segunda-feira, 22 de julho de 2013

Dear Miss C Part 22


   Doutor, eu me senti durante meses como um velho baú, um recipiente enorme vazando pelas frestas - coisas horríveis passaram pela minha cabeça - sensações estranhas que não me deixavam pensar com bom senso. 
    Sabe quando a gente sente alguma coisa cutucando lá dentro, mas não sabe definir o que é?
    Hoje busco explicações de qual serventia teria tudo aquilo dentro de mim. O único jeito que encontrei para obter respostas foi quebrar o cadeado e botar tudo fora. Examinei detalhe por detalhe para mandar ao lixo o inútil. Pergunto-me se todo esse restinho que se manteve aqui por tantos anos, e permaneceu como sucata ou espinhos com pouca serventia, teria alguma aplicação melhor agora?
       Eu sei que me tornei um pouco assim por esse peso acumulado em dois anos de convivência com Miss C - sinto-me repleto até o topo de coisas que ainda me incomodam. Vivo me perguntando que serventia teria o que não consegui expurgar. 
     O único alívio que encontrei foi tentar mandar tudo para fora em forma de cartas - o que, graças ao bom deus, virará um livro nas mãos do editor. 
    Mantive o olhar distante, porém, incansavelmente buscando o lixo escondido debaixo do tapete, expondo a podridão envolvida naquelas vidas e naquela casa. 
    Consegui me livrar um pouco do baque da decepção imperdoável que ela me causou com tanta indiferença. Mas, confesso que a minha internação não se deu unicamente por conta exclusiva dela ou dos motivos envolvidos em nossa relação. 
    Foi um motivo mais forte e de tal importância que me abalou muito profundamente e entrei em depressão. Não foi uma depressão causada por não saber lidar com a negativa dos seus cuidados, e nem por não admitir a mim mesmo que não pudesse ser contrariado. Garanto que o final do nosso relacionamento seria normalmente entendido, se não tivesse sido feito de uma forma tão covarde e cruel por parte dela. Afirmo com todas as letras, se algum dia ela tivesse me ouvido continuaríamos amigos por muito tempo, amigos de verdade. Daquele tipo que leva o segredo para o túmulo ou que dá apoio, sem interesses escusos, nos momentos mais difíceis da vida. 
    Algumas pessoas chegaram a me criticar como fiquei depois de tudo acabado - diziam até que eu era imaturo emocionalmente, que agia como uma criança birrenta. Mas que, por um lado, eu deveria tomar como um grande aprendizado o sofrimento que passei. Ouvi essas coisas, com outras palavras, de um terapeuta bem mocinho logo no começo do meu tratamento. O que me impressionou era que todos viam em mim o que eu não via. A opinião geral era que eu sofria de forma exagerada por um amor que talvez nem fosse amor de verdade. Com toda ajuda que recebi, consegui enxergar que esses dois anos ao lado dela (vamos dizer assim), foram mais marcantes do que deveriam ser – apenas um complicador extra para fatos mais graves que ocorriam na minha vida naquele tempo. Fatos graves que ela nunca se preocupou em saber, nem que fosse para perguntar por educação. 
    Diante disso, se o que revelei da sua personalidade continua com ela, como em tantos outros anos, e jamais teve solução, como teria agora? Do que adiantou fazer o que fiz? Eu já tinha problemas demais para tentar solucionar mais um. Na verdade o problema dela não era da minha conta e muito menos de qualquer pessoa que não fosse ela mesma. A gente só tem noção destas coisas depois de tudo feito. E o que está feito não tem como desfazer. Duvido muito que alguma coisa mudou depois do acontecido - esperança vã e tola por tanto esforço desperdiçado. Esse meu esforço poderia ter sido usado na solução dos meus problemas imediatos e bem mais importantes do que ela. Mas eu não vi assim.
     - Que lição aprendeu com tudo isso?
     Aprendi uma dura e triste lição: aquela família pertence a outro mundo, um mundo onde os diferentes são iguais nas atitudes e consolam uns aos outros por seus martírios. No mundo onde essa gente vive também se admira, com algum brilho no olhar, o mesmo por do sol que eu também poderia admirar da minha janela, numa linda tarde de inverno.
