sábado, 23 de abril de 2016

Magia Do Luar

     Na noite do dia 21 de abril o céu estava limpo e a lua cheia, o seu brilho intenso marcava o prenúncio de tragédias iminentes; maré alta, afogamentos, desabamentos, revelações de amores intensos e ódios amargos – sem contar, as experiências imaginárias de cada um com a magia romântica do luar.
     Mas e daí?, alguém poderia perguntar, e se ninguém perguntasse eu mesmo perguntaria e responderia: que coisa mais banal, esse mundo ou qualquer outro que desconhecemos, comum ou talvez não, onde alguém sente um aperto no peito, nem que seja por um momento, e olha ao redor com atenção e continua parado absorvendo experiências noturnas.
      A porta range nas dobradiças, a noite não é fria e nem quente, paro um pouco, já do lado de fora, e me acostumo com a claridade mínima. Eu gostaria da escuridão total, mas para isso eu teria de voltar ao ponto de partida e recomeçar do zero, mas isso me parece impossível na atual circunstância da vida. Dou mais dois ou três passos e me aprofundo, até marcar o meu novo ponto de partida para uma nova experiência.
     Volto-me para a porta e vejo o corredor repleto de ideias até a metade, porque seria pedir demais que ele estivesse tomado por todos os cantos até o teto. Descubro que o tom azul-pálido que ilumina o céu e a terra é capaz de produzir mais loucura do que medo, e assim prossigo com o olhar altivo e as mãos vazias.
     Paro os pensamentos por um segundo e tento respirar fundo, mas como sempre acontece, não consigo, sinto um enorme desespero por causa disso.
     Olho outra vez para a porta entreaberta que ficou lá longe e me convenço de que não haverá novas perguntas. E para falar a verdade, se houvessem, eu não saberia o que responder, porque me vejo perplexo diante da mesma conclusão que sempre volta mais forte.
     Então me ponho a imaginar como seria, se eu soubesse desenhar e alguém me pedisse um retrato seu. A resposta viria rápida: não conseguiria nem que fosse com traços simples. No máximo ficaria limitado a um risco, a uma simples tentativa de intenções de traçar no papel uma imagem perdida no tempo. E esse pseudo-desenho que nunca existiu seria como uma espécie de arrependimento, uma declaração de que não a conheci o suficiente para poder desenhar uma imagem fiel aos seus traços físicos.
      Certas coisas quando ditas de outra maneira, poderiam expressar o fato de nunca termos conseguido construir um enredo em comum e consistente. Isso parece bem simples. Mas ainda há tantos pontos difíceis para se apoiar e ter convicção para acreditar nisso.
     Além de todas as dificuldades que chegam no dia a dia seria preciso que eu fosse dotado de uma memória poderosa o bastante para guardar tantos detalhes, ou cada particularidade dos seus trejeitos depois de tantos anos - para desenhar, riscar, rabiscar.
      O horizonte está vazio, quieto e sem surpresas. No entanto, por mais estranho que possa parecer, desta vez o silêncio não apenas me impacienta como até mesmo parece me tranquilizar. Essa circunstância me traz a serenidade, que por sua vez reflete uma nova dimensão ao meu perfil, outrora contraposto ao fundo do céu e da lua brilhante, isso ainda faz meus olhos cintilarem com o fogo do ódio e da paixão.
      Continuo assim por um bom tempo. De repente, me dou conta de que não entendo o que penso. Volto ao princípio de tudo e começo de novo, mas não consigo. Percebo então que estou muito tenso, com várias partes do corpo em contração, em especial o pescoço e o ombro esquerdo. Eu rio de mim mesmo ao descobrir o motivo do incomodo: toda a minha atenção deixara de ser da lua maravilhosa e se voltara para você. Não, não é justo. Ninguém de bom senso se preocuparia com algo assim tão distante no passado. Talvez alguém me chamasse de louco se soubesse o que eu penso. Poderia pensar que lá dentro tivesse algo extraordinário ou, quem sabe, trivial, e ao acaso, olhando de rabo de olho, houvesse algo estranho demais nos pensamentos para ser chamado de comum. Melhor deixar essas tolices de lado e parar de fazer estardalhaço, pois me sinto cada vez mais ridículo ao tentar tirar conclusões definitivas sem testar as coisas antes. Agora sou eu quem arrisca um olhar, mas não é de rabo de olho, é firme e com um grave desvio de cabeça para a direita. E então eu a vejo. Está com os olhos fixos em mim e se mantém assim por algum tempo. A distância entre nós é suficiente para que eu perceba que o seu nariz tem contornos parecidos ao meu. Volto a olhar a lua e ficamos assim por um longo instante. Passa um tempo e agora é você quem se vira e olha o corredor das minhas ideias deixadas para trás. Aponta para a escuridão e prossegue no jogo como uma criança encantada com o brinquedo novo que acabou de ganhar. Arqueia para cima de mim e forma o início de um sorriso. Parece uma coisa tão sem importância, tão boba, e de repente, sem que eu possa dominar, abre-se um fluxo dentro de mim para lhe receber: uma trilhazinha estreita, tímida, mas capaz de fazer disparar o coração e propor a imagem de um afortunado a olhar sempre para frente como se jamais houvesse vida antes e depois.
       Eu a vejo, pensativa, séria, examinando um ponto indefinido no corredor das ideias, das minhas memórias. Não me movo e continuo a olhar para o seu perfil. Agora estamos sorrindo, perdidos um no outro, mirando como se nada mais existisse no mundo, como se a nossa vida se resumisse a isso. Se alguém me pedisse uma definição menos absurda, eu não saberia como dá-la. Mas nunca deixo de pensar que o instante de olhar a lua ao seu lado, seja qual for o significado, é um desses mistérios infinitos do Universo que colocam dois pares de olhos fixos um no outro para tentar se conhecer melhor e, pouco a pouco, entender para depois penetrar e dominar. 
      Eu acompanho o movimento das suas mãos, é como se elas me dissessem, fique quieto, fique aí, não diga nada, não queira nada, não pense em nada; eu adivinharei o que você precisa; deixe os detalhes por minha conta; nem sequer viva, eu farei por você; acompanhe os movimentos das minhas mãos, com todos os seus sentidos e por sua existência inteira sob a luz da lua encantada. Agora está tudo em paz e o ódio amargo desaparecerá lentamente dos seus olhos.
       Ela me beija cruelmente por segundos, se vira de costas e caminha devagar. A minha respiração vai se amainando, os pensamentos se estabilizando e ficando mais suaves, profundos, até o limite possível de lembrar que um dia o peito estava apertado.
      De repente, ela volta e se coloca ao meu lado, segura a minha mão enquanto somos banhados pela luz da lua e diz:
       “Agora está tudo bem?”
      Fiz que sim com um aceno e demos mais dois passos à frente e ela continuou:
      “Nós comemos, bebemos e cuidamos das nossas coisas, agora vamos encarar um novo desafio? É o destino de cada um”.    
      Fez-se um longo silêncio, durante o qual nos olhamos sem expressão definida no rosto. Ela suspirou, largou a minha mão e retomou a caminhada passo a passo até sumir na escuridão. Eu passei pela porta e retornei ao corredor, me perdi apurando os sentidos. Tentei modificações, novos modos de agir, anseios e movimentos. E aos poucos fui ampliando o olhar para as pequenas coisas, e desta forma chegando às maiores e depois de volta às pequenas, juntando tudo para depois separar - e esperar para o que desse e viesse.
     Mas e daí?, alguém poderia novamente perguntar, e se ninguém perguntasse eu mesmo perguntaria e responderia: que coisa mais banal essa narrativa de sensações que ocultamos ou não queremos entender, parecem comuns a cada um, ou talvez não. Alguém sente um aperto no peito, por um instante, olha ao redor com atenção e continua parado absorvendo todas as experiências do destino, - imaginárias ou não - proporcionadas aos sonhadores pela magia do luar de abril.


