terça-feira, 23 de junho de 2015

Aconteceu em São Pedro

     Acho que foi na porta de um shopping Center no centro de São Paulo que nos conhecemos. Eu pedi um café expresso, ela um capuchino – ou talvez ninguém tenha pedido nada e ficamos apenas conversando. De qualquer forma, prefiro dizer que pedimos cafés e escolhemos uma mesa perto da janela. Logo fomos servidos e trocamos algumas palavras sorrindo – aquele tipo de sorriso misturado com insegurança e timidez.
    Na verdade, talvez nós pudéssemos ter nos conhecido numa fila de banco, na qual a espera e a falta de paciência levam muitas pessoas a conversar. Ou em alguma dessas festas estranhas na serra da Cantareira pertinho da casa dela. Ou ainda, quem sabe, lugares semelhantes, onde servem porções de fritas e contra filé em fatias - aquele ambiente com meia luz próprio para namorados, onde a irmã dela e o namorado uma vez nos acompanharam sem serem convidados. Talvez fosse legal num bar escuro e enfumaçado onde tocasse jazz com saxofone, ou heavy metal com guitarras estridentes. É... Talvez! Poderia ser em qualquer local onde ouviríamos juntos pela primeira vez “November Rain do Guns & Roses”, que se tornaria a nossa trilha sonora predileta – (Poxa vida, nem gosto tanto do Guns, mas pode ser essa mesmo! Fazer o quê?).
     Não importa. A verdade é que não me lembro direito como aconteceu, porque simplesmente não teve tanta importância assim.
     O que me lembro é que nunca viajamos em férias para Argentina ou Chile, e nem passamos o final de ano num Cruzeiro pelo litoral brasileiro. Não tiramos fotos um do outro, e pouquíssimas juntos, e muito menos escrevemos declarações num tronco de árvore, tipo, “Eu te amo”.
     Saibam que eu acabei odiado pela família dela e ela nem conheceu o meu cachorro, que, tenho certeza, faria festa toda vez que ela me visitasse, por que ela gosta de cachorro e leva o dela para passear pela vizinhança - sempre com uma linda tiarinha na cabeça e roupinha sob medida feita em casa pela mãe dela.
     Nunca assistimos os clássicos de Hollywood, apenas aqueles desenhos e filmes antigos que dão sono depois de meia hora. Nunca paramos para discutir sobre o teor de qualquer daqueles filmes chatos. Por um lado, por não haver o que discutir de tão ruim que eram e, por outro, porque ela não parava de falar dos problemas de trabalho ou sobre como é maçante ouvir sempre a mesma ladainha dos familiares.
     Ela fez uma única vez fondue de queijo com pão italiano lá no Guarujá, e eu nem soube escolher o vinho que combinasse com aquilo, – sempre fui totalmente ignorante no conhecimento de vinho – mas ela trouxe a garrafa certa para a ocasião.
Nunca passamos a noite entrelaçados, aconchegados – dormíamos um virado de costas para outro, quase caindo da cama. Nem observávamos um ao outro enquanto dormíamos para sentir se aquilo poderia proporcionar algum prazer. Acho que poderíamos ter dormido de conchinha ao menos uma vez. (Que coisa mais insensível não ter sido assim, não é mesmo?).
     Talvez a relação não tenha sido como deveria, pois, com o passar do tempo, não permitimos que isso acontecesse. Não nos envolvemos o suficiente, acreditávamos que não éramos as “pessoas certas” um para o outro. Nem sequer nos conhecemos direito, pois escolhemos o pragmatismo para não perder tempo com quem pudesse ser indiferente.
     Em alguns momentos preferimos a simples troca de ofensas, ao invés da troca de carinho. Foram muitas e muitas noites com cara emburrada e mal dormidas quando deveriam ter sido de amor, sexo e muito bem vividas.
     A despedida aconteceu fora de tempo para ambos, estava à espera uma nova vida totalmente independente. Deveríamos ter aproveitado mais um final de semana, mais um mês, mais um ano, não deu.
     Deixamos tudo passar, esquecemos se foi bom...
    Agora nos mantemos distantes e solitários, imaginando encontrar alguém com quem ouvir “November Rain” outra vez - (Pode ser outra música, acho essa muito comprida e dolorosa?). Ou quem possa acompanhar alguns dias na cordilheira dos Andes e, depois de pisar nas águas geladas do oceano Pacifico, voltar para casa com um enorme sorriso no rosto e muita história para contar.
     Ela nunca percebeu que já tinha encontrado esse alguém, a oportunidade passou.

   Mas, de uma coisa eu me lembro bem, um lance marcante aconteceu em São Pedro. Foi numa manhã de sábado no começo de Julho. Passeando devagarzinho de mãos dadas admirávamos as árvores da praça principal, logo entramos numa sorveteria por quilo chamada Oasis, pertinho da Igreja Matriz – bem, nem lembro se aquela era mesmo a praça principal. Enfim... Eu escolhi bolas de sorvete sabor pistache e morango, e ela foi de creme e chocolate. Atravessamos a rua e nos sentamos em um dos bancos antigos que era bem desconfortável, feito de ripas brancas (já com a tinta descascando). Olhamos um para o outro, trocamos e destrocamos os potinhos algumas vezes, e sem trocar uma só palavra nos movíamos através de olhares e gestos que determinavam cada atitude. (Humm... Talvez tenha aparecido uma ou outra frase solta meio assim: “Eu dizia: adorei esse de pistache! E ela retrucava: não gosto muito de pistache”). Mas de resto era o silêncio e apenas aquele olhar. Não houve reclamações, nem reprimendas, tampouco exaltação; nada com duplo sentido ou má interpretação. Era apenas o sorvete nos unindo de uma forma que até então desconhecíamos. A derradeira cumplicidade aconteceu naquele instante; no beijo gelado, tipo selinho, descontraído e sem pretensão. Agora eu percebo que o começo do fim aconteceu em São Pedro, logo após a última gota de sorvete e o silêncio que se foi para sempre. 

