quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Domingo à Tarde


      Foi num domingo à tarde que pensei em você de um jeito carinhoso – a mente modelou a sua própria maneira o mapa dos meus sentidos. Ao olhar pela janela da sala notei que não havia uma nuvem sequer no céu. Então fiz desse momento um dia de mudança da alma e do ritmo antigo de sonhar com você.
     A franqueza e a força que havia nisso fez a vida me oferecer a oportunidade que eu jamais rejeitaria, justamente por perceber o quanto você se afastou de mim nos últimos anos. O pensar me trouxe uma sensação maravilhosa – e fiz de conta que nada de mais importante estivesse acontecendo.
     No momento em que o relógio da sala quase parou, eu nem sequer percebi que os ponteiros giraram ao contrário entre o sonho e a realidade em que tudo se divide com a mais fina linha – balancei, pelo temor de ser flagrado dizendo coisas que poderia me arrepender depois – proporções compreensíveis e tão intensas de rupturas e traumatismos característicos de uma pessoa imperfeita.
    Ufa! É tão difícil entender o valor que uma pessoa dá a sua própria vida...
    Ainda existe a mesma linha imaginária de antes que nos separou por tanto tempo quando estávamos tão próximos, e eu, em desespero, procurava tocar seu corpo à meia-luz. E quando eu chegava mais perto com o peso de todas as minhas culpas, você abria seus braços e me recebia com carinho, estremecendo um pouco, trincando os dentes e fazendo o filme da minha vida passar na tela gigante me partindo de cima a baixo. E logo em seguida eu ficava leve como uma pluma que plaina na brisa suave como num filme antigo hollywoodiano, que, de um jeito ou outro, sempre deixa marcado na gente a imagem mais forte.
    Alguns dizem que essas cenas têm um valor que pode ser determinado por aqueles que ficaram para trás, outros acreditam que seja determinado pela fé ou também pela saudade, ou, quem sabe, por um amor inesquecível. Outros dizem que a vida não tem nenhum significado e o importante é viver um dia após o outro sem muitas preocupações.
      Meus pensamentos passam assim.... Como se eu estivesse num oceano em fúria que leva tudo para longe, menos o que é substancial nesse instante para minha existência – a força.
      Se eu acredito? Eu acredito sim, que todo e qualquer valor pode ser determinado pelas pessoas que um dia tiveram proximidade e admiração no decorrer dos anos.
     Voltado a nós: por algum tempo, poderíamos novamente nos sentar ou deitar lado a lado, como um presente dos céus. Pelo canto do olho eu teria a oportunidade de vislumbrar seus contornos perfeitos logo que as palavras jorrassem como uma chama ardente. Isso seria maravilhoso porque pareceria interminável. Então eu ainda poderia afirmar que nós aproveitamos nossos últimos dias juntos de um jeito que a maioria das pessoas só consegue aproveitar durante uma vida inteira. Eu sei que quando tudo ameaçou acabar, seus olhos estavam fechados e seu coração ainda permanecia aberto e ganhava o mundo como nunca houvera imaginado nos pensamentos e sentimentos da vida rotineira.
     Pois é... assim se foram os nossos anos e tudo passou muito rápido: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira e cada final de semana nos unindo no mesmo sonho - completamente calmos e totalmente loucos - numa união indivisível por horas a fio em que você tomava a minha mão e segurava firme para caminharmos em meio à multidão nos corredores. E lá dentro da gente as estrelas iam piscando nesse mesmo céu azul que avisto daqui e - sem uma nuvem sequer - nós podíamos desfrutar juntinhos. Nesse momento você e nem ninguém teria a coragem de negar, por vontade própria, a criatividade, a admiração, o amor e todo o restante das coisas que nos tornavam únicos na iniciativa de qualquer ação para o bem comum. Se houvesse uma seta nos indicando o caminho para enxergar com precisão, tudo teria sido mais fácil sem ficarmos zangados e ignorar que realmente éramos importantes um ao outro.
     Você percebe agora que nesse sonho de caminhada em corredores, avenidas e estradas movimentadas que o nosso destino pertencia metade a nós e outra metade a Deus? E que se quiséssemos, nós poderíamos submergir desse destino e depois sair flutuando enquanto os nossos corpos não mais nos pertenciam, ou nos esconder afundando? Garanto que nessa hora nossos corpos teriam um peso antinatural, uma respiração quase parada, porém, profunda, e chegariam ao limite de um ponto acima da linha do infinito. De lá se ligariam a uma corrente magnética e poderiam eternamente irradiar uma luz hipnótica que curaria no futuro nossas mentes e corpos sofridos de saudade, ira e paixão.
       Na imobilidade renovo minha energia enquanto a vida fica intacta na imaginação. Assim vem a musicalidade que profana o silêncio num ato puro de criação. Tudo isso me estimula e tento me defender de alguma forma, enquanto tenho a lembrança como recompensa por acreditar em tudo além da simples observação.
      Existem sentimentos que insistem no direito de continuar existindo e justificam meu direito de estar aqui construindo narrativas verdadeiras e convincentes, porque é bem mais fácil viver dessa forma – um alívio! O sentimento se agarra a mim e me leva por esses caminhos, tanto quanto você se agarrou a mim por um tempo quando tentávamos ser bons, e o medo se apresentava de forma sutil.
      De um momento para outro, quando começou o processo de reconhecimento de sentimentos e ações indesejáveis, tudo veio à superfície num simples clique. Não houve a possibilidade de prosseguir, nem para frente nem para trás, com todo aquele sofrimento que ameaçava o instante em que a vida se estendia momento a momento rumo ao infinito - isso parece mais real para mim agora do que aquilo que eu suponha que fosse para você naquele meu instante de insensatez.
     Tudo o que eu pensei e tudo o que desejei existe de outro jeito - e não poderá acontecer outra coisa fora desse contexto enquanto eu for o que sou e pensar em você assim. 
      Hoje em dia isso pode não ser real, mas parece ser...
      Em um mundo tão cheio de mágica tenra e envolvente eu vivo sob os frutos de uma simples ação, um simples chamado do seu nome que flutua pelo vento até chegar aos seus sentidos primordiais.
     O meu pensamento se torna a ação quase inerte na prática espiritual que desencadeia outra e assim sucessivamente. Tudo faz parte de um grande sistema de energia e dos meus desejos num mundo de alegria possível, ou da dor excessivamente comum, quando me fixo na realidade que permite trazer você até a mim na imaginação.
   Meu poderoso pensar flui e se transforma. Flutua pelo universo nessa busca a fim de reconhecer cada pequeno sentimento de tudo aquilo que (juntos) um dia julgamos errado ou ruim.
     Tomo consciência do salto libertador a que isso pode levar. Sinto-me livre do mal que me assolou e arrancou você do meu espaço físico por um tempo. Agora pareço ter absoluta liberdade para fazer as pazes e romper esse ciclo sem julgamentos ou conotações negativas para, finalmente, me libertar daquilo que manteve a ambos encurralados.
     Recosto na poltrona, olho pela janela e sonho que você também sonha meus sonhos e segue meus passos, recordando cada lição que aprendemos juntos. E vai cada dia mais depressa que pode, tomando conta da esperança antes que ela se perca, ou que apenas reste uma pequena percepção dos detalhes que sonhamos naquele mundo repleto de egoísmo e falta de abnegação. 
     O Sol brilha no meu devaneio distante enquanto você parece estar de pé numa praia paradisíaca observando, num domingo à tarde, o céu azul do horizonte; rodeada por troncos de árvores, galhos e folhas trazidas pela maré depois da tempestade primaveril.