       Aprendi que essas lembranças que me perseguem continuam sendo de alguém que talvez jamais merecesse ser lembrada, mas a vontade foge ao meu domínio. São lembranças que funcionam como trastes velhos que se joga ao fogo, - quando de resto não há mais nada que se aproveite – e acabam gastando o tempo útil de quem deveria seguir adiante, mas não segue e fica parado admirando as cinzas como a espera de um empurrão.
       Eu poderia abrir esse baú mil vezes, ver o que tem dentro ou o que de importante esqueci, tentando encontrar respostas de tantos mistérios. Sei que se o fizesse nunca acabaria. Não, não me proíbo e até faço por onde buscar outros fatos importantes, mas estou cansado de tudo isso.
     Então, enquanto passei dias e mais dias pensando, - na casa de repouso em Itapira - uma decisão me veio à cabeça. Um objetivo frio, tranqüilo e determinado. Resolvi revirar todo o lixo que havia no fundo do baú. Expus e arrasei as paredes, esvaziei o coração de todo ressentimento, para eliminar a presença dela da minha mente de uma vez por todas. Fiz para tentar ao todo custo me curar da pior de todas as dores, a dor da alma. Ao mesmo tempo, vi que seria desonesto comigo mesmo se não abrisse o meu próprio baú, o baú do meu passado, da minha vida antes dela. E contasse todas as fases por que passei, - em todos os detalhes possíveis - mantendo a mesma reciprocidade na confiança que ela depositou em mim. Eu pensava; “Abrir para quê? O que ela pode descobrir de mim que já não saiba? Ou o que posso contar a ela que seja realmente importante para a continuidade do nosso relacionamento? De que adiantaria penetrar no meu passado, se o meu único interesse era viver o presente ao lado dela e nada mais"? Parece que a estratégia não foi certeira, a liga se tornou frágil demais, sem cumplicidade efetivamente forte. Mas se eu reencontrasse a linda Miss C que desenhei, tenho certeza, seria tudo muito diferente. 
     Com as coisas que aprendi, o passado não existiria mais - o dela ou o meu - claro que se um dia ainda houvesse essa possibilidade, garanto que o encontro real seria magnífico. 
    Fico imaginando como passei esses anos preso a essa ilusão, ao seu cheiro de menta com eucalipto, enquanto a vida verdadeira girava sem sentido ao meu redor. 
    Tudo aconteceu diferente e se transformou, eu continuei sempre à sua espera - fosse de noite ou de dia, o cheiro de menta com eucalipto anunciando a sua chegada ao meu mundo. 
    Imaginei tantas vezes que a vida era feita por estes detalhes. Uma enorme colcha de retalhos, um quebra-cabeças, pedras detalhadamente cortadas que compunham um piso perfeito quando reunidas. Antes e talvez depois, jamais tive capacidade de observar o mundo como um todo, digo, num sentido abrangente. Fui colecionando pedaços, instantes, momentos e pequenos trechos. Quando finalmente consegui reunir tudo, deu em que? Ao codificar o que faltava, faltavam elementos essenciais, abandonei o que era mais importante, iludido por aquele aroma maravilhoso. Fiquei totalmente entregue ao cheiro de menta com eucalipto que vinha perfumado de sua boca, principalmente à noite e nas madrugadas, e as mãos tocando cada pedaço do meu corpo; dedos sorrateiros em busca do click que abriria a porta do meu coração – eles deslizavam tão suavemente que com o máximo de dois ou três toques me entregava por inteiro.
   Se eu me mantivesse forte, talvez sentisse em pouco tempo o seu hálito verdadeiro - o cheiro da podridão efetivamente real, não aquele produzido por freegells extra forte que aceitei como realidade. Também, deveras, já tinha perdido o conceito de senso de análise e de autoproteção.
   -  Não entendi essa última parte.
Por que o senhor não entendeu essa última parte, doutor?
Vou tentar explicar de outro jeito. Não querendo me justificar, mas preciso sempre encontrar algum defeito nela, coisas que me façam acreditar que não valia mesmo a pena continuar. Só que, espero que entenda e sei que entenderá, tenho o direito de me admitir confuso agora, mas antes foi pior, estava sem direção, sem onde me apoiar, apenas restou uma enorme vontade de escrever cada detalhe sobre tudo.
   Tomado de delírios, continuei pensando sem parar, abafado, sufocado. Nunca tive falta de ar, mas, depois da internação fiquei estranho, inspirando e expirando com força, dificuldade até para caminhar, o corpo começava a dar sinais que algo não estava bem e ficando pior.
