quinta-feira, 13 de março de 2014

A Artesã

  Ela sempre foi muito silenciosa, bastante tímida para o meu gosto, mas, no entanto, jamais fez objeção às expressões da arte como fazem muitas pessoas da sua idade – quase quarenta. Ela me contou que aos treze ou quatorze anos se inscreveu sozinha num curso de teatro, enquanto sua mãe ficava indo e vindo às consultas médicas do plano de saúde, tipo elite, pago pelo marido que viajava muito e telefonava todos os dias pela manhã.
     Well... Nunca cheguei saber de verdade se sua mãe era só uma hipocondríaca de carteirinha ou se realmente sofria alguma doença que precisasse acompanhamento. A verdade é que, as poucas vezes que consegui algum contato com ela, o diálogo que conseguíamos estabelecer era curto, cordial e objetivo, dirigido nas coisas do dia a dia de uma mãe, esposa e dona de casa muito aplicada. Nunca soube de verdade se os seus pensamentos percorriam os obscuros meandros da doença, da dor, de toda e qualquer impossibilidade de felicidade ou do fim iminente. Depressiva, talvez eu possa afirmar que ela era – e isso influenciava os demais membros da família. Algumas vezes surgia “pela metade”, na janela da sala, dando tchauzinho para a filha, antes que ela fosse embora comigo mundo afora.
     Nas poucas vezes que pudemos realmente conversar sobre a vida, essa mãe procurava ocupar a maior parte do seu tempo com os afazeres culinários e a partir daí desenvolver uma conversa informal onde todos se sentissem à vontade – ou então contava com orgulho dos velhos tempos que estudou música e tocava acordeom nas noites animadas – sanfona, como ela chamava jocosamente. Lembro-me que em certa data fez um suculento frango ao molho pardo e preferiu não enfeitar muito toda a travessa à sua volta. Não falou nada ao trazer tudo para a mesa, muito menos depois de todos terem se empanturrado com a saborosa refeição – apenas sorria nos seus leves passos de ir e vir. Percebi que ela experimentava algum “contato” de aprovação, expressando-se essencialmente por intermédio da arte culinária ou da música.
     Ao contrário da mãe, a filha artesã cultivava a riqueza da sua imaginação através de técnicas e propostas mais abrangentes do mundo da arte em seu conceito mais intrínseco, incluindo obviamente a culinária, artes plásticas, artesanato e outras expressões criativas surpreendentes.
     Observei que era através dos fortes discursos sobre a tragédia de ser o que era, ou do próprio fim, que a mãe se fazia representar muito fortemente para essa filha, mas ao mesmo tempo sem saber, que estava oferecendo uma infinidade de argumentos para a produção artística e desenvolvimento intelectual do seu rebento. A representação de morte talvez houvesse se tornado a mais forte linguagem de arte e o mais interessante elo de comunicação entre filha e mãe.
     Alguns de seus trabalhos artesanais, expostos para visitação em ateliê próprio ou divulgados na internet, apresentavam de forma intensamente descritiva o tema da morte através de caveiras, túmulos, cemitérios, figuras bizarras tiradas dos roteiros de Tim Burton ou Edgar Alan Poe ou da comemoração do dia das bruxas. Às vezes usava outros temas que agiam em relação direta, e não apenas simbólica, com essa fixação pela morbidez ou a morte como fim para a produção. Havia na verdade, em seu interior cheio de emoções inconstantes, uma forte relação com o começo e fim de algo que poderia vir a acontecer, caso ela conseguisse ter um contato pleno e satisfatório com a mãe. Percebia-se em sua arte a presença deste desejo, e da impossibilidade deste contato, posso dizer, em praticamente todas as suas produções.
     A leveza de detalhes que estava contida nos trabalhos desta exímia artesã era em grande parte reforçada por seu estilo muito pessoal. Ela utilizou em sua arte de transformar as coisas, vários recursos técnicos que no fundo representavam a distância que constantemente inviabilizava o contato com a sua mãe.
     Suas pinturas, cortes e dobras no metal, ou pequenas pedras incrustadas numa pulseira, brinco ou anel, davam a noção exata de como era cuidadosamente tratado o seu manuseio – a sua alma estava presente ali. No entanto, em algumas peças, conseguia-se observar que a superfície não estava totalmente coberta por tinta ou outro material protetor e decorativo, parecia que essa era a intenção para deixar vestígios.
     É comum vermos alguns artesãos cobrirem inteiramente suas peças com tinta ou esmalte em tons que carregam a intenção destrutiva da emoção, porém, no caso dela era diferente. Não havia um jeito agressivo que me fizesse pensar nessa possibilidade. Ela apenas “enterrava” os seus medos em suas obras com o auxílio de algum material escolhido por ela, possivelmente, que cobriria, mas não esconderia suas aflições.
     É sempre muito interessante observar a forma como algumas pessoas dedicadas à arte, estabelecem contato com mundo exterior. E eu, como privilegiado expectador, e participante de algumas destas cenas e conversas, acredito ter sido bastante interessante o jeito da ampliação deste vocabulário criativo nestas pessoas, e, em especial, nesta artesã.
     Portanto, nem sempre se torna tão importante assim conhecer ou reconhecer a linguagem simbólica e as motivações adotadas por um artista, até porque, para se interagir com a produção deste artista não é necessária a tradução prévia dos códigos que deram origem àquele fruto, que talvez, nem tenha sido criado para ser motivo de alguma significação.
     Diante do meu ponto de vista, todo comportamento que busca a tradução do objeto artístico por um olhar mais crítico, - seja na escrita, na pintura, na música, no artesanato – quando feito por uma obrigação de rotina, pode ser altamente restritivo ao artista. Ele, assim, passará a acreditar em seu dom se for compreendido por outros e não por sua própria criatividade. No caso do admirador, aquele que reduz a observação ao desenvolvimento cognitivo, enquanto tenta decodificar uma linguagem que se faz representar por si só - e na maioria das vezes não tolera decodificação – acaba caindo no desinteresse de acompanhar outras novidades deste mesmo artista por não ter entendido o seu modo de expressão.
