Re encontra Miss C

Enquanto ouvia a musicalidade suave eu vi você ao longe, e foi chegando devagar.
  Meus parabéns! Você ainda mantém belas poses – quase de manequim. O seu cachorro é branco de doer as vistas – fiel companheiro. Suas vestes são pretas dos pés à cabeça - apesar que o branco lhe cairia bem na atual situação. Carrega consigo o símbolo que representa transformação e renovação  – mais um ou outro ornamento para incrementar. Os óculos escondem o mesmo olhar misterioso de sempre. Os seus cabelos estão selvagens, quase ao natural – do jeitinho que sempre gostei. Puxa vida, esse novo tom da moda caiu muito bem em você, apesar de ser praticamente uma senhora agora! Vejo que a vida regrada e os bons tratos fizeram bem ao seu corpo. Fico feliz que tenha aparecido para abrir o seu coração com tanta sinceridade.
  Ao chegar mais perto já posso argumentar:
   - “Olá como vai? Você está tão bonita hoje!”
  Nada respondeu e apenas chorou.
  - Por que chora assim? – perguntei meio sem entender a situação.
  - Você quer mesmo saber por que eu choro?
  - Sim. Claro que quero saber.
  - Porque, olhando você assim tão receptivo diante de mim, me dou conta das oportunidades que perdi. 
    Sei que talvez tenha sido por teimosia ou a minha vaidade tola, mas demorei a perceber que deixei de viver e fiquei remoendo coisinhas dentro de mim (eu sempre fui boa nisso, infelizmente). E ainda, para completar, envenenei as pessoas umas contra as outras por pura picuinha. 
    Ahhh... Provoquei tantas outras situações para me engrandecer - eu sempre fui muito prepotente, pois o meu negócio era imputar defeitos nos outros...
     - É isso que a faz chorar? – perguntei ainda meio incrédulo com a situação.
     - Sim, é isso! Eu sei que nunca fui má pessoa. Mas ai de quem discordasse de mim naquele tempo! Eu “arrepiava” mesmo. Pois me achava “a rainha da cocada-preta”.
      Brinquei com muitos homens por que, mesmo que não me achassem bonita, eu tinha o meu charme especial, e podia fazer do jeito que queria.
       - Mas você ainda é bonita, hoje me parece mais bonita que antes – interrompi o seu raciocínio.
     - Eu sei, confesso, eu me acho mais bonita agora. Mas não posso negar que fui responsável por algumas uniões desfeitas e perda de amizades. Porque, na verdade, eu queria mesmo era só me divertir com os homens e não me importava com as consequências. Lembra? Uma vez eu lhe contei que achei uns riquinhos e uns “Zés-Manés” para namorar. Tanto os riquinhos como os “Zés-manés” eu achava bem burros. Deitei e rolei com eles e fiz cada um de marionete com meus joguinhos emocionais - homem é mesmo bicho muito burro! Pensa sempre que é mais esperto que a gente, mas é facilmente manipulado. Pior para qualquer um deles quando acaba nas mãos de uma mulher como eu! Todos eles têm o mesmo defeito: uma voracidade pelo sexo. É por onde são fisgados facilmente e fazem suas besteiras – se submetem a troco de uma transa.
         Sabe Re, eu não tive filhos, e passei muitos anos pensando nisso, pois isso abalaria minha beleza. Os meus seios ainda são firmes, o meu abdômen íntegro. O meu único dilema foi mesmo com a passagem dos anos. A idade foi acabando aos poucos com a minha vaidade e, com o tempo, as marcas de expressão foram se destacando mais e mais. Sentia que já não podia ter os mesmos atrativos de antes. E dá-lhe creme no rosto e tratamentos! Isso foi me deixando possessa, é claro. Mas, ao mesmo tempo, me fez repensar muitas coisas que eu não me atentava antes. Isso me ajudou muito depois...
       - Depois, quando? – perguntei.
       - Ahhh... Depois que os anos se passaram, e veio o peso de uma vida inteira sobre mim. Eu já não podia fazer nada diante do reflexo dos meus desmandos e manipulações.
