quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A Dor Da Sua Ausência

   A dor não incomoda como o silêncio.
    Passa das seis, é quase noite.
    Tudo se parece com o que deveria ser, mas não é. Tudo se modifica na medida única, ao avesso das palavras.
    Em ruídos dispersos, o seu silêncio prevalece.
    Imagine que essas palavras se pareçam com as velhas atitudes viscerais e penetrantes. Fruto de cada experiência imediata e inalterada - como rabiscos, se não fosse ao computador.
    Imagine que sejam minhas confidências com vísceras expostas e a bílis que ainda sobe pelas entranhas. Um sentimento cortante de angústia seguido de uma onda de êxtase. Sempre uma dolorosa instabilidade de humores e sensações desconfortáveis.
    Ou seriam apenas perturbações dos afetos na observação?

    Digo que quando paro de pensar nessas coisas e caminho, vou apressado, circundo o mundo e me misturo a ele.
    O meu horizonte se divide numa caminhada em busca dos seus rastros.
   Confidencio tudo de minhas inspirações diárias: a paisagem vista e o amor que vivenciamos.
   Como se fosse escritor eu paro e escrevo, não tenho pressa. Nada me perturba ou tranquiliza nas lembranças que ainda cultivo. Carrego em minhas memórias as ferramentas do ofício. Faço disso, como todas as indefinições de nossos destinos presentes, fatos incomuns que me entretêm, e assim me recolho no ambiente solitário que me foi impingido pela tarefa.

   É tão fácil me seguir pela trilha deixada lá trás - marcas escritas. Mas você não deixou dicas ou rastros expostos que eu pudesse seguir. Muito injusto!
    O escritor sempre fala de si, se deixa escravizar por experiências passadas e renovadas, recita o próprio drama em artimanhas semânticas. É alguém que busca na arte a segurança de um caminho mais iluminado, uma opção por soluções mais simples que talvez não tragam dividendos.
   Ou, o pior, que pode levá-lo à prisão, ao asilo ou, quem sabe, ao exílio permanente dentro de si mesmo. A única certeza que tem é na expectativa de algum padrão ainda não descoberto.
   Mas você partiu e o escritor nada descobriu. Sem qualquer dica ou rastros expostos o escritor continua o mesmo e se nega a cumprir o que foi imposto por você através de avisos e conselhos.
   Nada então pode ser mais verdadeiro ou correto quando tudo dentro dele se transforma em transgressão.
   Nada consegue mudar o estado de contrariedade do escriba diante dos fatos, enquanto sua inspiração ainda flutua no líquido gástrico da aparente normalidade.
   Assim faz a sua própria representação do desejo na mesma coisa, ou em oposição descompromissada à realidade que um dia conheceu.
    Todavia nada se opõe à alma e ao espírito deste homem, nele floresce uma dádiva natural e divina cheia de esperança.
    Se, por força dos acontecimentos ligados a qualquer ato, houve uma violação que invadiu, destruiu ou profanou a natureza de quem não deixou rastros, foi apenas reflexo de um método habilmente estruturado por ele em sua natureza humana falha. Foram os sentidos da paixão que o levaram a isso, a leitura de uma desforra a qualquer custo.

    O silêncio ainda faz contraponto ao ruído da cidade, a natureza exuberante floresce em espinhos.
    O silêncio ajuda a comprazer com a dor e não negá-la.
    E se o destino levar você e o escritor ao lado trágico, que tudo seja enfrentado e compartilhado.
    Se lá no fundo do ouvido um zumbido fino insistir em atormentar, que se transfigure em artífice para ambos!
    Pois, quando saída da representação do caos sentimental a intimidade desaparece, a admiração esmorece em cacos.
   No entanto os segredos continuam deixados à vista. Numa mera dualidade doentia que se converte em pluralidade. E então surge este discurso igual reportagem do dia a dia, indiferente a qualquer vontade ou coação. Feito do seu silêncio que incomoda mais que a dor da sua ausência.





