segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Aconteceu em Vinhedo

      Você se lembra dos beijos e carinhos que trocamos lá no parque da uva em Vinhedo? Você se lembra da caminhada pela trilha em meio aos arbustos e os patinhos deslizando no lago cinzento? Você se lembra que guardou as fotos que tiramos de rostinhos colados pouco depois do pôr do sol no céu avermelhado? Você se lembra do chafariz e da bica de água cristalina?Eu acredito que a nossa energia em cada toque, em cada olhar e em cada expressão permaneceu naquele lugar para sempre. Por isso cá estou novamente tentando exprimir alguns sentimentos para cair na real depois da tempestade. E se acaso durante essa explicação eu tiver a necessidade de deixar de ser nostálgico e passar a ser duro com as palavras, espero sinceramente que não se sinta ofendida. Pois, posso dizer que, acima de qualquer outra coisa, a lembrança de tudo ainda está muito presente. No entanto, a necessidade interior de expor tudo assim, deve ser atendida da mesma forma quando a gente sente vontade de dizer um palavrão depois de uma martelada no dedo. E, imagino cá com meus botões, que, a partir daqui, todas as ponderações parecerão por demais supérfluas para serem entendidas por você ou quem quer que seja. 
      Fiquei imaginando o quanto seria importante conversar com você sobre isso, apesar que reconheço, como sempre foi, que nada de útil você consiga enxergar em minhas palavras. Muito menos algo que modifique seu gênio indomável - esse mesmo gênio que nos levou a longos silêncios, que agora vejo o quanto foi difícil superar. Mas, por favor, apenas entenda, sei que você também gosta de refletir sobre tudo o que tem dificuldade para lidar ou entender, e procura enxergar o outro lado das coisas: olhando lá atrás, aqueles momentos complicados  não lhe pareceram como um deja-vu? Depois de pensar e repensar algo chegou a mudar em sua opinião? Um  cantinho mais profundo do seu ser não se alterou enquanto estava triste? Poxa vida.... Vê agora no que eu me tornei, ou como são cruéis as rusgas que levamos adiante para tentar abafar o sentimento interior que nos traz uma contradição permanente? Isso parece uma doença que confunde a nossa alma e os desejos mais primitivos. Ou, então,faz uma confusão em tudo que julgamos correto, trazendo uma sensação que não podemos entender e nos faz perder o melhor dessa vida aos poucos, quase que imperceptivelmente. Ahhh, se fosse possível enxergar além dos curtos limites dos velhos preconceitos do passado, talvez um novo saber indicasse o caminho certo vindo dos pressentimentos e,  com isso, haveria mais confiança para suportar as tristezas. Do nada, algo novo poderia surgir, algo que fosse completamente desconhecido a você ou a mim: onde os sentimentos que se calaram antes, por uma desastrosa interpretação de sinais, fizessem tudo ao redor recuar e um enorme silêncio reinasse por dentro. Aí sim, viria a consciência que as tristezas do passado foram momentos de aprendizado, ás vezes dolorido e às vezes de superação, mas apenas aprendizado. Ainda que tivessem sido um desastre causador de paralisia, mesmo assim foi possível sair sem se machucar demais. O meu mais sincero desejo é que a dor não estivesse mais lá para ambos - que já tivesse sido diluída nas memórias daquele tempo que se foi. A certeza é que é difícil saber o que exatamente  houve de verdadeiro naquelas motivações de conflito. Facilmente alguém poderia crer que nada demais aconteceu, no entanto, existem cicatrizes que mostram a cada dia tudo que foi transformado e o que ficou estranho dentro de cada um.. Muitas vezes a visão do que tem adiante chega devagar e assim novamente tudo se sucede como um grande acontecimento que renova a empolgação que estava esquecida num canto. Quanto mais se puder olhar com um viés de neutralidade e paciência, mais profunda será a conquista pelo destino tão desejado anteriormente. E quando ele vier, se vier, – isto é, quando a porta se abrir para chegar aos outros – com toda certeza estará tão próximo e familiar que nem haverá conta do quanto demorou a chegar. Eu acredito nisso. É preciso – é uma evolução que aos poucos desenvolve o sentido lógico de toda uma vida, são as sensações de recompensa esperadas há muito tempo. Você poderá reconhecer com isso que a vida certa ou errada está em  nós, nas atitudes que praticamos. Muitas pessoas não percebem que agir assim é algo simples, e continuam no mesmo passo. Porém, ao darem de cara com algo estranho e confuso recuam diante da novidade. Por isso os movimentos enganam quando não se observa uma solução tão próxima que não chega sem uma ação efetiva e definida. Podemos nos enganar o tempo todo quando o melhor seria admitir que fomos deixados sós, e que todos os pontos que considerávamos apoios foram retirados e as escolhas se tornaram únicas. E a partir de então ficamos entregues ao insólito como se estivéssemos sendo arrastados pelos ares e caindo como uma pedra despedaçada. É claro que nesse momento a cabecinha criativa inventa uma mentira enorme para acalentar o estado dos sentidos, fazendo com que todas as medidas, distâncias e transformações se alterem na conveniência daquele que se torna solitário, com a esperança de que tudo irá logo mudar. Para isso é preciso força. No fundo, mas bem lá no fundinho mesmo, a única força que se dispõe é a de aceitar a existência, e que tudo é possível dentro dela, para o resto tudo vira insegurança. Essa ação é exigida em determinados momentos, porque não é só a falta de interesse que faz a relação interpessoal se repetir numa infindável monotonia, em muitos casos é o medo do novo, do cansaço e, diante disso, ao não nos sentirmos bastante fortes recuamos. Somente quem se sente preparado, quem não exclui nada com antecipação, poderá viver uma relação com alguém como algo empolgante e vivo; indo até o fundo da existência que une a ambos ao mesmo interesse.  
        Pense alto, pense que mais que os erros que condena em você e nos outros, e aparecem num ciclo contínuo na esteira da vida que leva, grande parte da culpa de tudo é dessa criação submetida à vontade alheia, que pode tornar a qualquer um uma pessoa meio ausente das conexões reais do tempo e da vida e ainda acorrentam a costumes cheios de regrinhas. Sabe de uma coisa? Muitas vezes um fato desagradável provocado por alguém que consideramos imprestável, que fez parte por algum tempo do destino que era o sonhado mas se tornou indesejável,  foi uma necessidade que não se podia evitar. Esse momento acabou acolhido pela vida como um aprendizado dolorido, no entanto, essa vida não se tornou limitada pelos nomes dados a essas atitudes e sim à pessoa pelo caráter destrutivo. Mas logo em seguida a esse pensamento é possível retornar ao ponto inicial da própria consciência e assumir que as escolhas feitas foram livremente com opções de risco calculado. Se considera que sua vida está repleta de tristeza, sacrifício e falta de reconhecimento por causa disso, eu posso dizer o mesmo da minha. Ou até que ambos erraram. Mas se fosse diferente, jamais poderia ter encontrado palavras certas para exprimir os sentimentos contraditórios pelos quais passamos ou como ainda permanecem bem vivos na minha imaginação desde a passagem por Vinhedo.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Incongruências e Fantasias

