segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O E-Mail-Carta Parte 11

— Re — gritei atormentada — olhe para mim, eu sou uma mulher acabada? 
— Você ainda é jovem, está apenas com 35. Veja bem: do mesmo jeito que aprendeu o artesanato, embora um tanto tarde, também poderá aprender a amar novamente. Amar triste e tragicamente, você já soube fazer muito bem no passado. Agora você precisa aprender a amar de outra maneira, de um jeito menos sufocante e desconfiado. 
    O primeiro passo já foi dado ao libertar-se de tudo aquilo; agora você pode ir adiante sem medo. É preciso aprender a dançar conforme a música. Tente, será um belo progresso! É bem verdade que sem o que viveu a vida não valeria nada. Isso é o que a domina e ordena tudo. 
   Assim como o som do saxofone do seu pai, com as repetições intermináveis de um mesmo trecho de alguma música dos Beatles, que vicia a atmosfera hedonista da sua casa, pensamentos estranhos e perturbadores penetraram em seu mundo e irrompem agora por todas as partes do corpo coisas novas; sensações temidas e libertadoras da sua vida até então tão rígida e tão severamente delimitada em seus 35 anos de existência.  
    Sabe Re, você tinha razão em sua teoria quando tivemos esse diálogo. Às vezes surgiam em mim, junto a todas as antigas sensações, alguns novos pensamentos com pretensões alvoroçadas. Agora vejo claramente, como um quadro posto diante de mim, o quanto foi proveitoso o processo de evolução da minha personalidade depois que estive com você. As poucas habilidades e matérias em que eu casualmente era forte ocupavam tempo demais de toda a minha atenção. Eu pintava de mim a imagem de uma pessoa que não passava de uma estudiosa e refinada especialista em nutrição que não recebia o reconhecimento devido, além de alguma habilidade para o artesanato que nunca tinha conseguido pôr em prática para ganhar dinheiro; e como tal tinha vivido, deixando o resto de mim completamente esquecido lá dentro, mesmo sendo um caos de potencialidades e instintos que se expostos poderiam encobrir todo o resto . 
       Todavia, aconteceu uma reversão naquilo que eu imaginava, a libertação de minha personalidade anterior não constituía, de modo algum, uma aventura agradável e divertida mas, ao contrário, era amarga e dolorosa e, não raro, quase insuportável. O saxofone do meu pai soava às vezes diabólico em meio àquele ambiente onde tudo estava sintonizado com um tom inteiramente diverso. E muitas vezes me levava a pensamentos como se fosse eu uma espécie de traidora para com tudo que foi ensinado como respeitável e sagrado. Se minha mãe tivesse me deixado só durante algum tempo, eu teria fugido imediatamente daquele intento penoso e ridículo de converter-me de jovem sonhadora em mulher de hábitos e costumes admiráveis. Mas ela estava sempre ao meu lado. Ainda que a visse todos os dias, continuamente ela me observava, me acompanhava, me vigiava, me advertia. Chegava mesmo a perceber em meu rosto todos os meus pensamentos de intenso desejo de insubordinação e fuga. Com a destruição do que havia chamado antes de  “minha personalidade" eu comecei a compreender por que, apesar de todo desespero, eu temia tão horrivelmente a morte, e comecei a notar que esse temor insuportável e vergonhoso pela morte era um resquício de minha existência burguesa e enganadora.      
    Você, Re, um medíocre aspirante a escritor, conhecedor de um pouco de tudo sem ter se aprofundado em nada em nível acadêmico, começou a me mostrar em seus textos observações dignas de ler-se sobre metafísica, filosofia e comportamento, principalmente sobre a genialidade, o trágico e as incoerências dos seres humanos — um solitário melancólico em sua clausura de palavras e frases fazendo crítica a mim ou, de vez em quando sua autocrítica ponto por ponto, sem nada omitir. Você demonstrou ser alguém culto e interessante pregando do seu ponto de vista a razão, a humanidade e ainda, deveras, protestado contra a minha crueldade. Acontece que durante tudo o que vivemos não se permitiu abrir para que eu visse como seria a verdadeira intenção do seu pensamento ou da vida; em vez disso, arranjava sempre alguma forma de conciliação, nobre e decente sem dúvida, mas que não deixava de ser uma enrolação da sua parte para que tudo voltasse ao ponto que queria. Quem é você? De onde veio e para onde vai? Qual sua origem? Cadê os seus pais, seus filhos e seus irmãos? Têm primos e sobrinhos? O que fez na vida antes de me conhecer? O que fez durante? O que faz agora? Qual a sua fé? O meu pai tinha razão ao dizer que você era mais um “Zé-Ninguém” com quem eu me envolvia? Ele estava certo ao afirmar que só me envolvo com gente que não vale nada? Perguntas e mais perguntas que iam ficando sem respostas.
