segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O E-mail-Carta 3

     Olá gente, tudo bem? Aí vai mais uma carta de Miss C endereçada ao Re. Escolhi uma em que ela fala um pouco dos seus amores, medos e inseguranças; principalmente diante da vida. São reflexões profundas e muito poéticas de alguém que buscava respostas.

     Oi Re. Acordei esta manhã com a imagem de algumas dores que tinham sido habilidosamente transformadas em sonho durante o sono. Havia um rosto. O rosto daquele que eu amei e perdi. O LE. Não o LE que eu verdadeiramente conhecera, mas o LE que anos de uma sofrida separação haviam ampliado a sua beleza da qual eu não conseguia me livrar. A foto dele na internet, - mais velho, mais sério, maduro – me comovia profundamente. O rosto dele na minha cabeça havia se tornado um fardo pesado demais diante das circunstâncias da separação traumática que tivemos. Todas aquelas boas lembranças dele que eu preservei ainda me fazem girar lentamente na ponta dos pés. Os lábios dele se abrindo com sede do meu beijo eram extraordinariamente vívidos e quentes. Eram como lábios sedentos de alguém que, tomado pela saudade, chegava todo dia de algum lugar distante. E, assim como a dança ao vento de plantas exóticas que se contorcem à noite, nossos lábios numa busca interminável se encontravam num aperto sem fim. Quando eles se tocavam todas as feridas que haviam sangrado se fechavam e não falávamos mais sobre o assunto de um ou outro desentendimento. O nosso beijo afogava a memória de toda e qualquer dor, estancava e cicatrizava os ferimentos, para a cura durar um tempo infinito no coração; mas, na prática era um tempo curto. Um período entre duas opiniões diferentes, brigas ou apenas tudo voltando ao zero por qualquer motivo; fosse por insatisfação, ciúme ou desconfiança. Mas a noite era interminável para nós naquela época. E então, quando os obstáculos se colocavam entre nós e a nossa felicidade, o que restava era ficarmos separados. E no retorno, o que acontecia era encarar um ao outro por alguns segundos de um olhar hipnótico, e logo em seguida cairmos na gargalhada da situação ridícula que provocamos. Assim como anteriormente, os lábios úmidos se colavam e os olhos se fechavam como se estivéssemos unidos por uma longa corrente elétrica. Em nenhum momento parecia haver o menor domínio das nossas faculdades mentais. Tudo acontecia sem pensar, sem planejar; era a simples vontade de estar o mais próximo que pudéssemos um do outro. Era simples assim. Tão simples como o imã em seu magnetismo invisível aos olhos. Nessa união quieta e carregada de emoção havia uma sensação que vagarosamente fazia as coisas se acalmarem de vez: o som da voz dele. Uma voz única que falava coisas que eu queria ouvir. Difícil perceber logo de cara que naquele monólogo ele sempre falasse por dois corações. Era como se os sentimentos fossem transmitidos e recebidos por duas fontes, mas com a mesma origem e finalidade.
     Então, um dia, tudo subitamente acabou. Um escuro profundo tomou conta da minha vida, era como o deslocamento noturno de uma avalanche na estrada. Eu parecia drogada, quebrada, num beco sem saída. Não conseguia voltar e nem partir. Vivia na cama com os olhos fechados e passava as imagens em revista, como se visse uma procissão hipnótica desfilando seus fantasmas nas fronteiras do meu sono. Talvez por isso eu sempre acordava pensando em tudo que aconteceu. Lembranças estranhas de outras coisas do mundo apareciam como manchas escuras ou rastros brilhantes, como a passagem de fantasmas brancos tentando me acordar ou me levar para algum lugar de luz. Sei lá. Mas no sonho sempre aparecia o rosto do LE no momento em que havia me dispensado na noite de inverno. O LE a quem eu tanto me devotara tinha me virado as costas, o LE cujos olhos sempre me seguiam, orientavam e protegiam, naquele momento da notícia fatal, me transfixaram como se fossem lâminas afiadas – eu sabia que onde quer que eu fosse e por mais que tentasse, jamais conseguiria esquecer aquele momento. Aquele olhar permanecerá para sempre guardado na lembrança. Como eu amava o LE! Como eu me agarrara a ele! Como lutei por ele contra tudo e todos!
