domingo, 13 de agosto de 2017

Eu nunca pensei que precisasse tanto de você

 Menina do meu sonho, nós um dia nos encontraremos para um novo passeio, com o pensamento luminoso e o coração puro. Nós passamos meses juntos, mas eu amei tudo aquilo. Minha vida parecia um furacão com tantas idas e vindas, e você sabe que eu não tinha paz.
     Quando nos vimos pela última vez, você sequer imaginou como as coisas terminariam. Depois disso ficamos longe e você fugiu.
      Hoje, olhando você assim tão bonita na internet e vestida nesses trajes diferentes, aliás, nada parecidos com os daquela época, lembrei-me de muitas coisas.
      Sabe a sua timidez? Ela ainda persiste e acho que você a herdou de alguém para a vida toda. Apesar disso, você está muito melhor agora, e poucos veem isso, por que você se refugiava em seus dramas.
      Quanto a mim, você sabe: para muitos eu sempre fui ácido e sarcástico, mas era tudo defesa. No fundo das minhas polêmicas e reivindicações sempre esteve um cara assustado e insatisfeito com a vida. E, diga-se de passagem, eu me intoxiquei de muitas coisas, principalmente das minhas razões e certezas absolutas. E se hoje eu sei disso, entendo com clareza que era tudo para fugir de mim mesmo. A minha vida era como flashes luminosos que necessitavam de admiração.
       Você sabe que em nossos momentos bons eu fui criativo, já nos maus, eu era destrutivo.
       Tenho total consciência que ainda hoje você vem vivendo sob o peso da minha sombra, mesmo depois de todos esses anos de incerteza. Eu entendo que você não merece isso, por que agora é uma pessoa melhor do que eu. Alegro-me em imaginar a sua vida bela completamente refeita, e sei que não partirá tão cedo da minha lembrança.
     Quero que saiba que não tenho raiva de nada.
     Quando a minha ilusão foi derrubada, o meu corpo sentiu e meu coração se partiu em pedaços, mas isso não me matou e nem matou a minha inspiração.
     Posso afirmar que ainda recebo tantas coisas boas daqueles que se compadeceram comigo. E essa energia me faz cada vez mais transformar as minhas palavras em sensações reconfortantes, talvez por isso a criatividade nunca acabe.
     Se agora eu pudesse, seguraria a sua mão como antes, e caminharíamos abraçados, admirando com empolgação o céu de estrelas. A vida pode não nos permitir isso nesse momento, mas as palavras me levam ao infinito e me fazem sonhar essas coisas.
      Eu sei que compreenderá bem o que há aqui, por que você tem bom coração. Tenho certeza que na ocasião certa falaremos sobre tudo isso, talvez seja durante o sono do seu corpo ou via energia cósmica ou telepática.
      Um dia, num lugar especial, nos reencontraremos para uma reconciliação espiritual, pode esperar. Nessa ocasião eu abraçarei você e farei vários versos em sua homenagem.
      A novidade do momento é que você está tão bem vestida naquelas fotos do quintal. Continua a mesma pessoa tímida e com o olhar para o vazio, permanece em busca das coisas que nunca encontrou explicações - em busca de si mesma.
    Eu olho para essas fotos e a vejo novamente como a menina do meu sonho. Uma menina do sonho que se tornou uma pessoa do bem, uma pessoa melhor que eu. Creio que isso vale para a sua vida bem mais que a fama, o sucesso ou o reconhecimento que espera por seus esforços. Você sabe que no fundo tudo isso é ilusão.
    Menina, nós andaremos de mãos dadas novamente como antes, e isso será maravilhoso. Você me sentirá com o seu coração e não mais com a cabeça, e então você verá a luz. Mesmo que permaneça de olhos fechados você saberá que sou eu, como se fosse um raio rasgando a noite para guiar os seus passos. Por que, um dia, eu aprendi como fazer a palavra virar luz. É como se fosse um presente para você.
    Menina do meu sonho não pense em mim no passado, pois eu estou no seu presente e torço por sua vida refeita e iluminada. Amo você mais do que nunca, e a sua imagem estará para sempre guardada em meu coração, bem juntinho daquela nossa canção especial, essa canção especial.
    Desejo que aquela trilha de estrelas que sempre salpicou de luz o nosso caminho na escuridão, agora guie o seu. E jamais se esqueça que para voltarmos a passear juntos, basta que o pensamento esteja luminoso e o coração puro.