           Estou sozinho em casa e me sinto completamente doidão. 
       Tive uma visão rápida pelo canto do olho que desapareceu quando fixei o olhar.    
       Não adianta tentar explicar, pois talvez você não entenda que eu preciso me libertar das incongruência e fantasias criadas pela vida - acho que nesse estado fico emocional demais. São as vibrações cósmicas e sonoras que me tornam reflexivo - ainda que eu me sinta completamente podre por dentro, bem mais inchado que um cadáver esquecido na praia e totalmente fora do meu juízo. Talvez fosse melhor caminhar antes de chegar ao caos ou de encontrar o rumo certo para findar a dor. Mas, se eu continuar assim, nesse estado letárgico permanente, com certeza, meu fim será trágico e solitário. 
       Olha... Posso afirmar: Já nem sei mais se tenho limite, pois eu vejo luzes de todas as cores e figuras disformes deslizando pelas paredes. Como posso buscar a harmonia convivendo assim? Alguém bate à porta, são mãos que tentam me alcançar. Estou isolado e preciso me levantar, mas não consigo me mover.
         Do nada, uma fumaça roda pelo ambiente e sobe do chão ao teto num vai e vem misturada ao cheiro de mofo persistente. Algo assim me faz refletir sobre as situações que me perseguem pela vida. Uma delas é o encontro com personalidades que eu nunca desejaria ter encontrado e, se eu pudesse, cruzaria a rua ao observar ao longe a aproximação.
       Talvez, por eu estar assim, você diga que tem muita gente problemática por aí, gente que é de difícil convivência.  Eis aí uma nova lição a cada dia que cada qual tem que aprender de si mesmo!
       E novamente você diria diante da cena: My God! Tem cada figurinha estranha neste mundão de Deus!
      Talvez em outros tempos eu já tenha sido aquele tipo de pessoa introvertida, meio calada, que só ouvia e nem se importaria com isso; mas de vez quando poderia soltar pérolas que você riria até chorar. Depois acho que mudei e virei o tipo falante, exibido e egocêntrico. Quem nunca topou com a pessoa nervosinha que gosta de achar defeito nos outros e que nunca admite estar errada? Eu fui assim também! Um dia me tornei aquele ser indecifrável com a mistura de vários tipos dependendo da fase da lua ou da vida.  É assim que você me vê agora?
       Como é terrível lidar com gente como eu ou como você! Pode ser um enorme exercício de tolerância aos próprios limites. Ainda mais se for algum tipo com colapso nervoso quando se sente sob pressão ou é provocado à exaustão. Isso parece mais sincero ou genuíno para você? Estranho...Tento de verdade compreender o que nos motivou a comportamentos desta natureza um com o outro. 
Muitas vezes me coloco em seu lugar, apenas em alguns casos quando julgo conveniente, é claro!
     Por ainda não conseguir entender a necessidade que algumas pessoas têm de chamar tanto a atenção pelo lado ruim da conduta eu retorno ao meu mundinho. E fico pensando como reagir, dar o troco, ignorar ou perdoar sem punição - ainda que esteja praticamente amarrado em outra dimensão do tempo / espaço.
       O bom senso diria que impor limites seria uma regra a ter seguido antes, mas isso nem sempre traria o efeito desejado, porque há quem se sinta ofendido ou injustiçado ao ser alertado do comportamento ridículo. Já aconteceu comigo, acontece agora. Então tento fazer de um jeito diferente para refletir sobre todas as situações inoportunas.
Novamente chega a questão de como eu deveria pensar e a conversa séria parece não bastar.
      Percebo então que os exemplos de situações concretas e dos desajustes não é coisa fácil de lidar - uma tarefa muito árdua quando se tenta o tempo todo demonstrar o quanto o comportamento influencia negativamente no ambiente e na vida da gente e dos outros.
      Onde foi que minha fértil imaginação se perdeu me fazendo sentir tão doidão ao ponto de não enxergar isso? Seria essa febre que me consome por dentro sem parar?
      Eu fui premiado com rancores e frustrações por ser conivente e impotente? Essa é a minha vitória perante seus olhos?
         Que droga! Parei de pensar no momento crucial. Acabou a música  dentro da minha cabeça quando o sonho se foi e eu me tornei assim, bem antes que pudesse repetir o mesmo refrão mais uma vez e tentar me libertar da fantasia criada pela ação da vida em repetição. Isso é tão triste...

