terça-feira, 4 de março de 2014

Quem Será O Próximo?

    O dia estava começando a clarear quando cheguei lá fora. Caía também uma chuva medonha, mas até que me senti bem, apesar de tão cansado da noite mal dormida, devido ao clima de expectativa.
     Não tinha a mínima ideia para onde ir. Não queria me meter em outra encrenca como havia feito no passado recente, e que logo vocês saberão de toda a história.
      Finalmente, fui andando para o ponto de ônibus para depois tomar o metrô na Estação Santa Cruz, até o Terminal Tietê. Estava carregando as minhas malas e tudo que precisava dentro delas. Pensei em tirar um cochilo naquele salão de espera enorme, onde tem um milhão de bancos. E foi o que acabei fazendo. No começo até que não foi tão ruim, porque havia pouca gente por ali e pude pôr os pés em cima do banco. Mas não tenho muita vontade de falar sobre isso agora. Não foi nada agradável, garanto. A gente não devia nunca ter de fazer um troço desses quando foge de uma situação. No duro, é um bocado deprimente estar sozinho novamente e sem saber para onde ir.
Consegui dormir até umas nove e pouco, porque aí milhões de pessoas começaram a trafegar no saguão e logo tive que tirar os pés de cima do banco. Não sei por que, mas não consigo dormir direito com os pés no chão, e não tinha mesmo outro jeito senão ficar sentado com as pernas esticadas no meio da passagem e a cabeça jogada para trás para relaxar o corpo.
    Trazia comigo uma dor de cabeça desde pouco antes de partir, só que agora ela piorara mais ainda, acho que nunca me senti tão deprimido em toda a minha vida por ter que fugir assim sem mais nem menos.
    Bem que eu não queria, mas comecei a pensar no que foi feito e no que mais ela ia ter que dizer à mãe dela, quando a velha senhora dominadora soubesse do acontecido. Essa parte até que não me incomodava muito, porque eu sabia que ela era bastante inteligente para inventar alguma coisa para dizer à mãe. Podia até dizer que tinha ido à minha casa e não me achou lá para pedir explicações ou coisa parecida. Essa parte também não me preocupava muito. O que estava me atazanando era esse negócio de eu ter acordado e encontrado a solução dos problemas de uma só vez.
  Em determinado momento cheguei a pensar que podia ter sido um engano e que, afinal de contas, se a vida não estava sendo boa me dando algum carinho, também não iria me ignorar de vez. Talvez a vida só fosse feita mesmo para confundir a cabeça da gente, isso enquanto a gente dorme e acorda imaginando ter encontrado a solução para acalmá-la. Como é que se pode ter certeza de um troço desses? É impossível, não é mesmo?
   Olha... Comecei até a pensar se não devia abraçar as malas e voltar para a casa como se nada tivesse acontecido. Pensei que, mesmo sendo uma grandíssima filha da puta, a vida tinha sido um bocado boa comigo em algum momento dessa existência louca e não merecia o que fiz com ela. Pensei muito nisso tudo. E, quanto mais pensava, mais indeciso ficava. Comecei a achar que talvez eu devesse voltar para a casa e esquecer tudo para recomeçar do zero porque o erro estava em mim, nas minhas escolhas, e não nela.
     Possivelmente, a vida só estava sendo assim e fazendo o que fazia, à toa, sem maldade nenhuma, e na tentativa de me corrigir ou acalentar. Mas, quanto mais eu pensava naquela merda toda, mais irritado ia ficando. Para piorar tudo, o meu humor estava péssimo e os olhos estavam me incomodando um bocado. Pareciam vidrados, muito irritados, ardendo pela falta de sono. Além disso, eu estava começando a sentir o nariz escorrer e não tinha nem uma droga de lenço de pano no bolso – já ouvi tantas críticas por ainda usar lenço de pano. Dizem: “Isso é coisa de velho”!
     Eu sabia que tinha um na mala, mas não estava com a mínima vontade de procurá-lo revirando tudo ali, e bem na frente de todo mundo que passava.
    Alguém tinha deixado um jornal debaixo do banco ao meu lado, aproveitei e comecei a ler, achando que assim ia parar de pensar na vida e nesse um milhão de coisas que aconteceram num curto período, pelo menos durante algum tempo. Mas a porcaria da matéria que comecei a ler quase que me fez sentir pior do que já estava. Era sobre a saúde do homem e da mulher depois dos quarenta anos. Mostrava a aparência que a gente deve ter com a mudança dos hormônios – o rosto ficando estranho, os olhos lá no fundo e todo o resto muito diferente – comecei imaginar que eu estava todo ao contrário do que dizia ali. E se aquilo fosse tudo verdade eu estava funcionando errado. Por isso comecei a ficar preocupado com o meu estado de mutação e essa transformação sem controle e sem perdão; o mais cruel castigo de Deus.
    Aí segui o olhar para outro artigo. Era sobre a maneira pela qual a gente pode contrair doenças no ato sexual desprotegido. Dizia lá que, se a gente tem alguma ferida na região íntima que demora sarar, então isso é sinal que provavelmente está com uma doença grave. E eu já estava com aquele machucado na cabeça do pau havia mais de duas semanas. Por isso, logo imaginei que tinha contraído alguma coisa medonha que ficou encubada por anos. Resultado daquele lance estranho com a vadia maluca do Tucuruvi - que, pelas minhas contas, foi justamente no ano da copa do mundo de futebol da África do Sul.
