segunda-feira, 30 de junho de 2014

Vaidade Em Prejuízo Da Honra. Parte 1

   Felizes os humildes, porque deles é o Reino dos céus. Felizes os aflitos, porque eles receberão consolação. Felizes os mansos, porque eles receberão a terra como herança. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia. Felizes os de coração limpo, porque eles verão a Deus. Felizes os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus. Felizes os que sofrem perseguições por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus. Felizes sereis quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. (Mateus 5:3-11)

     - Renato!
     - Diga.
     - Por que faz essa cara e me olha assim impaciente?
     - É porque não gosto quando você insiste nesse tipo de conversa.
     - Não quer saber detalhes da minha vida? Se continuar com essa cara de desaprovação eu não conto mais nada.
     - Quero, com certeza. Mas não estas coisas, e deste jeito.
     - Não sei contar de outro jeito.
     - Sabe sim! Acho que poderia ter pensamentos mais positivos e parar de falar mal da sua mãe.
     - Mas ela é uma velha chata e rabujenta.
     - Não fale assim dela!
     - Mas é mesmo! Eu, no lugar do meu pai, já teria ido embora faz tempo.
     - My God! Como você é ingrata.
     - E você é um idiota que fica defendendo ela!
     - Não estou defendendo ninguém. Apenas acho que não é certo sair por aí falando tantas baboseiras.
     - Que droga! Quando você vai crescer? É um idiota mesmo! Eu me enchi de você! Tchau... Por favor, não me procure mais!
     - ...?!
     
