quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Dear Miss C Part 15

O mal é real. Não é apenas algo imaginado por uma mente primitiva na tentativa de explicar o desconhecido. Existem muitas pessoas más nesse mundo. Pessoas que reagem com ódio diante da presença da bondade e que se pudessem destruiriam tudo de bom oferecido a elas. Talvez não o façam com malícia; são cegas e não percebem o próprio mal que carregam – na verdade evitam buscar essa consciência. São como o diabo descrito nos livros sagrados, odeiam a luz e farão qualquer coisa para evita-la, inclusive se desdobrarão para tentar extingui-la. Destruirão pouco a pouco a luz dos entes queridos ou de qualquer pessoa sujeita aos seus poderes de sedução. Essa gente maligna detesta a luz porque ela mostra cada detalhe da sua personalidade distorcida; revela cada passo da sua maldade. A força do mal é inevitável. Pessoas a nossa volta, tomadas por essa doença, farão qualquer coisa para preservar em si essa personalidade doentia. Se necessário, usarão da imposição da sua vontade sobre os outros, através de um tipo de coação aberta ou disfarçada. Pensando em tudo isso chego à conclusão de que, embora carreguem consigo uma força terrível e difícil de combater, um dia o tiro sai pela culatra no contexto maior do entendimento humano. Para cada pessoa que essa gente destrói, para cada pensamento bom aniquilado ou lágrima derramada, existem outras almas que se salvam e combatem esse ultraje. Ao reconhecer essa presença a personalidade de cada combatente se abre como um farol. E através desse senso instintivo aprimoram a existência do bem para que todos ao seu alcance se purifiquem e protejam. Foi esse mal que levou Jesus Cristo ao alto da cruz e permitiu a todos vê-lo de longe. Um mal que para muitos parecia um bem naquele momento e para outros, uma injustiça. Foi esse mal e com essa mentalidade torta, que me trouxe até aqui de onde escrevo tudo isso. Dentro de cada um de nós e dentro de mim, existe o impulso para vida e o impulso para a morte. Estão contidos nessa personalidade os dois fatores primordiais à espécie humana: o instinto da divindade e a força que pouco a pouco empurra para dentro do pântano da podridão. A maior forma de crescimento que encontrei foi a de entrar numa cruzada contra todo esse mal que corrói a alma. Essa talvez seja a única e definitiva personalidade de crescimento espiritual notada em mim nesse momento. E de uma coisa eu sei: ela sempre será aceita por Deus e temida pelos demônios em seus disfarces cheios de artifícios.

      Ao lado das barracas montadas e prontas para o descanso dos ossos, nos sentamos numa roda para conversar observando o grande número de pessoas diante do palco assistindo o cover de Raul Seixas. O palco fora montado distante da área de acampamento; mais ou menos uns cento e cinqüenta metros. Comigo estavam Zé Louco, Simone e Tom, e mais dois conhecidos que acabavam de chegar de São José do Rio Preto. Enquanto Zé Louco voltava a usar os termos “Meu patrão, Véio e caralho” Nanda corria para o meio da multidão e se agarrava na beirada do palco, dali não desgrudou até que o artista lhe desse leves tapinhas nas mãos. A vida passou meio sem rumo nessa roda de conversas soltas, onde se relatava a beleza ou a feiúra da vida ou o caos e a luz dos efeitos visuais dos flashes coloridos iluminando a noite. Eu me sentia fazendo parte do show tanto quanto os malucos que sacudiam a cabeça e outros que fumavam um baseado no caminho escuro da trilha ecológica. Desse momento em diante, tudo foi se tornando ainda mais claro para mim. A noite continuava crescendo por partes, numa lógica em que não existia redenção dos pensamentos insanos, mas que se encolhiam dentro de mim diante das palavras de Zé Louco. Ele era de fato um homem estranho, alguém preparado que entrava por detrás do sentido de cada frase e ia até a própria essência das coisas. De repente ele retirou do bolso interno do colete, uma latinha redonda – semelhante a uma dessas latas de pastilhas de eucalipto. Pegou cuidadosamente com as pontas dos dedos alguns pedaços do que parecia ser de balas toffee. Entregou-nos uma para cada um, inclusive aqueles novos amigos que chegaram da cidade distante. Recomendou que deveríamos deixar dissolver debaixo da língua até que sumisse de vez. Eu, muito curioso, perguntei antes de colocar o “doce” na boca:
- O que é isso? É algum tipo de doce?
- Não se preocupe. Isso não é doce e nem amargo. É algo que fará a sua mente percorrer caminhos que nunca imaginou.
