sábado, 19 de janeiro de 2013

Dear Miss C Part 14

                                                                 
   Contei a Zé louco o que sentia a respeito da minha experiência de vida ao seu lado, minha adorável Miss C. Durante horas conversamos e ouvimos as mesmas músicas que marcaram os nossos momentos. Simone estava tão exausta da viagem que acabou capotando dentro da barraca, ainda com o sol no horizonte. Nanda e Tom foram de carro até a cidade buscar mais carne, carvão e cerveja, antes que o comércio fechasse. O palco continuava vazio e a música ambiente rolava dando vida ao camping. Uma música em especial chamou minha atenção em meio a uma das conversas malucas que nos fazia rir muito. Era Joan Crawford da banda americana Blue Oyster Cult. Qual não foi a minha surpresa quando ouvi a frase: “Joan Crawford has risen from the grave”; e aquele nome tão familiar sussurrado três vezes no meio da música! Imediatamente lembrei-me dos nossos caminhos percorridos. Do sol na cara e restaurantes na estrada. Veio-me à mente a imagem daquele restaurante grande na rodovia Fernão Dias - onde sempre parávamos para tomar café da manhã. E aquele outro na rodovia dos bandeirantes, bem pertinho de Campinas, onde degustávamos aquela maravilhosa sopa de macarrão, carne e legumes, invariavelmente, na volta do interior nas noites de domingo. Você ainda se lembra daquela cidade Tietê onde a cada esquina havia uma esfiharia? Não se comia nada diferente na noite daquela cidade que não fosse comida árabe. Contei tudo a Zé Louco, inclusive da visita de sua mãe e Célia à minha casa - quando foi sugerido um encontro para reatarmos a amizade. Quando mencionei que estava de passagem pelo camping, indo à procura da caverna dos morcegos, ele se mostrou curioso e espantado com o meu propósito. Zé louco sempre foi um homem extremamente espiritualizado, freqüentou por muitos anos a sede da federação espírita na capital paulista; onde uma vez por semana desenvolvia os seus conhecimentos da doutrina; sempre numa quarta-feira, através dos cursos de educação mediúnica. Quando se mudou para Jundiaí passou a freqüentar menos por causa da distância, até que um dia deixou de vez. O camping da Beth está mais cheio. Não para de chegar motos, carros e muita gente a pé para a festa batizada como “a noite do rock”. Aos poucos se forma uma fila para cumprimentar Zé Louco. Todos querem dar abraços e trocar algumas palavras com ele. Quanto mais gente chega menos conseguimos conversar, porque todo mundo quer tirar fotos ao seu lado - que depois irão para o álbum na internet. Para alguns parece um privilégio imensurável, passar algum tempo ao lado de homem  tão sábio como ele. Minha musa, você comentava comigo que ele sempre gostou de ser o centro das atenções; e como ainda gosta! Quando deu uma folga no assédio ele me chamou para sairmos da área do camping e conversarmos melhor num lugar tranquilo. Fomos em direção ao outro lado da rodovia. Disse-me que gostaria de passar alguns ensinamentos que seriam úteis quando eu chegasse até a caverna dos morcegos. Cruzamos a estrada e subimos até o alto do morro dominado por uma pedra grande. De lá avistávamos todo o cenário natural e a movimentação do evento no camping. Nós nos sentamos no chão enquanto a escuridão acabava de cobrir todo o restinho de luz que vinha do céu. Era só o firmamento; a lua e estrelas como nossas testemunhas. Zé Louco pediu que nos sentássemos de costas para o cruzeiro do sul; de frente estava a lua cada vez mais clara e o céu azul escuro. Eu não tinha ideia do que aquele ritual significava e nem quando iria começar; ou mesmo se já tinha começado. Percebi um detalhe curioso em seu comportamento, ele parara de usar os termos “Meu patrão, véio e caralho”. O modo de falar era outro, falava como uma pessoa comum numa entonação hipnotizante e movimentos controlados. Olhei para cima admirando a lua cada vez mais brilhante e o céu límpido que destacava de forma acentuada o brilho piscante de cada estrela. De repente ele se mostrou aborrecido comigo me acusando de não prestar atenção aos sinais. “Que sinais?” – indaguei. Ele se mexeu sobre as pernas dobradas em posição de lótus e disse: “Você terá que sentir a energia da natureza tomando conta do seu corpo, até que estabeleça, ao certo, uma via de comunicação com Deus”. Fiquei imaginando que as possibilidades para que isso acontecesse eram infinitas, que poderia passar dias e mais dias e nunca chegaria a essa comunicação dessa forma. Comecei a achar que aquilo era um delírio, que talvez ele tivesse tomado ácido ou fumado maconha. Imaginei com meus botões que Zé Louco começava fazer jus ao apelido. Quando eu já estava a ponto de desistir ele começou uma conversa maluca que tentarei descrever aqui:
- Quando chegar à caverna você terá que purificar os pensamentos em busca de um ponto de sabedoria e poder. Esse ponto tão almejado é o lugar onde se sentirá forte e seguro para tomar todas as decisões.
- Ah, Zé. Eu tenho o desejo de aprender essas coisas, mas nunca soube como fazer.
- Não importa o que desejava antes. O importante é agora que está sob meus cuidados. Garanto que sei quais são suas intenções ao retornar nessa busca interior.
- Como sabe?
- Eu digo que sei, pois tudo está em seu intimo e ele é transparente a mim.
- Está querendo dizer que lê os meus pensamentos?
- Pode ser que sim. Mas não sei se poderei ensiná-lo na totalidade necessária para transcender o ponto vital.
