quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O E-Mail-Carta 4

  Oi pessoal, tudo certinho.? Em mais um E-mail-Carta Miss C revela ao Re seus tormentos, ansiedades, inconsequências e fraquezas.
    Re, eu vi algo em você que jamais havia observado em outro homem. Vi o reflexo distorcido da minha própria imagem quando eu era apaixonada pelo LE.
     Tentei a todo custo não acreditar nisso com seriedade, pois seria como revelar o meu verdadeiro segredo - aquele que passei a vida inteira tentando esconder de mim mesma – as loucuras que fiz por amor.
     Eu sempre quis mostrar a você que eu era forte, não porque fosse uma mulher de opinião, mas sim porque sabia fazer o uso da força mental a meu favor. Porém, eu sabia que se me deixasse dominar com seus encantos, eu me sentiria totalmente capturada por seu charme. Talvez, por medo, fui pelo caminho errado e os pensamentos transformaram o belo em horroroso. Eu imaginava que seria melhor uma atitude monstruosa que liberta do que uma vida monstruosa que acorrenta alguém para sempre. Eu estava louca! Eu me sentia grande demais para parecer satisfeita com um relacionamento comum, precisava de mais. Precisava ir além daquilo que chamamos de dor. Eu queria fazer alguém sentir a dor da alma que senti, a dor de ser rejeitada pelo LE. Queria transferir por união química todo o veneno que me corroía por dentro.

        Eu sei que poderia ser bonita por fora, tinha todas as virtudes femininas admiradas pelos homens nos meus trinta e poucos anos, mas, o receio de demonstra-las publicamente me deixava estranha. Eu passei a ter uma postura dura que ia contra o que uma mulher busca do amor terno e da aceitação masculina.
     Eu reconheço que havia em mim toda a força do desejo na prática sexual com você – eu estava me soltando aos poucos no tempo que ficamos juntos. Acontece que por dentro eu estava tentando provar a mim mesma que era mais esperta que qualquer homem na face da terra. Eu me gabava e me sentia grande demais para compartilhar da mediocridade alheia, em todos os sentidos da vida. Como fui tola! Nunca tinha parado para pensar que não era tão inteligente o quanto parecia. Por que, se fosse, jamais teria vivido por anos subjugada mentalmente pelo LE e, ainda assim, me achando dona da situação. Nunca teria esperado por ele tanto tempo desnecessariamente. Tempo para me  formar na faculdade, tempo para trabalhar, tempo para juntar dinheiro, tempo para esperar um momento mais adequado para casar. Jamais teria dado todas as minhas economias, nem emprestaria o meu nome aos seus parentes para compras a crédito, tampouco, acreditaria nele em nome de uma causa maior. Jamais teria aceitado a traição e agiria como se nada tivesse acontecido. Jamais diria a ele que nunca havia pensando em outro homem e que ele era o meu único sonho de vida.

      Nunca me dei conta que era escravizada sexualmente ou mentalmente por ele, nunca pensei que fosse apenas parte de um jogo sedutor para dominar as minhas vontades, eu simplesmente o amava.
     Eu não deveria me render como fiz – eu tinha tantas armas na mão. E ainda não havia aprendido que o mais importante era tentar dominar a mim mesma antes de tentar dominar um homem esperto como ele. Abri mão de ardis femininos e aceitei suas tramas elaboradas. E mesmo que tivesse recolhido todo o meu orgulho intelectual por um tempo, jamais teria me submetido a tal situação, caso fosse tão inteligente como me achava ser. No fundo eu estava pior que uma pessoa cega que caminha sem bengala por uma rua esburacada. 

        Depois de todo o caos que eu vivi, passei a ser do tipo que não se deixa enganar por falsos encantos, muito pelo contrário, passei a ter um objetivo traçado em cada passo. Se aceitasse um novo homem em minha vida, era porque estava carente e sentia necessidade de sexo e proteção. Mas se ele fosse uma porcaria na cama, como foi aquele lutador de boxe com quem saí umas duas ou três vezes, com certeza, não daria muito certo. Durante um tempo passei a usar os homens apenas como um instrumento da minha satisfação. Eu tinha sido tomada por um estranho impulso que nem sei de onde surgiu. Mas como a minha vida sempre foi feita de incidentes inexplicáveis, nem me perturbei tanto com essa questão. Jamais eu saberia explicar porque tais coisas aconteciam comigo. Sei que é ridículo dizer algo assim, mas é a pura verdade. Se qualquer pessoa me contasse uma historia como essa eu não acreditaria em uma letra sequer. Mas estou certa que nada disso me aconteceria caso ficasse presa dentro de casa esperando o destino bater à minha porta. E o pior de tudo é que sempre encontrei  pessoas da classe social que a minha família ignora. Parece que tenho algo que as atraí, ou que ao mesmo tempo faz com que se submetam a mim. O fato de ser muito curiosa em relação à vivência dessas pessoas traz um certo charme misterioso na atração que elas têm por mim.