Nunca mais voltei ao normal na respiração. Nessas horas é que imagino se tenho o direito de continuar revirando o baú. Não é tão simples o quanto se pensa, nem sempre basta levantar a tampa e expor o que tem dentro indiscriminadamente. Pois, na atual circunstância não é mais problema meu se um dia Miss C vai voltar, ou não. O que me aflige é o que ocasionou, ou, infelizmente, pode ocasionar a ambos depois de toda verdade revelada.
       Eu me lembro muito bem que havia um acordo entre nós, e que deveria ter continuado - era sobre o mínimo de lealdade que poderia ter existido, e nunca existiu. E isso não é jogar a culpa nela e me fazer de vítima. Quando afirmo essas coisas é por que foi ela que se desviou do caminho que traçamos, fez isso por um objetivo maior que eu. 
  Um dia o nosso diálogo começou assim:
- Olha Re, se eu viajo com você, é por que quero estar ao seu lado. É por que acima de tudo gosto de você. Sinto uma sensação de segurança e bem-estar que nunca ninguém me deu.
- Mas o que o seu pai diz do nosso namoro? perguntei curioso.
- Ele não diz nada. Eu procuro não entrar em detalhes. Quando alguém toca no assunto eu saio de fininho. Não quero ficar dando satisfações.
- O que o seu pai sabe de mim?
- Ele sabe que eu escolhi você. Por favor, esquece essa bobagem! Eu poderia ter escolhido qualquer outro cara naquele site, mas preferi você. A primeira coisa que me chamou à atenção foi que você não escreve errado ou tudo abreviado. Odeio quem escreve assim no MSN. Isso foi um ponto ao seu favor.
- Certo. Mas, insisto numa coisa: o seu pai aprovaria o namoro se soubesse da nossa diferença de idade?
- Claro que não aprovaria. E muito menos se soubesse o que você faz para sobreviver. Ele não quer que uma de nós se case com um “João-Ninguém”.
- Então, como a gente fica nessa situação? Eu não tenho o que oferecer. E muito menos do que me gabar quanto aos bens materiais.
- A gente vai namorando. Devagar ele se acostuma com você. Não ligue muito para o que ele fala ou atitudes que o intimidem. Ele é assim mesmo, meio carrancudo.
- Tá certo. - disse eu, já bem desanimado.
- Re! Entenda de uma vez por todas! Eu não precisaria dormir em barraca, passar as privações do camping, tomar banho de água fria no inverno e nem dormir no chão. Eu gosto de conforto. Eu adoro o meu quarto, minhas coisas. Se eu estou com você é porque eu quero estar, mesmo que a minha família não aprove que eu me submeta a tudo isso. Se eu aceitei namorar, viajar, viver a sua rotina e a sua vida, é por que sinto a sua falta quando passamos algum tempo afastados. Quando você aceitou que eu trouxesse os biscoitos da sorte tudo se acalmou lá em casa. Ninguém me jogava na cara que eu viajava com você apenas por diversão, por aventura... Os biscoitos da sorte - acredite ou não - possibilitaram a nossa aproximação, já que se eu quisesse passar com você algum final de semana, teria que ir para onde você fosse, certo?
      Ahhh meu caro doutor, eu queria tanto ter a força para destruir o baú, não olhar o que mais há dentro dele. Mas cada vez vejo coisas diferentes, vejo todas as vezes que arrumei aquela mesa e colocava ordeiramente os biscoitos da sorte que ela me passava com delicadeza. As instruções eram precisas: “Este lado para cima, o laço da fita para a direita”. Por que será que os tecidos finos cheiravam essência de baunilha? Em todos os finais de semana fazíamos uma revisão em cada embalagem para evitar surpresas, era para o caso de algum inseto ter passado por ali na exposição ou armazenamento.
    Ela entregava os pacotinhos e ficava me olhando. Se havia uma coisa nela que eu adorava, era o jeito de me contemplar. Em muitos momentos era gratificante. Mantinha os olhos sempre meio abaixados, mas via tudo, cada detalhe no posicionamento dos seus produtos na mesa. Na maior parte do tempo parecia tímida e envergonhada. Por esse jeito de olhar é que gostei dela. Naquela mesa se derramava a respiração ofegante de menta com eucalipto, - sexta, sábado e domingo, do amanhecer ao anoitecer – ela sempre deixava um drops inteiro ao lado da cama ou embaixo do travesseiro. Usava uma pastilha durante a noite ou quando acordava.
    - Por que você gostava daquele jeito de olhar?
