segunda-feira, 13 de julho de 2026

Uma Viagem Romântica 1

    Foi numa quinta-feira, no inverno, fim de tarde de um dia de trabalho estressante, estava eu, confortavelmente sentado em minha poltrona preferida, que fora estrategicamente colocada entre duas caixas de som - para o efeito estéreo pudesse ser perfeitamente apreciado. Cuidadosamente, manuseava de um lado a outro a capa - e mais o encarte - do Lp do Led Zeppelin, o Led 4, enquanto ouvia “Going to Califórnia”. Teimosamente, mais uma vez, para desvendar o significado dos quatro símbolos místicos – há décadas tento entender se os símbolos pertencem ao ocultismo e à magia ou astrologia egípcia e cultura celta – nunca consegui encontrar resposta que me convencesse.
      No momento mais profundo da minha atenção, mergulhado em pensamentos e em "viagens" através da linda sonoridade acústica, a luz do celular avisa que chegou mensagem. Eu me aborreço um pouco, pois não gosto de ter o clima interrompido quando escrevo, ou em "viagens" imaginárias pelos mistérios do pensamento. "Viagens" que sempre me levam de volta aos anos 70.
       Na mensagem duas perguntas: - Tá ocupado? Pode falar agora?
       Imediatamente saio da poltrona, abaixo o volume do aparelho de som vintage – que é cuidado como joia rara - retiro cuidadosamente o braço do toca-discos de cima do vinil, e vou responder a mensagem, dando continuidade ao assunto que parece sério.
       - Oi, meu amor, linda gata manhosa. Conte tudo.
       - Vamos viajar nesse fds?
       - Viajar?
       - Sim! Tem uma pousada legal para irmos amanhã.
       - Como assim? Mas, já?
       - É.
       - Para onde?
       - Surpresa. Diga primeiro se aceita. Em caso positivo, faça sua mala e venha me pegar às 17h. Quando chegar aqui direi qual o destino. kkkkkk
       - Explique as coisas direito.
       - Já expliquei. Aceita ou não?
       - Não acredito numa coisa dessas! - Está bem, gata, eu vou, às 17h e buzino no seu portão. Esteja pronta!
       
