segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Você Sabe Bem Do Que Estou Falando.

     Sabe de uma coisa? Agora que parei de flutuar posso me dirigir novamente a você. 
      Você também parou de flutuar? 
      Você sabe bem do que estou falando? 
      Foi por você que esperei que se formasse uma quantidade suficiente de ideias para serem escritas aqui. E desta forma contar toda a verdadeira história de amor e ódio que sempre sentimos um pelo outro. 
      Saiba que fui pouco a pouco me arrastando desse jeito, com pensamentos transformados em palavras contraditórias - por um tempo que parecia sem fim. 
      Vivi dias e mais dias cheios de vislumbres da realidade que passou, ou ainda, daquilo tudo que permanece grudado como tinta na cal. Tudo tão pertinho, bem aqui dentro de um espacinho reservado a você. 
     Estou me referindo assim, sabe por quê? Você é a única que testemunhou o quanto me esforcei, isso durante muito tempo e com grande habilidade, para pintar os retratos de cada fato de acordo com as cores que sempre gostei. Essa habilidade foi imensa, não foi? Você sabe que continuei me fortalecendo dessa forma triste - mesmo a contragosto. 
       Procurei no meio de tantas palavras, a palavra certa, aquela expressão sui-generis para acalentar o prazer e a ira. Criei a verdadeira suspeita entre o real e o imaginário para outras pessoas que nunca souberam da profundidade da nossa relação. 
      Olha só... Eu fiquei assim por uns tempos, você sabe bem disso, não sabe? Fiquei como se estivesse à espera de ser servido de palavras e ideias pela graça da imediata providência - e que ela atendesse aos meus propósitos infindáveis, e quase inconfessáveis, de chegar mais perto de você. 
    Ahhh... E quando finalmente aconteceu, todos os pensamentos foram girando dentro da cabeça de uma só vez. Escrevi algumas frases e apaguei, repeti dezenas de vezes a mesma cena de formas diferentes, e no final, quando não tinha mais jeito, fui obrigado a revelar detalhe por detalhe do que nos aconteceu. 
      Em determinado momento era sempre aquele mesmo dilema: a velha insegurança da interpretação e do jeito de cada um ler, isso com certeza era algo perturbador ao meu intento. 
       Um belo dia, finalmente, me conscientizei que precisava de algo que emanasse muito calor e ternura. Algo que no fundo tivesse uma veia de verdade absoluta e cruel dos nossos caminhos cruzados ao acaso - confesso: nunca desejei ter essa inspiração por um tipo de tortura imposta. Pena que não foi bem assim. 
       Eu me fechei por sua causa e me perdi em letras, palavras e frases. Fiz e me deixei levar por que tinha medo de me precipitar ao cortar o fluxo inspirador verdadeiro - aquele que chegou de mansinho desde o dia em que nasci. 
     Porém, os pensamentos parecem tão incompletos em certas horas, e os momentos tão limitados por uma aura ingênua - até me envergonho de não conseguir pensar com sanidade diante disso tudo e truncar tanto essa simples narrativa! 
     Na verdade é alguma coisa muito esquisita, isso de ter devaneios dignos de hospício para descrever tais acontecimentos - e não seria má-ideia se esse hospício  fosse o lugar ideal para acordar todos os dias diante de um espelho. 
     Desejei, que nos momentos desses pensamentos, um bom ar fresco viesse me revigorar. Sabe aquele ar vindo dos campos de flores? Você ainda consegue se lembrar das fragrâncias que evocavam a memória dos mortos? Não se assuste, pois não falo dos mortos que um dia estiveram por aqui em carne e osso, me refiro àqueles que morreram na miséria de nossos pensamentos, ou que, em uma curta fração de segundo, ficaram presos nas garras do tempo num passado distante. Esses há muito tempo estão mortos aqui e aí - em você ou em mim, tanto faz.
     Enquanto você tenta fugir desta conversa, à força, eu ainda permaneço numa droga de camisa branca com amarras. Por quê será que alguém enfiou isso em mim? E por que eu deixei?
     Você me diz que é tudo em nome do destino ou da reflexão. Bem... Com certeza eu conheço esse discurso de cor e salteado, sei que tudo que aprendi a demonstrar no cotidiano ao seu lado, nada teve a ver com o submundo desses pensamentos de regras podres que vivo agora. 
       Nesse breve instante estou outra vez preso na mesma velha armadilha. O lugar é solitário e não preciso me esforçar muito para manter conversas tolas sem evasivas. E tudo acontece naturalmente diante do espelho do banheiro sem porta - o ambiente escolhido para todos os subterfúgios e respostas lacônicas a mim mesmo.
     Eis aí ditas as tragédias do meu dia a dia - e do seu também - tenho quase certeza.        
     Estamos agora no lugar definitivo que nos cabe desde que nascemos. Você e eu. Somos um dentro do outro. Andamos juntos com todos os fatos que jamais ganharam espaço porta afora - e que de uma hora para outra ganharam uma notoriedade sórdida e sem controle. 
      É muito triste constatar que tudo entre nós tornou-se uma ferida aberta que sangra sem parar; uma hemorragia mantida em limites determinados.         
     Firmo os pés no chão e penso forte em você. Ora, ora em você. Você que ainda existe em mim na mais pura essência da palavra. Só eu sei o quanto essa ferida sangra sem estancar - tenha certeza disso! 
      Jamais morrerei com tal hemorragia, mesmo que alguém de fora cutuque mais fundo como você o fez. 
     Instintivamente me protejo com as defesas que criei e dos rumos diferentes que tomei. Algumas amarras são definitivas e ainda se mantêm esticadas para não perder o porto seguro. Isso é realmente uma benção nessa situação! 
       Ainda que a vida em desatino seja uma grande merda na qual muitos se deliciam, sinto como nada além do normal tivesse acontecido. O tempo passou na necessidade crescente de amor e ódio que sentimos um pelo outro quando paramos de flutuar - você sabe bem do que estou falando, não é mesmo? 
       Então jamais deixe de flutuar.