    Caracas.... O tal jornalzinho era um bocado bom para levantar suspeitas na gente. Acabei parando de ler e saí para dar uma volta em busca de um café. Calculei que iria morrer dentro de alguns meses, já que estava com uma doença na cabeça do pau que não sarava de jeito nenhum, nem com pomada cicatrizante. Pensei mesmo e, garanto, estava certo de que ia morrer. Evidentemente, essa ideia não me deixou muito bem da cuca.
   O céu escureceu totalmente e estava com jeito de que ia chover mais ainda lá fora. Fui à busca de algum lugar que servisse lanche, talvez um Misto quente ou Bauru. Em parte porque achei que devia comer alguma coisa, mesmo estando muito chateado, ou porque o organismo exige quando o corpo começa demonstrar fraqueza.
     Não tinha a menor fome, mas achei que precisava pelo menos me alimentar um pouco com algo que tivesse sustância.
Quer dizer, pelo menos algum troço que tivesse vitaminas. Por isso comecei a andar na direção da praça de alimentação, enquanto, meio sem querer, batia braço e mala em quem passava pelo lado esquerdo. Cheguei num largo onde tem uma porção de restaurantes baratos, porque não estava a fim de gastar um dinheirão com comida que não mata a fome.
   Enquanto continuava andando, passei por dois sujeitos que estavam carregando uma baita caixa de papelão toda troncha . Um deles ficava só falando para o outro: "Segura esse caralho direito para não virar! Segura firme essa porra!" Certamente, era o tipo de maneira muito delicada daqueles dois ao se referir a uma enorme caixa de papelão. Mas até que achei engraçado, assim de um jeito um tanto infeliz e, mais ou menos, comecei a rir da situação. Foi a pior coisa que eu podia ter feito naquele momento, porque mal comecei a rir e logo engasguei, pensei que fosse vomitar. Que coisa chata! Cheguei mesmo a cuspir saliva, mas logo passou. Sei lá por quê. Afinal de contas, não tinha comido nada estragado ou coisa que o valha, e normalmente tenho um estômago um bocado forte e como de tudo um pouco. De qualquer forma, consegui me aguentar e imaginei que ia me sentir melhor se comesse logo alguma coisa. Entrei no restaurante mais vagabundo do Terminal Tietê e pedi café com bolo. Não havia mesmo jeito de engolir direito. O caso é que, quando a gente está muito triste, é difícil demais engolir qualquer coisa. Mas a balconista foi simpática: levou metade do bolo de volta e jogou na lixeira sem me cobrar nada por ele. Bebi o café. Aí saí e fui andando até o guichê onde vende passagens para o interior do estado.
    Ahhh... Esqueci de dizer que era uma quarta-feira, pertinho da semana Santa, e todas as plataformas estavam abarrotadas de gente maluca querendo sair de São Paulo. Por isso, até que não foi de todo mau me infiltrar no meio de toda aquela multidão, alguns eram retirantes voltando às origens e, outros, turistas querendo conhecer lugares diferentes.
     Fiquei mais ou menos procurando aquelas duas moças que eu tinha encontrado no desembarque do metrô, mas não as vi – (isso eu me esqueci de contar no começo). Sabia que não ia vê-las mesmo, porque elas haviam me dito que tinham vindo para São Paulo para serem acompanhantes e iam para o Rio de Janeiro onde tem mais gringos abonados, mas de qualquer maneira continuei a procurar por elas. Seja como for, de repente estava tudo um bocado tranqüilo no meio daquela confusão. Havia um milhão de crianças correndo e gritando pelos corredores entre os bancos de madeira, enquanto as mães iam subindo e descendo dos ônibus ou entrando e saindo das lojas de chocolates. Puxa vida... Pintou um ar de nostalgia. Queria tanto que ela estivesse aqui comigo, mas ela não me quer mais. Ela ficaria inteiramente alucinada naquela loja chique de chocolates. Hummm... Aquelas trufas de vários sabores. Ela gosta tanto de circular e olhar as pessoas para comentar seus trajes. Uma vez, perto do aniversário dela, no segundo trimestre do ano, levei-a para fazer compras na rua principal daquela estância turística que só tem uma rua de grande comércio. Naquele dia nos divertimos pra chuchu enquanto procurávamos um restaurante self-service a preço convidativo. Tiramos tantas fotos, fazendo poses nas portas das lojas que vendem doces em potes, que até cansamos.
    Bem... Ainda lembrando um pouco de tudo isso, continuei andando toda a vida em busca do mesmo banco que sentara antes. Aí, de repente, começou a acontecer um negócio muito estranho. Cada vez que eu chegava ao fim de um corredor de bancos de madeira, tinha a sensação de que nunca chegaria ao próximo segmento de bancos.
     Pensava que ia acabar parando, parando, parando, e nunca mais ninguém ia conseguir me mover do lugar. Puxa, fiquei apavorado pra caramba. Ninguém imagina o medão que me deu em pensar que viraria uma estátua no meio do corredor central do Terminal Tietê. Eu seria o mais novo ponto turístico do local e sujeito à visitação a qualquer hora do dia ou da noite.   
      Comecei a suar tanto a ponto de molhar toda a camisa, a roupa de baixo, tudo.
