quarta-feira, 29 de abril de 2026

Equívocos Acontecem...

               Na tez pesada, com ar determinado e cruel, olhos negros, frios, redondos e fixos.
        Ergo-me do tombo e depois, como se tivesse me decidido pelo silêncio, viro a cabeça e vou. 
        Sigo através da rua escura, sinto sonolência e admiro cada ponta de estrela no céu.
        No pequeno pensamento reconheço bem, e naturalmente, o que foi secretamente agradável, e  quase me convenço que estou livre de todas as culpas.
        Uma voz interior explica as razões. Mas ainda não me soa convincente.
        Então do nada a voz diz: “Você é um imbecil!”
        Toda a vida reluz, todo o sentido da emoção revive, lateja e pesa sobre os ombros que arquejam e eu choro.
      
        Sou como todos aqueles que têm sofrimentos e misérias privadas nas escolhas erradas e vivem num mundo sem esperança carregando a culpa.
        É nessa hora que todos os acontecimentos ressurgem e são enfiados goela abaixo do ego ferido, num baque na vaidade.

        Apenas mais um passeio pelas mesmas ruas noite após noite até a desesperança tomar conta da mente insana...
       
        De vez em quando, com sombria satisfação, eu penso em outro modo de vida.
        Imagino se faria alguma diferença agir de outro jeito.
        O ciclo chegou ao fim em algum lugar que não sei exatamente onde.
        Esse fim que me fez desacreditar em toda a obrigação com amores, ódios, preconceitos, armações e rebeldia. 
        Aprendi a ser só, único, ego próprio, com a esperança do entusiasmo renascer para viver todo o tempo que ainda tenho - o que poderia  trazer ideias brilhantes com sugestões exequíveis, sem os antigos espasmos, reflexos, retrações e dúvidas cruéis que me sufocaram a cada suspiro.
        Não pareço nada além de um ser humano comum e cansado, um ser vivente e pensante. Uma falha da natureza em seu mais lindo esplendor de perfeição, como o  princípio de todas as coisas incompreensíveis que usando da sagaz visão impõe a si a condescendência.

        Quem tem uma ideia,pondo-a em prática, rege a perfeição.
        Ouvi a pergunta: “Você já fez isto antes?” 
        Quanto mais faço, mais desdenhoso me torno.

        Quantas observações imprecisas no decorrer da vida tornaram evidente essa minha filosofia particular?

        Pura ingenuidade pensar que estive certo...
        O diabo agora sorri para mim com seu hálito quente e olhar hipnótico.
        Sigo pela rua escura, caminho caótico e me guio pela ponta da última estrela que cruza o céu.
        Fico tão impaciente com tantas teorias para explorar ao desabafar toda esta porcaria que tenho dentro do peito.
        Serei eu meu único e melhor ouvinte?
        Se assim for fico sem sentimento de culpa ou constrangimento, exercitarei livremente a mais pura sensação de limpeza da alma, do espírito, do corpo e da aura iluminada.
        É mais uma tentativa do que ainda não compreendo na essência.
        Sei que há algo putrefato na retina cega da incompreensão nesse medo da solidão profunda que chega através do monólogo e na repetição cada vez mais frequente da mesma emoção que persiste indefinidamente.
        Seria uma junção da minha futilidade com minha insegurança ou uma paixão estropiada e mal explicada na justa razão dessa ação?
        Amoldando a atitude e renovando as esperanças, todas as coisas ficarão quentes e confortáveis novamente nesse coração.
         Eu tenho que acreditar que realmente preciso disto, desse jeito, dessa forma especial.
         O meu presente é algo que devo receber com graciosidade e gratidão.
         Quanto maior importância eu der a tudo que passou, menos usufruirei do que vier.
         O que me mata é às vezes não saber me expressar com exatidão. Uma exatidão firme, devoradora e explícita.
         Talvez eu não me importe tanto com o que aconteça de agora em diante - seja a tristeza, a perversidade ou a indiferença. Acho que nem fracasso me impressiona mais.
          Gostaria tanto de juntar coragem, ter a força e a decisão que demonstro com todas as minhas fraquezas ao expor minhas entranhas e meus pensamentos nas reações incoerentes.
          Mas uma maldita coisa me corrói por dentro e dói no pensamento ao querer o diferente. O diferente de tudo que já passou...
           Essa minha inaptidão me revolta e minha falta de senso me condena a cada palavra, fazendo de mim mais um divagante perdido no lodo da vida...
            Mas acima de tudo sei que equívocos acontecem e sigo adiante assim mesmo...