- Então é um tipo de alucinógeno?
- Meu patrão... Quanta pergunta você faz... Você não confia em mim?
- Confio sim. Mas me preocupo se for algo que pode me drogar.
- Meu véio; fica tranqüilo! Isso é um composto feito de várias ervas cultivadas na cordilheira dos Andes por nativos. É de uso medicinal. Foi o amigo Marito, o peruano, que trouxe numa remessa que encomendei. Você se lembra do Marito?
- Eu lembro. Nós pouco conversamos qualquer assunto. Ele era muito retraído e falava um português enrolado.
- Meu véio... Vamos lá! Coloque a balinha embaixo da língua e espere alguns momentos que irá entender o significado de tudo. Garanto que só fará bem a sua mente. Com essa clareza conhecera os motivos que fazem uma pessoa enlouquecer de vez ou se curar da loucura, principalmente se ela estiver com espírito aberto, determinada a aprender tudo o que está oculto nos segredos naturais da mente. Agora não faça mais perguntas... Apenas sinta o mundo ao seu redor como se cada coisa fosse uma parte do seu ser.
   Coloquei a bala na boca e no mesmo instante ela começou a derreter como se fosse uma papa; foi quando o mundo ficou mais colorido. Pensei se poderia levantar-me ou não. Eu queria fugir e me esconder; e ao mesmo tempo queria pular e gritar; se tivesse na beira de um abismo pularia para voar. De repente a cena foi se tornando cada vez mais clara enquanto tudo parecia um sonho. Tentei tocar o ombro de Zé Louco, mas o meu braço flutuava em câmera lenta. Apalpei o chão de grama e todas raízes expostas me senti parte de cada grão daquele lugar. Eu vi um rapaz de uns cinco metros de altura, ele carregava um enorme saco de farinha nas costas. O gigante passou e sumiu na escuridão. A cena na minha mente tornou a mudar e eu estava vendo você, minha musa. Estava lá destruindo amontoados de papéis, eram todos os meus escritos. Depois eu vi que arrumava roupas dentro de um caixote de madeira. Havia uma pilha de caixotes no seu quarto. Tive a sensação de estar girando sobre a grama, ao olhar para o outro lado vi o seu rosto com olhos febris como se estivesse endoidecendo de vez. Outra vez a cena tornou-se mais clara que antes e não parecia mais alucinação. Eu a via no topo de uma escadaria, eu subia pouco a pouco até ao seu encontro. As minhas pernas pareciam elásticas e muito compridas, mas o corpo se movimentava de uma forma lenta e tremula. Num impulso pulei dali e vi toda turma abaixo de mim, era como se eu flutuasse e pudesse tocar as nuvens no céu escuro. Vi o contorno da serra do mar numa sombra e as ondas quebrando na praia deserta. A minha velocidade era extraordinária enquanto o corpo mal havia se movido um dedo sequer. A cabeça virava para frente e para trás sem controle enquanto, em círculos verticais, a imagem de cada pessoa passava completamente deformada. Tentei fixar o olhar num ponto onde a noite pudesse ser mais serena e vi uma pluma descendo de forma lenta e irregular. Fiquei enjoado com a cena, vomitei tudo o que nunca houvera comido antes. Mas fiquei limpo. Esqueci do enjôo, andei um pouco. Estava obcecado com o medo que todas intenções fossem descobertas ou que uma espécie de escuridão pior que da própria noite me envolvesse. Tudo isso deu lugar a uma tristeza, talvez saudade de você. Era como se a eu tivesse encontrado naquela escuridão. O local tinha um caráter meio nebuloso e sombrio. Tentei conversar com você num tom racional, usando argumentos coerentes, mas você não respondia. Você pulou das escadas e passou direto por mim, passou pelo meu meio como se eu não existisse. Pensei: “Por quê? O que fiz de errado? Você deveria ter ouvido o meu chamado e ficado comigo”. Imaginei que talvez tivesse feito isso porque não gostasse de mim e eu não soubesse ao certo o que lhe perguntar. O meu desejo de toca-la  falando um pouco com você talvez fosse mais forte que a minha razão em acreditar que era tudo alucinação. Zé louco começou uma pregação. Não parava mais de falar. Era como um religioso se dirigindo aos fieis. Eu me sentia ouvindo a um filósofo, não um filósofo que a gente encontra descrito na literatura, mas um homem que solta as palavras com sabedoria e vive