Aí comecei a imaginar outro troço: cada vez que chegava ao fim do corredor daqueles assentos, fazia de conta que estava falando com ela, com a vida. Dizia pra ela: "Olha, por favor, não me deixa ficar assim. Não me deixe virar estátua, eu peço." Aí então, quando finalmente passava pela próxima fileira sem nada ter acontecido, eu a agradecia em pensamento. Logo que chegava a fileira seguinte, começava tudo de novo. Mas continuei andando assim mesmo. Acho que estava meio atormentado e com medo de parar - nem sei direito o que sentia, para dizer a verdade. Sei que só fui parar quando já estava lá pela altura da décima fileira, pra lá do Jardim suspenso. Aí, sentei num banco e me soltei. Quase que nem conseguia respirar e ainda estava suando como se estivesse numa academia de ginástica. Acho que fiquei sentado mais ou menos uma hora. Finalmente, decidi ir embora de vez. Resolvi que não voltaria para casa nunca mais, e nunca mais iria me arrepender por qualquer coisa em relação ao que já fiz. 
       Decidi que ia só encontrar com o meu amor, para me despedir, e aproveitar para devolver o ventilador que ela me deu no dia do meu aniversário. Aí começaria novamente a viajar para o interior do Estado de busão, e quando o dinheiro acabasse pegaria carona. Assim, em poucos dias já estaria lá pelo nordeste, sul ou quem sabe em alguma fazenda do Mato Grosso. Pararia num lugar muito bonito e ensolarado, onde ninguém me conhecesse e arranjaria um emprego simples. Calculo que posso achar trabalho num posto de gasolina em qualquer canto, pôr gasolina e óleo no carro dos outros é fácil. Mas não me importa que tipo de emprego possa ser desde que ninguém me conhecesse e eu não conhecesse ninguém. Aí, bolei o que devia fazer: ia fingir que era surdo-mudo. Desse modo, não precisava ter nenhuma conversa imbecil e inútil com ninguém. Se alguém quisesse me dizer alguma coisa, teria de escrever o troço num pedaço de papel e me entregar. Depois de algum tempo iam ficar um bocado exaustos de ter que fazer tudo isso, e aí eu nunca mais precisaria conversar pelo resto da minha vida. Todo mundo ia pensar que eu era só um infeliz de um coitado surdo-mudo, e iam me deixar em paz sozinho. O mais importante é que me deixassem botar gasolina e óleo na droga dos carros deles, e me pagassem um salário para fazer isso. Com o dinheiro que fosse ganho, construiria uma casinha de dois cômodos em algum lugar e viveria lá o resto da vida. Ia fazer a casinha bem pertinho de uma cachoeira, mas não tão longe da cidade, porque ia fazer questão de poder ir e vir ao centro o tempo todo para comprar mantimentos. Cozinharia minha própria comida e mais tarde, se quisesse casar ou coisa parecida, ia encontrar uma mulher bonita, também surda-muda, e nos casaríamos. Ela viria viver comigo na casinha e, se quisesse me dizer qualquer coisa, teria de escrever numa porcaria de pedaço de papel, como todo mundo que é assim faz. Se tivéssemos filhos, iam ficar escondidos em algum canto para não serem vítimas de bullying na escola. Podíamos comprar uma porção de livros para eles e nós mesmos íamos ensiná-los a ler e escrever.
    Agora fiquei excitado pra burro pensando na cena toda. No duro. Sei que essa parte de bancar o surdo-mudo é amalucada, mas de qualquer maneira gosto de pensar assim porque durante o tempo todo o meu amor foi surda-muda comigo. Por isso resolvi de fato ir embora para qualquer lugar. A única coisa que eu queria fazer antes da partida era me despedir direito. Por isso, ontem, de repente, me vi correndo como um doido sem rumo - pra dizer a verdade, e por um triz não morri atropelado - entrei num restaurante e conectei o celular na internet. Resolvi que ia mandar um e-mail, marcando um encontro para que eu pudesse lhe dizer adeus e devolver o ventilador. Mas acabei desistindo - estava nervoso demais para escrever um e-mail pedindo encontro para hoje.
      Agora tenho que andar rápido, comprar a passagem e ir embora, o meu tempo está se esgotando.
      Naturalmente, sempre saberei onde ela mora, porque fui lá tantas vezes que perdi a conta – apesar de que, sempre muito distraído, acabava passando reto pela entrada da rua, e depois tinha que voltar de ré para embicar o carro no rumo certo.
Quando penso nessas coisas acho engraçado. Não tenho certeza se me lembraria de como era a sua casa, quando a vi pela primeira vez uns dois anos antes da copa do mundo de futebol, ou de como ficou a sua cara depois de anos.
Eu me pergunto: “Será que tudo continuará exatamente como foi no meu tempo?”.  O problema é que não consigo imaginar a sala ou a frente da casa dela para descrever aqui, digo, tal como era no meu tempo, como era ontem ou anteontem. De qualquer maneira, já não sou lá muito chegado a esse negócio de descrever a casa de ex surda-muda. Então resolvi escrever sobre ela, sobre essa fuga, esses artigos no jornal, os meus medos e as alucinações no corredor. Tudo isso é também um assunto um bocado descritivo, eu sei bem disso, não me chame de incoerente de novo, por favor, eu não sou assim. Posso acrescentar nessa descrição que ela é canhota, e por isso sempre busca apoiar a mão esquerda para a escrita. Mas, o que há de mais descritivo nela é que tem escondido uma porção de poemas escritos há anos com essa mão esquerda. Ela copiava alguns poemas de Shakespeare e guardava. Outras vezes botava partes em seu perfil da Internet.