Noite De Julho

      Lembro outra vez, como se fosse ontem, aquela noite de Julho em que abri o coração, talvez por saber que já havia perdido tudo definitivamente.
     Naquela ocasião eu lhe disse, mais uma vez, que me apaixonei logo de cara no dia que nos conhecemos. Previ que seria muito importante na minha vida e que, de certa maneira, poderia mudar a sua. Uma pena, mas só acertei na primeira parte das minhas previsões. A minha intuição falhou ao não saber medir o poder real que o amor surtiria na sua vida; e você logo fugiu dele sem olhar para trás, sem nunca ter tido certeza se era isso mesmo que queria; e eu fiquei esperando cheio de esperanças, recorrendo por meses a uma pilha de livros para passar o tempo.
      “Nunca ninguém se apaixonou por mim assim”. Comentou nessa vez, de pernas cruzadas numa cadeira de dobrar, com aquele olhar derrotado e muito peculiar, num tom meio melodramático e até certo ponto encantador, porque naquilo havia alguma sinceridade.
       Quando me lembro disso começo novamente a chorar. Choro porque o tom se revelou sombrio, bem diferente da sua voz baixa de realeza, que usava calmamente quando percebia que a conversa ia além do ponto desejado.
        Choro por perceber que os anos se passaram e pouca coisa mudou em você; vejo que tudo o que considera realmente importante se manteve, e a minha esperança sempre ressuscitada foi inútil. Infelizmente, o seu egoísmo, o seu medo, a sua falta de atenção, a sua indiferença – que é a forma mais cruel de desamor – ainda persistem. Mesmo assim me lembro que um dia confessou sua paixão por mim, disse que eu era uma pessoa importante na sua vida; ficou em suspenso, quase hipnotizada, pois, ninguém jamais havia observado e conhecido tão bem sua personalidade quanto eu. Certo, agora concordo com tudo. Mas esse tudo pertence a um lugar que já não existe mais, pois você andou para frente como sempre desejou.
        Porém, precisou gastar meses negando o que sempre pareceu evidente a todos; sentimentos arquivados do seu passado distante, do qual falava sem máscaras ou pudor.
        E, no entanto, se em algum tempo chegou a sentir medo do que nos envolvia, foi porque negou a esse sentimento erguendo entre nós um muro enorme de impossibilidades, mesmo para mim, que nunca acreditei no impossível, era difícil transpor tal barreira.
        Agora que tudo acabou parece fácil olhar para o passado e ver nele uma história de amor que poderia ter dado certo, uma história alimentada por minha vontade louca de estar com você e destruída aos poucos por seu medo devorador.
         Eu sei que minhas lágrimas ainda chegam até aí através destas palavras. Você me conheceu muito bem, e sempre soube reconhecer o meu estado de humor através da menor inflexão da minha voz. Sempre soube que não consigo disfarçar a tristeza que carrego, ainda que em momentos assim ria da situação imaginando que tudo poderia ter sido mais suave.
        Prefiro não incutir culpa, e, sobretudo, em mim, porque já sofri por você o suficiente; digo, com grande alívio, que ao menos não estou me sentido gelado da cabeça aos pés e nem as mãos tremulas como naquela noite de Julho quando os laços se romperam.   
       Você sabe que eu ainda choro, não sabe? E minhas lágrimas soam como num desabafo, ou uma tentativa eficaz de tirar de vez o que resta deste amor aqui dentro. As lágrimas servem para lavar a alma e tentar me livrar da presença da sua imagem que me sufoca.
       Certa vez me perguntou: “Como uma pessoa pode deixar todos seus projetos no meio do caminho para se relacionar com alguém muito especial, e de uma forma séria e intensa?”. Falava de si na terceira pessoa, como faz alguém que não deseja se comprometer indo direto ao ponto, e me pedia soluções; uma luz para o seu caminho. Você que, até aquele momento, já tinha vivido muita coisa nessa vida e se mostrava tão inteligente, acabava me pedindo conselhos como se estivesse perdida no seu próprio labirinto e fosse eu um sábio a orientá-la.
        Respondi que tudo dependeria do tipo de relação que queria manter. Talvez, por sua natureza, nunca soubesse fechar as portas e nem recusar o amor que lhe era oferecido, porque tinha um déficit de atenção desde a infância; era sempre quem ficava em segundo plano para o seu pai.
        Esse déficit de atenção desta fase tão delicada e frágil nunca foi reposto. E, além disso, herdou do pai o jeito perverso de ser e brincar com os sentimentos das pessoas. Fazia como se tudo fosse um jogo de perde e ganha simultâneo aos interesses de cada momento. Esse seu ar meio dócil e ás vezes educado fez com que as pessoas a associem imediatamente à sua mãe, ela sim, pessoa gentil, compreensiva e de bom coração. Esse ar engana, pois esconde a sua verdadeira índole. Todos sabem que é parecida com seu pai. E isso é de uma profunda ironia, porque aquela outra pessoa, que também é fisicamente igual ao seu pai, foi quem herdou o coração generoso da sua mãe e a infinita paciência que ela tem com aqueles a quem ama e protege.
        Eu não demorei muito a perceber que você nunca iria sair do seu casulo, porque vive nele como se fosse um labirinto com caminhos marcados. Sei que não é o único ser humano que vive assim, e cada ser humano está destinado ao próprio caminho. O que nos distingue uns dos outros é essa vontade ou capacidade de mudança – a coragem.
       Quando um dia senti que o amor que sentia por você era o que me prendia na ratoeira, e acabei preso ao caos e ao lodo, olhei para o lado e percebi que a armadilha na qual você se prendia era a pior de todas.
      Vi com clareza, através desta situação, aquilo que nos faz entender a dimensão das nossas fraquezas: as fraquezas alheias.
      É certo que vivi durante muito tempo preso nessa armadilha com sua imagem presente em cada esquina, mas isso já não é mais assim; alguém me acordou e eu enxerguei o universo se abrindo diante dos meus olhos. Foi como começar uma nova vida longe de tudo. O seu aparecimento fugaz foi um chamamento à minha antiga forma de pensar, na qual erroneamente projetei um amor impossível que passou – uma fantasia. E essas coisas marcam a gente.
     Sabe? Há muitos lugares que nunca mais quero voltar, e, sua rua, sua casa, seu bairro, são alguns deles.
     O seu silêncio me fez atravessar dias e dias como uma flecha que nunca alcança o alvo, e eu me desliguei de quase todas as alegrias porque me entreguei a algo absurdo que apenas serviu para alimentar mais e mais a minha veia literária.
     Alguns já sabem que aquilo que nos alimenta também pode matar. O meu sentimento por você matou muitas coisas boas em mim. No entanto, sei que um dia ouviu ou leu minhas palavras e delas tirou algum sentido para sua vida. Talvez em algum momento de lucidez tenha conseguido entender essas palavras, mas nunca soube ouvir de verdade o seu coração.
     Sabe de uma coisa? Quando uma pessoa se habitua a agir sem integridade, a verdade que se revela pode se tornar uma arma letal, e enfrentá-la é quase como desafiar a morte. Lembra quando falei do significado do livre-arbítrio? Aquela capacidade milagrosa que cada ser humano tem de escolher seus próprios caminhos e mudar para melhor. Pois é... Eu pedi que usasse desse livre-arbítrio aliado à integridade, lembrou agora? É um princípio digno que rege a conduta das pessoas, e que também é possível aprimorar cada vez mais. Quando eu falava essas coisas o seu tom ia enfraquecendo e sua atenção ficava distante. No entanto, eu tinha certeza que você ouvia as minhas palavras e as captava do seu jeito.
     Em dado momento em que não se espera mais nada das pessoas é que elas morrem em nossos corações, lembra que também falamos algo assim? Mas agora é diferente. Já não se pode esperar mais nada. Sabe por quê? Porque, no fundo, não há o que dar ou receber. Nem a mim, nem de ninguém. Faz bastante tempo que o seu coração se fechou para o amor. Talvez parentes, filhos – se um dia os teve ou tiver – consigam resgatá-la da armadilha em que vive. Mas nunca alguém como eu. Nem eu, nem outra pessoa. Ainda não há quem tenha alcançado esse poder, porque você não possui o que se conhece como dom da entrega. Entregar-se ao amor é um dom, sabia? Para alguns isso pode parecer uma fraqueza, mas é, acima de tudo, uma dádiva de Deus. O dom de partilhar, o dom de interagir, o dom de respeitar o próximo, todos esses dons juntos nos leva ao que chamamos generosidade - graça. Palavras extremamente misteriosas para você, talvez porque, infelizmente, não me pareceu que já tivesse vivido envolvida com alguma delas. Porém, eu sei que poderá encená-las com enorme maestria, como qualquer artista do tablado. Poderá até transmitir a sensação que vive bem, mas são apenas ilusões, porque de novo, à primeira contrariedade, voltará ao seu labirinto escuro, onde reina a frieza de quem controla a própria realidade na solidão, sem, justamente, admitir que algum outro possa fazer parte dela.
        Ainda imagino muitas coisas de você, até que já tenha conseguido mudar um pouquinho. Ou que viverá para sempre assim, escondida em si mesma, usando o bom sentimento de quem lhe oferece amor, de quem dedica tempo em troca de falsas promessas ou declarações sem sentido. Aguentando de você meias verdades, equívocos e danos. Nem posso dizer que você seja imoral, reconheço aqui que talvez seja amoral. Ou, quem sabe, ainda pior que isso: sem caráter. Entenda bem: não é que não tenha caráter, veja direito as coisas hein; simplesmente você nasceu assim e assim morrerá.
      E porque sei que tudo se perdeu assim, mais uma vez abro meu coração e deixo que leia meus pensamentos como se estivesse aqui diante de mim, como naquela noite de Julho.
      Nem imagino o peso que poderão ter essas palavras em sua vida. Porém, afirmo que mais ninguém me verá como você, ninguém verá você como eu. Houve um encanto único e muito nosso naquele tempo, que nos fez ultrapassar muitas pequenas barreiras. Houve em algum momento um cuidado em relação ao outro, e assim nos mantivemos próximos, apesar dos nossos interesses tão distantes. Ah, a forma como dizia gostar de mim me desarmava, e isso, aos meus olhos, atenuava todos os seus defeitos.
       Bem... E isso é tudo por enquanto. Não consegui arrancar mais nenhuma palavra sua depois da última vez. Talvez tenha chorado como eu, ou nem tenha se importado tanto assim.

