segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Dear Miss C Part 25



  Olá doutor, como vai? Desculpe o atraso, mas é que peguei um trânsito horrível para chegar aqui. Fui até a Avenida Paulista buscar os ingressos para o show do Bon Jovi, marcado para o estádio do Morumbi em setembro. Vou com a minha namorada que é super fã dos caras – ela acha o Jon muito lindo – vê se pode uma coisa dessas! Consegui às duras penas 2 ingressos de cortesia com o radialista conhecido do meu filho. Olha... Vou contar uma coisa: o deslocamento nesta cidade está ficando insuportável a qualquer hora do dia ou da noite, tem muito carro para pouca rua. Ônibus e metrô nem pensar, de tão lotados que andam. Porém, não há o que me faça perder o bom humor hoje, já que consegui os ingressos e o Corinthians venceu ontem mais uma partida no Pacaembu – e eu estava lá pulando feito louco... Completamente eufórico e ficando afônico nas cadeiras numeradas, debaixo de um frio medonho. Foi uma bagunça misturada com celebração total na hora do gol e na saída do estádio – muito buzinaço, rojões e sinalizadores a dar com o pau.

   Apesar desta segunda-feira chata, – Tell me Why, I don´t like Mondays, doc!” – (Não ria por favor!) - por mais incrível que pareça, nesse finalzinho de tarde, o céu está mais azul do que de costume com o pôr do sol demorado. Isso é fantástico e a vida é maravilhosa! Quando eu vinha para cá ouvia no rádio do carro a música “Ballad of easy rider” do grupo The Byrds. O senhor conhece? Hum... Acho que não conhece, não. O senhor tem cara de quem ouve Beethoven ou Mozart.

Nossa! Eu viajei nos pensamentos com aquele som meio country, enquanto o meu olhar se fixava na cena linda do astro rei caindo por detrás daquela nuvem estreita e espichada.

     Logo que entrei aqui no prédio e subia as escadas às pressas, senti na pele os últimos raios entrando pela janela do primeiro andar.

   Mesmo com toda essa beleza da natureza, - quando a mão do tempo não hesita em atormentar a gente - parece que cada minuto se torna mais cruel que o anterior, e logo a escuridão toma conta e nos tira as cores da vida, isso chega a dar um desespero por dentro. Acho que aprendi novamente a ter medo do escuro. Não devo estar falando coisa com coisa, né? Liga não... É por que estou feliz.
      - Deseja beber água ou relaxar um pouco na sala de espera antes da sessão?

      - Não doutor, eu me sinto bem disposto e ansioso.

     - Ok. Então entre e se acomode.

     - Vamos lá. Podemos começar, já estou bem.

     - Então me diga: por que se sente ansioso?

     - Ora, ora... Primeiro, por que estava me dando angústia em pensar que não chegaria aqui na hora certa. Eu penso que cumprir o horário marcado é fundamental, mas o trânsito não ajuda. E segundo, porque não me sinto tão só quanto antes. Não tenho mais aquela sensação do processo de dissolução do corpo e da alma.

    - Explique isso melhor.

    - Vou tentar. Bem... Quando Miss C entrou em mais uma de suas crises de abandono, virando as costas para mim, eu senti que não adiantaria resistir indo contra os seus princípios, e mais, indo contra os meus próprios princípios. Eu não sabia ao certo como seriam as coisas com o nosso distanciamento definitivo, mas a ideia mais importante era que eu precisava de uma série de projetos novos para seguir a vida. Não valia mais a pena ficar dando murros em ponta de faca, e nem me esforçar - como já houvera feito antes - por alguns minutos de sua atenção, o que, aliás, era muito estranho, porque acabava sempre recebendo a mesma reação na maioria das vezes: atitude hostil ou indiferente aos acontecimentos. Eu era falho, não era forte o bastante para dar um basta naquilo. Não tinha encontrado o jeito certo de fazer. No entanto, logo percebi que já nem era mais capaz de fantasiar qualquer coisa em relação a nós dois. A realidade dos fatos se tornara cruel e estava ido além da conta, principalmente quando noticiei os últimos dias de sofrimento e posterior falecimento da minha mãe. As atitudes de Miss C foram dignas de uma pessoa sem qualquer escrúpulo diante do sofrimento do semelhante, só por isso enviei aquelas cartas - reforço esse fato. Se nada disso acontecesse, todas as cartas ou recados não existiriam, nem meus contos ou crônicas falando dela existiriam, tudo estaria do mesmo jeito até hoje, mesmo com nosso afastamento. No entanto, a ação dela foi um divisor de águas, o destino foi mudado a partir da sua atitude de desprezo para comigo e com o meu familiar mais próximo.

