quarta-feira, 29 de junho de 2016

A Luz Fraca Do Abajur

   Os seus olhos estão vivos, praticamente com uma vivacidade doentia. Neles se vê que tudo já está decidido – é basicamente o que se pode notar em certo momento diante da luz que brilha fraca no abajur. Há alguma doçura em sua postura soberba, talvez até uma magia estritamente sedutora. O sorriso é um sorriso sem dentes, algo meramente contido e reprimido pelo entusiasmo do que virá a seguir. Ela ainda vive, quase que permanentemente, uma evidente excitação inconformada pelo momento mais sublime da entrega na noite passada, que não foi lá grande coisa, muito menos como a expectativa criada. Talvez quisesse viajar pelas nuvens ou qualquer lugar onde mais nada importasse além do seu sonho de felicidade. Ainda assim abre bem os olhos para não perder de vista suas feridas do passado. Infelizmente ela nunca teve coragem de se desenlaçar de tudo, e relembrar é como se a morte estivesse presente. Mas ela não treme e nem fraqueja mesmo com o coração sangrando.
    Ela nunca imaginou que o amor não era eterno, e viveu cada sensação como se aquele tempo fosse inacabável. Mas tudo tem seu preço na escalada do destino, e ela sabe que em breve sentirá a razão de cada nuance da vida na mente e corpo sofridos por pancadas. Seus lábios queimam e seu pensamento ainda arde com um tipo de desejo incontrolável - quase uma mistura da espiritualidade com o êxtase sexual e a frustração. Isso deixa sua mente alerta e o corpo vivo com uma desenvoltura ingenuamente aflorada. Ela novamente se despe com naturalidade e despreocupadamente para se deitar na posição correta. Em seus olhos ainda se notam as olheiras da noite anterior vivida em fúria, quando seus cabelos foram beijados de maneira cuidadosa e em seguida puxados e enrolados por um punho firme, ao mesmo tempo que o cinto de couro marcava o ritmo como um chicote em chamas em cada palmo de suas costas.
     Com o toque dos dedos penetrando seu sexo sente no rosto a lágrima solitária desenhando o caminho já marcado por outras tristezas que vão além das marcas na carne, segue assim num labirinto sem o fio de regresso que faz aos poucos a mente vaguear pedindo misericórdia e desemboca num prazer doído.
    Foi-se no decorrer de um segundo, por uma angustia tardia e desesperadora, que algo se tornou visível em seu delírio de paixão.
    Ela já conhecia bem essa força de vontade de seguir em frente através do poder advindo do prazer da carne e da devassidão do corpo nas solitárias lutas noturnas e secretas, e aos poucos suspira e sorri por sonhos bons e eróticos - único momento em que se permite para o prazer sem culpa.           
    Mais uma vez ela respira fundo e se  prepara para nova batalha contra si mesma e seus instintos. Finalmente toma coragem e vai, segue em sua imaginação um a um com olhos sedutores e corpos suados aos quais se permite devorar. Fica horas a fio criando situações e posições, num eterno tom de suspiro e esquecimento de tudo.
    Ela sabe que um dia houve um punhal enfiado em seu coração e ficou fincado ali. E daquele momento em diante caiu uma névoa espessa em sua vida anteriormente regrada. E do seu último sacrifício de luxúria e prazer trouxe consigo o desejo real: a inspiração para continuar experimentando e se tocando mais, até sentir-se completamente saciada. Ela manteve a vontade de faze-lo repetidamente por um tempo sem fim, até que um dia conseguisse finalmente o verdadeiro alivio emocional – o que de verdade só viria com a recompensa do ato a dois. Em seu olhar vivo ainda há o silencio da morte sentimental prematura. Nada sobreviveu além do rancor que existe em sua visão a respeito do mundo e das paixões eternas. Há muito tempo se mantém assim, quando o seu único desejo aparente é o da busca incansável. A sua atitude causa em si mesma repulsa e não há uma explicação lógica que possa salvar sua mente da dor. Ela sente a realidade meio entorpecida e geme como se fosse uma criança inocente num sonho profundo - a noção não é perfeita, pois o seu prazer foi maculado pela degradação numa entrega sem mistério ou delicadeza; uma ação tida como ordinária. Em todos esses momentos há o prazer momentâneo e a dor sem fim. Existe a imagem de algo que a distancia do pensamento e a aproxima da lembrança da última fatalidade no dia em que chorou em desespero. Em sua desgraça permanente sente o efeito do remédio que criou para acalmar a própria mente que nunca se cansa de pedir justiça, - em seus lampejos brilham focos de saudade logo que a mão pousa sobre seu ventre amplo e desnudo - revela-se assim todo o mistério e delicadeza de um corpo exteriormente são. E as memórias vão se tornando remotas a cada dia passado nessa mesma rotina.