      Ela agora está morta para mim e eu para ela. Ela morreu assim. Fomos vítimas das circunstâncias. É como alguém que teve leucemia e morreu aos poucos aqui dentro e lá dentro dela mais ainda.
   Um belo dia, quando nós estávamos naquela cidade de ar bucólico, naquela data especial de 30 de Abril, qualquer um teria gostado dela. Todo mundo demonstraria afeto, sorrisos e joviais cumprimentos. Ela, naquele momento, se mostrava cinqüenta vezes mais inteligente que eu ou qualquer um. Imagino que os professores da infância escreviam cartas para mãe dizendo-se orgulhosos e de como era um grande prazer ter aquela menina na turma. E eu posso garantir, não seria uma simples conversa mole, seria mesmo pra valer se tivesse acontecido. O caso é que ela não era só a mais inteligente da família. Era também a melhor de todos, em muitos sentidos. Nunca ficava aborrecida por muito tempo com ninguém, era sempre uma mágoa passageira que durava em média duas ou três semanas ou quem sabe um mês. Depois voltava ao normal. Dizem que as pessoas de cabelo vermelho estão sempre se irritando com a maior facilidade, mas ela nunca brigava aos berros, e, olha, ela tinha o cabelo um bocado vermelho. Para mostrar como o cabelo dela era vermelho, eu me lembro que uma vez, assim sem mais nem menos, tive a impressão que se eu me virasse de repente veria a cor do céu num lindo pôr do sol. Olhei para trás e, batata, lá estava ela me olhando com o pôr do sol às costas. Isso mostra como o cabelo dela era vermelho e se confundia com as cores da natureza.
     Mas, eu juro, ela tentou ser mesmo uma menina boa. Às vezes, na mesa de jantar, lembrava de um troço qualquer e ria tanto que quase caía da cadeira. Mas, hoje, realmente acho que tenho razão de fazer o que faço. Reconheço que no passado talvez tenha sido o tipo de coisa estúpida de se fazer, mas se nem sei direito o que estou fazendo agora, quem dirá no passado. 
      Olha... Vocês não conhecem essa vida como eu conheço - mas, fora isso, já nem me importo muito se acreditam nessa história. De qualquer jeito, sei que não teria mesmo a oportunidade de ser um cirurgião ou um artista famoso ou, quem sabe, um tipo medíocre qualquer, nem droga nenhuma que valesse a pena arriscar comigo. Por isso, falo assim, pois, muitas vezes na vida, não há outra solução que não seja escrever os próprios enganos. Ou desejar que tudo seja melhor que antes numa viagem que, novamente, nunca se sabe onde terminará e nem por onde começou.
       O final você imagina qual será não é mesmo? O meu final. O final de quem se arriscou comigo. O final dos incautos.
        Há praticamente dois dias o meu amor veio até mim e chorou. O resultado do exame na mão. A crise e o ódio nos olhos me comoveram. Baixou a droga do papel e olhou para mim como se eu fosse um verme. Acho que nunca poderá me perdoar... Leu em voz alta o diagnóstico. Vou dizer... Foi muito triste.... Eu não teria lido assim para ela, se fosse ela quem tivesse me trazido aquilo.
        Agora estou partindo. O que faria você no meu lugar ao sentir vergonha de si mesmo?
       Tenho apenas mais alguns minutos até o último chamado pelo alto-falante.
       Ainda estou de pé e não virei estátua. Não tenho para onde ir que não seja para dentro de mim mesmo. Peguei as malas, botei o boné e segui decidido, a pé, pela Marginal Tietê, debaixo da chuva que purifica todos pecados, em busca de qualquer rumo onde as pernas aguentem me levar.
      Well... Isso é tudo que tenho para contar. Podia contar outras coisas. Como por exemplo, o que fiz quando voltei para casa, ou como fiquei doente e etc e tal  - mas não tenho a mínima vontade de fazer isso agora. No duro mesmo, e espero que entendam por que sou assim. Esse negócio todo não me interessa mais. Perdi a vontade de qualquer coisa, perdi o meu amor.
    Tem uma porção de gente, principalmente um médico que conheço, que vive me perguntando se eu vou me esforçar. Na minha opinião, é um tipo de pergunta imbecil.
Quer dizer, como é que a gente pode saber o que vai fazer, até a hora em que faz o troço? A resposta é: não sei! Acho que vou, mas como é que eu posso saber? Juro que é uma pergunta cretina.
    Esse médico não é dos piores, mas fica me fazendo um monte de perguntas chatas e repetitivas. Para ser bem franco a todos vocês, não sei o que eu acho disso tudo. Tenho pena de mim por ter contado esse negócio para tanta gente. Só sei que sinto uma espécie de saudade da vida porque ela foi boa em algum momento. É engraçado. A gente nunca devia contar certas coisas para as pessoas. Mal acaba de contar e a gente já começa a sentir saudade de tudo, até de quem virou as costas e foi embora, ou pior, sem se despedir direito da gente. E para saber que é assim só estando muito vivo para poder sentir ou fingir que nada aconteceu. Ou quem sabe, imaginar quem será o próximo a passar por isso.


