segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Magia Do Luar

     Na noite do dia 21 de abril o céu estava limpo e a lua cheia, o seu brilho intenso marcava o prenúncio de tragédias iminentes; maré alta, afogamentos, desabamentos, revelações de amores intensos e ódios amargos – sem contar, as experiências imaginárias de cada um com a magia romântica do luar.
     Mas e daí?, alguém poderia perguntar, e se ninguém perguntasse eu mesmo perguntaria e responderia: que coisa mais banal, esse mundo ou qualquer outro que desconhecemos, comum ou talvez não, onde alguém sente um aperto no peito, nem que seja por um momento, e olha ao redor com atenção e continua parado absorvendo experiências noturnas.
      A porta range nas dobradiças, a noite não é fria e nem quente, paro um pouco, já do lado de fora, e me acostumo com a claridade mínima. Eu gostaria da escuridão total, mas para isso eu teria de voltar ao ponto de partida e recomeçar do zero, mas isso me parece impossível na atual circunstância da vida. Dou mais dois ou três passos e me aprofundo, até marcar o meu novo ponto de partida para uma nova experiência.
     Volto-me para a porta e vejo o corredor repleto de ideias até a metade, porque seria pedir demais que ele estivesse tomado por todos os cantos até o teto. Descubro que o tom azul-pálido que ilumina o céu e a terra é capaz de produzir mais loucura do que medo, e assim prossigo com o olhar altivo e as mãos vazias.
     Paro os pensamentos por um segundo e tento respirar fundo, mas como sempre acontece, não consigo, sinto um enorme desespero por causa disso.
     Olho outra vez para a porta entreaberta que ficou lá longe e me convenço de que não haverá novas perguntas. E para falar a verdade, se houvessem, eu não saberia o que responder, porque me vejo perplexo diante da mesma conclusão que sempre volta mais forte.
     Então me ponho a imaginar como seria, se eu soubesse desenhar e alguém me pedisse um retrato seu. A resposta viria rápida: não conseguiria nem que fosse com traços simples. No máximo ficaria limitado a um risco, a uma simples tentativa de intenções de traçar no papel uma imagem perdida no tempo. E esse pseudo-desenho que nunca existiu seria como uma espécie de arrependimento, uma declaração de que não a conheci o suficiente para poder desenhar uma imagem fiel aos seus traços físicos.
      Certas coisas quando ditas de outra maneira, poderiam expressar o fato de nunca termos conseguido construir um enredo em comum e consistente. Isso parece bem simples. Mas ainda há tantos pontos difíceis para se apoiar e ter convicção para acreditar nisso.
     Além de todas as dificuldades que chegam no dia a dia seria preciso que eu fosse dotado de uma memória poderosa o bastante para guardar tantos detalhes, ou cada particularidade dos seus trejeitos depois de tantos anos - para desenhar, riscar, rabiscar.
      O horizonte está vazio, quieto e sem surpresas. No entanto, por mais estranho que possa parecer, desta vez o silêncio não apenas me impacienta como até mesmo parece me tranquilizar. Essa circunstância me traz a serenidade, que por sua vez reflete uma nova dimensão ao meu perfil, outrora contraposto ao fundo do céu e da lua brilhante, isso ainda faz meus olhos cintilarem com o fogo do ódio e da paixão.
