveis, sem os antigos espasmos, reflexos, retrações e dúvidas cruéis que me sufocaram a cada suspiro.
        Não pareço nada além de um ser humano comum e cansado, um ser vivente e pensante. Uma falha da natureza em seu mais lindo esplendor de perfeição, como o  princípio de todas as coisas incompreensíveis que usando da sagaz visão impõe a si a condescendência.

        Quem tem uma ideia,pondo-a em prática, rege a perfeição.
        Ouvi a pergunta: “Você já fez isto antes?” 
        Quanto mais faço, mais desdenhoso me torno.

        Quantas observações imprecisas no decorrer da vida tornaram evidente essa minha filosofia particular?

        Pura ingenuidade pensar que estive certo...
        O diabo agora sorri para mim com seu hálito quente e olhar hipnótico.
        Sigo pela rua escura, caminho caótico e me guio pela ponta da última estrela que cruza o céu.
        Fico tão impaciente com tantas teorias para explorar ao desabafar toda esta porcaria que tenho dentro do peito.
        Serei eu meu único e melhor ouvinte?
        Se assim for fico sem sentimento de culpa ou constrangimento, exercitarei livremente a mais pura sensação de limpeza da alma, do espírito, do corpo e da aura iluminada.
        É mais uma tentativa do que ainda não compreendo na essência.
        Sei que há algo putrefato na retina cega da incompreensão nesse medo da solidão profunda que chega através do monólogo e na repetição cada vez mais frequente da mesma emoção que persiste indefinidamente.
        Seria uma junção da minha futilidade com minha insegurança ou uma paixão estropiada e mal explicada na justa razão dessa ação?
        Amoldando a atitude e renovando as esperanças, todas as coisas ficarão quentes e confortáveis novamente nesse coração.
         Eu tenho que acreditar que realmente preciso disto, desse jeito, dessa forma especial.
         O meu presente é algo que devo receber com graciosidade e gratidão.
         Quanto maior importância eu der a tudo que passou, menos usufruirei do que vier.
         O que me mata é às vezes não saber me expressar com exatidão. Uma exatidão firme, devoradora e explícita.
         Talvez eu não me importe tanto com o que aconteça de agora em diante - seja a tristeza, a perversidade ou a indiferença. Acho que nem fracasso me impressiona mais.
          Gostaria tanto de juntar coragem, ter a força e a decisão que demonstro com todas as minhas fraquezas ao expor minhas entranhas e meus pensamentos nas reações incoerentes.
          Mas uma maldita coisa me corrói por dentro e dói no pensamento ao querer o diferente. O diferente de tudo que já passou...
           Essa minha inaptidão me revolta e minha falta de senso me condena a cada palavra, fazendo de mim mais um divagante perdido no lodo da vida...
            Mas acima de tudo sei que equívocos acontecem e sigo adiante assim mesmo...

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sexta-feira, 8 de maio de 2026

