A Dor Da Sua Ausência

   A dor não incomoda como o silêncio.
    Passa das seis, é quase noite.
    Tudo se parece com o que deveria ser, mas não é. Tudo se modifica na medida única, ao avesso das palavras.
    Em ruídos dispersos, o seu silêncio prevalece.
    Imagine que essas palavras se pareçam com as velhas atitudes viscerais e penetrantes. Fruto de cada experiência imediata e inalterada - como rabiscos, se não fosse ao computador.
    Imagine que sejam minhas confidências com vísceras expostas e a bílis que ainda sobe pelas entranhas. Um sentimento cortante de angústia seguido de uma onda de êxtase. Sempre uma dolorosa instabilidade de humores e sensações desconfortáveis.
    Ou seriam apenas perturbações dos afetos na observação?

    Digo que quando paro de pensar nessas coisas e caminho, vou apressado, circundo o mundo e me misturo a ele.
    O meu horizonte se divide numa caminhada em busca dos seus rastros.
   Confidencio tudo de minhas inspirações diárias: a paisagem vista e o amor que vivenciamos.
   Como se fosse escritor eu paro e escrevo, não tenho pressa. Nada me perturba ou tranquiliza nas lembranças que ainda cultivo. Carrego em minhas memórias as ferramentas do ofício. Faço disso, como todas as indefinições de nossos destinos presentes, fatos incomuns que me entretêm, e assim me recolho no ambiente solitário que me foi impingido pela tarefa.

   É tão fácil me seguir pela trilha deixada lá trás - marcas escritas. Mas você não deixou dicas ou rastros expostos que eu pudesse seguir. Muito injusto!
    O escritor sempre fala de si, se deixa escravizar por experiências passadas e renovadas, recita o próprio drama em artimanhas semânticas. É alguém que busca na arte a segurança de um caminho mais iluminado, uma opção por soluções mais simples que talvez não tragam dividendos.
   Ou, o pior, que pode levá-lo à prisão, ao asilo ou, quem sabe, ao exílio permanente dentro de si mesmo. A única certeza que tem é na expectativa de algum padrão ainda não descoberto.
   Mas você partiu e o escritor nada descobriu. Sem qualquer dica ou rastros expostos o escritor continua o mesmo e se nega a cumprir o que foi imposto por você através de avisos e conselhos.
   Nada então pode ser mais verdadeiro ou correto quando tudo dentro dele se transforma em transgressão.
   Nada consegue mudar o estado de contrariedade do escriba diante dos fatos, enquanto sua inspiração ainda flutua no líquido gástrico da aparente normalidade.
   Assim faz a sua própria representação do desejo na mesma coisa, ou em oposição descompromissada à realidade que um dia conheceu.
    Todavia nada se opõe à alma e ao espírito deste homem, nele floresce uma dádiva natural e divina cheia de esperança.
    Se, por força dos acontecimentos ligados a qualquer ato, houve uma violação que invadiu, destruiu ou profanou a natureza de quem não deixou rastros, foi apenas reflexo de um método habilmente estruturado por ele em sua natureza humana falha. Foram os sentidos da paixão que o levaram a isso, a leitura de uma desforra a qualquer custo.

    O silêncio ainda faz contraponto ao ruído da cidade, a natureza exuberante floresce em espinhos.
    O silêncio ajuda a comprazer com a dor e não negá-la.
    E se o destino levar você e o escritor ao lado trágico, que tudo seja enfrentado e compartilhado.
    Se lá no fundo do ouvido um zumbido fino insistir em atormentar, que se transfigure em artífice para ambos!
    Pois, quando saída da representação do caos sentimental a intimidade desaparece, a admiração esmorece em cacos.
   No entanto os segredos continuam deixados à vista. Numa mera dualidade doentia que se converte em pluralidade. E então surge este discurso igual reportagem do dia a dia, indiferente a qualquer vontade ou coação. Feito do seu silêncio que incomoda mais que a dor da sua ausência.





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Luz Fraca Do Abajur

Decisão

O E-Mail-Carta Parte 8