quinta-feira, 10 de julho de 2014

Vaidade Em Prejuízo Da Honra. Parte 2

"A lâmpada do corpo são os olhos; assim, se teus olhos forem bons, todo teu corpo estará pleno de luz; se, porém, teus olhos forem maus, todo teu corpo estará em trevas. Assim, se a luz que há em ti for de trevas, quão grandes serão tais trevas! (Mateus 6: 22-23) 

     Ela parou diante da porta do elevador e apertou o botão com a seta que indica para cima. O rosto adquiriu uma expressão completamente estática – e aqueles segundos de expectativa em silêncio pareceram horas intermináveis.
    - Diga- me uma coisa: – falei – interrompendo o seu olhar impaciente com tanta demora do elevador – você está certa que vai fazer isso mesmo?
      Ela não respondeu e continuou imóvel atirando-se novamente ao amargor repentino.
    - É melhor voltarmos para conversar e esclarecer as coisas – insisti, tentando fazer com que ela me olhasse.
    Os traços do rosto não mudaram e a pose continuou a mesma.
    - Você acha que sou palhaça? – falou sem me dirigir o olhar e silenciou novamente apertando mais três vezes o botão na parede.
    - Claro que não! Eu quero que reflita um pouco. Mas, muito bem, se você quer assim nada posso fazer. Siga em frente!
     O elevador chegou com quatro pessoas – o carro dela estava estacionado no terceiro piso da garagem – entrei junto para ficarmos lado a lado e o silêncio se manteve.
     Eu olhava diretamente para o rosto dela enquanto ela olhava para porta – as outras pessoas desceram na primeira garagem e ficamos a sós no resto da viagem.
    - Não vai mesmo falar comigo?
    Ela apenas acenou negativamente com a cabeça.
    Talvez houvesse alguma verdade em seu silêncio, mas duvido que aquele silêncio possa ter sido causado por um acontecimento tão banal.
    As portas do elevador abriram no andar. Descemos – ela na frente e eu atrás em direção a vaga onde o carro estava estacionado para finalizar mais um embate.
    Estávamos quase à porta do carro, pois ela tinha andado bem depressa para se ver livre de mim.
   Não querendo provocá-la, por causa daquela atitude imponderável que não acabava nunca, perguntei com um meio-sorriso cordial:
     - Vamos parar com isso? Pense direitinho em tudo. Não há sentido em agir assim, nós somos namorados. Não devemos brigar por causa dos outros. No futuro espero que a gente esteja sempre de acordo.
       Ela abriu a porta do carro, entrou e fechou. Ligou o automóvel, manobrou e foi embora sem responder absolutamente nada.
     
     Não quero ficar aqui apenas citando coisas ruins do comportamento dela ou de sua família. Existem muitas coisas boas sobre o modo como tudo poderia ter acontecido. Mas que diferença faria isso agora se tudo tem o seu tempo determinado para existir? Há tempo para todos os propósitos nessa terra de Deus: há tempo para nascer e tempo para morrer; há tempo para plantar e colher o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de lastimar e tempo de dar a volta por cima; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar; tempo de abraçar e tempo de afastar do abraço; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de jogar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de ficar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz. Só existe verdadeiramente tempo para mudanças na vida, ou em suas atitudes, quando se tem essa consciência.  
    Todas as perguntas que me faço sobre o assunto parecem insuficientes para dar uma descrição satisfatória da personalidade dela. Porém, naquele exato momento eu me perguntava, com uma indignação interior muito estranha: quem era aquela pessoa? Quem era aquela moça, já beirando trinta e cinco anos no começo do ano de 2010, que, por motivo algum, se transformava numa mocinha tímida e pirracenta como se nunca tivesse crescido? Quem era aquela mulher totalmente agressiva que demonstrava pouca sensibilidade e nenhuma consideração por mim, mas que na cama se transformava numa fêmea no cio? O que a fez me odiar tanto assim? Será que, como agora, sempre pareci a ela esse alguém que deve ser ignorado?
    Eu queria tanto lhe falar grandes coisas, contar grandes acontecimentos e realizações; ou essas coisas que me atormentam por dentro. Mas nunca soube ao certo como começar. Mas de que adianta se agora ela está surda, muda e de partida?
    Estranho como às vezes as coisas acontecem na vida da gente. Era justamente o momento de nos reconciliarmos e tudo acabaria sem lástimas. Ou pelo menos eu imagino que acabaria.
   Tentei convencer a mim mesmo, durante aqueles minutos, que talvez ela sofresse de algum distúrbio glandular, algum excesso ou deficiência hormonal, sei lá...
   Eu sabia que se tratava de uma criatura a qual eu nunca havia encontrado igual, uma mulher diferente em todos os seus rituais. Uma pessoa com uma expressão esquisita no olhar, mas não uma pessoa má.
   E a situação ali era cruel. Parecia que não se resolveria nem que eu pedisse mil vezes que conversasse comigo. Eu devia ter percebido antes, mas estava desesperadamente apaixonado e cego. E foi fatal!

