quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Domingo à Tarde


      Foi num domingo à tarde que pensei em você de um jeito carinhoso – a mente modelou a sua própria maneira o mapa dos meus sentidos. Ao olhar pela janela da sala notei que não havia uma nuvem sequer no céu. Então fiz desse momento um dia de mudança da alma e do ritmo antigo de sonhar com você.
     A franqueza e a força que havia nisso fez a vida me oferecer a oportunidade que eu jamais rejeitaria, justamente por perceber o quanto você se afastou de mim nos últimos anos. O pensar me trouxe uma sensação maravilhosa – e fiz de conta que nada de mais importante estivesse acontecendo.
     No momento em que o relógio da sala quase parou, eu nem sequer percebi que os ponteiros giraram ao contrário entre o sonho e a realidade em que tudo se divide com a mais fina linha – balancei, pelo temor de ser flagrado dizendo coisas que poderia me arrepender depois – proporções compreensíveis e tão intensas de rupturas e traumatismos característicos de uma pessoa imperfeita.
    Ufa! É tão difícil entender o valor que uma pessoa dá a sua própria vida...
    Ainda existe a mesma linha imaginária de antes que nos separou por tanto tempo quando estávamos tão próximos, e eu, em desespero, procurava tocar seu corpo à meia-luz. E quando eu chegava mais perto com o peso de todas as minhas culpas, você abria seus braços e me recebia com carinho, estremecendo um pouco, trincando os dentes e fazendo o filme da minha vida passar na tela gigante me partindo de cima a baixo. E logo em seguida eu ficava leve como uma pluma que plaina na brisa suave como num filme antigo hollywoodiano, que, de um jeito ou outro, sempre deixa marcado na gente a imagem mais forte.
    Alguns dizem que essas cenas têm um valor que pode ser determinado por aqueles que ficaram para trás, outros acreditam que seja determinado pela fé ou também pela saudade, ou, quem sabe, por um amor inesquecível. Outros dizem que a vida não tem nenhum significado e o importante é viver um dia após o outro sem muitas preocupações.
      Meus pensamentos passam assim.... Como se eu estivesse num oceano em fúria que leva tudo para longe, menos o que é substancial nesse instante para minha existência – a força.
      Se eu acredito? Eu acredito sim, que todo e qualquer valor pode ser determinado pelas pessoas que um dia tiveram proximidade e admiração no decorrer dos anos.
     Voltado a nós: por algum tempo, poderíamos novamente nos sentar ou deitar lado a lado, como um presente dos céus. Pelo canto do olho eu teria a oportunidade de vislumbrar seus contornos perfeitos logo que as palavras jorrassem como uma chama ardente. Isso seria maravilhoso porque pareceria interminável. Então eu ainda poderia afirmar que nós aproveitamos nossos últimos dias juntos de um jeito que a maioria das pessoas só consegue aproveitar durante uma vida inteira. Eu sei que quando tudo ameaçou acabar, seus olhos estavam fechados e seu coração ainda permanecia aberto e ganhava o mundo como nunca houvera imaginado nos pensamentos e sentimentos da vida rotineira.
     Pois é... assim se foram os nossos anos e tudo passou muito rápido: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira e cada final de semana nos unindo no mesmo sonho - completamente calmos e totalmente loucos - numa união indivisível por horas a fio em que você tomava a minha mão e segurava firme para caminharmos em meio à multidão nos corredores. E lá dentro da gente as estrelas iam piscando nesse mesmo céu azul que avisto daqui e - sem uma nuvem sequer - nós podíamos desfrutar juntinhos. Nesse momento você e nem ninguém teria a coragem de negar, por vontade própria, a criatividade, a admiração, o amor e todo o restante das coisas que nos tornavam únicos na iniciativa de qualquer ação para o bem comum. Se houvesse uma seta nos indicando o caminho para enxergar com precisão, tudo teria sido mais fácil sem ficarmos zangados e ignorar que realmente éramos importantes um ao outro.
     Você percebe agora que nesse sonho de caminhada em corredores, avenidas e estradas movimentadas que o nosso destino pertencia metade a nós e outra metade a Deus? E que se quiséssemos, nós poderíamos submergir desse destino e depois sair flutuando enquanto os nossos corpos não mais nos pertenciam, ou nos esconder afundando? Garanto que nessa hora nossos corpos teriam um peso antinatural, uma respiração quase parada, porém, profunda, e chegariam ao limite de um ponto acima da linha do infinito. De lá se ligariam a uma corrente magnética e poderiam eternamente irradiar uma luz hipnótica que curaria no futuro nossas mentes e corpos sofridos de saudade, ira e paixão.
       Na imobilidade renovo minha energia enquanto a vida fica intacta na imaginação. Assim vem a musicalidade que profana o silêncio num ato puro de criação. Tudo isso me estimula e tento me defender de alguma forma, enquanto tenho a lembrança como recompensa por acreditar em tudo além da simples observação.
      Existem sentimentos que insistem no direito de continuar existindo e justificam meu direito de estar aqui construindo narrativas verdadeiras e convincentes, porque é bem mais fácil viver dessa forma – um alívio! O sentimento se agarra a mim e me leva por esses caminhos, tanto quanto você se agarrou a mim por um tempo quando tentávamos ser bons, e o medo se apresentava de forma sutil.
      De um momento para outro, quando começou o processo de reconhecimento de sentimentos e ações indesejáveis, tudo veio à superfície num simples clique. Não houve a possibilidade de prosseguir, nem para frente nem para trás, com todo aquele sofrimento que ameaçava o instante em que a vida se estendia momento a momento rumo ao infinito - isso parece mais real para mim agora do que aquilo que eu suponha que fosse para você naquele meu instante de insensatez.
     Tudo o que eu pensei e tudo o que desejei existe de outro jeito - e não poderá acontecer outra coisa fora desse contexto enquanto eu for o que sou e pensar em você assim. 
      Hoje em dia isso pode não ser real, mas parece ser...
      Em um mundo tão cheio de mágica tenra e envolvente eu vivo sob os frutos de uma simples ação, um simples chamado do seu nome que flutua pelo vento até chegar aos seus sentidos primordiais.
     O meu pensamento se torna a ação quase inerte na prática espiritual que desencadeia outra e assim sucessivamente. Tudo faz parte de um grande sistema de energia e dos meus desejos num mundo de alegria possível, ou da dor excessivamente comum, quando me fixo na realidade que permite trazer você até a mim na imaginação.
   Meu poderoso pensar flui e se transforma. Flutua pelo universo nessa busca a fim de reconhecer cada pequeno sentimento de tudo aquilo que (juntos) um dia julgamos errado ou ruim.
     Tomo consciência do salto libertador a que isso pode levar. Sinto-me livre do mal que me assolou e arrancou você do meu espaço físico por um tempo. Agora pareço ter absoluta liberdade para fazer as pazes e romper esse ciclo sem julgamentos ou conotações negativas para, finalmente, me libertar daquilo que manteve a ambos encurralados.
     Recosto na poltrona, olho pela janela e sonho que você também sonha meus sonhos e segue meus passos, recordando cada lição que aprendemos juntos. E vai cada dia mais depressa que pode, tomando conta da esperança antes que ela se perca, ou que apenas reste uma pequena percepção dos detalhes que sonhamos naquele mundo repleto de egoísmo e falta de abnegação. 
     O Sol brilha no meu devaneio distante enquanto você parece estar de pé numa praia paradisíaca observando, num domingo à tarde, o céu azul do horizonte; rodeada por troncos de árvores, galhos e folhas trazidas pela maré depois da tempestade primaveril.
     Talvez por um segundo não exista mais fronteira entre nós, nem a linha imaginária. Assim, finalmente livres, acho que podemos nos reconhecer em alguma imagem feliz que ainda não foi apagada. Ou, quem sabe, apenas aprender o significado de tudo isso no pensamento que agora mapeia os sentidos de cada um, incluindo a realização dos anseios da alma na representação fiel do que se foi.