terça-feira, 28 de abril de 2026

Pequena Prosa Filosófica Em Tempos Difíceis

   
Finalmente!!!! O ciclo está se completando e tudo ficando às claras. 
    O que era extremamente previsível para alguns segue por direções opostas. 
   Aqui e agora, por um lado, representa todo o sofrimento e por outro a glória de se manter vivo. É o grande processo do encontro de um sonho de uma vida melhor com o choque de realidade - a vida de cada um retratada em uma notícia nova com discurso antigo no jornal. Ou em uma frase perdida que lateja na mente dos inconformados.
         Todos os anseios, necessidades, impotência, desilusões e desejos estão representados nessa trama nada fictícia. Dela poderia surgir a divina fonte de sabedoria em busca de reconhecimento através de sacrifícios e da força do pensamento daquilo que é justo. 
       Das profundezas escuras da mente chega toda a riqueza de detalhes desses anseios. E por mais que haja uma inaptidão ao encarar a cruel realidade, essa de carne e osso em que vivemos dia após dia, sempre irá prevalecer o lindo mistério em busca de um mundo diferente. Um mundo de terra firme onde todo o encanto se refaz, em vez de ser sequestrado e torturado até definhar pouco a pouco. Talvez não seja fácil relembrar momentos bons do passado ou fazer as pazes com esse presente machucado. No entanto a grandeza do desafio parece a melhor hipótese para seguir com pensamento positivo. Isso  por saber que todo aquele que busca uma causa justa, a qual se devota ou se sacrifica literalmente, recebe a recompensa em vida ou reconhecimento depois dela. É isso que cria o êxtase do qual os covardes nunca participam. Pois a tendência a se integrar consumando o ciclo dessa virtude é para poucos. Pois tudo que nasce morre e tudo que se cria acaba, mas alguns não percebem essa seqüência natural exige nobreza de espírito. 
     Ao ligar todos esses elos; vemos com surpresa todas evidências que demonstram que o nosso pensamento pertence ao cosmos e derivam pela atmosfera agindo em uma sutil comunhão, quando grande parte da população que se sente afetada por injustiças pensa igual. Os mais profundos sentimentos mudam todo o tempo através dessa “simbiose” entre a imaginação do que seria certo e o desejo do que é objetivo na realidade. Vemos nisso um elemento fortemente teatral que desafia a mente e rege o espírito quando nos defrontamos com opiniões muito parecidas com as nossas, mas que não tem um elo que leve até uma ação em conjunto de fato. No entanto o bicho-de-sete-cabeças pode ser muito simples de lidar saindo da inércia. 
      Mais cedo ou mais tarde cada um terá que pagar por violações, sejam à natureza, ao outro ser humano como sendo um igual,  aos animais indefesos e, acima de tudo, aos aprisionados e torturados que pensam diferente. 
     Pois é... o ritmo da vida atual anda contra cada um de nós e a favor de quem têm o poder de determinar leis e mudanças. Por essa vida e pela luta contra quem as determina é que nos submetemos. Gritamos fortemente os desejos que alimentamos nesse incrível mundo invisível dos mandos e desmandos de quem recebeu a confiança de milhões para tal. Sobrevivemos através do esforço que cada um de nós demonstra e dos segredos que cada um deles esconde. Talvez seja isso  o que nos torna inteiros, levando nosso olhar além da escuridão que nos encobre pouco a pouco. Assim estamos e permanecemos no lugar mais difícil para ficar: a inércia. 
      Talvez, o estado de coisas atual, seja uma descoberta improvável para muitos que tinham fé. Pois cada um é fiel ao propósito de apenas pertencer a si mesmo e fazer por si, achando que desse modo faz o melhor pelos outros. Alguns, inclusive, conseguem renunciar a tudo que não seja sua própria autenticidade, sem qualquer constrangimento ao prejuízo alheio.
     E de outro modo, milhões que um dia acreditaram e mantiveram a fé em busca de algo melhor, sonharam com dias melhores - com toda a sinceridade de quem vive, sofre e compartilha dificuldades, e acredita - como se apenas sonhar fizesse surgir do nada um salvador no lugar de um tirano. 
       Essa é a história do povo brasileiro e seus mandatários. O povo que vive acreditando em seus sonhos de tempos melhores. Uma jornada que sempre foi de fé, luta, sentimentos contraditórios e conquistas. Com momentos do passado que fizeram parte da construção da liberdade que atualmente está em risco.
     Talvez em meio a essa prosa filosófica em tempos difíceis apareça um momento de lucidez em alguém, ou em toda a nação, para mudar o estado de inércia desse povo.


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quarta-feira, 22 de abril de 2026