      
                        A viagem:
       - Gatona, olha que céu lindo! Adoro quando o azul vai ficando mais clarinho no horizonte. E aqueles filetes de nuvem coloridos nas pontas, então? O céu claro no inverno sempre é mais bonito, você não acha?
       - É bonito mesmo – sussurrou ela, de olhos meio fechados.
Tudo parecia estar acontecendo rápido demais. E a jornada naquela rodovia estava apenas em seus primeiro quilômetros.
       - Tá bom, tá bom, já entendi. Você quer que eu fique em silêncio para não atrapalhar seus pensamentos e a admiração do céu. Mas é legal a gente ir conversando um pouco. Saber mais um do outro, já que nosso namoro tem pouquinho tempo – tentei estimular o diálogo que parecia difícil diante de tanta beleza da natureza sendo exposta gratuitamente ao nosso testemunho, como se fosse a imagem de um quadro que só se vê em exposições.
       Ela abriu um pouco mais os olhos e eles iam de um lado para o outro, como se quisesse absorver pela retina todas as imagens. Estiquei o braço e fiz um carinho em seu queixo descendo o dedo indicador pelo pescoço.
      - Um fato que ainda não conhece é que também sou bonito e muito carinhoso, brinquei e ela riu ficando mais solta.
    Ela hesitou um momento e moveu a mão para colocar sobre a minha perna, e disse em tom mais sério:
     - Já se passaram algumas semanas desde que nos conhecemos de verdade, pessoalmente, sabe? Depois que saímos a primeira vez a gente se viu pouco. Quero saber o que fez de bom nesse meio-tempo. Muitas paqueras? Você é um homem atraente que chama a atenção da mulherada. Deve ter muito trabalho respondendo mensagens no Whatsapp de pretendentes.
     - Espere um minuto, deixe-me pensar – murmurei - Hum... O que fiz de melhor foi pensar em você. Fiquei imaginando como seriam bons os nossos momentos quando você sugeriu a viagem para a pousada.
    - Só pensou e não fez mais nada?
    - Sim. Fiz minha mala e estava ansioso por isso.
    - Tá bom... Eu também estava. Eu precisava sair um pouco de casa.
    - Eu senti saudades. Acho que estou gostando de você. – interrompi a mim mesmo para chamar a atenção para coisas que só se vê uma vez - Nossa! Olha só... Veja como a estrada fica bonita com a sombra das árvores no asfalto... Adoro dirigir no fim de tarde com o Sol se pondo. Isso dá uma sensação de liberdade maravilhosa. Nada se compara a esse visual que nunca se repete e fica guardado na mente da gente para sempre. Não é mesmo?
      Ela endireitou-se no banco e não respondeu; apenas me encarou por um instante esperando o próximo comentário.
    - Então... Diga uma coisa – tentei perguntar.
    - Sim.
    - Como soube dessa pousada?
   Suas bochechas coraram e ela me olhou de um jeito como se, de repente, eu achasse que seu QI tivesse caído pela metade. E arrematou suavizando a voz:
    - Uma amiga me indicou, já faz um tempo. Ela passou um final de semana lá com o namorado.
    - Entendi. Você fez a reserva no meu nome ou no seu?
    - No meu, é claro! Você falou, mas nem lembro o seu nome completo.
    Ela ainda não me conhecia direito e dava sinal que estava achando o assunto extremamente chato.
    - Avisou em casa que iria passar o fim de semana comigo? Um cara praticamente estranho...
    - Falei mais ou menos. Não costumo dar muita satisfação. Assim evito perguntas que me cansam.
    - Como assim?
    - Eu não fico explicando as coisas lá em casa. Quanto mais detalhes eu dou, mais querem saber. Então só comunico quando estou de saída.
    - Ninguém se importa? Nem questionam?
    - Nem dou ouvidos. A minha mãe tem a mania de repetir a mesma coisa várias vezes como se ainda não tivesse falado.
    Era estranho. A única coisa que poderia deixar duas pessoas instantaneamente mais distantes parecia, na realidade, deixar mais próximas com o crescimento da cumplicidade e das revelações que iam surgindo..      
   O Sol estava se pondo e o vento frio da noite começava soprar com mais intensidade conforme íamos chegando perto do trecho em que a rodovia ia ficando deserta. Os últimos raios de luz insistiam em dançar em meio às finas camadas de nuvem no horizonte, tingindo todo o céu de tom alaranjado e vermelho claro. A estrada parecia mais calma à nossa frente, nos seduzindo a traçar com mais ansiedade o caminho que nos levaria ao céu.
    Era embaraçosa a situação de querer saber mais um do outro – mais eu dela do que ela de mim. Talvez suas respostas parecessem bem ensaiadas, o que, por enquanto, fazia o entendimento mais amplo ficar fora do meu alcance – para minha total frustração.
    Ela não parecia querer culpar ninguém diretamente, exceto a si mesma, por suas atitudes de se preocupar demais com os outros. Porque a única coisa verdadeira que carregava dentro de si era o seu passado.
  Lá estava eu de novo para mais um item da longa lista de coisas que eu achava não apenas necessário saber, mas que merecia saber, e ela não pensava ser necessário contar.
  Ela não demonstrava estar com frio nem com medo. Agora se sentia livre do tédio do seu lar. Estava livre, livre de todas as dores que já sentira no passado. Livre dos olhos que a seguiam e condenavam a todo instante.
   - Adoro momentos como este – disse eu -, faz a vida da gente realmente valer alguma coisa.
   - Oi? – sussurrou ela.
   - Eu disse que acho esses momentos maravilhosos.
   -  Ah tá. Eu também gosto disso.
   - Desculpa perguntar, mas você se dá bem com sua mãe?
   - Que pergunta é essa?
   - Ué... O que tem perguntar?
   - Não tem nada. A gente se dá bem, sim. Ela é bem sistemática e teimosa – o que me irrita bastante. Tem alguns probleminhas de saúde, mas, infelizmente, não aceita minha orientação para melhorar. Já elaborei um cardápio para que faça alimentação bem equilibrada. Deixei na mão dela, mas ela não deu muita importância. Ela se faz de tonta por não querer saber que a alimentação equilibrada é tudo o que ela precisa para ter boa saúde, mas não adianta ficar toda hora falando. Ela não me ouve e nem segue orientações do médico. Todos na minha família são teimosos. Quando eu era mais jovem avisei que cigarro matava e bebida comia o fígado. Mas, que o vinho, que por sinal eu adoro, podia ser tomado sem exageros. Fiquei cansada de repetir as mesmas coisas por anos a fio. Minha família nunca colaborou, eles achavam que era implicância, só pensavam em si mesmos e em suas opiniões por se julgarem com mais experiência de vida. Velhos antes do tempo, isso sim!
   - Nossa! Sério? O que sua mãe tem?
  - Ela está com palpitações de vez em quando, pressão arterial alterada e probleminhas de estomago. Eu já conversei, expliquei tudo direitinho, falei sobre a alimentação e exercícios físicos. Ela precisa caminhar mais, parar com essa mania de ficar sentada na cama ou no sofá assistindo TV.
  - Sua família tem tendência à alguma doença? Você parece muito saudável.
  - Não tem. É relaxo mesmo. Avisei que tem que tomar cuidado – isso causa prejuízos irrecuperáveis à saúde; ela nunca me ouviu e menos ainda agora que está mais velha. Diz sempre para eu me meter com a minha vida. Vou dizer... Larguei mão de ficar me preocupando com os outros. Agora vou viver do meu jeito.
   - Você parece chateada.
  - Não é pra menos. Um dia desses coloquei um cartaz sugestivo e muito bem humorado na porta da geladeira. Era com informações básicas de alguns alimentos:
                        Aviso:
 Não desgaste demais os seus neurônios pensando no que comer fora de hora.  
Não culpe outra pessoa quando não tiver seu prato preferido no almoço ou jantar.
Que tal usar a tática do “faça você mesmo” e mudar um pouco a sua alimentação?
Tenha paz na mente na hora de fazer a comida. Não faça nada após uma briga ou atrito com alguém. Espere algum tempo até a mente se acalmar.
Lembre-se que o alimento que você ingere se transforma de acordo com o seu temperamento. A sua acidez de pensamentos e emoções influenciam o bom aproveitamento das substâncias que servem para manter a boa saúde. Muita calma nessa hora.
Quando você se atrai por um determinado tipo de alimento existe um grande significado por trás da sua personalidade. Pense antes de comer.
Semelhante atrai semelhante.
Quem gosta de comida gordurosa é pessoa vingativa. Menos gordura, por favor.
Quem gosta muito de mel tem sentimentos nobres e tem o dom da caridade – troque o açúcar pelo mel.
Quem gosta muito de feijão é uma pessoa agressiva – coma o suficiente.
Quem gosta muito de arroz trabalha pela paz – coma o quanto quiser.
Quem gosta de batata em toda refeição é pessoa avoadinha que se perde nas ideias, e vive nas nuvens – mantenha os pés no chão.
Idem para quem gosta muito de chocolate – controle a ansiedade e o humor.
Muito sal e muita pimenta também fazem mal – quem gosta de muita pimenta é “pimentinha” na vida.
Muito doce e chocolate é típico de gente carente – você tem uma vida sem prazeres e precisa de serotonina para não ficar amoadinha num canto?
Sempre muita atenção aos alimentos e ao preparo.

     - Você fez isso mesmo? Não acredito!
     - Fiz! O cartaz ficou lá por uma semana, depois minha mãe jogou no lixo.
     - Ela não vai ao médico para ver esses probleminhas?
     - Ela vai, sim. O médico fala umas coisas sérias pra ela e passa receita.
     - Ela tem mãe viva?
     - Não tem. Morreu há anos. A minha avó morava perto da gente. Ela estava muito doente, eu ia até lá de vez em quando conversar, fazer companhia.
     - Você sempre foi bem ligada à família. Legal isso.
     - Eu sou.
     - Você tem irmãs?
     - Quanta pergunta hein? Isso parece um interrogatório. Acho melhor me contar alguma coisa de você. Você quer saber muito de mim, mas não revela nada da sua vida.
     - Desculpa. É que precisamos conversar qualquer coisa. Ok então, falarei de mim: a minha vida é comum. Sigo rotina de trabalho e deveres do lar, nada muito especial. Sou sossegado, não curto a noite e nem saio para baladas. Vivo praticamente de casa para o trabalho e vice-versa. Raramente faço algo diferente num fim de semana. Mas agora que conheci você, parece que tudo vai ser mais legal. Uma pergunta, para não fugir do assunto: alguém em sua casa é chocólatra? Estou perguntando por causa do aviso na geladeira. Despertou minha curiosidade a parte do chocolate.
     - Eu adoro chocolate.
    - Então quer dizer que não dispensa um chocolate?
    - Bem mais que isso. Eu escondo as barras de chocolate nas gavetas para minha mãe não me criticar. Certa vez, ela estava fazendo aulas de natação para a terceira idade, e ia comendo chocolate no percurso de casa até lá. Eu avisei que não podia. Que poderia ter hipoglicemia. Que não se deve comer chocolate antes ou durante atividade física. Ela não me ouvia, só pra variar é comum ninguém me ouvir. Por isso eu escondo. Se ela descobrir dirá: "Eu não posso, mas você pode, né, mocinha?".
    - E antes de transar pode comer chocolate? – joguei a piada dando risadinhas no final. 
   - Também não pode! – respondeu secamente.
  - Xi... Então fiz sempre tudo errado – tentando a todo custo arrancar um sorriso para tentar sair do clima pesado de histórias dos conflitos filha e mãe.
  - Minha mãe é quase uma filha para mim, com o passar dos anos a coisa se inverte na relação. A gente é muito amiga, muito próxima. Já fizemos várias coisas junto. Eu me dou bem com ela, basta não pegar no meu pé ou ficar repetindo as histórias que já sei de cor e salteado. Ela sofreu demais na juventude. Achava que o pai não gostava dela como dos outros irmãos.
  - Entendo... É bem complicada esse tipo de rivalidade. Olha só... Estamos quase chegando à divisa de municípios. Colocou direitinho no GPS o caminho da entrada da cidade até a pousada?
  - Está tudo programado. O dono da pousada me disse que se nos perdêssemos era só ligar que ele viria ao nosso encontro.
   - Beleza, então. Estamos quase lá, faltam poucos quilômetros. Falando em comida, de repente me deu fome. Tem algum chocolate aí na bolsa?

