terça-feira, 1 de agosto de 2017

É Mais Forte Que Eu

    Não falo com você há anos. Nunca mais ouvimos a voz um do outro, nem trocamos e-mails ou mensagens instantâneas como sempre fizemos. No meio do ano passado, não resisti e lhe enviei um e-mail a fim de saber de você, como se busca alguma notícia de um amigo que ficou para trás. A resposta foi lacônica: "Não quero contato com você!'. Superei e imaginei que caso fosse bem recebido lhe desejaria tudo de bom para aquilo que sempre sonhou e merece ter. Bom, mesmo assim ainda desejo muito e, no fundo, penso que merece pouco, pois acredito que todo aquele merece receber a mesma medida que dá aos outros, e você nunca foi boa em “se doar”.
       Mesmo assim, desejo – e desejarei sempre – que tenha o melhor e que seja muito feliz. Que encontre aquela sensação de bem-estar que procurou a vida toda e tenha muita paz com isso. E assim continue passando os anos que vêm pela frente com toda leveza e graça que possa ter, para que a vida lhe seja fácil e generosa.
       Nós sabemos que tudo de bom e ruim aconteceu há muito tempo. Foi num tempo em que acreditei que poderia lhe esquecer. Mas no fundo nunca soube ao certo como limpar você dos meus pensamentos e por isso mesmo me dissolvia em parágrafos confusos que transcreviam o meu orgulho ferido.
       Mas saiba que não quero mais ajustar contas, o que sinto agora é apenas a vontade de compartilhar com você as minhas lembranças. E, também, porque o caminho que muitas vezes fazemos acaba se tornando bem diferente do objetivo ou do destino imaginado no início. Desta forma, reservei ainda mais palavras que acredito lhe ajudarão a ir mais longe. Eu espero que as receba bem.
      É difícil me decidir por qual palavra começar sem que pareça uma ofensa, abuso ou sarcasmo. Por isso vou juntando aos poucos com muito tato.
      Sabe? Todas as famílias guardam segredos, escondem mazelas e tragédias, ou revelam seus comportamentos muito particulares - muitas vezes reprováveis aos de fora. Nós sabemos como é difícil agir através do bom-senso em determinadas situações em que existe a ausência daqueles que mais admiramos. Várias vezes você me revelou fatos sobre isso, sobre a intimidade desprovida de afeto dos seus. A intimidade em forma de compreensão que imaginava receber era aquela da qual sempre fugiu em nosso relacionamento, quando sentia que estava se abrindo demais, entende?
      Durante muito tempo eu dizia a mim mesmo que a distância que nos separava não era ausência, e fui adquirindo consciência que me agarrava a esse clichê como um suicida que se atira do alto de um prédio e tenta se agarrar em algo invisível durante a queda.
       Apesar disso, nunca tive medo do futuro, nunca tive mesmo, talvez por ter recebido uma educação para esperar o melhor dos outros. Nasci e cresci numa família onde as pessoas se solidarizavam com o próximo e acreditavam na generosidade das pessoas. Para os meus pais os valores morais passados aos filhos eram o maior investimento que podiam fazer. Estes e outros valores fizeram de mim uma pessoa determinada a ter projetos realizáveis na vida. Talvez o mais importante deles fosse o de ser feliz, de ter ao meu lado uma pessoa que pudesse compartilhar e construir uma vida a dois, com base naquela matéria básica que todos chamam de felicidade - o que nada mais é que toda a vontade de seguir adiante misturada com amor, segurança, fé e perseverança.
       Olha, vou dizer: o amor nunca é como idealizamos e sim como o construímos. A magia que existe em um amor construído aos poucos está nos pequenos gestos; está em tudo o que fazemos e dizemos a quem revelamos gostar. É uma coisa tão fácil de praticar... Para que tais ações aconteçam é preciso que os dois queiram, que os dois gostem; que os dois acreditem; que ambos consigam sentir o amor de maneiras semelhantes e com olhos para o futuro da mesma maneira. E o mais importante é que um como o outro percebam o quanto o amor pode ser importante na existência de uma pessoa. É necessário buscar meios para dar espaço ao amor, encontrar um lugar confortável para ele. Considero uma pena que você nunca soube encontrar esse lugar, de preferência reservando algum espaço dentro de você.