LIÇÕES

    
     Cito, logo de início, a frase de Bertolt Brecht da peça teatral “Aquele que diz sim”: “O importante de tudo é aprender e estar de acordo”. Creio que esta citação ilustra bem o tema a seguir.
   Vamos lá então...
   Vejo que todo mundo quer acertar e ir em frente; e assim conhecer alguma outra nuance da vida ou seus mistérios. Não é mesmo?
   Porém, nem sempre dizer sim significa estar plenamente de acordo com determinadas situações, ainda mais quando existe o conflito moral atrelado aos costumes, isso desde quando nos conhecemos por gente. E nesse caso a moral está praticamente fadada a falhar, quando se entra num conflito em busca da melhor solução ou quando nos sentimos inseguros.
   Dentro dessa coisa de tentar acertar, quebrando paradigmas impostos, é preciso entender motivações para saber onde está a causa dos problemas que tornam mais difícil uma decisão.
   Às vezes o palpite, ou a opinião de alguém em forma de crítica, pode ajudar nessa parte. E tudo depende muito de como se escuta a mensagem passada.
   Por mais que uma crítica tenha o sentido da maldade, muitas vezes ela está detectando uma coisa significativa que não percebemos em nós.
   “Imágina, eu não sou assim!”
    Sabe por que isso acontece?
    Porque quase sempre não temos noção de como é a gente com a gente mesmo, ou como funcionamos e nos posicionamos diante de circunstâncias delicadas. A gente acha que sabe tudo, mas, no fundo, temos uma visão errada em como as pessoas nos vêem verdadeiramente – vivemos durante anos num modelo de ilusão para o conforto do próprio ego.
   Quando se está envolvido de verdade consigo mesmo, tentando acertar primeiro lá dentro e depois com o mundo, acaba-se vivendo num observar-se e compreender-se bem melhor - não desmoronamos diante de qualquer manifestação de crítica; e apenas pensamos naquele feito como um aprendizado.
    O ponto de vista muda quando a honestidade com a gente mesmo prevalece - apesar de ser uma coisa muito difícil de ser praticada.
     Por isso que no decorrer da vida tem-se sempre a tendência a ser cruel com a gente mesmo, com uma série de auto-sabotagens. Aprendemos a desenvolver culpas e castigos como autopunição, por ter feito algo assim ou assado, coisas das quais sempre nos arrependemos depois.
     Fala-se dos outros porque é bem mais fácil enxergar os defeitos alheios. Isso é bastante terrível, porém ninguém é desonesto com outros se não for consigo mesmo primeiro. O caráter das nossas ações se baseia no modo como a gente se trata e isso reflete nas outras pessoas através de atos bem previsíveis.
     A causa mais aparente está sempre na questão da ideologia do ideal.
     Existe em nós a ideia fixa do “tem que ser”. Um pensamento desenvolvido através daqueles tempos de aprendizado na infância, e que chega forte à fase adulta. Juntando-se a essa ideia do “tem que ser” vem outra mais forte, e o seu nome é “deveria”. Aí dizemos a nós mesmos, ou aos outros: “Deveria” ser de outro jeito, “deveria” pensar o contrário, “deveria” se adaptar, “deveria” aceitar as coisas como elas são. “Deveria, deveria, deveria”.
     As pessoas vivem nesse mundo de ideologia e pensamentos moralmente perfeitos e se iludem que os outros “deveriam” seguir essas regras.
      Pois é... Engraçado isso. Como a vida é incoerente, não é mesmo? Temos essa mania de sempre idealizar os outros, ditando regras do que “deveriam” ser.
     Eu sou aquilo que dá para ser. E afirmo com todas as letras: Não! Eu não deveria nada. Você é que está se iludindo em pensar que o outro tem que ser o seu idealizado. Eu só posso dar os meus passos de acordo com o que sou e com os meus conhecimentos.
    Claro que fingir todo mundo finge, brincar todo mundo brinca,  mas ninguém é o “deveria”. Isso é uma invenção do instinto de dominação do Ser humano, que anda lado a lado com a ideia de subjugar o outro com esse tal “tem que ser”.
   É certo que a gente tem um tipo de crescimento e aperfeiçoamento das qualidades da natureza humana, que vão surgindo com todas as experiências acumuladas. Mas ninguém pode ser o “deveria” dos outros.
    Existem pessoas e pessoas. Tem gente que faz por onde não receber o bom tratamento ou respeito.
      Um dia descobrimos que o Ser que idealizamos é aquele que nos frustra amargamente e a gente se entristece por causa disso.
    Uma pessoa que reconhece a sua própria verdade não precisa de um juiz arrogante e perfeccionista lá dentro da cabecinha condenando qualquer ação feita ou recebida.
    Então... O Ser humano só vive satisfeito quando está feliz. E a felicidade está sempre no real e não no ideal. Isso exige uma capacidade de olhar a vida de outro modo.
     A vida ensina a todo mundo. A lei do homem tem jeito de manobrar e escapar com vários argumentos, mas a lei da vida é irremediável.
    Que cada um tome a própria lição. O lema diz: “Quem não aprende pelo amor, aprende pela dor” e isso é mais velho que andar para frente.
    Então, voltando a Bertold Brecht, existem duas opções de escolha. Uma diz que aquele que está atrapalhando uma caminhada deve ser largado para trás ou jogado no abismo; a segunda: a regra de moral ou bom-senso nos ensina que, quando as coisas não dão certo, a solução é retornar ao ponto de partida em busca de  novas alternativas.
    A escolha está ao dispor. Escolha o seu caminho e seja feliz, pois, o mais importante de tudo é aprender e estar de acordo com o bom senso de cada momento ou situação!