Continua na próxima postagem....



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domingo, 12 de julho de 2026

Aconteceu em São Pedro

   

     Acho que foi num shopping Center no centro de São Paulo que nos conhecemos. Eu pedi um café expresso, ela um capuchino – ou talvez ninguém tenha pedido nada e ficamos apenas conversando. De qualquer forma prefiro dizer que pedimos cafés e escolhemos uma mesa perto da janela. Logo fomos servidos e trocamos algumas palavras sorrindo – aquele tipo de sorriso misturado com insegurança e timidez.
    Na verdade, talvez, nós poderíamos ter nos conhecido numa fila de banco - na qual a espera e a falta de paciência levam muitas pessoas a conversar. Ou em alguma dessas festas estranhas na serra da Cantareira pertinho da casa dela. Ou, ainda, quem sabe, lugares semelhantes, onde servem porções de fritas e contra filé em fatias - um tipo de ambiente com meia luz, próprio para namorados. Pensando melhor... Talvez fosse legal num bar escuro e enfumaçado onde tocasse jazz com saxofone ou heavy metal com guitarras estridentes. É... Talvez... Poderia ser em qualquer local onde iríamos curtir juntos pela primeira vez “November Rain do Guns & Roses”, e essa canção se tornaria a nossa trilha sonora predileta – (Poxa vida, nem gosto tanto do Guns, mas pode ser essa mesmo! Fazer o quê?).
     Não importa. A verdade é que não me lembro direito como aconteceu, porque agora parece nao ter tanta importância.
     O que me lembro é que nunca viajamos em férias para Argentina ou Chile e nem passamos o final de ano num Cruzeiro pelo litoral brasileiro. Não tiramos fotos um do outro, - foram pouquíssimas juntos - e muito menos escrevemos declarações num tronco de árvore, tipo, “Eu te amo”.
     Eu acabei odiado pela família dela e ela nem conheceu o meu cachorro, que, tenho certeza, faria festa toda vez que ela me visitasse, por que, afinal, ela gosta de cachorro e leva o dela para passear pela vizinhança numa rua de ladeira - a cadela usando uma linda tiarinha na cabeça e roupinha de cachorro sob medida feita pela mãe dela.
     Nunca assistimos os clássicos de Hollywood; apenas aqueles desenhos e filmes antigos que dão sono depois de meia hora. Por isso nunca paramos para discutir sobre o teor de qualquer daqueles filmes chatos. Justamente por não haver o que discutir de tão ruim que eram e, por outro, porque ela não parava de falar de como é maçante ouvir sempre a mesma ladainha em casa.
     Ela fez uma única vez fondue de queijo com pão italiano, foi lá no Guarujá e, eu, nem sabia escolher o vinho que combinasse com aquilo, – sempre fui totalmente ignorante no conhecimento de vinhos – mas, para minha salvação, ela trouxe a garrafa certa para a ocasião.
Nunca passamos a noite entrelaçados e aconchegados – dormíamos um virado de costas para outro, quase caindo da cama. Nem observávamos um ao outro enquanto dormíamos para sentir se aquilo poderia proporcionar algum prazer ou admiração furtuíta. Acho que poderíamos ter dormido de conchinha ao menos uma vez. (Que coisa mais insensível não ter sido assim, não é mesmo?).
     Talvez a relação não tenha sido como deveria, pois, com o passar do tempo, não permitimos, por nossos bloqueios e preconceitos, que isso acontecesse. Não nos envolvemos o suficiente e, lá no fundo, acreditávamos que não éramos as “pessoas certas” um para o outro. Nem sequer nos conhecemos direito, pois escolhemos o pragmatismo para não perder tempo com quem pudesse ser indiferente ou excessivamente apegado.
     Em alguns momentos preferimos a simples troca de ofensas ao invés da troca de carinho. Foram muitas e muitas noites com cara emburrada e mal dormidas quando deveriam ter sido de amor, sexo e melhor vividas.
     A despedida aconteceu fora de tempo para ambos. Havia à espera uma nova vida totalmente independente. Nem pensamos que poderíamos ter aproveitado mais um final de semana, mais um mês, mais um ano...
     Deixamos tudo passar, esquecemos se algo foi bom...
    Agora nos mantemos distantes e solitários imaginando encontrar alguém com quem ouvir “November Rain” - (Não poderia ser outra música? Acho essa muito comprida e dramática.)Ou, quem sabe, passar alguns dias na cordilheira dos Andes e, depois de pisar nas águas geladas do oceano Pacifico, voltar para casa com um enorme sorriso no rosto e muita história para contar.
     Ela nunca percebeu que já tinha encontrado esse alguém e a oportunidade passou. Mas, de uma coisa eu me lembro bem, de um lance marcante que aconteceu em São Pedro. Foi numa manhã de sábado no começo de Julho. Lá íamos nós passeando devagarinho de mãos dadas enquanto admiramos as árvores da praça principal, logo entramos numa sorveteria por quilo chamada Oasis, pertinho da Igreja Matriz. Eu escolhi bolas de sorvete sabor pistache e morango, e ela foi de creme e chocolate. Atravessamos a rua e nos sentamos em um dos bancos antigos de madeira, que era bem desconfortável, com ripas brancas (já com a tinta descascando). Olhamos um para o outro, trocamos e destrocamos os potinhos algumas vezes e, sem trocar uma só palavra, nos comunicamos através de olhares e gestos que determinaram cada atitude. Talvez tenha aparecido uma ou outra frase solta meio assim: “Eu dizia: adorei esse de pistache! E ela retrucava: não gosto muito de pistache”). Mas de resto era o silêncio e apenas aquele olhar. Não houve reclamações, nem reprimendas, tampouco exaltação; nada com duplo sentido ou má interpretação. Era apenas o sorvete nos unindo de uma forma que até então nos era desconhecida. 
     A derradeira cumplicidade aconteceu num raro instante: um beijo gelado, tipo selinho, bem descontraído e sem pretensão. Agora eu percebo que o começo do fim aconteceu em São Pedro, logo após aquele último selinho embalado por um gole de sorvete. Quando o sonho de ambos se foi para sempre.
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quinta-feira, 2 de julho de 2026

