sexta-feira, 25 de julho de 2014

Vaidade Em Prejuízo Da Honra Parte 4

"Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram". Mateus 7:13-14
O momento seguinte dessa estória recua no tempo e retorna até uma cena anterior a do shopping Center.
   Esse relato aconteceu alguns meses antes em outro shopping Center aqui de São Paulo; foi em uma de nossas idas ao cinema. Era uma época que eu acreditava ser possível esquecê-la se começasse me interessar por outra pessoa - já que ela dava toda demonstração que não estava interessada numa união estável naquela altura do campeonato.
    Ainda não tinha a receita certa de como limpá-la de vez do meu pensamento. Por isso inventava algumas realidades forçadas, e discursava veemente em nossos encontros, um discurso enfático de orgulho ferido, com único intuito de exorcizar por completo todos os meus medos e fragilidades – ou, quem sabe, a insegurança de perdê-la quando ela considerasse a nossa relação muito previsível.  
   Porém, cada vez que tudo terminava logo recomeçava, e com o passar dos meses sempre pudemos voltar a nos entender. E a vida, com toda sua grandeza e generosidade, foi se ajustando.
    Não consigo esquecer que hoje faz 4 anos que recebi dela aquele anúncio de viva voz. Ela estava deitada sobre mim, com o corpo leve flutuando como uma pluma – logo depois de uma noite que o amor e o prazer se fundiram na mais bela de todas as formas que se pode descrever. Foi muito triste ouvir aquilo justamente naquela hora. Inacreditável! Uma dura ironia do destino. Vamos pular essa parte... Nem quero me lembrar muito disso agora.
    Bem... Com um pouco mais de 1 ano que tínhamos nos conhecido eu já estava aflito – tinha me apaixonado pelo seu jeitinho e queria ter me unido a ela com 6 meses de namoro.
     Era o começo do mês de junho e acho que esse tempo nos marcou bem mais por todas as coisas belas que fizemos juntos – sempre achei o final do outono muito mágico e colorido em qualquer ano que vivi.
      Éramos tão carentes e a beleza da natureza trazia brilho aos nossos olhos nos passeios que fazíamos. E, por isso, talvez tenhamos escolhido a forma errada de atravessar a vida buscando avidamente tábuas de salvação afetiva. O afeto tem como preço o apego. Isso é inquestionável e fatal. Há momentos em que alguns sonham com outra espécie de relação; um tipo de ternura livre e leve, sem comprometimento total. Mas todos sabem que essas não são as premissas de uma relação verdadeira. Desta forma, alguém sempre acaba prisioneiro de um sonho impossível ou de uma realidade injusta. No fundo, nunca somos livres para ser o que somos.
     Estas lembranças e conclusões - ou outras ainda menores - somadas me parecem maiores do que conseguiria suportar, ou superar, se não fosse eu um forte. E o que me restou a fazer foi apenas aquilo que fiz: seguir aqueles passos rápidos sem olhar para o chão e nem para trás, até ter ficado exausto e sem palavras.
      A cena toda se revela nessa tentativa de diálogo quando marcamos de ir ao cinema:
   - Sabe de uma coisa Cristiana? É muito difícil me decidir como começar esse assunto. Mas é algo que me incomoda há tempos...
  - Se incomoda, então diga de uma vez.
  - Bem... Estive lendo um livro que tinha a seguinte frase: “As famílias mais felizes são as que se conhecem mal”. Pensei imediatamente na sua situação.
   - Na minha situação? – olhar de indignação e surpresa.
   - Então... Você e eu já sabemos o tanto de verdade existe por trás desta afirmação. Várias vezes você me falou da sua falta de intimidade com os outros da sua família.
  - Tá... E daí?
  - Estou querendo dizer que intimidade não tem a ver com proximidade ou consideração. Intimidade é outra coisa, entende?
  - Não! Ainda não estou entendendo o porquê deste assunto.
  - Intimidade é esse elo que criamos entre nós dois. E você foge de mim por achar que foi longe demais, ou tudo que me falou representa um perigo.
  - Hum.. E?
 - Certa vez você me disse que tinha pânico de casamento, lembra disso?
 - Sim, claro que me lembro, ainda não estou louca.
 - Você me contou que já havia noivado e a sensação que sentia com a chegada do casamento era de pânico. Que vivia dia e noite com dores de cabeça de tanto pensar como seria constituir família – que, na sua visão, ter filhos, educá-los e orientá-los para a vida era o ponto máximo a que uma mulher poderia chegar – e com o passar do tempo se tornaria escrava de marido e filhos, depois engordaria e viraria bruxa.