     Talvez por um segundo não exista mais fronteira entre nós, nem a linha imaginária. Assim, finalmente livres, acho que podemos nos reconhecer em alguma imagem feliz que ainda não foi apagada. Ou, quem sabe, apenas aprender o significado de tudo isso no pensamento que agora mapeia os sentidos de cada um, incluindo a realização dos anseios da alma na representação fiel do que se foi.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Coerência

     Talvez esse texto não tenha a mesma coesão narrativa dos anteriores, ou até pareça incrivelmente confuso e sem coerência em alguns aspectos – no entanto, o tempo passa e as coisas mudam, as pessoas mudam e se ajustam ou desajustam de vez. Talvez, por alguma dessas opções seja um fracasso desde a primeira até a última linha, mas, posso garantir que, como (des) organizador das próprias idéias, eu tenho, ao meu modo muito especial, absoluto controle sobre (quase) tudo que tento expressar. Porém, advirto: quanto à fluência na sua interpretação, ou de muitos outros, não tenho controle algum.
     Espero que entenda que há um turbilhão de coisas se passando na minha cabeça, minha personalidade interna conversa comigo mesmo e com o mundo lá fora, mostra como é estar completamente fodido, digo, em qualquer situação da vida, seja por: problemas no trabalho, no relacionamento amoroso, na escola, na família ou na vida financeira. Porém, prevalece um sentimento que, no fundo, bem no fundinho mesmo, ainda existe alguma coisa que vale a pena descobrir e pela qual vale a pena lutar. Então, ao ler isso, você poderá perguntar: “Se você se considera tão ferrado na vida, como não enxerga solução para isso?” Interessante observação.. mas, ainda assim será difícil definir o que tem verdadeiramente aqui dentro e a motivação que leva a essas palavras porque ainda não encontrei o que vale a pena lutar.
    Sei bem que há aqueles momentos em que reagi com raiva mal-direcionada na maior parte do tempo ou, simplesmente, porque era uma raiva quase impossível de canalizar para outras vias (ou pessoas) que considerava merecer mais do que outras - com o conhecimento pleno que práticas estabelecidas em tratar as dificuldades dos outros não funcionam tão facilmente como se pensa. Aí que as coisas embolam porque a sociedade não permite, o sistema político não ajuda e estressa, o médico não atende, o padre (ou pastor) não aconselha, os parentes não apoiam, os amigos viram as costas, a escola não ensina como se portar, ninguém ajuda e todos sugam um pouco até que não sobre nada.
     A voz interior diz insistentemente que é preciso se virar sozinho - com o objetivo único de preservar a saúde mental, pois parece muito complicado tentar a comunicação ou receber a comunicação dos outros, sem que pareça algo fútil e superficial.
     Assim vou... Mas sinto que isso está mais parecendo um desabafo ou um assunto pessoal mal-resolvido no qual, de repente, alguém percebe de relance que está passando pela mesma merda todo dia. Então, um dia qualquer um outro alguém acorda injuriado, deprimido e, por uma dessas coincidências do destino, acaba lendo com atenção tudo isso e afirma: “Pôxa, eu tenho esse problema, eu tenho aquela outra dificuldade e esse cara passa pelas mesmas coisas que eu”, e quando esse outro alguém nota esse detalhe, e entende melhor o mundo em que nós estamos, sente um alívio ao saber que não está sozinho apesar de tudo parecer meio cinzento.
     Eu sei e compreendo bem que talvez ao seu olhar ainda esteja faltando uma parte nessa narrativa, e a linguagem parece necessitar de uma reestruturação para melhor entendimento. É bem compreensível e concordo, mas a realidade é que sinto as coisas assim como me expresso, é como se estivesse num asilo de lunáticos, tomado por uma paranóia incurável. É o que acontece... É o sentimento que persiste quando não há ninguém por perto para ajudar e eu fico nesse diálogo imaginário comigo mesmo. Mas isso cria uma angústia, e a história nada mais é do que sobre essa angústia interior, e sobre a sensação de que a coisa mais polida a fazer seria aceitar tudo de cabeça baixa e sair de cena. Livrar o caminho e parar de causar problemas aos outros, ou, quem sabe, livrar a própria visão encontrando um jeito de re-focalizar em apenas uma coisa. O ideal seria juntar, dispersar e juntar de novo, despedaçar-se e recompor-se como outro ser. Isso seria reinventar-se.
     Há um mundo imenso lá fora para ser descoberto e tantas coisas mais para ter ou para tentar ter ainda que tudo pareça meio chato, sem graça e repetitivo. E às vezes você reconhece pelo silêncio de alguém os traumas aparentes que essa pessoa carrega. Isso parece uma forma intuitiva de não-comunicação, aparentemente com algum sentido raivoso e vingativo, dentro daquela pessoa que se sente incompreendida. Ou que se coloca na situação de temerária e insegura, que diante de tantas dúvidas faz um apelo, mas não encontra qualquer conexão com desejo real do que está por vir ou do que poderia fazer para mudar tudo. Chama-se isso de impotência na habilidade de mudar as coisas que estão erradas e ter vergonha de si e do mundo ao redor.
     Há uma parte que não responde, que não é consciente ou está cheia de futilidade e desamparo. Existem pessoas que conseguem com sucesso tratar dessas realidades que eu muitas vezes não consegui encarar com conselhos, então me pergunto: “O que posso fazer, como pode estar tudo bem?” Isso se parece com uma situação obsessiva em que os doentes mentais (porém, funcionais socialmente) se encontram, que é pegar todos os problemas do mundo, e tentar resolve-los como se isso bastasse, e agem com um tipo de bipolaridade ante a dificuldade de entender qual o lugar de cada um nesse mundo. A minha bipolaridade dentro dessa possibilidade imaginária pode ser aumentada um pouco mais para três ou quatro personalidades, onde coexistem em perfeita harmonia e confusão o romântico, o niilista, aquele que ouve vozes e o descrente. Esse alguém que vê o mar e enxerga nele o universo ao qual pertence e se sente uma gota. O imenso oceano é o universo da própria vida pequena e restrita, é o símbolo do cosmo e todas as aspirações que um dia foram frustradas, e, de repente, do nada, se transforma em alguma coisa que pode ser sadia. Por quê alguém deveria se importar com isso, já que não é a interpretação de um personagem, não é um filme tosco; é apenas a pura e simples realidade de alguém como eu?
     Eis aí o que há. As portas de uma mudança num rito de passagem para incríveis emoções extremas que, sabe lá Deus, por que acontecem. São sensações praticamente universais que todos passam, até mesmo em casos extremos de lucidez. Talvez eu seja um caso extremo de transformação, um mutante que vira Ogro num mundo perfeitinho de gente bonita que segue o padrão imposto pela sociedade. Eis aí novamente a magia de imaginar que não se está sozinho, que existem outros na mesma condição (ou fora dela) com esse sentimento de incompletude quase adolescente.
     Uma hora chega o momento de não apenas confrontar os demônios internos, mas de perceber que é preciso encara-los.
     Se Dr Jeckyll e Mr. Hyde levam a duas facetas extremas fazendo perder o foco com excesso de poder, vingança e arrogância ou, por outro lado, a bondade condescendente talvez pareça algo difícil de administrar e perigoso demais se manter assim. Toda a dor pode estar ai, toda a raiva, toda falta de romance, todo o abandono, todos os elementos que separados se juntam e coexistem formando um só no isolamento. E quando tudo se junta qual parte do caráter deve surgir e prevalecer na luz?
