quarta-feira, 8 de maio de 2013

O Mendigo

Tenho sonhos.
Tenho em mim tantos sonhos infinitos.
Fora isso, imagino o pouco que sou, ou o pouco que seria sem eles.
Diante da janela dos meus olhos, o mundo.
Apenas mais um olhar dos milhões de olhares desconhecidos que espreitam o nada.
(E se algum desses soubesse o que é o nada, o que na verdade saberia?)
Sonho com o mistério de uma rua por onde passam pessoas, e que dá para outra rua onde os pensamentos voam pelas janelas dos meus olhos.
Ninguém sabe quem sou.
Não sei mais quem sou.
(E se alguém soubesse quem sou, de que valeria?).
A morte é o destino conduzido pela estrada da vida que leva ao nada,
ao real e ao absolutamente certo.
Não importa quem seja e nem qual ilusão esconda.
Posso estar tão derrotado como aquele que descobre a verdade do que é,
ou tão esclarecido como se soubesse do destino final,
e não tivesse mais intimidade com qualquer coisa além da despedida.
Fui vencido, partido, esquecido.
Essa coisa real por dentro é o meu sonho.
Sensação de que falhei em tudo, no que aprendi e no que me deram - até na lealdade que recebi.
O que posso pensar sobre isso?
Puxo um encosto e penso com boas intenções.
Mas só encontro um tronco torto cheio de espinhos.
Não sou mais a pessoa que conheci.
Não sei o que sou ou o que serei.
Mas sonho tanto...
E há tantos que sonham ser o que eu era ou o contrário de mim.
Milhões sonham, imaginam conquistas e marcos definitivos na história.
Quem pode dizer mais?
Não, não sei nada sobre isso, mas sei que em todo lugar há gente cheia de certezas.
E eu o que tenho além de sonhos?
Não, não tenho nada, em algum lugar do mundo ou dessa rua, apenas sonho para mim.
São tantos desejos realizáveis, lúcidos, causas nobres...
Um mundo aberto diante daquele que nasceu para atingir horizontes distantes, como um desbravador.
Aquele que conquista todo o mundo quando sonha ou quando caminha.
São tantos segredos, tantas filosofias que nenhum filósofo ainda escreveu.
Tantas dores no peito por estar longe de tudo.
Logo eu, que sempre tive certeza do inominável, sou mais certo ou menos certo agora?
Não, nem imagino o que sou.
Talvez apenas mais um maluco carregando tantas incertezas das certezas da vida.
Sempre em busca de um abrigo em si mesmo, sonhando.
Parece que serei o que nasceu para ser assim.
Serei aquele com alguma qualidade reconhecida, talvez na escrita.
Serei o que espera que uma porta seja aberta, mas ela continua fechada, nem existe a porra da porta. Paredes e mais paredes. 
Serei o que canta a canção e assovia com o vento no rosto.
Aquele que se torna ausente e espera que aconteça o que tiver que acontecer ou não aconteça nada.
O que conquista o mundo enquanto dorme.
Mas quando acorda encontra o cinza, levanta-se e tudo é  hostil, enfrenta e está diante do indecifrável.
A vida é tão parecida com essa escrita rápida, com a forma desses versos insipientes.
Ou melhor, o que parte daqui para o que se possa imaginar, até mesmo o impossível.
A mim consolo lavando a roupa suja do que sou.
Consagro em lágrimas o desprezo que recebo.
Não sei do que, mas seja o que for, pode ser o que me irrite ou inspire escrever.
O meu sentimento se derrama assim.
Não sei se é moderno ou ultrapassado, apenas celebro o tempo daquilo que fui, do que sou.
Isso me inspira, esse sou eu enquanto puder ser.
Há o nada diante de mim, na rua que vejo no sonho, na vida.
Chego mais perto e vejo tudo outra vez.
Vejo mulheres lindamente vestidas,
seguranças em preto cruzando olhares,
carros de polícia passando,
cães de madame e letreiros em língua estrangeira com roteiros de viagem.
Estou condenado ao ostracismo!
Ainda que tenha vivido, estudado, amado e acreditado em promessas.
Sou o mendigo que olha a tudo e sonha.
Espreita a mentira, as feridas e adornos.
E pensa: “-----------“ O que se poderia pensar nessa hora?
(Como é possível viver o sonho com condenação?)
Talvez eu seja apenas mais um largado.
Eu fiz de mim o que não sabia que seria.
A promessa que ouvi era errada, ninguém desmentiu e eu perdi.
Quando percebi já tinha envelhecido, cabelos brancos, cabeça ardendo,
o cristo na cruz por toda eternidade.
Queria que alguém lesse tudo isso para provar que tinha valor.
Sou alguém que dorme ao relento e é tolerado pelos guardas.
Pessoas continuam passando e meus escritos parecem toscos, inúteis,
como qualquer outra coisa que já tenha feito.
Mas se eu não ficasse aqui, como um tapete velho que alguém jogou num canto, a vida valeria mais?
Estou diante de uma agência de viagens.
O dono veio à porta.
Olhou com desconfiança sem me reconhecer, sem entender no que penso ou sonho.
Olhando em seus olhos imagino: “Ele um dia irá para o mesmo buraco que eu, ou talvez vire cinzas conservadas num pote, mas ele vai, sim, ele vai”.
Ele deixará a herança e eu deixarei esses escritos.
Quando o tempo certo chegar morrerá sua prole, morrerá a placa reluzente com luz de néon, morrerá o reino herdado e repassado e o mundo que compartilhamos.
Até a língua que isto é escrito morrerá.
Morrerá tudo!
Em algum outro lugar haverá alguém como ele ou eu, gente vivendo sob o mesmo céu ou luzes de escritório, sempre defronte um do outro ou lado a lado.
Um como inútil e outro produtivo.
Sempre assim ou de outro jeito, tanto faz.
Como isto é estupidamente real!
É o mistério impossível em letras.
Isto continua tão certo quanto o meu sono superficial e o sonho inacabado.
Um casal entrou na agência de viagens.
Ergo o pescoço para observar, nem repararam que sou humano.
Estou convencido disso!
Clareio os pensamentos.
Estou liberto e sigo a própria sina - conseqüência de uma grave indisposição com o passado.
Como a realidade é estúpida!
Bebo mais um gole da garrafa de cachaça comprada com uns trocados, saboreio...
Continuo bebendo.
Enquanto eu puder beberei ao destino diante dos meus olhos. (Se eu casasse com a filha do dono da agência de viagens talvez fosse feliz).
Levanto, meio cambaleante, e olho a vitrine.
O casal sorridente retorna em direção à porta. (Ele ajeita o paletó e ela a gola da blusa).
Ah, eu a conheço, é a filha do dono da agência de viagens.
Como num ímpeto incontido grito o seu nome.
Ela volta o olhar.
Acena-me um breve adeus.
Retruco baixinho, adeus para você também, amor da minha vida.
Adeus a todo universo que um dia conhecemos.
Celebro um gole aos nossos grandes ideais sem esperança no final. 
E o dono da agência de viagens sorriu da porta, muito orgulhoso com a escolha da filha.

