quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O E-mail-Carta Parte 6


    

    
     Olá pessoal. Cá estou de volta depois de belos dias de sol no litoral norte do estado de São Paulo. Fiz andanças por São Sebastião e suas praias paradisíacas; parei na praia de Maresias para ver o ritmo das ondas e segui pela Rodovia Rio-Santos admirando cada detalhe da natureza, que resiste bravamente aos braços do progresso e ocupações irregulares que se espalham pelas encostas. Chegando em Barequeçaba parei para um café com bolo numa padaria muito legal na beira da estrada. De novo com os pés (rodas) na estrada segui rumo à Caraguatatuba, passei direto para chegar logo até a praia do Lázaro em Ubatuba, o destino final.
    Os dias seguintes foram de muito descanso e passeios por praias vizinhas e, deveras, exuberantes, como por exemplo a linda praia de Sununga que dá uma vista maravilhosa para pequenas ilhas e enormes pedras. Os aventureiros mais corajosos podem ir escalando para observar todo o contorno lá do alto. Também tem uma caverna muito interessante que derrama água doce pelo teto e fica inundada quando vem a maré alta. Levei alguns livros para estudo e aproveitei para ler deitado na rede no fim da tarde – os borrachudos não me deram sossego para a leitura. Entre os livros estava o Kama Sutra, o qual li mais da metade em poucas horas, passando maior parte do tempo virando o livro de lado e de cabeça para baixo para entender melhor os desenhos...rs.rs.rs.
      Bom, gente, essa história de viagem está ficando comprida demais, vamos ao que interessa que é a continuação das cartas de Miss C ao Re.
       Desta vez Miss C fala um pouco ao Re sobre Ética e mudança de comportamento.