O Virtual e o Real

     Estou cá com meus botões imaginando como a vida é estranha. O quanto somos injustos e indiferentes com os outros, e a nós mesmos, com nossas reações diante das facilidades da modernidade.
     Fiquei horas pensando que a principal e mais antiga forma de expressão é a palavra através da fala. E que em seguida vem o contato físico, o olho no olho, o toque, o aperto de mãos, o abraço, o beijo...
     Essas são relações de afeto que cumprem uma função muito importante para o convívio do ser humano e seu bem-estar. Sendo uma forma original e verdadeira, pois, na palavra escrita, muitas vezes nos cobrimos de máscaras e dissimulações e nos tornamos personagens.
     Infelizmente por mais sinceros que sejamos sempre caímos no mesmo erro de esconder os sentimentos - talvez seja uma das piores fraquezas do ser humano. Essa ação afeta a todos os tipos de personalidade, desde apaixonados a covardes; dos sem senso de iniciativa aos traumatizados. E no final todos esses indivíduos acabam relegados a um quarto, isolados do mundo, vivendo uma vida de farsa e fantasia na internet.
     Ás vezes eu não entendo a razão de tanto isolamento e menos ainda as mudanças no que  se habituou chamar de estilo moderno de vida. Não compreendo a escolha de algumas pessoas que vivem trancafiadas, se achando seguras no próprio mundinho, já que minha tendência é de vivência coletiva, não de dividir mas de ajuntar, colaborar e confraternizar. Acho tão saudável a socialização real!
      Na vida virtual, na qual dispomos muito do nosso tempo, parece-me praticamente impossível tratar assuntos sérios e falar dos prazeres ou dos hábitos do dia a dia com alguma verdade - já que o que vemos são lindas fotos de passeios caros ou banquetes de reis em cima da mesa. Essa vida virtual parece inconstante, frágil e relegada sempre a uma realidade oposta ao “EU’ real.
     Esse isolamento passa a impressão de uma imposição social e de costumes, uma necessidade de se mostrar bonito, importante e realizado; fatos de causar imediata inveja e vontades. Inclusive naquelas fotos da família, reunida em confraternização, dando a falsa impressão de que não existe um escudo para as dificuldades do mundo aos filhos ou entes queridos porta afora. 
      É lógico que é muito mais fácil teclar com alguém do que falar diretamente com a pessoa, demonstrando o que sente por ela ao vivo e a cores. Também porque ao teclar raramente você demonstrará sua emoção verdadeira ou o que diria frente a frente, ainda que desfile desaforos ou faça elogios à beleza ou à personalidade desse alguém. 
      Para quem é mãe, mesmo tendo a maior parte do seu tempo preenchido com correrias e responsabilidades de todo o tipo, ainda é muito mais conveniente manter os filhos com a babá virtual do que correr atrás deles na rua ou passar mercúrio nos machucados dos joelhos e cotovelos. As crianças hoje não empinam pipas, nem jogam bolinha de gude, nem colecionam Barbie, elas praticam e são experts em jogos virtuais. Desde muito cedo desenvolvem a mentalidade de que cada pessoa deve estar focada em seus interesses particulares e prazeres imediatos, nunca em preocupações comuns de um grupo, o qual proporcione interação ao modo antigo. Triste egoísmo e  individualidade! Câncer(es) da sociedade.
      É uma pena que a internet favoreça tanto esse aspecto da individualidade em contraste com a cumplicidade e participação pessoal. Houve um tempo em que vivi, no qual poderia ir à casa de alguém e nem era necessário avisar, muito menos marcar hora, ia chegando e sendo muito bem recebido com um sorriso e um convite espontâneo: “Entra, senta, fique à vontade. Quer uma água ou suco?”. 
     Hoje tudo tem que ser marcado, tem que consultar o outro antes, confirmar se não tem compromisso, tem que ver a previsão do tempo, - se for mulher, namorada ou amiga - tem que saber com antecedência os dias da TPM, o que evita levar uma porta na cara ou algum ato de hostilidade do tipo: “Quem é você? Não lembro de ter feito convite para vir aqui!” Radicalizações à parte. Tem gente que é mesmo muito mal educada no trato com quem diz gostar, mas isso é assunto para outro post, rsrsrsrs.
    Cabe aqui uma pergunta: Nós mudamos ou o mundo mudou? A educação, a cultura, a evolução dos meios tecnológicos e de informação instantânea mudaram as pessoas e seus interesses? Talvez eu não tenha uma boa resposta para parte do enigma. Observando melhor parece que esse excesso de informações e tecnologia colocou todos em um confinamento eterno, como bonecos em uma cadeira giratória criando pneuzinhos na cintura que são provocados pela auto-escravidão virtual. Aí sim, posso acreditar que um pouco de tudo isso contribui para a falta de atitude e socialização. 
     E assim vamos ficando cada vez mais trancafiados em nosso mundinho, vendo a vida passar pela tela do Smartphone, notebook ou PC. E o pior que ainda achamos que vivemos uma vida segura e de qualidade.
         Tem gente por ai que nem se lembra do quanto é gostoso sentir os raios do sol na pele num passeio no parque, ou então que as flores aparecem na primavera e são lindas de se ver e tocar.
       Reconheço que também tenho alguns desses maus hábitos, estou procurando mudar e a vida só muda quando você muda. Estou tentando o máximo para que isso aconteça.O pior é que quando a “ficha cai” vem o pensamento:" Será que vale a pena mudar agora? Talvez seja tarde demais após 10 quilos de gordura em excesso e 10 anos a menos para viver".
       Com esse pensamento reconheço que a idade reforça algumas manias e alguns medos, tornando-as mais evidentes. Hoje minha tendência ao isolamento ficou mais clara, às vezes tenho a impressão que sou alguém rodeado por tranqueiras e tralhas obsoletas, e nunca por amigos. O que tenho de mais moderno e boa companhia são o celular e o notebook. 
     No celular converso no Whatsapp  e ouço música, ambas atividades solitárias. Observo o mesmo em outras pessoas quando estou em transportes públicos ou nas ruas. Pessoas solitárias com o fone de ouvido conectados em seus celulares, vão se isolando cada vez mais.    
     Não existe mais paquera. Como paquerar alguém com fone de ouvido? Não existe mais pedido de informação. É quase uma ofensa pedir à pessoa que retire uma "perninha" do fone para você perguntar o nome de uma rua, já que você dispõe em seu dispositivo de Google Maps e Waze.
        É mesmo um fato melancólico se nos lembrarmos que poucos anos atrás as pessoas se juntavam para andar em grupos, conversar as novidades da vida de cada um, ir ao cinema da praça ou até mesmo para ouvir um disco.
       O que acontece hoje é sinal dos tempos. Tempo em que você pega tudo na internet, busca arquivos e baixa. Tem mp3, mp4 e o raio que o parta. Nunca se sabe a origem, se veio do seu vizinho ou de alguém lá no Japão. Você entra na grande teia, repassa arquivos, fotos, músicas e também nem imagina que caminhos aquilo fará até chegar ao destino, talvez até passe em Marte e volte à terra sem que você saiba. E a vida sem interação física continua. Eu vi num filme tosco dos anos 50 que até os marcianos andam juntos. 
      Imagino que esteja pensando que parece incoerente que eu fique aqui criticando a isolação que o mundo virtual provoca nas pessoas, porque é também a minha ferramenta. Claro! Em parte você tem razão. Graças a ela conheci gente que jamais conheceria de outra maneira. 
      Mas não posso deixar de ressaltar que atribuo grande parte de todo esse conflito ao que isso fez com as pessoas, tudo muito programado e óbvio, pessoas quase robotizadas e escravizadas pela máquina. Claramente existem outros fatores, como a vida profissional e demais conflitos da vida de cada um, mas, em minha opinião é essa preguiça por tudo na mão, por tudo mastigadinho, desde uma fórmula química complicada, até a imagem do cosmo com apenas um click na telinha, o que torna as pessoas pouco esforçadas em aprender a se relacionar eliminando a indiferença ao outro que pode estar tão perto fisicamente.
       Vejo algo bom nessa vida virtual, cultivo amizades e desenvolvo conhecimentos, estou conectado com o mundo e com o universo através de ondas eletromagnéticas que se espalham pelo céu. 
     Vendo por este ângulo jamais ficarei solitário, já que em algum momento alguém em Marte poderá receber alguma mensagem minha. Tenho quase certeza, esse alguém virá até mim para um bom papo sobre como é a vida fora do mundo ao qual pertenço. 