     Nesse hiato de tempo, à minha volta, tudo se materializava de um jeito diferente. Eu me sentia como se estivesse num palco enorme, recebendo um raio forte de luz branca que ofuscava a visão. Diante de mim uma multidão de rostos deformados murmurando. Pessoas e mais pessoas falando ao mesmo tempo coisas que eu não conseguia entender. Então eu imaginava: “Como pode toda essa gente ter tanto a dizer uns aos outros e ela (a pessoa que eu queria de verdade ouvir) nada tivesse a me dizer? O que eu houvera feito de tão grave para receber o seu desprezo total? O fato de não tê-la convidado para viajar era suficiente para ser visto como alguém que merecia ser ignorado?” Então doutor... A luz branca continuou cintilando de forma intermitente nos meus olhos durante muito tempo. E não adiantava me mover para fugir do seu foco. Para cada lado que eu virava, lá estava aquele flash contínuo diretamente dentro do meu cérebro. Até que chegou um momento em que tudo se apagou e só restou a escuridão. E se alguma réstia de luz sobrou daquele foco, manteve-se oculta, tristonha e muda. Apenas o meu peito denunciava que eu ainda era um ser vivo, e muito capaz de encontrar o caminho para fugir do que me oprimia. Mas eu não conseguia totalmente - e até certo ponto eu me contentava com aquilo - porque uma réstia de luz era melhor que nenhuma. Eu tinha apenas que aceitar que nunca mais qualquer palavra ou olhar seriam trocados de um lado para outro - em qualquer outra circunstância dessa vida.

   Ah, doutor. Miss C era uma pessoa fria e muito difícil de conviver, mas eu ainda acreditava que ela pudesse mudar.

    Doeu tanto em mim agir assim... Fazer o que eu fiz... Porque mesmo com seu jeito diferente de ser eu gostava dela e acreditava numa recuperação mesmo que parcial, tinha fé que ela melhorasse a forma de tratar os outros. O pior de tudo é que ela nunca imaginou os fatores que estariam implicados por seus atos desumanos. Ela teve apenas a ânsia de fazê-los sem qualquer constrangimento, sem saber que o ponto crucial estaria por vir logo em seguida. A falha em sua estratégia lhe proporcionaria a mais terrível das tristezas, já que o seu ponto fraco era manter a boa reputação perante todos. Ela fazia de tudo para se manter discreta dando poucas informações a qualquer pessoa sobre seus atos - nem a família sabia ao certo por onde ela andava ou com quem andava ou o que fazia. Todas as informações eram superficiais, sem riqueza de detalhes ou descrições aprofundadas de lugares ou conversas. E nessa história eu parecia um desmiolado ao passar a impressão que ela era louca porque não me amava. Louco seria eu em dizer que qualquer pessoa que não me amasse ou que não gostasse de mim pareceria louca. Não era nada disso, as pessoas não interpretam direito o que ouvem falar fora do contexto e tiram conclusão precipitada. A atitude é que torna a pessoa louca ao olhar dos outros, o desequilíbrio está nas ações impostas por ela.

- Como assim? Explique melhor essa parte.