 - Tá. E daí? Ainda penso assim. Por que está voltando com isso?
 - É que eu queria me aprofundar um pouco mais nesse assunto. Imagino que talvez você culpe o seu pai por ter imposto tanto medo em sua infância. Acho que agindo assim ele provocou em você um nível elevado de insegurança – o que a impede de ter coragem para se unir definitivamente a alguém. Também acho que, por ser o casamento dos seus pais algo tão sólido e duradouro, se tornou uma missão quase impossível de ser alcançada por você ou qualquer das irmãs.
 - E o que você tem com isso? Agora resolveu cuidar da vida dos meus pais? O problema não é e nunca será meu pai. O problema é minha mãe!
   - Não seja grossa. Não acredito que sua mãe crie problemas. Veja bem: faz tempo que estou tentando entender alguns porquês. Já que estou envolvido emocionalmente com você, preciso de respostas. Olha só uma coisa, vou falar bem a verdade: acho que o seu pai sempre levou uma vida egoísta – mascarando a realidade conforme a conveniência dele, e acabou estragando todas as pessoas com quem convive. A simpatia dele nunca foi sincera por ninguém. Acho que esse jeito de ser criou um grande pânico em você - a imagem do casamento perfeito bloqueou a sua vida amorosa para sempre.
   - Não estou gostando... Acho melhor a gente mudar de assunto. Não quero conversar sobre isso.
   - Precisamos conversar. Uma relação sem conversa não é relação.
   - Podemos falar de outras coisas? - já com a paciência no limite.
   - Vamos terminar esse assunto e depois a gente fala de outras coisas ou vamos assistir ao filme conforme combinamos - tentei impor a condição.
   - Quero ir embora. Pode me acompanhar em silêncio até ao estacionamento ou eu vou sozinha?
   - Você até pode ir embora, mas antes vai me ouvir. Olha aqui! Eu acho que desde os 20 anos de idade você deveria ter percebido que esse meio de perfeição no qual você cresceu não existe e nunca existirá. É tudo aparência. O seu pai sempre dependeu da sua mãe para tudo. E mesmo que ele fique dando uma de durão, não admitindo a situação, a sua mãe sempre tomou conta dele e dos negócios dele. Ele não sabe fazer nada sozinho e é um ingrato quando trata a coitada com tanta indiferença. Acho que o entendimento, até meio inconsciente, desta situação começou a ter efeitos danosos na sua compreensão do que é casamento. Você não consegue aceitar que nunca aparecerá alguém perfeito na sua vida ou que o amor não lhe cause um tipo de dependência - embora nunca tenha conhecido alguém que vivesse de outra forma que não fosse de depender emocionalmente de outro alguém. Você luta todo o tempo contra seus próprios desejos e incoerências. É assim que você se mostra a mim, uma mulher capaz de desejar um relacionamento e se envolver até um determinado ponto, mas na hora H rompe o compromisso assumido, alegando qualquer motivo que só para você faz sentido. Este e tantos outros raciocínios que tenho, denotam a sua índole insegura e tão egoísta quanto de seu pai. Você é alguém que nunca sabe o que quer, mas que no discurso se mostra forte e cheia de razões lógicas porque se diz inteligente. Não é assim que se define? Você vive tão perdida em dúvidas que nem se importa do mal que consegue impingir a quem te ama. O encanto de uma pessoa está em sua personalidade sólida e em fundamentos dignos. Acho que você não tem nenhuma destas qualidades, pois se tivesse não faria a proposta de nos “juntarmos” – só porque um dia que estava de bom humor achou que nos daríamos bem. Quando eu tenho a ilusão que algo interessante pode acontecer e penso em aceitar o desafio, aí você vem e diz que não quer mais porque está em dúvida. Gostaria, de verdade, que parasse com a palhaçada de idas e vindas. Fui claro? Você me deixa muito puto com esse comportamento. Eu nunca vou conseguir acreditar numa vírgula do que diz se continuar agindo assim.
     Ela se levantou abruptamente empurrando a cadeira para trás e pegou a bolsa já esbravejando:
    - Cansei de você! Não quero mais! Não me ligue mais. Não me procure mais! Não apareça nunca mais na minha frente. Tchau.
    Foi embora pisando duro, enquanto eu fiquei olhando lá da mesa sua descida às pressas pela escada rolante.