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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Crises Podem Salvar Uma Relação Amorosa?


A relação está mesmo acabando ou é apenas uma crise qualquer? Olhando assim até parece bem fácil a resposta. Mas não é não. Aí você pensa: "Se eu não estou feliz é porque está acabando". Acontece que podem ter muitos motivos para uma relação estar em crise, inclusive muitas situações externas que nada tem a ver com um ou outro, mas que influenciam e fogem ao controle da relação do casal. Agora... Fazer a distinção entre se é uma crise dentro de você ou motivada pela pessoa que está com você, é muitas vezes quase impossível de descobrir ou admitir. Mas é bom tentar desvendar esses mistérios antes de sair tomando atitudes drásticas que fazem piorar bem mais do que melhorar qualquer relação. O mais engraçado (o que poderia ser visto até como trágico) é que, às vezes, você fica se perguntando: "Ai meu Deus será que o amor da gente acabou? Será que a gente realmente chegou ao fim por causa das coisas que falamos sem pensar um para o outro?". Pois é... Essa é uma pergunta justa, mas as crises nas relações nada tem a ver com a própria relação de entrega de um para outro, digo isso me referindo aos carinhos, ao sexo, a troca de gentilezas e as preocupações com o bem estar, tipo: se chegou direitinho ao destino... Às vezes a pessoa (que pode ser você ou quem você ama) está passando por um grande problema em casa ou no trabalho. Essa pessoa, que você tanto ama, acaba envolvida em algum grande problema com a família dela ou com alguém que é rebelde e não se ajusta e causa problemas dentro daquele ambiente de convívio da sua pessoa amada. Ou seja, há enes motivos para que crises pessoais, familiares ou profissionais se pareçam com crises na relação do casal. Então você se pergunta: "Como é que eu vou realmente saber que a minha relação não é como um barco furado que afunda aos poucos em alto mar?". Bem... Para saber isso vou inventar aqui um método com 3 perguntinhas básicas e tentar encontrar essas respostas com muita honestidade e transparência. Ok? Vamos lá...

A primeira pergunta em duas partes é a seguinte: Apesar de todas as dificuldades que a relação está passando existe reciprocidade? Você faz o possível para se doar e tenta atender as necessidades e expectativas do outro dando o seu melhor, e isto é retribuído independentemente se o outro está com dinheiro ou sem, ou se está de bom humor ou de mal humor? Então... Na minha visão, não importa a retribuição, ou se você se sente como alguém que sozinha empurrasse uma enorme pedra ladeira acima, aquele tipo de pedra que nem sequer rola com facilidade. Mas você imagina, que para o bem da situação, deve continuar empurrando essa pedra sem pensar se isso lhe faz bem ou mal. Mas, de repente, quando você olha ao lado repara que não é só você que está empurrando, os dois estão empurrando, mas cada um uma pedra diferente. Entendeu? A partir deste momento você poderá observar o seu comportamento e o comportamento do outro, e como é que isto se reverte nessa relação. Então, parando para perguntar: "Será que não deveríamos unir esforços numa única pedra ou seria melhor largar as duas pedras rolando morro abaixo e daquele ponto diante começar um esforço em conjunto sem mais pedra nenhuma, apenas em prol um do outro? É algo para pensar onde a resposta não parece nada difícil...

A segunda pergunta é: "O seu nível de expectativa nessa relação é real ou é fantasioso?". Eu acredito que, independentemente da resposta, o outro não pode dar aquilo que ele não tem. Ou seja, aquilo que você deseja receber não é o que ele não queira lhe dar, ele simplesmente não pode, por exemplo: fisicamente, financeiramente ou psicologicamente. Não adianta você reclamar que a pessoa nunca tem disponibilidade para viajar com você, ou tempo para ir em alguma a festa de amigos ou de família, ou assistir um amigo de longa data tocar guitarra num barzinho de Rock... Não significa que a pessoa não queira, significa que dentro dos limites dela, ela não pode. Aí você vira e diz: "Mas quando a gente começou era diferente...". Olha... Esqueça isso. Toda pessoa muda, assim como você também mudou. É preciso entender que ao longo da relação a pessoa vai mudando junto com as expectativas dela e das suas também. Em algum momento as tais expectativas que você tem começaram a não ser tão reais como antes, por exemplo: as expectativas sexuais. A medida que a gente vai tendo mais intimidade ou mesmo vai envelhecendo, aqueles rompantes sexuais tendem a desaparecer. Já não acontecem com tanta frequência ou com a mesma disposição física de antes. Então, novamente, o que você quer é o real de antes e, às vezes, o outro não consegue atingir a sua expectativa ou suprir o seu desejo, seja do prazer sexual ou outro tipo de realização. O acerto das coisas, como você queria, às vezes não combina com momento da outra pessoa, e isso não precisa ser motivo de crítica, sabe por quê? Porque entender as coisas e amadurecer é aprender, mesmo que esse aprendizado esbarre em obstáculos que parecem intransponíveis. Nem todo mundo aprendeu ou amadureceu na mesma velocidade, então, você acha que as expectativas que você tem são reais e são possíveis como antes. Nesse nível de pensamento você terá duas possibilidades de pensamento ruim, uma é: Sim! O nível de expectativa é real e o outro não atende porque ele não quer; a segunda: porque ele já não se interessa mais tanto por você. Eis aí um bom motivo para começar a pensar diferente na situação ou em seu comportamento na visão que tem da pessoa amada.