3 comentários:

  1. Patricia Ramos Sodero4 de setembro de 2014 22:02

    Boa noite,Renato!
    Vejo essa crônica como uma forma explícita de um homem descrever o amor que sente por uma mulher,onde houve um desligamento doloroso,em meio há tantas idas e vindas.Porém,a maneira com a qual tenta se libertar,"flutuando",mostra como ainda é preso a um passado próximo,como uma camisa de força de hospício,que não consegue apagar de sua mente.E na verdade,sabe que com ela ocorre o mesmo.Por isso que ele sempre fala,que ela sabe bem o que é flutuar.Um está na alma do outro.Amarrados.A cada fortalecimento pessoal conseguido,descreve muito bem seus pensamentos em relação a ela:escreve e faz pinturas como ninguém.O espelho que é relatado somente faz concretizar a verdade que não pode ser escondida:continuam se amando.
    Que maneira mais bonita de mostrar o amor de duas pessoas que por mais que lutem,vão "flutuar" e chegar ao mesmo lugar sempre!
    Parabéns,Re,e aguardo por mais alguma surpresa...rs...rs...
    Bjsssss e até....

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  2. Txt complexo + cheio de significados, q nos transporta a uma viagem insólita q vai do céu ao útero materno p/ tratar das + profundas necessidds humanas. Necessidds q, mtas vezes e errônea/e, são lançadas cm responsabilidd ao outro numa intensa busca por satisfação, enqto q a plenitude está dentro de nós msms! É tnt empenho e esforço nesta procura q, mtas vezes, flutuamos, saímos da realidd p/ outra fictícia onde as coisas acontecem da maneira q gostaríamos, da cor q pintamos, e não do jeito q real/e é...
    Qtas vezes na vida colocamos expectativas demais em alguém e nos decepcionamos? E qtas outras quisemos flutuar p/ fugir daquilo q não aceitamos ou p/ vivenciar nosso sonho de amor q na realidd era ódio? E qtas vezes ainda faremos isto?...
    Belo txt, Renato!
    BJSSS - Edneia

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  3. Esse texto enverga pra sentidos complexos, amor, espiritualidade, destino... Sei lá.. No meu entender.. São passagens no decorrer do tempo q deu ou não certo... Contando a trajetória de uma vitória q almejava e q ficou pelo caminho... Um desabafo frustrado e apesar tudo, é bom "flutuar" no sentido de ter esperança, mesmo q remota, mas q encontrará uma resposta q tanto espera...
    Andréa Cardoso...

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