LIÇÕES

    
     Cito, logo de início, a frase de Bertolt Brecht da peça teatral “Aquele que diz sim”: “O importante de tudo é aprender e estar de acordo”. Creio que esta citação ilustra bem o tema a seguir.
   Vamos lá então...
   Vejo que todo mundo quer acertar e ir em frente; e assim conhecer alguma outra nuance da vida ou seus mistérios. Não é mesmo?
   Porém, nem sempre dizer sim significa estar plenamente de acordo com determinadas situações, ainda mais quando existe o conflito moral atrelado aos costumes, isso desde quando nos conhecemos por gente. E nesse caso a moral está praticamente fadada a falhar, quando se entra num conflito em busca da melhor solução ou quando nos sentimos inseguros.
   Dentro dessa coisa de tentar acertar, quebrando paradigmas impostos, é preciso entender motivações para saber onde está a causa dos problemas que tornam mais difícil uma decisão.
   Às vezes o palpite, ou a opinião de alguém em forma de crítica, pode ajudar nessa parte. E tudo depende muito de como se escuta a mensagem passada.
   Por mais que uma crítica tenha o sentido da maldade, muitas vezes ela está detectando uma coisa significativa que não percebemos em nós.
   “Imágina, eu não sou assim!”
    Sabe por que isso acontece?
    Porque quase sempre não temos noção de como é a gente com a gente mesmo, ou como funcionamos e nos posicionamos diante de circunstâncias delicadas. A gente acha que sabe tudo, mas, no fundo, temos uma visão errada em como as pessoas nos vêem verdadeiramente – vivemos durante anos num modelo de ilusão para o conforto do próprio ego.
   Quando se está envolvido de verdade consigo mesmo, tentando acertar primeiro lá dentro e depois com o mundo, acaba-se vivendo num observar-se e compreender-se bem melhor - não desmoronamos diante de qualquer manifestação de crítica; e apenas pensamos naquele feito como um aprendizado.
    O ponto de vista muda quando a honestidade com a gente mesmo prevalece - apesar de ser uma coisa muito difícil de ser praticada.
     Por isso que no decorrer da vida tem-se sempre a tendência a ser cruel com a gente mesmo, com uma série de auto-sabotagens. Aprendemos a desenvolver culpas e castigos como autopunição, por ter feito algo assim ou assado, coisas das quais sempre nos arrependemos depois.
     Fala-se dos outros porque é bem mais fácil enxergar os defeitos alheios. Isso é bastante terrível, porém ninguém é desonesto com outros se não for consigo mesmo primeiro. O caráter das nossas ações se baseia no modo como a gente se trata e isso reflete nas outras pessoas através de atos bem previsíveis.
     A causa mais aparente está sempre na questão da ideologia do ideal.
     Existe em nós a ideia fixa do “tem que ser”. Um pensamento desenvolvido através daqueles tempos de aprendizado na infância, e que chega forte à fase adulta. Juntando-se a essa ideia do “tem que ser” vem outra mais forte, e o seu nome é “deveria”. Aí dizemos a nós mesmos, ou aos outros: “Deveria” ser de outro jeito, “deveria” pensar o contrário, “deveria” se adaptar, “deveria” aceitar as coisas como elas são. “Deveria, deveria, deveria”.
     As pessoas vivem nesse mundo de ideologia e pensamentos moralmente perfeitos e se iludem que os outros “deveriam” seguir essas regras.
      Pois é... Engraçado isso. Como a vida é incoerente, não é mesmo? Temos essa mania de sempre idealizar os outros, ditando regras do que “deveriam” ser.
     Eu sou aquilo que dá para ser. E afirmo com todas as letras: Não! Eu não deveria nada. Você é que está se iludindo em pensar que o outro tem que ser o seu idealizado. Eu só posso dar os meus passos de acordo com o que sou e com os meus conhecimentos.
    Claro que fingir todo mundo finge, brincar todo mundo brinca,  mas ninguém é o “deveria”. Isso é uma invenção do instinto de dominação do Ser humano, que anda lado a lado com a ideia de subjugar o outro com esse tal “tem que ser”.
   É certo que a gente tem um tipo de crescimento e aperfeiçoamento das qualidades da natureza humana, que vão surgindo com todas as experiências acumuladas. Mas ninguém pode ser o “deveria” dos outros.
    Existem pessoas e pessoas. Tem gente que faz por onde não receber o bom tratamento ou respeito.
      Um dia descobrimos que o Ser que idealizamos é aquele que nos frustra amargamente e a gente se entristece por causa disso.
    Uma pessoa que reconhece a sua própria verdade não precisa de um juiz arrogante e perfeccionista lá dentro da cabecinha condenando qualquer ação feita ou recebida.
    Então... O Ser humano só vive satisfeito quando está feliz. E a felicidade está sempre no real e não no ideal. Isso exige uma capacidade de olhar a vida de outro modo.
     A vida ensina a todo mundo. A lei do homem tem jeito de manobrar e escapar com vários argumentos, mas a lei da vida é irremediável.
    Que cada um tome a própria lição. O lema diz: “Quem não aprende pelo amor, aprende pela dor” e isso é mais velho que andar para frente.
    Então, voltando a Bertold Brecht, existem duas opções de escolha. Uma diz que aquele que está atrapalhando uma caminhada deve ser largado para trás ou jogado no abismo; a segunda: a regra de moral ou bom-senso nos ensina que, quando as coisas não dão certo, a solução é retornar ao ponto de partida em busca de  novas alternativas.
    A escolha está ao dispor. Escolha o seu caminho e seja feliz, pois, o mais importante de tudo é aprender e estar de acordo com o bom senso de cada momento ou situação!

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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Aconteceu em Vinhedo