      Continuo assim por um bom tempo. De repente, me dou conta de que não entendo o que penso. Volto ao princípio de tudo e começo de novo, mas não consigo. Percebo então que estou muito tenso, com várias partes do corpo em contração, em especial o pescoço e o ombro esquerdo. Eu rio de mim mesmo ao descobrir o motivo do incomodo: toda a minha atenção deixara de ser da lua maravilhosa e se voltara para você. Não, não é justo. Ninguém de bom senso se preocuparia com algo assim tão distante no passado. Talvez alguém me chamasse de louco se soubesse o que eu penso. Poderia pensar que lá dentro tivesse algo extraordinário ou, quem sabe, trivial, e ao acaso, olhando de rabo de olho, houvesse algo estranho demais nos pensamentos para ser chamado de comum. Melhor deixar essas tolices de lado e parar de fazer estardalhaço, pois me sinto cada vez mais ridículo ao tentar tirar conclusões definitivas sem testar as coisas antes. Agora sou eu quem arrisca um olhar, mas não é de rabo de olho, é firme e com um grave desvio de cabeça para a direita. E então eu a vejo. Está com os olhos fixos em mim e se mantém assim por algum tempo. A distância entre nós é suficiente para que eu perceba que o seu nariz tem contornos parecidos ao meu. Volto a olhar a lua e ficamos assim por um longo instante. Passa um tempo e agora é você quem se vira e olha o corredor das minhas ideias deixadas para trás. Aponta para a escuridão e prossegue no jogo como uma criança encantada com o brinquedo novo que acabou de ganhar. Arqueia para cima de mim e forma o início de um sorriso. Parece uma coisa tão sem importância, tão boba, e de repente, sem que eu possa dominar, abre-se um fluxo dentro de mim para lhe receber: uma trilhazinha estreita, tímida, mas capaz de fazer disparar o coração e propor a imagem de um afortunado a olhar sempre para frente como se jamais houvesse vida antes e depois.
       Eu a vejo, pensativa, séria, examinando um ponto indefinido no corredor das ideias, das minhas memórias. Não me movo e continuo a olhar para o seu perfil. Agora estamos sorrindo, perdidos um no outro, mirando como se nada mais existisse no mundo, como se a nossa vida se resumisse a isso. Se alguém me pedisse uma definição menos absurda, eu não saberia como dá-la. Mas nunca deixo de pensar que o instante de olhar a lua ao seu lado, seja qual for o significado, é um desses mistérios infinitos do Universo que colocam dois pares de olhos fixos um no outro para tentar se conhecer melhor e, pouco a pouco, entender para depois penetrar e dominar. 
      Eu acompanho o movimento das suas mãos, é como se elas me dissessem, fique quieto, fique aí, não diga nada, não queira nada, não pense em nada; eu adivinharei o que você precisa; deixe os detalhes por minha conta; nem sequer viva, eu farei por você; acompanhe os movimentos das minhas mãos, com todos os seus sentidos e por sua existência inteira sob a luz da lua encantada. Agora está tudo em paz e o ódio amargo desaparecerá lentamente dos seus olhos.
       Ela me beija cruelmente por segundos, se vira de costas e caminha devagar. A minha respiração vai se amainando, os pensamentos se estabilizando e ficando mais suaves, profundos, até o limite possível de lembrar que um dia o peito estava apertado.
      De repente, ela volta e se coloca ao meu lado, segura a minha mão enquanto somos banhados pela luz da lua e diz:
       “Agora está tudo bem?”
      Fiz que sim com um aceno e demos mais dois passos à frente e ela continuou:
      “Nós comemos, bebemos e cuidamos das nossas coisas, agora vamos encarar um novo desafio? É o destino de cada um”.    
      Fez-se um longo silêncio, durante o qual nos olhamos sem expressão definida no rosto. Ela suspirou, largou a minha mão e retomou a caminhada passo a passo até sumir na escuridão. Eu passei pela porta e retornei ao corredor, me perdi apurando os sentidos. Tentei modificações, novos modos de agir, anseios e movimentos. E aos poucos fui ampliando o olhar para as pequenas coisas, e desta forma chegando às maiores e depois de volta às pequenas, juntando tudo para depois separar - e esperar para o que desse e viesse.
     Mas e daí?, alguém poderia novamente perguntar, e se ninguém perguntasse eu mesmo perguntaria e responderia: que coisa mais banal essa narrativa de sensações que ocultamos ou não queremos entender, parecem comuns a cada um, ou talvez não. Alguém sente um aperto no peito, por um instante, olha ao redor com atenção e continua parado absorvendo todas as experiências do destino, - imaginárias ou não - proporcionadas aos sonhadores pela magia do luar de abril.


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