- Certo. Hoje pareço acelerado....rs.rs..rs  Continuando: Miss C, nos primeiros momentos tinha boas intenções, talvez até bons pensamentos e sonhos. No entanto, suas atitudes eram ruins, eu diria: péssimas, na hora de colocar em prática tais intenções. Poderia dizer-se que ela aparentava ser uma boa pessoa, porém, com comportamento negativo, estranho e autoritário todo o tempo. Isso mudava tudo na reação das pessoas para com ela, e na minha reação também. Ahhh doutor, o senhor nem imagina como eu fui paciente. Como tentei superar e entender o jeito dela... Mas a gente não pode agüentar por muito tempo ser pisado na cabeça e ficar quieto; calar-se diante do absurdo... Eu mantinha esperanças.... Sabe o que é isso, doc? Eu deixava o tempo correr, dava o tempo que ela achava necessário para se acalmar, voltar ao normal - mesmo que não houvesse motivo algum para ter saído do prumo. Eram coisas da cabeça dela que a faziam agir assim. Exatamente por ter as atitudes que tive, hoje sou condenado pela irmã nos recadinhos que me manda. Eu fui considerado o fraco da história por manter as esperanças. Eu fui o culpado em permitir que tudo acontecesse, porque era uma pessoa com experiência de vida, e por ter essa bagagem deveria ter percebido e rompido antes do desastre. Aí no final das contas, por tentar ajudar, virei o ruim da história. As pessoas não entendem que, independente da consideração ou não que ela tivesse por mim, eu a considerava bastante; gostava dela e compreendia o seu jeito. Mas tudo tem limite. 

 - Por isso escreveu as cartas, revelando o outro lado de Miss C que os outros não viam e você via?

- Sim doutor. Mas não é que os outros não viam. Eles viam sim. Todo mundo que convivia com ela sabia de tudo. O que eles não gostaram na situação é que uma pessoa de fora apontasse os defeitos. Alguém assim como eu, uma pessoa simples, distante do mundo físico e material deles; um namorado pouco afeito às reuniões de família, e depois, agindo como um maluco, indo à carga para relatar a realidade nua e crua dos acontecimentos. Aquilo soou como ofensa; uma agressão grave e imperdoável, independentemente, que houvesse culpa dela ou minha nos atos inconseqüentes dentro do namoro. Eles são tipos arrogantes que não aceitam críticas, isso já ficou bem claro. Eles nunca aceitaram que as minhas intenções iniciais foram boas, apesar de toda situação vexatória ter vindo a público. Na minha mente, naquele tempo, foi o único jeito que encontrei para tentar mudar suas atitudes - tentei com isso que se tornasse uma pessoa melhor, que jamais agisse assim com outro alguém – fazendo a pessoa de boba. Mas a família não gostou nadinha dos meus feitos. Quero dizer, eles não gostaram nadinha da minha atitude, por que as dela, eles já estavam acostumados a perdoar. A coisa anormal do acontecido não foram os atos dela e sim a dimensão que tudo aquilo tomou na vida de cada um deles depois das revelações. Eles (que estavam tão acostumados a desprezar e ignorar pessoas) passariam a se sentir humilhados e perseguidos por mim. Por que, ao contrário do que fizeram comigo, eu não os ignorei e não os ignorarei nunca. Isso seria muito cômodo da minha parte, porque ignorar parece um ato de superioridade relativa e momentânea, uma atitude - que dependendo da situação envolvida - leva o outro a ter mais ira e a parte culpada (quem ignora alguém) se sentir perseguida ou vítima. Diante do fato de não tê-los ignorado, começaram as provocações chegando de lá para cá em tom de irônia e ameaça. Arquitetaram um tipo de vingança contra mim.

     - O que eles fizeram?

     - Quando eu pensei que já estava tudo calmo e só restavam cinzas, notei que uma chama começou a se erguer vindo debaixo das brasas. Era um tipo de insolência recheada com ameaça e ódio. Uma das irmãs de Miss C (que não se identificou na mensagem) me mandou um recado pela internet que dizia assim: “As Revelações feitas por você me deixaram estática!!! Onde já se viu colocar em público o que passou com Miss C! Agora entendo porque ela nunca mais quis contato com você. Usou meios baixos, vingança sórdida. Você só poderia mesmo terminar numa vida solitária e cheia de amarguras. Miss C nunca foi louca, tinha sim um temperamento difícil de conviver e você gostava mesmo assim, não é? Ficou nisso porque quis, poderia ter dado um basta nessa relação, mas fez ao contrário, aceitou tudo e permitiu essa situação toda. Agora aceite os fatos, quem procurou seu próprio calvário tem que pagar pelos erros sem dó e piedade”.

      - Eis aí doutor a situação. Eles querem continuar com isso, querem vingança. Eles clamam por justiça de uma situação de namoro que culminou com conflito de opinião, e se arrastou por anos até hoje. Os atos de desprezo e falta de cuidados, nunca foram provocados por mim, muito pelo contrário, eu dediquei muito a ela, dei apoio, atenção e carinho, isso até realmente descobrir o que havia por debaixo da lã.