         Sabe doutor? Nunca gostei de quem me olha diretamente nos olhos por muito tempo. Gente que encara, obriga a gente a encarar também. Nunca consegui, desde criança, fazer aquela brincadeira de quem fica mais tempo sem piscar. Eu perdia sempre. Quando vi que ela me olhava discretamente - me observando sem que eu percebesse - me apaixonei de cara.
    Alguns segundos de silêncio...
    - Eu sei doutor, as lembranças em certos momentos ficam truncadas, perco o ritmo, o senhor pode achar que a minha cabeça é louca - numa hora conto coisas ruins e em seguida coisas boas a respeito dela, não é? Mas, o que posso fazer? Era assim a nossa convivência. Nossas emoções viviam num sobe e desce diuturnamente e tudo parecia muito incoerente. De uma hora para outra o convívio se tornava tenso e com um sentido aparente completamente diferente do que era antes. Devido a tudo isso, já nem sei se consigo me relacionar seriamente com outra pessoa. O problema é que sempre fica uma sensação de que alguma coisa ainda não foi resolvida entre ela e eu. Pensando nessas coisas vejo como era diferente a minha vida ao lado dela e a série de rituais que existiam nos nossos modos, - alguns meus e outros dela – podíamos sentir o quanto estávamos presos a eles e nos mantínhamos assim.
   Agora, por exemplo, me sinto completamente abandonado diante desse baú imaginário. Por que jamais mexi nele sem ter Miss C me ajudando a revirar tudo, - as recordações presentes se tornaram permanentes enquanto ficávamos praticamente juntinhos, conversando, contando detalhes de anos passados. 
    Ela sempre me ajudava a retirar do carro a bolsa com os biscoitos da sorte, a mesa dobrável, as cadeiras azuis que viraram pretas e todo o resto daquela enorme tralha que carregávamos. Quando eu terminava a arrumação, passava a mão nos ombros dela e íamos preparar o lanche com a mini cafeteira de café expresso - o vapor expelido do bico metálico servia para esquentar o leite. Era como se fôssemos para um banquete, uma festa, uma comemoração a dois. Era mais um dos nossos rituais. À nossa maneira vivíamos muito dependentes um do outro, achávamos que nos bastávamos num momento como esse. Estávamos bem, mesmo dentro do enorme silêncio que nos envolvia vez ou outra. Na mesa improvisada, fazíamos o café com leite e o leite com chocolate em pó que ela gostava (ela evitava café). Abria agilmente a lata com biscoitos, nas vezes que emperrava, ela pedia que eu girasse a tampa.
       Eram latas e vasilhas plásticas grandes e pequenas que enchiam a caixa do nosso kit-sobrevivência. Cada dia ela trazia um bolo novo, uma bolacha recheada diferente, biscoitinhos salgados recheados de queijo cheddar, outros eram furados no meio, retangulares, quadrados, havia em formato de estrela ou meia lua, triangulares, até um tipo de pão de mel com goiabada. Cada tupperware vinha cuidadosamente vedado, guardado em lugar seco e fresco, conservando por dias os biscoitos sequinhos e crocantes, mais o pão de forma macio. Os pacotes de biscoitos eram abertos num rodízio. Quando vinham visitas em nosso ponto de venda ou na barraca de camping - Zé Louco com a sua turma de seguidores malucos, e outros tantos colegas e conhecidos, - o que não era raro - a nossa mesa se enchia de bolachas de todos os tipos, caprichosamente arranjadas em pratinhos de sobremesa. Mas quando a visita era apenas de Zé Louco tudo parecia hilário. Ele tomava um gole de café puro e em seguida fumava um cigarro fedorento que impregnava o ambiente, logo ia embora às pressas para atender o seu séquito.      
     Café, leite e chocolate. O que custa satisfazer as nostalgias, não é mesmo doutor? Se ela quisesse, tudo teria continuado assim. Moraríamos em qualquer bairro, mesmo que numa casa pequena, porém sempre gostosamente aquecida com a presença dos amigos queridos. No inverno, era só fechar tudo como fazíamos no camping - deixando o calor invadir cada canto. Hum, me dá até água na boca a lembrança desses momentos. Às vezes nem é bom lembrar tais coisas. Aliás, nem adianta mesmo lembrar que não seja por um motivo justo, por exemplo, uma terapia. Mas que era bom aquele tempo, isso era. Claro que tinha um montão de inconveniências, como já ressaltei tantas vezes, mas com o tempo a gente amolece; tudo perde a