10 comentários:

  1. Bela narrativa do fim de um amor. A lua como testemunha do começo e do final, cheia de mistérios e lembranças. O adeus definitivo, deixando para trás todo sofrimento, toda dor, perdoando e sendo perdoado, seguindo em frente, ambos prontos para novos desafios. Mas e daÍ? alguém poderia perguntar e eu responderia, ao luar amores começam e terminam e a vida segue, mais cedo ou mais tarde, o mesmo luar será testemunha de um novo desafio. Bela canção, Echo&The Bunnymen, perfeita! Parabéns Renato, mais um ótimo texto!

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  2. Impressionante, Sr. Autor, a magia do luar realmente nos faz sonhar!!!
    Bem assim msm, uma avalanche de ideias q se atropelam e pensamentos q vão pra longe, mto longe, em busca de um amor platônico ou de um passado distante ou, quem sabe, do desejo de uma estória de contos de fadas com final feliz q nunca acontece!
    Ou uma viagem pra logo ali, um pouco mais além, numa angustia de pensamentos tentando invadir o corredor das ideias um do outro, querendo estar mais perto, interiorizar, e descobrir os segredos mais profundos!
    São viagens imprevisíveis q tbém levam a caminhos tortuosos, sombrios, catastróficos, magnetizados pela força lunar, cm aquele aperto no peito de mãe q espera pelo filho e ele não volta mais...
    São tnts as experiências noturnas, imaginárias ou não, felizes ou não, q uma noite de luar intenso pode proporcionar! A lua de 21 de Abril não veio apenas p/ anunciar a proximidd da Lua Cheia. Com certeza ela tbém foi testemunha de inúmeras destas experiências, inclusive de belas inspirações cm este txt, q parece regado com a magia romântica do luar daquela noite! Parabens, Renato!
    BJSSS - Edneia

