terça-feira, 8 de outubro de 2013

A Desforra


   Olhos muito vivos; aquele olhar de quando tudo parecia resolvido. A luz do teto continua brilhando preguiçosamente. Uma magia sedutora impregna o ar. Um sorriso fraco, sem dentes, contido e reprimido - sem qualquer entusiasmo aparente na recepção de quem chega. O momento pouco sublime carece de entrega verdadeira. Não existem mais os antigos sonhos de felicidade (Missão quase impossível seria esse pensar). Os olhos se perdem nas feridas do passado - faltou um tantinho de coragem para se desenlaçar de tudo. Certos fatos são como se a morte estivesse presente – pouco a pouco, passo a passo, chegando e jogando a sua sombra por cima. Mas a escalada do destino muda a qualquer instante todos os rumos. O corpo pressente o que toca a pele, o sexo, a boca e o nariz. O pensamento arde com o desejo incontrolável da desforra, – há uma mistura de espiritualidade no êxtase sexual - a mente emite o alerta enquanto o corpo sofre – sempre na mesma desenvoltura, - ingenuamente aflorada - despindo-se como se tudo fosse natural. Os olhos ainda continuavam vivos - acusam as olheiras da noite passada. Cabelos acariciados cuidadosamente. Dedos estranhos entrando no sexo até tocar bem fundo. Uma lágrima solitária desce - é o velho labirinto sem o fio de regresso. Angústia tardia no prazer da carne em devassidão. Corpos e mais corpos nas lutas diurnas e noturnas, vindo por cima ou por baixo - saindo devagar, cansados... Suspiram e exigem o sorriso no relato de sonhos eróticos da noite passada – seria o único momento de verdade que poderia oferecer a alguém? Respirar fundo, mais forte, retesar os músculos, preparação para uma nova batalha – uma foda após a outra, até o dia clarear – não é nada fácil! Finalmente toma coragem e faz tudo outra vez. Segue se esfregando em corpos suados e se larga, alarga, se permite devorar assim: horas a fio na roda viva do esquecimento. O punhal continua fincado no coração. É sacrifício e luxúria - nem se sente completamente saciada com isso – nenhum alivio emocional, apenas o vil metal como recompensa. Olhar vivo pairando como o silencio da morte na ponta do dedo branco. Nada de bom sobrevive nesta cena, nem uma paixão que pudesse durar tanto tempo. O desejo é aparente: desforra! Atitude repulsiva, sem explicação; apenas uma mente em pânico. A realidade continua entorpecida nos sonhos mais profundos. Noção quase perfeita do prazer pela degradação. Sem mistério ou delicadeza segue na entrega consecutiva e ordinária. É a mesma dor sem fim de todo dia. Choro de desespero na desgraça – o efeito do remédio que criou para acalmar a própria mente. O ventre amplo e desnudo; mistérios nas manchas roxas que persistem pelo corpo. Em cada mancha a noção de que a desforra seria a armadilha contra si mesma - novo martírio sem fim. O ódio produz as ideias destrutivas num corpo quase sem sentidos – falsa excitação, encenação... O coração se sente pacificado na desforra seguinte. Vários cheiros impregnavam a pele enquanto o mundo se torna mais triste... Quase um encanto no momento de crise. O perfume dele sumiu de você, evaporou pelo ar. Por isso a desforra continuava. Cada um que chegar pode entrar e consumir o seu ser por dentro e por fora – tudo tem um preço. Nunca o mesmo perfume aparece – aquele perfume, aquele cheiro. Prolonga-se a busca pelo cenário onde os vermes rastejam nus nos bastidores da vida, ou à beira do precipício - carregam consigo a culpa e o prazer por essa luta. Um novo encorajamento surge num simples pensamento. A penumbra dá seqüência ao vício. Outros olhos admiraram os seios pequenos. Mais um corpo grande e suado balança por cima no mesmo ritmo de todos os outros. Os quadris mexem junto, automaticamente – milimetricamente. O pensamento mergulha no passado e se esquece do momento presente. Tudo se repete. Outra maratona se inicia com o teto desaparecendo do raio de visão - a luz ainda brilha preguiçosamente. Dentro de si há mais um membro esfolando, cutucando; minutos que parecem horas. Etapa seguinte de ilusão: fatos sólidos para ganhar algum dinheiro - falos e mais falos para entreter a sanidade e ludibriar a dignidade: mais alguns instantes e as narinas se dilatam. Em certo momento os olhos saltam da órbita e alcançam os céus. Uma coisa nova faz com que se lembre de outra – a melhor justificativa para esse momento – assunto desagradável. A desforra faz o seu papel, mais uma fungada e os olhos continuam vivos, a mente turva – e nada mais importa nesse antro; até que chegue o último cliente, ou a última carreira da overdose que curará para sempre todos os males do coração. 

