sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O E-mail-Carta 7

     Olá pessoal, tudo certinho? Estive viajando novamente pelo litoral norte de São Paulo em busca de descanso e inspiração. Desta vez andei por São Sebastião e suas lindas praias desertas, principalmente quando cai a noite. Fui até Caraguatatuba para conhecer o lindo shopping Serramar com jardins internos e bancos de madeira em estilo antigo - uma arquitetura curiosa para o padrão de shopping center que estamos habituados. Deu vontade de dar um pulinho até Ilhabela, mas vai ficar para a próxima vez. Levei comigo o livro de J. RON EAKER, À FLOR DA PELE. Recomendo a todas as mulheres, preferencialmente quem já passou dos 40 anos. 
      Agora vamos ao texto de mais uma carta de Miss C endereçada ao Re. Nessa ocasião ela parece um pouco confusa. Miss C, numa narrativa cheia de contradições e com altos e baixos da sua autoestima, se esforça para demonstrar a todo instante que mudou a forma como encara o mundo, as pessoas e o amor. Tirem vocês as próprias conclusões. 

     Re....Lá vem você de novo flutuando à meia luz. Seus olhos se destacam em meio ao permanentemente ar pesaroso que toma conta de nós dois. Eu ainda o sinto em minha plena consciência. Você vem praticamente infectado por uma completa indiferença à minha presença. Ainda assim, mantém a postura correta para que eu possa senti-lo por inteiro. O cenário da minha vida até agora estava transformado, tudo na devida ordem e longe de todo aquele caos que foi embora numa noite com os pensamentos ruins. Tudo poderia ter sido perfeito entre nós se não fosse pelas palavras certas que nunca foram ditas. Sua linguagem silenciosa me incomodou profundamente. Eu vi algumas vezes, e com clareza, a sua alma delicada fugindo para se perder no espaço. Impossível que eu pudesse acreditar que você poderia dar um pouco de afeto a alguém naquele momento. Foi tudo um grande mistério que não estava no que eu via, mas naquilo que eu demonstrava sentir. Sua postura continuou a mesma. Estava como se fosse uma estátua de bronze num museu que só abre aos domingos para visitação. Porém, vejo agora em cada detalhe que durante muito tempo a sua aparência se tornou  mórbida e estritamente decorativa para mim. Eu me penitencio por agir assim, ou ao menos tento, por tantos pensamentos loucos sobre você - os quais jamais deveria ter.
       As indagações que lhe fiz com o passar dos meses que estivemos juntos foram respondidas com a mesma fuga obstinada de sempre. Mal sabia eu que aquelas respostas eram a sementinhas do mal que pouco a pouco iam desabrochando do rancor que crescia. E ao desabrocharem as sementinhas, revelava-se toda a sua crueldade naquela habilidade que teve com as palavras mentirosas que pareciam verdades para a minha família. A sua conduta passava uma convicção que faria qualquer pessoa acreditar no que dizia. E de uma forma única, elas se sentiriam cada vez mais curiosas para novos relatos. Você tinha isso; um tipo de atração que só os animais predadores têm, uma atração do olhar que imobiliza e cativa. Você, com certeza, tem o dom comprovado de um criminoso ardiloso. Um lunático em busca de vingança. Talvez em seus anos de vida nunca tenha conhecido alguém como eu. Alguém que o impressionasse a ponto de nunca desistir de um objetivo tolo de revanche. Reconheço que você dava oportunidades de fuga, mas eu não consegui fugir porque estava magnetizada por você e em dúvida do que eu queria. Nós sabemos que em determinados momentos havia uma cumplicidade atroz que nos prendia um ao outro. Comecei logo compreender por que você permanecia impenetrável e misterioso, mas já era tarde demais para nós dois.