   - Marco Antonio – assim Maria sempre chama o marido para lhe contar as novas – (em cada situação inusitada ela o chama pelos dois nomes, sempre com ar mais severo) -, Cristiana finalmente conheceu um novo rapaz para namorar.
    O marido apenas olhou e nada respondeu.
   - Pois é – assegurou a mãe com ar de satisfação –, Cristiana acabou de me contar sobre ele.
   Marco Antonio continuou em silêncio.
  - Que droga! Por que nunca me dá atenção? Não deseja saber quem é o rapaz? – gritou a mulher já bem impaciente com a indiferença do marido.
  - Olha. Presta atenção. Você é que está querendo me contar sem eu ter perguntado nada, não faço nenhuma objeção que me conte. Pode continuar.
  Apenas isso foi suficiente para que Maria desfilasse os detalhes já conhecidos por ela.
 - Pois saiba que Cristiana falou muito bem do rapaz. Ela parece empolgada com ele.
 - Ah tá certo. Você sabe muito bem como é quando ela parece empolgada com alguém. Vá lá, sei como é: novamente a mesma história. Qual o nome dele?
 - Renato.
 - É casado ou solteiro?
 - É solteiro, mas já foi casado e tem filhos que moram com a ex-mulher. Olha... Antes que fale alguma coisa já vou adiantando: quando a questionei se não seria melhor se envolver com alguém que ainda não tivesse esse compromisso, ou fosse livre de filhos, ela respondeu que na idade dela já não tem muito que ficar escolhendo.
  - Como assim? Ela sabe que nós gostaríamos que houvesse igualdade de condições do pretendente.
  - Mas é ela quem escolhe quem vai namorar, e a gente só pode esperar que resolva quando é melhor trazê-lo aqui. Não me conformo como você às vezes é sem-noção – disse a esposa meio indignada.
  - Só espero que este não seja outro projeto de homem como foi o anterior. Ou que venha aqui só para desfrutar da nossa hospitalidade. Aliás, ela falou qual a idade dele?
  - Sim. Disse que não sabe ao certo, mas ele é mais velho que ela alguns anos.
  - Trabalha em que?
  - Ela não disse – respondeu a esposa, já torcendo o canto da boca.
  - Tomara que não seja mais um pé-rapado que não tem aonde cair vivo, porque morto cai em qualquer lugar.
  - Acho que isso é excesso de cuidados da sua parte, vamos aguardar para ver como as coisas acontecem. Eu fiquei muito curiosa para conhecê-lo. Nossa filha disse que ele é bonito, educado e inteligente.
  - Ah tá. Se fosse inteligente não se meteria com ela. Peça que traga o rapaz aqui o mais breve possível, de preferência num dia de final de semana para que possamos conhecê-lo bem de perto. E, saber assim, se tem boa educação ou inteligência para desenvolver uma conversa, ao menos isso eu espero, afff.
  - Falarei com ela que você quer conhecer o rapaz.
  - Sim. Aproveite e marque um dia em que todas as meninas estejam em casa. Assim ele poderá comprovar o quanto nossas filhas são belas porque se parecem com você.
   - Você está me elogiando do nada? Como assim? – ela sorriu timidamente e fechou o sorriso.
   - Não gosta dos meus elogios?
   - Eu sei muito bem que já tive a fase de beleza e que não posso ambicionar mais nada de extraordinário na casa dos sessenta anos. Quando uma mulher tem quatro filhas crescidas e já batalhou tanto durante anos para cuidar delas, deve deixar um pouco de lado a vaidade e pensar em como as mocinhas podem se arrumar na vida futura sem a presença dos pais. Elas precisam romper o cordão umbilical logo.
   - Eu me orgulho muito de você e de nossas filhas – sorriu o marido. Eu sei que Cristiana é a mais parecida comigo nos traços físicos, talvez na personalidade. Mas eu gosto mesmo é do caráter dócil de Rita. Sofia sempre mais envolvida com o trabalho e com o namorado nunca liga muito para gente; minha pequena Júlia é um doce e parece bem mais esperta que as irmãs.
   - Você sempre faz questão de me irritar com essas comparações. Rita não é melhor que as outras. Você não deveria ficar toda hora dizendo que ela é a preferida. Tenho certeza que ela não tem nem a metade da beleza de Júlia. E nem sequer o bom humor de Sofia ou a inteligência de Cristiana. Mas você nunca para de ficar se manifestando para que todos saibam.
   - Eu penso que nenhuma delas tem o que se recomendar para qualquer rapaz mais esperto. Todas são geniosas e foram mimadas por você. Qualquer homem que espera encontrar uma esposa no molde mais tradicional vai se lascar na mão de qualquer uma delas. Júlia não sabe nem passar roupa direito. Rita é um pouco mais dócil que as demais, porém, um pouco preguiçosa. Nós nos damos bem porque falamos a mesma língua, ela é bem mais fácil de lidar que as demais. E Cristiana pelo menos sabe cozinhar, e é só o que sabe fazer direito...
   - De tudo isso todos já sabem. Você até deu um carro de presente para Rita e não deu nada para as outras. Não me conformo como pode falar mal assim dos próprios filhos. Você me elogia e depois faz questão de me aborrecer; não tem a menor pena dos meus nervos.
   - Olha... Lá vem você... Novamente está muito enganada. Eu sei muito bem como são os seus nervos. Sei disso há quase quarenta anos. Tenho escutado tantas vezes você fazer as mesmas reclamações que até já decorei o discurso. Você não entende que ter quatro filhas nos primeiros dez anos de casamento foi um choque para mim. Isso foi muito complicado para nós dois. Nunca mais pudemos namorar como era antes. Lembra como aquele tempo era bom? E os bailinhos então?
   - Ah... Não seja hipócrita. Você nunca ligou para o meu sofrimento.      
    - Eu sempre me importei, sim. E espero que viva bastante, muito mais do que eu. Que tenha tempo de ver todas as nossas filhas casadas.
    - Pouco adianta pensar nisso se você se recusa a tratar bem os escolhidos por elas.
    - Pode estar certa, minha querida, que quando aqui chegar algum em quem eu confie tratarei muito bem. Se o escolhido for o de Cristiana tratarei melhor ainda, farei de tudo para que a coisa se resolva de forma definitiva para todos nós. Você sabe muito bem que me esforcei o quanto podia para o desenvolvimento de cada uma delas. Não é justo entregar de mão-beijada o que foi tão duro conquistar. Eu fiz o máximo  para que cada uma fosse talentosa numa área específica. Lutei por isso. Na sociedade que vivemos é muito importante uma pessoa ter conhecimento de línguas, desenho, ciência, artes-plásticas, saúde, dança, nutrição; e além disso, ter educação, respeito às pessoas, generosidade e perdão. No caso das nossas meninas, tem que haver algo especial na forma de se relacionar com as pessoas, e em sua expressão. Se não for assim poderei reconhecer que falhei.