7 comentários:

  1. Quem entra nessa vida só tem a lamentar, usando o corpo pra se manter tem que ter muito estômago.. pra aguentar. É muito polêmico, difamação, muitas escondem da família, amigos e até de sim mesmas dizendo que isso será passageiro até que as coisas melhorem! Será?! Uma realidade que está crescendo cada vez mais até crianças estão se vendendo em troca de um prato de comida... Fim de mundo! Adriana.

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  2. Oi Renato. Gostei do texto. Ele transmite a cruel realidade de muitas pessoas, cujos sonhos foram desfeitos para viverem muitos momentos de um prazer aparente. Depois de tantos, será que algum dia conseguirão sentir o prazer verdadeiro?
    Enquanto lia imaginava... quanta tristeza, quanto sofrimento, desgostos, nojos... acho que com o tempo não se sente mais os perfumes, não se sente mais nada, a não ser nojo, vontade de que tudo termine rapidamente e que finde o dia.
    Muito triste pensar, imaginar que muitas acabam morrendo de tanto desgosto, por abandono, por serem desprezadas... pior ainda é saber que existem pessoas que ainda dizem que elas tem uma vida fácil.
    Vera

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  3. O q está relatado aki alguns chamam de “vida fácil”!!! Fácil pra quem???
    Será msm fácil submeter-se aos + variados caprichos de pessoas inescrupulosas q “coisificam” as outras e depois as descartam cm se fossem lixo? Aliás, “lixo” talvez seja a melhor palavra p/ expressar cm se sentem as pessoas q enfrentam essa tal “vida fácil”! E são inúmeros os tipos q sobrevivem assim: mulheres, homens (homossexuais), jovens (de ambos os sexos), e outras tnts; e inúmeros tbém são os motivos q as levam p/ este caminho sombrio.
    Criticá-las é fácil qdo se faz sexo por amor e não por necessidade!... Claro q algumas “escolhem” essa vida (provavelmente por não terem outra opção ou por alguma outra infelicidade ou talvez pelo excesso de hormônios, quem sabe...), + certamente, se pudessem, optariam por uma atividade q as valorizasse e proporcionasse seu crescimento pessoal e uma vida digna.
    O vício é a saída encontrada p/ esquecer ou enfrentar os reveses do ofício!... Assim fica + fácil ainda, heim!?...
    E a desforra, onde caberia nesta rotina de trabalho tão peculiar? Quem sabe nos sonhos de uma vida tranquila; na comunidade c/ pessoas solidárias; no desejo de sentir-se verdadeiramente humano!
    Chocante e provocador, foi a impressão q tive do seu texto, Renato, e mto realista, claro! Trata de um assunto q normalmente ninguém para pra analisar (afinal, não é da conta de ninguém o q cd um faz c/ o próprio corpo, né?!). + se formos refletir dá até um “engasgo”, principalmente se formos contabilizar causas e perdas! Eis aki uma boa oportunidade!
    Grata, Sr. Autor, e Parabéns! BJSSS - Edneia