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  3. Patricia Ramos Sodero25 de abril de 2016 22:23

    Olá,Sr.Autor!Quanto tempo hein?Mas quando retorna é assim...Faz suas leitoras se envolverem em pensamentos...lembranças...saudades...Na calada da noite pode acontecer muita coisa não é mesmo?Principalmente,quando trata-se de uma noite linda de lua cheia brilhando no céu...Ahhh!!!Mistura-se um pouquinho de cada sentimento.Podemos aprofundar cada passagem de nossas vidas,pois somente "ela" será a cúmplice.Nem sempre trata-se de um final feliz.Mas a vida é assim...cheia de surpresas mesmo.Um lindo texto,onde mostra que a inspiração de um Autor,pode modificar nossa forma de enxergar e interpretar a vida,o destino...
    Parabéns,Renato!Adorei o vídeo que mostra exatamente o ar sombrio e o ar romântico do texto em questão.
    Bjssss e até breve!

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  4. Bacana o texto, sobretudo místico! Andréa Cardoso.

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  5. Mesmo com o mesmo enredo sem final feliz, senhor conseguiu dar uma leveza neste texto. Apesar na lua cheia, casais pensem ao contrário de você aqui. Que um dia aconteça algo maravilhoso e sublime e possam sim ser felizes apesar dos obstáculos que poderá ocorrer no relacionamento. Isso é fato, quando se é amor de verdade nada e ninguém os separam. Acho que isso não aconteceu com autor, quem sabe um dia apareça uma moça que tire suas amarguras do passado, lógico se tiver disposto a isso também. Sorte! Ana Lú.

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  6. Esse belo texto deu-se pela motivação da música, tudo contribuiu lua cheia, pensamentos longe, talvez em alguém especial que está guardada no seu coração. É seu autor, as coisas andam tão complicadas ultimamente, o jeito é sair um pouco da realidade e sentir esse momento prazeroso e único. Possa ser que algumas pessoas não entendam de forma natural que aconteça esse tipo de sensação, só os privilegiados e você foi escolhido. Exerça a função de praticar sempre e nos relatar aqui, amei. Parabéns! Letícia.

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  7. Nesta sexta-feira lua cheia olhando pro céu vejo a Lua e com clareza percebo que não desgruda os olhos sobre minha pessoa, melhor dizendo, sobre a Terra. Linda, majestosa sempre nos encorajando a enfrentarmos a vida e seus obstáculos. Tudo seria perfeito se o ser humano tivesse essa sensibilidade em olhar em volta e ver como estão destruindo aos poucos o que Deus nos deixou. Ambição e poder dá nisso, até a hora que todo dinheiro não valerá mais nada. Estranho meu comentário (pode estar querendo entender o que isso tem haver com texto). Digo quando as pessoas pararem de serem egoístas e se doarem mais, haverá mais amor, fé e esperança seu autor. O dinheiro compra tudo menos afeto e saúde! Sua saudade é nítida aqui, já que suas leitoras disseram. E não vou eu ficar reprisando as mesmas coisas. Fui pro lado mais simples. Ame-se primeiro, depois permita-se ser feliz outra vez. Abraços.

    Raquel

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  8. Boa noite Renato, bonito texto, mas sinto nele um tanto de amargura e descrença de que um amor de verdade possa acontecer, mas você reconhece o poder mágico de uma noite linda de lua cheia, o brilho da noite, a beleza da maré alta , fazendo do mar uma beleza infinita, mais deixa claro um coração machucado e insatisfeito com a possibilidade de não ter alguém para entregar toda essa sensibilidade na forma de um abraço e um longo beijo para compor todo esse cenário mágico.
    Pense em livrar-se de todo o preconceito e de barreira para que você acredite antes em você e da sua capacidade de amar sem esperar nada em relação a outras pessoas, invista em você e ame sem limites só assim poderá deixar as portas abertas para encontrar em alguém aquilo que deseja.
    Continue assim enxergando a beleza das coisas e transformando em palavras em perfeita harmonia.
    Parabéns pelo texto......

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  9. Sua descrição sobre a Lua, remete a algo que no fundo sente por alguém que almejou e não obteve sua mais pura forma de sentir a essência. Pode ter tido encontros, sexo, mais o importante não conseguiu seu coração de verdade. É seu autor anda difícil ter essa reciprocidade do lado afetivo, gostamos de quem não gosta da gente, fungimos de quem gosta da gente. Nada é perfeito. Sua admiração é nítida por essa mulher. Mônica.

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  10. Lindo texto, escrito com emoção, sentimento. Dá gosto de ter lido. Parabéns pela sensibilidade, autenticidade. Beijos.

    Deborah

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