7 comentários:

  1. Patricia Ramos Sodero14 de novembro de 2016 19:16

    Boa tarde,Sr.Autor!Quanta beleza nesse novo texto!Pra variar,quando fala-se em espiritualidade envolvida com amor,na minha opinião,trata-se realmente da melhor maneira de expor sentimentos.O quanto a pessoa é importante em nossas vidas,estando ou não perto.E aqui,expressa-me bem a vontade que o personagem tem em encontrar sua alma.Depois de um tempo sem vê-la,e sem saber o quanto ainda demoraria para que isso ocorresse,em meio a calmaria de um lindo Domingo,faz sua imaginação alcançar a mais linda cena.Os dois,caminhando em lugares onde ninguém poderia atrapalhar,somente sentindo o que o momento lhes proporcionava.Nesse momento,sabe-se que trata-se de um sonho.Sonho que,na verdade,pode se tornar realidade desde que a vontade e atitude,façam essa linha imaginária(como já diz o nome),tornar-se a linha da união.Creio que entre eles,somente a parte física está longe,pois todas as vezes que o autor pode,revive lembranças que o fazem estar perto de quem ele mais deseja.Termino meu comentário,com as belas palavras de Chico Xavier:"Para ter algo que você nunca teve,é preciso fazer algo que você nunca fez."
    Nunca devemos desistir do que almejamos.Talvez seja tarde quando quiser.
    Parabéns por mais essa obra.Tens o dom mesmo de nos "tocar" em palavras.O vídeo também foi muito bem escolhido para acompanhar o que diz o texto.
    Bjss e até muito breve...

