sábado, 12 de agosto de 2017

Aconteceu em São Pedro


     Acho que foi na porta de um shopping Center no centro de São Paulo que nos conhecemos. Eu pedi um café expresso, ela um capuchino – ou talvez ninguém tenha pedido nada e ficamos apenas conversando. De qualquer forma, prefiro dizer que pedimos cafés e escolhemos uma mesa perto da janela. Logo fomos servidos e trocamos algumas palavras sorrindo – aquele tipo de sorriso misturado com insegurança e timidez.
    Na verdade, talvez nós pudéssemos ter nos conhecido numa fila de banco, na qual a espera e a falta de paciência levam muitas pessoas a conversar. Ou em alguma dessas festas estranhas na serra da Cantareira pertinho da casa dela. Ou ainda, quem sabe, lugares semelhantes, onde servem porções de fritas e contra filé em fatias - aquele ambiente com meia luz próprio para namorados, onde a irmã dela e o namorado uma vez nos acompanharam sem serem convidados. Talvez fosse legal num bar escuro e enfumaçado onde tocasse jazz com saxofone, ou heavy metal com guitarras estridentes. É... Talvez! Poderia ser em qualquer local onde ouviríamos juntos pela primeira vez “November Rain do Guns & Roses”, que se tornaria a nossa trilha sonora predileta – (Poxa vida, nem gosto tanto do Guns, mas pode ser essa mesmo! Fazer o quê?).
     Não importa. A verdade é que não me lembro direito como aconteceu, porque simplesmente não teve tanta importância assim.
     O que me lembro é que nunca viajamos em férias para Argentina ou Chile, e nem passamos o final de ano num Cruzeiro pelo litoral brasileiro. Não tiramos fotos um do outro, e pouquíssimas juntos, e muito menos escrevemos declarações num tronco de árvore, tipo, “Eu te amo”.
     Saibam que eu acabei odiado pela família dela e ela nem conheceu o meu cachorro, que, tenho certeza, faria festa toda vez que ela me visitasse, por que ela gosta de cachorro e leva o dela para passear pela vizinhança - sempre com uma linda tiarinha na cabeça e roupinha sob medida feita em casa pela mãe dela.
     Nunca assistimos os clássicos de Hollywood, apenas aqueles desenhos e filmes antigos que dão sono depois de meia hora. Nunca paramos para discutir sobre o teor de qualquer daqueles filmes chatos. Por um lado, por não haver o que discutir de tão ruim que eram e, por outro, porque ela não parava de falar dos problemas de trabalho ou sobre como é maçante ouvir sempre a mesma ladainha dos familiares.
     Ela fez uma única vez fondue de queijo com pão italiano lá no Guarujá, e eu nem soube escolher o vinho que combinasse com aquilo, – sempre fui totalmente ignorante no conhecimento de vinho – mas ela trouxe a garrafa certa para a ocasião.
Nunca passamos a noite entrelaçados, aconchegados – dormíamos um virado de costas para outro, quase caindo da cama. Nem observávamos um ao outro enquanto dormíamos para sentir se aquilo poderia proporcionar algum prazer. Acho que poderíamos ter dormido de conchinha ao menos uma vez. (Que coisa mais insensível não ter sido assim, não é mesmo?).
     Talvez a relação não tenha sido como deveria, pois, com o passar do tempo, não permitimos que isso acontecesse. Não nos envolvemos o suficiente, acreditávamos que não éramos as “pessoas certas” um para o outro. Nem sequer nos conhecemos direito, pois escolhemos o pragmatismo para não perder tempo com quem pudesse ser indiferente.
     Em alguns momentos preferimos a simples troca de ofensas, ao invés da troca de carinho. Foram muitas e muitas noites com cara emburrada e mal dormidas quando deveriam ter sido de amor, sexo e muito bem vividas.
     A despedida aconteceu fora de tempo para ambos, estava à espera uma nova vida totalmente independente. Deveríamos ter aproveitado mais um final de semana, mais um mês, mais um ano, não deu.
     Deixamos tudo passar, esquecemos se foi bom...
    Agora nos mantemos distantes e solitários, imaginando encontrar alguém com quem ouvir “November Rain” outra vez - (Pode ser outra música, acho essa muito comprida e dolorosa?). Ou quem possa acompanhar alguns dias na cordilheira dos Andes e, depois de pisar nas águas geladas do oceano Pacifico, voltar para casa com um enorme sorriso no rosto e muita história para contar.
     Ela nunca percebeu que já tinha encontrado esse alguém, a oportunidade passou.

   Mas, de uma coisa eu me lembro bem, um lance marcante aconteceu em São Pedro. Foi numa manhã de sábado no começo de Julho. Passeando devagarzinho de mãos dadas admirávamos as árvores da praça principal, logo entramos numa sorveteria por quilo chamada Oasis, pertinho da Igreja Matriz – bem, nem lembro se aquela era mesmo a praça principal. Enfim... Eu escolhi bolas de sorvete sabor pistache e morango, e ela foi de creme e chocolate. Atravessamos a rua e nos sentamos em um dos bancos antigos que era bem desconfortável, feito de ripas brancas (já com a tinta descascando). Olhamos um para o outro, trocamos e destrocamos os potinhos algumas vezes, e sem trocar uma só palavra nos movíamos através de olhares e gestos que determinavam cada atitude. (Humm... Talvez tenha aparecido uma ou outra frase solta meio assim: “Eu dizia: adorei esse de pistache! E ela retrucava: não gosto muito de pistache”). Mas de resto era o silêncio e apenas aquele olhar. Não houve reclamações, nem reprimendas, tampouco exaltação; nada com duplo sentido ou má interpretação. Era apenas o sorvete nos unindo de uma forma que até então desconhecíamos. A derradeira cumplicidade aconteceu naquele instante; no beijo gelado, tipo selinho, descontraído e sem pretensão. Agora eu percebo que o começo do fim aconteceu em São Pedro, logo após a última gota de sorvete e o silêncio que se foi para sempre. 

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