aquilo que a todo tempo descreve. Isso significa que ele demonstrava que não tinha uma teoria de vida, a não ser a própria vontade de que houvesse alguma discórdia nas verdades reveladas e das exemplificações dessas verdades nas atitudes e sonhos de cada um. Ele falava continuamente sobre si próprio e a sua relação com mundo. Dizia a todos nós o que parecia mesmo bem verdadeiro, isso dentro de um certo sentido nas descobertas que cada um deve fazer na vida que leva. A sua imagem naquele momento, para qualquer pessoa com o mínimo de inteligência espiritual, era de uma espécie de Cristo, alguém que estava fazendo o máximo esforço para que outros vissem a luz como ele via. Todos ali sabiam que bastava ele abrir a boca, e lá vinha um tipo de sabedoria completamente diferente de tudo. O que até então, alguns imaginavam que já sabiam, mas, no fundo, não sabiam. Seria muito fácil dizer que talvez ele fosse um místico capaz de controlar sua mente e ao mesmo tempo conservar os pés firmes no chão conversando naturalmente - com um olhar invisível saber tudo que acontecia ao redor. Ou até mesmo dizer coisas tão práticas e objetivas que poderia ganhar uma fortuna com isso. Mas ele, apesar de gostar demais em ser o centro das atenções, nunca foi um filho-da-mãe egoísta e senhor da razão como alguns pensavam. Raras pessoas têm essa habilidade de deixar os outros em transe. Ele conseguiu me levar a esse transe sem que eu soubesse que estava tomando, inconscientemente, uma das mais importantes resoluções da minha vida. Em outras palavras, ele penetrara na minha mente com uma força tão silenciosa e misteriosa, trabalhando o meu eu até que eu me sentisse verdadeiramente sozinho, a ponto de construir o meu próprio destino. Nessa conversa espiritual secreta, turbinada por uma inocente balinha de ervas, estava a linguagem divina onde todos fantasmas desapareciam e a mente flutuava em busca de novos valores para a vida.
     Miss C, a verdade é que agora o meu olho se concentra em pontos no tempo onde nunca imaginei que enxergaria as coisas assim. É natural que as pessoas fora daquele meio de convivência rotulassem o comportamento de Zé Louco como estranho. Todavia, não era nada estranho para aqueles que já o conheciam há anos. Nessa roda de pessoas, que a cada momento era completada por mais um que vinha se juntar, ele era ouvido com o maior respeito num tipo de reverência. Fiquei, portanto, surpreendido e orgulhoso comigo mesmo por ter essa estranha criatura me acolhido e colocado ao seu lado direito como uma mão protetora. A minha sensação era de alguém que estivesse sendo despido, ou melhor, ficando totalmente pelado – sem roupas ou calçados – pois, de cada um que se sentava ao seu lado, era muito mais que mera nudez que ele exigia a quem se dirigia. Tudo era profundamente verdadeiro e muito natural naquela maneira de se aprofundar nas descobertas. Talvez você não entenda que agora falo desse mundo futuro que caiu sobre mim. Desse lugar os acontecimentos nunca foram interrompidos pela noite ou pelo dia, nem pelo ontem, anteontem ou amanhã. Esse é um tempo visto através do olhar que rompeu a parede criada por uma viagem ininterrupta. O meu corpo inteiro precisou tornar-se um enorme feixe de luz para iluminar esses caminhos. Eu sei que alguma coisa mais profunda me fez crescer como o sol e morrer como ele morre em sua morte oceânica para depois renascer. Sabe de uma coisa Miss C? Às vezes me pergunto o que houve nesse determinado período de dois anos que tornou tão vívida a lembrança desses momentos em minha memória. Basta-me fechar os olhos para reviver cada um daqueles dias. Desde a sua permanente falta de educação, que já não me causava mais angústia – quando tudo era esquecido no período de uma semana – até a divisão das fatias de pão que levava para o lanche. Por mais estranho que pareça, o pão de forma e as fatias de frios que você trazia em nossa bagagem, foi uma das imagens gravadas com mais potência no meu olhar. Você trazia tudo aquilo com uma ternura e simpatia como eu nunca vira antes. Quando falava comigo – perguntando como eu queria o lanche preparado por suas leves mãos – parecia dedicar àquele ritual toda atenção e consideração. Mantinha naquele manuseio de separar fatias de pão e frios, uma expressão macia e caridosa. Eu gostaria de ter ficado com você para sempre assim, eu juro. Principalmente quando cerro os olhos eu penso naquilo com tanta saudade. Talvez aqueles anos tenham sido os mais preciosos para mim, porque você foi a primeira pessoa a me admirar de um jeito diferente. A maneira como os seus olhos brilhavam naquele momento é uma coisa da qual nunca me esquecerei. Eles pareciam estar estourando de satisfação por estarmos tão próximos um do outro, e melhor, dividindo gentilmente o alimento mais sagrado que já existiu nessa terra. Às vezes, depois de um jantar ou lanche improvisado, nós íamos passear no meio do pequeno campo de futebol daquele camping em Atibaia. Falávamos, e agora eu sei bem disso, com muita profundidade dos nossos sentimentos. Naquelas noites frias de céu limpinho, a gente admirava cada reflexo das estrelas e íamos tentando adivinhar se era mesmo estrela ou os planetas Vênus e Marte. Ah minha musa, aquelas fatias de pão de forma era o que fazia o nosso mundo ser governado pela magia. Um mundo vagamente delicioso, misterioso e desbravador, feito de um elo que nos ligava às nossas primeiras descobertas um do outro. Nunca mais o pão teve aquele sabor. Jamais me foi oferecido por outro alguém daquele jeito. Naquela noite em que fizemos amor na grama molhada de orvalho, ele foi mais saboroso do que nunca. Tinha um gosto de capricho e sedução, um sabor que até então desconhecíamos. Não existe maior dádiva ao paladar do que o pão oferecido com sinceridade. Era nesse ato de comer o pão e fazer amor que ocorria algo especial conosco. Era o sentido que dávamos a tudo aquilo na forma de penetrar no caráter essencial das nossas necessidades imediatas. Era quase como receber a mais pura verdade, embora a palavra verdade pareça precisa demais para definir tudo aquilo. Afinal de contas, as nossas conversas mais pareciam feitas de um tipo de linguagem dolorosa em alguns momentos. Eu acho tão extraordinário esse dom de lembrar dos acontecimentos de um passado praticamente distante aos nossos olhos. São esses mesmos pensamentos que - nunca me conduzem a lugar algum ou que me levam a toda parte do seu corpo - ainda me fazem lembrar como você era e, com certeza, continua sendo uma fêmea metafísica nos meus sonhos. Não sei por que, mas parece que eu sempre pensava da maneira errada sobre suas intenções. Mas quando era o meu pênis que me punha a pensar não havia como estar certo ou errado. Era apenas uma emocionante foda que nos esperava. Era assim que transferia imediatamente qualquer pensamento para a sua boceta. E eu me sentia como se fosse uma isca na ponta do anzol sendo mordida por um pacu faminto e desesperado – foi a boceta com mais habilidade de movimentos internos que conheci. Sim, uma grande caverna suficientemente escura para um morcego e tão clara, em outros momentos, que se podia encontrar o mapa da Austrália - você sabe bem o que eu quero dizer. Quando eu enfiava a mão ali dentro nunca sabia ao certo o que sairia agarrado nela - poderia ser uma ave de rapina, um peixe grande ou uma tartaruga. A resposta disso vinha sempre no seu gemido enquanto se contorcia ao sentir o atrito de entrada e saída. Quando eu agarrava os seus seios pequenos você gritava igual a uma arara louca; se eu enfiava novamente a mão até o fundo da sua cratera cheia de lava em erupção, você resistia até se largar por completo. E o rabo? Uhhh, esse sim, sempre foi um rabo maravilhoso que parecia infernalmente inacessível, mas que eu costumava passar devagar a ponta do pau no centro dele, isso até que relaxasse as pregas para facilitar a invasão. Nessa hora eu fazia com que sentisse uma desconfortável sensação de que estava sendo rasgada ao meio, tendo como vértice aquele cu maravilhoso usado apenas para sentar em cima. Mas isso era pouco para você, não é mesmo, minha musa? Era necessário ir mais fundo. Para um homem como eu, nada parecia mais difícil do que se sentir como um animal amestrado nessa hora. Um cão de raça com uma ereção rija e duradoura