domingo, 13 de agosto de 2017

Eu nunca pensei que precisasse tanto de você

 Menina do meu sonho, nós um dia nos encontraremos para um novo passeio, com o pensamento luminoso e o coração puro. Nós passamos meses juntos, mas eu amei tudo aquilo. Minha vida parecia um furacão com tantas idas e vindas, e você sabe que eu não tinha paz.
     Quando nos vimos pela última vez, você sequer imaginou como as coisas terminariam. Depois disso ficamos longe e você fugiu.
      Hoje, olhando você assim tão bonita na internet e vestida nesses trajes diferentes, aliás, nada parecidos com os daquela época, lembrei-me de muitas coisas.
      Sabe a sua timidez? Ela ainda persiste e acho que você a herdou de alguém para a vida toda. Apesar disso, você está muito melhor agora, e poucos veem isso, por que você se refugiava em seus dramas.
      Quanto a mim, você sabe: para muitos eu sempre fui ácido e sarcástico, mas era tudo defesa. No fundo das minhas polêmicas e reivindicações sempre esteve um cara assustado e insatisfeito com a vida. E, diga-se de passagem, eu me intoxiquei de muitas coisas, principalmente das minhas razões e certezas absolutas. E se hoje eu sei disso, entendo com clareza que era tudo para fugir de mim mesmo. A minha vida era como flashes luminosos que necessitavam de admiração.
       Você sabe que em nossos momentos bons eu fui criativo, já nos maus, eu era destrutivo.
       Tenho total consciência que ainda hoje você vem vivendo sob o peso da minha sombra, mesmo depois de todos esses anos de incerteza. Eu entendo que você não merece isso, por que agora é uma pessoa melhor do que eu. Alegro-me em imaginar a sua vida bela completamente refeita, e sei que não partirá tão cedo da minha lembrança.
     Quero que saiba que não tenho raiva de nada.
     Quando a minha ilusão foi derrubada, o meu corpo sentiu e meu coração se partiu em pedaços, mas isso não me matou e nem matou a minha inspiração.
     Posso afirmar que ainda recebo tantas coisas boas daqueles que se compadeceram comigo. E essa energia me faz cada vez mais transformar as minhas palavras em sensações reconfortantes, talvez por isso a criatividade nunca acabe.
     Se agora eu pudesse, seguraria a sua mão como antes, e caminharíamos abraçados, admirando com empolgação o céu de estrelas. A vida pode não nos permitir isso nesse momento, mas as palavras me levam ao infinito e me fazem sonhar essas coisas.
      Eu sei que compreenderá bem o que há aqui, por que você tem bom coração. Tenho certeza que na ocasião certa falaremos sobre tudo isso, talvez seja durante o sono do seu corpo ou via energia cósmica ou telepática.
      Um dia, num lugar especial, nos reencontraremos para uma reconciliação espiritual, pode esperar. Nessa ocasião eu abraçarei você e farei vários versos em sua homenagem.
      A novidade do momento é que você está tão bem vestida naquelas fotos do quintal. Continua a mesma pessoa tímida e com o olhar para o vazio, permanece em busca das coisas que nunca encontrou explicações - em busca de si mesma.
    Eu olho para essas fotos e a vejo novamente como a menina do meu sonho. Uma menina do sonho que se tornou uma pessoa do bem, uma pessoa melhor que eu. Creio que isso vale para a sua vida bem mais que a fama, o sucesso ou o reconhecimento que espera por seus esforços. Você sabe que no fundo tudo isso é ilusão.
    Menina, nós andaremos de mãos dadas novamente como antes, e isso será maravilhoso. Você me sentirá com o seu coração e não mais com a cabeça, e então você verá a luz. Mesmo que permaneça de olhos fechados você saberá que sou eu, como se fosse um raio rasgando a noite para guiar os seus passos. Por que, um dia, eu aprendi como fazer a palavra virar luz. É como se fosse um presente para você.
    Menina do meu sonho não pense em mim no passado, pois eu estou no seu presente e torço por sua vida refeita e iluminada. Amo você mais do que nunca, e a sua imagem estará para sempre guardada em meu coração, bem juntinho daquela nossa canção especial, essa canção especial.
    Desejo que aquela trilha de estrelas que sempre salpicou de luz o nosso caminho na escuridão, agora guie o seu. E jamais se esqueça que para voltarmos a passear juntos, basta que o pensamento esteja luminoso e o coração puro.