Mas creia, não faço de propósito. Todas as lembranças parecem mais fortes quando chega qualquer noite de Julho em São Paulo, São Pedro ou na serra do mar. Embora, muitas vezes, preferisse não tê-las como se tudo tivesse acontecido ontem.

sábado, 12 de agosto de 2017

Aconteceu em São Pedro


     Acho que foi na porta de um shopping Center no centro de São Paulo que nos conhecemos. Eu pedi um café expresso, ela um capuchino – ou talvez ninguém tenha pedido nada e ficamos apenas conversando. De qualquer forma, prefiro dizer que pedimos cafés e escolhemos uma mesa perto da janela. Logo fomos servidos e trocamos algumas palavras sorrindo – aquele tipo de sorriso misturado com insegurança e timidez.
    Na verdade, talvez nós pudéssemos ter nos conhecido numa fila de banco, na qual a espera e a falta de paciência levam muitas pessoas a conversar. Ou em alguma dessas festas estranhas na serra da Cantareira pertinho da casa dela. Ou ainda, quem sabe, lugares semelhantes, onde servem porções de fritas e contra filé em fatias - aquele ambiente com meia luz próprio para namorados, onde a irmã dela e o namorado uma vez nos acompanharam sem serem convidados. Talvez fosse legal num bar escuro e enfumaçado onde tocasse jazz com saxofone, ou heavy metal com guitarras estridentes. É... Talvez! Poderia ser em qualquer local onde ouviríamos juntos pela primeira vez “November Rain do Guns & Roses”, que se tornaria a nossa trilha sonora predileta – (Poxa vida, nem gosto tanto do Guns, mas pode ser essa mesmo! Fazer o quê?).
     Não importa. A verdade é que não me lembro direito como aconteceu, porque simplesmente não teve tanta importância assim.
     O que me lembro é que nunca viajamos em férias para Argentina ou Chile, e nem passamos o final de ano num Cruzeiro pelo litoral brasileiro. Não tiramos fotos um do outro, e pouquíssimas juntos, e muito menos escrevemos declarações num tronco de árvore, tipo, “Eu te amo”.
     Saibam que eu acabei odiado pela família dela e ela nem conheceu o meu cachorro, que, tenho certeza, faria festa toda vez que ela me visitasse, por que ela gosta de cachorro e leva o dela para passear pela vizinhança - sempre com uma linda tiarinha na cabeça e roupinha sob medida feita em casa pela mãe dela.
     Nunca assistimos os clássicos de Hollywood, apenas aqueles desenhos e filmes antigos que dão sono depois de meia hora. Nunca paramos para discutir sobre o teor de qualquer daqueles filmes chatos. Por um lado, por não haver o que discutir de tão ruim que eram e, por outro, porque ela não parava de falar dos problemas de trabalho ou sobre como é maçante ouvir sempre a mesma ladainha dos familiares.
     Ela fez uma única vez fondue de queijo com pão italiano lá no Guarujá, e eu nem soube escolher o vinho que combinasse com aquilo, – sempre fui totalmente ignorante no conhecimento de vinho – mas ela trouxe a garrafa certa para a ocasião.
Nunca passamos a noite entrelaçados, aconchegados – dormíamos um virado de costas para outro, quase caindo da cama. Nem observávamos um ao outro enquanto dormíamos para sentir se aquilo poderia proporcionar algum prazer. Acho que poderíamos ter dormido de conchinha ao menos uma vez. (Que coisa mais insensível não ter sido assim, não é mesmo?).
     Talvez a relação não tenha sido como deveria, pois, com o passar do tempo, não permitimos que isso acontecesse. Não nos envolvemos o suficiente, acreditávamos que não éramos as “pessoas certas” um para o outro. Nem sequer nos conhecemos direito, pois escolhemos o pragmatismo para não perder tempo com quem pudesse ser indiferente.
     Em alguns momentos preferimos a simples troca de ofensas, ao invés da troca de carinho. Foram muitas e muitas noites com cara emburrada e mal dormidas quando deveriam ter sido de amor, sexo e muito bem vividas.
     A despedida aconteceu fora de tempo para ambos, estava à espera uma nova vida totalmente independente. Deveríamos ter aproveitado mais um final de semana, mais um mês, mais um ano, não deu.
     Deixamos tudo passar, esquecemos se foi bom...
    Agora nos mantemos distantes e solitários, imaginando encontrar alguém com quem ouvir “November Rain” outra vez - (Pode ser outra música, acho essa muito comprida e dolorosa?). Ou quem possa acompanhar alguns dias na cordilheira dos Andes e, depois de pisar nas águas geladas do oceano Pacifico, voltar para casa com um enorme sorriso no rosto e muita história para contar.
     Ela nunca percebeu que já tinha encontrado esse alguém, a oportunidade passou.

   Mas, de uma coisa eu me lembro bem, um lance marcante aconteceu em São Pedro. Foi numa manhã de sábado no começo de Julho. Passeando devagarzinho de mãos dadas admirávamos as árvores da praça principal, logo entramos numa sorveteria por quilo chamada Oasis, pertinho da Igreja Matriz – bem, nem lembro se aquela era mesmo a praça principal. Enfim... Eu escolhi bolas de sorvete sabor pistache e morango, e ela foi de creme e chocolate. Atravessamos a rua e nos sentamos em um dos bancos antigos que era bem desconfortável, feito de ripas brancas (já com a tinta descascando). Olhamos um para o outro, trocamos e destrocamos os potinhos algumas vezes, e sem trocar uma só palavra nos movíamos através de olhares e gestos que determinavam cada atitude. (Humm... Talvez tenha aparecido uma ou outra frase solta meio assim: “Eu dizia: adorei esse de pistache! E ela retrucava: não gosto muito de pistache”). Mas de resto era o silêncio e apenas aquele olhar. Não houve reclamações, nem reprimendas, tampouco exaltação; nada com duplo sentido ou má interpretação. Era apenas o sorvete nos unindo de uma forma que até então desconhecíamos. A derradeira cumplicidade aconteceu naquele instante; no beijo gelado, tipo selinho, descontraído e sem pretensão. Agora eu percebo que o começo do fim aconteceu em São Pedro, logo após a última gota de sorvete e o silêncio que se foi para sempre. 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Eu Te Amei...

    Eu te amei pra caralho, mas você foi tão filha da puta...
   A sua principal obsessão foi se manter assim. Por quê?
    Impossível a qualquer um adivinhar os seus motivos apenas num olhar, ou buscar numa única razão as suas escolhas. 
    Havia em você uma lógica: ter o limite curto para tudo. Foi ensinada assim e desenvolveu o melhor que pôde.
    Puxa vida... Que dom para ter opinião poderosa e sem margem para discussão! 
    Mas, no fundo, talvez se explicasse. Sempre houve algo que a incomodava: pessoas de personalidade.
    Um prenúncio de rivalidade logo surgia com gente determinada como você. 
    A cada ameaça, um novo conflito de opinião. 
    E se, depois de tempos, a decisão fosse refletir: eram dias até voltar atrás. 
    Daí em diante eram transmissões falhas e impossíveis de decifrar; enorme dificuldade na comunicação. 
   O humor ia virando em cacos e as forças se desgastando. 
    O seu ânimo cáustico prevalecia venenoso por algum tempo - 
alguém que chegasse para cuidar dos seus ferimentos acabava ferido.