a ponto de explodir em risos por causa de uma boceta que falava e ria ao mesmo tempo. Essa boceta mantinha funções que iam além da normalidade de mijar e foder. Ela agia como um ventríloquo maluco contando piadas e cantando canções francesas da década de sessenta e setenta, coisas capazes de fazer um pau pronto para foda rir antes de ser mordiscado pelos cruéis dentes do pacu faminto. Enquanto as suas pernas abertas convidavam o primeiro que chegasse a ocupar o espaço restante, as risadas pareciam desenrolar-se como num filme pornográfico, livre de qualquer pudor. Só por isso eu me apressava em lamber cada pêlo da sua boceta e cada gota do liquido que escorria de dentro dela; insistia em ficar ali até que suas mãos me puxassem e tirassem a minha cara enfiada dentro daquela gruta quente. Ah, minha musa, você raramente tinha um sorriso no rosto nessa situação, mas quando ria pela boceta era como se fosse uma gargalhada vulcânica e incentivadora de ereção. Quando a sua capacidade de foder era despertada, você ria mais que uma hiena ou um palhaço descabelado no maior circo do mundo. De vez em quando eu ouvia sons estranhos saindo daquelas beiradas. Era como se uma tampa houvesse sido aberta e os sons do mundo ecoassem ali por dentro. Era todo aquele mistério do ser encantado tentando fugir, tomando uma forma monstruosa para quase me arrancar os testículos. Mas eu persistia. Eu queria abrir o buraco mais profundo e largo que qualquer homem já pudesse ter aberto em você. A relação sexual intensa nos mantinha unidos, porque o pau e a boceta não tinham consciência verdadeira, mas conservavam uma risada fenomenal e permanente quando em ação. E nada mais importava mesmo que uma das piores doenças venéreas nos pegasse e matasse. Tanto fazia se fosse cancro, gonorréia ou sífilis, o importante era ficar entalado para sempre lá dentro – se é que fosse possível entalar num buraco com esse tamanho! O maior significado de tudo isso, e que foi bem sabido, é que você poderia lidar com todas essas doenças e também deitar com Fernando, Luis, Mauro, Wanderley, Antonio, Mário, César e tantos mais. Na minha imaginação as coisas corriam sempre dessa maneira, mesmo que lá fundo eu soubesse que eram meus sonhos loucos turbinados pela balinha oferecida por Zé Louco. Minha musa, minha musa... Assim andamos, comemos e fodemos, sempre juntinhos e compartilhando as mesmas seduções. Hoje o que me resta é o cemitério da sua alma em pânico, mantendo a derradeira esperança do sopro saindo dos seus lábios no momento final. Um pensamento talvez eu entenda: como pude ressuscitar uma coisa morta e enterrada? Não apenas uma vez, mas inúmeras vezes nessa vida. E o pior é que continuamos os mesmos durante a mais longa e escura noite do nosso longo percurso, agindo sempre como se acima de nossas cabeças houvesse um eclipse interminável por um acesso de frustração permanente.
- Psiu! Tem alguém aí? - Nanda me cutuca com a ponta do indicador.
- Oi Nanda. Eu estava tão mergulhado em pensamentos que nem vi você chegando. Cansou de dançar as músicas do maluco beleza? Vai voltar lá?
- Acorda Re! O show já acabou Nem te falo como foi bom. Durou bem mais de duas horas. Passou tão rápido que nem percebi. Agitei tanto que estou com as pernas bambas. Você viu o Tom por aí?
- Ele estava aqui agorinha mesmo. Vi quando ele saiu cambaleado para o meio do camping.
- É... Espero que volte logo para prepararmos algo para comer. Por que está aqui sozinho?
- Nem reparei que estava sozinho. Todos estavam aqui agora mesmo. Acho que cochilei e sonhei, nem vi quando saíram.
- Nossa Re. Você está tão estranho. Aconteceu alguma coisa no tempo em que fui ao show?
- Não aconteceu nada.
- Tem certeza?
- Claro!
- Hummm.
- Não acredita em mim? É sério. Está tudo certo comigo.
- Você não está bem. Os seus olhos estão vermelhos.
- Que nada! Estava cochilando e sonhando. Talvez o sonho tenha me afetado um pouco.
- Puxa vida, Re. Queria tanto que você parasse de pensar nela. Não vale a pena. Será que você nunca vai entender isso?
- Eu entendo sim e estou tentando me curar dessa praga. Mas agora eu não estava pensando nela. É só impressão sua.