    Mas, quem eu queria não conseguia atrair de forma definitiva, por isso me chateava com facilidade. Ficava tão deprimida com negativas dele que acabava ficando com vergonha de mim mesma. Não me sentiria assim se recebesse o valor que sempre esperei – se o LE tivesse me dado algum valor! Entende?
     Hoje minhas expectativas vão além de quem acha que um simples sorriso pode me conquistar. Todos ficariam surpresos quando me vissem correndo pela vida por pura empolgação. Talvez alguém que passou a me ignorar finalmente visse algum valor na minha mudança de atitude. 

      Com o passar do tempo chegou um pressentimento, algo que me acompanhava quando estava com o LE. Eu sabia que a qualquer momento eu o perderia e talvez nunca mais voltássemos a nos falar carinhosamente. Sabia que o perderia por amar demais. No fundo, minha conduta era de intransigência quanto aos “nãos” que ele me dava com grande freqüência. O medo ia tomando forma dentro de mim, preenchia todos os lugares vazios e transbordava inseguranças. Tive muitas incertezas cruéis quanto ao seu comportamento - no inicio, ele era tão atraente e gentil, depois se tornou arredio e misterioso.

      Acontece que resolvi encarar aquela situação sem medo de sofrer mais do que já sofria, talvez tenha sido essa atitude que detonou a sua ira contra mim. Eu pensava inescrupulosamente, a minha base era o ódio e o rancor que carregava dele após várias tentativas de rompimento. Com esses ingredientes atropelaria quem me encarasse. Mal ele sabia que ninguém dá amor sem receber amor, talvez, depois de praticamente 13 anos ele já houvesse esquecido essa lição. Os seus atos de abandonos freqüentes me tornaram revigorada de forma negativa quando, praticamente, eu já estava descrente de tudo. Depois de meses de afastamento desempenhei o papel como uma boa criminosa, no silêncio da dissimulação. Agi assim mesmo sabendo que esses atos fossem deploráveis e de intensa degradação para mim. O meu pai jamais poderia sequer imaginar que eu seria capaz de coisas que iam totalmente contra a sua doutrina de ética maçônica. A minha mãe me alertou, eu não ouvi. Ela ficou hiper-chateada e rompeu comigo. Depois do acontecido ela estava transfigurada, completamente transtornada por eu não ter seguido suas orientações. Falou num discurso interminável coisas que eu nunca imaginei que ouviria dela, enquanto isso, minhas irmãs ficavam apenas me olhando com aquela mescla de piedade e zombaria que eu detestava. 
     De todos os males que sofri, a ausência do LE no meu dia a dia era o menor de todos eles, pois eu também tinha que lidar com a instabilidade emocional de membros da minha família que queriam a todo custo me corrigir.
     A caminhada em busca de novos objetivos na vida nem tinha começado, pois, havia um rancor impessoal em relação ao mundo e a quem se aproximasse. Queria que todos fossem amigos das minhas tristezas. A minha cabeça estava como um porão cheio de miséria com ratos roendo restos do passado. Era uma festança interminável de tormentos que poderia durar a noite toda ou a vida inteira. Fiquei imaginando como poderia me apaixonar por outra pessoa carregando comigo a morte do meu mundo de sonhos. A noção aparente era a de que eu tinha um parafuso a menos.
    Raramente eu falava mais que duas ou três frases em meus relacionamentos depois do LE. Eu me sentia como alguém de personalidade perdida no vácuo. Não havia em mim uma só fagulha de entusiasmo. As palavras eram confusas e misturadas - como se estivesse num jogo de achar  palavra num emaranhado de letras.
      Por mais brilhante que fosse a minha massa acinzentada, alguma coisa não funcionava bem e precisava ser ajustada com urgência. O meu pensamento era um refém na mente irada, e maltratava a carne. Eu não conseguia ordenar os pensamentos. Agia continuamente e não sabia a hora de parar. Não imaginava que poderia assumir um outro aspecto, ter uma outra perspectiva de vida e aprender a amar. O meu grande ideal de encantamento era para o mal. O mal deixando para trás rastros de ódio. Eu me tornara alguém a ser evitada e odiada pelas pessoas. Quando isso acontecia, eu simplesmente desaparecia e não dava notícia. Não havia quem me encontrasse na face da terra. Porque, cada corpo que se deitava sobre o meu, não sentia mais que um cadáver no mármore do necrotério. O meu corpo não reagia, nada transmitia a quem se sujeitasse ao sexo sem graça.
     A dor daquele pensamento não me largava – o pensamento do LE com outra. O instinto me obrigava à entrega, mas meu olhar era sempre triste. Isso virou  presença constante em minha vida. Eu ficava tão impressionada que sequer conseguia ordenar os pensamentos para o caminho certo. Olhava o que fazia e imaginava que mesmo sendo um cemitério ambulante, ainda tinha charme e poder atrativo, mas era desanimador não ter forças para mudar a dor da morte que tomava conta de mim.
      Muitas vezes eu imaginei que poderia me matar de verdade em qualquer daquelas noites, já que demonstrava todo o tempo que não tinha nenhuma razão para viver, exceto pela esperança de ter o LE de volta, ou de poder me vingar dele. Por que eu ficava me iludindo? Eu poderia me livrar de toda dor num simples ato de coragem. Muito sinceramente, eu achava que eu tinha essa divida com o mundo, com a minha família, comigo mesma. Deveria ter honrado! O meu pai já havia tentando se matar com tiro por causa da minha escolha em permanecer com o LE. Nada aconteceu, graças a Deus. Aquilo só ficou na ameaça. No entanto, foi um trauma para toda a família naquela época. Então, eu me imaginava dizendo: “Um dia me matarei. Sou uma grande idiota que tem desejos impossíveis que afetam os outros!”