       Observar o fruto de um trabalho apenas com critérios cognitivos é danoso, pois reduz o prazer e desconsidera tudo que poderia ser oferecido pela contemplação simples e livre de compromisso ou rótulos.
      Voltando ao caso da artesã: a insistência em seus trabalhos de determinados símbolos que representavam a morte, resultou numa forma muito criativa e natural a uma parte da sua linguagem simbólica, através de toda sua criação – motivo do grau de envolvimento que estabeleceu com sua rotina de vida familiar. O contato com o simbólico foi potencializado. Sua liberdade criativa permitiu a ela representar maneiras diferentes e multiplicadas de expressar o seu dom. Durante esse processo, de alguns anos, aprendeu novas propostas capazes de melhorar a atuação no domínio da arte de fazer manualmente. Faço um paralelo com o uso de sinônimos reforçando a linguagem num texto simples, e com isso, trazendo consigo diferenças e particularidades.
      O que está bem claro é que não foram exclusivamente os “sinônimos” que preencheram o seu universo criativo. Foi algo além de todas as similaridades, foram todas as diferenças que ajudaram a desenvolver sua habilidade. Em muitos casos é justamente partindo da utilização de contrários que chegamos a desenvolver o processo de criação.
      Os opostos têm realmente enorme importância na vida e na arte, por que são, muitas vezes, não apenas complementares, mas também por incentivarem o diálogo possibilitando a reflexão. Creio sermos fortemente atraídos por tudo que nos opõe, e, provavelmente, aprendemos que sempre iremos encontrar enormes possibilidades de desenvolvimento e prazer nas diferenças; e, certamente, por isso sempre criamos a tendência de ir ao seu encontro.
      Aprendi com a vida que há uma riqueza no vasto espaço criado entre os opostos de qualquer natureza, seja de ordem emocional, comportamental, física, estética, ideológica, racial, social, afetiva, cultural...
      No âmbito afetivo, por exemplo, a rejeição parece ganhar maior importância com a falta de acolhimento.
      Alguns dos valores citados podem ser facilmente estabelecidos num ambiente onde existe uma espécie de contraste pela falta deles. A sensação de felicidade só pode ser realmente medida com alguma experiência dolorosa anterior. Na insegurança busca-se onde se sustentar... Enfim, acabamos motivados pela busca dos opostos e de tudo que nos opõe. Em muitos casos, creio que essa árdua batalha nada mais é que a busca da realização dos desejos, mas, na realidade, desejos são, de modo geral, colocados por nós mesmos em algum lugar inalcançável, ou se constroem todo o tempo a partir de utopias ou devaneios.
      Voltando ao caso da exímia artesã, protagonista insubstituível desta história: observando detalhadamente o seu trabalho, percebi em sua arte o poder dos contrários se desenvolvendo em suas próprias utopias e devaneios, talvez por isso houvesse em algum momento uma falta de encaixe entre algumas formas e tons diferentes numa mesma peça. Porém, ao mesmo tempo, em que procurava paradoxalmente “unir ou encobrir”, permaneciam as lacunas pela natural expressão do seu estado de espírito. Era o que posso chamar de sua exclusiva “dinâmica artística”.
     Observando tudo a nossa volta constatamos que não existe estética sem conflito, porque é dessa energia que surgem novas ideias e construções inspiradoras.
      Vejo nessa hipótese o meu próprio exemplo quando do processo criativo emocionalmente sofrido, gerado, naturalmente, de conflitos que consumiram grande fonte de energia promovendo a criatividade.
       O escritor usa letras e palavras como recurso de linguagem de forma tão importante quanto pode ser o metal, o alicate e toda a matéria prima do artesão; ou a tinta, a tela e o pincel do pintor.
        A linguagem artística em todas as formas sempre será construída por descobertas que ocorrem durante a sua prática. E quando existe o chamado estereótipo causado pela repetição de temas numa rotina de produção, é sempre bem-vinda a sua desconstrução. Pois ela promoverá novos olhares e incursões em temas anteriormente pouco observados.
         Well... Nunca estive com a exímia artesã em qualquer feira exclusivamente voltada ao artesanato, muito menos em exposições fechadas ou ateliês. No entanto, tive o privilégio de aprender através do seu contato e observação como se cria a liberdade de expressão, e mais, todas as possibilidades com maneiras diferentes e multiplicadas desta expressão através de artes diferentes, – no meu caso, fazendo um paralelo com a escrita.
         Foi uma grande oportunidade tê-la como a minha arte-educadora, desenvolvendo no meu intelecto novas propostas baseadas em recursos oriundos do nosso contato pessoal, que foi bem além do limite aluno / arte-educadora. O que se transformou num grande passo de evolução, já que na vida, assim como na arte, o número de exceções disponíveis, e dadas como exemplos, talvez sejam bem maiores que regras de comportamento estabelecidas.
       Para finalizar e ilustrar melhor a história da exímia artesã e eu, junto ao tema o que chamamos de objetivo e subjetivo. São desses contrários que tiramos a lição fundamental do que poderia ser indissociável, ou não. A sensibilidade e interdependência que ambos estabelecem entre si, ora dividindo ou ora conquistando todo e qualquer valor que a eles é agregado, podem demonstrar todo o tempo contrariedade. Assim se alimentam e mantêm suas existências, no que podemos chamar aqui de verdadeiro paradoxo. Não há “culpado” ou “inocente” que se possa nomear, ou dois mundos independentes para distingui-los. Nós é que temos a mania de sempre rotular o que é certo ou errado. Na realidade acredito que possa haver um profundo e muito saudável contato entre eles. E isso nada mais é que a relação que por algum momento aproxima e liga opostos e depois os afasta sem muita explicação.