- Ahhh Re... A sua resposta é negativa, porém eu noto que existe um vazio aí dentro que precisa ser preenchido. Você está se tornando uma espécie de esquizóide devido à experiência traumática que teve com Miss C. Isso é uma coisa muito perigosa que pode leva-lo a um tipo de loucura sem volta. Algumas pessoas que conheço passaram por essa experiência - de amar ou apaixonar-se por alguém sem ter esse sentimento correspondido - e entraram numa solidão dolorosa. E mesmo quando tentavam escapar dos muros que ergueram, não conseguiam se ajustar ao mundo externo. O fenômeno desse tipo de relação que une a própria identidade à de outra pessoa, faz com que imaginemos que toda solidão acabou porque passamos a ser dois em um só. Então todos os problemas parecem resolvidos e a vida feita de alegria constante. Vemos o mundo como se tivéssemos poderes ilimitados. A realidade invade a fantasia da gente de um jeito que não há como não acreditar em tudo aquilo. E a sensação subjetiva de que estamos amando nem de longe parece falsa. Mas quando, mais cedo ou mais tarde, os problemas da vida cotidiana e das diferenças de opinião começam a afetar a relação, é que vemos o quanto é importante sermos prudentes, ao invés de nos deixarmos levar pelo simples desejo de ter alguém ao nosso lado só por ter. Essa coisa que chamamos de paixão, também podemos chamar de regressão. Essa experiência de nos fundirmos ao ser amado nos leva de volta ao tempo em que estávamos na barriga da nossa mãe. Unidos ao ser amado achamos que podemos superar todos os obstáculos confortavelmente, acreditando que aquela possibilidade da onipotência ainda existe. É devido a essa ilusão de segurança que algumas pessoas nunca crescem. Acabam agindo como tiranos e autocratas, mandando nos pais, irmãos e qualquer pessoa que faça parte da sua vida e até nos bichos de estimação. Agem como se todos fossem soldadinhos num exército particular onde só existe um general e respondem com uma fúria infernal quando qualquer um dos envolvidos não aceita os seus ditames. A sua Miss C era bem assim. E você sabe que ela nunca irá mudar porque nunca irá crescer.
- Eu concordo com tudo o que disse, no entanto, chegou um tempo em que nos desapaixonamos e a nossa vida se tornou um inferno, porque ela não se comprometeu com o relacionamento. Ela nunca acreditou no amor romântico, ou que ele, em algum ponto da nossa história, poderia mudar nossas vidas.
- Olha Re... Sinto dizer, mas ela sempre foi vazia por dentro. Não tinha nada a oferecer a você. Ela simplesmente era uma dependente passiva do amor que você nutria por ela. E devido a essa falta de identidade afetiva se tornava alguém faminta em busca de alimento, mas que nunca tinha nada para dar em troca. É como se fosse um poço sem fundo implorando para ser preenchido, mas que nunca conseguiria ser totalmente completado. Gente como ela nunca se sente totalmente realizada em nada. Sempre reclama que está faltando uma parte essencial, ou lamenta a solidão que ela mesma provocou afastando para longe todos de boa intenção.
- Estou perplexo com as coisas que você fala. Tudo parece ter uma lógica misturada com bom senso.
- É tudo muito simples, Re. Toda e qualquer relação precisa ter um investimento. Tudo se movimenta com a maior força de vontade disponível e muito, mas muito mesmo, auto-sacrifício. É uma doação que damos ao outro e ele a nós. Basta querer para se envolver e saber escutar o que o outro deseja. E depois é só viver o melhor que puder sem nunca se arrepender, porque a vida nada mais é que um aprendizado que gira sempre em torno das mudanças que escolhemos e das opções que temos para sair da mesmice. A vida sempre se tornará nossa aliada mesmo quando desafiada.
- Minha amiga Nanda... Estou sem saber o que dizer. Jamais pensei que pudesse ouvir tantas coisas bonitas de você. Parabéns por essa clareza de pensamento. Espero que use tudo isso no dia a dia e no seu relacionamento.
- Uso sim, Re. E como uso...
- Estou um pouco cansado. Vou me deitar na barraca, parece que levei uma surra. Depois a gente conversa mais. Amanhã pretendo acordar cedo e seguir a caminho da caverna dos morcegos.
- Está bem. Deite um pouco enquanto vou procurar a turma.

Vou parando por aqui com os relatos de um tempo que parece tão distante ao nosso olhar, minha adorável Miss C.
Desejo de todo coração que Deus a acompanhe em seus passos.
Do seu admirador.
Re.

7 comentários:

  1. Esse capítulo deixa uma mensagem importante seu autor não importa quanto tempo levará pro admirador Re. cair em si que tudo teve uma explicação plausível pelo que passou com sua "musa".No começo descrevendo formas de personalidades que são psicopatas é bem isso.
    Miss C se encaixa nesse perfil infelizmente tem vários tipos e ela foi matando Re. psicologicamente aos poucos.
    O amigo Zé Louco mostrou caminhos e formas a Re. pra se orientar e enxergar ou não fatos baseados no relacionamento mal intencionados pela sua amada.Quero ou não,doeu se revoltou e até sentiu sua falta,coisa de doido isso.Uma simples "balinha"!!!
    Mesmo depois disso está tendo mais força e seriedade e o que fazer na gruta dos morcegos,tendo condições de avaliar tudo que passou.Parabéns seu autor muito polêmico esse capítulo e serve de aviso a muitas pessoas.Até.