        No meio desses e outros pensamentos, de repente, me veio um especial, algo que define o quanto havíamos sido iguais e diferentes na intenção e execução dos nossos objetivos primordiais. Compreensão e amor incondicional era o que buscávamos, mas nunca soubemos como transformar isso em afeto e atos sinceros. Isso nos fez feras feridas durante todo o relacionamento, no qual desempenhamos papéis idênticos em escala maior ou menor. Estivemos obstinados em busca de uma pequena lasca de compreensão e de novas descobertas vindas um do outro. Mas, no fundo, o desenrolar parecia diferente, os nossos sentimentos se tornaram armas de vingança em nome de um amor falso e doentio; e um instinto de dominação de parte a parte.
          De onde nos sentamos agora, observamos os passos um do outro, estamos há quilômetros e muitos anos de distância, e ainda somos juizes e carrascos - temos o poder da autoridade que foi formada por pensamentos duvidosos. E enquanto agimos assim confirmamos a impressão de nos livrar de todos os problemas que atormentaram a nossa ligação inconstante.
        Que efêmeras, insignificantes e arrogantes foram as nossas posturas inflexíveis!
        No nosso relacionamento, fosse de dia ou de noite, era um sofrimento interminável nas disputas de opinião para ver quem tinha razão e calava o outro. E você, ahhh, você era uma criatura que tinha aprendido a viver com uma amargura sem sentido, sempre disfarçando muito bem a própria imagem. Você, Re, tinha uma linguagem de infortúnio. Entende o que eu digo? Por trás das suas palavras, numa voz doce e firme, se escondia o som que só os animais feridos sabem soltar. E eu, uma tola em busca de algum gesto de carinho, acreditava que você fosse maduro o suficiente para entender os meus medos e necessidades. Como fui ingênua!
        Enquanto esses pensamentos passavam pela minha cabeça, eu não pude deixar de comparar a minha situação do antes, durante e depois de você. Antes: eu tinha o céu com o Le. Durante: vivi a esperança de reencontrar um caminho e, logo após, a profunda desilusão de perceber que você era igual a todos os homens que conheci. Depois: Vivi o inferno com as cartas mentirosas que nunca paravam de chegar. Fui praticamente deixada com a alma esvaziada e com as energias no limite mínimo da sobrevivência. Então, um dia senti que todas as suas palavras teriam que ter outra significação de determinado momento em diante da vida. Você tinha conseguido me transformar de uma louca temporária em uma pessoa mais arredia do que era antes.
         Todas as coisas que, do seu jeito, tentou propor para me ajudar na cura da minha pretensa loucura, eu não aceitei e ainda fiz tom de descaso e deboche. A minha família também riu de tudo. E aos poucos o acontecido foi caindo no esquecimento.
        E eu, internamente, continuei inutilmente me lamentando e espumando pela boca por tanto arrependimento em ter te conhecido e confiado em seu caráter. Não demorei em descobrir que aquilo era uma batalha perdida. Não havia em meus ressentimentos alguma coisa que pudesse ser em meu beneficio.
       Um belo dia levantei, olhei pela janela e coloquei um pensamento na cabeça: daquele dia em diante deveria manter o ego em controle restrito e o envolvimento com os pensamentos ruins deveria acabar. Novamente o meu corpo e minha alma me convocaram a responder o chamado da vida. Haveria de ter uma nova inspiração, um novo viver, uma nova dedicação ao lazer e ao artesanato, coisas que tomassem meu tempo e ocupassem minha cabeça - e sem mais dúvidas afligindo o pensamento para me tirar da serenidade. 
    Finalmente a carência espiritual e afetiva que sempre senti parecia estar chegando ao fim. Não havia mais culpados e nem motivos de vingança, apenas um novo despertar em mim. Os enganos que cometi chegaram ao limite e apodreceram de velhos. Poderia ter sido o meu fim cruel e traiçoeiro, mas um fim assim eu não merecia. Eu nunca fui ruim como era vista pelos outros - e por você. E ainda que não houvesse beleza em minhas atitudes, ou que não recebesse glórias por elas, nunca deixei de ser eu mesma  - mesmo que parecesse triste e ressentida. 