   Presa dentro da gaiola que criou se debate como um pássaro agonizante. Delira em seu maior momento de força interior e resistência moral. Mas aquele sentimento obscuro é maior e ela busca o desligamento - consente a si mesma matar os resquícios de consciência de um passado surrado, vivido na ignorância do conhecimento dos fatos. Com esse rancor na alma, persiste na dor mais intensa, a dor da perda do mais valioso bem; o que a torna irreconhecível diante de si mesma e de quem testemunhou sua vida no momento de felicidade.
    Nas trevas vive seu transe humano enquanto seu tecido carnal se rasga, estica e cria vincos. As manchas roxas aparecem pelo corpo. Em cada mancha a noção da armadilha cruelmente atroz contra si mesma. A vida não se expande conforme o seu desejo mais intimo e qualquer coisa se torna um martírio sem fim. O ódio misturado com ressentimento infiltrava-se mais uma vez em seu cérebro evoluído, tornando-o uma máquina de produzir ideias destrutivas, e seu corpo parece um corpo sem sentidos quando todas as vozes do mundo gritam em seus ouvidos e vão além, ecoando distante para outros que se identificam com a situação.
    Em mais uma falsa excitação macera desespero num choro interior, fica distante de tudo que parece puro e novamente se sente tão só como em nenhuma outra oportunidade da vida. Assim permanece por horas e horas cumprindo seu percurso sem fim. Momento em que aquele que desejar poderá ser dono do seu corpo inerte pelo tempo que quiser.
    Ao focar novamente em seus olhos ela emite um olhar que não sei se é de loucura mansa ou de ar de ausência. O seu coração parece pacificado numa ressonância profunda que emana calores e suspiros, como a última sensação de um adeus anunciado em que o cheiro impregna sua pele e se firma na ponta dos dedos depois de um tempo. A poeira e o suor se misturavam à lembrança do cheiro acre natural da excitação e o perfume finalmente vai se esvaindo da pele, ela torna-se tão distante que mais nada se sabe sobre a sua verdade por tantos desejos. Por isso ela continua e em cada novo toque o prazer a consome por dentro. E pergunta a si mesma: “O que fazer agora?”.             
    As manchas amarelas continuam no lençol, o colchão manchado por sêmen na noite anterior foi virado ao contrário. E ela mais uma vez, com o coração leve por alguns instantes, flameja em lamentação interior e arde por dentro como a chama mais quente do inferno, carregando consigo as culpas da sua falta de sintonia e entendimento da situação.
    Mais uma vez levanta-se devagar, absolutamente entediada de tanto sexo solitário e aborrecido, num cenário em que os vermes rastejam nus pelos bastidores da sua imaginação. Aos poucos oferece encorajamento a si mesma com um simples pensamento, pois o seu desgosto parece tão grande que não consegue expressar de outra forma tanta tristeza. Em plena escuridão se deita novamente e dá sequência ao velho vicio - faz automaticamente enquanto imagina olhos arregalados tentando admirar os seus seios pequenos e suas pernas se apertando uma a outra. Aos poucos fecha os olhos enquanto um corpo grande e suado balança por cima em um ritmo alucinado fazendo os quadris se mexerem juntos. O pensamento mergulha nos mais loucos devaneios esquecendo tudo o que de verdade acontece ali. Do nada, toda a fúria se interrompe de repente e ela relaxa! Tudo acaba e nova maratona se inicia com o mundo desaparecendo sobre suas vistas. Em sua mente um membro duro e grosso rasteja e esfola num vai e vem continuo e permanente de bate estaca. Ela não sente dor quando braços fortes a apertam com mais força, mais calor, mais emoção, e ela naturalmente se mexe para cima e para baixo no momento da estocada mais forte em que só as bolas dele ficam de fora. Ela parece cada vez mais molhada e escorregadia ao sentir as contrações e deseja desesperadamente alguém para beijar seus lábios ou tocar os bicos dos seus seios. Os seus olhos brilham no escuro e ela sorri ao perceber que algo muito intenso jorrou lá de dentro. Ela sabe que em algum momento os seus olhos saltaram da órbita e alcançaram os céus - é fascinante poder sentir prazer sem dar a menor importância à coisa alguma. Ela acha tudo muito bom, esquenta o sangue, aguça a fúria e adoça o instinto mais primitivo enquanto o suco ainda flui entre as pernas. Então essa coisa louca fez com que se lembrasse de outra; aquela que motivou esse momento e a fez agir como se tivesse tirando algo da sua consciência machucada. O mundo inteiro parece estar pronto para ser mudado do mal para o bem instantaneamente, mesmo que seja por alguns segundos em seu desejo único e exclusivo, por que ninguém está olhando e ela pode fazer o que quiser sob a luz fraca do abajur.

