quarta-feira, 26 de junho de 2013

Poderia Ser Eu, Poderia Ser Você

   O meu olhar na tela revela o desconhecido, estou aprisionado, suspenso pelo foco, pelo brilho – pura magia e perplexidade.
Tudo o que vejo, e que se faz aparente nessa imagem, são braços erguidos, pernas em marcha e ombros fortes no enfrentamento.
Quem está nessa tela poderia ser eu, poderia ser você.
Com os cabelos ao vento, artérias pulsando, veias saltando, olhos ardendo.
Cercado por bombas, estouros, fumaça e atmosfera densa.
Marchando com todas as razões, pisando em estilhaços ou nas sombras das grandes marquises, deveras, unindo-se a uma turba, numa química indissolúvel, infalível...
Diante dessa tela, onde estão essas coisas todas, estou protegido dos efeitos, de toda confusão, até do metal e da borracha, e quem dirá dos absurdos e desejos maldosos.
Posso ficar atento, julgando, absolvendo ou condenando, tudo na fluidez do meu olhar.
Ou ao ritmo do hino cívico na televisão intercalado do rock and roll radiofônico que toca 24 horas sem parar.
Vou fazendo ideias, juntando uma porção de palavras sem nenhuma conclusão. 
Vejo na repulsa da população os políticos com o cu na mão.
O que passa na tela se vai, minha paciência se vai.
Cai sobre mim o céu, as estrelas e o ad-eternum em toda escuridão do meu olhar.
Em seguida a mente se enche de jardins e de flores aos agressores...
Boas intenções brotam dos gestos, das bocas, preenchem os vazios.
Ninguém presta atenção nas mesmas vozes que se repetem a todos ouvidos surdos,
E não há quem saiba o que fazer e nem como agir.
Alguns se ajoelham, curvam-se diante do grito de comando.
A manutenção da ordem marcha com escudos e coturnos, a anarquia marcha com pedras e coturnos, os punks marcham com símbolos, paus e coturnos.
Logo me aproximo mais, vejo os meus olhos em cada um desses olhos - misturado a tantos e identificado com alguns.
Num instante da vida tudo vira fragmento, segue-se o prazer e a dor.
A lei obriga a não chegar mais perto, não penetrar na tela, no vidro do palácio. Para a turba: limites marcados numa risca no chão, tudo o que se vê não é mais ilusão.
Há confusão no pensamento, o brilho das estrelas é ofuscado por pactos que se diluem em tantas medidas sem medidas, em mistérios nos ministérios.
O meu bolso está vazio e ainda não há respostas às minhas perguntas.
Tento me recompor imaginando que fim teria se o percurso fosse interrompido.
Se ao término de tudo, a sequência de transferências
E de responsabilidades se perdesse no tempo,
Ou fosse medida por mecanismos imprecisos e ações ditadas por divagações compulsivas.
Os discursos de inutilidades, inventários obscuros e conexões impossíveis continuam -  comigo, com você – para eles e para nós.
As afinidades temáticas, de projetos ou imagens, novamente se tornam herméticas, quase censuradas.
Constatação óbvia: toda roda necessita de um impulso para girar, um impulso provocado,
Talvez um sopro.
O mesmo sopro que balança um pêndulo dando sensação de energia e equilíbrio.
Paro um minuto para pensar:
"Quanto mais fundo vou com isso, maior o meu desconforto com tanto descaso, isso quase me sufoca, causa asco."
Não é apenas a carne e o sangue que estão expostos na avenida, não, não é... Isso é a alma em pânico, o espírito de indignação em crescimento.
É a classe média nas ruas, como a média da população para quem os políticos fazem “média” todo dia.
O líquido que espirra das veias contamina, coagula e seca a dignidade humana.
Impõe silêncio ao ruído que clama justiça.
Não dá mais para negar, nem se retrair diante dos fatos,
Mesmo que o destino adiante seja um caminho trágico.
A tormenta se materializa em caos, numa ode raivosa e sentimental.
O ser individualizado se torna social, 
Toda intimidade se destrói,
Transmuta regras e se transforma numa pluralidade incondicional em torno de suas vontades.
As mudanças estão na transcendência da normalidade imposta por alguns e na melancolia provocada pela atual condição de metamorfose de outros.
O novo causa medo, insegurança e lamentos por protesto viscerais.
O osso está roído, acabou-se entre arcos, colunas e mastros de bandeiras enfileirados.
Nas ruas planas segue o povo descontente, desobediente, rebelde, cheio de ideias.
Pequenas nuvens sobem a caminho do céu.
Estaria o povo a caminho do inferno? Chega perto. Aproxima os pés, mas não pisa.
Diante dos holofotes contém-se.
Experimenta, anda um passo adiante, em direção ao campo de pilotos kamikazes.
Dentro de instantes chegarão mais convidados para a festa popular. 
Os rebeldes caminham em direção ao inferno?
Alguns empunham livros de leis maiores,
Outros pensam em algo para fazer, 
Deslocam-se ordeiramente no asfalto ou na grama.
Como é poético esse andar, tão gracioso, 
É quase elegante descrever essas coisas assim.
Toda harmonia tem uma base matemática, isso é didático. 
Um luxo.
Análises frias, homens, mulheres, pontos não identificados.
Flashes dos helicópteros.
Busco um assento e espero o que vai acontecer.
Tudo não passa de uma farsa televisiva, altos índices de audiência, 
O povo talvez alcance uma parte do seu intento.
Que venha esta composição, com arestas aparadas, 
Um quadro incompleto à espera de pinceladas.
Mais discursos prontos em profusão: 
Lábios com batom vermelho, tristeza em traços marcados, cílios esticados, cores foscas no olhar – olheiras.
Recosto na poltrona, que, por sua vez, foi puxada para mais próxima da telinha.
Que mulher de olhos mais melancólicos!
Ela marca ponto a ponto suas afinidades enumeradas com o povo.
O blá, blá, blá segue obrigatório, vai além-mar.
A luz amarela virou azulada. Ela acha assim.
Segue mais um dia de vigília televisiva.
Um orgasmo quase antinatural  por alguns minutos ou por algumas horas.
Parado assim, num entreato, a melhor cena é do barco afundando enquanto os ratos pulam no oceano em chamas.
Estou em Sampa, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza e Porto Alegre, tudo ao mesmo tempo. 
Ou em tempo nenhum.
O Rio de Janeiro tem o Maracanã e a Candelária. 
A ponte gigante foi tomada pela polícia rodoviária. 
A pipoca de microondas fica pronta em cinco minutos, 
A coca-cola transborda no copo do McDonald´s.
Coloco a mão no peito enquanto rola o hino nacional no futebol,
O plim-plim global logo vai anunciar que é hora de fazer xixi.
Acho que tudo se parece mesmo com o que deve ser.
Estou aqui projetando imagens no pensamento.
Analisando, esperando, dormindo e acordando, 
Ligando a tv para saber da nova manifestação.
Há quem diga por mim o que quero dizer.
Fui feito um animal em prisão domiciliar,
Recebendo doses de civilização pela internet.
O Google me ensina a ser assim 
Enquanto isso o anonymous vai sendo censurado e
Perseguido pelas câmeras de tv.
Vou acalmando meus instintos violentos na terapia televisa e virtual.
A globo deu a notícia em seu jornal,
Ela disse e afirmou:
"O manifestante vale menos que vinte centavos em seu mural."
Palavras de um cínico crítico teatral.
Nesse olhar entendo o quanto fui aprisionado, calado, achincalhado.
Quem está na telinha agora agitando bandeiras, levando porrada,
Poderia ser eu.... Ou quem sabe, poderia ser você.
Talvez eu acorde bem e vá amanhã
Ou assim que puder, ou assim que parar de chover,
Ou quando a turba passar na minha rua.
Eu vou, pode crer.
Vou sim, pode esperar que eu chego lá, mas antes grite por mim.
Que todos gritem por mim em qualquer lugar do Brasil, do mundo.
Gritem alto pelos meus direitos respeitados.
Levantem os cartazes, pintem as caras!
Continuem fortes e independentes!
Em breve serei mais um aparecendo no jornal nacional.
Força pessoal que vou daqui, do meu jeito, 
Tentando me libertar de tudo o que alguns esperam que eu faça.
Da hipnose nesse brilho que ordena: "não faça nada".
Porque quem está nas ruas, livre dos grilhões,
Poderia ser eu, poderia ser você!

