Confusão!



 A única coisa que resta a  fazer é voltar para casa.
O caminho é feito em silêncio.
O radio do carro toca wake up little suzie.
Não há ninguém para perceber o meu desencanto,
penso numa coisa atrás da outra sem parar.
Dirijo devagar, limite mínimo de velocidade da minha imaginação.
Semáforos piscam no amarelo, altas horas da madrugada.
A cidade não tem pressa para acordar,
Não existe uma só alma na rua para meu alento.
Fico inquieto num instante,
principalmente com o que chega de repente.
Nada mais que uma grande maluquice,
no momento seguinte uma voz - a sua voz.
Queria tanto poder adivinhar o que representa tudo isso.
I know I have to go away canta suavemente Cat Stevens.
Penso comigo:
“Não sei o que mais você esperava de mim naquele encontro.”
Burning Love!!
Tudo dito assim parece tão vago, 
é porque estou numa aventura louca,
sem pressa e sujeito à rebeldia extemporânea.
Como isso é fantástico e renovador!
Mas agora, pensando naquela situação,
não desejaria isso para ninguém.
A minha visão, nesse período de transição,
foi do encantamento à desilusão.
Se parece com a da testemunha ocular,
que viu a gente conversando e se escondeu.
É triste imaginar assim, mas,
algumas das minhas mais profundas convicções permanecem intactas.
E se alguém me perguntasse, então poderia dizer:
estou fadado ao fracasso e destruição.
A noite pode ser longa, mas a manhã logo chegará,
fico perdido em pensamentos tolos.
Todos objetivos parecem cruéis e desconhecidos.
Não reconheço o que eu era, nem o que eu sou.
Falta de crença no ser humano, em mim também.
Recebi toda verdade na cara mais uma vez,
é a minha realidade.
Fracasso! 
Em nome do desejo.
Um desejo escondido aqui dentro,
mostrando a minha expressão em linhas tortas.
Traços falsos. 
Confusão!
Mantenho a crença nos acontecimentos,
prazer e compensação na confiança da batalha seguinte.
Help me now, please my friend, I never felt so bad before.
Este refrão me guia no desespero, isso me inspira prazer, olhar compenetrado.
Estou ligado a você na sanidade da vida ou na loucura do vazio?
Você e eu outra vez na mesma trilha.
Barreiras imaginárias, sinal vermelho: stop!
O mestre das trevas levanta-se do trono.
Enquanto tento tolamente desvendar todos os enigmas,
a mente se refugia no infinito, tudo deve ser pensado antes do ato final.
Negação ou aceitação?
Ainda sou dono de mim com o comando nessa ação?
Pensamentos fluindo assim têm significação.
Aqui dentro há algo que consigo expressar com violência.
Isso é tão ridículo!
Um impasse crucial abala a minha paz de espírito - nova consciência.
São tantos pecados que dizem que cometi.
Tenho conhecimentos tão restritos do seja isso.
Talvez, sei lá...
Os pecados são as dores de outros nas minhas sensações.
De fato, nada disso teria importância se você tivesse sido diferente,
em nossa primeira vez juntos - uma mera confusão de interesses!
Sem querer eu vejo que isso me consome aos poucos.
Até quando a confusão vai continuar?
Não acredito no que dizem,
não acredito que o que aconteceu tinha de acontecer.
Indo e vindo ouvindo to love somebody.
“Baby, you don't know what it's like”
O mesmo timbre de voz, a mesma melancolia no cantar.
E para cada novo olhar o mesmo brilho e a mesma surpresa.
É algo tão poderoso e misterioso que toma conta de mim nessa hora,
vai além... 
Além do que se chama I can see clearly now ao balanço do reggae.
É bem mais que isso.
É uma prática devotada - elaborada em cerimônias eternas.
Talvez num clima rastafári secreto.
O verdadeiro respeito pelo desconhecido está em mim.
Você e eu fluindo com estilo.
Compartilhando a sabedoria dessas forças incontroláveis;
crenças e superstições. Lendas eternas...
Como são os psicopatas satânicos agindo nas sombras?
Ninguém sobrevive para dizer se sou assim.
Ela não sobreviveu para dizer se sou assim.
Pouco se sabe sobre a minha origem verdadeira.
Alguns dizem que fui concebido para praticar o mal,
logo depois do pacto feito.
O rastro de violência é tudo que deixo para trás.
Comentam que minha ação é perversa e doentia,
permaneço incógnito no underground.
Depois do sétimo ato naquele corpo, consegui o que queria:
olhos vendados, partes expostas, assuntos íntimos.
Mensagens em sangue escritas na parede.
Algo poderoso e sujo se esvaiu daquele cenário.
Aquela vida virou lenda. 
O lado sombrio sempre fala por si só,
num beco qualquer ou
numa cama de motel vagabundo.
O rádio da polícia avisa:
“Encontrado mais um corpo de mulher banhado em sangue”.
Talvez eu tenha me tornado a concepção mais brutal da sua evolução.
Sou o que você quiser que eu seja nessa hora.
Sou o que preciso ser e digo “que assim seja”.
O nosso destino foi traçado, estamos juntos na mesma estrada.
Os meus olhos ainda passeiam de um canto a outro dessa cidade,
 imaginando o que direi aos pais da moça que confiaram no meu sorriso.
A única coisa que resta é voltar para casa,
acompanhar o noticiário da manhã com espanto no olhar.
E como se nada tivesse acontecido, 
adormecer ouvindo Helter Skelter até o dia clarear.

