quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A Luz Fraca Do Abajur

   Os seus olhos estão vivos, praticamente com uma vivacidade doentia. Neles se vê que tudo já está decidido – é basicamente o que se pode notar em certo momento diante da luz que brilha fraca no abajur. Há alguma doçura em sua postura soberba, talvez até uma magia estritamente sedutora. O sorriso é um sorriso sem dentes, algo meramente contido e reprimido pelo entusiasmo do que virá a seguir. Ela ainda vive, quase que permanentemente, uma evidente excitação inconformada pelo momento mais sublime da entrega na noite passada, que não foi lá grande coisa, muito menos como a expectativa criada. Talvez quisesse viajar pelas nuvens ou qualquer lugar onde mais nada importasse além do seu sonho de felicidade. Ainda assim abre bem os olhos para não perder de vista suas feridas do passado. Infelizmente ela nunca teve coragem de se desenlaçar de tudo, e relembrar é como se a morte estivesse presente. Mas ela não treme e nem fraqueja mesmo com o coração sangrando.
    Ela nunca imaginou que o amor não era eterno, e viveu cada sensação como se aquele tempo fosse inacabável. Mas tudo tem seu preço na escalada do destino, e ela sabe que em breve sentirá a razão de cada nuance da vida na mente e corpo sofridos por pancadas. Seus lábios queimam e seu pensamento ainda arde com um tipo de desejo incontrolável - quase uma mistura da espiritualidade com o êxtase sexual e a frustração. Isso deixa sua mente alerta e o corpo vivo com uma desenvoltura ingenuamente aflorada. Ela novamente se despe com naturalidade e despreocupadamente para se deitar na posição correta. Em seus olhos ainda se notam as olheiras da noite anterior vivida em fúria, quando seus cabelos foram beijados de maneira cuidadosa e em seguida puxados e enrolados por um punho firme, ao mesmo tempo que o cinto de couro marcava o ritmo como um chicote em chamas em cada palmo de suas costas.
     Com o toque dos dedos penetrando seu sexo sente no rosto a lágrima solitária desenhando o caminho já marcado por outras tristezas que vão além das marcas na carne, segue assim num labirinto sem o fio de regresso que faz aos poucos a mente vaguear pedindo misericórdia e desemboca num prazer doído.
    Foi-se no decorrer de um segundo, por uma angustia tardia e desesperadora, que algo se tornou visível em seu delírio de paixão.
    Ela já conhecia bem essa força de vontade de seguir em frente através do poder advindo do prazer da carne e da devassidão do corpo nas solitárias lutas noturnas e secretas, e aos poucos suspira e sorri por sonhos bons e eróticos - único momento em que se permite para o prazer sem culpa.           
    Mais uma vez ela respira fundo e se  prepara para nova batalha contra si mesma e seus instintos. Finalmente toma coragem e vai, segue em sua imaginação um a um com olhos sedutores e corpos suados aos quais se permite devorar. Fica horas a fio criando situações e posições, num eterno tom de suspiro e esquecimento de tudo.
    Ela sabe que um dia houve um punhal enfiado em seu coração e ficou fincado ali. E daquele momento em diante caiu uma névoa espessa em sua vida anteriormente regrada. E do seu último sacrifício de luxúria e prazer trouxe consigo o desejo real: a inspiração para continuar experimentando e se tocando mais, até sentir-se completamente saciada. Ela manteve a vontade de faze-lo repetidamente por um tempo sem fim, até que um dia conseguisse finalmente o verdadeiro alivio emocional – o que de verdade só viria com a recompensa do ato a dois. Em seu olhar vivo ainda há o silencio da morte sentimental prematura. Nada sobreviveu além do rancor que existe em sua visão a respeito do mundo e das paixões eternas. Há muito tempo se mantém assim, quando o seu único desejo aparente é o da busca incansável. A sua atitude causa em si mesma repulsa e não há uma explicação lógica que possa salvar sua mente da dor. Ela sente a realidade meio entorpecida e geme como se fosse uma criança inocente num sonho profundo - a noção não é perfeita, pois o seu prazer foi maculado pela degradação numa entrega sem mistério ou delicadeza; uma ação tida como ordinária. Em todos esses momentos há o prazer momentâneo e a dor sem fim. Existe a imagem de algo que a distancia do pensamento e a aproxima da lembrança da última fatalidade no dia em que chorou em desespero. Em sua desgraça permanente sente o efeito do remédio que criou para acalmar a própria mente que nunca se cansa de pedir justiça, - em seus lampejos brilham focos de saudade logo que a mão pousa sobre seu ventre amplo e desnudo - revela-se assim todo o mistério e delicadeza de um corpo exteriormente são. E as memórias vão se tornando remotas a cada dia passado nessa mesma rotina.