10 comentários:

  1. Muito interessante o assunto desse texto! Pessoas que se entregam ao sexo seja por dinheiro, ou pela procura de um alívio para a dor que sentem na alma. Usam dessa fuga para poderem desfrutar de segundos de prazer e felicidade, embora isso não as leve a lugar algum e depois disso voltam à realidade: solidão, culpa, desamparo, medo...
    Acho que a desilusão levou a personagem a desacreditar no amor e se entregar a pequenos momentos de prazer carnal, se entregando a um e a outro sem o medo de voltar a sofrer. Infelizmente essa atitude só a fará sofrer mais e mais, pois virá o momento que nem isso ajudará amenizar sua dor.
    Parabéns Renato! Assunto diferente dos que você tem abordado, mas que também nos faz pensar, pois qualquer um de nós pode fazer o que quiser sob a luz fraca de um abajur.

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  2. Patricia Ramos Sodero6 de julho de 2016 12:58

    Olá,Renato!Demorou a publicar novo texto hein?Sabe...quando trata-se de desejos e prazeres de nós,mulheres,esperamos um envolvimento rico em emoções,onde o nosso homem se entregue tal como fazemos.Mas isso nem sempre acontece...Mulheres deitam-se ao lado de seu homem,se entregam por completo e quando menos se espera,o prazer carnal já acabou.Nada pior do que ficarmos queimando em fogo,e quando ainda estamos com o "pique",a vontade do "querer mais"...nosso homem adormece pelo cansaço.Solidão...sentimento que no final faz nossos pensamentos irem além dos nossos limites.E então,usamos de imaginações e "toques" para acalmar nossos desejos.E tudo isso feito a luz fraca do abajur.
    Bonito texto onde você relata exatamente o sentimento de uma mulher quando sente-se só,em seu quarto,mesmo estando acompanhada.
    Espero que não demore tanto a publicar novo texto e que você continue assim... abordando sempre novos temas!Parabéns!
    O vídeo acompanha muito bem a descrição do texto...
    Bjsss e até breve!