     Por vezes o mar fica revolto e é preciso ajuda de algum lugar quando começa a chover, a trovoar e a ventar, ainda mais se está sozinho em cima de uma pedra no meio do oceano. A ideia que vem disso é a de que o caminho do amor espiritual é também uma possibilidade romântica- não falo do amor filial, ou amor romântico (homem / mulher), mas o amor espiritual em sua mais pura essência. Uma jornada que faz chegar a algum lugar e cresce até quase dar um nó na cabeça quando se nota a falta que ele fez. É algo extraordinário e quase sublime, e se torna possível realmente entender ao que leva o isolamento e a frustração (juntamente com a falta de aceitação de que a realidade é muito mais simples do que se pensa).
     O que é possível obter de melhor na vida é o amor das pessoas... Não sei se você já percebeu que existe uma coisa entre os humanos chamada amor, e, no final, é tudo o que interessa para as coisas darem certo. Todo o resto é bobagem. Até é possível ter muito dinheiro e viajar por lugares maravilhosos, mas, se não se tem alguém com quem falar, alguém para amar e compartilhar, não se tem nada. E é basicamente esse o caminho enquanto você luta freneticamente em busca da coerência, para finalmente se libertar do Dr Jeckyll e Mr. Hyde que há aí dentro, e eu tento fazer o mesmo por aqui. 



quarta-feira, 29 de junho de 2016

A Luz Fraca Do Abajur

   Os seus olhos estão vivos, praticamente com uma vivacidade doentia. Neles se vê que tudo já está decidido – é basicamente o que se pode notar em certo momento diante da luz que brilha fraca no abajur. Há alguma doçura em sua postura soberba, talvez até uma magia estritamente sedutora. O sorriso é um sorriso sem dentes, algo meramente contido e reprimido pelo entusiasmo do que virá a seguir. Ela ainda vive, quase que permanentemente, uma evidente excitação inconformada pelo momento mais sublime da entrega na noite passada, que não foi lá grande coisa, muito menos como a expectativa criada. Talvez quisesse viajar pelas nuvens ou qualquer lugar onde mais nada importasse além do seu sonho de felicidade. Ainda assim abre bem os olhos para não perder de vista suas feridas do passado. Infelizmente ela nunca teve coragem de se desenlaçar de tudo, e relembrar é como se a morte estivesse presente. Mas ela não treme e nem fraqueja mesmo com o coração sangrando.
    Ela nunca imaginou que o amor não era eterno, e viveu cada sensação como se aquele tempo fosse inacabável. Mas tudo tem seu preço na escalada do destino, e ela sabe que em breve sentirá a razão de cada nuance da vida na mente e corpo sofridos por pancadas. Seus lábios queimam e seu pensamento ainda arde com um tipo de desejo incontrolável - quase uma mistura da espiritualidade com o êxtase sexual e a frustração. Isso deixa sua mente alerta e o corpo vivo com uma desenvoltura ingenuamente aflorada. Ela novamente se despe com naturalidade e despreocupadamente para se deitar na posição correta. Em seus olhos ainda se notam as olheiras da noite anterior vivida em fúria, quando seus cabelos foram beijados de maneira cuidadosa e em seguida puxados e enrolados por um punho firme, ao mesmo tempo que o cinto de couro marcava o ritmo como um chicote em chamas em cada palmo de suas costas.
     Com o toque dos dedos penetrando seu sexo sente no rosto a lágrima solitária desenhando o caminho já marcado por outras tristezas que vão além das marcas na carne, segue assim num labirinto sem o fio de regresso que faz aos poucos a mente vaguear pedindo misericórdia e desemboca num prazer doído.
    Foi-se no decorrer de um segundo, por uma angustia tardia e desesperadora, que algo se tornou visível em seu delírio de paixão.
    Ela já conhecia bem essa força de vontade de seguir em frente através do poder advindo do prazer da carne e da devassidão do corpo nas solitárias lutas noturnas e secretas, e aos poucos suspira e sorri por sonhos bons e eróticos - único momento em que se permite para o prazer sem culpa.           
    Mais uma vez ela respira fundo e se  prepara para nova batalha contra si mesma e seus instintos. Finalmente toma coragem e vai, segue em sua imaginação um a um com olhos sedutores e corpos suados aos quais se permite devorar. Fica horas a fio criando situações e posições, num eterno tom de suspiro e esquecimento de tudo.
    Ela sabe que um dia houve um punhal enfiado em seu coração e ficou fincado ali. E daquele momento em diante caiu uma névoa espessa em sua vida anteriormente regrada. E do seu último sacrifício de luxúria e prazer trouxe consigo o desejo real: a inspiração para continuar experimentando e se tocando mais, até sentir-se completamente saciada. Ela manteve a vontade de faze-lo repetidamente por um tempo sem fim, até que um dia conseguisse finalmente o verdadeiro alivio emocional – o que de verdade só viria com a recompensa do ato a dois. Em seu olhar vivo ainda há o silencio da morte sentimental prematura. Nada sobreviveu além do rancor que existe em sua visão a respeito do mundo e das paixões eternas. Há muito tempo se mantém assim, quando o seu único desejo aparente é o da busca incansável. A sua atitude causa em si mesma repulsa e não há uma explicação lógica que possa salvar sua mente da dor. Ela sente a realidade meio entorpecida e geme como se fosse uma criança inocente num sonho profundo - a noção não é perfeita, pois o seu prazer foi maculado pela degradação numa entrega sem mistério ou delicadeza; uma ação tida como ordinária. Em todos esses momentos há o prazer momentâneo e a dor sem fim. Existe a imagem de algo que a distancia do pensamento e a aproxima da lembrança da última fatalidade no dia em que chorou em desespero. Em sua desgraça permanente sente o efeito do remédio que criou para acalmar a própria mente que nunca se cansa de pedir justiça, - em seus lampejos brilham focos de saudade logo que a mão pousa sobre seu ventre amplo e desnudo - revela-se assim todo o mistério e delicadeza de um corpo exteriormente são. E as memórias vão se tornando remotas a cada dia passado nessa mesma rotina.
   Presa dentro da gaiola que criou se debate como um pássaro agonizante. Delira em seu maior momento de força interior e resistência moral. Mas aquele sentimento obscuro é maior e ela busca o desligamento - consente a si mesma matar os resquícios de consciência de um passado surrado, vivido na ignorância do conhecimento dos fatos. Com esse rancor na alma, persiste na dor mais intensa, a dor da perda do mais valioso bem; o que a torna irreconhecível diante de si mesma e de quem testemunhou sua vida no momento de felicidade.
    Nas trevas vive seu transe humano enquanto seu tecido carnal se rasga, estica e cria vincos. As manchas roxas aparecem pelo corpo. Em cada mancha a noção da armadilha cruelmente atroz contra si mesma. A vida não se expande conforme o seu desejo mais intimo e qualquer coisa se torna um martírio sem fim. O ódio misturado com ressentimento infiltrava-se mais uma vez em seu cérebro evoluído, tornando-o uma máquina de produzir ideias destrutivas, e seu corpo parece um corpo sem sentidos quando todas as vozes do mundo gritam em seus ouvidos e vão além, ecoando distante para outros que se identificam com a situação.
    Em mais uma falsa excitação macera desespero num choro interior, fica distante de tudo que parece puro e novamente se sente tão só como em nenhuma outra oportunidade da vida. Assim permanece por horas e horas cumprindo seu percurso sem fim. Momento em que aquele que desejar poderá ser dono do seu corpo inerte pelo tempo que quiser.
    Ao focar novamente em seus olhos ela emite um olhar que não sei se é de loucura mansa ou de ar de ausência. O seu coração parece pacificado numa ressonância profunda que emana calores e suspiros, como a última sensação de um adeus anunciado em que o cheiro impregna sua pele e se firma na ponta dos dedos depois de um tempo. A poeira e o suor se misturavam à lembrança do cheiro acre natural da excitação e o perfume finalmente vai se esvaindo da pele, ela torna-se tão distante que mais nada se sabe sobre a sua verdade por tantos desejos. Por isso ela continua e em cada novo toque o prazer a consome por dentro. E pergunta a si mesma: “O que fazer agora?”.             