9 comentários:

  1. Todos os textos que li até hoje foram ótimos, mas confesso que esse tem algo sublime...incontido...que simplesmente flui.
    Alguns pensamentos são tão “próprios” que aquece o peito.
    Na minha opinião o melhor texto é aquele despretensioso, que simplesmente retrata lealmente algum sentimento, seja ele dor ou alegria.
    Usar palavras para dar forma ao que vai dentro de si, é uma condição especial...de poucos, pois exige coragem e auto amor.
    Sim, auto amor para falar sobre a própria dor...ter compaixão por si mesmo e naturalmente pelos outros.
    Saber de si é algo libertador...penso que o meio influencia nossas emoções e imaginar que alguém na condição de um homem abandonado a própria sorte, tenha tanta clareza da vida, é algo absolutamente arrebatador.
    Me faz pensar que nada é importante além do que se pode carregar no peito.

    Belíssimo texto. É no mínimo inspirador!!!!

    Denise

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  2. um texto muito lindo e realista. ve se a narração de um ser humano que encara a propria desgraça em seu pensamento solitario eu em particular sinto q a vida nao passa de um episodio para uns tristes para outros feliz,,,mas chorei....esta é sim a dura e cruel realidade da vida...

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  3. patricia ramos sodero10 de maio de 2013 23:28

    Bem...o que dizer sobre esse texto?Um homem a contar sua história,onde no passado,pudera conviver com toda uma sociedade de pessoas de alta classe,e que,planejava em ter uma vida digna e luxuosa,que fosse à altura de que merecia sua amada.Por alguma razão,seu mundo veio abaixo, junto com sonhos...planos....e de repente....o desprezo.Se encontra perambulando pelas mesmas ruas,em meio aos seus pensamentos,vendo as mesmas pessoas com as quais conviveu um dia, mas não tem forças pra lutar.E se entrega de vez ao mundo dos "homens de rua"....ou simplesmente....vira um mendigo.É o que na verdade ocorre com os mais fracos,os que são esquecidos,abandonados...Quando o ser humano entende dessa forma,acaba se enterrando mesmo.Poderia ser tudo tão mais simples,não é mesmo?Não é pelo fato de uma separação,que devemos nos deixar ficar dessa forma...Temos que nos amar primeiro para depois amar o outro...Porque senão, é isso que ocorre...os que estão bem,não lembram do passado e os que acabam assim,também não são lembrados.São motivo de descaso....E assim, a vida vai continuando.....uns com tanto....outros sem nada....
    Belo texto, Sr.Autor!!! Meus parabéns...uma crítica social,em forma de história de amor....
    Bjs e até o próximo...