      - Você pensou em fazer o que quando leu o recado?

      - Bem... Pensei em erguer os escudos e me proteger, já que eles têm total disposição em me prejudicar. Comecei a elaborar outras estratégias de luta. Voltei às pesquisas no Google. Esse é o lugar onde você encontra tudo sobre qualquer pessoa. Até aqueles que não sabem mexer numa tecla do computador estão com suas vidas expostas lá para que todos vejam. Descobri nas pesquisas que o ex-namorado de Miss C estava formalizando o casamento com a sua atual companheira, uma moça muito meiga que leva adiante o compromisso sério por mais de 3 ou 4 anos, e acredita que ele é fiel. Pensei comigo: “Já que a família de Miss C pretende me prejudicar, então vamos botar todo mundo no rolo. Vamos tentar elucidar algumas passagens que ficaram obscuras no relacionamento de amizade dos dois, digo, enquanto ela era a minha namorada (abro parênteses para explicar que não teria mal algum numa amizade entre eles, isso, se ela não tivesse dito que ainda era apaixonada pelo rapaz. E ele sabendo da situação se aproveitasse para se aproximar cada vez mais, estragando o atual relacionamento dela, que girava na tentativa de esquecê-lo. E ele, muito esperto, insistia nisso, mesmo tendo compromisso com outra pessoa que acreditava que ele não tinha mais contato com a ex, ufa!). Talvez fosse interessante que a futura esposa ficasse sabendo, - numa versão diferente da que ele possa ter contado - o que ele fazia pelas costas dela naquele tempo. E nessa situação, ele que se virasse para explicar o que fez e por que fez. Explicasse, nas vésperas da lua-de-mel, e com todas as letras, por que andava atrás da ex dando satisfações da sua vida pessoal e atrapalhando o namoro dela. Pensando nisso enviei a ele uma carta recheada de deboche e ironia, demonstrando que não esqueci o que aconteceu na nossa tríade.

E aí amigão, como andam as coisas? Então, meu amigo. Faz um tempo que não recebe nenhuma mensagem minha não é mesmo? Pois é... O tempo passou e estou aqui de novo para falarmos de um velho assunto muito peculiar a ambos, ou seria aos três? Quem sabe aos quatro... Deixa para lá... Já se completaram dois anos desde a última mensagem que lhe enviei - onde contava da sua ex e das coisas que ela falava de você – e é claro você não respondeu, como, provavelmente, também não responderá essa. Percebo que vocês têm o mesmo modo de agir diante de certas circunstâncias consideradas delicadas e que exigem explicação. Mas não tem problema, não. O importante é que você recebeu e continua recebendo os meus recados. Muito bom saber da legalização da sua união. Conheço uma pessoa que deve estar se desmanchando em lágrimas com a notícia publicada no jornal. Acho que ela vai chorar por semanas seguidas. Deve estar considerando uma pá de cal no último fio de esperança que restava. No tempo do meu namoro com ela - para minha surpresa - constatei que vocês ainda tinham bastante cumplicidade, mesmo com a relação acabada há praticamente 4 anos. Confirmei isso, quando no mesmo dia você repassou a ela uma mensagem que enviei a você como isca. Bacana ter sido tão solidário a quem demonstrava pouca consideração por sua pessoa e falava tão mal de você. Ou será que era apenas mais uma das dissimulações dela? Enfim... Miss C me contou das ligações que você fazia para falar dos acontecimentos da sua casa, por exemplo: as mortes e doenças dos seus bichos de estimação e doença ou briga de familiares. E também do apoio psicológico que você dava em momentos de dificuldade na vida dela.  Pelo visto, ela gostava de receber suas palavras de solidariedade.... E sabe o que é mais interessante? É que nesse tempo o namorado dela era eu, - o tonto – e ela não atendia os meus telefonemas, não respondia os meus e-mails. Eu só podia falar com ela quando ela finalmente fosse tomada de um ar de generosidade repentina - isso se eu quisesse ser atendido muito rapidamente, falando o necessário e por poucos minutos. E se eu insistisse, - quando ela decidia que não ia atender mais, - ligando de um número desconhecido - ela batia o telefone na cara ao ouvir a minha voz.  Puxa vida... Que coisa, hein... Você, ela atendia prontamente!  O mais legal de tudo é que ela dava toda atenção a você que era o ex, alguém que não tinha nenhum vínculo com ela, por exemplo: filhos ou dívidas pendentes. Mas, não fazia o mesmo por mim que era o atual e deveria ser respeitado; pessoa com quem ela dormia noites e mais noites seguidas nos acampamentos de final de semana. E que nessas horas e ao mesmo tempo, - eu, o tonto - tinha uma paciência enorme para ouvir falar de você e as coisas que vocês fizeram juntos durante os anos que se deram bem. E depois, mudando o humor e tomada de raiva por estar comigo e não com você, aproveitava para me contar que você era um usurpador, interessado em casar com ela pelo dinheiro do velho, e que mesmo assim ainda ficava ao seu lado porque o amava. É mesmo muito interessante ela dizer essas coisas de você e aceitar o seu contato enquanto eu estava trabalhando, e me mantinha na ilusão que o pensamento dela era só em mim. Que ela - a mulher prendada e muito inteligente - estaria voltada para pensar no nosso futuro juntos, em nosso lar romântico e feliz. E sabe o que é pior? Depois que ela me colocou no “freezer” por aproximadamente 4 meses, por um motivo banal, e eu tentava desesperadamente contato com ela dizendo que a minha mãe estava entre a vida e a morte – pedia que fizesse uma oração ou uma palavra amiga via MSN ou e-mail, sabe o que ela me respondeu? “Não espere nenhuma consideração da minha parte por você nesse momento!”. Que pessoa mais legalzinha, não é mesmo?