Noite De Julho

      Lembro outra vez, como se fosse ontem, aquela noite de Julho em que abri o coração, talvez por saber que já havia perdido tudo definitivamente.
     Naquela ocasião eu lhe disse, mais uma vez, que me apaixonei logo de cara no dia que nos conhecemos. Previ que seria muito importante na minha vida e que, de certa maneira, poderia mudar a sua. Uma pena, mas só acertei na primeira parte das minhas previsões. A minha intuição falhou ao não saber medir o poder real que o amor surtiria na sua vida; e você logo fugiu dele sem olhar para trás, sem nunca ter tido certeza se era isso mesmo que queria; e eu fiquei esperando cheio de esperanças, recorrendo por meses a uma pilha de livros para passar o tempo.
      “Nunca ninguém se apaixonou por mim assim”. Comentou nessa vez, de pernas cruzadas numa cadeira de dobrar, com aquele olhar derrotado e muito peculiar, num tom meio melodramático e até certo ponto encantador, porque naquilo havia alguma sinceridade.
       Quando me lembro disso começo novamente a chorar. Choro porque o tom se revelou sombrio, bem diferente da sua voz baixa de realeza, que usava calmamente quando percebia que a conversa ia além do ponto desejado.
        Choro por perceber que os anos se passaram e pouca coisa mudou em você; vejo que tudo o que considera realmente importante se manteve, e a minha esperança sempre ressuscitada foi inútil. Infelizmente, o seu egoísmo, o seu medo, a sua falta de atenção, a sua indiferença – que é a forma mais cruel de desamor – ainda persistem. Mesmo assim me lembro que um dia confessou sua paixão por mim, disse que eu era uma pessoa importante na sua vida; ficou em suspenso, quase hipnotizada, pois, ninguém jamais havia observado e conhecido tão bem sua personalidade quanto eu. Certo, agora concordo com tudo. Mas esse tudo pertence a um lugar que já não existe mais, pois você andou para frente como sempre desejou.
        Porém, precisou gastar meses negando o que sempre pareceu evidente a todos; sentimentos arquivados do seu passado distante, do qual falava sem máscaras ou pudor.
        E, no entanto, se em algum tempo chegou a sentir medo do que nos envolvia, foi porque negou a esse sentimento erguendo entre nós um muro enorme de impossibilidades, mesmo para mim, que nunca acreditei no impossível, era difícil transpor tal barreira.
        Agora que tudo acabou parece fácil olhar para o passado e ver nele uma história de amor que poderia ter dado certo, uma história alimentada por minha vontade louca de estar com você e destruída aos poucos por seu medo devorador.
         Eu sei que minhas lágrimas ainda chegam até aí através destas palavras. Você me conheceu muito bem, e sempre soube reconhecer o meu estado de humor através da menor inflexão da minha voz. Sempre soube que não consigo disfarçar a tristeza que carrego, ainda que em momentos assim ria da situação imaginando que tudo poderia ter sido mais suave.
        Prefiro não incutir culpa, e, sobretudo, em mim, porque já sofri por você o suficiente; digo, com grande alívio, que ao menos não estou me sentido gelado da cabeça aos pés e nem as mãos tremulas como naquela noite de Julho quando os laços se romperam.   
       Você sabe que eu ainda choro, não sabe? E minhas lágrimas soam como num desabafo, ou uma tentativa eficaz de tirar de vez o que resta deste amor aqui dentro. As lágrimas servem para lavar a alma e tentar me livrar da presença da sua imagem que me sufoca.
       Certa vez me perguntou: “Como uma pessoa pode deixar todos seus projetos no meio do caminho para se relacionar com alguém muito especial, e de uma forma séria e intensa?”. Falava de si na terceira pessoa, como faz alguém que não deseja se comprometer indo direto ao ponto, e me pedia soluções; uma luz para o seu caminho. Você que, até aquele momento, já tinha vivido muita coisa nessa vida e se mostrava tão inteligente, acabava me pedindo conselhos como se estivesse perdida no seu próprio labirinto e fosse eu um sábio a orientá-la.
        Respondi que tudo dependeria do tipo de relação que queria manter. Talvez, por sua natureza, nunca soubesse fechar as portas e nem recusar o amor que lhe era oferecido, porque tinha um déficit de atenção desde a infância; era sempre quem ficava em segundo plano para o seu pai.
        Esse déficit de atenção desta fase tão delicada e frágil nunca foi reposto. E, além disso, herdou do pai o jeito perverso de ser e brincar com os sentimentos das pessoas. Fazia como se tudo fosse um jogo de perde e ganha simultâneo aos interesses de cada momento. Esse seu ar meio dócil e ás vezes educado fez com que as pessoas a associem imediatamente à sua mãe, ela sim, pessoa gentil, compreensiva e de bom coração. Esse ar engana, pois esconde a sua verdadeira índole. Todos sabem que é parecida com seu pai. E isso é de uma profunda ironia, porque aquela outra pessoa, que também é fisicamente igual ao seu pai, foi quem herdou o coração generoso da sua mãe e a infinita paciência que ela tem com aqueles a quem ama e protege.
        Eu não demorei muito a perceber que você nunca iria sair do seu casulo, porque vive nele como se fosse um labirinto com caminhos marcados. Sei que não é o único ser humano que vive assim, e cada ser humano está destinado ao próprio caminho. O que nos distingue uns dos outros é essa vontade ou capacidade de mudança – a coragem.
       Quando um dia senti que o amor que sentia por você era o que me prendia na ratoeira, e acabei preso ao caos e ao lodo, olhei para o lado e percebi que a armadilha na qual você se prendia era a pior de todas.
      Vi com clareza, através desta situação, aquilo que nos faz entender a dimensão das nossas fraquezas: as fraquezas alheias.
      É certo que vivi durante muito tempo preso nessa armadilha com sua imagem presente em cada esquina, mas isso já não é mais assim; alguém me acordou e eu enxerguei o universo se abrindo diante dos meus olhos. Foi como começar uma nova vida longe de tudo. O seu aparecimento fugaz foi um chamamento à minha antiga forma de pensar, na qual erroneamente projetei um amor impossível que passou – uma fantasia. E essas coisas marcam a gente.
     Sabe? Há muitos lugares que nunca mais quero voltar, e, sua rua, sua casa, seu bairro, são alguns deles.
     O seu silêncio me fez atravessar dias e dias como uma flecha que nunca alcança o alvo, e eu me desliguei de quase todas as alegrias porque me entreguei a algo absurdo que apenas serviu para alimentar mais e mais a minha veia literária.
     Alguns já sabem que aquilo que nos alimenta também pode matar. O meu sentimento por você matou muitas coisas boas em mim. No entanto, sei que um dia ouviu ou leu minhas palavras e delas tirou algum sentido para sua vida. Talvez em algum momento de lucidez tenha conseguido entender essas palavras, mas nunca soube ouvir de verdade o seu coração.
     Sabe de uma coisa? Quando uma pessoa se habitua a agir sem integridade, a verdade que se revela pode se tornar uma arma letal, e enfrentá-la é quase como desafiar a morte. Lembra quando falei do significado do livre-arbítrio? Aquela capacidade milagrosa que cada ser humano tem de escolher seus próprios caminhos e mudar para melhor. Pois é... Eu pedi que usasse desse livre-arbítrio aliado à integridade, lembrou agora? É um princípio digno que rege a conduta das pessoas, e que também é possível aprimorar cada vez mais. Quando eu falava essas coisas o seu tom ia enfraquecendo e sua atenção ficava distante. No entanto, eu tinha certeza que você ouvia as minhas palavras e as captava do seu jeito.
     Em dado momento em que não se espera mais nada das pessoas é que elas morrem em nossos corações, lembra que também falamos algo assim? Mas agora é diferente. Já não se pode esperar mais nada. Sabe por quê? Porque, no fundo, não há o que dar ou receber. Nem a mim, nem de ninguém. Faz bastante tempo que o seu coração se fechou para o amor. Talvez parentes, filhos – se um dia os teve ou tiver – consigam resgatá-la da armadilha em que vive. Mas nunca alguém como eu. Nem eu, nem outra pessoa. Ainda não há quem tenha alcançado esse poder, porque você não possui o que se conhece como dom da entrega. Entregar-se ao amor é um dom, sabia? Para alguns isso pode parecer uma fraqueza, mas é, acima de tudo, uma dádiva de Deus. O dom de partilhar, o dom de interagir, o dom de respeitar o próximo, todos esses dons juntos nos leva ao que chamamos generosidade - graça. Palavras extremamente misteriosas para você, talvez porque, infelizmente, não me pareceu que já tivesse vivido envolvida com alguma delas. Porém, eu sei que poderá encená-las com enorme maestria, como qualquer artista do tablado. Poderá até transmitir a sensação que vive bem, mas são apenas ilusões, porque de novo, à primeira contrariedade, voltará ao seu labirinto escuro, onde reina a frieza de quem controla a própria realidade na solidão, sem, justamente, admitir que algum outro possa fazer parte dela.
        Ainda imagino muitas coisas de você, até que já tenha conseguido mudar um pouquinho. Ou que viverá para sempre assim, escondida em si mesma, usando o bom sentimento de quem lhe oferece amor, de quem dedica tempo em troca de falsas promessas ou declarações sem sentido. Aguentando de você meias verdades, equívocos e danos. Nem posso dizer que você seja imoral, reconheço aqui que talvez seja amoral. Ou, quem sabe, ainda pior que isso: sem caráter. Entenda bem: não é que não tenha caráter, veja direito as coisas hein; simplesmente você nasceu assim e assim morrerá.
      E porque sei que tudo se perdeu assim, mais uma vez abro meu coração e deixo que leia meus pensamentos como se estivesse aqui diante de mim, como naquela noite de Julho.
      Nem imagino o peso que poderão ter essas palavras em sua vida. Porém, afirmo que mais ninguém me verá como você, ninguém verá você como eu. Houve um encanto único e muito nosso naquele tempo, que nos fez ultrapassar muitas pequenas barreiras. Houve em algum momento um cuidado em relação ao outro, e assim nos mantivemos próximos, apesar dos nossos interesses tão distantes. Ah, a forma como dizia gostar de mim me desarmava, e isso, aos meus olhos, atenuava todos os seus defeitos.
       Bem... E isso é tudo por enquanto. Não consegui arrancar mais nenhuma palavra sua depois da última vez. Talvez tenha chorado como eu, ou nem tenha se importado tanto assim.