    
    Se vocês querem mesmo saber o que aconteceu antes e depois dessa conversa, a primeira coisa que vão querer saber é quem é Renato; quem é a tal moça nesse diálogo, e como essa droga de bate-boca chegou a esse ponto. Talvez também queiram saber quem são os pais da moça e de onde vieram, e todo mi-mi-mi ou nhe-nhe-nhem que ocasionou a cena toda (Assim diriam alguns que me criticam e não sabem da reza nem um terço).
      Olha... Eu sei. É muito complicado contar certas histórias e digo que esse negócio me chateia um pouco. Eu reconheço que existem várias maneiras da coisa ser contada com leveza de espírito, racionalidade e educação. Mas, para falar a verdade, não ando muito a fim de ter educação nos últimos tempos. Acho que fiquei meio insensível e um tanto distante dos prazeres da vida depois do acontecido.
      Nem vou dizer que essa moça fosse ruim, ou que a mãe dela fosse ruim, ou que a família toda fosse fruto de uma raiz podre. Não! Jamais faria uma coisa dessas! Afinal de contas, não estou fazendo a minha autobiografia ou a biografia deles. O único objetivo é contar o que aconteceu naquele momento de esgotamento emocional que mudou o rumo de nossas vidas. De qualquer modo, ainda consigo me lembrar direitinho que todo esse diálogo se deu num sábado a tarde num shopping Center da zona sul, exatamente numa das mesas da praça de alimentação. Eu odiei o que aconteceu. Não importava que fosse uma despedida ou uma briguinha tola, que com o tempo seria esquecida. O que eu queria mesmo era saber por que tudo estava acontecendo daquele jeito.
       Bom... Vamos tentar entender o ocorrido observando com maior detalhamento o comportamento da mãe da moça e sua visão diante da vida cotidiana familiar.
       Mãe é mãe, protagoniza com excelência aquele ator cada vez mais famoso por suas tramas humorísticas na tv e cinema nacional.
      Todos reconhecem que pode haver qualquer criatura coruja, carinhosa, protetora e dedicada rondando por aí neste mundão de Deus. Mas igual à mãe, nem pensar!
     Um tipo de mãe, porém, supera o chamado dever e até mesmo a própria natureza da maternidade. É a tal supermãe que passa a vida toda sem conseguir romper o cordão umbilical de seus rebentos.
     Eis aqui uma supermãe: Maria – uma pessoa com muitos dotes criativos interessantes, e com um nome que combina perfeitamente com seu estilo de Senhora altruísta; desenvolvendo constantemente projetos inéditos e bem possíveis no campo de trabalho ou familiar. Ela sempre foi um misto curioso de vivacidade – usando de humor meio sarcástico em qualquer situação simples ou delicada – e muito capricho em tudo que se punha a fazer.
     Agora vem o outro lado da história: Maria gerou em seu ventre a personagem central desta trama e do tenso diálogo do começo desta narrativa: Cristiana. Filha número um de um quarteto com habilidades e personalidades individuais completamente distintas.
     Cristiana se aproxima agora dos 40 anos sob a mesma corujice materna e deslavada que acompanhou seu desenvolvimento. Mas, para Maria, é como se ela ainda fosse uma menininha bochechuda em seus esplendorosos 5 anos de idade.
     Porém, as boas novidades demoram a chegar, mas um dia chegam; por esse motivo, vive sorrindo orgulhosamente a mãe com o novo emprego da filha; finalmente! Uma profissional reconhecida por seus atributos intelectuais é um mérito mais do que justo para sua primogênita. Afinal de contas, para Maria, Cristiana foi e sempre será o máximo.
     Cristiana, mãe e família moram na mesma casa – bem pertinho da Serra da Cantareira – mais perto ainda de uma rua que sobe e desce e se a gente bobear quase vai acabar na divisa com Minas Gerais. Quando Cristiana sai para o trabalho, Maria vai à janela antes do portão ser totalmente trancado a chave – e, às vezes, fica até com lágrimas nos olhos com a partida da filha; mas mantém o orgulho. Quando retorna no começo da noite, Cristiana encontra uma deliciosa refeição alentada preparada com todo capricho pela mãe; demonstrando assim, o intenso desejo de boas-vindas à filha no merecido retorno ao lar.
     Maria mantém em casa um verdadeiro museu das coisas que Cristiana usou em várias fases da vida. Têm roupas de bebê e criança crescida, roupas da moda adolescente, uniformes de escola e também de trabalho; cartas antigas de amigos da família ou de parentes elogiando a belezura da mocinha em seus anos de crescimento; há inclusive roupas de vários usos e com bordados feitos com carinho pelas mãos da avó paterna que sempre ficou toda boba com a desenvoltura da netinha. Um dos bordados mais transados demorou quase 1 ano para ser terminado pela paciente vovó lá nos idos anos 70, e ficou lindamente concluído com lindos dizeres numa legenda: “Minha netinha querida, a melhor neta de todo o mundo”.    Bem... Quanto à outra avó – a avó materna - a admiração era bem diferente. Maria odiava a própria mãe e, em conseqüência disso, transmitiu às filhas esse sentimento. Cristiana dizia a todos que a avó merecia o triste fim numa cadeira de rodas ou na cama de um asilo por sua perversidade.
      Em meio a tantas recordações havia também o álbum de fotos onde Cristiana aparecia, invariavelmente, tímida diante da lente da verdade que pouco revelava de sua personalidade inconstante, mas isso é apenas um detalhe.