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terça-feira, 5 de maio de 2026

Aconteceu em Vinhedo

      Você se lembra dos beijos e carinhos que trocamos lá no parque da uva em Vinhedo? Você se lembra da caminhada pela trilha em meio aos arbustos e os patinhos deslizando no lago cinzento? Você se lembra que guardou as fotos que tiramos de rostinhos colados pouco depois do pôr do sol no céu avermelhado? Você se lembra do chafariz e da bica de água cristalina?Eu acredito que a nossa energia em cada toque, em cada olhar e em cada expressão permaneceu naquele lugar para sempre. Por isso cá estou novamente tentando exprimir alguns sentimentos para cair na real depois da tempestade. E se acaso durante essa explicação eu tiver a necessidade de deixar de ser nostálgico e passar a ser duro com as palavras, espero sinceramente que não se sinta ofendida. Pois, posso dizer que, acima de qualquer outra coisa, a lembrança de tudo ainda está muito presente. No entanto, a necessidade interior de expor tudo assim, deve ser atendida da mesma forma quando a gente sente vontade de dizer um palavrão depois de uma martelada no dedo. E, imagino, cá com meus botões, que, a partir daqui, todas as ponderações parecerão por demais supérfluas para serem entendidas por você ou quem quer que seja. 
      Fiquei imaginando o quanto seria importante conversar com você sobre isso, apesar que reconheço, como sempre foi, que nada de útil você consiga enxergar em minhas palavras. Muito menos algo que modifique seu gênio indomável - esse mesmo gênio que nos levou a longos silêncios, que agora vejo o quanto foi difícil superar. Mas, por favor, apenas entenda, sei que você também gosta de refletir sobre tudo o que tem dificuldade para lidar ou entender, e procura enxergar o outro lado das coisas. Olhando lá atrás, aqueles momentos complicados  não lhe parecem um deja-vu? Depois de pensar e repensar chegou a mudar sua opinião? Um  cantinho mais profundo do seu ser não se alterou enquanto estava triste? Poxa vida.... Vê agora no que eu me tornei, ou como são cruéis as rusgas que levamos adiante para tentar abafar o sentimento interior que nos traz uma contradição permanente? Isso parece uma doença que confunde a nossa alma e os desejos mais primitivos. Ou, então,faz uma confusão em tudo que julgamos correto, trazendo uma sensação que não podemos entender e nos faz perder o melhor dessa vida aos poucos, quase que imperceptivelmente. Ahhh, se fosse possível enxergar além dos curtos limites dos velhos preconceitos do passado, talvez um novo saber indicasse o caminho certo vindo dos pressentimentos e,  com isso, haveria mais confiança para suportar as tristezas. Do nada, algo novo poderia surgir, algo que fosse completamente desconhecido a você ou a mim: onde os sentimentos que se calaram antes, por uma desastrosa interpretação de sinais, fizessem tudo ao redor recuar e um enorme silêncio reinasse por dentro. Aí sim, viria a consciência que as tristezas do passado foram momentos de aprendizado. Às vezes dolorido e às vezes de superação, mas apenas aprendizado, ainda que tivessem sido um desastre causador de paralisia. Mesmo assim foi possível sair sem se machucar demais. O meu mais sincero desejo é que a dor não estivesse mais lá para ambos - que já tivesse sido diluída nas memórias daquele tempo que se foi. A certeza é que é difícil saber o que exatamente  houve de verdadeiro naquelas motivações de conflito. Facilmente alguém poderia crer que nada demais aconteceu, no entanto, existem cicatrizes que mostram a cada dia tudo que foi transformado e o que ficou estranho dentro de cada um.. Muitas vezes a visão do que tem adiante chega devagar e assim novamente tudo se sucede como um grande