      Você se lembra dos beijos e carinhos que trocamos lá no parque da uva em Vinhedo? Você se lembra da caminhada pela trilha em meio aos arbustos e os patinhos deslizando no lago cinzento? Você se lembra que guardou as fotos que tiramos de rostinhos colados pouco depois do pôr do sol no céu avermelhado? Você se lembra do chafariz e da bica de água cristalina?Eu acredito que a nossa energia em cada toque, em cada olhar e em cada expressão permaneceu naquele lugar para sempre. Por isso cá estou novamente tentando exprimir alguns sentimentos para cair na real depois da tempestade. E se acaso durante essa explicação eu tiver a necessidade de deixar de ser nostálgico e passar a ser duro com as palavras, espero sinceramente que não se sinta ofendida. Pois, posso dizer que, acima de qualquer outra coisa, a lembrança de tudo ainda está muito presente. No entanto, a necessidade interior de expor tudo assim, deve ser atendida da mesma forma quando a gente sente vontade de dizer um palavrão depois de uma martelada no dedo. E, imagino, cá com meus botões, que, a partir daqui, todas as ponderações parecerão por demais supérfluas para serem entendidas por você ou quem quer que seja. 
      Fiquei imaginando o quanto seria importante conversar com você sobre isso, apesar que reconheço, como sempre foi, que nada de útil você consiga enxergar em minhas palavras. Muito menos algo que modifique seu gênio indomável - esse mesmo gênio que nos levou a longos silêncios, que agora vejo o quanto foi difícil superar. Mas, por favor, apenas entenda, sei que você também gosta de refletir sobre tudo o que tem dificuldade para lidar ou entender, e procura enxergar o outro lado das coisas. Olhando lá atrás, aqueles momentos complicados  não lhe parecem um deja-vu? Depois de pensar e repensar chegou a mudar sua opinião? Um  cantinho mais profundo do seu ser não se alterou enquanto estava triste? Poxa vida.... Vê agora no que eu me tornei, ou como são cruéis as rusgas que levamos adiante para tentar abafar o sentimento interior que nos traz uma contradição permanente? Isso parece uma doença que confunde a nossa alma e os desejos mais primitivos. Ou, então,faz uma confusão em tudo que julgamos correto, trazendo uma sensação que não podemos entender e nos faz perder o melhor dessa vida aos poucos, quase que imperceptivelmente. Ahhh, se fosse possível enxergar além dos curtos limites dos velhos preconceitos do passado, talvez um novo saber indicasse o caminho certo vindo dos pressentimentos e,  com isso, haveria mais confiança para suportar as tristezas. Do nada, algo novo poderia surgir, algo que fosse completamente desconhecido a você ou a mim: onde os sentimentos que se calaram antes, por uma desastrosa interpretação de sinais, fizessem tudo ao redor recuar e um enorme silêncio reinasse por dentro. Aí sim, viria a consciência que as tristezas do passado foram momentos de aprendizado. Às vezes dolorido e às vezes de superação, mas apenas aprendizado, ainda que tivessem sido um desastre causador de paralisia. Mesmo assim foi possível sair sem se machucar demais. O meu mais sincero desejo é que a dor não estivesse mais lá para ambos - que já tivesse sido diluída nas memórias daquele tempo que se foi. A certeza é que é difícil saber o que exatamente  houve de verdadeiro naquelas motivações de conflito. Facilmente alguém poderia crer que nada demais aconteceu, no entanto, existem cicatrizes que mostram a cada dia tudo que foi transformado e o que ficou estranho dentro de cada um.. Muitas vezes a visão do que tem adiante chega devagar e assim novamente tudo se sucede como um grande acontecimento que renova a empolgação que estava esquecida num canto. Quanto mais se puder olhar com um viés de neutralidade e paciência, mais profunda será a conquista pelo destino tão desejado anteriormente. E quando ele vier, se vier, – isto é, quando a porta se abrir para chegar aos outros – com toda certeza estará tão próximo e familiar que nem haverá conta do quanto demorou a chegar. Eu acredito nisso. É preciso – é uma evolução que aos poucos desenvolve o sentido lógico de toda uma vida, são as sensações de recompensa esperadas há muito tempo. Você poderá reconhecer com isso que a vida certa ou errada está em  nós, nas atitudes que praticamos. Muitas pessoas não percebem que agir assim é algo simples, e continuam no mesmo passo. Porém, ao darem de cara com algo estranho e confuso recuam diante da novidade. Por isso os movimentos enganam quando não se observa uma solução tão próxima que não chega sem uma ação efetiva e definida. Podemos nos enganar o tempo todo quando o melhor seria admitir que fomos deixados sós, e que todos os pontos que considerávamos apoios foram retirados e as escolhas se tornaram únicas. E a partir de então ficamos entregues ao insólito como se estivéssemos sendo arrastados pelos ares e caindo como uma pedra despedaçada. É claro que nesse momento a cabecinha criativa inventa uma mentira enorme para acalentar o estado dos sentidos, fazendo com que todas as medidas, distâncias e transformações se alterem na conveniência daquele que se torna solitário, com a esperança de que tudo irá logo mudar. Para isso é preciso força. No fundo, mas bem lá no fundinho mesmo, a única força que se dispõe é a de aceitar a existência, e que tudo é possível dentro dela, para o resto tudo vira insegurança. Essa ação é exigida em determinados momentos, porque não é só a falta de interesse que faz a relação interpessoal se repetir numa infindável monotonia, em muitos casos é o medo do novo, do cansaço e, diante disso, ao não nos sentirmos bastante fortes recuamos. Somente quem se sente preparado, quem não exclui nada com antecipação, poderá viver uma relação com alguém como algo empolgante e vivo; indo até o fundo da existência que une a ambos ao mesmo interesse.  
        Pense alto, pense que mais que os erros que condena em você e nos outros, e aparecem num ciclo contínuo na esteira da vida que leva, grande parte da culpa de tudo é dessa criação submetida à vontade alheia, que pode tornar a qualquer um uma pessoa meio ausente das conexões reais do tempo e da vida e ainda acorrentam a costumes cheios de regrinhas. Sabe de uma coisa? Muitas vezes, um fato desagradável provocado por alguém que consideramos imprestável, fez parte por algum tempo do destino que era o sonhado, mas se tornou indesejável. Foi uma necessidade que não se podia evitar. Esse momento acabou acolhido pela vida como um aprendizado dolorido, no entanto, essa vida não se tornou limitada pelos nomes dados a essas atitudes e sim à pessoa por seu caráter destrutivo. Mas logo em seguida a esse pensamento é possível retornar ao ponto inicial da própria consciência e assumir que as escolhas feitas foram livremente e com as opções de risco calculado. Se considera que sua vida está repleta de tristeza, sacrifício e falta de reconhecimento por causa disso, eu posso dizer o mesmo da minha. Ou até que ambos erraram. Mas se fosse diferente, jamais poderia ter encontrado palavras certas para exprimir os sentimentos contraditórios pelos quais passamos ou como ainda permanecem bem vivos na minha imaginação desde a passagem por Vinhedo.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Aconteceu em São Pedro