7 comentários:

  1. Com certeza tirei o dia certo para ler seu texto, obvio que em alguma parte eu iria me identificar com algum trecho (ainda bem que não foi na parte da doença...rs).
    Falo da parte em que você comenta que pararia em algum lugar bonito, ensolarado e principalmente aonde ninguém o conhecesse. É exatamente assim que me sinto hoje, queria muito, mas muito mesmo ir para um lugar bem distante, aonde eu não conhecesse ninguém e ninguém me conhecesse, pelo menos por alguns dias eu me isolaria de tudo e de todos, mas só por alguns dias, não conseguiria viver por muito tempo assim, sou agitada demais pra isso, rs... Não me fingiria de surda muda não, pelo contrário, iria querer conhecer muitas pessoas do local sua cultura, seus hábitos, acrescentar coisas novas a minha vida, viver novas experiências, num lugar totalmente diferente da minha realidade , ao contrário do autor que queria uma parceira surda muda ao seu lado,hilário isso , melhor ficar sozinho mesmo, rs.
    Mas enfim, não dá pra fechar a porta atrás de si, e deixar tudo para trás, família, trabalho, responsabilidades, principalmente quando se tem filhos, então o que nos resta é ir tocando a vida, com todos os seus pesares e conflitos e tentar supera-los por mais difíceis que sejam, mas principalmente em meio a tudo isso jamais deixar de acreditar que podemos ser felizes, aqui mesmo sem ter fugir para lugar algum.
    Beijos Renato .