    As manchas amarelas continuam no lençol, o colchão manchado por sêmen na noite anterior foi virado ao contrário. E ela mais uma vez, com o coração leve por alguns instantes, flameja em lamentação interior e arde por dentro como a chama mais quente do inferno, carregando consigo as culpas da sua falta de sintonia e entendimento da situação.
    Mais uma vez levanta-se devagar, absolutamente entediada de tanto sexo solitário e aborrecido, num cenário em que os vermes rastejam nus pelos bastidores da sua imaginação. Aos poucos oferece encorajamento a si mesma com um simples pensamento, pois o seu desgosto parece tão grande que não consegue expressar de outra forma tanta tristeza. Em plena escuridão se deita novamente e dá sequência ao velho vicio - faz automaticamente enquanto imagina olhos arregalados tentando admirar os seus seios pequenos e suas pernas se apertando uma a outra. Aos poucos fecha os olhos enquanto um corpo grande e suado balança por cima em um ritmo alucinado fazendo os quadris se mexerem juntos. O pensamento mergulha nos mais loucos devaneios esquecendo tudo o que de verdade acontece ali. Do nada, toda a fúria se interrompe de repente e ela relaxa! Tudo acaba e nova maratona se inicia com o mundo desaparecendo sobre suas vistas. Em sua mente um membro duro e grosso rasteja e esfola num vai e vem continuo e permanente de bate estaca. Ela não sente dor quando braços fortes a apertam com mais força, mais calor, mais emoção, e ela naturalmente se mexe para cima e para baixo no momento da estocada mais forte em que só as bolas dele ficam de fora. Ela parece cada vez mais molhada e escorregadia ao sentir as contrações e deseja desesperadamente alguém para beijar seus lábios ou tocar os bicos dos seus seios. Os seus olhos brilham no escuro e ela sorri ao perceber que algo muito intenso jorrou lá de dentro. Ela sabe que em algum momento os seus olhos saltaram da órbita e alcançaram os céus - é fascinante poder sentir prazer sem dar a menor importância à coisa alguma. Ela acha tudo muito bom, esquenta o sangue, aguça a fúria e adoça o instinto mais primitivo enquanto o suco ainda flui entre as pernas. Então essa coisa louca fez com que se lembrasse de outra; aquela que motivou esse momento e a fez agir como se tivesse tirando algo da sua consciência machucada. O mundo inteiro parece estar pronto para ser mudado do mal para o bem instantaneamente, mesmo que seja por alguns segundos em seu desejo único e exclusivo, por que ninguém está olhando e ela pode fazer o que quiser sob a luz fraca do abajur.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O Celular Chama Sem Parar

O celular chama sem parar; é um momento de novas expectativas em nossas vidas.
     Sei que antes de atender é necessário pensar sobre todas as circunstâncias da situação, e o que afeta um pedacinho do meu orgulho.
    Sem dúvida, nos tornamos insensíveis e incompreendidos um com o outro no tempo que passou, até finalmente rompermos as grandes muralhas que nos separaram.
     Olhando as coisas com essa simplicidade percebo a raridade da situação e fico pensativo com o que vem pela frente.
     É bem verdade que  quando tive uma nova pessoa em minha vida, mantive a atmosfera misteriosa e desafiadora; controlei a ansiedade para que todas as ações ficassem tímidas e incompletas. Porém, às vezes, pensamentos loucos começavam a se mover dentro da minha cabeça, passando feito raio que ilumina a escuridão e explode em  flashes de sensatez num minuto, e de loucura em outro; o que  permanentemente me guiou pelo caminho do improvável.
     Quando me lembro do mundo que deixei para trás, me condeno por ter me permitido a tantas experiências ruins – esse  mundo seria inimaginável para uma pessoa que tivesse alguma lógica de comportamento sadio, mas na minha ilusão ele parecia perfeito.
     Durante um longo tempo notei que toda a visão se apequenava enquanto o meu mundo se paralisava aos poucos; assim criei o medo de coisas boas e de pessoas que pudessem se aproximar. Todos pareciam inimigos prontos a arrancarem o pouco da crença e dos bons sentimentos que ainda restavam no meu interesse de ser feliz – (em certo sentido, esses momentos constituíam um grande deserto, uma época totalmente desolada de solidão e inércia).
      Sem você, a vida se tornou cheia de inconstâncias e rotinas intermináveis - eu estava me sentindo derrotado; e não era um derrotado comum, era sim um perdedor na pior forma que pode existir: no pensamento.
     Vivendo na cegueira das sensações me tornei recluso entre quatro paredes; esperando indefinidamente que a divina providência trouxesse soluções. Mas não era entre as paredes do meu quarto e nem tampouco do pensamento que as soluções viriam, era a visão obstruída que me acompanhava pelo mundo afora que me fazia errante.
     Esse modo de viver sempre foi o principal mote no raro convívio com as pessoas e nas frequentes viagens astrais. Pela força da razão fazia prevalecer atitudes e opiniões, ainda que tudo caminhasse na contra mão do bom senso. Um bom exemplo disso é que eu gostava de discordar das coisas que diziam de você e argumentava aparentando sabedoria e seriedade, mesmo que no fundo eu soubesse que era um palhaço divertindo platéias que esperavam a próxima cena de defesa hilária e desastrada da sua pessoa. Por essas e por outras era natural que eu me sentisse triste, taciturno, derrotado e desesperado. E apesar de achar que já tinha o suficiente  faltando na vida, os pensamentos insistiam em dificultar tudo um pouco  mais, fluindo na direção oposta do que dita as regras básicas da natureza humana.
     Ao mesmo tempo reconheço que minha família, apesar de aparentar união, era partida ao meio e cada um tinha um propósito diferente. A nossa casa sempre foi um local de convivência totalmente insípida e cheia de esquivas, e os problemas cotidianos eram sempre os mesmos. Sempre haveria um vazamento na tubulação, um fio em curto para isolar, uma maledicência para tratar, uma novidade perversa para ouvir ou contar. Mas que situação triste! Tudo soando tão falso e desolado. Alguns fatos a serem contados com empolgação eram ouvidos com desdém; tudo o que era feito com cuidado era  usado com indiferença. Nada poderia ser planejado a longo ou médio prazo, pois, sempre haveria alguém para desfazer os sonhos com sugestões de impossibilidades e maus agouros. No exato momento em que estas coisas aconteciam, eu sentia vontade de chegar e acender a luz - uma luz em minha vida. Eu sabia que as privações eram temores da alma e, de quando em vez, me debatia em lamurias ao perceber que não havia solução. E acabava, sem querer, me envolvendo em tramas engendradas por um ou outro, que faziam com que alguém saísse de casa para refletir e retornasse depois de algumas horas como se nada tivesse acontecido.
    A casa de parentes na região serrana de Minas Gerais, pertinho de Pouso Alegre, era o meu destino predileto para as fugas, ou as viagens a trabalho pelo interior paulista.
     Eram essas e outras situações que faziam cada um sair com as malas feitas e mal trocando uma palavra – é bem verdade quando dizem que todos precisam respirar ar fresco e se aliviar da poluição que impregna a alma e judia o pensamento – é sério isso!
     As minhas crises de tristeza se avolumavam de tempos em tempos quando eu pensava em você e me tornava recluso - o meu mundo era o do pensamento. E o meu pensamento era a única forma de colocar em dia as minhas esperanças de equilíbrio. Nessa época toda e qualquer inquietação que eu pudesse ter ficava restrita ao meu ambiente exclusivo cheio de perseguições e das traições elaboradas na mente; até que eu mesmo pudesse finalmente admitir que seria capaz de fazer muitas coisas insuspeitas.