importância e o que nos encantava vira uma sombra para carregar pelo resto da vida. Por isso grito interiormente: “Traição, Miss C”! Senti como se tivesse sido enganado todo o tempo. Ela carregava tantos problemas que não sabia contornar, que era quase impossível saber tudo o que acontecia durante a semana em sua casa, e em apenas algumas horas, de um final de semana com conversas entrecortadas por clientes, amigos e o nosso momento de entrega e paixão, dar alguma solução. E piorava porque ela era contida demais, mas precisava de alguém que a ouvisse, alguém em quem confiar. Controlava-se o quanto podia, demorou a se soltar - nem ouvindo músicas se permitia demonstrar alguma emoção. Sempre fixada nos afazeres da mesa com os biscoitos da sorte como entretenimento permanente. Em alguns momentos parecia insatisfeita e obcecada com a organização. Custei a convencê-la que deveria ter paciência, que deveria exteriorizar seus sentimentos conversando um pouco comigo. Depois, muito depois de ver que ela se sentava cansada de tanta arrumação, eu me aventurava a fazer perguntas sobre a vida. 
     Aos poucos foi descortinando cada fase e com bastante medo que estivesse contando coisas certas à pessoa errada. Eu percebi que, para quem passou anos amarrada a um compromisso de namoro longo, - praticamente amordaçada, sem ter a quem contar os seus desejos mais sinceros e temores íntimos - ela transformou completamente a sua cabeça com a minha disposição para ouvi-la. Penso que foi por essa razão que desejou tantas vezes viajar comigo. Estranha Miss C!
    Foi então que pela primeira vez se afastou, quando acreditava não ter praticamente mais nada para contar. Não havia o que desabafar no ombro amigo, já que a vida corria com certa ordem em seu lar. Daí em diante ficou apenas a espera de um ponto para se agarrar me deixando ser carregado pela maré. Precisava de algo que justificasse o nosso rompimento, uma satisfação convincente à família. Amadurecia a ideia em sua cabeça, esperava pelo momento certo. Um modo de me dizer diretamente o que desejava sem a oportunidade de explicações e nem dos por quês da minha parte. Foi quando demos tempo ao tempo. E não precisava ser um adivinho de pensamentos para saber que ela se sentiu aliviada ao perceber que eu não mais tentaria contato. Os meses passaram em silêncio enquanto ela ampliava os negócios ao lado da irmã. Ninguém imagina o tamanho da saudade que senti. Mas ela nunca se importou se eu sentia saudade, nunca mesmo... As suas preocupações eram outras. 
    Ninguém imagina o quanto é difícil esperar por alguém que nunca vai chegar, e que nunca vai ligar para perguntar qualquer coisa tola - ou se importar em saber como andam as coisas. A minha vida, a partir desse momento, virou uma vida pela metade. Eu confesso ao senhor, meu caro doutor, do fundo do meu coração, eu continuava procurando por Miss C. Buscava um pedacinho dela em outras mulheres. Pequenos detalhes que só ela tinha. Podia ser aquele jeito de olhar, ou os sabores que ela gostava, até as mesmas opiniões sobre pessoas ou acontecimentos. Por mais que eu encontrasse coisas tão parecidas em outras mulheres, eu sabia que jamais teria outra igual a ela - daquele jeitinho que eu a imaginava nos primeiros meses. Eu queria tanto me permitir amar alguém de novo, confiar em alguém como confiei nela e ela em mim. 
     Foram tantas vezes que imaginei alguém chegando e me mostrando o mundo como nunca vira antes. 
    Eu pedia a deus que me mandasse alguém totalmente diferente dela para que eu pudesse esquecê-la de uma vez. Uma pessoa com outros tons, olhares e paixões. 
    O que mais me deixou triste foi saber que em algum momento da breve caminhada nos apaixonamos um pelo outro, mas, a paixão não vingou como deveria. Eu me senti culpado durante muito tempo, como se não tivesse feito o meu melhor, dado o melhor de mim a ela. Passei assim... Mas, depois de meses de total ausência, sem que eu esperasse, algo novamente mudou em sua atitude comigo. Uma mensagem apareceu no e-mail pedindo retorno, com demonstração de arrependimento e a esperança de começar do zero outra vez.
Pois é... Eu fiquei super feliz e aceitei de bom grado o seu contato, meu caro doutor. E uma segunda etapa se iniciou em nossas vidas.