     Oi Re. Estive pensando em algumas coisas que você escreveu em suas cartas enviadas à minha família. Depois de ler e reler uma que falava muito em ética e saber perdoar, acabei tirando algumas conclusões que tentarei expor aqui de uma forma bem simples.
     Depois de passado um tempo das cartas eu estava conversando com meus familiares e a coisa mais óbvia para nós era que você se sentia “enganado e passado para trás” por mim. E para piorar as coisas, você, se tornou uma pessoa insistente e agressiva nas palavras que nos enviava. Entendemos que você tenha tido razões para ter se sentido magoado, traído, zangado e ressentido.
    Desde a época das primeiras cartas nós também passamos praticamente um ano quebrando a cabeça, procurando uma razão lógica e respostas que aliviassem a dor que todos sentiam daquelas revelações, principalmente os meus pais.
     Alguns aqui de casa estavam determinados a saber por que as coisas se desenrolaram daquela forma tão agressiva; perguntando a si mesmos – e perguntando a mim - o motivo daquilo tudo acabar exposto daquela forma tão despudorada. Cheguei até a pensar em fazer terapia por não saber como lidar com tanta provocação vinda de você.
     Porém, não importava o quanto tentássemos, o resultado final parecia sempre o mesmo: mais frustração e decepção para toda a nossa família. Quanto mais os meus pais insistiam em saber de mim o que acontecera entre você e eu, mais confusa e sem explicação eu ficava. Eu me tornei cínica e imaginei que nunca mais confiaria em alguém como confiei em você. Nos meses seguintes passei a ter esse pensamento como vício, um pensamento que girava em círculos.
    Ao reler tudo o que escreveu senti raiva, mas, por outro lado, aquilo me pareceu um golpe de sorte, pois a releitura foi me encorajando a ter uma nova percepção para as razões daquelas coisas que me acusava, e eu não entendi muito bem na época. A questão estava em ter a noção que ao estar novamente em contato com os fatos dolorosos eu poderia entender e ficar em paz, e desta forma seguir em frente.
    Bem, você me acusou várias vezes de desonesta e pessoa sem ética. Todos sabem que alguém taxado assim não merece confiança de ninguém, justamente por não expressar sinceridade nos atos. Acontece que o mundo está cheio de opiniões e conceitos diversos. Muitas vezes nossas motivações interiores e necessidades conflitantes podem levar o outro a resultados decepcionantes ou, até mesmo, malignos. Entretanto, depois que o tempo passa, a gente começa a entender melhor o significado mais profundo da maneira de ser de cada um. O meu pai sempre me falou que os seres humanos são criaturas extremamente complexas e difíceis de lidar. Todo mundo já vivenciou a dor e a decepção e não há quem não esteja repleto de desejos contraditórios e conflitantes. Eu sei, aprendi na faculdade que muitos motivos e desejos podem ser inconscientes. Isso quer dizer que, às vezes, fazemos coisas sem ter a consciência do por que fazemos ou do dano que isso possa causar em alguém. Também aprendi por experiência própria que muita gente já teve pessoas em suas vidas que serviram de maus exemplos, fazendo com que adquirissem hábitos negativos e destrutivos. A visão de mundo dessas pessoas – novamente me incluo nesse meio – foi maculada pelo egoísmo, negativismo e insegurança – talvez esteja aí a explicação de todas nós, beirando os quarenta anos, do por que ainda não tenhamos nos casado ou tido filho. Quero dizer com isso que, em um nível ou outro, todos acabamos sujeitos a um dano interno irreparável que cria um estigma em nosso julgamento, também na compaixão que poderíamos ter em determinada situação, ou, até mesmo, a tal ética tão firmemente citada em suas cartas como um desvio em meu caráter.
     Talvez eu veja o mundo de uma forma diferente quando se trata dessa necessidade de cada pessoa provar que está certa em determinada coisa ou comportamento. Por exemplo: quando você me criticou para outras pessoas na tentativa de me colocar num lugar que só você achava justo, foi pela necessidade efetiva de provar que estava certo. As pessoas deveriam se identificar com o seu pensamento ao meu respeito e ficarem contra mim, o que não aconteceu. Você fez disso uma motivação que o arruinou, por que o seu orgulho não admitia ser ameaçado na condição de “estar certo” sobre as coisas que dizia de mim, entende? Eu imagino que você diria qualquer coisa para provar que estava certo. Foi lamentável. É quase inevitável constatar, diante da situação que se sucedeu, que um dia desejamos um ao outro, ainda que pareça aos outros que foi apenas sexo.
     Hoje em dia os detalhes parecem diferentes, mas o dano causado por você à minha família continua presente. A minha mãe parece não ter se recuperado totalmente do choque depois de tantos anos do acontecido. O que me consola é que a verdade do que realmente vivemos pertence apenas a nós dois. Sem dúvida que, naquele momento do nosso relacionamento, algum de nós pudesse estar excessivamente identificado com o interesse próprio em vez do interesse comum para o casal. Se existe uma diferença nisso, creio que ela esteja no fato de um sentir mais compaixão pelo outro, ou gostar mais do outro do que de si mesmo. Creio que se houve falha, ela foi exclusivamente sua. A explicação da minha maneira de agir tão diferente poderia estar no fato de que o tipo de ética a qual você estava acostumado não fazia muito sentido para mim. Ainda mais quando você demonstrava inseguranças frívolas quanto a maneira que eu estava habituada a agir.
     Você frisou muito o fato de achar que eu carregava comigo uma deficiência emocional grave, um problema bem difícil de ser entendido diante do meu comportamento com você e demais pessoas. E que ninguém talvez pudesse fazer nada por mim, exceto sentir os efeitos dos meus altos e baixos de humor. Então eu pergunto: “Qual beneficio você achou que traria para mim quando revelou a todos a sua opinião sobre meu comportamento?” Será que nunca percebeu que todos já sabiam e conseguiam administrar muito bem antes de você aparecer na nossa vida para nos infernizar? Parece que você nunca conseguiu enxergar nada, nada além dos meus defeitos.