     Enquanto volto a mim, o celular insistentemente chama e eu observo minhas mãos inchadas sobre a mesa. Elas estão tremulas, os dedos deformes e a palmas suadas. O movimento para atender é lento, tão lento que parece uma barra de ferro sendo movimentada por um guindaste. Sinto num milésimo de segundo que no momento seguinte a  minha personalidade poderá mudar e embalará os mais loucos sonhos através dos pensamentos incongruentes, e toda perversidade cairá como uma luva nas minhas intenções. O movimento em direção ao celular, que continua chamando, é como o disparo de um gatilho numa roleta russa, e no momento fatal o cérebro poderá estourar sem o estampido ser ouvido. Mas ao imaginar que é possível ouvir o ruído seco se conhece o motivo de estar salvo mais uma vez. O gatilho automático está disparando de novo, lá vem o som que eu desejava  não ouvir. Se tudo acontecer novamente do mesmo modo, eu estarei bancando o palhaço da sociedade, e todos poderão mais uma vez chorar de tanto rir por dentro. E, no momento mais oportuno, todos diriam que me tornei uma celebridade caricata na hora da decisão.
    Eu sei que alguém até poderia sentir orgulho por eu agir assim, mas ninguém saberia ao certo o que foi feito de mim depois de uma ou outra opção. O que entendo de toda essa motivação, é que na vida sempre haverá uma grande surpresa reservada para alguém na hora de atender o celular;  para mim ou para você, quem sabe....
     Novamente sinto que vou desmaiar e rolo pelo chão só de imaginar o seu corpo nu diante de mim. O seu olhar é erótico e convidativo, a boca sussurra baixinho uma doce melodia, e em seguida os movimentos dos corpos fazem esse chão tremer com a imagem do sangue descendo pelas paredes - sombras com contornos perfeitos no teto observam como dois se transformam em um num segundo. A minha energia que move o pensamento agride a sua carne e transcende além da mera imaginação da luxúria ou qualquer outro pecado, pois o destino me enganou muitas vezes, assim como a você também, e tenta nos enganar novamente. Então, na nuvem de vapor que sempre embaçou o espelho da minha vida, vou surgindo na penumbra como um ser errante em busca de saciar a fome de prazer em você e de você em mim, quando quiser e puder.
     Ainda vivo e respiro meio entorpecido e me vejo incapaz de um único movimento.
    Na imagem seguinte caminho sobre cadáveres de desconhecidos, pulo de um em um como se fossem entulhos empilhados em montes. Onde estão os assassinos de emoções? Onde estão os salvadores e carregadores de corpos? Alguém ajude com isso, eles estão atrapalhando;  fedem e vertem líquidos purulentos. Os olhos de alguns parecem esbugalhados e de outros fora das órbitas. Na penumbra os seres da escuridão estão de boca aberta gritando por misericórdia, pedindo a cura de suas feridas abertas pela culpa. Sou salvo dali e vôo com os pássaros da noite para os confins do mundo ao seu lado quando o gatilho automático dispara mais uma vez. A mira continua apontada contra a minha cabeça na mesma velha rotina de antes. “Vida de merda!” “Que Jesus Cristo salve a todos!” Tenho a leve sensação que vou adormecer enquanto o celular não para de chamar, estou em estado inanimado e com um fio de sangue descendo do canto de cada olho.
     Uma nova imagem surge no mesmo lugar de onde todos os corpos foram removidos, enquanto eu caminho num corredor de flores claras que desabrocham lindamente entre os arbustos; a vegetação rasteira é viva e balança ao vento com as cores do arco-íris ao fundo. Ainda assim não demonstro qualquer emoção nessa cena. Sei que lá na frente haverá a chance de alguma alegria ou arrependimento e continuo esperando a próxima imagem tal qual o fanático que reza de joelhos diante da santa encravada num buraco na pedra.
     Sou tirado do transe pelo celular que insistentemente chama sem parar.
     Agora todos os músculos do meu corpo estão sob controle, mesmo que eu caía na armadilha da roleta russa saberei como me livrar. Só eu conheço a significação de cada movimento, de cada toque programado, de cada inércia do pensamento na escuridão.
     Sei que a minha história parece um tanto horripilante, e o que mais lamento foi ter prosseguido desta forma tão triste.
    E... Depois de tudo, eu sorrio e vejo o quão seria interessante levar esta farsa adiante, de como seria confortante continuar desempenhando o papel de palhaço outra vez. Seria? 
     Novamente está tudo na mais perfeita ordem, a minha ordem, mesmo que eu saiba, de uma forma muito misteriosa, que a sua intenção afeta o meu equilíbrio e um pedacinho do meu orgulho enquanto o celular chama sem parar...


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Mentiras

   Durante muito tempo você se manteve em posição de defesa - foi quando o seu coração atravessou noites sem consolo. Ninguém jamais viu os seus olhos molhados no escuro do seu quarto – eram noites e noites em transe com as lembranças daquelas palavras doloridas que aos poucos iam lhe corroendo por dentro.
   Numa época à frente, livre em parte de tal desespero, sentiu que tinha forças para lutar e seguiu em busca de um alento que amparasse tantas dúvidas permanentes sobre a própria existência. Foi quando encontrou a mim pelo meio do caminho, e assim entrei por um tempo em sua vida - acho que eu estava muito a fim de descobrir se mantinha ou não a posse do meu juízo perfeito, digo, para encarar novamente um compromisso com alguém tão legal como você era à primeira vista.
     Porém, sem demorar muito, logo percebi que seu olhar era de quem praticamente estivesse à beira da loucura, guiando-se em seus exemplos por experiências malfadadas do passado - as histórias que contava eram como um labirinto de ficções intermináveis – em nenhum momento parecia dizer alguma verdade que me convencesse, mesmo de alguma questão simples – quando começava  a falar eu já sabia como terminaria e quais os fatos que citaria para dar mais ênfase ao seu ponto de vista. Rapidamente adquiriu esse hábito e dele criou um grande leque de possibilidades para a mesma história fantasiosa, que se repetia em versões mais elaboradas com o passar do tempo. Você temia tanto o confronto com a verdade, em seu modo arisco de ser, que quando uma ponta de mentira me motivava desconfiança, você fingia um acesso histérico e dava às costas pisando duro como se fosse vítima da maior ofensa.
      Muitas lacunas ficaram de nossas conversas, inclusive em discussões prolongadas que aparentemente tinham um tom de sinceridade.
    O tempo passou e você nunca mencionou alguém que gostasse em sua infância, ou uma brincadeira especial ou, quem sabe, o desejo do que queria ser quando crescesse - jamais me falou de uma rua onde pulava corda ou de um parquinho onde brincava no balanço ou escorregador. Quando um dia lhe perguntei como tinha sido sua infância, apenas me disse que nadava na piscina (até me deu uma foto daquela época feliz, lembra disso?). Nunca presenciei um vislumbre em que recordasse uma cena da qual sentisse orgulho na pré-adolescência - dando sempre a entender - na expressão sisuda - que jamais se deixaria escorregar numa emoção do passado, quando as respostas satisfatórias seriam: onde, como, ou os porquês das coisas terem evoluído assim. Várias vezes eu tentei que relembrasse, mas foi em vão. Parece que os detalhes daquele tempo lhe causavam tédio ou trauma profundo. Quando finalmente um dia relatou algo interessante, era como se fosse uma cena tirada de um folheto de viagens ou de algum livro antigo de histórias infantis.