6 comentários:

  1. Tem um trecho da Pâmela Marques que encaixa perfeitamente neste texto. "Ouvi dizer que a gente só mora no coração de quem abre a porta, porque o amor não arromba janelas. Tudo é questão de convidar a entrar e acolher. É cuidar. Amor é cuidado! E não aconteceu entre eles, ficaram por simples comodismo, estar ao lado de alguém, que pode ás vezes sair, se distrair, ir pra cama e só. Cuidando apenas parte física, esquecendo o fundamental, o lado emocional da relação.. Até que um belo dia, acaba e cada um pro seu canto, sozinhos de novo e quem sabe encontrem alguém que tire desse 'comodismo' em que vivem.. Andréa Cardoso.

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  2. Patricia Ramos Sodero24 de junho de 2015 22:26

    Boa noite,Sr.Autor!Mais um belo texto relatando a estória de um casal que tem tudo para ser feliz,e não aproveitam os minutos que lhe são proporcionados.Vejo bem sua marcação no texto,a cada etapa passada pelo casal.Cada viagem,cada gesto,cada atitude...O que percebo é a insensibilidade e egoísmo de cada um,mesmo que se conheçam até pelo olhar.São cúmplices.Isso é fato.Mas do que adianta?No fim,sempre o fútil toma conta da situação.E foi exatamente na última viagem relatada por você,Renato,que as atitudes do casal foram corretas.Mãos dadas,olhares apaixonados,sorvete na praça da Matriz...pena que só por uns instantes,não é mesmo?Após o término do sorvete e das carícias,voltariam as"encrencas"novamente.Uma pena.Sou do tipo que pensa que devemos aproveitar cada minuto,como se fosse o último.Se deixar passar,já será tarde demais!
    Muito lindo texto para mais uma reflexão em nossas atitudes e o vídeo,é mesmo a marca de tudo que fala:"Melhor ficar só em certos momentos do que maltratar alguém."
    Está nos encantando cada vez mais com seus textos.Parabéns!
    Bjossss e até o próximo...

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  3. Nossa, Renato! Confesso q seu txt me deixou abalada ao imaginar qtas oportunidds de encontrar um parceiro e serem felizes as pessoas perdem na vida!
    São tnts as exigências no currículo q as pqnas coisas (porém tão importnts qto as outras) acabam sendo esquecidas ou passando despercebidas, e o relacionamento vai minando em vez de crescer, ou vira aquela relação por conveniência tão usada p/ manter falsas aparências!
    O personagem relata, com certa mágoa, o término de um relacionamento q poderia ter dado certo se ambos tivessem se empenhado e se dedicado um ao outro.
    Em certos momentos (“Ela nunca percebeu que já tinha encontrado esse alguém, e a oportunidade passou.”) percebo q ele prefere transferir a “culpa” p/ ela sendo q ele tbém não se empenhou cm deveria (“Deixamos tudo passar, esquecemos se foi bom...”). Será q ele alguma vez a levou p/ sua ksa pelo menos p/ conhecer o seu cachorro? Ou tentou conquistar os familiares dela p/ se tornar parte desta família? E ela, pelo q parece, tbém não fez mto + além do fondue de queijo c/ vinho!... As fotos dos bons momentos certamente ficaram p/ depois... E neste clima de ausência de ambas as partes, colocar a culpar no outro talvez seja a melhor forma p/ amenizar o sofrimento e o arrependimento!
    Até qdo um relacionamento se mantem assim, de futilidds e interesses egoístas? Até aquele momento em q a cumplicidd dos olhares e o silêncio constrangedor anunciam q a melhor opção p/ ambos é o fim!
    BJSSS - Edneia

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  4. As pessoas perdem tanto tempo procurando o “verdadeiro amor”, que não conseguem perceber quando ele realmente chegou. São tantas regras, tantas exigências...ela que só reclama, ele que não entende que o que ela quer, é só atenção e carinho. Eles perderam tanto tempo juntos, não se conheceram realmente, não se deram a oportunidade de desfrutar da companhia um do outro e talvez assim encontrarem-se realmente, de corpo e alma. Muito triste perceber que muitos de nós podemos ter vivido, ou mesmo estar vivendo, esse tipo de situação. Perda total de tempo e esforço, pra que estar com alguém, simplesmente para não estar sozinho? Estar só a dois é muito pior!

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  5. Quando nos amamos e somos amados por alguém de verdade, esta pessoa merece ser amada. E quando amamos quem merece nossos amor, este acontecimento é singular e maravilhoso. Mas, muita calma nesta hora, pois coração é terra que ninguém pisa e estou falando apenas quanto ao merecimento. Entretanto, caso seja o contrário, ou seja, se e quando este ou aquele relacionamento exige de nós algo parecido ou igual à falta e amor próprio, a outra pessoa não nos ama verdadeiramente e apenas nós amamos... Desculpe... Mas esta via de mão única é simples masoquismo e somente perda de tempo...

    Regina...

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  6. Uma passagem triste, quando não se tem amor. A maioria vivem assim, nada de diálogo, cumplicidade, apenas "prazeres da carne" depois que saciada cada um pro seu canto. Uma hora cansa sabe! Vem a vontade de ir buscar algo que vale a pena continuar. Enquanto esse pensamento egoísta que muitos praticam, ficarão solitários em seus abismos. Soraia.

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