    Rolando na cama veio a dúvida crucial, o silêncio da noite calou seus pensamentos.
   Ao amanhecer, em seu ar de interrogação, havia uma atitude de derrota que tiraria qualquer um do prumo. 
   Na noite seguinte novas tentativas para dormir e esquecer as incoerências - apenas isso.
   Ao primeiro questionamento, respostas ríspidas e sem sentido.
   Outras perguntas indo e vindo num jogo estranho de duplicidade no decorrer do dia.
   Ahhhh.... Você sempre soube que eu sabia de algo, mas tinha plena certeza do meu amor. 
   Era inevitável, o segredo não duraria...
   Que incoerência absurda uma pessoa ficar submetida a isso durante tanto tempo!
   Bom... Questionar-me sobre o que acontecia com você nem era mais a questão.
   Você despertou em mim sentimentos que eu desconhecia: provocação e revolta.  
   O coração, antes aberto e profundamente acolhedor, se fechou; endureceu pouco a pouco pelo jogo sem regras de boa convivência. 
   E a sua opinião continuava firme como diamante... Porém, sem alma e sem espírito. Nem o meu respeito e acolhimento se mantiveram. 
   Não havia motivo fundamental para persistir naquilo,  naquele tom de palidez que aos poucos tornava tudo cinza escuro.
   A minha luta pela verdade contra a superficialidade seria em busca do equilíbrio interior.
   Enquanto isso, você se equilibrava nos ares da própria certeza até a morte: e tanto fazia, certo ou errado, o que acontecesse. 
   Planejava em atitudes os acontecimentos, e em respostas sonolentas mantinha a porta fechada - afogava as boas intenções no nascedouro.
   Nada se aproveitava de bom que pudesse canalizar para transformar e trazer à realidade.
   E assim sair do pântano escuro da indiferença dada e recebida.
   Por fim, novas mentiras diabólicas e com histórias surreais, até o meu sonho se transformar cada vez mais em pesadelo. 
   O abismo não tinha fim - era tarde demais para lamentações. 
   Depois de ser colocado no vácuo a mente se abriu para entender melhor as coisas. 
   Engraçado como tudo ficou muito simples ao olhar, 
   Mas, olhando mais de perto tudo continuava misterioso demais para o meu gosto. 
   Não havia como defender, e nem o que explicar da perturbadora revelação - vida dupla, intenções desmedidas.
   O seu universo do “Eu faço o que eu quero na hora que eu quiser!” foi exposto. 
   Por quê tanta dedicação aos caminhos tortos com essa seriedade fake na postura? Era só a mim que tentava enganar?
   Engraçado como eu ficava sempre com a impressão que já tinha escutado a mesma conversa antes, mas nunca dava importância...

   Depois que tudo passou, o seu ego floresceu do fundo do poço para nova ilusão e sofrimento em alguém, com outros motivos gratuitos.  
   E quando esse alguém pensava que tudo estava bem, não havia sentido algum no encaixe das suas tramas.
   Qual das suas imagens seria a mais verdadeira? Existia alguma verdadeira? 
   De tanto pensar em tudo que nunca me afirmou com exatidão, ou tampouco desmentiu, o que me restou foi apenas o ponto de interrogação, . 
   Claro que eu deveria ter suspeitado desde o princípio que havia outro lado em suas histórias - eu me culpo tanto por isso...
   Eram tantos mistérios, novas transformações, traços mudados e pensamentos secretos...
   Em minha fuga constante, até um ponto desconhecido, permaneci ansioso e surpreso, mas nunca estive preparado para aceitar a sua realidade nua e crua. 
   Eu estava apaixonado, loucamente apaixonado e te amava pra caralho, mas você foi tão filha da puta... 
   Os seus poderes me desnortearam de um jeito que nada percebi; a sua personalidade não tinha belos contornos.
   Nunca dei a menor bola a conselhos ou sinais tão óbvios. Bem feito!
   O meu foco de atenção definiu o seu comportamento por dentro e por fora, ou nos caprichos que sempre prevaleciam.
   Nem o passar do tempo mostrou o último raio que poderia ser de esperança.
   Tudo outra vez se revelou em cheque enquanto penso nisso. Sempre em cheque e fora de contexto. Que ironia! 
   De verdade nunca houve base onde sustentar, exigir, ou, o que destruir - houve o nada.
   O nada tomou lugar e me manteve com a cabeça erguida, a espinha ereta e a mente quieta.
   Quanto a você não sei dizer o que aconteceu, no entanto, os fatos deixaram bem claro que:
eu te amei pra caralho, mas você foi tão...