     Depois de você retornei com aquele velho poder de atração para coisas e pessoas boas. Através das suas palavras duras que transformaram a minha visão do mundo, um raro e dominante amor surgiu no trato com os outros. Um amor que me trouxe orgulho e paz. Um sentimento verdadeiro para que todos reconheçam atributos da minha alma. 
      Nessa ação interior consegui vislumbrar como é magnífico o mundo sem o espírito cruel da vingança, ou de viver fazendo de conta que pessoas que um dia participaram da minha vida não existem mais. Como é animador poder prosseguir de onde parei a vida tolamente para um hiato infeliz, uma pausa cheia de maldades e maledicências - principalmente àqueles que são mais próximos de mim; a minha família. 
       Garanto que esse momento de infelicidade passou, tudo agora já está justificado e se transformou numa confiança duradoura e real para todos nós - saiba que riscamos definitivamente você de nossa história. Nem os demônios poderão interferir nessa norma, porque tenho a visão dos verdadeiros anjos diante de mim. Não vou afirmar com perfeita exatidão que sempre será assim, mas no momento é isso que vale e me conforta todos os dias. 
      Ahhh, Re, sou a única lá em casa que ainda guarda alguma lembrança de você, quando fecho os olhos ainda imagino um derradeiro murmúrio partindo dos seus lábios, como se tentasse protestar por eu ter te ignorado tanto. Mas é tarde demais, e o murmúrio morre aos poucos. Por mais que eu ande à toa por aí falando comigo mesma, de vez em quando continuo me sentindo velha e acabada. E se as pessoas dizem que o meu mal é tristeza, então tento mudar radicalmente o meu estilo para roupas mais coloridas, tatuagens, brincos e maquiagens. Eu sei que vou conseguir, sei sim. Estou tentando.
      Para lhe escrever isso eu revivi essa coisa inteira e tentei descrever com a maior exatidão possível. Espero que entenda que há apenas uma razão para continuar fazendo o que faço, e talvez seja a mesma razão que você um dia teve: a de exorcizar de vez todos os fantasmas do passado. Você, assim como eu, seria capaz de lembrar em detalhes o que aconteceu de verdade entre nós? Com certeza, se lembrasse não descreveria como eu. No entanto, agora tudo parece estar como deveria ser. Assim a vida segue tranquila, sem o veneno que me corroeu por anos a fio e sem paixão. Se me perguntarem se ainda amo alguém, responderia um sonoro não. Talvez só essa palavra pudesse traduzir toda a realidade do que foi a minha vida até hoje. Tal como se esperava, esse tempo de amar e acreditar em alguém sempre acaba. Não quero ser outra coisa que não seja eu mesma, meu próprio ser se definindo e buscando um lugar legitimo ao Sol. Pode nem parecer, mas tento a todo custo manter um estilo feliz e saúdo com imensa alegria os recém-chegados a cada novo dia em minha vida. Pessoas maravilhosas que antes eu não conseguiria enxergar. Que grande idiota eu fui quando queria desistir de tudo por que as coisas não pareciam se encaixar do meu jeito!
        Depois de anos, volto a encarar a vida como se fosse uma porta errada que se abriu e fui explorar, e arrependida tateei no escuro o caminho de volta. Eu lhe digo que foi difícil encontrar, mas acabei achando a trilha certa para jamais cometer os mesmos erros outra vez. A sua imagem está pronta para me deixar. E, como se o olhar para o horizonte indicasse o caminho, você se vira e vai embora. Eu lhe dou um aceno e cito essas frases que ecoam distantes no meu pensamento. E parece que por mais voltas que você dê sempre acaba aqui comigo outra vez.  