    Quero que saiba que não esqueci os acontecimentos daquela época e, com toda certeza, os anteriores ao nosso contato - tempo em que fui maltratado pela família dela - principalmente pelo velho - me fazendo desfeita numa data que passei com eles. É bom saber que nunca o encarei como um inimigo verdadeiro porque nunca o conheci. Porém, dentro de tudo que foi falado de você, principalmente, o fato que ela afirmava constantemente aos quatro ventos, que ainda o amava de paixão – me deixou bem revoltado e desorientado. Eu achava que você deveria ter se mantido afastado, para o próprio bem do relacionamento com o qual ela estava envolvida, e que assumira compromisso formal perante a família - me apresentando a todos eles como namorado. Você há de entender que passei dois anos na ilusão, estava cego e acreditava que ela estava disposta a um compromisso, e a esquecer o passado com você. Imaginei que ela fosse uma moça de bons princípios. Mas, no final, e na hora que mais precisei, reparei que o único fundamento básico naquela relação era o meu uso - para fins de divulgação da marca dela nos acampamentos e eventos que eu participava. Eventos que chegavam a reunir mais de 50 mil pessoas num final de semana, - e assim ela podia distribuir cartões de apresentação com endereço do site e telefone de contato para os interessados nos biscoitos da sorte. E também, a outra e principal finalidade, era ser usado como muleta para tentativa de esquecimento do tempo que ela esteve com você. Depois das cartas que lhe enviei e também aos familiares dela, dando a minha opinião, - contando detalhadamente o que eu achava das atitudes incoerentes que ela tinha diante da vida - fui ameaçado, perseguido e censurado. Ela, juntamente com a irmã, foi à delegacia da mulher registrar uma queixa contra mim por perturbação da ordem, com a intenção que alguma providência legal fosse tomada como motivo de revanche. Todavia, ela se esqueceu que vivemos numa democracia onde existe a livre expressão do pensamento e opinião. E quem se sentir ofendido que procure provar que o agressor agiu de má-fé falando mentiras. O que seria estranho nesse caso, já que tudo é baseado em fatos verídicos e embasados com provas materiais e testemunhais. Ela foi avisada que guardo tudo. Gosto de guardar trocas de mensagens, fotos e tudo que se refere ao relacionamento; até tickets de motel, cinema e shows de teatro eu guardo. Tenho todos os e-mails e conversas por MSN, onde ela passou as informações que já citei. Inclusive, coloquei algumas dessas conversas - do que ela disse de você - à disposição do velho, caso ele quisesse saber realmente se ela estava sendo sincera com todos nós que acreditávamos no que ela falava. No caso da tentativa de me calar, percebi que os ensinamentos autoritários que ali existem, tomam forma quando essa gente nota que a verdade nua e crua dos seus atos inconseqüentes é revelada. Ainda hoje recebo recadinhos das irmãs, elas chamam de “iscas”... Colocam um novo recadinho nas redes sociais com o seguinte aviso: “Perseguição”.