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Magia Do Luar

     Na noite do dia 21 de abril o céu estava limpo e a lua cheia, o seu brilho intenso marcava o prenúncio de tragédias iminentes; maré alta, afogamentos, desabamentos, revelações de amores intensos e ódios amargos – sem contar, as experiências imaginárias de cada um com a magia romântica do luar.
     Mas e daí?, alguém poderia perguntar, e se ninguém perguntasse eu mesmo perguntaria e responderia: que coisa mais banal, esse mundo ou qualquer outro que desconhecemos, comum ou talvez não, onde alguém sente um aperto no peito, nem que seja por um momento, e olha ao redor com atenção e continua parado absorvendo experiências noturnas.
      A porta range nas dobradiças, a noite não é fria e nem quente, paro um pouco, já do lado de fora, e me acostumo com a claridade mínima. Eu gostaria da escuridão total, mas para isso eu teria de voltar ao ponto de partida e recomeçar do zero, mas isso me parece impossível na atual circunstância da vida. Dou mais dois ou três passos e me aprofundo, até marcar o meu novo ponto de partida para uma nova experiência.
     Volto-me para a porta e vejo o corredor repleto de ideias até a metade, porque seria pedir demais que ele estivesse tomado por todos os cantos até o teto. Descubro que o tom azul-pálido que ilumina o céu e a terra é capaz de produzir mais loucura do que medo, e assim prossigo com o olhar altivo e as mãos vazias.
     Paro os pensamentos por um segundo e tento respirar fundo, mas como sempre acontece, não consigo, sinto um enorme desespero por causa disso.
     Olho outra vez para a porta entreaberta que ficou lá longe e me convenço de que não haverá novas perguntas. E para falar a verdade, se houvessem, eu não saberia o que responder, porque me vejo perplexo diante da mesma conclusão que sempre volta mais forte.
     Então me ponho a imaginar como seria, se eu soubesse desenhar e alguém me pedisse um retrato seu. A resposta viria rápida: não conseguiria nem que fosse com traços simples. No máximo ficaria limitado a um risco, a uma simples tentativa de intenções de traçar no papel uma imagem perdida no tempo. E esse pseudo-desenho que nunca existiu seria como uma espécie de arrependimento, uma declaração de que não a conheci o suficiente para poder desenhar uma imagem fiel aos seus traços físicos.
      Certas coisas quando ditas de outra maneira, poderiam expressar o fato de nunca termos conseguido construir um enredo em comum e consistente. Isso parece bem simples. Mas ainda há tantos pontos difíceis para se apoiar e ter convicção para acreditar nisso.
     Além de todas as dificuldades que chegam no dia a dia seria preciso que eu fosse dotado de uma memória poderosa o bastante para guardar tantos detalhes, ou cada particularidade dos seus trejeitos depois de tantos anos - para desenhar, riscar, rabiscar.
      O horizonte está vazio, quieto e sem surpresas. No entanto, por mais estranho que possa parecer, desta vez o silêncio não apenas me impacienta como até mesmo parece me tranquilizar. Essa circunstância me traz a serenidade, que por sua vez reflete uma nova dimensão ao meu perfil, outrora contraposto ao fundo do céu e da lua brilhante, isso ainda faz meus olhos cintilarem com o fogo do ódio e da paixão.
      Continuo assim por um bom tempo. De repente, me dou conta de que não entendo o que penso. Volto ao princípio de tudo e começo de novo, mas não consigo. Percebo então que estou muito tenso, com várias partes do corpo em contração, em especial o pescoço e o ombro esquerdo. Eu rio de mim mesmo ao descobrir o motivo do incomodo: toda a minha atenção deixara de ser da lua maravilhosa e se voltara para você. Não, não é justo. Ninguém de bom senso se preocuparia com algo assim tão distante no passado. Talvez alguém me chamasse de louco se soubesse o que eu penso. Poderia pensar que lá dentro tivesse algo extraordinário ou, quem sabe, trivial, e ao acaso, olhando de rabo de olho, houvesse algo estranho demais nos pensamentos para ser chamado de comum. Melhor deixar essas tolices de lado e parar de fazer estardalhaço, pois me sinto cada vez mais ridículo ao tentar tirar conclusões definitivas sem testar as coisas antes. Agora sou eu quem arrisca um olhar, mas não é de rabo de olho, é firme e com um grave desvio de cabeça para a direita. E então eu a vejo. Está com os olhos fixos em mim e se mantém assim por algum tempo. A distância entre nós é suficiente para que eu perceba que o seu nariz tem contornos parecidos ao meu. Volto a olhar a lua e ficamos assim por um longo instante. Passa um tempo e agora é você quem se vira e olha o corredor das minhas ideias deixadas para trás. Aponta para a escuridão e prossegue no jogo como uma criança encantada com o brinquedo novo que acabou de ganhar. Arqueia para cima de mim e forma o início de um sorriso. Parece uma coisa tão sem importância, tão boba, e de repente, sem que eu possa dominar, abre-se um fluxo dentro de mim para lhe receber: uma trilhazinha estreita, tímida, mas capaz de fazer disparar o coração e propor a imagem de um afortunado a olhar sempre para frente como se jamais houvesse vida antes e depois.
       Eu a vejo, pensativa, séria, examinando um ponto indefinido no corredor das ideias, das minhas memórias. Não me movo e continuo a olhar para o seu perfil. Agora estamos sorrindo, perdidos um no outro, mirando como se nada mais existisse no mundo, como se a nossa vida se resumisse a isso. Se alguém me pedisse uma definição menos absurda, eu não saberia como dá-la. Mas nunca deixo de pensar que o instante de olhar a lua ao seu lado, seja qual for o significado, é um desses mistérios infinitos do Universo que colocam dois pares de olhos fixos um no outro para tentar se conhecer melhor e, pouco a pouco, entender para depois penetrar e dominar. 
      Eu acompanho o movimento das suas mãos, é como se elas me dissessem, fique quieto, fique aí, não diga nada, não queira nada, não pense em nada; eu adivinharei o que você precisa; deixe os detalhes por minha conta; nem sequer viva, eu farei por você; acompanhe os movimentos das minhas mãos, com todos os seus sentidos e por sua existência inteira sob a luz da lua encantada. Agora está tudo em paz e o ódio amargo desaparecerá lentamente dos seus olhos.
       Ela me beija cruelmente por segundos, se vira de costas e caminha devagar. A minha respiração vai se amainando, os pensamentos se estabilizando e ficando mais suaves, profundos, até o limite possível de lembrar que um dia o peito estava apertado.
      De repente, ela volta e se coloca ao meu lado, segura a minha mão enquanto somos banhados pela luz da lua e diz:
       “Agora está tudo bem?”
      Fiz que sim com um aceno e demos mais dois passos à frente e ela continuou:
      “Nós comemos, bebemos e cuidamos das nossas coisas, agora vamos encarar um novo desafio? É o destino de cada um”.    
      Fez-se um longo silêncio, durante o qual nos olhamos sem expressão definida no rosto. Ela suspirou, largou a minha mão e retomou a caminhada passo a passo até sumir na escuridão. Eu passei pela porta e retornei ao corredor, me perdi apurando os sentidos. Tentei modificações, novos modos de agir, anseios e movimentos. E aos poucos fui ampliando o olhar para as pequenas coisas, e desta forma chegando às maiores e depois de volta às pequenas, juntando tudo para depois separar - e esperar para o que desse e viesse.
     Mas e daí?, alguém poderia novamente perguntar, e se ninguém perguntasse eu mesmo perguntaria e responderia: que coisa mais banal essa narrativa de sensações que ocultamos ou não queremos entender, parecem comuns a cada um, ou talvez não. Alguém sente um aperto no peito, por um instante, olha ao redor com atenção e continua parado absorvendo todas as experiências do destino, - imaginárias ou não - proporcionadas aos sonhadores pela magia do luar de abril.