15 comentários:

  1. Ausência.. Dói. Mas, supera.. O tempo ajuda. Acredito, q tudo tem explicação.. Lá na frente, podemos entender os motivos pelo ato.. A verdade, nem todos querem ser maltratados, perceber q não está mesma sintonia..
    Andréa Cardoso...

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  2. O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.
    Não pude deixar de observar a semelhança de significados do seu txt c/ o de Fernando Pessoa.
    Afinal, poeta ou escritor, são tds fingidores, não é vrdd Renato?
    Parabéns pelo txt!!!
    BJSSS - Edneia

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  3. Nem é falta de ausência seu autor, acho que é falta de interesse mesmo. As pessoas estão cansadas do cotiano, nada muda. Isso vem gerando procura de algo novo, no sentido de se fixar,sentir algo q te prenda de verdade. O critério do seletivo anda em alta!
    Aprendizado importante nos dias de hoje. Amei seu texto, parabéns!! Letícia.

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  4. Como disse uma amiga: " A dor cria um escritor". Não sei se é o seu caso, mas andei olhando seu blog, gostei bastante. Diferenciado. Mexe com vários temas. Parabéns!
    Observação: Indicação da minha amiga Andréa Mariano, q falou muito bem e está certa, agora entendo porque lê sempre, kkkkkkk Ana.

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  5. Belíssima definição da dor da ausência, fiquei sem palavras, adorei as suas. Fazia tempo que não lia seus textos, surpresa mais q agradável ao ler esse em especial, q me tocou demais. Parabéns, como sempre vc nos brinda c/belas e verdadeiras palavras. Bjus.

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  6. Patricia Ramos Sodero18 de setembro de 2014 21:57

    Sabe,Sr.Autor,esse texto reflete bem ao que vem acontecendo nos tempos atuais.Pessoas sentindo a dor da ausência.Ausência de amor,de conversas em famílias,bate-papos com amigos,de coisas novas...belas.Isso cria uma grande dor,realmente,principalmente àquelas pessoas que dependem muito de fatos,acontecimentos,sejam eles quais forem,para desenvolver um grande tema a ser visto,discutido.Nesses últimos textos,Renato,percebi o quanto quer nos mostrar que se vivessemos em tempos mais antigos,não nos sentiríamos tão vazios,tão em silêncio...
    Muito bonito esse texto...intenso e verdadeiro!Até o próximo,sem demora...rs...rs...
    Bjussssss...

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  7. Quando você não é mais importante acontece isso.. Some do mapa, uma triste realidade, que está virando hábito dos seres humanos. Se propõe a estar junto pelo simples interesse. Muito emocionante seu texto Renato, está de parabéns! Adriana

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  8. MEU CARO AUTOR, A VIDA É MASSACRANTE, QUALQUER GESTO DE SENTIMENTO, ESTÁ SENDO ROTULADO DE FRAQUEZA. NA VERDADE FRACOS SÃO AQUELES QUE NÃO ADMITEM SENTIR FALTA DA PESSOA, ACHANDO ABSOLUTO NO SEU EGOÍSMO DE SEMPRE. POR ISSO QUE TEM MUITOS SOLITÁRIOS POR AÍ. PREFEREM FICAR COM ORGULHO DO QUE IR ATRÁS E DIZER QUE AMA, FAZ PARTE DE SUA VIDA. DEMAIS ESSE TEXTO. (SOU AMIGA DA DÉA). DÉBORA.

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  9. Sensibilidade aflorada, é belíssima. Tudo se move pra uma visão dentro do modo como somos descartados,quando não se tem mais interesse. Deixados de lado, como se fossemos OBJETO. A vida não é mole não.
    Amei tudo que escreveste.

    Lúcia Bilbau

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  10. O Tempo ajuda a superar a dor da ausência, mas tendo em conta, que os primeiros dias serão os mais sofridos.
    Ao meu ver temos, que vivenciar sempre com muita intensidade todos momentos em um relacionamento com muito amor e dedicação seja de amizade ou amorosa, procurando ser verdadeiros e deixando orgulho de lado e se direcionando ao caminho da felicidade, pois quando está situação de ausência acontecer seja por escolha de caminho ou por destino que todos nos teremos, não iremos nos arrepender e nem se lamentar do que fizemos ou deixamos de fazer.
    Parabéns!!!