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  2. Boa tarde!!!Um capítulo um tanto explicativo e exótico ao mesmo tempo !!!Mostrando a vida como ela é pura realidade onde descreve a personalidade de Miss C.mesmo sendo uma história fictícia aqui muitos já depararam com tipos assim e isso meu amigo é um atraso de vida te leva pro buraco foi o caso do Re..
    Ainda bem que tem amigos formidáveis que o ajudaram a ter entendimento pelo o que passou procurando seu eixo de novo,mesmo tendo raiva e saudade ao mesmo tempo o admirador terá sequência em prosseguir no seu destino de sair desse pesadelo infernal em que vive.
    Indo em direção a caverna do morcego terá a paz de espírito que precisa,pra que finalmente possa esquecer desse episódio triste que viveu com ela.Acredito que a vida segue não pode parar no tempo por uma mulher volúvel.Espero de coração que Re. seja feliz e encontre alguém de verdade e não uma personagem que foi Miss C.
    Adorei as explicações de Nanda,abre a mente de várias aqui que esteja passando por isso.Bjs.Adriana.

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  3. UMA ABORDAGEM MUITO IMPORTANTE AQUI SEU AUTOR,REVELANDO O VERDADEIRO COMPORTAMENTO DE MISS C PSICOPATA,APESAR QUE ISSO VEM DE INFÂNCIA ESTUDOS DEMONSTRAM QUE JÁ NASCEM COM ESSE TRANSTORNO DE CONDUTA INFELIZMENTE E QUE NÃO TRATADO VIRA NISSO.INDEPENDENTE DE NÍVEL SÓCIO-ECONÔMICO.NO CASO DE MISS C FOI GERADO POR FALTA DE AFETO DA FAMÍLIA ISSO ALIMENTOU SUA MALVADEZA.COITADO DO RE. PASSOU MAUS BOCADOS NA MÃO DELA,APESAR DE AMÁ-LA AINDA SE SUBMETEU A ISSO.SEU AMIGO ZÉ LOUCO APESAR DE SER UM TANTO ESTRANHO E OFERECEU UMA "BALINHA" QUE LEVOU A OUTRA DIMENSÃO E REVIVEU O PASSADO TRAZENDO MOMENTOS AGRADÁVEIS COM SUA MUSA,ONDE PARECIA UMA PESSOA "NORMAL" SE ENTREGANDO DE UMA FORMA QUE ELE ADORAVA.
    DEPOIS VEIO AS ALUCINAÇÕES NOMES DE OUTROS HOMENS QUE ELA PODIA TER IDO PRA CAMA!!!!COISA SEM NEXO ATRIBULAÇÃO NA MENTE DO POBRE RE. PURA LOUCURA.DEPOIS QUE VOLTOU AO SEU AMBIENTE REAL TEVE A PERCEPÇÃO QUE APESAR DE TUDO ESTAVA INDO NA DIREÇÃO CERTA BUSCANDO RESPOSTAS E QUEM SABE DELETANDO SUA MUSA PARA SEMPRE DE SEU CORAÇÃO MESMO QUE ISSO DEMORE TERÁ QUE FAZER ISSO SE QUISER SE CURAR DESSA MALDIÇÃO.WAL.

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  4. Um texto cheio de emoções, dos melhores aos piores sentimentos que um ser humano pode ter. Forte, preciso, intenso, triste e ao mesmo tempo cheio de esperança, parece que com a ajuda de Zé Louco, Re está encontrando o caminho para se libertar de uma vez por todas das teias de Miss C. Embora ele continue nessa montanha russa entre os momentos de intenso prazer e total entrega dela e os de puro descaso e desrespeito, pareceu-me que agora ele vê uma solução para acabar de vez com toda essa dor. E como sofre essa alma tão perturbada, tão perdida, tão desolada de nosso amigo! Ele se entregou a essa louca relação, por achar que havia encontrado uma pessoa que o admirava do jeito que ele queria ser admirado, e ela por sua vez, se alimentava desse louco amor que ele lhe dedicava. Quando o assunto era sexo, tudo era perfeito para ambos, mas fora isso um vazio tomava conta dessa relação, um vazio que tanto para ela quanto para ele nunca seria preenchido, pois o sexo tem um peso muito importante em uma relação, mas se for só isso, o fracasso é algo inevitável.
    Muito sábia essa Nanda, suas palavras denotam muita clareza de pensamento e firmeza de opinião, concordo plenamente quando ela diz que não devemos nos deixar levar pelo simples desejo de ter alguém ao nosso lado, seja por qual motivo for, medo da solidão, sexo, dinheiro, ascensão social...