   

     Acho que foi num shopping Center no centro de São Paulo que nos conhecemos. Eu pedi um café expresso, ela um capuchino – ou talvez ninguém tenha pedido nada e ficamos apenas conversando. De qualquer forma prefiro dizer que pedimos cafés e escolhemos uma mesa perto da janela. Logo fomos servidos e trocamos algumas palavras sorrindo – aquele tipo de sorriso misturado com insegurança e timidez.
    Na verdade, talvez, nós poderíamos ter nos conhecido numa fila de banco - na qual a espera e a falta de paciência levam muitas pessoas a conversar. Ou em alguma dessas festas estranhas na serra da Cantareira pertinho da casa dela. Ou, ainda, quem sabe, lugares semelhantes, onde servem porções de fritas e contra filé em fatias - um tipo de ambiente com meia luz, próprio para namorados. Pensando melhor... Talvez fosse legal num bar escuro e enfumaçado onde tocasse jazz com saxofone ou heavy metal com guitarras estridentes. É... Talvez... Poderia ser em qualquer local onde iríamos curtir juntos pela primeira vez “November Rain do Guns & Roses”, e essa canção se tornaria a nossa trilha sonora predileta – (Poxa vida, nem gosto tanto do Guns, mas pode ser essa mesmo! Fazer o quê?).
     Não importa. A verdade é que não me lembro direito como aconteceu, porque agora parece nao ter tanta importância.
     O que me lembro é que nunca viajamos em férias para Argentina ou Chile e nem passamos o final de ano num Cruzeiro pelo litoral brasileiro. Não tiramos fotos um do outro, - foram pouquíssimas juntos - e muito menos escrevemos declarações num tronco de árvore, tipo, “Eu te amo”.
     Eu acabei odiado pela família dela e ela nem conheceu o meu cachorro, que, tenho certeza, faria festa toda vez que ela me visitasse, por que, afinal, ela gosta de cachorro e leva o dela para passear pela vizinhança numa rua de ladeira - a cadela usando uma linda tiarinha na cabeça e roupinha de cachorro sob medida feita pela mãe dela.
     Nunca assistimos os clássicos de Hollywood; apenas aqueles desenhos e filmes antigos que dão sono depois de meia hora. Por isso nunca paramos para discutir sobre o teor de qualquer daqueles filmes chatos. Justamente por não haver o que discutir de tão ruim que eram e, por outro, porque ela não parava de falar de como é maçante ouvir sempre a mesma ladainha em casa.
     Ela fez uma única vez fondue de queijo com pão italiano, foi lá no Guarujá e, eu, nem sabia escolher o vinho que combinasse com aquilo, – sempre fui totalmente ignorante no conhecimento de vinhos – mas, para minha salvação, ela trouxe a garrafa certa para a ocasião.
Nunca passamos a noite entrelaçados e aconchegados – dormíamos um virado de costas para outro, quase caindo da cama. Nem observávamos um ao outro enquanto dormíamos para sentir se aquilo poderia proporcionar algum prazer ou admiração furtuíta. Acho que poderíamos ter dormido de conchinha ao menos uma vez. (Que coisa mais insensível não ter sido assim, não é mesmo?).
     Talvez a relação não tenha sido como deveria, pois, com o passar do tempo, não permitimos, por nossos bloqueios e preconceitos, que isso acontecesse. Não nos envolvemos o suficiente e, lá no fundo, acreditávamos que não éramos as “pessoas certas” um para o outro. Nem sequer nos conhecemos direito, pois escolhemos o pragmatismo para não perder tempo com quem pudesse ser indiferente ou excessivamente apegado.
     Em alguns momentos preferimos a simples troca de ofensas ao invés da troca de carinho. Foram muitas e muitas noites com cara emburrada e mal dormidas quando deveriam ter sido de amor, sexo e melhor vividas.
     A despedida aconteceu fora de tempo para ambos. Havia à espera uma nova vida totalmente independente. Nem pensamos que poderíamos ter aproveitado mais um final de semana, mais um mês, mais um ano...
     Deixamos tudo passar, esquecemos se algo foi bom...
    Agora nos mantemos distantes e solitários imaginando encontrar alguém com quem ouvir “November Rain” - (Não poderia ser outra música? Acho essa muito comprida e dramática.)Ou, quem sabe, passar alguns dias na cordilheira dos Andes e, depois de pisar nas águas geladas do oceano Pacifico, voltar para casa com um enorme sorriso no rosto e muita história para contar.
     Ela nunca percebeu que já tinha encontrado esse alguém e a oportunidade passou. Mas, de uma coisa eu me lembro bem, de um lance marcante que aconteceu em São Pedro. Foi numa manhã de sábado no começo de Julho. Lá íamos nós passeando devagarinho de mãos dadas enquanto admiramos as árvores da praça principal, logo entramos numa sorveteria por quilo chamada Oasis, pertinho da Igreja Matriz. Eu escolhi bolas de sorvete sabor pistache e morango, e ela foi de creme e chocolate. Atravessamos a rua e nos sentamos em um dos bancos antigos de madeira, que era bem desconfortável, com ripas brancas (já com a tinta descascando). Olhamos um para o outro, trocamos e destrocamos os potinhos algumas vezes e, sem trocar uma só palavra, nos comunicamos através de olhares e gestos que determinaram cada atitude. Talvez tenha aparecido uma ou outra frase solta meio assim: “Eu dizia: adorei esse de pistache! E ela retrucava: não gosto muito de pistache”). Mas de resto era o silêncio e apenas aquele olhar. Não houve reclamações, nem reprimendas, tampouco exaltação; nada com duplo sentido ou má interpretação. Era apenas o sorvete nos unindo de uma forma que até então nos era desconhecida. 
     A derradeira cumplicidade aconteceu num raro instante: um beijo gelado, tipo selinho, bem descontraído e sem pretensão. Agora eu percebo que o começo do fim aconteceu em São Pedro, logo após aquele último selinho embalado por um gole de sorvete. Quando o sonho de ambos se foi para sempre.
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quinta-feira, 26 de março de 2026