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  4. Texto forte.Marcante.É muito triste saber que esta é a realidade em que vivemos,e que tantas meninas adolescentes,tornam-se mulheres de "vida fácil",como citou a colega,que de fácil,nada tem.Fazem isso até mesmo para conseguir se alimentarem.Ou,se perderem nas drogas.Por questões sociais,acabam se revoltando e acabando com a própria vida.Podem até ser meninas de família,que tudo podem oferecer:estudo,roupas,calçados...Mas,o principal faltando,e não se tendo a estrutura psicológica necessária,acaba nisso.Fazer sexo sem prazer e sem amor,na minha opinião,é uma das coisas mais tenebrosas que possa existir,na vida de uma mulher principalmente.Amor é o sentimento mais profundo e puro que um ser humano pode dar ao outro.E todos nós gostamos de nos sentir amados.Um texto que nos mostra as diversas formas de reflexão.Digo isso porque tem mulheres que não precisam dessa vida,mas a escolhem.Talvez por ser uma forma fácil de ganhar dinheiro,sem compromissos.Admiro a coragem das que fazem isso.Cada um sabe o que é melhor para si.
    Parabéns,Renato,por mais um belo texto.Você é incrível mesmo!Nós,leitoras,ficamos na ânsia da publicação do próximo,ok?
    Beijos e até mais...
    Patricia Ramos Sodero.

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  5. Desforra significa vingar-se de algo ou de álguem... No caso do texto de quem? E do que?
    Prostituição opção ou determinação social? Uma parte da sociedade analisa a prostituição como uma opção para homens e mulheres como meio de ganhar dinheiro de "maneira fácil". Será mesmo? Não é necessário pré-requisito. Dai a ilusão de parecer fácil,BASTA APENAS usar o corpo,VOCÊ mesmo. Simples assim!
    Entretanto até que ponto é fácil dividir a sua intimidade e cometer violência contra si mesmo?Prostituição ainda que opção... não é nada fácil.
    Prostituição como determinação social nos dá a idéia de pessoas miseráveis,as que não teriam outro meio de sobrevivência,os chamados socialmente esquecidos,excluídos,os sem alternativa.
    E se opção é escolha,(que implica vários fatores),entende-se que a opção pode vir a se transformar em uma determinação social.
    E a prostituição infantil? Muitas crianças entram na prostituição incentivadas pela própria família que busca recursos financeiros para a sua sobrevivência.
    Não podemos esquecer dos meios de comunicação e televisivos que promovem a valorização exagerada do corpo e da sexualidade,exibindo a mulher como produto e muitas vezes mostrando somente o "lado glamuroso"da prostituição (festas com convidados belíssimos,vestidos maravilhosos,jóias,carros importados,mansões,dinheiro, muito dinheiro) e claro,a personagem sempre se dá bem,encontra o príncipe encantado e...viveram felizes para sempre."Esquecem" (não é interessante) de mostrar a violência (tortura,espancamento e outras atrocidades) cometidas pelos ditos clientes,o uso de drogas e a disseminação das DSTs.
    Ainda é importante ressaltar,que a prostituição causa problemas emocionais irreversíveis como hiperatividade sexual,pedofilia,estupros, e a banalização da mulher na sociedade.

    Agradeço por nos dar espaço para comentarmos a respeito desse assunto que faz parte da sociedade e que ainda nos deixa de "saia justa" e mãos atadas.
    Simone

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  6. Quem tem autoridade sobre os filhos são os pais, essa mania de jogar culpa no governo é um modo de fugir de suas responsabilidades, deixamos a hipocrisia de lado... Muitos estados do nordeste pais influenciam seus filhos a se prostituírem pra trazer o sustento da família. E acham normal, o povo brasileiro é muito acomodado com a situação. Não querem lutar melhorar suas condições sócio-econômico. Ficam esperando que o governo faça tudo. Crianças tem que ser estimuladas, orientadas pra um futuro melhor, pena que nem todos os pais pensam assim...

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  7. Sexo e drogas p/enfrentar a vida, às vezes tão injusta c/uns. Há pessoas q dizem gostar desse tipo de sobrevivência (sobrevivência sim, pq p/mim, viver assim não é viver), mas muitos são os q não tem opção. Será?! Fácil demais criticar, p/quem esta do outro lado. Cd um sabe a dor q carrega na alma e cd um a carrega como pode.
    Forte esse texto Renato, um assunto muito sério abordado aqui c/muita competência! Parabéns!

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