      Existem dias em que o regresso a tantas lembranças é muito penoso. Ainda mais quando deixamos o domínio atual de certos detalhes fundamentais, contra a vontade. É nesse momento que se aprende que a realidade, o momento presente, traz a percepção mais verdadeira que existe um outro mundo que se prende no inconsciente, do qual não conseguimos nos libertar de vez.
      Assim Re, eu abri os olhos certa manhã e vi você deitado ao meu lado. Lutei freneticamente para não cair outra vez naquela condição de felicidade, que o sonho de estar ao lado de alguém tão especial me envolvia. Fiquei ao mesmo tempo tão magoada comigo mesma porque não queria que aquele mundo de sonhos, do qual fui rejeitada, voltasse a acontecer com outra pessoa, com você. Cheguei à beira das lágrimas. Fechei os olhos e tentei mergulhar novamente no mundo real para me livrar do sonho que virou pesadelo.
    Era estranho, pensava comigo mesma enquanto fechava os olhos imaginando os motivos para estar ao seu lado na cama, que você, o homem a quem tanto devo a minha parcial recuperação de um trauma, seja um livro hermeticamente fechado. Eu pude aprender muito através do seu comportamento e exemplos, mas me perguntava o que você faria se estivesse no meu lugar. Eu, vira e mexe, tentava fazer a transposição de personagens - isso já tinha me ocorrido outras vezes logo no começo. Eu nada sabia da sua vida particular, e continuei assim, sem saber nada até o fim. Absolutamente nada surgiu que pudesse acrescentar ou trouxesse revelações inesperadas. Não que você fosse evasivo – eu não podia dizer isso porque uma coisinha ou outra eu sabia, ou imaginava que sabia. Eram apenas as lacunas que me incomodavam. E de uma certa forma eram assuntos que nunca vinham à baila ou eram interrompidos abruptamente.
    Re, eu não sei por que eu pensava assim, mas tinha a sensação que você tinha sofrido alguma grande decepção em algum período mais remoto da sua vida. Um grande amor frustrado, talvez. Sei lá. Mas, fosse o que fosse você não se tornara amargo. Talvez houvesse afundado e depois se recuperado para carregar as marcas que sumiram com o tempo. Mas, de alguma forma eu percebi, que em algum momento a sua vida devia ter sido irreparavelmente alterada por algum acontecimento. Cheguei a isso juntando cada detalhe, botando de um lado o homem com quem eu estava na cama, e do outro lado o homem de quem eu capturava algumas histórias de vez em quando (em seus momentos de sensibilidade e lembranças do passado), comparando um com o outro, seria impossível negar que se tratava de duas pessoas bastante diferentes. Todas as qualidades fortes e determinadas que você demonstrava eram como dispositivos protetores, usados não apenas por fora, mas por dentro. Eu imagino que do mundo você tivesse muito pouco a temer. Estava nele e pertencia a ele, total e plenamente com todo o seu vigor e disposição. Mas contra os desígnios do destino e do amor você com certeza se considerava impotente.
     Embora você parecesse ser uma criatura diferente das demais que conheci, e embora freqüentemente agisse como uma criança mimada, ou um idiota ignorante, ou até parecesse esbanjar o seu tempo disponível com coisas fúteis, na realidade tudo o que você fazia ou dizia tinha uma importância determinante para a vida em andamento. Além do mais nunca havia algo que se recusasse a fazer por alguém em apuros. As pessoas podiam se esquecer de você, mas você não se esquecia delas na hora da necessidade. Você tinha uma paciência infinita que só é encontrada em artistas. E devo admitir que talvez nesse domínio você sinta ainda mais convicção por ter melhorado bastante o seu estilo. E, embora, falando de artista, eu devo lembrar que o seu conhecimento de literatura era quase nulo. Mas se, por exemplo, eu lhe contasse a passagem da raposa em o pequeno príncipe, eu sabia que faria observações filosóficas muito interessantes. O que a princípio me fazia continuar com o nosso relacionamento era a sua ingenuidade a respeito da espiritualidade e das relações humanas. O seu aprendizado com a vida o havia suavizado e tornado forte. Era bom observador devido ao seu extraordinário interesse e simpatia pelo próximo. Imagino que nunca causaria dor em alguém desnecessariamente, não