A terceira pergunta é: "A minha relação amorosa com essa pessoa tem que fazer de mim uma pessoa melhor?" Não! O outro não tem essa obrigação de atender a tudo que você pensa e fazer todos os seus gostos. Eu me refiro a esse tipo de pensamento que muita gente tem de dizer que o convívio com a pessoa amada pode tornar alguém mais satisfeita, mais amável ou o inverso, uma pessoa menos caridosa, afetivamente miserável e assim por diante... bem, se definitivamente é o inverso do que você espera, então o convívio com essa pessoa não está lhe tornando um ser humano melhor, principalmente se essa pessoa sempre tenta lhe diminuir ou minar a confiança que você deposita nela, incluindo a famosas ameaças de rompimento ou de partir, de morar em algum local distante ou em outra cidade, mesmo que seja de outro país tipo: Nova Iorque, Paris, Roma ou Tóquio.

Sabe gente... Têm coisas que parecem tão simples e poderiam ser resolvidas tão facilmente, mas temos o hábito de sempre estragar tudo em vez de dar espaço ao outro. Exemplo: Eu tenho um casal de amigos, ele é um cara muito chato, e bota chato nisso, ele é um chato de galocha e ele sabe que é chato. Têm horas que ele se torna insuportável, porém, é muito grato à esposa dele, porque quando ele está numa grande crise de chatice, a esposa faz que não se importa. Ela sai do ambiente e deixa que ele viva sozinho a chatice dele num canto. Isso faz dela um ser humano melhor. Porque à medida que ela faz isso, ela entende que não é com ela, que não tem nada a ver com ela e não se ofende, é sim com as feridas de vida que carrega e que já vem antes dela. Ele, recebendo esse espaço, começa a ser menos chato com ela, ainda que ele esteja emburrado com o fato que ela sai e volta. Mas, com isso, dá-se um novo fôlego para manter a relação num bom nível de sanidade para ambos. Aí, agora você deve estar se perguntando: Muito bem, eu percebi que a crise que a minha relação vem passando não é só uma crisezinha como desses exemplos toscos que você deu nesse texto bizarro, pois, no meu caso, tem a ver com outras coisas que estão ocorrendo, coisas que eu não admito de jeito nenhum e nem tenho controle sobre elas. Por isso, vejo o risco de acabar tudo logo, porque ao ler essas perguntas e respostas acho que vou mesmo morrer afogado no meio do mar, na solidão desse meu barquinho furado, já que diante de um monte de expectativas e perspectivas criadas, nós nunca nos sentamos e conversarmos sobre elas…E se a gente não conversa sobre essas coisas o barco afunda de verdade, como está acontecendo agora comigo… Pois então... Para finalizar a prosa eu digo e reafirmo: Enquanto há vida ainda há tempo para mudar. Quem se ama e ama o outro deve salvar esse amor, porque quando há amor ainda é possível salvar uma relação, mesmo que existam alguns conflitos ou defeitinhos de lado a lado.... Entendeu? Olha só que coisa curiosa que eu acabei de pensar... Já estou até vendo.... Sei que vai ter gente que vai botar assim no comentário: "Quando a gente desiste é porque o outro não respondia a nada que fosse importante. Aí, quando um não quer mais nada, o melhor mesmo é botar a viola no saco e tocar em outra fogueira, pois essa já se apagou e alguém está passando muito frio. E eu detesto passar frio! Ok. Posso dizer? Eu penso um pouco diferente, aliás, bem diferente. O mais legal seria chamar a pessoa amada, aquela escolhida com tanto sacrifício entre tantas oportunidades que surgiram e que já passaram, para dizer o seguinte: Olha isso! Olha essa foto da nossa relação dos últimos tempos. Nós estamos emburrados, quase chorando. Nós sabemos que nos magoamos muito um com o outro, muitas vezes por bobagens ou até coisas importantes que poderiam ser resolvidas com mais comunicação. Vamos fazer uma outra foto aonde a gente vai estar rindo muito, porque finalmente aprendemos a conversar e nos tolerar através do amor que nutrimos um pelo outro, que tal? Topa?

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sexta-feira, 26 de junho de 2026