7 comentários:

  1. Meu caro Renato, suas palavras são brilhantes. Mais brilhantes que o contorno soturno que desponta no resultado alcançado até o presente momento. Cadê as manifestações? Pelo Brasil afora, as tarifas dos ônibus, metrôs e trens foram retroagidas. E o povo cadê? Ao que se informou serem manifestações em prol de condições dignas para os cidadãos, temo que nossa dignidade está muito barata, como alguém já falou. Viva a “primavera tropical”. O triste é ver que tudo não passou de uma manobra ridícula para nos colocar, mais uma vez, em evidência perante o mundo como país subdesenvolvido, econômica e culturalmente. Deveríamos cultuar mais o dia da independência brasileira. Que foi nos dada gratuitamente devido aos interesses de Portugal, que parece ir muito bem, obrigada. Mas, eu sou uma esperançosa pelo crescimento deste povo. Aguardo ansiosamente pelo seu texto sobre a educação e cultura do Brasil. Beijos.

    ResponderExcluir
  2. Quando surgir de novo uma manifestação, vá meu amigo Renato e sentirá na pele toda a emoção e o clamor de perto, sim, pois na tv não é nada em vista quem já participou. Pessoas chegando de todo canto, caras pintadas independente de qual partido, mas unidos a um único objetivo: MUDANÇAS POLÍTICAS, se vai resultar frutos só o tempo dirá....