    Maria sempre manteve o rádio em cima da geladeira sintonizado na rádio Antena 1; com a expectativa das músicas famosas dos anos 60 e começo dos 70. Com isso, desfilava pela cozinha, meio que bailando, com aquele permanente ar nostálgico nas tarefas diárias intermináveis. E lá vinha a lembrança dos clássicos e famosos bailinhos românticos de antigamente feitos com uma rádio-vitrola. E, mais que de repente, podia tomar todo aquele ambiente a musicalidade de: Bee Gees, Beatles, Mamas And The Papas, Aphrodite Child, Scott Mackenzie, Johnny Rivers, Elton John, B. J. Thomas, The Archies, Bread, Fifth Dimension, George McCrae, James Taylor, Carly Simon, Charles Aznavour, Adamo, Pepino De Capri e Gigliola Cinquetti; tudo isso ou um pouco mais, antes da chamada era Disco (Discoteca) e os famosos passos bem ensaiadinhos de Tony Manero, que ela também adorava. É claro que essa mãe se mostrava muito fã de Roberto Carlos, Antonio Marcos, Paulo Sérgio, Wanderley Cardoso, Ronnie Von, Luiz Gonzaga e Dominguinhos – uma ouvinte muito eclética, diria o mero observador.
    Não é nada difícil encontrá-la nos dias de hoje, em seu saudosismo incorrigível, a cantarolar os versos de “Ticket To Ride”, “I Started a Joke”, “Soley Soley” ou “Everything I Own”. Ou alguma música antiga do Roberto.
   Ela continua bem engajada nos movimentos de moda e adora pop art; fica feliz quando a família toda se veste no modelo hippie, ostentando o símbolo da paz, prontos a participar de festinhas de primos e sobrinhos. Eu acho que ela se inspirou bastante no figurino da capa de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band enquanto elaborava as fantasias de cada integrante. Durante anos ela se gabou por ter lido 3 vezes consecutivas o livro On The Road de Jack Kerouac e alguma coisa de Allen Gisberg – agora parou um pouco com literatura e prefere passar o tempo folheando Marie Claire ou revistas de moda e decoração.
    Há gente que acha Maria uma mãe exagerada por seus extremos cuidados com as filhas, e toda essa dedicação na manutenção do núcleo familiar inviolável. A própria família reclama, às vezes, com comentários disfarçados em conselhos. E ela diz: “Não sinto a menor vergonha do meu jeito de ser. Minhas filhas são minha vida e me orgulho da educação que dei a cada uma delas”.
    O relacionamento de Cristiana com a mãe na fase adulta resultou intenso e meio conturbado (para dizer o mínimo), baseado num passado duro e sofrido, e num presente de confrontos. Mas, com tudo isso, sempre houve alguma forma de manter as aparências em ordem para os de fora.
    Maria nasceu na Capital Paulista, porém, sua família é oriunda do norte da Itália – de alguma cidade que ela não sabe dizer ao certo. Alguns daqueles que desembarcaram por aqui, perto do começo do século 20, ou na sequência, logo se estabeleceram como pequenos comerciantes. Alguns outros se deslocaram para o interior do estado, na região de Piracicaba, em busca de viver do fruto da terra. Sempre foram em sua maioria um tipo de gente muito hospitaleira e solidária, que carregava consigo a tradição de receber bem e repartir o pão. Os que ficaram na capital paulista progrediram e logo compraram terrenos onde construíram casas de aluguel formando vilas inteiras - rapidamente se tornando donos de quarteirões em bairros bem valorizados atualmente. Maria casou-se aos vinte e poucos anos, abandonando, assim, alguns projetos em nome do Sagrado Matrimônio e foi mãe no ano seguinte. O casal nunca se separou de fato, mas tinham brigas homéricas que resultavam na ausência dele por uns tempos, com a desculpa da necessidade de viajar a trabalho ou visitar parentes em outra localidade. Depois de décadas de convivência já era tempo suficiente para que ela o conhecesse bem – desenhasse tin tin por tin tin do seu caráter. No começo, ela logo reparou que o jeito dele era fácil de compreender, pois se tratava de um homem dotado de inteligência medíocre, pouca cultura (em relação a ela) e gênio tremendamente instável. Quando ele se aborrecia ficava nervoso e em silêncio – se isolava. Agora, ao beirarem a terceira idade, a única preocupação da vida dele é casar as filhas – mas com quem seja bom caráter e possa oferecer conforto e estabilidade financeira. Seu consolo, saber das novidades de cada filha e discutir com Maria a escolha feita por elas – antes de elaborar críticas capciosas para sabotar o relacionamento, ou dizer à esposa em forma de lamento: “Você sabe que na idade que estou nada mais tenho a desejar que não seja o melhor para nossas filhas. Se eu pudesse viver para ver qualquer uma delas feliz e bem instalada, e todas as outras bem-casadas e também felizes, já poderia morrer por ter a missão cumprida!”.
     Cristiana, desde menina, por seu apego, sofria muito com a situação de instabilidade dele, e ao mesmo tempo não lhe agradava viver sob os olhos astutos da mãe – que, se não proibia, ao menos, avisava que talvez não fosse bom ir a tal lugar ou fazer tal coisa.
     Cristiana, diante das discussões intermináveis do casal que giravam em torno de dinheiro, bens materiais, compra de terreno e futuro das filhas, resolveu manter-se fora de casa maior parte do tempo. Mas, por sorte, não gastou o tempo à toa. Rapidamente aprendeu a lidar com comércio numa loja de roupas de moda infanto-juvenil – um projeto realizado por Maria para ocupar seu tempo longe dos afazeres domésticos e obrigações de esposa “Amélia”. Logo depois de terminar os estudos na faculdade, a moça resolveu largar a loja da mãe e foi trabalhar por conta própria num pequeno consultório, tendo ao seu lado uma amiga da mesma formação acadêmica – sonho que não vingou de acordo com a expectativa de todos – e dela mesma.