domingo, 6 de agosto de 2017

ABC Da Vida

    Pois é, gente. Estou novamente aqui com o velho papinho de sempre – momento que considero muito interessante para compreendermos, ou analisarmos com maior propriedade, os mecanismos de abordagem para enxergar a vida de outra forma.
     Cito, logo de início, a frase de Bertolt Brecht da peça teatral “Aquele que diz sim”: “O importante de tudo é aprender e estar de acordo”. Creio que esta citação ilustra bem o tema de hoje.
   Vamos lá então...
   Vejo que todo mundo quer acertar e ir em frente; e assim conhecer alguma outra nuance da vida e os seus mistérios. Não é mesmo?
   Porém, nem sempre dizer sim significa estar plenamente de acordo com determinadas situações, ainda mais quando existe o conflito moral atrelado aos costumes. E nesse caso a moral está praticamente fadada a falhar quando se entra num conflito em busca da melhor solução.
   Dentro dessa coisa de tentar acertar, quebrando paradigmas impostos, é preciso entender motivações para saber onde está a causa dos problemas que tornam mais difícil uma decisão.
   Às vezes o palpite, ou a opinião de alguém em forma de crítica, pode ajudar nessa parte. E tudo depende muito de como se escuta a mensagem que foi passada.
   Por mais que uma crítica tenha o sentido da maldade, muitas vezes ela está detectando uma coisa significativa que não percebemos em nós.
   Uma pessoa que desabafa numa situação de transtorno pode falar muitas coisas que não falaria em outros momentos. E aí a gente pensa: “Nossa! A pessoa me viu de um jeito que eu não sou. “Mágina” Eu não sou assim!”
   Uma pessoa transtornada fala (pra gente) muitas verdades; o que, na maioria dos casos, nos deixa ofendidos e indignados.
    Essa pessoa pode fazer uso da sinceridade em praticamente 100% de suas afirmações, mas fora desse momento pode ser muito hipócrita; por uma questão óbvia de sobrevivência ao meio social ou familiar.
    Sabe por que isso acontece?
    Porque quase sempre não temos noção de como é a gente com a gente mesmo, ou como funcionamos e nos posicionamos diante de circunstâncias delicadas. A gente acha que sabe tudo, mas, no fundo, temos uma visão errada em como as pessoas nos vêem verdadeiramente – vivemos durante anos num modelo de ilusão para o conforto do próprio ego.
   Quando se está envolvido de verdade consigo mesmo, tentando acertar primeiro lá dentro e depois com o mundo, acaba-se vivendo num observar-se e compreender-se bem melhor - não desmoronamos diante de qualquer manifestação de crítica; e apenas pensamos naquele feito como um aprendizado.
    O ponto de vista muda quando a honestidade com a gente mesmo prevalece - apesar de ser uma coisa muito difícil de ser praticada.
     No decorrer da vida tem-se sempre a tendência a ser cruel com a gente mesmo com uma série de auto-sabotagens. Aprendemos a desenvolver culpas e castigos como autopunição por ter feito algo assim ou assado, coisas das quais sempre nos arrependemos depois.
     Fala-se muito da desonestidade dos outros porque é bem mais fácil enxergar os defeitos alheios. Isso é bastante terrível, porém ninguém é desonesto com outros se não for consigo mesmo primeiro. O caráter das nossas ações se baseia no modo como a gente se trata e isso reflete nas outras pessoas através de atos bem previsíveis.
     A causa mais aparente está sempre na questão da ideologia do ideal.
     Existe em nós a ideia fixa do “tem que ser”. Um pensamento desenvolvido através daqueles tempos de aprendizado na infância, e que chega forte à fase adulta. Juntando-se a essa ideia do “tem que ser” vem outra mais forte, e o seu nome é “deveria”. Aí dizemos a nós mesmos, ou aos outros: “Deveria” ser de outro jeito, “deveria” pensar o contrário, “deveria” se adaptar, “deveria” aceitar as coisas como elas são. “Deveria, deveria, deveria”.
     As pessoas vivem nesse mundo de ideologia e pensamentos moralmente perfeitos e se iludem que os outros “deveriam” seguir essas regras.
      Eu, por exemplo, levei vários pitos na vida sem a menor justificativa, justamente por que os outros achavam que eu “deveria” ou “tinha que ser”.
      Teve gente que vivia me dizendo assim: “Ah Renato, você é um ótimo contador de estórias, um cara tão inteligente... Eu aprendo muito com a sua forma de relatar a vida através dos seus posicionamentos nos textos. Mas eu acho que você “deveria” mudar um pouco o seu jeito de ser”.
      Pois é... Engraçado isso. Como a vida é incoerente. Temos essa mania de sempre idealizar os outros, ditando regras do que “deveriam” ser.
     Eu sou aquilo que dá para ser. E afirmo com todas as letras: Não! Eu não deveria nada. Você é que está se iludindo em pensar que o outro tem que ser o seu idealizado. Eu só posso dar os meus passos de acordo com o que sou ou com os meus conhecimentos.
    Claro que fingir todo mundo finge, mas ninguém é o “deveria”. Isso é uma invenção do instinto de dominação do Ser humano, que anda lado a lado com a ideia de subjugar o outro com esse tal “tem que ser”.
   É certo que a gente tem um tipo de crescimento e aperfeiçoamento das qualidades da natureza humana, que vão surgindo com todas as experiências acumuladas. Mas ninguém pode ser o “deveria” dos outros.
   Essas mesmas pessoas ainda hoje me dizem: “Ah Renato, você “deveria” ser mais paciente e tratar a todos com respeito”. Ou então: “Não adianta, não tem jeito, você não muda mesmo!”
  Olha... Respondendo a quem pensa isso de mim, eu digo: eu tenho muita paciência com certas coisas ou pessoas. Mas, com gente autoritária e pretensiosa fazendo afirmações descabidas, não dá para ter paciência. Não tenho nada que ter paciência com essas coisas. Nessa hora eu resolvo logo a questão e largo para lá e fico cá no meu canto numa boa. E vou sempre dizendo: Chega disso! Eu não ando muito a fim em ter paciência.
   Eu sei que nem todo mundo gosta de mim, assim como eu não gosto de todo mundo. Com gente que não existe afinidade não adianta insistir. Se algo não me agrada, eu não pratico e pronto!
    Pedem que eu tenha respeito. Eu não trato a todos com respeito. Respeito quem merece ser respeitado ou quem me respeita. Será que você é respeitável? Hein? Responde! Diante de tudo que você fala da sua família, colegas e todos que fazem parte do seu mundinho, você merece respeito? Está pensando sobre isso, não é?
    Olha... Eu sei ser educado, sim! Conheço muito bem as regras de comportamento e bons costumes. Mas existem pessoas e pessoas. Tem gente que faz por onde não receber o bom tratamento ou respeito.
    É... Diga se não seria esse o seu caso, por tudo aquilo que já praticou pelas costas dos outros?
    O engraçado da situação é que você sempre invadiu a vida de todos dissimuladamente, fez afirmações maliciosas do comportamento alheio, apontou defeitos e tantas outras coisas na tentativa de colocar as pessoas para baixo, e agora acha que tudo bem... Que a família perdoa tudo e seus deslizes devem cair no esquecimento. Ora bolas, faça-me um favor!
   E para piorar, depois de tudo isso, ainda tirou uma com a minha cara me fazendo de palhaço, e agora quer o meu respeito? Caía na real, criatura!
    Imagino que muitas de vocês gostariam de dizer esse trecho acima para alguém que passou, ou que ainda está presente em suas vidas. Pois é...  Um dia descobrimos que o Ser que idealizamos é aquele que nos frustra amargamente e a gente se entristece por causa disso.
    Vou dar outro exemplo: você por acaso conhece alguém com aquela mania de perfeccionismo? Uma pessoa que se mete a colocar tudo no lugar numa ordem perfeita, e que de vez em quando aparece com o TOC exagerado daquele personagem de Jack Nicholson no filme “Melhor é impossível”?
    Por acaso essa pessoa (assim como o personagem) não pisa nas riscas da calçada e não suporta que outras esbarrem nela? Até o cachorro dela pula as riscas da calçada?
     Já sei que você conhece e dirá se defendendo: “Eu não sou como ele, mas sei que sou só um pouco perfeccionista. Admito que seja sim. Mas é só porque eu gosto de organização”.
   Ai, ai, ai, ai, ai. Você sabe que estou falando com você, não sabe? É com você sim! E não adianta largar a leitura com a desculpinha que alguém está lhe chamando no facebook.