    ResponderExcluir
  3. As manifestações continuam no nosso Brasil, em alguns estados a população ainda não abaixou a guarda por melhorias que ainda não aconteceram, meu brother. Vamos que vamos nessa luta que só começou. Abraços.

    ResponderExcluir
  4. "Vc pode enganar uma pessoa por mto tempo; alguns por algum tempo; mas não pode enganar a tds por td o tempo."
    Estas são sábias palavras de Lincoln que podem traduzir os últimos acontecimentos do nosso país, q foram mto bem retratados nos seus dois últimos textos, Renato!
    Os tempos mudaram, as pessoas mudaram e assim tbém mudou a relação do "poder" c/o povo brasileiro q começa a perceber q está em desvantagem nesta relação...
    Acredito q esta seja apenas uma pequena faísca q pode provocar um incêndio devastador, propagando gdes mudanças, ou pode simplesmente esvair-se até q td retome o ritmo "normal", considerando q, na verdade, mtos dos q estão nas ruas nem sabem direito dos motivos e nem tem sequer objetivos p/ estarem ali...
    Eu tbém prefiro ficar do lado de cá da "telinha", assistindo, analisando e imaginando onde isto vai parar... E espero q, pelo menos, td isto sirva para manter os olhos bem abertos e desperte a consciência deste povo tão cansado de injustiças.
    Parabéns pela criatividade e beleza dos textos! BJSSS - Edneia

    ResponderExcluir
  5. As mudanças são necessárias, mas muitas vezes para que aconteçam, primeiro o caos terá que ser instaurado. E quem não tem medo de tudo isso?! Muitos preferem ficar de longe, observando pelas telinhas da TV, do PC ou do celular, o que os “corajosos” estão aprontando por aí. Ficamos do outro lado torcendo para que eles conquistem o que todos desejamos: “a ordem e o progresso” que esse país tanto necessita e tem direito, essas palavras não merecem apenas ficar tremulando nas bandeiras, elas tem que ser colocadas em prática e o povo tem todo o direito de exigir que isso se cumpra!
    Ficamos aqui do outro lado, mas ansiamos pelas mesmas coisas e por fim, quem sabe? Deixaremos de nos esconder e daremos à cara a tapa, para que todos conquistem o seu direito de ir e vir, de lutar, de reivindicar, de ir contra toda essa corrupção, de exigir que esses que se acham donos do poder, saibam que o "poder emana do povo" e que o povo quer esse poder de volta.
    Renato, parabéns mais uma vez! Mais um texto que nos faz refletir sobre tudo isso que vem acontecendo em nosso país. Que venha essa mudança, tão necessária! E que nos tornemos o que merecemos ser, um país onde o respeito e a dignidade humana, sejam os itens mais importantes, que nos tornemos um país de primeiro mundo, o país do futuro, que tantos profetizam, mas que se não tomarmos as atitudes necessárias, isso acabará se tornando uma previsão que nunca se transformará em realidade. Bjus.

    ResponderExcluir
  6. O seu texto relata muito bem o momento histórico que estamos vivendo, demorou... Mas o povo acordou já estava mais do que na hora principalmente dos jovens despertarem e sair às ruas para cobrarem seus direitos daqueles que diz nos representar, ficou claro que não é só pelos vinte centavos, mas por tudo aquilo que eles prometem em campanhas políticas e depois nada acontece. Infelizmente, ainda vemos nessas manifestações pessoas que não sabem nem por aqui estão ali, e é isso mesmo que esse governo quer pessoas totalmente ignorantes e passivas para aceitar tudo o que eles querem, por isso não se investe em educação. Apesar de muita gente ter ido às ruas em todo o País, ainda tem muita gente assim como vc, como eu que prefere acompanhar tudo sentado na sua poltrona no conforto de seu lar, sem correr riscos, torcendo para que a voz daqueles que estão nas ruas sejam ouvidas.
    Grande beijo, amigo.
    Soninha.

    ResponderExcluir
  7. Patricia Ramos Sodero4 de julho de 2013 21:59

    Sr.Autor...uma bela maneira de expressar o que o nosso país vivencia hoje.Sim...poderia ser eu,poderia ser você...poderia ser qualquer um a manifestar-se nas ruas,nas palavras,em meio a multidões...Mas,nem sempre temos a coragem de estar de corpo e alma,devido a alguns indivíduos que se aproveitam da situação,para trazerem mais violência,medo,bandidagem.Sou a favor sim,é claro,de irmos a luta por nossos direitos.Chega de impunidades!Mas de uma maneira pacífica,reivindicando novas leis,um novo país.Tomara que todas essas manifestações "em massa",não fiquem em vão.E que nos proporcione vitórias,para que possamos fazer com que uns respeitem os outros,como deve ser,em todos os sentidos.
    Adorei a forma de como escreveu esse texto,Sr. Autor.Fico no aguardo do próximo....Bjs...

    ResponderExcluir