                        A viagem:
     - Não tenho nada de comer na bolsa. Serve manteiga de cacau para passar nos lábios? – ela sorriu quando balancei bem devagar a cabeça para frente e para trás.
      Emendei fazendo cara de decepção:  
    - Puxa vida, que pena. As coisas de comer que me pediu para comprar estão lá no porta-malas.
    - Trouxe tudo que pedi?
    - Aquela lista enorme? Trouxe sim. Aproveitei e coloquei um mini-system na bagagem para gente ouvir algumas músicas. Não sei por que, mas fiquei com a sensação que esqueci alguma coisa. Mais tarde eu lembro o que é.
    - Ainda falta muito? Estou com vontade de fazer xixi.
    - Acho que mais uns 10 ou 15 quilômetros estaremos lá. Ali na frente tem um posto de gasolina com restaurante, vamos parar para ir ao banheiro e aproveitar para matar a fome.
    - Tá bom. Acho melhor assim.
    Parei o carro numa vaga próximo à entrada. Saímos andando abraçadinhos, mas a posição dos braços parecia meio incomoda para ambos.
   - Vamos andar de mãos dadas por que abraçados não acertamos o passo. Parece que a nossa diferença de altura atrapalha um pouco. Eu tenho 1.85m e você deve ter mais ou menos 1.60m, não é?
   Ela deu um meio-sorriso e respondeu com a voz feliz:
   - Vamos dizer que tenho 1.60m de altura – risadinhas tímidas no final.
   - Ah sei lá. Se não tem isso está bem perto. Devem ser as botas com saltos baixos que não ajudam muito. Adoro esse jeito da calça jeans por dentro do cano. Acho que fica muito bem em você. Escolheu certinho como impressionar. Como dizem lá no interior: ornou e deu mais formosura para sua belezura. Falando sério agora: deu, assim, - como vou dizer? - um porte diferente, certa elegância que impõe respeito. Aliás, uma mulher com sua postura nem precisa muito para impor respeito.
  - Já me disseram isso.
  - Disseram o que? Que impõe respeito ou que fica bem de botas?
  - As duas coisas.
  - Sei, sei. Agora sou eu que falo ah tá! – Dei um sorriso amarelo com um “Q” de decepção e ela levou na esportiva. Percebi que quase esboçou um sorriso de canto de boca do meu jeito humorístico de ser.
     Um para direita e o outro para esquerda, nos separamos para ida ao toalete e apontamos um ao outro o lugar do encontro na saída. Depois de alguns minutos estávamos num hall com mesas, poltronas e alguns folhetos anunciado ofertas. Caminhamos um pouco e nos aproximamos do balcão para fazer o pedido, e eu perguntei a ela antes:
     - O que você quer comer? Aquelas coxinhas parecem deliciosas.
     - Não quero nada.
     - Tem certeza? Não sentiu fome pela viagem?
     - Não. Eu comi alguma coisa antes de sair de casa. Faz assim: escolhe você que eu vou pensar.
     - Tá certo – respondi tomado de algum desânimo porque não gosto de comer sozinho.
    Pedi ao atendente café com leite grande e pão de batata com recheio de requeijão. Voltei o olhar e perguntei:
    - Tem certeza que não quer nada? – ela titubeou um pouco e respondeu que tinha mudado de ideia – o que me animou bastante:
    - Pode pedir igual ao seu - falou com indecisão.
    - Pão de batata com requeijão? – coloquei uma dúvida quanto ao seu gosto ser igual ao meu.