     - Largue o meu braço!
     - Espera um pouco, vamos conversar. Por que se levantou com tanta raiva?
     - Não quero conversar. Você está me machucando. Largue o meu braço! Vou chamar o segurança do shopping para dizer que você está me agredindo.
     - Não estou lhe agredindo e nem apertando o seu braço. Aliás, estou segurando no seu pulso. Vamos voltar à mesa e conversar? Venha...
     - Não quero. Me solta senão eu grito. Faço um escândalo aqui e vamos parar na delegacia.
     - Pare com isso. Você não enxerga o que está fazendo?
     - Puta que pariu! Vai pro inferno! Eu já disse que você é um idiota! Não quero conversar mais nada com você. Me solta!
    Ela puxou o braço com força e saiu andando o mais rápido que pôde até o corredor dos elevadores. E eu fui atrás.

Continua na próxima postagem...

8 comentários:

  1. Q surpresa boa, Renato! Mais um conto daqueles q prendem a gente e aguça a nossa curiosidade pra saber quais serão as cenas do próximo capítulo?
    Num momento em q não se fala de outra coisa q não seja Copa do Mundo (claro q minha torcida é pro Brasil!...), é mto bom ter um assunto diferente pra tratar e trocar idéias, principalmente pq suas estórias sempre trazem algo de bom pra gente refletir e levar pra vida!
    E q venha o próximo capítulo!!!
    BJSSS - Edneia

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  2. Família conturbada. Mesmo com personalidades diferentes permanecem no mesmo habitat. Incrível isso, mesmo adulta mora com os pais, sendo q não agrada a forma como agem. Sei lá, filhos q tem vergonha dos pais, é caso pra pensar ( conduta da moça).. Chamo de 'cuspir no prato q comeu'... Pois é, agora começa a real desse conto. Aguardo os próximos capítulos!

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  3. Show! Saber que você irá escrever novo conto aqui me animei, adoro. Mesmo final, pouco feliz, vejo que tem sensibilidade. Agora está envolvendo família, casal. Espero que nos surpreenda como sempre Renato. Fico aqui na curiosidade do irá se tratar, qual a mensagem desse conto! Adriana.

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  4. De volta mais um conto. Que vai com certeza prender minha atenção! Gosto desse tipo de literário, onde cada semana tenha novo episódio. Em falando do tema, forte! O que acarreta essa família, que desorganizou a vida e o psicológico dela! Cresceu em meio de tribulação, ordens, e pelo q vejo querendo fugir disso, mais propriamente querendo desagregar geral... Recomeço, será?
    Letícia.

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  5. Vaidade, até que ponto isso é benéfico ou prejuízo na vida de alguém, ou então, respingar quem está em volta? Pergunta que não quer calar! Dramático, será esse conto, cheios de rancor e resignação, pensar que a própria filha xinga e sente vergonha da mãe, é o cúmulo! Será que ela é o problema desse enredo?
    Você descreveu, onde acontece muito disso, famílias totalmente adversas e por esse ponto de partida onde acontece isso, ninguém entende ninguém!! União não existe nesse lar! Vamos ver se a protagonista, se comporta durante esse presságio... Parabéns excelente seu desempenho como escritor Renato!

    Rosana.. Bjkas!!

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  6. Olá Re.
    Bom saber que poderemos acompanhar mais um de seus contos, que sempre nos acrescentam alguma coisa..
    Pelo que deu a entender, teremos aqui um conflito familiar em questão, o que ocasionou uma discussão entre o casal, talvez pela falta de tolerância do Renato (pois é muito incômodo qdo vc tem necessidade de falar e o outro não tem paciência para ouvir)seja pelo temperamento estourado de Cristiana( Miss C?) o que também não é nada fácil de se lidar. Só aguardando o que virá por aí. Não demore caro autor, rs... rs.
    Bjos
    Sônia.

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  7. Patricia Ramos Sodero10 de julho de 2014 20:53

    Boa noite, Re.
    Gosto quando escreve contos.Acho uma maneira deliciosa de prender nossas atenções,ainda mais quando há muitos diálogos.Se tratando deste novo,algo misterioso se passa em minha mente.Será mais um conto do tipo Miss C,como já citaram?Está bem parecido,mediante ao começo da estória,que já mostra o tratamento dado pela moça protagonista para com sua mãe.E a indignação do Renato.O relato bíblico logo no início,mostra também respostas para o que possamos pensar no que acontecerá nos próximos capítulos.O jeito é aguardar.Espero que não esteja muito longe a próxima publicação.
    Meus parabéns....
    Bjs e até breve!

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  8. Isso é fato, homem gosta de ser maltratado é o que acontece com Renato. Amada espezinha e ele só corre atrás, tenta de todas as maneiras manter o 'diálogo' que na minha opinião tediosa. Sabe-se que ela tem um temperamento explosivo, introspectiva. Mas, a insistência desse rapaz é de dar nos nervos. Agora fica choramingando pelos cantos, revivendo esse relacionamento que pra ela já terminou a tempos, só ele que não se tocou ainda. Vá viver sua vida, tenha amor-próprio pelo amor de Deus! Muda o Tema, mas a história é a mesma. Espero que em 2016, sua criatividade esteja mais amplificada do que demonstra aqui seu autor.

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