         O que me segurava é que eu sabia que um dia o LE viria até mim em busca de um consolo, talvez viesse me pedir apoio emocional por ter brigado com a namorada. Eu estava certa que mais cedo ou mais tarde ele viria chorar suas dores de amor não correspondido. A minha sina era continuar muito viva para isso. Eu sabia que qualquer dia ele me pediria algo. Não tive pressa. Um dia aconteceria e pronto. E aconteceu.
     Ahhh... Os ardis masculinos são diferentes dos femininos, mas também muito eficientes quando existe paixão e esperança do outro lado.
    Um belo dia ele me ligou e confessou suas dúvidas em relação aos sentimentos por ela. Então, ele parecia confuso, porém mais leve e com os nervos calmos. E eu me senti mais viva e disposta com a noticia. Daquele telefonema em diante eu criei um aspecto de gente bonita e feliz. Eu era uma mulher novamente encantada por um desejo realizado. Fiquei durante dias com  um sorriso perpétuo pregado no rosto, o que me deu total confiança na posição confortável em que me encontrava. Eu era uma pessoa entre um milhão que poderia novamente se sentir assim, eu era a escolhida dele, eu estava de volta ao jogo - para uma finalidade ou outra do meu pensamento.

      Imaginei que formaríamos um lindo par romântico novamente e no futuro faríamos planos para nos casar e ter filhos, independentemente da vontade do meu pai.
     Esperei sempre por ele. Dentre tantos homens que me contemplaram e fizeram sexo comigo, ele me fazia delirar com o verdadeiro prazer - mas, nesse ponto a dor era maior que tudo.
     Pois é Re, hoje eu sei que me iludi mais uma vez com o pensamento impossível da reconciliação, ou do prazer da vingança. Imaginei que o tempo de ser acariciada no meio das pernas por algum estranho estava acabado e ele cederia aos meus encantos. Mas não foi bem assim, pouco tempo depois do que aconteceu nessa cena eu conheci você.
      Enfim... Eu curti o melhor que pude aquele novo momento com o LE.
     Nós marcamos um encontro às escondidas da minha família e da namorada dele.
Eu me lembro nitidamente da pele do rosto dele sendo flexionada suavemente pelo meu rosto. Senti aquele tatear cuidadoso subindo lentamente pelo meu corpo naquela linguagem pegajosa que leva ao prazer. Ele conduziu a mão e dedos por pontos cruciais que só ele conhecia. Aos poucos me elogiou e sussurrou bem baixinho no meu ouvido. Logo estávamos na cama completamente nus como antes. Ele enfiou alguns centímetros e eu me senti no céu. Estava satisfeita com o mais leve toque do sexo no sexo. Abri mais as pernas e recebi tudo aquilo dentro de mim com uma emoção renovada. O meu problema era real e urgente – a distância que nos separou por tantos meses me consumiu as forças e me deixou confusa com uma profusão de sentimentos contraditórios sobre tudo. Ele parecia sentir mais tesão que antes. Isso me deixou totalmente encharcada. Eu queria gritar, mas silenciei. Interiormente pensei: “Agora estou completa, agora estou completa, me foda, me foda.... Você me quer... Você é tudo de bom... Estou completa... me foda... Vai! .... foda... foda.... para sempre... Eu serei sua amante, serei seu prêmio e você será meu troféu, me foda como antes.. não pare! Enquanto você me amar talvez eu aceite ser a outra em alguns momentos da nossa vida!"      