    - Sim. Pode ser.
    - Açúcar ou adoçante?
    - Pode ser aquele adoçante líquido - apontou discretamente para o frasco numa cestinha de palha sobre o balcão. 
    O atendente nos trouxe o pedido e continuamos uma conversa rasa entrecortada pelo olhar curioso ao ambiente com diversidade de pães, pedaços de bolo, salgados, doces e guloseimas. E do lado oposto ao balcão do restaurante uma exposição de largos cadeirões em madeira, redes de balanço e esculturas talhadas em pedaço de tronco de árvore. Chamei sua atenção para um quadro grande com a imagem de um saxofone solitário. Ela falou:
     - O meu pai é músico. Ele toca alguns instrumentos e gosta de saxofone. Vive ensaiando lá no quartinho dos fundos de casa.
    - Sério? Que tipo de música ele toca? Por acaso seria Jazz?
    - Não sei. Já me acostumei tanto a ouvir os ensaios em que ele repete várias vezes o mesmo trecho de música, que nem presto mais atenção no que ele toca. Antes me incomodava, mas agora não mais.
    - Eu gosto de saxofone, mas o rock dos anos 80 abusou um pouco do uso desse instrumento. Eu achava muito xarope os solos de sax nas músicas do Bruce Springsteen, Dire Straits, Tina Turner e Men At Work. Eu não suporto ouvir aquele solinho ridículo de sax na música do filme Dirty Dancing.
    - Ah. Eu assisti esse filme. Gostei muito da cena final que tem a dança. Acho que é justamente a cena com a música que você não gosta.
    - Xiiiii... É essa mesmo, mas gosto é gosto, né? – acabei me sentindo sem graça dando essa bola fora.
    - Não tem problema. Não precisa ficar triste por causa disso. Eu aprendi a ouvir de tudo um pouco. A minha mãe sabe mais sobre música que meu pai. Ela lê partitura.
    - Caracas! E por que você não foi pelo mesmo caminho de aprender música?
    - Eu nunca participava com eles de nada. Demorei a escolher o que queria estudar e acabei optando por farmácia. Logo depois mudei um pouco de rumo e me aprofundei na relação da alimentação com a linguagem do corpo e terapia floral.
    - Uau! Você é muito inteligente. Só gente inteligente estuda essas coisas.
    - Pois é, dizem que sou. A minha família é de gente inteligente – sorriu orgulhosa no final da frase.
     - E você faz o que mesmo? Não entendi muito bem naquela conversa rápida que tivemos pela internet.
     - Eu trabalho com montagem de equipamento de som e iluminação de palco em festas. Os clientes me contratam para animar festas de casamento ou formatura; alguns aniversários e eventos empresariais pintam na agenda de vez em quando. Também posso atuar como DJ ou MC fazendo a apresentação de pessoal e a seleção de músicas quando necessário.
     - Você tinha me falado apenas que era DJ. Você se formou em que?
     - Na verdade, eu não cheguei a me formar. Parei quase 10 anos com os estudos e depois voltei com um curso de 12 meses chamado módulo extensivo. É um curso para revisão de conteúdo do ensino médio na preparação para fazer vestibular. 
      - Não precisa explicar muito, eu já sei o que é - cortou a minha explicação mostrando conhecimento de causa.
