My Friend (Paranóica, Paranóia)

    My friend, é incrível, hoje lá fora está sol! Que apetite eu tenho para a vida! Não que não tivesse antes, mas é estranho chegar em casa do trabalho e encontrar tudo diferente. Não há um vaso de flores na mesa e nem a garrafa do bom vinho com nome francês. Raras são as pessoas que retornam ao lar e encontram nele o seu refúgio. Eu me encontro assim, antes de tudo, como jamais me encontrei quando estava ao seu lado, frequentando o portão da sua casa e em poucas vezes sendo convidado para entrar. Diariamente o meu trabalho se torna mais árduo - o trabalho braçal e o mental caminhando juntinhos. Num deles eu cavo para atingir o fundo. Eu me vejo em pé dentro do buraco atirando pás e pás de terra o mais longe que posso. É um buraco especial onde sinto uma coisa simbólica varrendo as minhas energias. Embora eu imagine que devesse ser o corpo de outra pessoa a ocupar esse espaço, eu fico com a nítida impressão de ser uma cova para dois. Poderia até parecer algum esquete cômico, uma anedota de humor negro contada num teatro de ventríloquo. Mas não é nada engraçado estar no fundo e sempre com pressentimentos ruins. Talvez eu tenha mesmo cavado a minha cova, simbolicamente falando, quando respondi às suas ofensas. Eu imaginava que a tarefa era dura de aguentar, mas no final receberia a recompensa - não ganha com o suor do rosto, mas com o prazer da alma lavada.
    Hoje é sexta-feira, amanhã sábado e depois domingo. Dia em que a atmosfera da casa parece penetrada de um elemento diferente. Não consigo dizer precisamente o que é, mas algo me aflige nesse dia. Talvez seja porque era na sexta-feira que eu partia daqui ao seu encontro e você sorria com a minha chegada – o tipo de sorriso que tem uma criança impaciente que espera o brinquedinho novo. Um sorriso que no fundo dizia: “Espere só, um dia você acabará descobrindo do que eu sou capaz!”. O pior é que eu não reparava que era assim. O dia seguinte era sábado e eu perguntava onde tinha ido parar aquele sorriso tão espontâneo. Você me lançava um uuu...uuu... E em seguida o aviso: “Pare de me olhar tanto!”. Eu estava apaixonado e queria olha-la, admira-la mais que tudo nessa vida. Prolongar por maior tempo possível as adulações e toques tão suaves como se faz num cristal. E finalmente o domingo vinha recheado de carrancas e desaforos engolidos a seco. Era assim que algo realmente esquisito acontecia por semanas e meses seguidos. Eu me sentia exausto demais para quebrar a cabeça pensando em motivos para esses estranhos gestos. O que eu podia pensar no momento para enganar a mim mesmo era: “Solitária, está aí a explicação. Ela sempre foi solitária e não consegue lidar com alguém que deseja compartilhar tudo nessa vida!”. Nos outros dias da semana, no final das nossas conversas via internet, você sempre dizia: “Preciso desligar!”. Eu lia novamente todas aquelas mensagens seguidamente, lembrava dos seus dizeres e atitudes pessoais. Nunca conseguia entender a sua rotina, se você era ou não uma pessoa de bom coração ou apenas uma dissimulada. Estava ficando insuportável toda essa insegurança e inconstância no seu agir e pensar. Era de cortar o coração, mas o que eu poderia fazer exceto tentar consertar? Então, algo realmente estranho aconteceu para mudar tudo. Novamente eu sentia aquela sensação de afundamento que sinto agora cavando a cova. Naquele momento era algo que chegava a me empolgar porque não havia dúvida alguma nas questões apuradas. E dentro em pouco ambos estariam soluçando, soluços tão violentos que nos dilacerariam de ponta a ponta. E eu dizia: “Como você pôde agir assim comigo? Eu gosto tanto de você!”.
    Veio-me um impulso inesperado, como uma explosão interior, e sinto que tudo o que eu disse pareceu uma ameaça. Senti-me surpreendido com as minhas palavras saltando do meu pensamento e, irresistivelmente, alcançando em cheio o objetivo almejado naquele instante. Era o momento que eu tanto esperava, que tanto desejava, e quando se apresentou não pude deixar de aproveita-lo da melhor forma possível. Eu desejava muito magoá-la, feri-la, fazendo-a sentir uma dor como nunca houvera sentido antes. Consegui, my friend, mas nem por isso me sinto feliz agora, e nem me senti feliz à época. No momento de meu triunfo, quando vi na palidez do seu rosto o desapontamento gerado por tantas palavras duras, senti-me ainda mais contrariado e inquieto por tudo que viria depois. Contemplo distante a paisagem desolada que permaneceu ante os seus olhos – tão diferente daquela maravilhosa paisagem dos momentos de lucidez, encanto e paixão que tomava conta de mim – e sinto uma incontida vontade de chorar ao lembrar disso. É como se o meu coração tivesse se partido ao meio. Talvez tenha sido o seu silêncio o que mais me abateu. Ele teve esse dom irritante de suportar tudo passivamente, de combater com indiferença sem murmurar um só pio.