     A exímia artesã seguiu o seu caminho e não é mais artesã, nem arte-educadora. Fez da sua vida artística uma desconstrução. O seu ateliê talvez crie mofo. Levou consigo todo o seu material e conhecimento. Saiu em busca de novas oportunidades em outras áreas. Fez da própria vida o que sempre fez na arte: transformação. Novamente encerrou-se um ciclo e começou outro. E ela provavelmente estará dizendo a si mesma: “Finalmente! Este será o meu melhor trabalho”! 

4 comentários:

  1. Patricia Ramos Sodero16 de março de 2014 00:37

    Conheço diversos casos onde pessoas que possuem o “dom” da arte,de uma forma geral,expõem seus sentimentos em suas obras, por não saberem se expressar em palavras.Muitas vezes as pessoas nem pensam em seguir esse caminho e guardam suas obras para si,como uma fuga que têm,conforme seus conflitos,sua estória.E acabam deixando, às vezes, fugir muitas chances de sucesso,no oculto.No caso de nossos protagonistas,a artesã deixa bem claro que usa seus metais,contorcendo-os,na verdade para esquecer tudo o que se passa com sua mãe.Será que é uma pessoa com problemas de saúde mesmo,ou necessita da presença constante de um médico em sua vida?Difícil,não é mesmo?Já nosso escritor,aproveita de todas as oportunidades que tem,para aprender mais com a artesã,e aplicar sim em suas criações.Ele gosta do que faz.E procura crescer junto com outras experiências.Nossa protagonista poderia ser um pouco gentil e reconhecer,tal qual o escritor,que sua mãe possui outros “dons”,além de só ficar na lástima de médicos.Pelo que percebi,o pouco que o escritor conviveu junto dela,soube observar e elogiar cada uma das estórias que lhe eram passadas por sua mãe,inclusive sua culinária.Bom,no final de tudo isso,a conclusão é simples:acho que a artesã não era feliz com o escritor,nem com sua mãe,nem tão pouco com o que fazia.Então tomou sua melhor decisão:seguiu seu caminho,em busca de seus horizontes e certezas,e deixou para trás,toda uma estória que serviu de lição para muitos.Gostei muito da mensagem passada neste texto.Não devemos deixar nossas emoções nos envolver muito com o lado profissional.Vamos usá-las também para o lado da diversão!Obrigada,Renato,pela grande leitura que nos ofereceu.Parabéns!Até o próximo texto....Bjs....