Olha uma coisa... Não estou perseguindo ninguém, apenas me senti ofendido com o que foi feito comigo, (tanto da parte do relacionamento amoroso, quanto, e principalmente, com a falta de consideração pelo ser humano no momento do sofrimento e passamento de um ente querido). Isso ainda está bem entalado aqui dentro. Considero o acontecido como atitude de gente canalha e sem qualquer escrúpulo. Cheguei à conclusão, que depositei minhas fichas em quem não era merecedora de nada. E isso é muito triste. Então amigo, eu lhe felicito por sua atual união duradoura e lhe felicito mais ainda por ter saído a tempo e vivo, psicologicamente falando, de um relacionamento que não lhe traria futuro algum. É isso aí. Espero que não vá repassar correndo esta mensagem, como fez da outra vez. Por que, com certeza, isso provocaria mais uma grande confusão na vida de todos nós e, indubitavelmente, na vida de quem ainda não participou e nem sabe direito dos acontecimentos. E não é isso que desejamos na hora tão feliz do seu casamento - com a pessoa que passou todos esses anos acreditando em você - não é mesmo?

Att. Re.

- Ele respondeu a sua mensagem?

- Não, doutor. Ele não respondeu e nem vai responder.

- Qual foi a sua verdadeira intenção ao fazer isso?

- Bem... Já que as irmãs fazem questão de deixar recadinhos na internet, resolvi fazer um teste. De repente aparece alguma pista se eles estão unidos no objetivo de me prejudicar. E se ele estiver nisso junto com Miss C, então, depois da mensagem, ele irá pensar melhor se deve mesmo participar criando uma grande confusão em seu relacionamento com a recém-esposa. Foi apenas uma estratégia de luta para me proteger, caso uma das partes faça qualquer coisa contra mim. Agora... Se isso não funcionar, arrumarei outras maneiras de me defender.

- Sabe doutor, um detalhe curioso. Certa vez, logo em seguida às primeiras cartas, Célia me mandou uma mensagem dizendo assim: “Aqui em casa todos gostam muito de você”. Bom... Imagino que eles devem gostar mesmo, já que fazem tanta questão de ficar me provocando. Miss C sempre soube que nunca abdico de um desafio e nem recuo diante de uma provocação. Todos eles devem sentir muito a minha falta. Pois, no fundo sabem que eu fazia bem a Miss C para a tranquilidade deles. Um bem tão grande que agora são capazes de perceber todas as mudanças que esse caso trouxe para a vida dela.

- Qual o sentimento que tem por ela?

- É uma resposta muito difícil, porém, vou lembrar uma frase que ela me disse quando eu pedia que respeitasse os meus sentimentos:

“Re, não me faça sentir pena de você!”.

 - Sabe doutor, hoje, acho que sou eu que sinto pena dela. No fundo, mas bem lá no fundinho mesmo, ela não sabia se posicionar adequadamente diante de tantas necessidades que a vida nos impõe, principalmente fazer opções que remetem a largar uma coisa em prol de outra. Ela sempre teve muita dificuldade em decidir por atitudes boas e razoáveis. Talvez, na sua cabeça, a maldade fosse de melhor serventia por que demonstrava poder. Pensando sobre isso foi que escrevi os seguintes dizeres: Saiba que temerosas e más são aquelas tristezas que levamos adiante para tentar abafar a voz daqueles que nos afligem ou tentam nos confortar de um jeito que não entendemos. Isso é como uma doença a qual não damos grande importância e os seus sintomas desaparecem de repente. Depois de um tempo, ela surge muito mais terrível do que havíamos imaginado. Juntando-se no fundo da nossa alma, a tudo que julgamos precipitadamente correto, formando uma vida que não podemos entender; que repudiamos e que perdemos aos poucos sem saber, e disso se pode até morrer. Ahhh, se nos fosse possível enxergar além dos curtos limites que determinamos por puro preconceito... Talvez o nosso saber indicasse o caminho certo vindo dos pressentimentos, e com isso teríamos mais confiança para suportar as tristezas tanto quanto nossas alegrias. Nesses momentos é que algo novo entra em nós, algo que nos é completamente desconhecido: são os nossos sentimentos que se calam por uma desastrosa interpretação de sinais, e tudo ao nosso redor recua, levantando-se um enorme silêncio com a novidade que ninguém conhece, e que se ergue ali, caladinha, bem dentro de nós. Noto que todas as tristezas que passamos foram momentos de pura tensão, que considera aquilo como um desastre causador de paralisia, justamente porque de determinado momento em diante deixou de reconhecer os sentimentos de outrora; ficamos a sós e completamente perdidos com a novidade que veio nos visitar; e num único relance todo aquele sentimento, que era tão familiar, nos abandonou; tudo porque fomos parar no meio de uma transição de onde não pudemos sair ilesos.”