     As reclamações do seu passado, quando no auge da vida adulta, eram sim muito marcantes. Não havia uma só pessoa de quem não falasse mal – o tempo que dispúnhamos era preenchido com reclamações de tudo quanto era tipo, fossem fatos passados ou presentes que tirariam qualquer um do sério. Nada parecia trazer mais alívio do que reclamar em tom de desabafo - demonstrando raiva e indignação - e no final quase derramar uma lágrima sentida. Tive a impressão que você se tornou outra pessoa, não era mais quem eu conheci com tanto brilho – aos poucos apodreceu e rachou ao meio. Cheguei a conclusão que depois de tudo desvendado, você imaginava que eu teria mente fraca e não conseguiria unir os pontos para observar todas as contradições pelas quais passamos juntos. O grande problema é que sempre tive excelente memória para aquilo que vejo ou escuto. Justamente por isso seria praticamente impossível que eu não reconhecesse um jogo de trapaça, ou distorção, a fim de semear uma nova ilusão em mim. Esse era o seu jogo sempre – e eu só podia me revoltar cada vez mais com esse seu mundo de mentiras e falsificações de intenções. Não é de se estranhar, portanto, que inventasse tudo para o seu próprio prazer em presenciar o meu sofrimento por te amar, e, inevitavelmente, após algumas cobranças, chegava sempre uma hora que diria do alto da sua imponente sabedoria: “Você não passa de uma pessoa patética!”. Não se cansou de demonstrar que eu não era suficiente, pelo menos em sua visão turva, para participar do seu mundo - às vezes chegava ao cúmulo de dizer que minhas perguntas e observações eram tão insignificantes que não mereciam sua atenção. O pior de tudo é que nunca se arrependia do que fazia. Isso era muito triste!
     Pois é, infelizmente, são essas coisas que rompem o encanto.
    Você insistiu tempo demais nessa combinação diabólica, habilmente mascarada por ações inocentes, que me fazia acreditar que o mal era eu. Não podia ser eu, pois você sempre se mostrou imune a todo mal que viesse de fora mantendo-se inatingível.
     Sei que se nesse momento soubesse da minha reflexão solitária, novamente estaria me desejando o pior. Motivo, talvez, pelo qual imagina que pode seguir pela vida como se passa entre labaredas sem se chamuscar. Uma hora, quando menos esperar, esse fogo poderá se rebelar e lhe causar queimaduras com cicatrizes permanentes. E, algum dia, em seu rosto torcido pela dor, lembrará que mentir, enganar e torcer as coisas ao seu bel prazer não leva a lugar algum.
     Nós dois sabemos que jamais admitirá abertamente que tudo isso aconteceu assim, digo, na minha versão, quando afirmo que mentia sempre, com ou sem motivo. Mentia inclusive dizendo que era meio vidente e conseguia ver o avesso das pessoas descobrindo o mal dentro delas para se proteger. Mentiras dirigidas, com um objetivo certo de intimidar reações. Garanto que seria mais simples, por exemplo, dizer que eu não era interessante e você não tinha vontade de prosseguir. Ao invés disso, encompridava as mentiras e inventava historias para exagerar as dificuldades em estarmos juntos e felizes. Porém, saiba que não foi o mal-feito que fortaleceu minha ira a cada dia, porque acredito que todo mal vindo da perversidade deve ser destruído; esse tipo de coisa fez a sua vida perecer aos poucos, e não a minha; mesmo que aparentemente mantivesse o sorriso e a impressão de tudo certo.
      Daí veio a total consciência do quanto uma estabilidade emocional pode ser colocada à prova em nome de um bem maior – talvez por cegueira ou a teimosia em prosseguir apesar das consequências. No entanto reconheço que o mundo de enganos e encantamentos que me levou até você, foi para que eu colhesse bons frutos de tudo que passou, e ao final você apenas seguisse adiante em seu mesmo passo.
    Nesse momento, no final do monólogo - antes tão constante em nossa relação - estou finalmente fora do mundo que criamos juntos, um mundo obsessivo, um mundo que eu erroneamente julgava de direito e beleza, um mundo de esperança. E se de verdade um dia tive uma esperança sincera é por que existe alguém lá em cima que gosta muito de mim, ainda que você tenha se esforçado ao máximo para mina-la aos poucos com o seu silêncio intenso e aquele profundo desprezo por belas sensações e nobres sentimentos.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Decisão

     Quando criança, ela já parecia uma pessoa severa em atitudes “quase” e praticamente egoístas, deduzia aos poucos que seu destino era o de prevalecer-se. Pressentiu que lutar contra essa sina seria muito desgastante e sem uma contrapartida interessante, então se deixou levar pelo rigor do que já estava escrito antes de nascer. Assim o fez sabendo que o melhor para ela seria implacavelmente pior para os outros. Fez o máximo que pode para ser a melhor entre as melhores no aspecto de demonstrar dominação e superioridade.
     Uma coisa, porém, aconteceu: toda a aprendizagem havia sido interrompida num ponto, talvez num lugar bem distante da sua vida ou talvez num sonho ou num pesadelo: foi o momento em que o seu corpo se separou da mente, se separou do mundo; algo como se surgisse um vácuo e nada mais existisse, nem mesmo a consciência – surgiu daí um pensamento com um novo sentido na amplitude de visão de vida, a abertura de uma ou de muitas portas, entende? 
     E assim, em busca da neutralidade, a gente vai e volta e chega ao outro lado em que ela já adulta apenas observa as pessoas gastando imensa energia tentando provar que podem fazer as coisas ao invés de simplesmente faze-las. E isso a irrita demais. Em seguida, depois de toda e qualquer análise dos outros ou dela mesma, algo a deprime e a deixa sem paciência para prosseguir na conquista do seu espaço – aquele lugar que busca na elite, embora não goste de admitir isso aos outros. Acha que seria por demais desgastante explicar a alguém que ser elitista nada mais é que a manutenção de certos padrões de sofisticação e refinamento, e até a busca por admiração de alguma inteligência diferenciada do seu ser. Mas falta a ela o esplendor genuíno que determina a personalidade de quem é cem por cento mau, se é que existe alguém que de vez em quando não seja tomado por uma singular e sincera bondade diante de uma cena comovente. Enfim... vez ou outra ela derrama lágrimas que alguns podem definir como crocodílicas. Mas não, por incrível que pareça, são lágrimas sinceras embora contagiadas por uma dose de pieguice. Assim o tempo passa e ela vive fases de fraqueza humanitária e dor na consciência – age, mas nunca admite que pode ser assim. Desta forma doa centenas de pacotes de doces e balas para as crianças carentes e faz campanha do agasalho para os menos favorecidos; dá algumas de suas coisas que não usa mais: suas roupas surradas e fora de moda, os sapatos que apertam, seus perfumes baratos que foram recebidos como presentes e os seus cremes de amostra grátis, se livra do que acha inútil para si - essa ação desperta nela o impulso de caridade e ao mesmo tempo de alívio.    
     Agora tenho nas mãos dois retratos seus: um, triste
e angustiado como eu mesmo nesse momento, no qual ela caminha sob a luz do sol por um terreno de vegetação rasteira, mantendo firme na mão esquerda um copo enorme (esqueci de dizer que ela é canhota); o outro retrato, mais antigo: frio e com aparência de alta objetividade, batido por um estranho qualquer: mostra um campo de futebol de várzea onde a família toda posa no meio do gramado para uma foto a ser guardada para posteridade; observo e vejo de fora para dentro e de cima para baixo em busca de algo inusitado que tenha passado despercebido. Esses dois retratos, como um poema triste e claudicante, me causam dor, ambos mostram a razão de tudo e retratam, sem disfarce, minha desconsolada persistência, ambos mostram claramente o insuportável e insustentável da minha condição de mero observador depois de tudo que passamos. 