Mas creia, não faço de propósito. Todas as lembranças parecem mais fortes quando chega qualquer noite de Julho em São Paulo, São Pedro ou na serra do mar. Embora, muitas vezes, preferisse não tê-las como se tudo tivesse acontecido ontem.

sábado, 12 de agosto de 2017

Aconteceu em São Pedro


     Acho que foi na porta de um shopping Center no centro de São Paulo que nos conhecemos. Eu pedi um café expresso, ela um capuchino – ou talvez ninguém tenha pedido nada e ficamos apenas conversando. De qualquer forma, prefiro dizer que pedimos cafés e escolhemos uma mesa perto da janela. Logo fomos servidos e trocamos algumas palavras sorrindo – aquele tipo de sorriso misturado com insegurança e timidez.
    Na verdade, talvez nós pudéssemos ter nos conhecido numa fila de banco, na qual a espera e a falta de paciência levam muitas pessoas a conversar. Ou em alguma dessas festas estranhas na serra da Cantareira pertinho da casa dela. Ou ainda, quem sabe, lugares semelhantes, onde servem porções de fritas e contra filé em fatias - aquele ambiente com meia luz próprio para namorados, onde a irmã dela e o namorado uma vez nos acompanharam sem serem convidados. Talvez fosse legal num bar escuro e enfumaçado onde tocasse jazz com saxofone, ou heavy metal com guitarras estridentes. É... Talvez! Poderia ser em qualquer local onde ouviríamos juntos pela primeira vez “November Rain do Guns & Roses”, que se tornaria a nossa trilha sonora predileta – (Poxa vida, nem gosto tanto do Guns, mas pode ser essa mesmo! Fazer o quê?).
     Não importa. A verdade é que não me lembro direito como aconteceu, porque simplesmente não teve tanta importância assim.
     O que me lembro é que nunca viajamos em férias para Argentina ou Chile, e nem passamos o final de ano num Cruzeiro pelo litoral brasileiro. Não tiramos fotos um do outro, e pouquíssimas juntos, e muito menos escrevemos declarações num tronco de árvore, tipo, “Eu te amo”.
     Saibam que eu acabei odiado pela família dela e ela nem conheceu o meu cachorro, que, tenho certeza, faria festa toda vez que ela me visitasse, por que ela gosta de cachorro e leva o dela para passear pela vizinhança - sempre com uma linda tiarinha na cabeça e roupinha sob medida feita em casa pela mãe dela.
     Nunca assistimos os clássicos de Hollywood, apenas aqueles desenhos e filmes antigos que dão sono depois de meia hora. Nunca paramos para discutir sobre o teor de qualquer daqueles filmes chatos. Por um lado, por não haver o que discutir de tão ruim que eram e, por outro, porque ela não parava de falar dos problemas de trabalho ou sobre como é maçante ouvir sempre a mesma ladainha dos familiares.
     Ela fez uma única vez fondue de queijo com pão italiano lá no Guarujá, e eu nem soube escolher o vinho que combinasse com aquilo, – sempre fui totalmente ignorante no conhecimento de vinho – mas ela trouxe a garrafa certa para a ocasião.
Nunca passamos a noite entrelaçados, aconchegados – dormíamos um virado de costas para outro, quase caindo da cama. Nem observávamos um ao outro enquanto dormíamos para sentir se aquilo poderia proporcionar algum prazer. Acho que poderíamos ter dormido de conchinha ao menos uma vez. (Que coisa mais insensível não ter sido assim, não é mesmo?).
     Talvez a relação não tenha sido como deveria, pois, com o passar do tempo, não permitimos que isso acontecesse. Não nos envolvemos o suficiente, acreditávamos que não éramos as “pessoas certas” um para o outro. Nem sequer nos conhecemos direito, pois escolhemos o pragmatismo para não perder tempo com quem pudesse ser indiferente.
     Em alguns momentos preferimos a simples troca de ofensas, ao invés da troca de carinho. Foram muitas e muitas noites com cara emburrada e mal dormidas quando deveriam ter sido de amor, sexo e muito bem vividas.
     A despedida aconteceu fora de tempo para ambos, estava à espera uma nova vida totalmente independente. Deveríamos ter aproveitado mais um final de semana, mais um mês, mais um ano, não deu.
     Deixamos tudo passar, esquecemos se foi bom...
    Agora nos mantemos distantes e solitários, imaginando encontrar alguém com quem ouvir “November Rain” outra vez - (Pode ser outra música, acho essa muito comprida e dolorosa?). Ou quem possa acompanhar alguns dias na cordilheira dos Andes e, depois de pisar nas águas geladas do oceano Pacifico, voltar para casa com um enorme sorriso no rosto e muita história para contar.
     Ela nunca percebeu que já tinha encontrado esse alguém, a oportunidade passou.