Coração Puro

     Menina do meu sonho, nós um dia nos encontraremos para outro passeio, com o pensamento luminoso e o coração puro. Nós passamos poucos meses juntos, mas eu amei tudo aquilo. Minha vida parecia um furacão com tantas idas e vindas, e você sabe que eu não tinha paz.
     Quando nos vimos pela última vez, você sequer imaginou como as coisas terminariam. E ficamos longe, você fugiu.
      Hoje, olhando você assim tão bonita e vestida nesses trajes diferentes, aliás, nada parecidos com os daquela época, lembrei-me de muitas coisas.
      Sabe a sua timidez? Ela ainda persiste e acho que você a herdou de alguém para a vida toda. Apesar disso, você está muito melhor agora, e poucos veem isso, por que você se refugiava em seus dramas.
      Quanto a mim, você sabe: para muitos eu sempre fui ácido e sarcástico, mas era tudo defesa. No fundo das minhas polêmicas e reivindicações sempre esteve um cara assustado e insatisfeito com a vida. E, diga-se de passagem, eu me intoxiquei de muitas coisas, principalmente das minhas razões e certezas absolutas. E se hoje eu sei disso, entendo com clareza que era tudo para fugir de mim mesmo. A minha vida era como flashes luminosos que necessitavam de admiração.
       Você sabe que em nossos momentos bons eu fui criativo, já nos maus, eu era destrutivo.
       Tenho total consciência que ainda hoje você vem vivendo sob o peso da minha sombra, mesmo depois de todos esses anos de incerteza. Eu entendo que você não merece isso, por que agora é uma pessoa melhor do que eu. Alegro-me em imaginar a sua vida bela completamente refeita, e sei que não partirá tão cedo da terra.
     Quero que saiba que não tenho raiva de nada.
     Quando a minha ilusão foi derrubada, o meu corpo sentiu e meu coração se partiu em pedaços, mas isso não me matou e nem matou a minha inspiração.
     Ahh. Eu ainda recebo tantas coisas boas daqueles que se compadeceram comigo. E essa energia me faz cada vez mais transformar as minhas palavras em sensações reconfortantes, talvez por isso a criatividade nunca acabe.
     Se agora eu pudesse, seguraria a sua mão como antes, e caminharíamos abraçados, admirando com empolgação o céu de estrelas. A vida pode não nos permitir isso nesse momento, mas as palavras me levam ao infinito e me fazem sonhar essas coisas.
      Eu sei que compreenderá bem o que há aqui, por que você tem bom coração. Tenho certeza que na ocasião certa falaremos sobre tudo isso, talvez seja durante o sono do seu corpo ou via energia cósmica ou telepática.
      Um dia, num lugar especial, nos reencontraremos para uma reconciliação espiritual, pode esperar. Nessa ocasião eu abraçarei você e farei vários versos em sua homenagem.
      A novidade do momento é que você está tão bem vestida naquelas fotos do quintal. Continua a mesma pessoa tímida e com o olhar para o vazio, permanece em busca das coisas que nunca encontrou explicações - em busca de si mesma.
    Eu olho para as fotos e a vejo novamente como a menina do meu sonho. Uma menina do sonho que se tornou uma pessoa do bem, uma pessoa melhor do que eu. Creio que isso vale para a sua vida bem mais que a fama, o sucesso ou o reconhecimento que espera por seus esforços. Você sabe que no fundo tudo isso é ilusão.
    Menina, nós andaremos de mãos dadas novamente como antes, e isso será maravilhoso. Você me sentirá com o seu coração e não mais com a cabeça, e então você verá a luz. Mesmo que permaneça de olhos fechados você saberá que sou eu, como se fosse um raio rasgando a noite para guiar os seus passos. Por que, um dia, eu aprendi como fazer a palavra virar luz. É como se fosse um presente para você.
    Menina do meu sonho não pense em mim no passado, pois eu estou no seu presente e torço por sua vida refeita e iluminada. Amo você mais do que nunca, e a sua imagem estará para sempre guardada em meu coração, bem juntinho daquela nossa canção especial.
    Desejo que aquela trilha de estrelas que sempre salpicou de luz o nosso caminho na escuridão, agora guie o seu. E jamais se esqueça que para voltarmos a passear juntos, basta que o pensamento seja luminoso e o coração puro.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Bruxas Existem!