importando o que lhe tivessem feito. Você procurava entender, aprofundar os motivos, mesmo quando eram os mais vis possíveis. Acima de tudo, devo confessar, você sempre foi um homem de extrema confiança em seus propósitos. Sua palavra, uma vez dada, era cumprida independentemente das dificuldades. Também não gostava de se sujeitar a puxar o saco de alguém em busca de simpatia ou outros interesses que trouxessem lucro. Eu nunca consegui imaginar que tipo de tentação o tiraria do seu caminho. Outro ponto a seu favor para alguns e contra para outros, é que era pouco ambicioso. Não demonstrava o menor desejo de ser outra coisa além do que podia ser. Entregava-se de corpo e alma ao trabalho e todas aquelas viagens cansativas, sabendo o quanto poderia ter sucesso ou fracasso nos negócios. Não tinha grandes ilusões, ainda assim você dava o máximo a todos aqueles que lhe solicitavam algo. Quando queria a atenção de alguém começava a contar “causos” daquelas figuras que apareciam no seu ambiente de trabalho. Era capaz de contar uma história, depois outra, pulava de história para história com imaginação e riqueza de detalhes fora do comum. Eu sempre ficava exausta quando você começa a contar algo que tinha acontecido há 2 ou 3 anos antes de nos conhecermos. Ficava cansada só de escutar, porque a cada passagem que você contava nem sequer me dava a oportunidade de respirar um pouco o ar puro da noite. Além do que, quando a história era interessante sempre havia longas interrupções quando chegava alguém. E eu era obrigada a esperar mais de meia hora pelo desfecho da tal história. E, antes de continuar de onde havia parado, fazia uma regressão longa ponto a ponto do que já havia sido contado. A sua memória era prodigiosa e muito seletiva, é claro! Apesar de parecer chato aprendi muito com suas histórias noturnas, coisas que eu duvidava que você soubesse ou tivesse algum domínio. Aos poucos fui adquirindo confiança em você para poder me abrir. Quando eu tinha confiança em alguém – o que sempre foi muito raro – eu permitia pouco a pouco que as coisas da minha vida fossem reveladas. Confiando, é claro, que os assuntos permaneceriam em segredo para sempre entre nós dois. Muitas vezes, no início, eu me perguntava como você conseguia criar esse tipo de empatia com pessoas, a ponto delas se aproximarem de você e confiarem seus segredos e intimidades. Era algo surpreendente. E eu ainda me perguntava por que você demonstrava tanto interesse por criaturas de reconhecido caráter duvidoso, então eu entendia que elas pertenciam ao seu meio de convívio, ao seu meio de negócios; a uma tribo diferente com gente de toda espécie, caráter e personalidade; mas que eram muito unidas, respeitosas e solidárias apesar da aparência diferente. Você era mesmo uma criatura única! E que me deixava perturbada com suas atitudes de aproximação e aceitação daquelas pessoas tão estranhas ao meu mundo ideal. Eu acho que não cheguei a conhecer alguém, seja antes ou depois de você, que me abrisse os olhos de forma tão transparente para enxergar o que nunca tinha visto. Nem consigo me lembrar de alguém que tivesse sua paciência para moderar tão bem a crítica ou conselho. Você foi o único homem que me passou a consciência do que é ser tolerante e respeitar a individualidade dos outros. É bem curioso, agora que reflito sobre essas coisas, o quanto você simbolizava determinadas situações que deixamos passar sem notar. Parecem aquelas coisas da espiritualidade e leis cósmicas que nunca deixam de trabalhar a nosso favor. As forças invisíveis que criam em nós atitudes que são implacáveis e justas, e, olhando por um outro prisma, ações que só trazem consigo generosidade.
     Deitada na cama, em mais um amanhecer ao seu lado, depois de mais uma noite de tirar o fôlego, esses pensamentos tomaram conta de mim. E se algum dia eu disse que te amava era por que te amava do meu jeito, ao meu modo diferente de amar, e você precisava ter acreditado em mim. No entanto, jamais consegui deixar de imaginar que outra catástrofe irreparável poderia acontecer na minha vida. E eu tremia só de pensar em novos olhos emergindo da escuridão, para novamente tomar conta dos meus sonhos e assombrar a minha vida.