   Não resolve nada torcer o nariz por causa dessas palavras que tocam lá no seu fundinho. Você sabe muito bem que tem mesmo essa mania de tudo certinho e idealizado. Olha... Pare com isso! Não me venha com essa cara, não!
   Os seus problemas são gerados por sua postura e você ainda não parou para pensar o quanto isso custa na relação com os outros. Viu o quanto lhe custou no decorrer dos anos essa arrogância e prepotência do tudo certinho? O curioso é que você se vê o contrário disso e até se acha injustiçada.
    Nunca ninguém lhe chamou de arrogante e pretensiosa como eu faço aqui? Puxa vida.... Sempre tem que aparecer um para abrir os olhos da gente, não é mesmo?
    Ah tá certo, pode me xingar que eu não ligo... Eu a chamo assim mesmo e ainda explico que a pessoa arrogante é aquela que vive na fantasia do ideal e não no mundo real.
    Uma pessoa que sabe a sua própria verdade não precisa de um juiz arrogante e perfeccionista lá dentro da cabecinha condenando qualquer ação feita ou recebida.
    Uso o meu próprio exemplo: ninguém é meu juiz porque eu não sento mais no banco dos réus. Parei com isso faz tempo. Eu acabei com esse juiz arrogante dentro da minha cabeça às duras penas. Mas você.... Ah... Você ainda está com ele ai ditando regras e jogando culpa, não apenas em você, mas também nos outros. Você persegue a si mesma com esse modo arrogante de ser; esse juiz funciona dia e noite. Ele não lhe dá paz e nem sossego, a voz dele está aí dentro, é uma voz contínua que a faz sofrer com os seus problemas e os problemas dos outros.
    Venha cá!  Aproxime-se mais. Chegue mais perto. Assim. Mais um pouco. Isso! Assim ficou bom. Não saia de fininho, não. Presta atenção no que vou dizer agora.
    Veja bem uma coisa - senta direitinho e ajeita esse bundão na cadeira que agora eu vou falar tudo no popular, com o verbo bem rasgado: se você não parar com essa postura de combater a si mesma, a vida não vai parar de lhe trazer problemas! Tá entendendo? Você está sempre sofrendo com aquilo que considera os seus problemas, como também com os problemas dos outros. Você sofre dessa doença e carrega isso todo dia. É por isso que tudo que você faz nunca é bom, nunca é suficiente. Você faz coisas maravilhosas e com muito zelo na sua casa, no seu trabalho ou em qualquer outro lugar, mas nunca está feliz e satisfeita. Por que será? Eu acho que você considera que nunca é boa o quanto poderia ser. Você não é sua amiga. Aí, por causa disso, as pessoas nunca vêem o que foi feito com tanto capricho e dedicação, ou o quanto você se empenhou naquilo. Então você reclama, esbraveja e se lamenta pelos cantos por essa falta de reconhecimento.
    Entenda uma coisa: as pessoas são o que elas são, sejam elas bonitas ou feias. Elas são reais e você ainda não aprendeu a lidar com essa realidade, porque idealiza um mundo que só existe na sua cabeça. Você vive o ideal.
    Você tem algo que chamo de síndrome de falta de adaptação à realidade; justamente por que fica aí, feito uma tonta, desenhando na sua mente o ideal das pessoas.
    Tem mais: quando você se coloca numa posição em determinado ambiente é gerada uma energia que gera circunstâncias contra ou a favor de si.
    Então, se você olhar para trás enxergará, em muitos pontos, o que foi feito da sua vida. Ou o que você fez a si mesma por andar o tempo todo de olhos fechados para o real.
    Parece que você nunca entendeu que as pessoas te tratam como você se trata.  Isso é uma lei, uma constante. Uma verdade que não dá para fugir.
     Você é o seu obstáculo. É a pedra no próprio caminho que atravanca tudo.
      Então, minha filha, não adianta nada aparecer por aí com todos os seus cursos e diplomas, e continuar eternamente mantendo essa cara de cocô.
      Vou contar outra experiência: conheci várias pessoas muito simples. Gente que não tinha carro, casa própria, dinheiro e nem diplomas, mas carregavam consigo uma energia maravilhosa para aproximar pessoas. Então, num caso em especial, de uma empregada doméstica que trabalhou na minha casa, todo mundo achava aquela pessoa muito legal. Todos a tratavam com elegância e gentilezas. E ela, por outro lado, emanava para todos nós uma energia muito interessante. O seu sorriso transmitia uma verdade e o seu olhar uma paz. Ela não tinha arrogância e prepotência, por isso era tratada diferente. Com sua postura se tornava uma pessoa respeitável e admirada por todos. Ela vivia o lado real da vida.
     Então... O Ser humano só vive satisfeito quando está feliz. E a felicidade está sempre no real e não no ideal. Isso exige uma capacidade de olhar a vida de outro modo.
     Alguém me disse outro dia: “Ah, Renato, eu tenho seus textos guardados no meu arquivo. Você desceu o cacete em mim, me espinafrou até não querer mais. Falou um montão de coisas do meu modo de ser. Eu percebi que falava de mim e aquilo me atingiu muito. Fiquei tão magoada que nem quero mais nenhum contato!”.     
      Quanta pretensão! Acha mesmo que tudo é dirigido? Todas essas cenas podem acontecer na vida de qualquer pessoa e não apenas na sua. Isto é, se já não aconteceu com muita gente que anda batendo cabeça por aí, sem saber direito o que fazer. Acho muito legal quando esse povo se identifica imediatamente com esses relatos. Fico muito feliz em ajudar as pessoas, em ser um ponto de orientação ou dar uma pequena ajuda no equilíbrio necessário.
     Olha, vou lhe dizer uma coisa: você está muito enganada ao afirmar essas barbaridades. Eu nunca desci o cacete em ninguém. Você que é muito negativa e insatisfeita com a vida e vê tudo assim. O que tem sido dito é a verdade das minhas observações do mundo. Qual é o problema em ter a verdade revelada? A verdade se tornou o que? Na sua concepção seria um palavrão ou alguma coisa a ser escondida? Lembre-se sempre: a verdade liberta!
     Você acha mesmo que a forma de ajudar uma pessoa é viver mentindo para ela? Não! Não, mesmo!
      Se eu tiver que repetir mil vezes que você é arrogante e pretensiosa, que não se aceita por que é uma criatura esnobe, eu repetirei sim!
      Essa insistência é para que tenha positividade e vá para frente, que deslanche na vida pelos caminhos certos.  
      Você está tão presa dentro de si que é incapaz de perceber que existe alguém nesse mundão de Deus lutando por você. Você nunca percebeu isso?
     Quando eu uso essas palavras, vou fundo e faço o que faço, é por que estou lutando por algo que nem você luta. Você nunca reparou que está presa aí dentro desse ideal que você mesma criou? Esse mundo de fantasia. Como é que você pensa que irá fazer diferença na vida deste jeito?
     Eu sei muito bem que não é da minha conta, mas eu dou as dicas porque tenho inteligência e senso de observação de algumas situações da vida.
     Esse senso de observação me levou a entender que, além de você ter se tornado o seu próprio juiz, também se tornou o juiz dos outros. Você fala mal de todo mundo, só críticas e maledicências: “Mãe sofre disso, pai é aquilo, família é uma droga. Eu faço tudo e ninguém me ajuda!”
Você escolheu essa faixa para viver. E vai ter que enfrentar a dor até aprender as coisas.
     Por isso tento transmitir boas palavras aqui, mas não sinto pena de você e nem de ninguém. A vida ensina a todo mundo. A lei do homem tem jeito de manobrar e escapar com vários argumentos, mas a lei da vida é irremediável.
    Que cada um tome a própria lição. O lema diz: “Quem não aprende pelo amor, aprende pela dor” e isso é mais velho que andar para frente.
    Então, voltando a Bertold Brecht, existem duas opções de escolha. Uma diz que aquele que está atrapalhando uma caminhada deve ser largado para trás ou jogado no abismo; a segunda: a regra de moral ou bom-senso nos ensina que, quando as coisas não dão muito certas, se deve retornar ao ponto de partida buscando novas alternativas práticas e condutas inteligentes para alcançar o objetivo.
    A escolha está a seu dispor. Escolha o seu caminho e seja feliz, pois, o mais importante de tudo é aprender e estar de acordo! 

