sexta-feira, 28 de julho de 2017

O Mendigo

Tenho sonhos.
Tenho em mim tantos sonhos infinitos.
Fora isso, imagino o pouco que sou, ou o pouco que seria sem eles.
Diante da janela dos meus olhos, o mundo.
Apenas mais um olhar dos milhões de olhares desconhecidos que espreitam o nada.
(E se algum desses soubesse o que é o nada, o que na verdade saberia?)
Sonho com o mistério de uma rua por onde passam pessoas, e que dá para outra rua onde os pensamentos voam pelas janelas dos meus olhos.
Ninguém sabe quem sou.
Não sei mais quem sou.
(E se alguém soubesse quem sou, de que valeria?).
A morte é o destino conduzido pela estrada da vida que leva ao nada,
ao real e ao absolutamente certo.
Não importa quem seja e nem qual ilusão esconda.
Posso estar tão derrotado como aquele que descobre a verdade do que é,
ou tão esclarecido como se soubesse do destino final,
e não tivesse mais intimidade com qualquer coisa além da despedida.
Fui vencido, partido, esquecido.
Essa coisa real por dentro é o meu sonho.
Sensação de que falhei em tudo, no que aprendi e no que me deram - até na lealdade que recebi.
O que posso pensar sobre isso?
Puxo um encosto e penso com boas intenções.
Mas só encontro um tronco torto cheio de espinhos.
Não sou mais a pessoa que conheci.
Não sei o que sou ou o que serei.
Mas sonho tanto...
E há tantos que sonham ser o que eu era ou o contrário de mim.
Milhões sonham, imaginam conquistas e marcos definitivos na história.
Quem pode dizer mais?
Não, não sei nada sobre isso, mas sei que em todo lugar há gente cheia de certezas.
E eu o que tenho além de sonhos?
Não, não tenho nada, em algum lugar do mundo ou dessa rua, apenas sonho para mim.
São tantos desejos realizáveis, lúcidos, causas nobres...
Um mundo aberto diante daquele que nasceu para atingir horizontes distantes, como um desbravador.
Aquele que conquista todo o mundo quando sonha ou quando caminha.
São tantos segredos, tantas filosofias que nenhum filósofo ainda escreveu.
Tantas dores no peito por estar longe de tudo.
Logo eu, que sempre tive certeza do inominável, sou mais certo ou menos certo agora?
Não, nem imagino o que sou.
Talvez apenas mais um maluco carregando tantas incertezas das certezas da vida.
Sempre em busca de um abrigo em si mesmo, sonhando.
Parece que serei o que nasceu para ser assim.
Serei aquele com alguma qualidade reconhecida, talvez na escrita.
Serei o que espera que uma porta seja aberta, mas ela continua fechada, nem existe a porra da porta. Paredes e mais paredes. 
Serei o que canta a canção e assovia com o vento no rosto.
Aquele que se torna ausente e espera que aconteça o que tiver que acontecer ou não aconteça nada.
O que conquista o mundo enquanto dorme.
Mas quando acorda encontra o cinza, levanta-se e tudo é  hostil, enfrenta e está diante do indecifrável.
A vida é tão parecida com essa escrita rápida, com a forma desses versos insipientes.
Ou melhor, o que parte daqui para o que se possa imaginar, até mesmo o impossível.
A mim consolo lavando a roupa suja do que sou.
Consagro em lágrimas o desprezo que recebo.
Não sei do que, mas seja o que for, pode ser o que me irrite ou inspire escrever.
O meu sentimento se derrama assim.
Não sei se é moderno ou ultrapassado, apenas celebro o tempo daquilo que fui, do que sou.
Isso me inspira, esse sou eu enquanto puder ser.
Há o nada diante de mim, na rua que vejo no sonho, na vida.
Chego mais perto e vejo tudo outra vez.
Vejo mulheres lindamente vestidas,
seguranças em preto cruzando olhares,
carros de polícia passando,
cães de madame e letreiros em língua estrangeira com roteiros de viagem.
Estou condenado ao ostracismo!
Ainda que tenha vivido, estudado, amado e acreditado em promessas.
Sou o mendigo que olha a tudo e sonha.
Espreita a mentira, as feridas e adornos.
E pensa: “-----------“ O que se poderia pensar nessa hora?
(Como é possível viver o sonho com condenação?)
Talvez eu seja apenas mais um largado.
Eu fiz de mim o que não sabia que seria.
A promessa que ouvi era errada, ninguém desmentiu e eu perdi.
Quando percebi já tinha envelhecido, cabelos brancos, cabeça ardendo,
o cristo na cruz por toda eternidade.
Queria que alguém lesse tudo isso para provar que tinha valor.
Sou alguém que dorme ao relento e é tolerado pelos guardas.
Pessoas continuam passando e meus escritos parecem toscos, inúteis,
como qualquer outra coisa que já tenha feito.
Mas se eu não ficasse aqui, como um tapete velho que alguém jogou num canto, a vida valeria mais?
Estou diante de uma agência de viagens.
O dono veio à porta.
Olhou com desconfiança sem me reconhecer, sem entender no que penso ou sonho.
Olhando em seus olhos imagino: “Ele um dia irá para o mesmo buraco que eu, ou talvez vire cinzas conservadas num pote, mas ele vai, sim, ele vai”.
Ele deixará a herança e eu deixarei esses escritos.
Quando o tempo certo chegar morrerá sua prole, morrerá a placa reluzente com luz de néon, morrerá o reino herdado e repassado e o mundo que compartilhamos.
Até a língua que isto é escrito morrerá.
Morrerá tudo!
Em algum outro lugar haverá alguém como ele ou eu, gente vivendo sob o mesmo céu ou luzes de escritório, sempre defronte um do outro ou lado a lado.
Um como inútil e outro produtivo.
Sempre assim ou de outro jeito, tanto faz.
Como isto é estupidamente real!
É o mistério impossível em letras.
Isto continua tão certo quanto o meu sono superficial e o sonho inacabado.
Um casal entrou na agência de viagens.
Ergo o pescoço para observar, nem repararam que sou humano.
Estou convencido disso!
Clareio os pensamentos.
Estou liberto e sigo a própria sina - conseqüência de uma grave indisposição com o passado.
Como a realidade é estúpida!
Bebo mais um gole da garrafa de cachaça comprada com uns trocados, saboreio...
Continuo bebendo.
Enquanto eu puder beberei ao destino diante dos meus olhos. (Se eu casasse com a filha do dono da agência de viagens talvez fosse feliz).
Levanto, meio cambaleante, e olho a vitrine.
O casal sorridente retorna em direção à porta. (Ele ajeita o paletó e ela a gola da blusa).
Ah, eu a conheço, é a filha do dono da agência de viagens.
Como num ímpeto incontido grito o seu nome.
Ela volta o olhar.
Acena-me um breve adeus.
Retruco baixinho, adeus para você também, amor da minha vida.
Adeus a todo universo que um dia conhecemos.
Celebro um gole aos nossos grandes ideais sem esperança no final. 
E o dono da agência de viagens sorriu da porta, muito orgulhoso com a escolha da filha.

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