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  2. Patricia Ramos Sodero7 de março de 2014 23:10

    Um homem em fuga da sua própria vida,da sua própria estória.De uma certa forma,por não aceitar sua doença e principalmente,o fato de se sentir culpado devido ao grande amor de sua vida estar passando pelo mesmo.Ao invés de se ajudarem,conversarem e passarem por tratamentos necessários juntos,isso não ocorre.Preferem se fazer de “surdos-mudos”.Acredito que em situações dessa espécie,o que deve prevalecer é a amizade e o diálogo constante.Por ter medo do que poderiam pensar,da maneira como agiriam,nosso protagonista prefere seguir com sua decisão de sair pelo mundo,sem rumo.O medo é o pior dos sentimentos que podemos ter.Ele nos impede de conquistas e vitórias.E nos leva a solidão.Portanto,meu caro Autor,muito bom esse texto que nos faz pensar e refletir de como devemos agir com o próximo em certas situações constrangedoras.Meus parabéns e peço para que você,Renato,não fique tanto tempo sem nos dar o prazer da leitura de seus textos.Bjs e até o próximo.

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  3. Seu texto me fez lembrar de uma pergunta mto conhecida e mto usada naquelas situações q fogem ao cotidiano normal das pessoas: "Quem nunca?"
    E seu txt trata exatamente de uma situação daquelas em q a única e ilusória solução parece ser fugir de td e de tds!
    Mtas vezes a vida realmente nos coloca em situações q parecem não ter solução a não ser "desaparecer do mapa" . E a gente adora colocar a culpa na vida, nas pessoas ao nosso redor, no emprego, no governo e até msm em Deus, não é msm? Isto acontece pq lá no fundo não queremos e resistimos em admitir q a gde culpa é nossa... É o resultado das nossas próprias escolhas! E disto não temos cm fugir!!!
    Qtas e qtas vezes, qdo surge algum problema no trabalho, ou qdo estamos nos últimos anos do curso de graduação, ou qdo temos o maior "quebra pau" c/ o namorado/marido, ou ainda qdo estamos c/ aquela sensação underground c/ a vida..., e dá aquela vontade de jogar td pro alto (e q se dane o mundo!)! Nossa, acho q já perdi as contas! Afinal, quem nunca?
    E no decorrer da vida a gente aprende q tentar fugir não vai resolver, pq tds aqueles problemas q estão nos afligindo, sorrateiramente, estarão dentro da nossa bagagem aonde quer q a gente vá...
    Nosso protagonista fez o q realmente ajuda a solucionar os problemas q aparecerão por tds os caminhos q percorreremos: "Não tenho para onde ir que não seja para dentro de mim mesmo."
    E por pior q sejam os problemas, p/ não virar estátua, o melhor caminho é p/ dentro de si msm!!!
    BJSSS - Edneia