    Já lhe descrevi anteriormente toda a sua atividade cruel, durante e depois do tempo mais triste que estivemos juntos, principalmente depois, quando evitava se misturar a um grupo de gente repulsiva e de mente fraca, ou mais ainda, piores do que mortos-vivos que ficam no vai-e-vem pela principal avenida do seu bairro e na escadaria do metrô - gente desorientada vinda da cracolândia e de mente tão fraca quanto a sua. Voltando no tempo, creio que não foi apenas a coragem, mas a simplicidade com que agia, que a tornou, aos meus olhos, alguém que se pudesse admirar. Quando o seu melhor amigo morreu, - o mais fiel companheiro que teve em toda sua vida - tomou-o nos braços, sem se importar com mais nada. Aquele seu amigo manco era de verdade parte de você, ele se alegrava quando você chegava e chorava quando você partia. E a expressão do seu rosto naquele derradeiro momento, a piedade e desconsolo que se revelavam, tocou o meu coração. Só mesmo o meu grande orgulho fez-me esconder, ainda que à distância, o relato da crise de choro que tive por sua dor. Mas ele deixou uma parte de si nessa terra, uma herdeira genuína que ocupou lugar no seu coração, ela dorme no seu quarto e mija pela casa toda com rebeldia e docilidade. My friend, como está a sua alma e o seu corpo? Conte-me daquela ferida psicossomática que certa vez apareceu em sua mão. Ela se curou de vez? E a herpes labial ainda incomoda de tempos em tempos? O seu pai ainda a chama de “galinha”? Lembro-me como se fosse hoje quando me falou: “Ele me chama assim sendo que não sou nada disso!”. Ele ainda bebe e a expulsa das festas em família com palavrões e quase agressões físicas? Quando você vai viajar com o namorado alguém espera o seu telefonema comunicando que chegou bem ao destino? Eles não se importam, não é mesmo? Por que certos pais agem assim com os filhos? Por que torturam e ofendem? Por que não os orientam com bons príncipios? As pessoas são tão paranóicas... Você ainda tem mania de perseguição? Sente que está sendo observada? A lateral da sua rua é um estacionamento a céu aberto. Tem algum carro parado perto da esquina, - com vidros filmados e câmera - olhando os movimentos da sua casa? Algum satélite observa a sua casa? Talvez a foto seja antiga, da época da reforma. A garagem vazia. O meu GPS está desatualizado, fui parar em frente daquele motel na descida perto da avenida baixa. Lembra? Aquele em que me levava para um período de 3 horas. Naquele tempo parte do estacionamento era descoberta, mas a decoração do quarto era bonita. Os espelhos do teto e da lateral ficavam embaçados com toda a nossa energia de movimentos. Os lençóis terminavam amassados e embolados; manchados de esperma, saliva e suor. Ahhh my friend, esse mundo anda tão perigoso... Viu a dentista que foi queimada viva por bandidos? (Eu vi na tv a mãe do assassino defendendo o filho: “Não imagino que ele fosse capaz de fazer uma coisa dessa com alguém. Ele é um menino tão caseiro que gosta de jogar vídeo game)”. Lembra o estudante de psicologia que arrancou o braço do ciclista na Avenida Paulista e jogou o membro no rio? Cada pessoa inconseqüente que tem nesse mundo! Ricos ou pobres, formados ou semi-analfabetos, tanto faz. O que a sua mãe pensa das suas atitudes perversas com o próximo? Ela a defende por acha-la tão parecida com o pai? Ela é uma mãe conivente e o pai um omisso? A sua personalidade se revela quando convive com gente de fora que gosta e confia em você? Certas coisas me deixam tão rancoroso...
   Pensando em tudo isso eu me lembro que pedi que parasse com a tortura psicológica, que atendesse os meus apelos, que olhasse com atenção o que fazia e medisse as conseqüências, mas você ironicamente dizia: “Você reclama demais! Você é patético!”. Incrédulo eu ouvia tudo como se fosse uma sentença de morte e balbuciava: “Você está criando um mostro dentro de mim, um ser cheio de ressentimentos e rancores!”. Mas você pouco se importava e o seu mundo um dia caiu pela falta de reciprocidade no comportamento amoroso.
   My friend, eu estava enganado – que tremenda confissão faço agora! – quando algum dia eu disse que a desprezava - se é que alguma vez disse isso. É impossível despreza-la. Pelo contrário, sinto que desprezo a mim mesmo por não receber a permissão de compartilhar tantos momentos importantes ao seu lado. Acontece que foi pior, eu passei a odiá-la pelo que me fez! Imaginei comigo que jamais consentiria que me derrotasse novamente com aquela arrogante postura diante dos fatos que escondia. Isso não é horrível? Sim, sim, o velho e bom sentimento foi se extinguindo até o fim. Teve uma vida torturante durante um longo tempo, porém uma morte bela, tranquila e serena no final, o que foi um alívio para todos nós. De novo, uma nova perspectiva voltou a reinar, agora para melhorar a situação. Aprendemos com todas as coisas que sofremos. É claro que ninguém quer passar por nenhum sofrimento, mas o fato é que nós aprendemos com os erros e acabamos desenvolvendo potencialidades que desconhecíamos em nós mesmos. E nesse caso tivemos que sacrificar a vida velha em nome de uma nova vida.
    My friend, fiquei faminto de tanto dar voltas pelo mundo. Enquanto escrevia tudo isso eu ria e chorava. Talvez por um tipo de paranóia herdada do seu comportamento. Embora eu esteja aqui apenas lembrando do que passou, parece que escrevo um livro de verdade com fatos novos e antigos; revivendo cada tragédia, passo a passo, dia a dia. Têm dias que não entendo como consigo recordar tudo com mil e um detalhes dessas coisas chatas. Talvez se não fosse essa lembrança, eu jamais teria a coragem de iniciar um trabalho com tanta dimensão. Mesmo que a finalidade ainda seja apenas de relatar os tantos desacertos desse mundo cruel. Não, não há mesmo outra explicação para todo esse trabalho ao lembrar do que me fez quando eu jogava flores sobre um caixão. Por vezes um pensamento sentimental me ocorre e eu escrevo, apenas escrevo e escavo um lugar para dois, my friend, porque hoje lá fora está sol e é sexta-feira.

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