Noite De Julho

      Lembro outra vez, como se fosse ontem, aquela noite de Julho em que abri o coração, talvez por saber que já havia perdido tudo definitivamente.
     Naquela ocasião eu lhe disse, mais uma vez, que me apaixonei logo de cara no dia que nos conhecemos. Previ que seria muito importante na minha vida e que, de certa maneira, poderia mudar a sua. Uma pena, mas só acertei na primeira parte das minhas previsões. A minha intuição falhou ao não saber medir o poder real que o amor surtiria na sua vida; e você logo fugiu dele sem olhar para trás, sem nunca ter tido certeza se era isso mesmo que queria; e eu fiquei esperando cheio de esperanças, recorrendo por meses a uma pilha de livros para passar o tempo.
      “Nunca ninguém se apaixonou por mim assim”. Comentou nessa vez, de pernas cruzadas numa cadeira de dobrar, com aquele olhar derrotado e muito peculiar, num tom meio melodramático e até certo ponto encantador, porque naquilo havia alguma sinceridade.
       Quando me lembro disso começo novamente a chorar. Choro porque o tom se revelou sombrio, bem diferente da sua voz baixa de realeza, que usava calmamente quando percebia que a conversa ia além do ponto desejado.
        Choro por perceber que os anos se passaram e pouca coisa mudou em você; vejo que tudo o que considera realmente importante se manteve, e a minha esperança sempre ressuscitada foi inútil. Infelizmente, o seu egoísmo, o seu medo, a sua falta de atenção, a sua indiferença – que é a forma mais cruel de desamor – ainda persistem. Mesmo assim me lembro que um dia confessou sua paixão por mim, disse que eu era uma pessoa importante na sua vida; ficou em suspenso, quase hipnotizada, pois, ninguém jamais havia observado e conhecido tão bem sua personalidade quanto eu. Certo, agora concordo com tudo. Mas esse tudo pertence a um lugar que já não existe mais, pois você andou para frente como sempre desejou.
        Porém, precisou gastar meses negando o que sempre pareceu evidente a todos; sentimentos arquivados do seu passado distante, do qual falava sem máscaras ou pudor.
        E, no entanto, se em algum tempo chegou a sentir medo do que nos envolvia, foi porque negou a esse sentimento erguendo entre nós um muro enorme de impossibilidades, mesmo para mim, que nunca acreditei no impossível, era difícil transpor tal barreira.
        Agora que tudo acabou parece fácil olhar para o passado e ver nele uma história de amor que poderia ter dado certo, uma história alimentada por minha vontade louca de estar com você e destruída aos poucos por seu medo devorador.
         Eu sei que minhas lágrimas ainda chegam até aí através destas palavras. Você me conheceu muito bem, e sempre soube reconhecer o meu estado de humor através da menor inflexão da minha voz. Sempre soube que não consigo disfarçar a tristeza que carrego, ainda que em momentos assim ria da situação imaginando que tudo poderia ter sido mais suave.
        Prefiro não incutir culpa, e, sobretudo, em mim, porque já sofri por você o suficiente; digo, com grande alívio, que ao menos não estou me sentido gelado da cabeça aos pés e nem as mãos tremulas como naquela noite de Julho quando os laços se romperam.   
       Você sabe que eu ainda choro, não sabe? E minhas lágrimas soam como num desabafo, ou uma tentativa eficaz de tirar de vez o que resta deste amor aqui dentro. As lágrimas servem para lavar a alma e tentar me livrar da presença da sua imagem que me sufoca.
       Certa vez me perguntou: “Como uma pessoa pode deixar todos seus projetos no meio do caminho para se relacionar com alguém muito especial, e de uma forma séria e intensa?”. Falava de si na terceira pessoa, como faz alguém que não deseja se comprometer indo direto ao ponto, e me pedia soluções; uma luz para o seu caminho. Você que, até aquele momento, já tinha vivido muita coisa nessa vida e se mostrava tão inteligente, acabava me pedindo conselhos como se estivesse perdida no seu próprio labirinto e fosse eu um sábio a orientá-la.
        Respondi que tudo dependeria do tipo de relação que queria manter. Talvez, por sua natureza, nunca soubesse fechar as portas e nem recusar o amor que lhe era oferecido, porque tinha um déficit de atenção desde a infância; era sempre quem ficava em segundo plano para o seu pai.
        Esse déficit de atenção desta fase tão delicada e frágil nunca foi reposto. E, além disso, herdou do pai o jeito perverso de ser e brincar com os sentimentos das pessoas. Fazia como se tudo fosse um jogo de perde e ganha simultâneo aos interesses de cada momento. Esse seu ar meio dócil e ás vezes educado fez com que as pessoas a associem imediatamente à sua mãe, ela sim, pessoa gentil, compreensiva e de bom coração. Esse ar engana, pois esconde a sua verdadeira índole. Todos sabem que é parecida com seu pai. E isso é de uma profunda ironia, porque aquela outra pessoa, que também é fisicamente igual ao seu pai, foi quem herdou o coração generoso da sua mãe e a infinita paciência que ela tem com aqueles a quem ama e protege.
        Eu não demorei muito a perceber que você nunca iria sair do seu casulo, porque vive nele como se fosse um labirinto com caminhos marcados. Sei que não é o único ser humano que vive assim, e cada ser humano está destinado ao próprio caminho. O que nos distingue uns dos outros é essa vontade ou capacidade de mudança – a coragem.