ABC Da Vida

    Pois é, gente. Cá estou novamente com o velho papinho de sempre – momento que considero muito interessante para compreendermos, ou analisarmos com maior propriedade, os mecanismos de abordagem tentando enxergar a vida de outra forma.
     Cito, logo de início, a frase de Bertolt Brecht da peça teatral “Aquele que diz sim”: “O importante de tudo é aprender e estar de acordo”. Creio que esta citação ilustra bem o tema de hoje.
   Vamos lá então...
   Vejo que todo mundo quer acertar e ir em frente; e assim conhecer alguma outra nuance da vida e os seus mistérios. Não é mesmo?
   Porém, nem sempre dizer sim significa estar plenamente de acordo com determinadas situações, ainda mais quando existe o conflito moral atrelado aos costumes desde quando nos conhecemos por gente. E nesse caso a moral está praticamente fadada a falhar quando se entra num conflito em busca da melhor solução quando nos sentimos inseguros.
   Dentro dessa coisa de tentar acertar, quebrando paradigmas impostos, é preciso entender motivações para saber onde está a causa dos problemas que tornam mais difícil uma decisão.
   Às vezes o palpite, ou a opinião de alguém em forma de crítica, pode ajudar nessa parte. E tudo depende muito de como se escuta a mensagem que foi passada.
   Por mais que uma crítica tenha o sentido da maldade, muitas vezes ela está detectando uma coisa significativa que não percebemos em nós.
   Uma pessoa que desabafa numa situação de transtorno pode falar muitas coisas que não falaria em outros momentos. E aí a gente pensa: “Nossa! Essa pessoa me viu de um jeito que eu não sou. “Imágina, eu não sou assim!”
   Uma pessoa transtornada fala (pra gente) muitas verdades; o que, na maioria dos casos, nos deixa ofendidos e indignados.
    Essa pessoa pode fazer uso da sinceridade em praticamente 100% de suas afirmações, mas fora desse momento pode ser muito hipócrita; por uma questão óbvia de sobrevivência ao meio social ou familiar, é claro.
    Sabe por que isso acontece?
    Porque quase sempre não temos noção de como é a gente com a gente mesmo, ou como funcionamos e nos posicionamos diante de circunstâncias delicadas. A gente acha que sabe tudo, mas, no fundo, temos uma visão errada em como as pessoas nos vêem verdadeiramente – vivemos durante anos num modelo de ilusão para o conforto do próprio ego.
   Quando se está envolvido de verdade consigo mesmo, tentando acertar primeiro lá dentro e depois com o mundo, acaba-se vivendo num observar-se e compreender-se bem melhor - não desmoronamos diante de qualquer manifestação de crítica; e apenas pensamos naquele feito como um aprendizado.
    O ponto de vista muda quando a honestidade com a gente mesmo prevalece - apesar de ser uma coisa muito difícil de ser praticada.
     Por oisdo mesmo que no decorrer da vida tem-se sempre a tendência a ser cruel com a gente mesmo, com uma série de auto-sabotagens. Aprendemos a desenvolver culpas e castigos como autopunição por ter feito algo assim ou assado, coisas das quais sempre nos arrependemos depois.
     Fala-se muito da desonestidade dos outros porque é bem mais fácil enxergar os defeitos alheios. Isso é bastante terrível, porém ninguém é desonesto com outros se não for consigo mesmo primeiro. O caráter das nossas ações se baseia no modo como a gente se trata e isso reflete nas outras pessoas através de atos bem previsíveis.
     A causa mais aparente está sempre na questão da ideologia do ideal.
     Existe em nós a ideia fixa do “tem que ser”. Um pensamento desenvolvido através daqueles tempos de aprendizado na infância, e que chega forte à fase adulta. Juntando-se a essa ideia do “tem que ser” vem outra mais forte, e o seu nome é “deveria”. Aí dizemos a nós mesmos, ou aos outros: “Deveria” ser de outro jeito, “deveria” pensar o contrário, “deveria” se adaptar, “deveria” aceitar as coisas como elas são. “Deveria, deveria, deveria”.
     As pessoas vivem nesse mundo de ideologia e pensamentos moralmente perfeitos e se iludem que os outros “deveriam” seguir essas regras.
      Eu, por exemplo, levei vários pitos na vida que eu, obviamente, considerei sem a menor justificativa, justamente por que os outros achavam que eu “deveria” ou “tinha que ser”.
      Tinha gente que vivia me dizendo assim: “Ah Renato, você é um ótimo contador de estórias, um cara tão inteligente... Eu aprendo muito com a sua forma de relatar a vida através dos seus posicionamentos nos textos. Mas eu acho que você “deveria” mudar um pouco seu jeito de ser”.
      Pois é... Engraçado isso. Como a vida é incoerente, não é mesmo? Temos essa mania de sempre idealizar os outros, ditando regras do que “deveriam” ser.
     Eu sou aquilo que dá para ser. E afirmo com todas as letras: Não! Eu não deveria nada. Você é que está se iludindo em pensar que o outro tem que ser o seu idealizado. Eu só posso dar os meus passos de acordo com o que sou e com os meus conhecimentos.
    Claro que fingir todo mundo finge, mas ninguém é o “deveria”. Isso é uma invenção do instinto de dominação do Ser humano, que anda lado a lado com a ideia de subjugar o outro com esse tal “tem que ser”.
   É certo que a gente tem um tipo de crescimento e aperfeiçoamento das qualidades da natureza humana, que vão surgindo com todas as experiências acumuladas. Mas ninguém pode ser o “deveria” dos outros.
   Essas mesmas pessoas ainda hoje me dizem: “Ah Renato, você “deveria” ser mais paciente e tratar a todos com o respeito que cada um merece”. Ou então: “Não adianta, não tem jeito, você não muda mesmo!”
  Olha... Respondendo a quem pensa isso de mim, eu digo: eu tenho muita paciência com certas coisas ou pessoas. Mas, com gente autoritária e pretensiosa fazendo afirmações descabidas, não dá para ter paciência. Não tenho nada que ter paciência com essas coisas. Nessa hora eu resolvo logo a questão e largo para lá e fico cá no meu canto numa boa. E vou sempre dizendo: Chega disso! Eu não ando muito a fim em ter paciência.
   Eu sei que nem todo mundo gosta de mim, assim como eu não gosto de todo mundo. Com gente que não existe afinidade não adianta insistir. Se algo não me agrada, eu não pratico e pronto!
    Pedem que eu tenha respeito. Eu não trato a todos com respeito. Respeito quem merece ser respeitado ou quem me respeita. Será que você é respeitável? Hein? Responde! Está pensando sobre isso, não é?
    Olha... Eu sei ser educado, sim! Conheço muito bem as regras de comportamento e bons costumes. Mas existem pessoas e pessoas. Tem gente que faz por onde não receber o bom tratamento ou respeito.
    É... Diga. Não seria esse o seu caso, por tudo aquilo que um dia já praticou pelas costas dos outros? Ora bolas, faça-me um favor! Caía na real, criatura!
    Imagino que muitos gostariam de dizer esse trecho acima para alguém que passou, ou que ainda está presente em suas vidas. Pois é...  Um dia descobrimos que o Ser que idealizamos é aquele que nos frustra amargamente e a gente se entristece por causa disso.
    Vou dar outro exemplo: você por acaso conhece alguém com aquela mania de perfeccionismo? Uma pessoa que se mete a colocar tudo no lugar numa ordem perfeita, e que de vez em quando aparece com o TOC exagerado daquele personagem de Jack Nicholson no filme “Melhor é impossível”?
    Por acaso essa pessoa (assim como o personagem) não pisa nas riscas da calçada e não suporta que esbarrem nela? Até o cachorro pula as riscas da calçada?
     Já sei que você conhece e dirá se defendendo: “Eu não sou como ele, mas sei que sou só um pouco perfeccionista. Admito que seja sim. Mas é só porque eu gosto de organização”.