               Beijos da sua Miss C.


5 comentários:

  1. Patricia Ramos Sodero24 de outubro de 2015 20:57

    Olá,Sr.Autor.Viajando bastante ultimamente hein?Que bom,pois isso o faz mais inspirado nessa velha estória de amor sem fim.Por mais que haja culpas,mágoas,ressentimentos,Miss C prova que tudo o que sentiu e passou com o Re,não foi em vão.Aprendeu a encarar a vida e as pessoas de uma forma diferente,olhando mais para o íntimo de cada um.Parece que as cartas escritas por Re,fizeram-na encontrar a trilha correta a seguir.Com o Le,ela tinha o conforto material e apoio moral da família.Mas isso,para o crescimento espiritual de uma pessoa,não significa nada.Pelo contrário.Não levamos nada disso daqui.Hoje,apesar do Re ser fruto de suas lembranças,ela sabe bem que,se um dia acontecesse um reencontro,sairia correndo e abraçaria o grande amor de sua vida.É isso...Nunca o esqueceu...E acredito que Re também não...
    Quanto ao vídeo e música,não podia "encaixar" melhor,não é mesmo?
    Vc foi lá no fundo do baú,né Renato?
    Grande texto...parabéns!
    Bjossss e até o próximo...

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  2. Legal arrumando tempo pra viajar e curtir descanso no litoral. Texto complexo, onde não sei qual o fim desses 2 personagens. Linda canção, algo q compartilho. Andréa Cardoso.

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  3. Interessante como saber os dois lados de uma estória, pode modificar nossa opinião! De vilã a vítima, Miss C nos mostrou que na verdade o “doido” era mesmo Re, basta lembrar que ele contou sua versão de dentro de um asilo para pessoas perturbadas. Ela se enganou com os dois homens mais importantes de sua vida, iludida e enganada por um, aquele que ela amou mais que tudo em sua vida, e difamada pelo outro, pois não pode lhe dar o amor dedicado ao primeiro e isso trouxe à tona o pior de Re, que tentou a qualquer custo, colocar tudo e todos contra ela. No final de tudo isso, o que restou foi uma Miss C mais forte, que conseguiu suportar e superar todos os seus tormentos, que seguiu adiante, deixando para trás todo o mal, apostando em novas chances e motivações para viver.
    “A sua imagem está pronta para me deixar. E, como se o olhar para o horizonte indicasse o caminho, você se vira e vai embora. Eu lhe dou um aceno e cito essas frases que ecoam distantes no meu pensamento. E parece que por mais voltas que você dê sempre acaba aqui comigo outra vez.”
    Adorei essa parte final do texto! Ah, e a música dos Carpenters, belíssima!
    Inspiradora essa estória! Mostra-nos que tudo nessa vida pode e deve ser superado.
    Parabéns Renato e obrigada por nos dar a oportunidade de conhecer a versão dessa personagem tão cheia de mistérios.

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  4. Encontrar um lugar especial para relaxar e ler um bom livro é pratica/e uma terapia, principal/e nesta época do ano em q o peso da correria do dia a dia já começa a dar sinais, não é Renato? O Litoral Norte é um verdadeiro paraíso p/ renovar as forças até o final do ano! Sempre q posso me refugio por lá!
    Ao q parece, tnt Re qto Miss C querem a td custo desvendar o mistério: “quem é o culpado de um romance q não deu certo”. Nesta batalha de um jogar a culpa no outro, percebe-se q ambos quiseram q desse certo só q ninguém foi capaz de se doar o suficiente ao outro, de satisfazer as necessidds um do outro, ou msm procurar entender a carência do outro p/ então reestabelecer o q já estava roto em cd um e engrenar uma relação saudável... Ao contrário, a relação foi sendo construída de egoísmos, cd um querendo sugar o outro p/ nutrir as próprias deficiências. Cm pode dar certo algo q já começou errado?
    E de q adianta prolongar o sofrimento tentando desvendar um mistério q já faz parte das lembranças do passado? Esquecer tbém não é a solução, cm tenta inútil/e Miss C. Não podemos apagar um passado q, bem ou mal, constitui a pessoa q nos tornamos no presente. As lições deixadas direcionam nossos pensamentos e nossos passos a partir do aprendizado captado de td q vivemos!
    Portnt, o momento pede q ambos assimilem os preceitos e os levem p/ a vida, p/ seu próprio crescimento e p/ q possam perdoar e aproveitar sabia/e as oportunidds q ainda virão!
    Belo txt, Renato! A canção caiu cm uma luva! Parabéns!
    BJSSS - Edneia

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  5. Só podemos seguir adiante a vida, quando praticamos o 'desapego' do passado, coisa que não acontece com esse casal. Parece uma disputa, quem está certo ou errado, apesar que são os dois cometeram os erros desse relacionamento não ter ido adiante. Agora ficam justificando os motivos do término. Enquanto isso perdem oportunidades de viver novas sensações, conhecer pessoas interessantes.. Sabe, conhece gente assim, fica anos a fio se consumindo por coisas que não deram certo, se torna frio, egoísta e o pior achando que alguém se aproximar fará igual. Triste essa trajetória de Re e Miss C, mesmo distantes não esquecem as mágoas e tristezas que viveram. Quem esquece não fica tocando no mesmo assunto sempre. Adriana.

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