   

 Quem visse de perto aquela mulher, com os seus
 anos de estrada, dificilmente imaginaria que em outras épocas, - tempo de menos esclarecimento popular – ela teria sido queimada viva numa enorme fogueira em praça pública.
  Uma vez, há muito tempo, ela me disse: “Sou bruxa mesmo, mas e daí?” Garantia em tom jocoso os seus atributos pouco ortodoxos de sentir energias e receber algo parecido com premonições. No mesmo instante me lembrei daquelas bruxas que me faziam morrer de medo nos filmes de televisão, - ainda em preto e branco - isso já por volta dos meus sete ou oito anos de idade. Eram as bruxas pretensamente do mal, vestidas com roupas pretas, mais o chapéu pontiagudo e com uma ou duas verrugas no nariz comprido. Elas afirmavam aos quatro ventos que adoravam sexta-feira 13, especialmente em agosto, e a data 31 de outubro. Nunca esqueço aquela risada horrorosa e estridente que assustava os bichos da floresta (cruz credo!). Sempre no final de tarde tinha aquela bruxinha do bem que eu gostava de assistir, - por que achava muito engraçada e bonitinha - a Samantha, daquele seriado "A feiticeira". Lembram? Bom... De qualquer forma, naquele tempo ou hoje em dia, tudo parece historinha para criança. Acontece que depois cresci e aprendi a observar melhor as pessoas e acabei descobrindo que existem bruxas de verdade. Descobri que elas estão por aí em qualquer canto ou esquina da nossa vida. São muito mais numerosas do que qualquer ser normal poderia imaginar. Elas se parecem com qualquer um de nós e não voam em vassouras. Muito pelo contrário, elas viajam em carros, motocicletas ou barcos, lotam ônibus, metrô e até fazem uma longa caminhada no parque pela manhã. Podem ter curso universitário com várias especializações ou trabalham diariamente em escritórios, galerias de arte ou ateliês. Escrevem livros ou deixam suas opiniões em blogs. Fazem conferências e dão aulas de massoterapia ou se misturam como mestres e aprendizes nos cursos de artesanato e nutrição. Administram grandes ou pequenos negócios e, depois da jornada de trabalho, vão ao terapeuta holístico – onde desenvolvem técnicas de trabalhos naturais em busca do auto-equilíbrio corpóreo / psico / social. Trabalham a correção e a harmonização de seus próprios recursos físicos, emocionais e energéticos com o objetivo de transformar tudo em autoconhecimento.
    A grande diferença entre elas e os mortais comuns (nós) é que as bruxas têm hábitos um tanto esquisitos. Algumas até remexem caldeirões e fazem poções mágicas às escondidas - no melhor estilo de qualquer filme do Harry Potter. Conhecem a cabala e vivem murmurando palavras estranhas em noite de lua negra. São até capazes de inventar feitiços que curam os amados ou que amaldiçoam os desafetos. Usam palavras que transformam qualquer pequeno objeto num grande amuleto que atrai amor e dinheiro (putz... estou precisando de um desses!). Estes são os tipos de algumas bruxas que já conheci de pertinho. Eu disse de pertinho? Sim! Bem de pertinho mesmo! E garanto uma coisa: para os dois lados dessa vida - do bem e do mal.
   Essas pessoas demonstravam a sensibilidade desenvolvida, com o dom que os leigos chamam de “sexto sentido”. Foi assim que depois de muita pesquisa descobri que tive uma geração de bruxas em família.
    Minha mãe contava que durante a época da caça às bruxas, os objetos tradicionais usados pelas feiticeiras, como o bastão de pitonisa e as varetas mágicas, foram banidos para não despertar suspeitas - os quais foram substituídos por instrumentos de cozinha usados no cotidiano que não despertariam o olhar curioso, como, por exemplo, a colher de pau. Era apenas mais uma estória que a mãe contava para o filho pequeno, mesmo assim entendi por que bruxas adotam grandes colheres de pau para mexer no caldeirão. Ela, (a minha mãe) descendente de italianos misturados com um povo cigano que não sei falar o nome, aprendeu a feitiçaria com os requintes das mitologias grega e celta. Por uma dessas coincidências do destino, ela acabou sendo a caçula da dinastia das bruxas e não passou o “bastão” adiante por que não teve filhas e nem sobrinhas. Mas no fundo o seu desejo era ter 7 filhas. Ela me contou que logo aos 5 anos já era uma bruxinha muito malvada e sabia de cor as palavras para enfeitiçar. Foi crescendo e aprendeu entrar em sintonia com a natureza e seus elementos, – terra, fogo, ar e água – rapidamente conseguia transformar os frutos da terra em seus aliados – conversava dia e noite com as plantas e acariciava árvores. Aos 10 anos já sabia fazer um tipo de elixir contra inveja e dor de cabeça. Que maravilha! Uma bela surpresa com grande orgulho para a bruxa velha e caolha que só falava italiano; a minha avó. Ela ainda deu detalhes que na sua infância, dos 5 aos 10 anos, ouvia vozes estranhas, ruídos inexplicáveis pela casa e tinha visões de sombras passando pela parede. Foi assim que começou