       Nesse ponto o orgulho mais elementar do velho pai começava a aflorar. O conteúdo daquela conversa, - que parecia apenas mais uma entre tantas situações inocentes - lançou o espírito do velho homem numa agitação que era difícil de determinar se era por prazer ou dor. Seu coração lhe dizia que fora unicamente por sua causa que nenhuma das filhas havia se casado até então. E quando havia uma esperança, acabava sempre sufocada por várias reflexões e recusas, que com o passar do tempo se mostravam frágeis e incoerentes. Maria até se envergonhava de imaginar tudo que ele lhe devia por tantos anos de dedicação – por tantos sonhos pessoais não realizados. Mas Marco Antonio tinha mais do que um motivo para ser indiferente à situação; motivos que talvez nunca exigissem sutilezas ou atenção demasiada. E, embora, ela não se considerasse a causa principal da conduta dele, poderia talvez supor que o restinho de afeição que ainda existia por ela, tivesse contribuído para os seus esforços e a busca de uma causa que era muito importante para a continuidade do nome da família. Era doloroso, muito doloroso mesmo, saber que a paz de espírito dele dependeria única e exclusivamente de uma realização sonhada bem antes da união matrimonial.
   Quem de verdade era Marco Antonio ou o que ele sonhava? Talvez nem Maria soubesse depois de quarenta anos.


    Continua na próxima postagem.


5 comentários:

  1. Quantos segredos esconde essa família? Dizer que nem a própria mulher desconhece o passado do marido, caso pra se pensar. Família que demonstra para os de fora, unida, bem sucedida e feliz, mas que na verdade não é bem assim.
    Já começa a desencadear de verdade quem de fato. Tantas exigências, agora resta saber qual é o segredo do pai da Cristiana. Parabéns Renato, adorando esse conto! Adriana.