   Presa dentro da gaiola que criou se debate como um pássaro agonizante. Delira em seu maior momento de força interior e resistência moral. Mas aquele sentimento obscuro é maior e ela busca o desligamento - consente a si mesma matar os resquícios de consciência de um passado surrado, vivido na ignorância do conhecimento dos fatos. Com esse rancor na alma, persiste na dor mais intensa, a dor da perda do mais valioso bem; o que a torna irreconhecível diante de si mesma e de quem testemunhou sua vida no momento de felicidade.
    Nas trevas vive seu transe humano enquanto seu tecido carnal se rasga, estica e cria vincos. As manchas roxas aparecem pelo corpo. Em cada mancha a noção da armadilha cruelmente atroz contra si mesma. A vida não se expande conforme o seu desejo mais intimo e qualquer coisa se torna um martírio sem fim. O ódio misturado com ressentimento infiltrava-se mais uma vez em seu cérebro evoluído, tornando-o uma máquina de produzir ideias destrutivas, e seu corpo parece um corpo sem sentidos quando todas as vozes do mundo gritam em seus ouvidos e vão além, ecoando distante para outros que se identificam com a situação.
    Em mais uma falsa excitação macera desespero num choro interior, fica distante de tudo que parece puro e novamente se sente tão só como em nenhuma outra oportunidade da vida. Assim permanece por horas e horas cumprindo seu percurso sem fim. Momento em que aquele que desejar poderá ser dono do seu corpo inerte pelo tempo que quiser.
    Ao focar novamente em seus olhos ela emite um olhar que não sei se é de loucura mansa ou de ar de ausência. O seu coração parece pacificado numa ressonância profunda que emana calores e suspiros, como a última sensação de um adeus anunciado em que o cheiro impregna sua pele e se firma na ponta dos dedos depois de um tempo. A poeira e o suor se misturavam à lembrança do cheiro acre natural da excitação e o perfume finalmente vai se esvaindo da pele, ela torna-se tão distante que mais nada se sabe sobre a sua verdade por tantos desejos. Por isso ela continua e em cada novo toque o prazer a consome por dentro. E pergunta a si mesma: “O que fazer agora?”.             
    As manchas amarelas continuam no lençol, o colchão manchado por sêmen na noite anterior foi virado ao contrário. E ela mais uma vez, com o coração leve por alguns instantes, flameja em lamentação interior e arde por dentro como a chama mais quente do inferno, carregando consigo as culpas da sua falta de sintonia e entendimento da situação.
    Mais uma vez levanta-se devagar, absolutamente entediada de tanto sexo solitário e aborrecido, num cenário em que os vermes rastejam nus pelos bastidores da sua imaginação. Aos poucos oferece encorajamento a si mesma com um simples pensamento, pois o seu desgosto parece tão grande que não consegue expressar de outra forma tanta tristeza. Em plena escuridão se deita novamente e dá sequência ao velho vicio - faz automaticamente enquanto imagina olhos arregalados tentando admirar os seus seios pequenos e suas pernas se apertando uma a outra. Aos poucos fecha os olhos enquanto um corpo grande e suado balança por cima em um ritmo alucinado fazendo os quadris se mexerem juntos. O pensamento mergulha nos mais loucos devaneios esquecendo tudo o que de verdade acontece ali. Do nada, toda a fúria se interrompe de repente e ela relaxa! Tudo acaba e nova maratona se inicia com o mundo desaparecendo sobre suas vistas. Em sua mente um membro duro e grosso rasteja e esfola num vai e vem continuo e permanente de bate estaca. Ela não sente dor quando braços fortes a apertam com mais força, mais calor, mais emoção, e ela naturalmente se mexe para cima e para baixo no momento da estocada mais forte em que só as bolas dele ficam de fora. Ela parece cada vez mais molhada e escorregadia ao sentir as contrações e deseja desesperadamente alguém para beijar seus lábios ou tocar os bicos dos seus seios. Os seus olhos brilham no escuro e ela sorri ao perceber que algo muito intenso jorrou lá de dentro. Ela sabe que em algum momento os seus olhos saltaram da órbita e alcançaram os céus - é fascinante poder sentir prazer sem dar a menor importância à coisa alguma. Ela acha tudo muito bom, esquenta o sangue, aguça a fúria e adoça o instinto mais primitivo enquanto o suco ainda flui entre as pernas. Então essa coisa louca fez com que se lembrasse de outra; aquela que motivou esse momento e a fez agir como se tivesse tirando algo da sua consciência machucada. O mundo inteiro parece estar pronto para ser mudado do mal para o bem instantaneamente, mesmo que seja por alguns segundos em seu desejo único e exclusivo, por que ninguém está olhando e ela pode fazer o que quiser sob a luz fraca do abajur.

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