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  2. Esse texto me causou um sentimento muito forte de perda. Uma tristeza profunda e impotência diante da vida e do destino, talvez porque eu seja uma pessoa muito apegada às coisas, situações e pessoas e não admita perdê-las, isso para mim é um assunto muito delicado, sei que assim o sofrimento sempre será maior, pois idas e vindas são necessárias e ninguém é um poste que permanece no mesmo local a vida toda.
    Se não aprendermos pelo modo mais fácil, que é o amor, a dor nos ensinará de forma impiedosa! Mas a vida é assim, sem sentido às vezes. Sua narrativa foi muito sofrida e ao mesmo tempo cheia de saudade e recordações. Talvez não devesse dar certo mesmo, pois nem todos que cruzam nossos caminhos, permanecem, algumas lições eles devem ter aprendido e quem sabe possam não cometer os mesmos erros, em uma próxima vez. Mas como em tudo na vida, o que nos resta, são as lembranças do que foi bom, do que fez com que por um determinado tempo desse certo. E os Domingos à tarde, sempre trarão aquele sentimento, que um dia foi tudo o que mais desejamos na vida.
    Parabéns Renato! Como sempre, nos fez pensar e repensar nossos conceitos.

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  3. Quando não se esquece da pessoa, dá nisso vem as lembranças de como poderia ter dado certo. A ilusão de um 'casal perfeito', mas q na verdade só durou no tempo q tinha q durar. Passar por momentos bons e ruins e tirar como aprendizado, nada dura pra sempre. Andréa Cardoso.

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  4. A gente escreve. E por vezes, escreve coisas bonitas. Textos interessantes e com uma baita dose de sabedoria. Por vezes dá um clique, fruto de uma experiência e sai uma escrita legal, certeira, profunda. Pois eu digo: é só!
    Isso não significa necessariamente que quem escreve tem também uma varinha mágica da maturidade. Sabe tudo sobre a vida, o amor e outras quinquilharias.
    Vez ou outra alguém me pede conselho.
    Poxa!Não sei dar conselho ou orientação nenhuma.
    Nem abrir a latinha de vick eu ando conseguindo, quanto mais opinar na vida das pessoas(rss)

    Teresa

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  5. Tristeza machuca, mas o que incomoda mesmo é a falta de coragem para romper as barreiras da escuridão que a tristeza ocasiona e sair para enfrentar o mundo.
    Saudade, dói? Não. O que dói mesmo é a certeza de que a vaga não poderá ser ocupada, pois o antigo contorno do corpo permanece e não fazemos nenhum esforço para limpar solenemente as marcas deixadas por quem não mais retorna.
    O fracasso desanima? Não. O que desanima mesmo é não entender que a vida é feita de tentativas e errar faz parte do trajeto, embora queiramos acertar todas as vezes. Não conseguir, pode ser um motivo maior para continuar tentando outras coisas, outros trajetos, outros projetos, outras oportunidades.
    Solidão deprime? Não. O que deprime é não ter acesso a companhias quanto sentir vontade de estar entre as pessoas. O que deprime é andar acompanhada, completamente sozinha. É não ter com quem contar, o que contar e a quem contar. O que deixa a gente deprimido é perceber que a solidão não é voluntária e que não conseguimos sair dela. É equivocadamente pensar que a solidão basta, completa, sacia. E a vida tem receita? Não. E mesmo que apareça uma receita, ela não será capaz de trazer solução. Cada vida, uma história. Cada história, uma dor. Cada dor, uma experiência. Cada ato, um fato. Cada dia, um gole, um passo, uma queda, uma levantada, uma possibilidade. Ou nenhuma!

    E se você não concordar com isso: tudo bem. Você também está certo.

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  6. Não se trata de um sentimento como a alegria ou a tristeza que tem fácil identificação, pois as vezes a saudade nos traz um conjunto de sentimentos, podendo ser dolorosa e deliciosa ao mesmo tempo, capaz de tirar sorrisos debaixo de lágrimas ou tirar lágrimas de um sorriso.

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  7. Saudosista eu chamaria seu txt, Renato!
    Penso q o q deixa sdds tbém deixa algo de bom, nem q sejam apenas lições aprendidas!...
    Mtas vezes são lições aprendidas à força pois o real desejo era aprender junto e seguir junto, mas por alguma fraqueza os caminhos foram desviados e o rumo da volta se perdeu...
    Sua narrativa me remete ao arrependimento pelo q não aconteceu qdo o desejo era q tivesse acontecido mas a imaturidd não permitiu. E agora a maturidd revela, tardia/e, q poderia ter sido bom e q as barreiras de antes eram apenas imaginárias. Mas agora as barreiras do tempo e da distância são reais e a lembrança é o único rumo de volta!
    Agora o q resta é curtir a pseudo sensação de liberdd e aprender com as lições deixadas, p/ q as oportunidds não sejam nova/e perdidas.
    BJSSS - Edneia

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