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  2. Olá Re,
    É engraçado como sempre ficamos procurando justificar o jeito de ser do outro, principalmente quando ele não nos agrada muito, nos perguntamos qual tipo de distúrbio pode ter ou o que já passou pela vida para ser como é (nem sempre a resposta vem). Mas seja lá o que for que aconteça com a pessoa que amamos estamos sempre ali prontos a perdoa-la e aceita- la como é, só para mantê-la por perto, mesmo que seu jeito não nos satisfaça o mais importante é não perde-la.
    E aí eu me pergunto, quais são as chances desse relacionamento dar certo? Se toda vez que algo te desagrada você engole seco e passa a mão na cabeça, para não contraria-la. Você mesmo se pergunta quem é ela e por que tantas vezes era agressiva com você (como nessa parte do conto, por exemplo, não houve nenhum motivo aparente para tanta raiva e ela sair como saiu, deixando você falando sozinho), e mesmo assim se percebe sua paixão por ela, quando você cita a mulher que ela era na cama, será que essa era a causa principal de tanta paixão? Creio que não. Por isso a sua esperança em esperar o tempo certo. Mas com ela, “esperar por esse tempo certo” é uma coisa muito instável... E acredito que seja isso que a vida cobre da gente, viver o momento, falar o que sente o que espera do outro, quando ele está ali ao nosso lado, pois não temos ideia de como será nosso amanhã, mas o medo de nos arriscarmos de perdemos o pouco que temos nos amedronta, então nos calamos e deixamos que o tempo se encarregue do resto.
    No aguardo dos próximos capítulos.
    Beijos.

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  3. Patricia Ramos Sodero15 de julho de 2014 22:46

    Boa Noite,Re!
    Sem sombra de dúvidas,um capítulo que já mostra um passado conturbado entre os pais de Cristiana,onde a própria mãe,Dna.Maria,não sabe o que o marido pretendia(ou escondia),antes mesmo de se casar.Acredito que para chegarmos a uma união,um casal não pode omitir e nem mentir das coisas que já aconteceram ou que possivelmente ainda poderão acontecer.Sendo as características da protagonista,parecidas com as do pai,é possível verificar tal comportamento diante de seu namorado.Uma família aparentemente normal,unida,com pais e irmãs,mas que na verdade,escondem o passado podre que existe em algum ponto.Isso,só iremos saber aguardando o próximo capítulo.Mais uma vez relato meu parecer...tem algo que me lembra Miss C!Vamos ver...
    Belo capítulo,com descrições importantes para nós,leitoras!
    Parabéns e até....
    Bjs...

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  4. Tenho q aproveitar a oportunidd p/ parabenizá-lo, Renato, pela bela e deliciosa forma de escrita usada p/ descrever esta família q, apesar de parecer normal cm qlqr outra, tem uma estória q deixa nas entrelinhas vestígios de segredos e rancores guardados desde antes do matrimônio. Tais características parecem ter sido passadas genética/e, dando continuidd ao clima de mistério q envolve pais e filhas.
    Cd personagem descrito apresenta adjetivos interessantes e secretos, cm a mãe, Dna Maria, c/ seu admirável gosto artístico (despertou até a vontade de ler "On The Road" e ouvir Beatles!!!). Apesar da extrema dedicação cm mãe e esposa, ela deixa no ar um estranho sentimento de mágoa da própria mãe, q contagia até as filhas...
    E o pai q, msm c/ tnt dedicação à união de quatro décadas e o orgulho pelas filhas bem criadas, mostra uma personalidd q nem a própria esposa é capaz de definir? Mistéeeriooos!!!...
    Talvez seja msm por herança genética q Cristiana apresente uma personalidd um tnt obscura e cheia de altos e baixos aos olhos de Renato, q a vê num contraste entre uma criança tímida e uma fêmea no cio!
    Não posso deixar de observar a enriquecedora contribuição dada pelas passagens retiradas da Bíblia, tnt à estória qto aos personagens, e a nós leitoras!
    Parabéns, Renato! BJSSS - Edneia

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  5. Queria entender porque certos comportamentos, fascinam os homens, hein? Só de imaginar a cena, é no mínimo constrangedor ficar correndo atrás da pessoa, quando vê q nem adianta. É ficar nas mãos dela, literalmente falando.. Parecendo fantoche sabe... Brincando com sentimentos alheios, muda de humor repentinamente, só por um bate-papo... Lidar com gente assim é desgastante, fica doentio, na corda bamba, nunca saberá quando acertar pra q possa fluir esse relacionamento com respeito e companheirismo... Têm pessoas mesmo q acompanhadas se sentem sozinhas, essa é a realidade de vários relacionamentos q conheci, e está relatando a vida como ela é cheias de incertezas e ingratidões.

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