Bjs da sua Miss C

5 comentários:

  1. Patricia Ramos Sodero3 de setembro de 2015 15:34

    Olá,Renato!Parece que resolveu mesmo ir a fundo nos sentimentos de Miss C...rs.Dois homens.Dois amores.Alguém que sempre nos mostrou ser fria,insensível,dona de seus pensamentos e atitudes,agora se manifesta,de uma forma inesperada por nós,leitoras,como uma mulher que sente ser amada por RE,assim como amou o LE durante 13 anos,e que não aceita sua traição.Contudo,só pensa em uma coisa:Vingança.O fato de ter o LE de volta,se arrastando aos seus pés,mesmo como amante dele,dá a sensação de prazer.Nesse momento,não lembra que RE tem esse mesmo amor puro e verdadeiro por ela.Acredito que tendo essa atitude,engana a si mesma,pois concretiza seu objetivo,com um sentimento que não é puro.É só fingimento.Continua,na verdade,sendo a mesma pessoa que conhecemos no passado.Seus textos continuam a nos fazer refletir de como devemos agir,diante de certas situações,principalmente as que envolvem o AMOR.É um sentimento que não devemos ferir.Muitas vezes,ou,a maioria das vezes,pessoas acabam só por não saber respeitar.O egoísmo toma conta.E ficamos cegos.Parabéns por mais um texto de revelações incríveis!Ficamos no aguardo pois sempre queremos mais...rs.
    Bjosss e até muito breve!

    ResponderExcluir
  2. A poderosa e inabalável miss C, nada mais é do que uma mulher ferida, amargurada e cega por vingança, enfim, uma mulher como outra qualquer, enganada por um homem sem escrúpulos. Uma mulher que não consegue deixar que o mal saia de sua vida, muito pelo contrário, ela quer o outro a qualquer custo, se sujeita a qualquer coisa para tê-lo a seu lado, sacrificando a si mesma e a todos que estão a sua volta, por conta desse “amor”, se é que se pode chamar isso de amor, pra mim isso é orgulho ferido e falta total de auto estima.
    Pobre miss C mergulhou de cabeça nesse abismo, perdeu um tempo precioso de sua vida, com alguém que não valia se quer um segundo. Procurou por sexo, quando o que precisava mesmo era de amor, cumplicidade e respeito, tudo o que o Re lhe ofereceu e que ela inconscientemente jogou fora, agora é tarde demais.
    Ufa, essa miss C é uma figurinha muito complicada, aos poucos estamos conhecendo-a e acho que até sentindo certa compaixão, afinal esse é o outro lado da estória e sempre é bom poder conhecer os dois lados, para depois tirarmos a conclusão adequada.
    Ótimo texto Renato, mais uma vez parabéns!

    ResponderExcluir
  3. Mulher q se sujeita a ser 'opção' de homem, não tem valor. Foi isso q Miss C foi do antigo amor. Já o Re apesar de tudo isso, ainda gosta dela. patético pra não dizer outra coisa.. Andréa Cardoso.

    ResponderExcluir
  4. Novamente Miss C fala de suas fraquezas diante de um envolvimento do passado q deixou marcas profundas e fez c/ q ela interiorizasse seus sentimentos.
    Cega de amor por Le, ela se deixou levar cm uma marionete nas mãos dele, entregando-se de corpo e alma, sem ouvir os conselhos ou se importar c/ o sofrimento de sua família q já avistava a decepção anunciada.
    Numa visão total/e diferente daquela q conhecemos na versão do Re, ela revela uma infeliz estória q fez c/ q ela e td sua família chegassem ao fundo do poço até o ponto de desprezarem a própria vida!
    Tamanho sofrimento deixou um iceberg no lugar do coração de Miss C e esta frieza não só a impediu de se envolver novamente, cm tbém alimentou uma fome de vingança q a fez esperar paciente/e o momento certo...
    E aposto q esta inusitada entrega de Miss C a Le esconde a almejada e tão esperada oportunidd de revanche, não é msm, Sr. Autor?!
    Aguardo as cenas do próximo capítulo...
    BJSSS - Edneia

    ResponderExcluir
  5. Miss C está de volta (memorizada pelo Re, devo chamar de Renato?!), seja quais foram os motivos percebo a sincronia de acertos e erros dessa moça um tanto desequilibrada, descarregando suas frustrações de quem não teve nada com a triste história vivida no passado. Parece que justificando seu comportamento desastroso. Sempre tem um mês que lembramos de algo que poderia terminar com enredo diferente. Sorte e parabéns pelo texto.

    Flávia

    ResponderExcluir