   Mas, de uma coisa eu me lembro bem, um lance marcante aconteceu em São Pedro. Foi numa manhã de sábado no começo de Julho. Passeando devagarzinho de mãos dadas admirávamos as árvores da praça principal, logo entramos numa sorveteria por quilo chamada Oasis, pertinho da Igreja Matriz – bem, nem lembro se aquela era mesmo a praça principal. Enfim... Eu escolhi bolas de sorvete sabor pistache e morango, e ela foi de creme e chocolate. Atravessamos a rua e nos sentamos em um dos bancos antigos que era bem desconfortável, feito de ripas brancas (já com a tinta descascando). Olhamos um para o outro, trocamos e destrocamos os potinhos algumas vezes, e sem trocar uma só palavra nos movíamos através de olhares e gestos que determinavam cada atitude. (Humm... Talvez tenha aparecido uma ou outra frase solta meio assim: “Eu dizia: adorei esse de pistache! E ela retrucava: não gosto muito de pistache”). Mas de resto era o silêncio e apenas aquele olhar. Não houve reclamações, nem reprimendas, tampouco exaltação; nada com duplo sentido ou má interpretação. Era apenas o sorvete nos unindo de uma forma que até então desconhecíamos. A derradeira cumplicidade aconteceu naquele instante; no beijo gelado, tipo selinho, descontraído e sem pretensão. Agora eu percebo que o começo do fim aconteceu em São Pedro, logo após a última gota de sorvete e o silêncio que se foi para sempre. 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Eu Te Amei...

    Eu te amei pra caralho, mas você foi tão filha da puta...
   A sua principal obsessão foi se manter assim. Por quê?
    Impossível a qualquer um adivinhar os seus motivos apenas num olhar, ou buscar numa única razão as suas escolhas. 
    Havia em você uma lógica: ter o limite curto para tudo. Foi ensinada assim e desenvolveu o melhor que pôde.
    Puxa vida... Que dom para ter opinião poderosa e sem margem para discussão! 
    Mas, no fundo, talvez se explicasse. Sempre houve algo que a incomodava: pessoas de personalidade.
    Um prenúncio de rivalidade logo surgia com gente determinada como você. 
    A cada ameaça, um novo conflito de opinião. 
    E se, depois de tempos, a decisão fosse refletir: eram dias até voltar atrás. 
    Daí em diante eram transmissões falhas e impossíveis de decifrar; enorme dificuldade na comunicação. 
   O humor ia virando em cacos e as forças se desgastando. 
    O seu ânimo cáustico prevalecia venenoso por algum tempo - 
alguém que chegasse para cuidar dos seus ferimentos acabava ferido.