     Sabe Re? Colocar algum tipo de compreensão em prática em relação a você, para mim é muito claro, parece dificílimo. Entenda que isso não tem nada a ver com perdoar seus atos inconseqüentes em me difamar. O único objetivo é que preciso de paz interior, entende? Não interessa mais o quanto fomos diferentes um do outro, ou o quanto desejamos ser diferentes agora. Há coisas que não entendemos e nunca entenderemos, por isso é melhor admitir que desconhecemos as respostas do por que disso ou daquilo.
     Eu aprendi que quanto mais eu estiver em paz comigo mesma mais segura eu me sentirei diante do mundo. Quanto mais eu estiver em paz com as respostas que cansei de buscar, com mais força eu poderei abraçar o desconhecido e desbravar um mundo novo.
     Você me disse algumas vezes que as mudanças me metiam medo, que era covarde e vivia no meu mundinho particular e seguro. Afirmou com todas as letras que tudo que fosse diferente e me parecesse assustador não me tiraria da minha zona de conforto. Chegou inclusive a me comparar com um animal preso numa jaula com todo o conforto, segurança, comida e água em abundância. Qualquer tentativa para encorajar esse animal a sair para a liberdade era retrucada com um rugido zangado e ameaçador. De tão acostumado ao seu mundinho ele se recusava a dar um passo em direção à liberdade. Hoje eu vejo que você tinha razão criando essa metáfora quase perfeita. Cheguei à conclusão que algo dentro de nós prefere manter o que é familiar que se aventurar num território desconhecido. Eu era bem assim mesmo.
    Depois de ler muito sobre isso vi que existem muitas aplicações menos severas, no entanto, muito importantes, em que o medo do desconhecido domina nossas atitudes e a capacidade que temos de tomar decisões importantes na vida. Acho que, a resposta mais “segura” para tudo isso, afinal, seja ir em frente e correr riscos. Tudo que é exigido para alguém se tornar livre é a disposição de conhecer o desconhecido e imaginar que ele seja menos arriscado que aquilo que é familiar. Eu vi uma luz diferente quando isso ocorreu comigo e o meu mundo se modificou quando nos conhecemos. Tudo o que antes parecia assustador começou a se parecer mais com uma aventura. De repente, eu percebi que ser a primeira a tomar a iniciativa, ou pedir desculpas, valia muito a pena para cativar e manter a sua admiração por mim. Ao mesmo tempo tomei a iniciativa de me arriscar numa nova carreira profissional, bem diferente da minha formação acadêmica, o que passou a ser algo visto como uma grande oportunidade, afinal, poderia verdadeiramente estar realizada financeiramente, apesar das minhas duvidas permanentes sobre tudo. Eu comecei a ver as novas opções que até então eram invisíveis. Comecei a experimentar e abri meus olhos para possibilidades no mundo da arte, do artesanato e da costura (dom herdado da minha mãe que herdou da minha avó), e você me deu a oportunidade de trabalhar com você por algum tempo – passou e agora estou numa fase nova da minha vida.
     Desde o nosso rompimento eu viajei para alguns lugares, inclusive em março estive numa praia bucólica do litoral, logo ali depois de Bertioga, só para olhar o mar em busca de paz interior. A minha irmã Roberta me falou que por ali também existem cachoeiras e flores lindas, mas nem tive tempo de explorar. (Você viu as fotos no facebook? Viu minha tiara e o que fiz nos cabelos? Eles estão do jeito que você gostava: selvagens.).
      Com essas novas oportunidades surgindo a minha vida se tornou mais rica e ganhou bem mais sentido que antigamente.
     Aprendi que o mundo dá muitas possibilidades e é maravilhoso. Eu penso que seja tentador, quando algo desconhecido surge pelo caminho, que seja sábio e necessário evitar no primeiro momento. No entanto, existem ocasiões, é bem verdade, que ir ao encontro do desconhecido possa ser uma grande alternativa – foi assim conosco, não foi? A partir do momento que estive mais aberta que antes para esta possibilidade recebi sabedoria e paz para curtir melhor a vida. Afinal, eu imagino, muitas pessoas desejam mudanças para melhor em suas vidas.
    Mas como nem tudo é alegria numa mudança, eu ainda tenho na memória aquele dia 24 de julho, quando você enviou a primeira carta aos meus pais; foi um dia doloroso como nenhum outro na história da nossa família. Violência em palavras duras, crueldade, dor desnecessária e sofrimento ocorreram na seqüência daquilo. Mas, descobrimos como é difícil não responder ao ódio com outra coisa que não seja o ódio ou o desprezo.
     Muitas vezes ouvi meus familiares, pessoas até então muito equilibradas e sensatas dizendo: “Sei que não somos uma família perfeita e também cometemos erros, mas eu quero vingança. Quero esse Re atrás das grades!”  Foi como se todos se colocassem na minha posição repetindo “Sei que não somos  perfeitos e cometemos erros...” para tentarem convencer a si mesmos que estavam dispostos a lutar pela honra da família. Mas com o passar do tempo o ódio e a frustração acabam aos poucos deixados de lado quando a reflexão toma conta de um a um. Desta forma foi possível para todos nós achar a paz sem pretender ter boas respostas para tudo. E ficamos bem conscientes que perguntas relacionadas com o acontecido tornariam bem mais complicado lidar com a violência que você nos impôs.
     Para finalizar quero dizer que você estava certo em suas reclamações, apenas errou feio na maneira de expor isso. E nós estávamos muito certos em ignorar suas palavras como defesa dos seus ataques. Embora hoje eu prefira não fazer mais contato pessoal com você, exceto por e-mail-carta, imagino que sempre teremos uma relação mental forte e presente. Por isso, penso com determinação, que seja crucial perdoar completamente todos os enganos e infortúnios.
   Com a minha família aprendi, que mesmo que alguém me denigra ou tente me destruir, o perdão sempre me dará mais alegrias. Carrego comigo a sensação que a “traição por inconfidências”, ou, os danos causados por essa ação, nunca tivessem acontecido. O perdão de fato tem um grande poder de transformação. Eu me sinto assim, e graças a ele estou de volta ao lugar que sempre me pertenceu.