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  11. Bate uma saudade né? Quando presente não deu valor, agora só resta "A Dor Da Ausência", sofrido esse texto, mas serve como experiência pra muitos (as) que se julgam o 'tal' que tudo pode mudar. Quem sabe no futuro faça diferente. E valorize quem está do seu lado. Abraços. Jamile.

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  12. Estamos ás vezes ausentes de nós mesmo.. Procurando um refúgio pros acontecimentos do dia a dia. Esquecemos de somos humanos e falhos, não tem porque sempre se manter forte 24 horas. O grito que damos é isso se distanciando de tudo e de todos. Incrível esse texto! Joyce

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  13. Se pudéssemos prever o futuro, com certeza, nossas atitudes seriam bem diferentes.
    Difícil saber o que mais incomoda, se a dor da ausência ou o silêncio que se instala pela indiferença de uma das partes, com certeza por que você não tinha o valor que imaginava para o outro . Mas que dói um bocado... Dói. È uma dor que não cabe no peito de tão apertado que fica... Parece que o coração vai explodir, mas como diz um velho ditado, o tempo cura tudo, não apaga as lembranças dos momentos vividos, das conversas ou mensagens trocadas, essas ficam pra sempre na memória, mas com a distância aprendemos a superar e seguir em frente, mas bem lá no fundo tem aquela esperança de que um dia as coisas voltem a ser como antes, que o seu coração irá disparar por aquela mensagem ou aquele telefonema tão esperados.
    Lindo texto Renato, mais uma vez está de parabéns, principalmente por tocar tão fundo em nossas emoções.
    Bjos.

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  14. Nem sempre as recaídas do nosso coração é falta de amor próprio , não podemos ser tão carrascos assim com a gente, tão embrutecidos ao ponto de não entendermos que a gente quando ama alguém , a gente tem sim , uma esperança de mudança, uma vontade de que as coisas sejam diferentes, um desejo de que algo novo aconteça , é claro que a gente acredita em tempos novos , restauração, reconstrução , somos gente de alma que sente , e na maioria das vezes que sente muita falta, muita saudade , muita vontade de estar perto e de ver , fazer e viver diferente do ontem ruim que se foi , embora seja tão difícil quando só um se esforça pra tanto. Mas também nem sempre é legal lutarmos tanto por um alguém que não quer mudar , que não quer deixar de lado o jeitinho da "solterise" e compreender que compromisso sério é a dois e exige respeito , presença , afeto , fidelidade , lealdade , atenção e concordância para que as coisas se ajeitem e caminhem de um jeito saudável e sem tantas crises . Eu particularmente penso que ninguém tem o direito de tirar a liberdade de ninguém , todos nós temos os nossos momentos individuais , as nossas vontades , até mesmo as nossas particularidades , mas isto não quer dizer que podemos ultrapassar certos limites que coloque em jogo a confiança de quem nos ama , de quem esta do nosso lado , de quem assumimos uma responsabilidade de amar e respeitar. Tem muita gente se achando gostosa(o) demais por ai , e perdendo seus princípios , se esquecendo que o tempo passa e que há ventos que chegam com uma força tão grande que levam pra longe aquele(a) que a gente não soube cuidar e valorizar . Há pessoas que estão tão seguras do afeto do outro , que não estão atentando para as feridas que tem deixado cada vez que se preocupa em fazer só a sua vontade , sem se importar com o coração que o abriga..... e ai eu repito a minha velha e surrada frase ... coração que sofre rejeição um dia se ausenta...
    Leyde.

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  15. O silêncio sempre dói mais que a ausência... Não queria, mas acho que agora é tarde... Pra escrever algo tão lindo o escritor deve ter vivenciado tudo isso....

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