       Quando um dia senti que o amor que sentia por você era o que me prendia na ratoeira, e acabei preso ao caos e ao lodo, olhei para o lado e percebi que a armadilha na qual você se prendia era a pior de todas.
      Vi com clareza, através desta situação, aquilo que nos faz entender a dimensão das nossas fraquezas: as fraquezas alheias.
      É certo que vivi durante muito tempo preso nessa armadilha com sua imagem presente em cada esquina, mas isso já não é mais assim; alguém me acordou e eu enxerguei o universo se abrindo diante dos meus olhos. Foi como começar uma nova vida longe de tudo. O seu aparecimento fugaz foi um chamamento à minha antiga forma de pensar, na qual erroneamente projetei um amor impossível que passou – uma fantasia. E essas coisas marcam a gente.
     Sabe? Há muitos lugares que nunca mais quero voltar, e, sua rua, sua casa, seu bairro, são alguns deles.
     O seu silêncio me fez atravessar dias e dias como uma flecha que nunca alcança o alvo, e eu me desliguei de quase todas as alegrias porque me entreguei a algo absurdo que apenas serviu para alimentar mais e mais a minha veia literária.
     Alguns já sabem que aquilo que nos alimenta também pode matar. O meu sentimento por você matou muitas coisas boas em mim. No entanto, sei que um dia ouviu ou leu minhas palavras e delas tirou algum sentido para sua vida. Talvez em algum momento de lucidez tenha conseguido entender essas palavras, mas nunca soube ouvir de verdade o seu coração.
     Sabe de uma coisa? Quando uma pessoa se habitua a agir sem integridade, a verdade que se revela pode se tornar uma arma letal, e enfrentá-la é quase como desafiar a morte. Lembra quando falei do significado do livre-arbítrio? Aquela capacidade milagrosa que cada ser humano tem de escolher seus próprios caminhos e mudar para melhor. Pois é... Eu pedi que usasse desse livre-arbítrio aliado à integridade, lembrou agora? É um princípio digno que rege a conduta das pessoas, e que também é possível aprimorar cada vez mais. Quando eu falava essas coisas o seu tom ia enfraquecendo e sua atenção ficava distante. No entanto, eu tinha certeza que você ouvia as minhas palavras e as captava do seu jeito.
     Em dado momento em que não se espera mais nada das pessoas é que elas morrem em nossos corações, lembra que também falamos algo assim? Mas agora é diferente. Já não se pode esperar mais nada. Sabe por quê? Porque, no fundo, não há o que dar ou receber. Nem a mim, nem de ninguém. Faz bastante tempo que o seu coração se fechou para o amor. Talvez parentes, filhos – se um dia os teve ou tiver – consigam resgatá-la da armadilha em que vive. Mas nunca alguém como eu. Nem eu, nem outra pessoa. Ainda não há quem tenha alcançado esse poder, porque você não possui o que se conhece como dom da entrega. Entregar-se ao amor é um dom, sabia? Para alguns isso pode parecer uma fraqueza, mas é, acima de tudo, uma dádiva de Deus. O dom de partilhar, o dom de interagir, o dom de respeitar o próximo, todos esses dons juntos nos leva ao que chamamos generosidade - graça. Palavras extremamente misteriosas para você, talvez porque, infelizmente, não me pareceu que já tivesse vivido envolvida com alguma delas. Porém, eu sei que poderá encená-las com enorme maestria, como qualquer artista do tablado. Poderá até transmitir a sensação que vive bem, mas são apenas ilusões, porque de novo, à primeira contrariedade, voltará ao seu labirinto escuro, onde reina a frieza de quem controla a própria realidade na solidão, sem, justamente, admitir que algum outro possa fazer parte dela.
        Ainda imagino muitas coisas de você, até que já tenha conseguido mudar um pouquinho. Ou que viverá para sempre assim, escondida em si mesma, usando o bom sentimento de quem lhe oferece amor, de quem dedica tempo em troca de falsas promessas ou declarações sem sentido. Aguentando de você meias verdades, equívocos e danos. Nem posso dizer que você seja imoral, reconheço aqui que talvez seja amoral. Ou, quem sabe, ainda pior que isso: sem caráter. Entenda bem: não é que não tenha caráter, veja direito as coisas hein; simplesmente você nasceu assim e assim morrerá.
      E porque sei que tudo se perdeu assim, mais uma vez abro meu coração e deixo que leia meus pensamentos como se estivesse aqui diante de mim, como naquela noite de Julho.
      Nem imagino o peso que poderão ter essas palavras em sua vida. Porém, afirmo que mais ninguém me verá como você, ninguém verá você como eu. Houve um encanto único e muito nosso naquele tempo, que nos fez ultrapassar muitas pequenas barreiras. Houve em algum momento um cuidado em relação ao outro, e assim nos mantivemos próximos, apesar dos nossos interesses tão distantes. Ah, a forma como dizia gostar de mim me desarmava, e isso, aos meus olhos, atenuava todos os seus defeitos.
       Bem... E isso é tudo por enquanto. Não consegui arrancar mais nenhuma palavra sua depois da última vez. Talvez tenha chorado como eu, ou nem tenha se importado tanto assim.

Mas creia, não faço de propósito. Todas as lembranças parecem mais fortes quando chega qualquer noite de Julho em São Paulo, São Pedro ou na serra do mar. Embora, muitas vezes, preferisse não tê-las como se tudo tivesse acontecido ontem.

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