      Em alguma ocasião o sofrimento pode privar uma pessoa das suas faculdades mentais. Digo isso me baseando no fato de todo o prazer que me deu nas noites que passamos juntos; nas vontades que matamos um do outro; na imagem em flashes do seu corpo nu escondido entre os lençóis e todo o resto que me emociono muito em lembrar. A simples vontade de voltar a lhe encontrar me deixa cego, me priva da razão quando tudo isso retorna até mim nessas lembranças involuntárias. Durante esses longos anos alimentei esse tipo de sofrimento; percebi que por amar tanto sem ser correspondido, perdi muitos dias e noites pensando nessa coisa que eu considerava uma enorme injustiça, já que sempre me deu sinais incertos e muito contraditórios dos seus propósitos. E toda vez que nós nos separávamos, eu ia perdendo mais um pouco o meu equilíbrio. Acho que foi culpa minha. Talvez eu nunca tenha sido eloqüente o suficiente para que entendesse e respeitasse o meu amor por você. Ficava amarrado em mim mesmo pela tristeza, estava dominado por ela e sem qualquer reação, como um pássaro preso numa arapuca e que não sabe qual será o seu destino.
      O tempo se encarregou de fazer com que eu me acostumasse com a sua ausência da minha vida.
      Quem sabe um dia ele também consiga desfazer totalmente a sua imagem das minhas lembranças do passado e eu consiga finalmente lhe esquecer. Não é o que quero; no entanto, é o que deveria ter feito há muito tempo. Não somos os donos das emoções que tomam a gente de supetão e circulam pelo coração, corpo e mente como um furacão arrasador. Garanto que o meu coração deixou de ser meu quando conheci você. Isso me fez aprender que amar sem reciprocidade é algo muito traiçoeiro que avança sobre a gente como uma doença incurável; quando nos damos conta, o mal causado silenciosamente já se espalhou de tal forma que se torna quase impossível escapar.
      Eu escapei. Escapei ao fim de longos anos de luta, de um calvário auto-infligido. Também por isso que passo esse relato. Pois, a última miragem que tive na vida foi a sua imagem - a derradeira de todas as princesas de sapatinho de cristal que um dia surgiram na minha vida, e não por acaso, a mais inteligente de todas - que construiu a minha paixão obstinada em seguir um ideal, e seguramente o mais fraco de todos. No final, consegui enxergar o seu verdadeiro “eu” e restou-me apenas pegar o caminho de volta com os olhos voltados para o chão, e tentando não olhar para trás. Eis como me sinto agora, me esforçando andar para frente, sentindo que estou no caminho certo, pois é o melhor a fazer – ainda que depois de anos volte alguns passos como faço aqui.
     Antes de terminar, com essas palavras, imagino que compreenderá tudo o que digo, porque tudo isso um dia fez parte da sua vida também. E foi assim que você se revelou pouco a pouco, com uma cabeça cheia de indecisões, que num momento seria capaz de assumir um compromisso com alguém e no momento seguinte romper o que assumira sem qualquer explicação. Este e os outros atos denotam bem a sua índole duvidosa e o seu caráter inseguro profundamente egoísta. Eu nunca soube de verdade o que você queria viver de tão perdida que sempre esteve em suas dúvidas, e nem se dava conta do mal que poderia impingir aos outros. Imagino que lhe falta um tipo de ternura nos laços emocionais, o que talvez lhe desse um encanto irresistível. E pudesse assim praticar com mais maestria a troca de promessas dúbias com aquelas pessoas que porventura a amassem de paixão.
     Tenho certeza que está captando as minhas palavras e tirando delas todo o sentido mais profundo que elas merecem. Ainda que eu reconheça que me ouvir nunca soube e muito menos ouvir o seu próprio coração.  
     Creio que isso seja tudo, por enquanto. Não diga nada e nem se aborreça. Não faço por mal, acredite, é mais forte que eu.     

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