7 comentários:

  1. Patricia Ramos Sodero23 de julho de 2013 21:38

    É,Sr.Autor.Vejo que realmente,nosso personagem confessa sua verdadeira paixão,mesmo que muito confusa,por sua musa,Miss C.Este baú,a que tanto se refere ao terapeuta,na verdade só são as características da personalidade de Miss C,a qual Re,coloca na "balança",para ver se existem possibilidades da volta,da reconciliação.Ele consegue enxergar,em meio há tantas falhas e golpes,o seu lado carismático.E "leva"o tempo em que ficou internado,como a lição e prova de que podem recomeçar,sem medo de deixar o passado atrapalhar mais uma vez.
    Achei um belo capítulo de reflexão, Renato,onde as pessoas podem analisar umas as outras com mais calma,mesmo depois de alguns tropeços.Acho que todo o ser humano,merece novas chances,caso mostre interesse em realmente enxergar ao próximo.Agradeço sempre por nos fazer passar momentos de intensas análises!!! Parabéns e até o próximo...Bjs...

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  2. Já estava na hr do Rê ser ressarcido por td atenção e amor dedicados a Miss C, msm q p/ isto tenha q revirar o baú e recordar o passado doloroso ao lado dela e assim eternizar sua saga nas páginas de um livro. Um passado q não foi construído apenas por desilusões, já reconhece o próprio Rê. Um passado q tbém teve momentos de cumplicidade e dedicação mútua, msm q visando interesses distintos, mas q originou um sentimento tão profundo capaz de romper conceitos e barreiras.
    Diante de um sentimento cm o de Rê, seria quase impossível q sua Musa fosse somente a representação da futilidade, do egoísmo e do maucaratismo. C/ certeza, não foram estes os adjetivos q o conquistaram, bem cm não seria surpreendente descobrir as falhas dele no decorrer do relacionamento, o q tbém pode ter motivado a separação dos dois.
    Seja qual for o motivo, aguardo ansiosa o desvendar deste mistério, Sr. Autor! BJSSS - Edneia

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  3. Desculpe, mas não entendi muita coisa aqui, tem que ser "eu" minha cara, srsr. O que conta aqui não tem muita novidade, além de falar sobre o que Miss C fez com o admirador! Falar sobre o comportamento e atitudes já sabemos, mas real mesmo está oculto! Re sofreu porque quis essa é a verdade, e agora revelou ao seu terapeuta que deu uma segunda oportunidade, então, meu amigo pegou a prova com as mãos!
    Na minha visão, quando terminamos não tem porquê dar chances, já que quando estavam juntos não tinha dado certo, não iria ser nessa, certo! Analisando de vários fatores que ocorreram nessa relação doentia, Re foi fraco e burro!