NOTA DO AUTOR

   Esta é a história de um cara piradão que mata mulheres que confiam nele.  Ele faz um pacto com o Capeta. O doidão acha que as músicas que tocam no rádio passam mensagens do seu mestre - são frases interpretadas aleatoriamente por sua mente doentia -  revela no final que a sua principal inspiração é Helter Skelter dos Beatles. Ele sabe que a música tem uma história curiosa, o que inspira seus atos.
Um maluco chamado Charles Manson foi o líder de uma comunidade satânica nos anos 60 na Califórnia. Ele estava convicto que os Beatles eram os 4 cavaleiros do apocalipse mandados à terra pelo diabo. Acreditava que as letras das músicas eram mensagens cifradas para ele e seguidores da seita. Segundo Manson, a principal mensagem estava na música Helter Skelter (Brinquedo de parque de diversões, ou uma expressão que pode ser traduzida como “Confusão”).

No seu entendimento a música sugeria que a trupe saísse matando pessoas - os seguidores da seita colocaram isso em prática rapidinho. A vítima mais famosa foi Sharon Tate, esposa do diretor de cinema Roman Polansky, ela estava grávida de 8 meses. Após o assassinato de Sharon, e mais 4 pessoas numa festa na casa da moça, os piradões escreveram a palavra Helter Skelter na parede com o sangue das vítimas.
Esta crônica está baseada nesta cena. O texto é a história de um cara que imagina nas músicas que tocam no rádio, mensagens do demo para o que ele tem que fazer. Ele mata mulheres e joga a culpa em suas vítimas. Após ter realizado mais um assassinato ele vai tranquilamente dormir ao som da música Helter Skelter, como se não fosse ele o autor do crime – ou agindo como todo psicopata que atribui culpa aos outros pela motivação de suas ações. 
As músicas famosas citadas no texto são as seguintes: Father to son - Cat Stevens, Never Before - Deep Purple, To Love Somebody famosa na voz de Janis Joplin, originalmente composta e gravada por Bee Gees e I can see clearly now de Johnny Nash, que também ficou famosa na voz de Jimmy Cliff. Citação de Burnin´ Love (Elvis Presley) e Wake up little suzie (The Everly Brothers). 
Considero o texto simples e de leitura fácil, porém é melhor para quem conhece alguma coisa da história em que foi baseado. Mas, assim como todo texto poético, também pode ser entendido de acordo com o olhar de cada leitor. É importante observar que ele começa pelo fim. O doidão voltando para casa vai lembrando do que fez minutos atrás. Mantém em sua lamentação arrependimento pelo mal feito, apenas pelo medo de ser descoberto, tendo em vista que havia uma testemunha ocular na cena do crime.

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