sábado, 5 de agosto de 2017

Mentiras

   Durante muito tempo você se manteve em posição de defesa - foi quando o seu coração atravessou noites sem consolo. Ninguém jamais viu os seus olhos molhados no escuro do seu quarto – eram noites e noites em transe com as lembranças daquelas palavras doloridas que aos poucos iam lhe corroendo por dentro.
   Numa época à frente, livre em parte de tal desespero, sentiu que tinha forças para lutar e seguiu em busca de um alento que amparasse tantas dúvidas permanentes sobre a própria existência. Foi quando encontrou a mim pelo meio do caminho, e assim entrei por um tempo em sua vida - acho que eu estava muito a fim de descobrir se mantinha ou não a posse do meu juízo perfeito, digo, para encarar novamente um compromisso com alguém tão legal como você era à primeira vista.
     Porém, sem demorar muito, logo percebi que seu olhar era de quem praticamente estivesse à beira da loucura, guiando-se em seus exemplos por experiências malfadadas do passado - as histórias que contava eram como um labirinto de ficções intermináveis – em nenhum momento parecia dizer alguma verdade que me convencesse, mesmo de alguma questão simples – quando começava  a falar eu já sabia como terminaria e quais os fatos que citaria para dar mais ênfase ao seu ponto de vista. Rapidamente adquiriu esse hábito e dele criou um grande leque de possibilidades para a mesma história fantasiosa, que se repetia em versões mais elaboradas com o passar do tempo. Você temia tanto o confronto com a verdade, em seu modo arisco de ser, que quando uma ponta de mentira me motivava desconfiança, você fingia um acesso histérico e dava às costas pisando duro como se fosse vítima da maior ofensa.
      Muitas lacunas ficaram de nossas conversas, inclusive em discussões prolongadas que aparentemente tinham um tom de sinceridade.
    O tempo passou e você nunca mencionou alguém que gostasse em sua infância, ou uma brincadeira especial ou, quem sabe, o desejo do que queria ser quando crescesse - jamais me falou de uma rua onde pulava corda ou de um parquinho onde brincava no balanço ou escorregador. Quando um dia lhe perguntei como tinha sido sua infância, apenas me disse que nadava na piscina (até me deu uma foto daquela época feliz, lembra disso?). Nunca presenciei um vislumbre em que recordasse uma cena da qual sentisse orgulho na pré-adolescência - dando sempre a entender - na expressão sisuda - que jamais se deixaria escorregar numa emoção do passado, quando as respostas satisfatórias seriam: onde, como, ou os porquês das coisas terem evoluído assim. Várias vezes eu tentei que relembrasse, mas foi em vão. Parece que os detalhes daquele tempo lhe causavam tédio ou trauma profundo. Quando finalmente um dia relatou algo interessante, era como se fosse uma cena tirada de um folheto de viagens ou de algum livro antigo de histórias infantis.
     As reclamações do seu passado, quando no auge da vida adulta, eram sim muito marcantes. Não havia uma só pessoa de quem não falasse mal – o tempo que dispúnhamos era preenchido com reclamações de tudo quanto era tipo, fossem fatos passados ou presentes que tirariam qualquer um do sério. Nada parecia trazer mais alívio do que reclamar em tom de desabafo - demonstrando raiva e indignação - e no final quase derramar uma lágrima sentida. Tive a impressão que você se tornou outra pessoa, não era mais quem eu conheci com tanto brilho – aos poucos apodreceu e rachou ao meio. Cheguei a conclusão que depois de tudo desvendado, você imaginava que eu teria mente fraca e não conseguiria unir os pontos para observar todas as contradições pelas quais passamos juntos. O grande problema é que sempre tive excelente memória para aquilo que vejo ou escuto. Justamente por isso seria praticamente impossível que eu não reconhecesse um jogo de trapaça, ou distorção, a fim de semear uma nova ilusão em mim. Esse era o seu jogo sempre – e eu só podia me revoltar cada vez mais com esse seu mundo de mentiras e falsificações de intenções. Não é de se estranhar, portanto, que inventasse tudo para o seu próprio prazer em presenciar o meu sofrimento por te amar, e, inevitavelmente, após algumas cobranças, chegava sempre uma hora que diria do alto da sua imponente sabedoria: “Você não passa de uma pessoa patética!”. Não se cansou de demonstrar que eu não era suficiente, pelo menos em sua visão turva, para participar do seu mundo - às vezes chegava ao cúmulo de dizer que minhas perguntas e observações eram tão insignificantes que não mereciam sua atenção. O pior de tudo é que nunca se arrependia do que fazia. Isso era muito triste!
     Pois é, infelizmente, são essas coisas que rompem o encanto.
    Você insistiu tempo demais nessa combinação diabólica, habilmente mascarada por ações inocentes, que me fazia acreditar que o mal era eu. Não podia ser eu, pois você sempre se mostrou imune a todo mal que viesse de fora mantendo-se inatingível.
     Sei que se nesse momento soubesse da minha reflexão solitária, novamente estaria me desejando o pior. Motivo, talvez, pelo qual imagina que pode seguir pela vida como se passa entre labaredas sem se chamuscar. Uma hora, quando menos esperar, esse fogo poderá se rebelar e lhe causar queimaduras com cicatrizes permanentes. E, algum dia, em seu rosto torcido pela dor, lembrará que mentir, enganar e torcer as coisas ao seu bel prazer não leva a lugar algum.
     Nós dois sabemos que jamais admitirá abertamente que tudo isso aconteceu assim, digo, na minha versão, quando afirmo que mentia sempre, com ou sem motivo. Mentia inclusive dizendo que era meio vidente e conseguia ver o avesso das pessoas descobrindo o mal dentro delas para se proteger. Mentiras dirigidas, com um objetivo certo de intimidar reações. Garanto que seria mais simples, por exemplo, dizer que eu não era interessante e você não tinha vontade de prosseguir. Ao invés disso, encompridava as mentiras e inventava historias para exagerar as dificuldades em estarmos juntos e felizes. Porém, saiba que não foi o mal-feito que fortaleceu minha ira a cada dia, porque acredito que todo mal vindo da perversidade deve ser destruído; esse tipo de coisa fez a sua vida perecer aos poucos, e não a minha; mesmo que aparentemente mantivesse o sorriso e a impressão de tudo certo.
      Daí veio a total consciência do quanto uma estabilidade emocional pode ser colocada à prova em nome de um bem maior – talvez por cegueira ou a teimosia em prosseguir apesar das consequências. No entanto reconheço que o mundo de enganos e encantamentos que me levou até você, foi para que eu colhesse bons frutos de tudo que passou, e ao final você apenas seguisse adiante em seu mesmo passo.
    Nesse momento, no final do monólogo - antes tão constante em nossa relação - estou finalmente fora do mundo que criamos juntos, um mundo obsessivo, um mundo que eu erroneamente julgava de direito e beleza, um mundo de esperança. E se de verdade um dia tive uma esperança sincera é por que existe alguém lá em cima que gosta muito de mim, ainda que você tenha se esforçado ao máximo para mina-la aos poucos com o seu silêncio intenso e aquele profundo desprezo por belas sensações e nobres sentimentos.

Aconteceu em Vinhedo

       Você se lembra dos beijos e carinhos que trocamos lá no parque da uva em Vinhedo? Você se lembra da caminhada pela trilha em meio a...