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  4. Quem de nós não possui um baú dentro dê si? No qual guardamos tantas coisas: lembranças, mágoas, ressentimentos, culpas. E por quanto tempo deixamos tudo isso bem lá no fundo para não sofrer? Até que chegam momentos em nossa vida que precisamos revirar ou até mesmo limpar esse baú. É o que o Re, descreve com tanta intensidade neste capítulo: a hora de limpar o seu baú, nos relatando todas as lembranças com sua Miss C, tanto as ruins, como sua indiferença e sua falta de lealdade para com ele, mas com muito mais veemência os momentos bons que ainda conserva guardado dentro de si, assim como seu amor por ela. Momentos simples e corriqueiros na vida de um casal, mas que foram marcantes para ele, descreve com detalhes a forma como ela organizava a mesa, o jeito que ela olhava para ele, o cheiro de sua boca, as longas conversas, na qual ele buscava desesperadamente conhecer aquela mulher, que apesar de estar tão próxima fisicamente se mostrava tão distante emocionalmente. Percebe-se que com essa “limpeza” no seu baú ele sente-se perdido, totalmente vazio sem ela, até tenta encontrar em outras mulheres um pouco de Miss C, mas diante de tanto amor, ele sabe que isso é impossível, ninguém jamais vai substituí-la dentro de seu coração, e isso se torna mais evidente quando ao final do texto ele nos faz a grande revelação: ela quer uma segunda chance. E nem passou pela sua cabeça em dizer não, era tudo que ele queria ouvir dessa pessoa que tanto mal fez a ele... Mas que é um pedaço dele.
    Aguardo ansiosa pelo próximo capítulo Renato, dessa historia que fica cada vez mais envolvente.
    Beijos.

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  5. É muito simples dizer ao outro o q ele deve ou não fazer,o q ele deve ou não sentir. Quero ver qdo as posições se invertem e vc passa a ser o outro.Teorias e regras são muito fáceis,qdo são ditadas para outra pessoa,pois qdo é vc q tem q passar pela experiência,as coisas mudam e as tais teorias e regras,passam a não ter sentido algum.Amor próprio,todo mundo sabe q é importantíssimo se ter,só q em determinadas situações as coisas não são tão simples assim.No começo desse conto,eu achava q Re era um fraco q não tinha amor próprio,q se deixou levar por uma mulher q o usava e manipulava a seu bel prazer.Só q não é bem assim,ele teve seus motivos p/se deixar levar por toda essa situação,amava essa mulher,acreditava nela e tinha esperança q os dois seriam felizes juntos,quem não pensa assim qdo começa um relacionamento?!Eles tiveram bons momentos,tanto q o próprio Re fala da sua Miss C c/carinho,mesmo depois de td q ela lhe fez.Procurou através de suas cartas,ajudar a ela e a sua família e ao mesmo tempo,quis exorcizar os demônios q o fizeram chegar onde chegou.Investiu nesse relacionamento muito mais q ela,se doou de corpo,alma e coração,mas não teve o retorno merecido.Parece q ele precisava dela,muito mais q ela dele,mas ela nunca deixaria seus interesses em segundo plano,o egoísta é assim,não pára p/pensar e se preocupar c/alguém q não seja ele próprio.Agora só nos resta aguardar a revelação desse segredo q envolveu e acabou totalmente c/essa relação.Estamos muito curiosas viu Renato?Bjus.

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  6. Coisas da vida pra não dizer do destino, Re sofre ainda só de relembrar fatos ocorridos com Miss C, mesmo que tenham passado alguns momentos bons de viagens por interesse que isso já está comprovado, não justifica atitude promíscua. Quer dizer que ela só aceitou namorar com ele quando estava na pior? Fácil assim, depois descartá-lo como se fosse um objeto. Amor ali nunca existiu, até penso que Re se confundiu no seus sentimentos, imaginando que era amor. Vamos admitir aqui que Re já vinha com problemas psicológicos sérios, bem antes de conhecê-la, que explodiu depois do término. Os 2 têm sérios problemas de conduta, agora vamos aguardar o que realmente aconteceu, nesse episódio; Adriana.

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  7. Dói reviver o passado mesmo que esteja fazendo terapia Re deve estar fazendo um grande esforço pra mexer no baú, que até então estava fechado a 7 chaves! Está sendo mais forte que imaginava, absurdo o que Miss C fez, apenas usando pra seu próprio benefício super egoísta... Querendo provar pro pai que podia seguir outra carreira, já que não estava se dando bem naquilo que se formou. Poderia ter sido honesta e dizer ao Re que via como apenas amigos seria mais digno e menos turbulento. Ou será, que ela deu sinais e ele não perceber por estar super apaixonado?? Grandes revelações serão feitas aqui, espero com muita curiosidade, Sr. Autor!!!


    Grande Beijo!


    De sua amiga Lúcia Bilbau

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