      - Então... Eu estava bem enferrujado e foi muito boa essa reciclagem de conhecimento. Aí comecei com engenharia eletrônica, – fiquei de cabelos em pé e posso dizer que perdi uma porção deles – consegui chegar com muito custo até o quarto semestre, para quase no finalzinho ser obrigado a desistir por cansaço. Não aguentava mais dormir apenas 2 horas por noite. É um curso que suga a gente até o talo. Muito cálculo que necessita foco e raciocínio. Eu estava me tornando um neurótico solitário sem vida social. Logo de cara fiquei completamente doente, desgastado e desanimado com a dificuldade do primeiro ano. Isso atrapalhou todo meu desempenho no decorrer do ano seguinte.
     - Eu imagino. Também cheguei a pensar em desistir um dia - ela falou com certa nostalgia. Mas a frase pareceu ter duplo sentido.
     - Vamos voltar para o carro e seguir o caminho? - apressei.
     - Sim, sim. Vamos.
     Entramos e nos acomodamos no veículo. Peguei um CD no porta-luvas e coloquei para tocar. Era a música Brown Eyed Girl de Van Morrison. Ela me olhou com admiração e comentou:
      - Que coincidência, o meu pai sempre ouve essa música.
        Dei um sorriso e mandei o elogio com sugestão:
     - Então ele tem bom gosto. É uma música bem legal. Vamos aproveitar que já é noite e a estrada está vazia para fazermos uma brincadeira?
     - Que brincadeira? – ela me olhou totalmente arredia e desconfiada.
     - Quando o velocímetro atingir 60 quilômetros por hora nós levantaremos totalmente os vidros e eu colocarei uma música. Você fechará os olhos e me dirá todas nuances que percebe. Quero que ouça o que considero a essência do Rock na sua mais interessante forma criativa. É o trecho de uma ópera-rock. Topa?
     - Ópera? Mas eu não gosto de ópera.
     - Fica tranquila que é algo bem diferente. Não é uma ópera no estilo tradicional que você conhece. É um trabalho chamado de Ópera-Rock porque conta uma história em ordem cronológica da primeira à última faixa. Aliás, essa música nem é vocalizada, eis aí a grande curiosidade da situação.
      - Fiquei mesmo bem curiosa em saber que história é essa.
      - O nome da obra é Quadrophenia.
      - Nunca ouvi essa palavra. O que significa?
      - O termo está relacionado com loucura. É a mistura de 2 palavras: Quadro (quatro) e phenia (é um trocadilho de grafia errada com schizophrenia). É a história de um jovem que tem 4 personalidades distintas. Ele faz visitas frequentes ao psiquiatra para buscar a solução aos problemas de convivência que tem em casa. Vamos tentar fazer a brincadeira?
     - Sim. Vamos lá. Vejamos no que isso vai dar .
     Quando a velocidade atingiu 60 quilômetros por hora liguei o piloto automático e coloquei a música The Rock do The Who.
    - O que sente nesse comecinho?
    - Ouço o barulho do mar e o som da bateria bem marcante. Vai se repetindo. Ritmo muito coeso. A guitarra acompanha o teclado. É empolgante e muito legal. Eu diria que é contagiante. Gostei! Agora o ritmo muda e o som é de guitarra chorando com notas de piano em destaque. E prossegue como se fosse um lamento orquestrado.
   - Continue de olhos fechados e sinta a música passando por seus ouvidos e chegando rápido dentro da cabeça. Sinta profundo. Respire fundo e continue dizendo o que ouve com todas as nuances.
