Certos Momentos

     Há certos momentos na vida em que a repetição é permitida. E só alguém alçado à condição de mero observador pode receber um salvo conduto por plagiar a si mesmo e aprender a viver de novo.
    Pode até parecer que práticas obsessivas na análise distante de alguns fatos descritos aqui, preencham um vazio existencial que remete ao fracasso de opinião formada ao acaso. No entanto, o imediatismo clama o lamento mais impiedoso de quem um dia se sentiu solitário no próprio pensamento - o que se justifica por uma vã esperança do escapismo, ou do enfrentamento através da busca do motivador de uma conduta inoportuna, em vez de se dar, se doar.
   O grande desejo em se tornar imprescindível parece vago e distante. Pois, na maior parte do tempo não existem risos, falas e elogios, apenas o engano do pensamento abstrato e inconstante do dia a dia conturbado.          
    Pode ser pura melancolia da minha parte tentar imaginar como uma pessoa lida com todos estes vazios, ou talvez nem me caiba tentar entender razões tão óbvias desse comportamento que parece crime e castigo na mesma roda gigante que volta sempre ao ponto inicial. E aos poucos resiste a um propósito, disfarçando as ações em tom de ironia no embarque, no balanço e no giro final. 
     Vida sem sentido é vida sem rumo que volta sempre ao mesmo ponto. Parece uma vivência sem interação, sem compreensão e sem realização. É vida que carrega o sobrenome batalha em seu desespero de um calvário privado com toda a noção de sentido que se esvai na repetição dos apelos incisivos de paz interior. Nessa condição efêmera do vazio preenchido com prazeres voláteis a existência segue seu rumo. E não é por acaso que cada um toma o caminho que tem que tomar, mesmo que este não seja o que foi sonhado nos mais belos delírios noturnos. Ahhh... São tantas as distrações para nos salvar do fundamental da vida e daquilo que levamos tão a sério, ao ponto de nos tornamos inúteis e com opiniões em participações medíocres! Será que encontrei aqui uma maneira complexa demais para falar de coisas simples com você? Será que consegui resumir em sentimentos compreensíveis a paixão e a dor que todos estão sujeitos? 
      Então... Viver rápida e furiosamente pode ser frustrante, aonde quer que se vá pode existir um drama, um sonho inacabado e uma tragédia particular. Aí fico imaginando se o medo torna as pessoas destemidas, rebeldes ou arrogantes. Ou seria a falta de tudo isso que as fazem desrespeitosas? Bem complicado o que parece simples para você, não é mesmo? Sinal dos tempos.                  
      Posso dizer que já tive muitas opiniões que abandonei, fosse a respeito da vida ou a respeito de mim mesmo - com isso aprendi a viver de novo. Em seguida tive dificuldade de encaixar cada coisa ao seu tempo e passei horas infindáveis reexaminando circunstâncias - garanto que foi perante a caricatura de reação que surgiu na vida - e não dei valor - que me tornei insensato e insensível diante da mesmice. Por isto me repito em certos momentos para ver se fujo disso e aprendo a viver de novo como diz na música de sucesso.        
     Olhando para o céu noturno na mudança de estação - verão para outono - percebo que as nuvens foram varridas e a imensidão ficou aparente, revelando no céu estrelado o que nunca dei atenção, a lua e Júpiter do outro lado da meia noite fazendo o mais lindo par. A esse infinito vão todas as perguntas que jamais obtive respostas, nem mesmo da voz do espírito para ouvir e seguir descarregando tudo da fonte criativa exclusivamente para o seu agrado. E diante dessa espera imagino o quanto gostaria de escrever melhor para você, de escrever palavras melodiosas em tons de compreensão e retidão de pensamento. Mas existe uma emoção que cai sobre mim e me leva a devaneios malucos numa instabilidade que forma um ritmo que surpreende e agride sensibilidades. As frases passando pela cabeça parecem injúrias, calúnias, falta de afeto e fraqueza de espírito. Tudo isso vira a tal caricatura na mesma velha repetição. 
      Com isso me torno uma pessoa comum e bem desafinada com a crua realidade que alguns gostariam de impor; sou como o supra-sumo de uma conduta delirante traçada sob o rumo de um misterioso caminho da vida em que cada amanhecer apresenta cartas abertas, cartas escolhidas e definidas por instinto ou por intuição. 
     Ganho através disso um grande apreço por uma realidade fundamental que restaure a normalidade da constância e a certeza no que é concreto, mas de incongruências. Estou cheio de coisas que não consigo tocar, resolver, explicar... Estou cheio de gente que determina razões e impõe argumentos. Estou farto dos fantasmas que assombram o pensamento de cada um e deságuam aqui assim, meio que se repetindo e me deixando dividido.                       
       Veja bem: não digo isto em tom de amargura ou ironia, sei que tudo pode se materializar do pensamento, isso existe e é possível, mas a retórica seria uma extravagância incomum com tantos sentimentos contrastantes, somando-se aos meus delírios que vão além do mero otimismo de admirar um novo céu de estrelas esta noite. Esses delírios andam por caminhos de introspecção e parecem secretos e impublicáveis diante do que já vi e vivi. São desejos tão tolos como manifestos imprudentes de uma exposição substancial do ego cansado - quase uma obscenidade cruel e perversa num tom de despedida da repetição de que sou uma estrada, uma luz na escuridão ou o brilho que ilumina o caminho de mão única.                        
      De volta à escuridão da criação divina, seguem ao infinito as perguntas que buscam soluções plausíveis. E nessa corrente de sabedoria me apego aos fragmentos e reafirmo o ponto central em certos momentos do fluxo que me sustenta no próprio eixo bambo, - sem desespero ou futilidade - apenas com a ilusão e a certeza que o caos faz parte da vivência convencional e obrigatória - C´est La Vie. 
     Nas humilhações e nas derrotas tudo fica exposto numa sincera e excessiva honestidade e se desdobra em prol de uma coragem excêntrica em busca de uma obediência decisiva que clama forças aos céus. Diante disto dispo-me momentaneamente da armadura e dos símbolos noturnos. Fico frente a frente com a misera promessa de melhora das feridas abertas e com um sorriso triste diante do espelho ao qual me debruço nas palavras patéticas deste texto dúbio. Estes são meus lamentos que nunca se calam e são ingenuamente descarados; são massacrados por algo que me sufoca em busca de algum lirismo que me faz renascer. Pois assim, novamente, há a velha retrospectiva do suspense brindando com a esperança que alcança áreas inexploradas do jogo da vida - marcha lado a lado com as histórias marcantes que separam a realidade do sonho. Pois, em certos momentos em que a repetição é permitida, eu me elevo à condição de mero expectador diante da confusão do seu pensamento sobre mim e sobre a vida.

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