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  4. As vezes a gente coloca a culpa de td, na vida, e a pobre coitada não tem nada a ver c/isso! Somos nós,nossas escolhas,nossas atitudes,nossa forma errada de ler os sinais que ela insiste em nos enviar,mas q teimamos em não enxergar,em não ouvir,em não atender ao q ela realmente quer de nós. Aí ficamos perdidos,desorientados,alucinados,apavorados,loucos mesmo,sem saber qual rumor tomar. Mas aí já é tarde,não temos como voltar e consertar todos os erros cometidos,ou quem sabe até, nem cometê-los...
    Dá um estado de torpor tão grande,a gente chega a nem sentir o próprio corpo e tem uma vontade imensa de sair de dentro de si mesmo e fugir p/bem longe,onde ninguém possa nos alcançar e nos cobrar explicações do pq de td o q foi feito.
    Somos todos surdos/mudos na relação c/o outro,só escutamos nossas próprias vozes e desejos, e c/isso acabamos magoando e sendo magoados,sofrendo e fazendo sofrer,sem nem se quer nos darmos conta disso,a não ser qdo é tarde demais e não se tem mais o q fazer p/acertar as coisas.
    A vida cobra caro e nós em algum momento teremos q fazer o pagto, o mal feito será retornado àquele q o fez e não tem como se esconder ou fugir dessa situação q nós mesmos criamos. A conta nos será apresentada e cobrada sem dó nem piedade,aí será tarde demais p/arrependimentos.
    Voltou c/td heim Renato?! Ótimo texto! Parabéns!

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  5. Já pensou se todos pensassem assim, fugindo q se resolve! O mundo seria um caos, não comportaria todos num local isolado e tranquilo, srrrr. Desculpe aqui a brincadeira meio q sarcástica, mas ficar adiando o problema só irá agravar a situação em si. Seja qual for o resultado devemos enfrentarmos, não é fácil, sei disso. Mas, encontrará um meio de solucionar a situação.. Só pessoas fracas é q fogem, temos q discernirmos a exatidão dos fatos.. Sem preâmbulos daí será um certo alívio, dando positivo ou não, o jeito é tentar solucionar. Estamos de passagem por esse mundo, cada qual veio predestinado a cumprir sua missão, não tem como fugir do destino, q Deus nos reservou aqui.. Estou cumprindo a minha agora,nesse exato momento da minha vida, posso lhe dizer, q estou muito feliz. Nada é por acaso.. e vou adiante.

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  6. Situação complicada essa desse personagem, descobre q está doente e tenta escapulir, sem ao mesmo tentar, fraco posso assim dizer. Inevitavelmente uma hora vai ter q encarar a situação de frente.
    Gostaria de saber, qual é o fundamento disso, em q grau e estágio está esse homem, para se afugentar de todos, indo sem rumo na vida. Se fosse tão fácil assim, seria ótimo, né. Sinto pena desse tipo de atitude, sem coragem pra vida. Agindo assim é sem personalidade nenhuma.. Mas, se é um modo de coagir vai lá, e veja qual será o resultado final disso tudo!

    Mônica

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  7. Diante de tantos problemas q surgem na vida, muitos preferem fugir do que enfrentar de frente. Nada peculiar desse personagem psicodélico, kkkkkkkkkkkkk... Também não são todos que tem coragem, até normal atitude dele covarde aqui. Mas, sendo um estória, muitos fazem esse enredo que está contando seu autor, e diga-se de passagem é mórbido demais.
    Conversando com um amigo pessoal me disse que se pudesse, nasceria de novo, pra mudar o que fez no passado! É cada coisa que escuto, aconselhei a se tratar com psicanalista, quem sabe se conforma do que aconteceu, e comece a viver adiante, sem olhar para atrás!

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