     Você recebia meus pedidos de esclarecimentos sem que lhe doesse a consciência. E assim acontecia para tudo o mais, enquanto você se atribuía como um prodigioso no papel de idealista cheio de desprezo pelo mundo - alguém com a mistura de melancólico solitário e profeta ruidoso, mas no íntimo sendo um incapaz petulante, com a audácia de apontar o dedo para uma vida regrada como a minha. Lamento as noites perdidas ao seu lado no frio ou no calor intenso e o dinheiro que gastei.  Alimentei remorsos suspirando pela emancipação do rancor e o aperfeiçoamento da minha personalidade, mas ao contrário, voltando aos velhos tempos em que os problemas espirituais me causavam prazer e orgulho, passo a ser a partir de agora exatamente como a personagem do seu conto; uma figura detestável insultada por você em seus textos cheios de mi-mi-mi. Lembrar dos velhos tempos antes da nossa guerra é mais cômodo do que aprender a lição das coisas já sofridas que você não se cansa de citar. Vá para o Inferno! Você mais parece um tipo escroto e asqueroso Sr. Autor! No entanto, ainda me agarro a você e ao seu verme em transformação, agarro-me ao seu namoro com o virtual e todas as exposições que faz do que considera meus podres, me agarro ao seu temor pelo desordenado e o casual (ao qual também pertence a morte da nossa relação) e o comparo a alguém cômico e sem cultura, mas apreciador das letras; um tipo sarcástico e cheio de inveja daquela lembrança do nosso tempo juntos - pessoa de ideais mentirosos, no qual pensa ter descoberto a roda ou o fogo, com características que tanto me desagradavam e desagradam mais agora. Você próprio, Sr. Autor, gostaria de ser como um burguês idealizado, um herói espiritual com olhar nobre, irradiando superioridade, espírito e sentido humano; com o poder de emocionar a mim e a todos ao mesmo tempo pela sua própria nobreza de alma! Ora bolas! Droga, o seu retrato parece mais claro, sem dúvida, precisa de reparos urgentes no seu ideal Sr. Autor ou, se preferir, moralista Re, que agora fica a lamentar totalmente desmantelado! Quer parecer alguém importante, com ideias influentes caindo aos olhos de ignorantes que o defendem e incentivam? Seria melhor aprender a portar-se com decência e parar de ostentar o seu pseudo-intelecto por vias tortas, como se isso afetasse dolorosamente a sua antiga dignidade perdida. Cada vez que me acho com mais frequência em sua companhia tenho de mudar minha opinião sobre tudo que nos rodeava, ainda que tenha partilhado momentos ao seu lado por conta apenas e tão somente do fato de considerá-lo um pouco inteligente.
     Eu me enganei. Você me dera a impressão inicial de uma bela nulidade de falsas intenções, um homem simples e bonito, vaidoso, como uma criança feliz e sem problemas, cuja satisfação consistia em ouvir música e falar sobre o zodíaco ou das estrelas no céu. Seria capaz de manter-se quieto e cheio de orgulho às custas de elogios e paparicos. Mas, no fundo, não estava interessado em minhas opiniões. Eram-lhe tão indiferentes quanto as minhas explicações sobre o negócio de artesanato que eu pretendia montar com a minha irmã. Ouvia-me com cortesia, sorrindo sempre, sem nunca emitir uma resposta. Por outro lado, parecia que eu lhe despertava algum interesse, pois se esforçava visivelmente por agradar-me se mostrando simpático em relação a mim e a vontade de ficarmos juntos. Certa vez, quando demonstrei irritação e mesmo mau humor, numa dessas tentativas de conversação inútil, você me encarou com um ar confuso e triste e, segurando a minha mão direita, alisou-a e ofereceu-me uma bala de cereja que trazia no bolso. Olhei para você com ar de interrogação e, como aprovasse sua atitude carinhosa, botei a bala na boca. Imediatamente me senti mais calma e lembrei dos sonhos eróticos que tive na noite anterior ao nosso encontro, foi fácil alegrar o espírito e despertar a paixão que tinha por você naquele momento, e tudo ficou bem depois que fizemos amor na parte traseira da velha caminhonete ao som da chuva insistente que batia no teto.