acontecimento que renova a empolgação que estava esquecida num canto. Quanto mais se puder olhar com um viés de neutralidade e paciência, mais profunda será a conquista pelo destino tão desejado anteriormente. E quando ele vier, se vier, – isto é, quando a porta se abrir para chegar aos outros – com toda certeza estará tão próximo e familiar que nem haverá conta do quanto demorou a chegar. Eu acredito nisso. É preciso – é uma evolução que aos poucos desenvolve o sentido lógico de toda uma vida, são as sensações de recompensa esperadas há muito tempo. Você poderá reconhecer com isso que a vida certa ou errada está em  nós, nas atitudes que praticamos. Muitas pessoas não percebem que agir assim é algo simples, e continuam no mesmo passo. Porém, ao darem de cara com algo estranho e confuso recuam diante da novidade. Por isso os movimentos enganam quando não se observa uma solução tão próxima que não chega sem uma ação efetiva e definida. Podemos nos enganar o tempo todo quando o melhor seria admitir que fomos deixados sós, e que todos os pontos que considerávamos apoios foram retirados e as escolhas se tornaram únicas. E a partir de então ficamos entregues ao insólito como se estivéssemos sendo arrastados pelos ares e caindo como uma pedra despedaçada. É claro que nesse momento a cabecinha criativa inventa uma mentira enorme para acalentar o estado dos sentidos, fazendo com que todas as medidas, distâncias e transformações se alterem na conveniência daquele que se torna solitário, com a esperança de que tudo irá logo mudar. Para isso é preciso força. No fundo, mas bem lá no fundinho mesmo, a única força que se dispõe é a de aceitar a existência, e que tudo é possível dentro dela, para o resto tudo vira insegurança. Essa ação é exigida em determinados momentos, porque não é só a falta de interesse que faz a relação interpessoal se repetir numa infindável monotonia, em muitos casos é o medo do novo, do cansaço e, diante disso, ao não nos sentirmos bastante fortes recuamos. Somente quem se sente preparado, quem não exclui nada com antecipação, poderá viver uma relação com alguém como algo empolgante e vivo; indo até o fundo da existência que une a ambos ao mesmo interesse.  
        Pense alto, pense que mais que os erros que condena em você e nos outros, e aparecem num ciclo contínuo na esteira da vida que leva, grande parte da culpa de tudo é dessa criação submetida à vontade alheia, que pode tornar a qualquer um uma pessoa meio ausente das conexões reais do tempo e da vida e ainda acorrentam a costumes cheios de regrinhas. Sabe de uma coisa? Muitas vezes, um fato desagradável provocado por alguém que consideramos imprestável, fez parte por algum tempo do destino que era o sonhado, mas se tornou indesejável. Foi uma necessidade que não se podia evitar. Esse momento acabou acolhido pela vida como um aprendizado dolorido, no entanto, essa vida não se tornou limitada pelos nomes dados a essas atitudes e sim à pessoa por seu caráter destrutivo. Mas logo em seguida a esse pensamento é possível retornar ao ponto inicial da própria consciência e assumir que as escolhas feitas foram livremente e com as opções de risco calculado. Se considera que sua vida está repleta de tristeza, sacrifício e falta de reconhecimento por causa disso, eu posso dizer o mesmo da minha. Ou até que ambos erraram. Mas se fosse diferente, jamais poderia ter encontrado palavras certas para exprimir os sentimentos contraditórios pelos quais passamos ou como ainda permanecem bem vivos na minha imaginação desde a passagem por Vinhedo.

O Virtual e o Real

     Estou cá com meus botões imaginando como a vida é estranha. O quanto somos injustos e indiferentes com os outros, e a nós mesmos, com...