   - Ficou lento de repente e virou um som meio solene, é como se anunciasse a chegada de alguém muito importante com o repique de bateria. Agora tem o teclado martelando uma nota só junto com a guitarra. A bateria vai entrando em ritmo de marcha. Imagino como se estivesse numa cavalgada de desfile militar.
   - Isso! Continue de olhos fechados e diga o que sente depois disso.
   - Espere um pouco. O ritmo mudou de novo. A guitarra é mais forte e parece cantar alegremente. O tom da música se tornou mais eloquente e a orquestração voltou a chorar. 
    - Isso! Magnifico! Você está indo muito bem. Continue sem abrir os olhos.
    - As batidas da bateria atravessam os meus ouvidos de um lado a outro num vai e vem constante. O som agudo dos pratos soa de lá para cá e quase me assusta. Agora tá tudo junto: guitarra, teclado, bateria e baixo marcam o ritmo. A guitarra chora. E chora mais. A intensidade diminui e fica só o teclado. O teclado repete as mesmas notas até exaustão.
    - Isso, isso. Não saia desta concentração. Continue imaginando. É uma "viagem" o que está fazendo.
     - Bateria, bateria, bateria. Variação. Vários tons. Agora tem um tipo de efeito parecido com alguém falando dentro de uma garrafa. É constante. Permanente. Penetra lá no fundo da alma e termina com barulho de água.
  - Muito bem! Meus parabéns! Você foi sensacional. Além de ter bom ouvido é muito detalhista! Caracas... Acho que você escolheu a carreira errada. A música está no sangue da sua família. Deveria ser uma maestrina. Tenho certeza que conquistaria o mundo sendo famosa. Então? Gostou da brincadeira?
  Ela sorriu assim, daquele jeito de alguém que quer dizer sim mas não diz com todas as letras:
  - Gostei. Nunca ninguém tinha me mandado ouvir a música e descrever detalhadamente o que se ouve, ou o sentimento instantâneo que isso provoca. É uma experiência bem interessante. Vou refletir sobre isso depois.
  - Eu, na maioria das vezes, fecho os olhos quando a musicalidade me atrai. Não existe música feia quando a gente entende o sentido da criação ou quando criamos um sentido especial para ela - arrematei o assunto buscando uma frase de efeito.
  - É verdade. Acho você tão engraçado. Você fala coisas muito interessantes que fazem a gente pensar depois - ficam guardadas e voltam quando menos a gente espera. Por isso resolvi vir nessa aventura. Acho que também estou gostando de você, do seu jeito.
  - Isso é uma declaração de amor? - risadas e uma pausa - Pode crer que além de pensar no que eu digo, você também lembrará do que estamos fazendo de diferente. Esse tipo de situação deixa recordação; o quanto isso mexe com a gente só saberemos depois, muito tempo depois, talvez anos. Olha só, estamos chegando. Veja lá a placa na estrada. Estamos bem perto agora. Indica que temos que pegar a outra rodovia á esquerda - sentido Campinas.
  - Ainda bem. Agora só falta achar a pousada. Eu sei que é numa rua de terra que margeia a rodovia Dom Pedro I perto do km 80 ou 81.
  - Vamos tentar. Se não acharmos, você liga para a dona da pousada.