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  2. Sempre vi a arte cm expressão de paradoxos. E o bom disto é q, seja por influências positivas ou pelos mais avançados estágios da depressão humana, o resultado é algo surpreendente q nos leva a uma viagem infinita, p/ dentro ou fora de nós msms, dependendo das nossas emoções do momento...
    E, mtas vezes, isto acontece quase sem querer, cm no caso da mãe q transmite suas emoções na arte de cozinhar, adotando um jeito mto peculiar de comunicar-se e demonstrar seus sentimentos. O contrário tbém é verdadeiro qdo mtos se utilizam das artes p/ formar opiniões e influenciar multidões de acordo c/ seus interesses sociais, políticos, econômicos, etc...
    Outras vezes, nem há intenção do artista em colocar algum significado em sua obra mas, msm sem querer, ele acaba estimulando a imaginação de seus admiradores criando a possibilidd p/ cd um admirá-lo c/ um olhar próprio, cd um c/ sua peculiaridd! Imagino q esta resposta seja uma grata recompensa ao artista ou talvez o passaporte p/ sua própria derrota (daí o paradoxo nas artes em tds os sentidos).
    Cm vc msm disse, Renato, temos a mania de sempre rotular o q é certo ou errado e, na verdade, isto pode ser mto variável dependendo do ponto de vista de quem analisa. A verdd de um pode não ser a msm do outro pois a história pessoal de cd um possui capítulos e personagens diferentes...
    Nossa protagonista transmite na arte a essência de sua vida familiar conflitante, cm um desejo de exteriorização de sentimentos e evolução pessoal, sem querer nomear um culpado ou inocente. Nesta autoterapia, ela consegue harmonizar suas emoções desconstruindo e novamente reconstruindo-as, fazendo a transformação necessária p/ o início de um novo ciclo em sua vida.
    Quero finalizar este comentário, Renato, te parabenizando por esta verdadeira obra de arte q revela, subjetivamente, q o verdadeiro artesão aki é vc! Parabéns e obrigada pela deliciosa oportunidd de apreciar uma obra cm esta!
    BJSSS - Edneia

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  3. Legal saber que todos tem seu tempo certo, pra mudar ou adquirir nos aptidões dando a entender, que nem sempre será a profissão exata que acarretará nas nossas vidas. Mudanças acontecerão, seja relacionamento, amizade e profissional, ficar "preso" aquilo que não tem sentido, só irá regredir a partir do ponto de partida.
    Entendo tudo vale a pena, aprendemos com a vida e experiências vividas. Deixando uma vantagem enorme de recomeçar de novo, e ser feliz naquilo q o destino nos apresenta, seguindo um rumo novo de desafiador. Admiro pessoas que não tem medo de se ariscar, mesmo que seja maluco de se falar, mas gosto de desafios.. Impulsiona pra novas metas e objetivos..
    Gostei do texto Renato.. Sorte e até...

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  4. A VIDA É UM CICLO SE FECHA UMA ETAPA PRA COMEÇAR OUTRA. REPAREI Q A PROTAGONISTA ENCERROU SEU A SUA ARTE, E VIVERÁ UMA ETAPA AINDA MAIS DESAFIADORA, ISSO É BOM, SEM MEDO O Q PODERÁ ACONTECER NO FUTURO PRÓXIMO.
    ACHO Q MEXER COM JÓIAS É SHOW DE BOLA, CONHEÇO UM CASAL Q MORA EM MG E TRABALHA COM ISSO. APRENDERAM JUNTOS O MANUSEIO DESSA ARTE GLORIOSA. FAZ EXPOSIÇÃO E ATÉ VIAJAM DIVULGANDO. ELOQUENTE E ANIMALESCO O Q ELA FAZIA INSPIRADA NA MÃE LUNÁTICA. TANTO Q EXPANDIU PRA OUTROS FINS MAIS APRECIADORES DO Q FAZIA. NÃO TINHA A LUCIDEZ DO FAZIA, AMOR RIQUEZAS DE DETALHES, POIS QUEM MEXE COM JÓIAS SEMPRE TEM IDEIAS GENIAIS, COMO DESSE CASAL Q CITEI.. É SEU AUTOR QUEM SABE A PROTAGONISTA ENCONTRARÁ ALGO Q FAÇA VALER A PENA E AME DE FATO O SEU PRÓXIMO TRABALHO..

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