Dois Lados Da Mesma Caminhada



  Há uma difícil caminhada quando a gente quer caminhar a dois, – a presença do outro é sempre um desafio – às vezes é pela loucura de ter um sonho e não conseguir realizá-lo.

    É preciso ter muita coragem para enfrentar certas decisões. E se nós andamos nessa marcha a dois, e não pensamos com clareza antes, a gente acaba mergulhando em coisas desconhecidas e com a ilusão em busca da eterna satisfação. Pois nos sentimos o tempo todo necessitados de companhia. No entanto, aquilo que parece ser uma coisa belíssima e recompensadora, acaba se tornando uma desgraça na nossa vida.

     Como viver a dois de forma satisfatória? Como viver com uma pessoa que traz para essa vida uma série de necessidades - necessidades do próprio corpo ou do espírito, e todas outras necessidades de trabalhar a evolução para seguir adiante? E se essa pessoa se joga com a gente numa aventura que mal sabemos o que vai acontecer? Como devemos lidar com isso?

     Nós, lá no fundo, idealizamos uma estrutura de relacionamento, nós fazemos planos achando que essa estrutura vai funcionar, e na maioria das vezes não funciona. É impressionante a quantidade de sofrimento que nós temos em nome do amor.  E nos perguntamos: por que será que na maioria das vezes não dá certo?

     Nessa aventura de estar diante do outro, nós temos também que nos confrontar – o outro faz isso com a gente, nos testa a todo instante. O outro sempre nos faz sentir os limites de paciência e impaciência, de fraqueza ou de resistência. O outro sempre nos faz sentir aquilo que somos de verdade e não aquilo que idealizamos de nós mesmos ou dele. É um desafio lidar com o outro, não é mesmo? A gente não consegue ficar sem isso. Se não existisse ninguém no mundo para nos confrontar jamais teríamos consciência e noção das próprias limitações.

      Então, em algumas vezes, a relação pode chegar a um nível quase patológico de sofrimento daquele que criou expectativa com alguém. Essa infeliz criatura acaba se envolvendo diante de uma situação de submissão a esse sofrimento e pode até se acomodar, não por gostar de sofrer, mas por estar diante do caos que acaba podando o senso de iniciativa para a mudança. E sem essa reação continua dentro do círculo indefinidamente.

      Um dos mecanismos de defesa desta pessoa é ter a necessidade de contar aos de fora o quanto sofre – faz isso por estar enredada no sofrimento, ou frustrações, e por não encontrar outros meios práticos de alívio. De certa forma essa ação passa a ser um aprendizado de reação, que no começo é bem difícil. Ela segue aos poucos, com uma fala ou escrita fraca e arrastada, com um jeito de agir tão diferente que os outros demoram a entender o que existe por detrás daquilo. Então, passo a passo, vai aprendendo como fazer e faz melhor. A partir daí as pessoas a respeitarão por que o aprendizado veio para uma defesa mais adequada e inteligente à situação.

     Porém, tem gente que não sabe mesmo como responder na hora que é humilhada, ignorada ou subjugada aos maus tratos. Quando isso acontece, ela acaba passando permanentemente por humilhações em várias situações da vida, inclusive dentro da relação a dois – o que é bem mais comum do que parece. Então ela diz: “Ah eu não reajo porque procuro entender e relevar. Ele (a) gosta de mim”. Gosta nada! Você acha - iludida pela generosidade que carrega - que sendo assim se torna uma pessoa boa. Acontece que ainda não percebeu que existe uma pequena confusão entre ser uma pessoa boa e ser boba (Confesso que demorei a perceber isso). Aí o outro, por se achar superior e com a convicção do estado de catatonia psicológica que você se encontra, se aproveita da sua situação de fraqueza e pisa sem dó ou piedade (termos redundantes que servem para reforçar a ideia de dominação). Essa figurinha não tem qualquer consideração por você por que é neurótica, e o neurótico geralmente não tem sentimento e não está nem aí com as conseqüências dos próprios atos. Então é necessário pensar bem nas estratégias de defesa para não acabar rindo com pena de si mesma (o) e do próprio sofrimento, principalmente quando decide por uma caminhada a dois com uma pessoa assim.

      Repensar a postura é buscar formas de sair do subjugo imposto por esse alguém, por que a vida é acima de tudo sabedoria. E essa sabedoria está aí para ser praticada quando a sentimos de verdade dentro da gente. Aí você acaba de ler tudo isso e pensa: “Tá bom... É assim mesmo... Isso faz algum sentido, mas é difícil de colocar em prática. Onde vou arrumar outro alguém que goste tanto de mim?”. E dá um sorriso estranho, aquele sorriso frouxo, amarelado... Aquela coisa que não é sorriso e nem boca fechada. E continua na mesmice de antes, sem reagir. Você quer ou não se libertar dessa dominação e voltar ao que foi um dia? Por que foi fazer cara de paisagem ou de criança abandonada quando se sentiu desprezada (o), em vez de reagir com inteligência? Em que momento você se perdeu de você e esqueceu as qualidades inerentes à sua alma? Por que você foi fazer alguma coisa que nunca lhe deu prazer e, ao perceber o engano, não fez o caminho de volta? Você tem duas opções para buscar aí dentro as verdades que sempre valorizou: escolher ser a pessoa certinha para os outros ou a pessoa feliz consigo mesma, deixando de lado a passividade e alienação diante daqueles que se aproveitam da sua fraqueza momentânea.

      Clarear a visão é percorrer caminhos que levam sempre a muitas perguntas e poucas respostas que nos satisfazem, mas que fazem valer o esforço por estarmos vivos sendo eternos aprendizes. E nesse jogo neurótico a dois não existe vencedor ao final da caminhada. Por que o único objetivo do neurótico é ter satisfeitas as suas vontades exclusivas e você, na visão dele – garanto – não é nada. Ele quer mesmo é que você se lasque. Pois, para essa criatura não interessa quem você é ou o que você quer. Não existe respeito aos seus direitos ou necessidades. O neurótico sempre vai fazer cobranças, vai desrespeitar a sua vontade, o seu sentimento, o seu tempo e o seu espaço. E os dois, nessa caminhada juntos, acabam sozinhos, machucados, carentes e mal resolvidos (você numa situação pior, pois para o neurótico tanto faz). Aí, depois de tanto sofrer, a ficha caiu e alguém resolveu fazer uma mudança, não é? Finalmente você descobriu que toda a satisfação que procurava no outro (no neurótico), estava escondida aí dentro, e você não via. E, até que enfim, o sonho de caminhar a dois, que nunca se realizou de fato, se desfez antes tarde do que nunca para a sua salvação.

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