   Da sua adorável Miss C




4 comentários:

  1. Patricia Ramos Sodero2 de outubro de 2015 22:15

    Olá!Como vai Sr. Autor?Demorou mas chegou um novo capítulo,hein?Vejo que foi "refrescar"um pouquinho a cabeça,para que voltasse com mais essa reflexão para suas leitoras.Vejo que realmente,Miss C chega a conclusão de quanto tempo ela e o Re perderam,em meio a tantas brigas e ânsia de vingança.Ela,sempre aproveitando da boa vontade de Re,e praticamente ganhando tudo às suas costas.Ele,por sentir-se usado e humilhado,resolve vingar-se expondo tudo a todos os familiares de Miss C,que os fazem sentir nojo da situação criada.Com o decorrer do tempo,e a separação,parece que a visão do PERDOAR tomou conta do coração dos dois.Sim,dos dois.Pois a análise feita como um todo,é de como o ser humano perde tempo com besteiras,desavenças,sendo que a vida passa tão rapidamente que quando percebe-se,não aproveitamos o que o MUNDO tem a nos oferecer.Enquanto o ser humano não colocar prioridades mais sutis em sua vida,não há como ser FELIZ.O vídeo que acompanha o texto,relata bem isso:QUE PENA QUE NÃO SE OLHA AS COISAS DE UMA MANEIRA DIFERENTE ENTRE NÓS,SERES HUMANOS.Mais uma de suas belas reflexões.Perdoar para ser perdoado.Lindo texto!Parabéns!
    Até breve com o próximo capítulo...
    Bjossss....

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  2. Nada peculiar o fato desse tenebroso relacionamento, onde trocado farpas, pelo ego ferido, deu só sofrimentos e ressentimentos (pra ambas as partes). Só fico pensando se isso virar moda, ainda mais as redes-sociais.. Onde chega o comportamento do ser humano, quando se sente traído.. Mesmo com atitudes de Miss C, se sentindo em paz, pois passou o bombardeio de peguntas e confusões.. Não muda sua forma de ser, e nem a do Re.. Lutam pela batalha interior de seguir com a vida.. Andréa Cardoso.

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  3. Dica boa de passeio Renato! Vamos aos fatos do texto. Miss C escrevendo os momentos contubardos após as revelações que Re despejou a família, mesmo dizendo que o tempo amenizou o conflito gerado depois disso, mas na realidade ela e tanto os parentes ficaram mortificados. Pensando que com isso Re pudesse tê-la de volta ou algo parecido. Vejo que terminou de vez essa esperança. Mesmo ele dando uma olhada no face dela, querendo saber o que anda fazendo, dizendo melhor matando saudade mesmo. O sentimento continua vivo nele. Acredito que o perdão é algo muito relativo, pode dizer da boca pra fora, mas na verdade no seu íntimo não é bem assim. Re guarda as cartas que Miss C enviou como algo importante, indicando que não esquece seus momentos felizes e tristes com ela. Esse amor virou uma espécie de doença, que subtamente consome dia após dia. Adriana.

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  4. Q delícia um passeio pelo litoral norte! Vc deve ter voltado revigorado, né Renato? E pelo teor da leitura, as energias tbém foram renovadas, heim?! Kkkkkkk...
    Tenho ótimas lembranças de idas ao litoral norte de SP, principalmente da descida da serra do mar!!!
    É um gde erro, e demoramos mto tempo p/ ter consciência disto, pensar q qdo anunciamos os defeitos do outro (q são nossa exclusiva opinião) estamos alertando as pessoas p/ os “perigos” de sua companhia! Puro engano! Na verdd, estamos escancarando nossa própria índole leviana e o espírito pobre de quem precisa destacar os defeitos dos outro p/ assim inrustir os próprios!... E parece q tnt Rê cm Miss C tiveram este intuito, não é msm Sr. Autor? Ela, c/ seu gênio ditador, só queria suprir as próprias vontades às custas de Rê q, por sua vez, msm sentindo-se dominado, fazia as vontades dela p/ conseguir pelo menos alguma justa recompensa...
    Não é pouco comum em relaciona/os, situações em q ambos querem satisfazer suas vontades e necessidds egoístas sem a preocupação de satisfação ou prazer do parceiro! Até parece aquela frase mto conhecida: “cd um por si e Deus por tds!” Assim, só por Deus msm!!!
    Numa relação assim, ninguém admite os próprios erros e fica espezinhando a imagem do outro a fim de transferir as culpas e os erros q provocaram o sofrimento de ambos! Ninguém se habilita a dar o primeiro passo ao entendimento e à mudança, daí até o rompimento é apenas uma questão de aceitação...
    Depois q passa a tempestade e cd um vai calma/e vasculhar os prejuízos nos escombros, é q se nota com clareza os erros banais e idiotices q poderiam ser relevadas..., aí já é tarde demais!!! Fazer o q, né?!
    Parabéns pelo belo txt, Renato!
    BJSSS - Edneia

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