     Continua na próxima postagem.

         Músicas citadas no texto:







  

4 comentários:

  1. Gostei. Umas das trilhas sonoras q eles escutaram ( Time Of My Life), na época q lançou esse filme nos cinemas foi show de bola, não esqueço, ótimas lembranças.. Mas, vamos ao conto, dando continuidade a viagem q pelo jeito está mais próximo, assim o casal aproveita e explora o local escolheu e se conhecem melhor no dias q ficarem na pousada.. Vejo q tudo leva ao desenvolvimento natural entre ambos ( aparentemente)... No q diz respeito q ele explorou sobre o pai e a mãe dela, foi uma visão de fora, pois na convivência permanente ninguém sabe, a não ser a própria q está sendo criticada... Um jeito de achar o q deve ou não fazer, pensar é estranho.. O q se passa na mente dela, ele jamais saberá, não confundindo q possa agir de forma arbitrária.. Convívio (na intimidade) excelente, mas no social não é tão natural, relacionamento não pode só se basear apenas SEXO.. Relacionamento a dois é mais q isso.. Se estão unidos apenas por isso, o tempo irá mostrar.. Aí podemos dizer q foi uma 'paixão avassaladora'.. Que tem começo, meio e fim... Andréa Cardoso...

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  2. Patricia Ramos Sodero26 de julho de 2014 15:29

    Boa tarde,Sr.Autor!
    Percebo que o Renato é uma pessoa mais interessada em saber detalhes da vida familiar de Cristiana.Isso a irrita.E faz o relacionamento ser de idas e vindas.O fato de sairem para uma viagem de fim de semana,após um tempo sem se verem,era exatamente o que precisavam.Afinal,mesmo Renato chegando em questões que não a agradava muito,acabavam ao ponto que queriam.Parte pessoal.O desenrolar de quem era quem,e do que gostavam,ficou bem explícito neste capítulo.Achei bárbara a brincadeira feita no carro,que fez Cristiana ficar envolvida e mostrar o quanto é entendida em música.Sua interpretação foi absurda!São parecidos de verdade.Resta saber o porquê de tanto medo em assumir um casamento.Lógico que só lendo capítulo a capítulo para saber...rs...rs...Os vídeos postados nos faz sentir e viver cada toque musical.Simplesmente lindo!
    Parabéns por mais um capítulo envolvente,Re.
    Não demore para publicar o próximo...rs...rs...
    Bjssss e até....

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  3. Depois de mtas idas e vindas, descobri q um relacionamento não se sustenta assim por mto tempo. Se não houver entendimento e empenho de ambos, não há fuga q dê jeito! Idas e vindas não resolvem nd pq na volta os problemas estarão lá, à espera, no msm lugar... Hj penso q relacionamentos assim, cheios de vai e volta, terminam c/ cd um pro seu lado.
    Espero q nossos protagonistas encontrem uma solução nesta viagem q, pelo visto, deixará mtas lembranças e histórias pra contar!
    Mto interessante a brincadeira proposta por Renato e se torna ainda mais qdo a gente vai lendo a descrição dela e ouvindo a música!
    Tbém adoro a cena do final de Dirty Dancing! Quem foi adolescente na década de 80, vibrou c/ o ritmo, c/ a dança e c/ o charme de Patrick Swayze! Boas lembranças!!!
    E, cm sempre Sr. Autor, seu bom gosto musical "ornando" c/ o desenvolver da estória! Parabéns!
    BJSSS - Edneia

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  4. Fiquei curiosa para saber que anúncio foi esse que ela lhe fez, após fazerem amor, que o deixou tão triste a ponto de nem querer comentar, espero que nos próximos capítulos possa matar minha curiosidade...rs.
    É uma pena que a maioria dos relacionamentos é assim, os dois dificilmente estão na mesma sintonia, um acaba sempre se envolvendo mais que o outro, gostando mais e, portanto querendo mais da relação e quando aquela que não está assim tão envolvida se sente cobrada, pressionada, a tendência é essas idas e vindas, o que já é um passo para a separação em definitivo. Infelizmente.
    Quanto ao fato de ela não querer um relacionamento mais sério, é obvio de que não tinha certeza de seus sentimentos, e era isso que ela não suportava no Renato, essa cobrança. Mas enfim, voltando a nossa viagem para Atibaia (pois já me vejo fazendo parte dessa viagem... rs.) adorei a novidade que colocou no texto com os clipes das músicas citadas, ficou muito bom.
    Essa parte em que descreve as sensações dela aos sons da música, foi brilhante, ele tem toda uma preocupação em fazê-la sentir se bem, ter boas recordações dos momentos que passavam juntos, e isso é muito legal da parte dele, diria que é raro homens assim hoje em dia.
    É complexo quando Renato diz que “talvez tenhamos escolhido a forma errada de atravessar a vida buscando avidamente tábuas de salvação afetiva. O afeto tem como preço o apego. Isso é inquestionável e fatal.”. Pois nós seres humanos somos assim, não fomos criados para sermos sozinhos, normal então que busquemos um relacionamento que nos complete, mas ao mesmo tempo é ruim quando você fica totalmente dependente desse relacionamento, achando que aquela pessoa é a salvação pra todos os seus problemas, aí se encontra o erro, pois, para que de certo os dois devem se doar da mesma forma.
    Até breve Renato,
    Bjos.

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