    Rolando na cama veio a dúvida crucial, o silêncio da noite calou seus pensamentos.
   Ao amanhecer, em seu ar de interrogação, havia uma atitude de derrota que tiraria qualquer um do prumo. 
   Na noite seguinte novas tentativas para dormir e esquecer as incoerências - apenas isso.
   Ao primeiro questionamento, respostas ríspidas e sem sentido.
   Outras perguntas indo e vindo num jogo estranho de duplicidade no decorrer do dia.
   Ahhhh.... Você sempre soube que eu sabia de algo, mas tinha plena certeza do meu amor. 
   Era inevitável, o segredo não duraria...
   Que incoerência absurda uma pessoa ficar submetida a isso durante tanto tempo!
   Bom... Questionar-me sobre o que acontecia com você nem era mais a questão.
   Você despertou em mim sentimentos que eu desconhecia: provocação e revolta.  
   O coração, antes aberto e profundamente acolhedor, se fechou; endureceu pouco a pouco pelo jogo sem regras de boa convivência. 
   E a sua opinião continuava firme como diamante... Porém, sem alma e sem espírito. Nem o meu respeito e acolhimento se mantiveram. 
   Não havia motivo fundamental para persistir naquilo,  naquele tom de palidez que aos poucos tornava tudo cinza escuro.
   A minha luta pela verdade contra a superficialidade seria em busca do equilíbrio interior.
   Enquanto isso, você se equilibrava nos ares da própria certeza até a morte: e tanto fazia, certo ou errado, o que acontecesse. 
   Planejava em atitudes os acontecimentos, e em respostas sonolentas mantinha a porta fechada - afogava as boas intenções no nascedouro.
   Nada se aproveitava de bom que pudesse canalizar para transformar e trazer à realidade.
   E assim sair do pântano escuro da indiferença dada e recebida.
   Por fim, novas mentiras diabólicas e com histórias surreais, até o meu sonho se transformar cada vez mais em pesadelo. 
   O abismo não tinha fim - era tarde demais para lamentações. 
   Depois de ser colocado no vácuo a mente se abriu para entender melhor as coisas. 
   Engraçado como tudo ficou muito simples ao olhar, 
   Mas, olhando mais de perto tudo continuava misterioso demais para o meu gosto. 
   Não havia como defender, e nem o que explicar da perturbadora revelação - vida dupla, intenções desmedidas.
   O seu universo do “Eu faço o que eu quero na hora que eu quiser!” foi exposto. 
   Por quê tanta dedicação aos caminhos tortos com essa seriedade fake na postura? Era só a mim que tentava enganar?
   Engraçado como eu ficava sempre com a impressão que já tinha escutado a mesma conversa antes, mas nunca dava importância...

   Depois que tudo passou, o seu ego floresceu do fundo do poço para nova ilusão e sofrimento em alguém, com outros motivos gratuitos.  
   E quando esse alguém pensava que tudo estava bem, não havia sentido algum no encaixe das suas tramas.
   Qual das suas imagens seria a mais verdadeira? Existia alguma verdadeira? 
   De tanto pensar em tudo que nunca me afirmou com exatidão, ou tampouco desmentiu, o que me restou foi apenas o ponto de interrogação, . 
   Claro que eu deveria ter suspeitado desde o princípio que havia outro lado em suas histórias - eu me culpo tanto por isso...
   Eram tantos mistérios, novas transformações, traços mudados e pensamentos secretos...
   Em minha fuga constante, até um ponto desconhecido, permaneci ansioso e surpreso, mas nunca estive preparado para aceitar a sua realidade nua e crua. 
   Eu estava apaixonado, loucamente apaixonado e te amava pra caralho, mas você foi tão filha da puta... 
   Os seus poderes me desnortearam de um jeito que nada percebi; a sua personalidade não tinha belos contornos.
   Nunca dei a menor bola a conselhos ou sinais tão óbvios. Bem feito!
   O meu foco de atenção definiu o seu comportamento por dentro e por fora, ou nos caprichos que sempre prevaleciam.
   Nem o passar do tempo mostrou o último raio que poderia ser de esperança.
   Tudo outra vez se revelou em cheque enquanto penso nisso. Sempre em cheque e fora de contexto. Que ironia! 
   De verdade nunca houve base onde sustentar, exigir, ou, o que destruir - houve o nada.
   O nada tomou lugar e me manteve com a cabeça erguida, a espinha ereta e a mente quieta.
   Quanto a você não sei dizer o que aconteceu, no entanto, os fatos deixaram bem claro que:
eu te amei pra caralho, mas você foi tão...