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  4. Meus mais sinceros aplausos, Sr. Autor!!!
    Se tivesse dado sequência ao texto, as lágrimas turvariam meus olhos e eu não poderia continuar a leitura...Kkkkk
    O tom é de brincadeira mas a emoção é verdadeira!
    Seu texto tem tanta verdade e sensibilidade q parece q foi escrito pelo próprio "mendigo escritor"!
    Acho q se fossemos transformar em textos os pensamentos dos q vivem nas ruas, eles seriam mto parecidos c/ este!
    Seu texto é revelador e a msm tempo conscientizador. Faz a gente parar p/ pensar na condição humana, ou melhor, no q a condição faz c/ o ser humano...
    Mtas vezes, pensamos nestas pessoas c/ certa repugnância, traindo nosso melhor sentimento de solidariedade, nos esquecendo q a maioria dos q estão nas ruas preferiam não estar...
    Um amor não correspondido, um lar desestruturado ou ainda o domínio destruidor de um vício,... Inúmeros são os motivos q levam pessoas a descerem aos mais baixos degraus da condição humana, deixando p/ traz a família, os amigos, a profissão, a esperança, a dignidade, o futuro...
    E não nos damos conta de q ainda são humanos e q poderíamos fazer algo c/ um simples gesto da mão estendida!
    Parabéns, Renato! Amei seu texto! BJSSS - Edneia

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  5. O texto que escreveu aqui com um título que tem vários significados se formos analisarmos, muitos com dinheiro e vazios por dentro e outros que nem tem o que comer com uma sabedoria infinita, é admirável se formos ver por esse ângulo. Chama muita atenção querendo ou não lembra de um texto aqui escrito por vc que achei maravilhoso "Olhos Vazios". Tem o mesmo sentido na forma de ver o mundo e as pessoas sem emoção, esperança, vazio totalmente querendo se isolar na sua própria condição de vida achando que nada possa mudar pra melhor. O mundo é um mistério, e quem somos nós pra determinar situações que o próprio destino se encarrega a gente enfrentar com determinação. Adriana.

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  6. Que bom saber que ainda existem pessoas que sonham, que acreditam nos sonhos.
    Acredito que quando sonhamos conseguimos ir mais longe, conseguimos manter a esperança... como é bom sonhar, acreditar...
    Somos realmente muito pouco, não somos praticamente nada perante a imensidão do mundo.
    O que é o nada??? E o tudo??? Será que realmente sabemos o que é tudo e nada??? Quantas vezes já dissemos a palavra nada??? Será que a pronunciamos corretamente??? Tenho dúvidas.
    Será que realmente sabemos quem somos??? O que queremos??? Para outro nem sempre saber quem somos é importante, o que vale é sabermos e termos certeza do que desejamos, queremos...
    Fui esquecido? Vencido? Faz parte. O importante é não desistirmos, é acreditarmos e continuarmos sonhando, caminhando, persistindo...
    Espinhos sempre existiram e existirão. Eles fazem parte da vida. Apesar de olharmos para ele e não vermos beleza, ele é belo, se faz presente. Ele tem sua beleza, sua função. Ele protege, nos alerta...
    Quem de nós continua sendo a pessoa que conheceu? Será que de fato nos conhecemos? Sabemos quem somos? Poderemos dizer sim, sei quem sou e me conheço, porém penso que nem sempre nos conhecemos pois somos imprevisíveis, agimos de acordo com o momento, com nosso estado de espírito, com a circunstância... O importante é acreditar e continuar sonhando...
    Tenha certeza que você não tem só sonhos, você tem muitas coisas e que são importantes e acredito que sabe disso.
    Muitas vezes pensamos que estamos longe de tudo, porém não estamos. Acredito que nesse momento é que estamos mais perto. Mais perto de nós mesmos, das coisas verdadeiras...
    Mesmo que não existam portas, as paredes podem ser quebradas e através das aberturas feitas portas e janelas surgirão, passagens surgirão, novas esperanças e sonhos ...
    Você é um ótimo escritor. Escreve com emoção. Transmite o que sente, o que vê, o que observa. Escreve coisas que são despercebidas por muitas. Você tem sensibilidade. Não entenda aqui como frescura e sim como percepção.
    Continue sonhando, acreditando... seus sonhos são lindos.
    O texto nos leva a refletir sobre muitas coisas.
    Parabéns que lindo texto. Nele você relata coisas verdadeiras e que muitas vezes não são percebidas pela grande maioria.
    Vera

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  7. Muitos dizem que "sonhar" é pra quem pode será?! Se formos só viver de realidade seria muito cruel na minha opinião, só tem decepções no decorrer da vida, mesmo que passe diante dos nossos olhos tanta coisa e sem ao menos tomar alguma atitude é porque não teria sentido. Ás vezes, olhar pro nada pode significar tanta coisa que poucos percebem a importância que tem.

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  8. "Adeus para você também amor da minha vida", um trecho que me chamou bastante atenção nesse texto, bem no final fui entender o sentido desse texto,mesmo que passe anos nunca irá esquecer aquela que marcou sua vida miserável. Parou no tempo, enquanto ela vivia muito bem obrigado. Não vale a pena se desgastar com pessoas que não se doam da mesma forma, sinal que muitos passam por isso.

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  9. No fundo do seu ser, além da falta de sorte que sentia ter, a solidão tbém o incomodava, sonhar o fazia sentir vivo e o amor da sua vida, tbém o mantinha sempre ali....
    Tudo o que mais queria, era existir novamente, e sonhar era seu único meio.......
    Bjs.... Rosana.

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