- Caro doutor, eu quis dizer que ela deveria refletir melhor nas atitudes. Considerei - já naquela época - o que a irmã me disse recentemente sobre o temperamento difícil de Miss C. Fato que eu já sabia e aprendi na prática, pois convivi bastante com ela. Enfatizar que ela era louca significava incentivar a análise, incentivar um passeio ao psicólogo, psicoterapeuta ou qualquer outro profissional que cuidasse da psique. Todos nós precisamos disso, porque nos sentimos loucos em algum momento da vida; seja por decepção, frustração, ansiedade, medos... Não há mal algum em dizer que alguém precisa se tratar. É puro preconceito que as pessoas se sintam ofendidas com um aconselhamento desse gênero. Eu digo e afirmo que é bom, porque estou aqui com senhor lavando a alma e me sentindo cada vez melhor. A gente sabe o quanto é bom, não é doutor? A minha presença na terapia se deve ao grande apoio que recebi da minha família - eu pensava que o mesmo deveria acontecer com ela. E só por isso estou voltando a esse assunto. Se não fosse assim não falaria nada, porém, viveria remoendo e remoendo cada vez mais, até virar um zumbi sem sentimentos. O meu humor estaria péssimo, a cara amarrada de poucos amigos e a vida parada. O fato de me lembrar de tudo, botando para fora com tantos detalhes, é o maior progresso que pude alcançar. Cada um sabe o que já viveu e a dor que sentiu. Tudo o que digo são as minhas impressões sobre conduta, intenções e postura das pessoas. Uma opinião meramente pessoal que de repente pode mudar para melhor ou pior, caso algo novo e importante aconteça.

- Como vai o seu novo namoro?

- Vai muito bem. Temos muita interação. Percebemos até no olhar o que o outro deseja. Ela é uma excelente pessoa. É super educada, gentil, dedicada e bonita para o meu gosto. O que admiro muito no seu jeito, é que ela sabe perfeitamente o que quer do futuro. Ela é uma pessoa muito convicta.

- Os seus amigos do camping ainda fazem parte da sua vida? Espere um pouco! Não responda agora. Acabou o tempo. Na próxima sessão a gente continua daqui e você me conta tudo com mais calma. Até a próxima segunda-feira, ok?Não se esqueça de passar na recepção para agendar o horário.

- Ok, doutor. Tchau.

7 comentários:

  1. Bacana saber que Re está vivendo de novo, voltando a sua vida normal!! Muito feliz fiquei aqui sabendo que arrumou uma nova namorada, ainda bem que a terapia está ajudando e muito. Além claro do apoio da família e dos amigos do camping. Lembrando tudo que passou é triste em saber como ele foi pisoteado pela Miss C e sua família egoísta, mesmo tendo prolongado muito e até sofrendo ameaças, conseguiu de reerguer de novo, dando uma nova chance, se sentindo mais em paz consigo mesmo, saiu daquele tormento . Ótima, passagem aqui super emocionada em ver que Re superou a sua depressão e tristeza! Adriana.