     A imagem que ela me passou nas fotos, ou na vida real, era de que queria morrer. Desejava intimamente que sua odiosa existência encontrasse o fim por suas próprias mãos. Ah, isso é chocante de se revelar assim, mas este processo não era novo nem estranho, ela já o conhecia, já o experimentara em muitas ocasiões, algumas vezes em momentos de profundo desespero. Às vezes, o seu ser ficava reduzido a frangalhos com essas experiências destrutivas; às vezes as potências do abismo a despertavam e a destruíam por dentro; outras vezes, refletia com alegria um período definido e particularmente adorado de sua vida e de repente se esquecia de tudo. Em certa ocasião, perdeu a condição de semi-elitista juntamente com alguns bens guardados por anos, e teve de aprender a renunciar à consideração daqueles que até então a admiravam por estar um degrau acima. De outra feita, a vida familiar desmoronou da noite para o dia e o lado emocional foi junto, seu namorado, atacado de loucura, renunciou a tudo, ao futuro juntos; o amor e a confiança se converteram em ódio e em luta de morte; os vizinhos olhavam cheios de compaixão e desprezo e perguntavam; “Não era você que ia se casar?”. E ela respondia: “Não, não sou eu. Você está se confundindo!” Foi aí que começou a sua solidão. E outra vez depois de alguns anos amargos e difíceis, depois de haver construído uma nova vida espiritual e austera, de haver criado um ideal, - numa severa solidão e penosa autodisciplina - depois de haver atingido certa tranquilidade e recuperado o orgulho, - entregue à prática do pensamento abstrato e a uma labuta rigorosamente metódica - essa transformação vital também acabou por desabar, essa nova forma de vida perdeu num instante seu nobre e elevado sentido; arrastou-a de novo a viajar por lugares desconhecidos ao meu lado, fazendo surgir ao final de tudo novas dores e novas culpas. Foi assim em praticamente toda a vida, cada vez que acreditava estar no caminho certo via ruir um ideal, cada novo acontecimento era precedido por um silêncio e um vazio cruéis, por um mortal isolamento e ausência de relações, um triste e sombrio inferno que de novo tinha de enfrentar. Não há como negar que após cada uma dessas perturbações no final sempre lhe restava algum proveito, talvez até um pouco mais de liberdade, de profundidade e também de isolamento; um pouco de incompreensão e frigidez também fazia parte. Olhando do ângulo burguês, sua vida era, de um a outro desses abalos, uma permanente descida, um afastamento cada vez maior do são, do normal, do permitido. Ao longo de alguns anos ficou sem trabalho, sem família, sem lar; estava à margem de qualquer grupo social, sozinha, sem o amor de ninguém; inspirava suspeita a muitos, estava em contínuo e amargo conflito com a opinião e a moral públicas, e embora não continuasse vivendo na esfera “quase” burguesa, era, todavia, por sua maneira de pensar e de sentir, uma estranha em qualquer mundo.
     Religião e família careciam de significação para ela e nada mais lhe importava, a presunção da ciência, das profissões, das artes lhe causavam ao mesmo tempo admiração e asco; seus pontos de vista, seu gosto, todo o seu pensamento, - que em outras épocas brilhara como pessoa bem conceituada - tudo estava agora abandonado e embrutecido e causando suspeita a muita gente. Se em todas as suas dolorosas transmutações adquirira algo de indizível e imponderável, caro tivera de pagá-lo, e em cada uma delas a sua vida se tornara mais dura, mais difícil, mais solitária e perigosa. Na verdade não tinha nenhum motivo para desejar a continuação deste caminho que a conduzia a atmosferas cada vez mais rarefeitas. Ah, sim, ela já conhecia estes acontecimentos, essas transformações que o destino reserva a todo mundo, até aos mais difíceis de contentar; conhecia-os demasiadamente bem. Teria de voltar a sofrer tudo outra vez? Todo aquele tormento, toda aquela necessidade, todos aqueles olhares de indignidade e pouco valor do seu próprio eu, toda aquela terrível angústia diante do fim, todo o temor da morte? Não seria mais prudente e simples impedir a repetição de tanta dor e sair logo de cena? Certamente, seria mais simples e razoável. Não, não parece haver nenhuma força no mundo que pudesse impedi-la do encontro com os horrores da morte, o ter de passar outra vez por uma nova forma, uma nova encarnação, cujo fim não seria a paz e o descanso, mas sempre uma nova autodestruição ou o limbo. 
Embora o suicídio fosse estúpido, covarde e mesquinho; embora fosse uma saída de emergência difamante e vergonhosa para fugir de tantas dores, qualquer saída, ainda que a mais desonrosa, seria de desejar-se intimamente; não se tratava de nenhum drama de nobreza e de heroísmo, assim estaria ela diante da singela escolha entre uma dor passageira e leve e um sofrimento infinito e indescritível. 
     Estava afinal decidida. Porém, no último instante, no derradeiro momento de consciência, no segundo final, brilhou um pensamento com a rapidez de um raio. Uma lembrança surgiu, brilhou por um momento e se extinguiu, e o sono caiu pesado como uma montanha sobre sua cabeça, mas ela resistiu. Não há pressa. Sua resolução de morrer não era o produto do humor de uma hora de descontrole, era um fruto maduro e são, que havia amadurecido lentamente até atingir a plenitude, embalado pelo vento do destino cujo próximo movimento haveria de jogá-lo ao chão. Era a inspiração de um trauma antigo que passara de pai para filha em flashes incontroláveis. Do nada se lembrou que tinha em sua caixa de remédios uma droga excelente para diminuir dores de todo o tipo, mas não servia para suicídio; já havia experimentado em grandes doses há alguns anos quando o desespero se apoderara dela ao saber  que o pai chegou à beira da morte por um ato insano, nessa ocasião tomou o frasco inteiro, com o fracasso de mais uma tentativa ficou adiada a situação, superou por um tempo. Imaginou que esperar que chegasse aos cinquenta anos para tentar de novo parecia uma espera muito longa de suportar. Agora lhe faltam 9 anos para isto. Mas, dentro de um ano, de um mês ou talvez no dia seguinte, a porta possa se abrir novamente para ela. 
    Não é possível dizer que outra solução tivesse alterado sua vida. A sequência dos fatos a tornou um pouco mais indiferente para com suas aflições, um pouco mais descuidada ao conhecer os limites do suportável, mas isso era tudo, tudo o que aconteceu sem controle. Outros acontecimentos poderiam ter efeitos mais duradouros se trouxessem satisfação para o seu ego. Mas de um momento para outro, já abnegada e agradecendo ao seu destino, com desprezo e desdém pelo dissabor de suas ações - que ao seu ver, não correspondiam em absoluto à disposição, necessidades e objetivos específicos da sua vida – se frustraria mais um pouco e teria de lidar com as lembranças por mais algum tempo. Todavia, o que mais ocupa agora o seu pensamento é a alucinação de permanente solidão na escuridão – uma decisão tomada há tempos. Mas, no entanto, compreende muito bem, - no íntimo do seu ser - que o chamado permanece, o convite à loucura, a exclusão da razão, a escapada aos incômodos da convenção para entregar-se a um mundo de altos e baixos que beira a anarquia; não é fácil, não é pleno e não tem a estética desejada no seu mais lindo sonho com espírito de grandeza; outrora, tão bem incutido a cada dia da infância distante.

sábado, 23 de abril de 2016

Magia Do Luar

     Na noite do dia 21 de abril o céu estava limpo e a lua cheia, o seu brilho intenso marcava o prenúncio de tragédias iminentes; maré alta, afogamentos, desabamentos, revelações de amores intensos e ódios amargos – sem contar, as experiências imaginárias de cada um com a magia romântica do luar.