                Miss C

5 comentários:

  1. Patricia Ramos Sodero2 de março de 2016 16:58

    Olá,Sr.Autor.Que coisa hein?Miss C,com todas suas dúvidas a SEU RESPEITO,sem saber nem quem VOCÊ é,se tem uma vida e família simples como qualquer outro ser humano ou não,continua envolvida de tal forma a esse relacionamento que é difícil entender o que acontece.Tanto tempo juntos.Seria um AMOR PLATÔNICO?A sensação que tenho como leitora é simples:ambos estão espiritualmente ligados para uma jornada de ajuda.Sim,aprendizado de ambos.Miss C cresce aprendendo através de palavras ditas e escritas por RE;e ele,mesmo misterioso,a lidar com um mundo a que não lhe pertence e Miss C tanto sonha.Sem sombras e nem dúvidas,como já dito antes,na parte que fala sobre SEXO,não há empecilhos,não há crise.É o encaixe perfeito.Vamos ver como vai terminar essa história.Se é que termina...rs.
    Obrigada por não demorar a escrever novamente.Seus textos não podem ficar "parados",ok?
    Muito bonita a música que ilustra este capítulo.Realmente,a repetição que tanto o pai dela queria dizer a seu respeito e não adiantou...Foi mais forte!
    Bjossss e até breve...

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  2. Intrigante esse conto,lendo aqui percebo q sempre o "Re." questionando a vida da moça. Mas e ele? Nada fala sobre sua vida familiar, estranho. Cobranças q ao meu ver deveria ser recíproco, não acha? E finalmente parar de se vitimizar por uma relação q foi bom pra ambos (sexo), pois é sempre relatado aqui nos mínimos detalhes, lembrando q isso não segura relação nenhuma, pode ficar uns tempos, mas depois q acaba a confiança e o respeito, já não causa a mesma vontade e prazer. Andréa Cardoso.

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  3. Um misto de amor e ódio, esse conto a cada capítulo me deixa mais e mais confusa. É amor ou só sexo? É saudade ou o orgulho ferido? Miss C em determinados momentos se mostra tão apaixonada e arrependida pelo fim do relacionamento e em outros, demonstra todo o ódio, rancor e desagrado com as atitudes de Re. Parece-me que ela recebeu algo bom de tudo isso, mudou como pessoa, tomou pose de sua vida, mas mesmo assim não conseguiu conquistar paz e felicidade. Ele como a maioria dos homens, na minha opinão(que isso fique claro!), egoístas e egocêntricos, estava mais preocupado consigo mesmo, tanto que não permitiu a ela que o conhecesse profunda e verdadeiramente. Mentiras, omissões, enganos e mais enganos. Dois egos fortes e decididos a não abrirem mão do domínio da relação. Isso tudo acabou levando esse relacionamento ao total e irreversível fracasso.
    Um não consegue perdoar o outro e eles nunca chegarão a lugar algum, se continuarem remoendo o passado, que não tem mais como ser modificado. É vida que segue e ambos devem ter aprendido algo de bom, ou mesmo de ruim, com tudo isso. Agora é seguir em frente e procurar não cometer os mesmo erros.

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  4. Os 2 tentando apontar os erros de cada 1, pelos fatos ocorridos. Se é que tem o que justificar? Onde começou errado, a personagem ainda vivendo do passado, ele por sua vez na sua completa ilusão achando que poderia sair de sua solidão acabou caindo num mais absoluto abismo. E vendo esse enredo que parece sem fim. O que mostra o comportamento meio que doentio de cada um aqui. Se alimentando do rancor e não aceitação do fim do relacionamento. Isso pelo jeito dura anos a fio. Está vivendo de lembranças que gira apenas entorno dela. Obsessão? Cuide-se rapaz é uma patologia grave. Ana Lú.

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  5. Enqto Miss C e Rê ficarem tentando qualificar e quantificar as mágoas e os índices de perda q cd um teve ou q cd um provocou no outro, ficará cd vez mais transparente e crescente a dependência psicológica de um pelo outro, num eterno círculo vicioso q os impedirá de buscar uma nova chance de felicidd, seja com quem for.
    Não é difícil observar a reciprocidd das acusações de um e de outro, comparando os relatos de Miss C com os feitos por Rê nas cartas enviadas anterior/e. Um quer ter mais razão q o outro, mas a verdd é q cd um tem a sua verdd e a sua razão!... As acusações são real/e verdadeiras, considerada a realidd de cd um.
    Difícil é dizer quem está mais ou menos certo; qual é o maior ou o menor vilão da estória; q sentimento foi mais ou menos atingido; qual coração ficou mais ou menos despedaçado...
    Só vejo q neste ou em qlqr outro relacionamento, qdo o “abrir mão”, o “se colocar no lugar do outro”, o “ponderar”, o “compreender”, o “aceitar”, o “cuidar” e tnts outras pqnas coisas importnts não tem seu devido valor preservado, a tendência é se transformar numa “via crucis” cm a desta estória.
    E cm será q isto vai terminar, heim Sr. Autor?!
    BJSSS - Edneia

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