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  2. Mto bom saber q nosso amigo Rê, além de estar voltando à sua vida normal, já consegue se relacionar novamente, desta vez c/ alguém q está trazendo a felicidade de volta e q, além de ser uma pessoa íntegra, educada, gentil, dedicada e bonita, ainda tem mto bom gosto! (o Jon é mto lindo msm, vamos nos encontrar no show em Setembro!!!... \o/ Kkkkkk)
    Apesar de parecer cruel (e realmente é, mas é mto difícil oferecer a outra face!) o revanchismo de Rê, tbém é de se esperar esta atitude de uma pessoa já tão judiada por tnts outras crueldades vindas exadamente daquela a quem ele + se dedicou! Claro q ela não tinha nenhuma obrigação de retribuir a td aquele amor, porém nem ela nem qlqr pessoa tem o direito de brincar c/ os sentimentos do outro, mto menos ser tão ordinária cm ela foi!
    Nem sempre os sentimentos são recíprocos. Qtas vezes nosso interesse está naquela pessoa q nem nota a nossa existência?! Em situações assim, o melhor q o apaixonado pode fazer é partir p/ outra, e aquele q é o "alvo" deve respeitar este sentimento e ficar na sua. Aproveitar-se da situação é mta sacanagem e falta de caráter!
    A situação em q Rê se encontrava era de extrema necessidade de exteriorizar aquilo q o sufocava e a forma q encontrou, no ápice da sua angústia, foi declarar nas cartas ao ex de Miss C e nas outras enviadas à familia, td o q havia "engolido" no tempo em q esteve c/ ela, numa tentativa de aliviar o peso q carregava e de chamar a atenção ao q acontecia e ninguém via (ou não queria ver...)
    P/ a família ou p/ o ex, a atitude de Rê pode não ter provocado gdes mudanças além da vergonha e incômodo da exposição pública, mas c/ certeza fez td a diferença na vida dele!
    Pelo sim ou pelo não, não cabe a nós julgar os motivos q levam as pessoas a tomar determinadas atitudes; "cd um sabe a dor e a delícia de ser o q é"...
    BJSSS - Edneia

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  3. Sinceramente discordo de todas atitudes do admirador aqui. Poderia ter outro tipo de comportamento, particularmente se igualou a Miss C! Mas, vamos lá é apenas o meu ponto de vista. Tomara que Re siga seu caminho em paz.

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  4. Show saber que Re voltou a ser feliz de novo meu lindo autor, magnífico!!! Mesmo tendo sua vida totalmente conturbada por tantas avalanches, conseguiu voltar a plena consciência que nem tudo está perdido! Amei esse capítulo.

    Grande Beijo!

    Lúcia Bilbau

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  5. Infinitas razões teve o admirador pra ter chegado ao ponto que chegou, deu um basta palhaçada. Muitos podem até achar crueldade a sua atitude, mas não esquecemos que somos carne e osso e chega a um ponto que explode, e vira uma lama que respinga pra todos os cantos, foi um grito de desespero por parte dele , tudo acontecendo e ela o humilhou de uma tal forma que transbordou. Mesmo que não resolveu nada, foi dito e esclarecido por parte dele, sendo ignorado a meses, era um modo de chamar atenção. A vida cobra de uma forma que não temos idéia, saiba o que plantar pra colher frutos bons.... Uma lição de vida aqui seu autor, parabéns e achei super correto! Ana Lú.

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  6. Patricia Ramos Sodero28 de agosto de 2013 23:22

    INDIGNAÇÃO...essa é a palavra certa para o sentimento do nosso protagonista,nesse capítulo.Mas,ele não se deixou abalar.Colocou realmente um ponto final em tanto sofrimento,e parece estar realmente encantado com essa sua nova namorada.Agora,poderia sentir-se importante para alguém,de verdade!E saber que grandes mudanças virão!Miss C já é considerada um passado e não o incomoda mais.Muito bom ver nosso protagonista,Re,enxergando que sua vida pode ser recomeçada,e de uma forma sadia.Para nós,leitoras,uma grande reflexão das pessoas que pode-se ou não, serem consideradas amigas,independente se com elas,existiu algum relacionamento,algum sentimento.
    Adorei mais esse capítulo,que nos capacita de ver como as pessoas podem agir em certas VERDADES....
    Bjs e até o próximo....

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  7. ... E nosso "herói" consegue se livrar do relacionamento com uma pessoa destrutiva, cruel e desequilibrada emocionalmente conseguindo respirar livremente tentando viver em paz.
    Vamos ao próximo texto...

    Um abraço.
    Simone

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