Fico por aqui. Bjs.

5 comentários:

  1. Pobre miss C, por baixo dessa coraça de ferro,há um coração partido em vários pedaços. Ela até que tentou não sucumbir aos encantos de Re, mas lá no fundo ela se entregou de corpo e alma, mas mesmo assim,o medo de um novo abandono, foi maior que o próprio amor, ela não se permitiu ser feliz novamente, simplesmente preferiu sabotar essa relação.
    A vida é uma só, permitir que nossos medos nos privem de viver intensamente, é total perda de tempo. Nunca saberemos se dará certo ou não, se não nos atirarmos de cada precipício que nos for apresentado, viver é isso, cair e levantar a cada passo. De que adianta viver sem sofrimentos, se pra isso temos que evitar todas as possíveis alegrias?
    Mais um texto muito interessante, que mostra um outro lado dessa personagem e que nos permite refletir sobre nossos próprios medos. Parabéns Renato!

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  2. Patricia Ramos Sodero25 de agosto de 2015 17:11

    Olá,Renato!Que texto não?Dois homens.Bem diferentes.E o medo de uma mulher machucar-se novamente.Talvez,no passado,Miss C tenha tido atitudes revoltantes para nós,leitoras,devido ao relato explícito dito aqui e agora.O fato de não se sentir amada por Le,fez com que se tornasse uma pessoa fria e sem muitas reflexões diante do ser humano.Conhecendo Re,descobriu um homem misterioso no relato de sua vida,porém,um encanto de pessoa para lhe ensinar a "enxergar"ao próximo e tornar-se um ser humano cheio de virtudes.Uma pessoa que procura melhorar a cada dia.Interessante ver que há sedução e tesão com os dois.Porém,Re chamou mais sua atenção por suas atitudes.Em um relacionamento,o principal é o respeito.O caráter.E isso Re tem como exemplo.Miss C cometerá um grande erro,se deixar o mistério que ainda precisa descobrir sobre o passado de Re e seu medo,dominar a situação.Aos poucos,ambos tem tudo para perceberem que,o que há em comum entre eles é:sofreram decepções que podem ser superadas juntos.Vamos ver se teremos um final feliz?Isso faz com que você,Renato,tenha mais idéias para que possamos "saborear"essa incrível estória.Belo texto!Parabéns pelas reflexões que sempre procura nos mostrar,para que possamos aplicá-las em nossas vidas também!Não demore....rs.
    Bjossss e até breve!

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  3. Legal saber q Miss C admitiu ter amado (a seu modo) Re. Acredito q foi acalentado por essa declaração. Andréa Cardoso.

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  4. Revelador o q Miss C escreveu pro Re. Meio q tarde (no sentido de alguma reconciliação). Guardou pra si um sentido q poderia ser compartilhado a dois. Não entendo muito 'medo de não dar certo'. O fato q perdeu uma grande oportunidade de ser feliz. Nem todos tem essa chance de encontrar, alguém q possa retribuir esse sentimento. Dizem q amor de verdade só acontece uma vez. A vida tem dessas, aparece e por motivos fúteis, deixamos partir.. Andréa Cardoso.

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  5. Quem diria! Miss C q, em sua árdua trajetória com Re, alcançou o status de pessoa fria e egoísta (na visão daquele q fez de td p/ conquistá-la), resurge revelando seus mais profundos medos e sentimentos, cm quem emerge das profundezas querendo respirar novos ares e reconquistar a vida! Mostra-se uma pessoa ingênua q depositou tds as expectativas em alguém q não soube valorizá-la e q ainda brincou c/ seus sentimentos, afundando-a num mar de mágoas e rancores...
    Escondendo-se atrás de um muro, na tentativa de negar suas dores e seus sentimentos e não cair novamente em tentação com Re, observou-o silenciosamente e agora revela td o aprendizado q teve c/ ele durante o relacionamento q culminou em uma tempestade de dúvidas dos dois lados...
    E talvez agora, quem sabe, depois de uma minuciosa retrospectiva de suas vidas, Miss C e Re possam responder as dúvidas, sanar as feridas e se dar uma nova chance, heim Renato?!
    BJSSS - Edneia

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