a se interessar pela bruxaria e outras coisas estranhas ao olhar comum. Afirmou durante anos todos os dias que bruxaria não é um privilégio das mulheres e eu, como seu único filho, deveria seguir os ensinamentos. Mas eu sempre fui muito dispersivo para certas coisas - achava bobagem aquelas alquimias estranhas feitas no fogão a lenha. Para ser bem sincero morria de dó dos gatos pretos presos nas gaiolas individuais lá no fundo do quintal. E fazia questão de passar bem longe dos livros de filosofia Rosa Cruz pendurados na velha estante da sala - alinhados e misturados com os de física Quântica que eu nem imagina o que deveria ser. Depois de anos descobri do que se tratava toda aquela literatura, bem diferente do tempo em que eu mal sabia o alfabeto e via aqueles livros como grandes volumes encostados um no outro. Era muito estranho quando eu pensava que eles voavam por serem livros de magia – mas a mudança de lugar era por conta de tantas consultas noturnas feitas por ela.
Os anos passaram e foram várias as noites que a via debruçada sobre a mesa tentando decifrar a cabala para desvendar o mistério das coisas que a perturbavam. Com base nesses conhecimentos ela preparava talismãs para algumas pessoas que começaram a pagar pelos serviços. As essências de florais viraram uma febre para alguns clientes especiais que pagavam caro por um frasquinho com meia dúzia de gotinhas. A conta bancária cresceu e a vida melhorou – até comprou um carro usado vermelho. Também tinha um tipo de reunião que ela fazia semanalmente com mais 12 bruxas em roupas de cerimônia. Eram organizadas gravuras do sol e da lua sobre a mesa comprida; traduções da energia masculina e feminina para o ritual. Enfileiradas apareciam adagas e, na sequência, vários pentagramas, um cálice, uma espada e pedras brilhantes; símbolos bem tradicionais da magia - que nada mais eram que os veículos da energia concentrada pela força do pensamento. No final faziam orações mentalizando soluções para os problemas individuais e exteriores – como os prejuízos causados pelo homem ao meio ambiente. Pareciam muito unidas e determinadas defensoras da natureza quando saiam juntas à rua. Odiavam, com olhos arregalados, quando algum leigo fazia chacota chamando cada uma de bruxa ou a todas de seguidoras de satã. Poucos passos à frente o infeliz camarada poderia dar uma topada ou cair num buraco enquanto elas se esbaldariam de tanto rir com o acontecimento. Mas se na queda ele quebrasse o pé ou a perna, imediatamente elas prestariam os primeiros socorros, como qualquer pessoa normal a acudir o coitado.
    A moral da história é que existem muitas bruxas que já flertaram com as práticas de satanismo antes de abraçar a bruxaria, a magia ou a crença Wicca - inclusive a minha mãe, mas não garanto que fosse nessa vida.
    Um dia as bruxas acabam ensinando aos incautos que tudo o que se faz de mal aos outros volta em dobro. Usam como filosofia de vida a forma cósmica da força do pensamento e orações transformadas numa energia que transcende o entendimento – e isso independentemente no que se crê.
    Para entender melhor acontecimentos como estes é preciso estudar mais, observar e vivenciar – de preferência por alguns anos. Assim se acaba tomando a Bruxaria como uma arte que é tão necessária à vida quanto outras com a mesma dedicação. No presente os hábitos danosos aos outros devem ser mudados e os pensamentos em constantes transmutações devem ser filtrados. Deve-se sempre estar disposto a enfrentar tempestades emocionais e sociais, ou mesmo – e as piores de todas – as tempestades internas. Eu sei que é difícil entregar-se totalmente quando não se conhece algo, porém, é necessário a entrega com árdua dedicação para vivenciar a magia na plenitude.       Minha mãe explicou que é muito comum a bruxa ter poucos amigos. Não por ser pessoa tímida ou algo assim, mas por gostar de apalpar durante muito tempo o terreno que pisa antes da plena confiança. E se você não for uma pessoa que respeita pontos de vista diferentes ou não sabe guardar segredos dificilmente conseguirá ser amigo de uma bruxa. Ela nunca lhe contará sobre suas experiências mágicas e certeiras. A magia nada mais é que a canalização de energia para um determinado ponto. Enfeitiçar não é privilégio só das bruxas, qualquer um pode ter esse poder que vai da sedução à vingança, da bondade à maldade. Eis aí o maior de todos os seus dilemas: escolha como será na hora que desprender tal energia de si. E saiba que mais cedo ou mais tarde ela voltará bem mais ampliada do que quando saiu”.
    Bom, diante de tudo isso, concluo o seguinte e fico a pensar num velho ditado espanhol: “No Creo en las brujas, pero que las hay, las hay”.  

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                Na tez pesada, com ar determinado e cruel, olhos negros, frios, redondos e fixos.         Ergo-me do tombo e depois, co...