         Hoje em dia ninguém me acusa, sou eu de frente comigo mesma. E é claro que não gosto do que vejo! Então, depois que me conscientizei deste peso dentro de mim, tudo aflorou... E, devo dizer, foi bem feio o que senti. Logo chegou a depressão e me pegou de jeito. Eu caí numa espécie de letargia interminável, onde eu via as cenas dos meus enganos a todo instante. Eu sempre fui culpada de tudo! E o meu inferno estava o tempo todo dentro de mim e, assim, aos poucos eu me perdia. Sabe uma redoma?... Pois é, eu estava em uma, prisioneira dos meus absurdos do passado. Eu não sabia se um dia conseguiria escapar e nem uma prece conseguia fazer, pois nessa fase já não acreditava em nada! Além disso, mal entendia como estava viva. Achei que ficaria assim para sempre...  Como pode notar eu ainda choro muito, mas não é mais de desespero como antes; o meu choro é de alívio emocional. É um choro saudável, pois me limpa por dentro.
         Hoje eu choro como uma pessoa verdadeira que tenta reconhecer aonde errou e me sinto bem melhor por isso (imagine só: antes eu chamava de fracas as mulheres que eu via chorar por desespero).
Eu busco um canto ou um velho amigo e choro quietinha. Isso me fortalece e quebra o meu antigo orgulho. Sei que daqui a pouco estarei rindo novamente, mas não será mais das maldades que fazia aos outros e sim de mim mesma. Então, estarei curada de vez.
O meu choro, que hoje você vê, é também de agradecimento. Pois, além de você, muitas pessoas têm me ajudado no meu crescimento (gente do Bem, que não me julga e nem me cobra nada). E quando eu ouvi essa música que você ouvia não aguentei e desabei mais ainda em lágrimas. O meu pai, um desequilibrado emocional, mais a minha mãe que nunca parava de reclamar dos meus desacertos, gostavam de música como você gosta – são gostos tão parecidos!
 - Sabe por que vim até aqui?
 - Nem imagino... – respondi
 - Porque os seus alertas foram importantes para mim. Se puder alerte outras pessoas para não serem como eu fui. Eu não quero ser exemplo, pois não vale a pena manipular os outros. Aprendi que no final as consequências são terríveis. Eu, que um dia fui desejada por todo tipo de homem, hoje sou apenas alguém querendo crescer e ser feliz verdadeiramente. Eu sei que vou conseguir. Peço que torça por minha melhora. E quando você escutar essas músicas outra vez, lembre-se de mim. Apesar dos meus defeitos, é importante que saiba que eu de alguma forma amei o tempo que passamos juntos. Quando eu tiver alta definitiva da terapia que estou passando, alguém virá me buscar; é da turma que trabalha com musicoterapia, sei que vou aprender muito com eles – mais do que aprendi com você. E isso me estimula tanto... Lembrarei de você nessa hora. O outro pessoal que me orienta é um grupo de socorristas psicológicos. Eles me resgataram de mim mesma. Eles abriram meus olhos, minha mente e me trataram muito bem. E assim, finalmente, me fizeram compreender tudo o que tinha acontecido. Usaram de toda paciência, e aos poucos eles me esclareceram. Em seguida me enviaram para fazer outra terapia com um grupo mais evoluído; para apoio psicológico mais aprofundado aos que ficaram presos em si mesmos. E logo eu fui melhorando passo a passo, até chegar nessas condições em que você me vê hoje (ainda me tratando, mas bem melhor e mais consciente, e já podendo passar para outro estágio do processo com roupas brancas). Ah, meu amigo (posso chamá-lo de amigo?), eu adorei ter vindo até aqui. Quando eu voltar para o meu grupo principal de apoio, direi para todos que hoje é o dia mais feliz da minha nova vida. E muito obrigada por me escutar, e ter divulgado ao mundo a minha história de antigamente – a nossa história. Quero que saiba que desde que a morte me acolheu em seus braços, como faz com todo mundo, eu me vi mais viva além do corpo. Eu passei a ser eu mesma, sem tirar nem por, com meus pensamentos e emoções renovados.
      E, antes de seguir em frente, preciso dizer que você nem imagina o quanto essa visita me fez bem. "Adeus."

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