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Magia Do Luar

     Na noite do dia 21 de abril o céu estava limpo e a lua cheia, o seu brilho intenso marcava o prenúncio de tragédias iminentes; maré alta, afogamentos, desabamentos, revelações de amores intensos e ódios amargos – sem contar, as experiências imaginárias de cada um com a magia romântica do luar.
     Mas e daí?, alguém poderia perguntar, e se ninguém perguntasse eu mesmo perguntaria e responderia: que coisa mais banal, esse mundo ou qualquer outro que desconhecemos, comum ou talvez não, onde alguém sente um aperto no peito, nem que seja por um momento, e olha ao redor com atenção e continua parado absorvendo experiências noturnas.
      A porta range nas dobradiças, a noite não é fria e nem quente, paro um pouco, já do lado de fora, e me acostumo com a claridade mínima. Eu gostaria da escuridão total, mas para isso eu teria de voltar ao ponto de partida e recomeçar do zero, mas isso me parece impossível na atual circunstância da vida. Dou mais dois ou três passos e me aprofundo, até marcar o meu novo ponto de partida para uma nova experiência.
     Volto-me para a porta e vejo o corredor repleto de ideias até a metade, porque seria pedir demais que ele estivesse tomado por todos os cantos até o teto. Descubro que o tom azul-pálido que ilumina o céu e a terra é capaz de produzir mais loucura do que medo, e assim prossigo com o olhar altivo e as mãos vazias.
     Paro os pensamentos por um segundo e tento respirar fundo, mas como sempre acontece, não consigo, sinto um enorme desespero por causa disso.
     Olho outra vez para a porta entreaberta que ficou lá longe e me convenço de que não haverá novas perguntas. E para falar a verdade, se houvessem, eu não saberia o que responder, porque me vejo perplexo diante da mesma conclusão que sempre volta mais forte.
     Então me ponho a imaginar como seria, se eu soubesse desenhar e alguém me pedisse um retrato seu. A resposta viria rápida: não conseguiria nem que fosse com traços simples. No máximo ficaria limitado a um risco, a uma simples tentativa de intenções de traçar no papel uma imagem perdida no tempo. E esse pseudo-desenho que nunca existiu seria como uma espécie de arrependimento, uma declaração de que não a conheci o suficiente para poder desenhar uma imagem fiel aos seus traços físicos.
      Certas coisas quando ditas de outra maneira, poderiam expressar o fato de nunca termos conseguido construir um enredo em comum e consistente. Isso parece bem simples. Mas ainda há tantos pontos difíceis para se apoiar e ter convicção para acreditar nisso.
     Além de todas as dificuldades que chegam no dia a dia seria preciso que eu fosse dotado de uma memória poderosa o bastante para guardar tantos detalhes, ou cada particularidade dos seus trejeitos depois de tantos anos - para desenhar, riscar, rabiscar.
      O horizonte está vazio, quieto e sem surpresas. No entanto, por mais estranho que possa parecer, desta vez o silêncio não apenas me impacienta como até mesmo parece me tranquilizar. Essa circunstância me traz a serenidade, que por sua vez reflete uma nova dimensão ao meu perfil, outrora contraposto ao fundo do céu e da lua brilhante, isso ainda faz meus olhos cintilarem com o fogo do ódio e da paixão.
      Continuo assim por um bom tempo. De repente, me dou conta de que não entendo o que penso. Volto ao princípio de tudo e começo de novo, mas não consigo. Percebo então que estou muito tenso, com várias partes do corpo em contração, em especial o pescoço e o ombro esquerdo. Eu rio de mim mesmo ao descobrir o motivo do incomodo: toda a minha atenção deixara de ser da lua maravilhosa e se voltara para você. Não, não é justo. Ninguém de bom senso se preocuparia com algo assim tão distante no passado. Talvez alguém me chamasse de louco se soubesse o que eu penso. Poderia pensar que lá dentro tivesse algo extraordinário ou, quem sabe, trivial, e ao acaso, olhando de rabo de olho, houvesse algo estranho demais nos pensamentos para ser chamado de comum. Melhor deixar essas tolices de lado e parar de fazer estardalhaço, pois me sinto cada vez mais ridículo ao tentar tirar conclusões definitivas sem testar as coisas antes. Agora sou eu quem arrisca um olhar, mas não é de rabo de olho, é firme e com um grave desvio de cabeça para a direita. E então eu a vejo. Está com os olhos fixos em mim e se mantém assim por algum tempo. A distância entre nós é suficiente para que eu perceba que o seu nariz tem contornos parecidos ao meu. Volto a olhar a lua e ficamos assim por um longo instante. Passa um tempo e agora é você quem se vira e olha o corredor das minhas ideias deixadas para trás. Aponta para a escuridão e prossegue no jogo como uma criança encantada com o brinquedo novo que acabou de ganhar. Arqueia para cima de mim e forma o início de um sorriso. Parece uma coisa tão sem importância, tão boba, e de repente, sem que eu possa dominar, abre-se um fluxo dentro de mim para lhe receber: uma trilhazinha estreita, tímida, mas capaz de fazer disparar o coração e propor a imagem de um afortunado a olhar sempre para frente como se jamais houvesse vida antes e depois.
       Eu a vejo, pensativa, séria, examinando um ponto indefinido no corredor das ideias, das minhas memórias. Não me movo e continuo a olhar para o seu perfil. Agora estamos sorrindo, perdidos um no outro, mirando como se nada mais existisse no mundo, como se a nossa vida se resumisse a isso. Se alguém me pedisse uma definição menos absurda, eu não saberia como dá-la. Mas nunca deixo de pensar que o instante de olhar a lua ao seu lado, seja qual for o significado, é um desses mistérios infinitos do Universo que colocam dois pares de olhos fixos um no outro para tentar se conhecer melhor e, pouco a pouco, entender para depois penetrar e dominar. 
      Eu acompanho o movimento das suas mãos, é como se elas me dissessem, fique quieto, fique aí, não diga nada, não queira nada, não pense em nada; eu adivinharei o que você precisa; deixe os detalhes por minha conta; nem sequer viva, eu farei por você; acompanhe os movimentos das minhas mãos, com todos os seus sentidos e por sua existência inteira sob a luz da lua encantada. Agora está tudo em paz e o ódio amargo desaparecerá lentamente dos seus olhos.
       Ela me beija cruelmente por segundos, se vira de costas e caminha devagar. A minha respiração vai se amainando, os pensamentos se estabilizando e ficando mais suaves, profundos, até o limite possível de lembrar que um dia o peito estava apertado.
      De repente, ela volta e se coloca ao meu lado, segura a minha mão enquanto somos banhados pela luz da lua e diz:
       “Agora está tudo bem?”
      Fiz que sim com um aceno e demos mais dois passos à frente e ela continuou:
      “Nós comemos, bebemos e cuidamos das nossas coisas, agora vamos encarar um novo desafio? É o destino de cada um”.    
      Fez-se um longo silêncio, durante o qual nos olhamos sem expressão definida no rosto. Ela suspirou, largou a minha mão e retomou a caminhada passo a passo até sumir na escuridão. Eu passei pela porta e retornei ao corredor, me perdi apurando os sentidos. Tentei modificações, novos modos de agir, anseios e movimentos. E aos poucos fui ampliando o olhar para as pequenas coisas, e desta forma chegando às maiores e depois de volta às pequenas, juntando tudo para depois separar - e esperar para o que desse e viesse.
     Mas e daí?, alguém poderia novamente perguntar, e se ninguém perguntasse eu mesmo perguntaria e responderia: que coisa mais banal essa narrativa de sensações que ocultamos ou não queremos entender, parecem comuns a cada um, ou talvez não. Alguém sente um aperto no peito, por um instante, olha ao redor com atenção e continua parado absorvendo todas as experiências do destino, - imaginárias ou não - proporcionadas aos sonhadores pela magia do luar de abril.


Aconteceu em Vinhedo

       Você se lembra dos beijos e carinhos que trocamos lá no parque da uva em Vinhedo? Você se lembra da caminhada pela trilha em meio a...