   Ai, ai, ai, ai, ai. Você sabe que estou falando com você, não sabe? É com você sim! E não adianta largar a leitura com a desculpinha que alguém está lhe chamando no whatsapp.
   Não resolve nada torcer o nariz por causa dessas palavras que tocam lá no seu fundinho. Você sabe muito bem que tem mesmo essa mania de tudo certinho e idealizado. Olha... Pare com isso! Não me venha com essa cara, não!
   Os seus problemas são gerados por sua postura e você ainda não parou para pensar o quanto isso custa na relação com os outros. Viu o quanto lhe custou no decorrer dos anos essa arrogância e prepotência do tudo certinho? O curioso é que você se vê o contrário disso e até se acha injustiçada.
    Nunca ninguém lhe chamou de arrogante e pretensiosa como eu faço aqui? Puxa vida.... Sempre tem que aparecer um para abrir os olhos da gente, não é mesmo?
    Ah tá certo, pode me xingar que eu não ligo... Eu a chamo assim mesmo e ainda explico que a pessoa arrogante é aquela que vive na fantasia do ideal e não no mundo real.
    Uma pessoa que sabe a sua própria verdade não precisa de um juiz arrogante e perfeccionista lá dentro da cabecinha condenando qualquer ação feita ou recebida.
    Uso o meu próprio exemplo: ninguém é meu juiz porque eu não sento mais no banco dos réus. Parei com isso faz tempo. Eu acabei com esse juiz arrogante dentro da minha cabeça às duras penas. Mas você.... Ah... Você ainda está com ele ai ditando regras e jogando culpa, não apenas em você, mas também nos outros. Você persegue a si mesma com esse modo arrogante de ser; esse juiz funciona dia e noite. Ele não lhe dá paz e nem sossego, a voz dele está aí dentro, é uma voz contínua que a faz sofrer com os seus problemas e os problemas dos outros.
    Venha cá!  Aproxime-se mais. Chega mais perto. Assim. Mais um pouco. Isso! Assim ficou bom. Não saia de fininho, não. Presta atenção no que vou dizer agora.
    Veja bem uma coisa - senta direitinho e ajeita esse bundão na cadeira que agora eu vou falar com o verbo bem rasgado: se você não parar com essa postura de combater a si mesma, a vida não vai parar de lhe trazer problemas! Tá entendendo? Você está sempre sofrendo com aquilo que considera os seus problemas, como também com os problemas dos outros. Você sofre dessa doença e carrega isso todo dia. É por isso que tudo que você faz nunca é bom, nunca é suficiente. Você faz coisas maravilhosas e com muito zelo na sua casa, no seu trabalho ou em qualquer outro lugar, mas nunca está feliz e satisfeita. Por que será? Eu acho que você considera que nunca é boa o quanto poderia ser. Você não é sua amiga. Aí, por causa disso, as pessoas nunca vêem o que foi feito com tanto capricho e dedicação, ou o quanto você se empenhou naquilo. Então você reclama, esbraveja e se lamenta pelos cantos por essa falta de reconhecimento.
    Entenda uma coisa: as pessoas são o que elas são, sejam elas bonitas ou feias. Elas são reais e você ainda não aprendeu a lidar com essa realidade, porque idealiza um mundo que só existe na sua cabeça. Você vive o ideal.
    Você tem algo que chamo de síndrome de falta de adaptação à realidade; justamente por que fica aí, feito uma tonta, desenhando na sua mente o ideal das pessoas.
    Tem mais: quando você se coloca numa posição, em determinado ambiente, é gerada uma energia que gera circunstâncias contra ou a favor de si.
    Então, se você olhar para trás enxergará, em muitos pontos, o que foi feito da sua vida. Ou o que você fez a si mesma por andar o tempo todo de olhos fechados para o real.
    Parece que você nunca entendeu que as pessoas te tratam como você se trata.  Isso é uma lei, uma constante. Uma verdade que não dá para fugir.
     Você é o seu obstáculo. É a pedra no próprio caminho que atravanca tudo.
      Então, minha filha, não adianta nada aparecer por aí com todos os seus cursos e diplomas, e continuar eternamente mantendo essa cara de cocô.
    Então... O Ser humano só vive satisfeito quando está feliz. E a felicidade está sempre no real e não no ideal. Isso exige uma capacidade de olhar a vida de outro modo.
     Alguém me disse outro dia: “Ah, Renato, eu tenho seus textos guardados no meu arquivo. Você desceu o cacete em mim, me espinafrou até não querer mais. Falou um montão de coisas do meu modo de ser. Eu percebi que falava de mim e aquilo me atingiu. Fiquei tão magoada que nem quero mais nenhum contato com você seu blog!”.     
      Quanta pretensão! Acha mesmo que tudo é dirigido? Todas essas cenas podem acontecer na vida de qualquer pessoa e não apenas na sua. Isto é, se já não aconteceu com muita gente que anda batendo cabeça por aí, sem saber direito o que fazer. Acho muito legal quando esse povo se identifica imediatamente com esses relatos. Fico muito feliz em ajudar as pessoas, ou em ser um ponto de orientação a fim de dar uma pequena ajuda no equilíbrio necessário.
     Olha, vou lhe dizer uma coisa: você está muito enganada ao afirmar essas barbaridades. Eu nunca desci o cacete em ninguém. Você que é muito negativa e insatisfeita com a vida e vê tudo assim. O que tem sido dito é a verdade das minhas observações do mundo. Qual é o problema em ter a verdade revelada? A verdade se tornou o que? Na sua concepção seria um palavrão ou alguma coisa a ser escondida? Lembre-se sempre: a verdade liberta!
     Você acha mesmo que a forma de ajudar uma pessoa é viver mentindo para ela? Não! Não, mesmo!
      Se eu tiver que repetir mil vezes que você é arrogante e pretensiosa, que não se aceita por que é uma criatura esnobe, eu repetirei sim!
      Essa insistência é para que tenha positividade e vá para frente, que deslanche na vida pelos caminhos certos.  
      Você está tão presa dentro de si que é incapaz de perceber que existem pessoas nesse mundão de Deus lutando por você. Você nunca percebeu isso?
     Quando eu uso essas palavras, vou fundo e faço o que faço, é por que estou lutando por algo que nem você luta. Você nunca reparou que está presa aí dentro desse ideal que você mesma criou? Esse mundo de fantasia. Como é que você pensa que irá fazer diferença na vida deste jeito?
     Eu sei muito bem que não é da minha conta, mas eu dou as dicas porque tenho inteligência e senso de observação de algumas situações que já vi.
     Esse senso de observação me levou a entender que, além de você ter se tornado o seu próprio juiz, também se tornou o juiz dos outros.
Você escolheu essa faixa para viver. E vai ter que enfrentar a dor até aprender as coisas.
     Por isso tento transmitir boas palavras aqui, mas não sinto pena de você e nem de ninguém. A vida ensina a todo mundo. A lei do homem tem jeito de manobrar e escapar com vários argumentos, mas a lei da vida é irremediável.
    Que cada um tome a própria lição. O lema diz: “Quem não aprende pelo amor, aprende pela dor” e isso é mais velho que andar para frente.
    Então, voltando a Bertold Brecht, existem duas opções de escolha. Uma diz que aquele que está atrapalhando uma caminhada deve ser largado para trás ou deve ser jogado no abismo; a segunda: a regra de moral ou bom-senso nos ensina que, quando as coisas não dão muito certas, se deve retornar ao ponto de partida buscando novas alternativas práticas com condutas inteligentes para alcançar o objetivo.
    A escolha está a seu dispor. Escolha o seu caminho e seja feliz, pois, o mais importante de tudo é aprender e andar de acordo! 

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Uma Viagem Romântica 1

    Foi numa quinta-feira, no inverno, fim de tarde de um dia de trabalho estressante, estava eu, confortavelmente sentado em minha poltron...