     Mas e daí?, alguém poderia perguntar, e se ninguém perguntasse eu mesmo perguntaria e responderia: que coisa mais banal, esse mundo ou qualquer outro que desconhecemos, comum ou talvez não, onde alguém sente um aperto no peito, nem que seja por um momento, e olha ao redor com atenção e continua parado absorvendo experiências noturnas.
      A porta range nas dobradiças, a noite não é fria e nem quente, paro um pouco, já do lado de fora, e me acostumo com a claridade mínima. Eu gostaria da escuridão total, mas para isso eu teria de voltar ao ponto de partida e recomeçar do zero, mas isso me parece impossível na atual circunstância da vida. Dou mais dois ou três passos e me aprofundo, até marcar o meu novo ponto de partida para uma nova experiência.
     Volto-me para a porta e vejo o corredor repleto de ideias até a metade, porque seria pedir demais que ele estivesse tomado por todos os cantos até o teto. Descubro que o tom azul-pálido que ilumina o céu e a terra é capaz de produzir mais loucura do que medo, e assim prossigo com o olhar altivo e as mãos vazias.
     Paro os pensamentos por um segundo e tento respirar fundo, mas como sempre acontece, não consigo, sinto um enorme desespero por causa disso.
     Olho outra vez para a porta entreaberta que ficou lá longe e me convenço de que não haverá novas perguntas. E para falar a verdade, se houvessem, eu não saberia o que responder, porque me vejo perplexo diante da mesma conclusão que sempre volta mais forte.
     Então me ponho a imaginar como seria, se eu soubesse desenhar e alguém me pedisse um retrato seu. A resposta viria rápida: não conseguiria nem que fosse com traços simples. No máximo ficaria limitado a um risco, a uma simples tentativa de intenções de traçar no papel uma imagem perdida no tempo. E esse pseudo-desenho que nunca existiu seria como uma espécie de arrependimento, uma declaração de que não a conheci o suficiente para poder desenhar uma imagem fiel aos seus traços físicos.
      Certas coisas quando ditas de outra maneira, poderiam expressar o fato de nunca termos conseguido construir um enredo em comum e consistente. Isso parece bem simples. Mas ainda há tantos pontos difíceis para se apoiar e ter convicção para acreditar nisso.
     Além de todas as dificuldades que chegam no dia a dia seria preciso que eu fosse dotado de uma memória poderosa o bastante para guardar tantos detalhes, ou cada particularidade dos seus trejeitos depois de tantos anos - para desenhar, riscar, rabiscar.
      O horizonte está vazio, quieto e sem surpresas. No entanto, por mais estranho que possa parecer, desta vez o silêncio não apenas me impacienta como até mesmo parece me tranquilizar. Essa circunstância me traz a serenidade, que por sua vez reflete uma nova dimensão ao meu perfil, outrora contraposto ao fundo do céu e da lua brilhante, isso ainda faz meus olhos cintilarem com o fogo do ódio e da paixão.
      Continuo assim por um bom tempo. De repente, me dou conta de que não entendo o que penso. Volto ao princípio de tudo e começo de novo, mas não consigo. Percebo então que estou muito tenso, com várias partes do corpo em contração, em especial o pescoço e o ombro esquerdo. Eu rio de mim mesmo ao descobrir o motivo do incomodo: toda a minha atenção deixara de ser da lua maravilhosa e se voltara para você. Não, não é justo. Ninguém de bom senso se preocuparia com algo assim tão distante no passado. Talvez alguém me chamasse de louco se soubesse o que eu penso. Poderia pensar que lá dentro tivesse algo extraordinário ou, quem sabe, trivial, e ao acaso, olhando de rabo de olho, houvesse algo estranho demais nos pensamentos para ser chamado de comum. Melhor deixar essas tolices de lado e parar de fazer estardalhaço, pois me sinto cada vez mais ridículo ao tentar tirar conclusões definitivas sem testar as coisas antes. Agora sou eu quem arrisca um olhar, mas não é de rabo de olho, é firme e com um grave desvio de cabeça para a direita. E então eu a vejo. Está com os olhos fixos em mim e se mantém assim por algum tempo. A distância entre nós é suficiente para que eu perceba que o seu nariz tem contornos parecidos ao meu. Volto a olhar a lua e ficamos assim por um longo instante. Passa um tempo e agora é você quem se vira e olha o corredor das minhas ideias deixadas para trás. Aponta para a escuridão e prossegue no jogo como uma criança encantada com o brinquedo novo que acabou de ganhar. Arqueia para cima de mim e forma o início de um sorriso. Parece uma coisa tão sem importância, tão boba, e de repente, sem que eu possa dominar, abre-se um fluxo dentro de mim para lhe receber: uma trilhazinha estreita, tímida, mas capaz de fazer disparar o coração e propor a imagem de um afortunado a olhar sempre para frente como se jamais houvesse vida antes e depois.
       Eu a vejo, pensativa, séria, examinando um ponto indefinido no corredor das ideias, das minhas memórias. Não me movo e continuo a olhar para o seu perfil. Agora estamos sorrindo, perdidos um no outro, mirando como se nada mais existisse no mundo, como se a nossa vida se resumisse a isso. Se alguém me pedisse uma definição menos absurda, eu não saberia como dá-la. Mas nunca deixo de pensar que o instante de olhar a lua ao seu lado, seja qual for o significado, é um desses mistérios infinitos do Universo que colocam dois pares de olhos fixos um no outro para tentar se conhecer melhor e, pouco a pouco, entender para depois penetrar e dominar. 
      Eu acompanho o movimento das suas mãos, é como se elas me dissessem, fique quieto, fique aí, não diga nada, não queira nada, não pense em nada; eu adivinharei o que você precisa; deixe os detalhes por minha conta; nem sequer viva, eu farei por você; acompanhe os movimentos das minhas mãos, com todos os seus sentidos e por sua existência inteira sob a luz da lua encantada. Agora está tudo em paz e o ódio amargo desaparecerá lentamente dos seus olhos.
       Ela me beija cruelmente por segundos, se vira de costas e caminha devagar. A minha respiração vai se amainando, os pensamentos se estabilizando e ficando mais suaves, profundos, até o limite possível de lembrar que um dia o peito estava apertado.
      De repente, ela volta e se coloca ao meu lado, segura a minha mão enquanto somos banhados pela luz da lua e diz:
       “Agora está tudo bem?”
      Fiz que sim com um aceno e demos mais dois passos à frente e ela continuou:
      “Nós comemos, bebemos e cuidamos das nossas coisas, agora vamos encarar um novo desafio? É o destino de cada um”.    
      Fez-se um longo silêncio, durante o qual nos olhamos sem expressão definida no rosto. Ela suspirou, largou a minha mão e retomou a caminhada passo a passo até sumir na escuridão. Eu passei pela porta e retornei ao corredor, me perdi apurando os sentidos. Tentei modificações, novos modos de agir, anseios e movimentos. E aos poucos fui ampliando o olhar para as pequenas coisas, e desta forma chegando às maiores e depois de volta às pequenas, juntando tudo para depois separar - e esperar para o que desse e viesse.
     Mas e daí?, alguém poderia novamente perguntar, e se ninguém perguntasse eu mesmo perguntaria e responderia: que coisa mais banal essa narrativa de sensações que ocultamos ou não queremos entender, parecem comuns a cada um, ou talvez não. Alguém sente um aperto no peito, por um instante, olha ao redor com atenção e continua parado absorvendo todas as experiências do destino, - imaginárias ou não - proporcionadas aos sonhadores pela magia do luar de abril.