    Tem tanta coisa interessante nesse texto que eu ficaria aqui escrevendo, escrevendo e mesmo assim não conseguiria demonstrar o quanto ele me emocionou em várias de suas passagens. A primeira parte é tão real, pois é verdade que o mal existe e em suas piores formas, mas o bem existe em igual, ou quem sabe em maior escala, para que nesse mundo possamos sobreviver e travar nossas batalhas pela felicidade, que acho que no fundo é a razão que move a vida de todo ser humano.
    Adorei seu texto Renato, você se supera a cada capítulo, parabéns!!!! Bjus.

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  5. Concordo com nosso amigo Re. O mal realmente existe, mas o bem tbem! (Q bom!) Penso q tds estão sujeitos a desenvolver qlqr capacidade em si, a de ser bom ou mau, isso depende das oportunidades da vida e do uso q fazemos delas.
    Bom ou mau; certo ou errado; verdade ou mentira; amor ou ódio..., são contradições mto relativas e dependem do contexto e da realidade de cada um de nós. Pessoas de má índole, q brincam ou desprezam os sentimento dos outros, necessitam de afirmacão e essa é a forma q encontram e a q lhes cabe, tamanha a sua ignorância e pobreza de espírito! Como bem disse Re, o crescimento é a única arma q dispomos para enfrentar esta dualidade q teima em travar uma luta constante dentro de nós.
    Nosso protagonista continua numa incansável procura de força e coragem para enfrentar sua luta internar. É notável como ele, por vezes, fica perdido na confusão desses sentimentos contraditórios, entre o amor e o ódio por sua Musa, entre as verdades e mentiras de seus pensamentos... Os momentos íntimos, q já foram guardados como boas lembranças, são vistos agora como momentos insanos, como atos animalescos ou mesmo promíscuos. O mesmo acontece com outras lembranças vistas por um ângulo diferente, com outros olhos, revelando uma certa inversão dos pensamentos.
    A breve "viagem" guiada pelo amigo Zé Louco proporcionou ao Re uma visão ampliada dos fatos e das atitudes de Miss C. A avaliação psicologica feita por Nanda revelou detalhes do caráter da Musa até então invisíveis aos olhos dele. Isso lhe trouxe possibilidade para uma melhor reflexão sobre essa complicada relação .
    Espero q nosso amigo faça bom uso destas lições nesta longa caminhada em busca de afirmacão e crescimento!
    Parabéns mais uma vez, Renato! BJSSS - Edneia

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  6. Patricia Ramos Sodero2 de fevereiro de 2013 00:22

    Ao analisar este capítulo, ficou bem claro que, nosso amigo Re, tem uma visão coerente de quanto as pessoas podem fazer o mal ao próximo.O bem? Sim, existe é claro! Mas....muito raro hoje em dia.
    Seu amigo, Zé Louco, mostra-se até de um jeito irônico nessa parte da estória.Digo isso porquê; um "amigo de verdade", não quer ver o "amigo", em meio há tantas lembranças e pensamentos, sofrendo, a tal ponto que o leve até mesmo a loucura.
    Ao mesmo tempo, porque não fazer isso? Será que o fato de ter lhe dado a "balinha mágica", e ele ter recordado dos momentos bons e ruins com sua musa, não o faria acordar para a análise de seu caráter finalmente? Os momentos de intimidade, parece ser somente o desejo do corpo físico,coisa carnal mesmo....E não do amor dado com a alma...o coração.
    Acho que todos esses passos que Zé Louco pratica com o Re, são de extremo valor, para que ele analise a pessoa que esteve ao seu lado, e veja se vale a pena se martirizar tanto com esses pensamentos.Essa é a verdadeira forma encontrada por seu amigo, para uma perfeita "limpeza espiritual". Re precisa disso, antes de prosseguir seu caminho à Caverna dos Morcegos.
    Belo capítulo,Renato! Como sempre,nos surpreendendo....Muita reflexão mesmo!
    Parabéns e aguardo o desfecho dessa estória com muita ansiedade.
    Bjs e até o próximo...

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  7. Dando indicios de melhora emocional, Re consegue identificar nos valores morais bem e mal a personalidade dele e da Miss C. Traça então,um comparativo valores morais x relação vivida por eles percebendo que Miss C deixou a desejar no quesito "corresponder o amor recebido" retribuindo com egoismo, frieza e indiferença. A partir daí, o apoio dos amigos será muito importante para que ele consiga se livrar de uma vez por todas desse sentimento que insiste em perturbar e fazer muito mal.Zé Louco,transmite segurança para Re convidando - o sem cobranças a mergulhar no seu interior e emergir um pouco mais leve e forte para enfrentar a sua realidade.

    Um abraço,
    Simone

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