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  3. Interessante, Renato! Uma narrativa em terceira pessoa q mais parece estar em primeira,  tamanha a riqueza nos detalhes dos sentimentos e angústias da personagem! Por vezes, tive a impressão  q a fala era dela msm!
    Há momentos de confusão, qdo os sentimentos de prazer e decepção, amor e ódio, alta e baixa estima se atropelam,  causando uma mistura de euforias numa viagem q vai do céu ao inferno em fração de segundos!...
    Aí a gente começa a imaginar cm algumas pessoas se deixam dominar ou se envolver de tal maneira q ficam tão invadidas q se perdem da própria personalidd, ao ponto de se anularem ou até se auto flagelarem,  cm uma ré pagando a pena sentenciada  por ela própria. Vítimas da própria dependência, colocam sua felicidd nas mãos do outro e não se dão conta de q as consequências são causadas pelos seus próprios atos... A busca insaciável pelo prazer carnal se torna apenas uma camuflagem para esconder a perda do amor próprio!
    O txt traz uma descrição erótica q deveria proporcionar certa excitação em quem lê, mas provoca uma sensação de angústia e aflição, e tbém uma boa dose de pena da personagem carente de amor. Uma carência tão profunda q a faz sentir-se culpada e a leva por caminhos tortuosos q talvez só ofereça a passagem de ida...
    Seu txt é, no mínimo,  provocante, Renato, e mto bem escrito, cm sempre! Vc está de Parabéns pela sensibilidd!
    BJSSS - Edneia

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  4. Fico meio desanimada quando percebo a quantidade de regras que tenho que seguir pra ser considerada uma pessoa realizada ou bem sucedida.
    Vivemos em um tempo onde algumas pessoas se acham réguas do mundo e se sentem no direito de julgar todos aqueles que não cabem no seu "molde", como se a felicidade seguisse padrões ou imposições sociais.
    Se importam tanto em parecer, que esquecem que 'ser' de verdade não tem preço, que felicidade é algo relativo, e que "cada um sabe dor e a delícia de ser o que é"

    Débora.

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  5. Olá Renato,
    A Luz Fraca de um Abajur, não pode e nem deve esconder os nossos desejos verdadeiros, quando isso acontece deixamos nos envolver por sentimentos que não estão presentes em nosso verdadeiro "Eu".
    As relações trazem hoje o imediatismo prazer carnal, que busca esconder e anular qualquer outro sentimento, que muitas vezes nos tornam insensíveis ao sentimento alheio de quem está se relacionando com uma outra pessoa.
    O texto é descrito na 3ª pessoa, mas que deve sempre ser refletido na 1ª pessoa, para que carência ou solidão não faça as pessoas se entregarem a qualquer coisa oferecida por uma outra pessoa.
    O texto é envolvente e bem escrito.
    Parabéns pela sutileza nas palavras, ao abordar um assunto muito presente no contexto atual das relações.
    Beijos Dorinha

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  6. Olá, queria entender porque mulher busca essa fuga de se sentir satisfeita ou viva literalmente falando. O vazio anda tão grande que mesmo tendo um parceiro, tudo parece incompleto. Não está bem consigo mesmo é doloroso e difícil de aceitar. O equilíbrio emocional afeta e muito a vida do ser humano em geral. Ziza

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  7. Boa noite, estava dando uma lida no seu último texto e é uma verdade, mesmo tendo ou não parceiro fixo, a maioria das mulheres sentem esse vazio, quase nunca homens conseguem preencher, ou melhor, a lidar com sentimentos de uma mulher.. Achando q o ato em si, já basta pra proporcionar o prazer! Enquanto alguns pensarem e agirem assim, mulheres irão cada vez mais se isolarem e desacreditar o q é realmente prazer e felicidade!
    Andréa Cardoso.

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  8. Um texto revelador seu autor, pra não dizer complexo. Poucas tem essa coragem de admitir que não estão felizes dentro de um relacionamento, onde vão empurrando com medo de recomeçar, ou talvez, se redescobrir como mulher mesmo. Intimidade é algo tão desconhecido entre os parceiros, só pensam no físico.
    Minoria sentem completas, enquanto isso, vamos viver de faz de conta e achar que está tudo maravilhoso dentro de um relacionamento.Letícia.

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  9. A maioria dos homens não sabem satisfazer ums mulher, essa é a verdade. O machismo de muitos impedem de conhecer a verdadeira essência de uma mulher. Essas frutrações acima que você descreveu acontece com a maioria infelizmente. Já cansei de ouvir relatos de amigas que reclamam dos seus parceiros, esquecendo que está lidando com ser humano e não com pedaço de carne. Tânia.

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  10. Estou vendo que no futuro mulheres irão optarem a ficarem sozinhas mesmo, do jeito que as relações andam. Será menos frustrante e dor de cabeça. Iara.

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