- Do que está falando?
- O ponto vital é o seu intimo mais profundo onde só o seu desejo já é suficiente para realizar qualquer coisa.
- Meu Deus, Zé. Eu não estou entendo nada. Não estou pronto para isso.
- Só algumas poucas pessoas conhecem a forma de fazer esse desejo aflorar buscando o ponto único que liga o homem ao universo. Um ponto de conforto. Eu estou no meu ponto de conforto agora, vejo que você se sente um pouco incomodado com dores nas costas. Levante-se e procure outro lugar para sentar. Saiba distinguir onde é o seu ponto único de comunicação plena. Agora você também sente dor de cabeça, eu percebo isso.
- Eu não sinto dor de cabeça.
- Sente sim! Preste bem atenção aos sinais.
    Nesse momento um aperto de cima para baixo começou espremer o meu crânio como se fosse rachá-lo ao meio.
- Que dor é essa? Pelo amor de Deus Zé, faça parar, por favor!
- Controle a dor através do pensamento. Siga os sinais!
- Que sinais, homem de Deus! Que sinais...?
- Os sinais do seu espírito em ascensão. Murmure palavras sábias nesse momento que a dor sumirá por completo.
- Que palavras? Que palavras? Diga logo eu não agüento mais! A cabeça vai estourar, os meus olhos ardem.
    Zé Louco movimenta o braço direito devagar. Coloca a mão estendida a um palmo da minha cabeça. Sinto um halo de energia passando da palma de sua mão diretamente para o meu cérebro. No mesmo instante a dor some e tudo volta ao que era antes.
    Minha musa, assim começou o aprendizado que duraria mais de duas horas. E o que ficava bem obvio é que os conhecimentos de Zé Louco iam muito além do meu entendimento. E só com essa demonstração puderam se tornar evidentes e convincentes a mim. Porém, verifiquei nessa experiência que ele procurava explicar com seus conhecimentos, que os conceitos das coisas “inteligíveis” para ele, também poderiam ser em parte transmitidas a mim. A importância disso estava em provocar um estado de percepção diferenciada naquilo que consideramos “invisível”. De acordo com o seu ponto de vista, o que importava era a atitude como única forma de receber o “poder” e separar o bem do mal.
   - Agora você deve encontrar o “ponto” onde existe a troca com a natureza, receberá dali toda energia que precisa para ter o “poder”. Procure nesse chão um lugar onde possa se sentar sem se cansar. Não é qualquer lugar. Existe um especial, um corredor de energia.
   - Mas Zé... Esse é um lugar enorme. Um terreno grande e sem limites. Vou ficar feito uma barata tonta procurando um ponto para sentar?
   - Sim. Você deve procurar um lugar onde possa ficar sentado sem cansar o corpo e a mente. Não tente me enganar porque eu sei exatamente onde é esse lugar! Busque agora para que possamos começar a conversa.
    Comecei a andar ao redor... Sentava e levantava... Eu me sentia fazendo papel de bobo enquanto ele, em silêncio, permanecia de olhos fechados e com as mãos sobre os joelhos dobrados. Eu me invoquei e sentei diante dele na mesma posição de lótus. Ele abriu os olhos e me disse que aquele era o ponto dele e não meu. Que eu continuasse procurando até achar. E me advertiu severamente que eu poderia levar muito tempo para resolver esse enigma, mas se não resolvesse seria melhor voltar dali direto para casa. Pois, de nada adiantaria a minha ida até a caverna dos morcegos, sem antes obter o conhecimento ou a proteção necessária para um bom elo de contato com as forças da natureza.
- Aprenda com essa lição que nada é dado de presente. Tudo o que se tem para aprender deve ser aprendido com dificuldade. Essa é a sua verdadeira missão aqui. Não posso dar indicação ou sugestão. O seu intimo dirá onde é o lugar escolhido e onde está o seu “ponto” de contato, faça com paciência nem que tenha que percorrer cada centímetro desse chão.
- Mas Zé. Todos os lugares parecem iguais. Não vejo nenhuma diferença entre os pontos.
- Então role pelo chão, fique de bruços e depois de costas. Deite-se com os braços embaixo da nuca ou sobre o peito e olhe para as profundezas infinitas do céu da noite. Se não conseguir nada torne a rolar pelo chão. Experimente sensações de calor e frio. Procure ouvir ruídos e outras modulações naturais; quais sejam percebidas apenas com o estado de felicidade oculto na mente. Ouça o som de harpas ou citaras; faça uma viagem por todas as teclas do piano. Sinta cada vez mais Carmina Burana penetrando em seus sentidos primordiais de sobrevivência. Veja a imagem da vida passando diante dos seus olhos, num promissor encontro com a natureza em seu estado virginal. Imagine em tudo isso as contradições e injúrias impostas a você por falsos moralistas; gente dessa burguesia defensora de uma ideologia hipócrita mascarada por perversões. São eles os desviados do espírito de igualdade e que tratam as pessoas com diferença; ou que nunca seguem os ensinamentos na forma do amor pleno. Ditam as leis onde o dinheiro é absoluto na mente dos que administram regras infames, simbolizadas por uma cabeça de bode pregando o seu principal estilo de vida; um grande e feio bode, com a boca aberta cheia de moedas reluzentes; ele é o oráculo dos seus inimigos, aqueles que fazem distinção entre as pessoas e que se ajoelham diante de tal imagem pedindo mais sacrifício em nome do que professam. Esqueça desse mal que acomete o homem, que adoece a mente e apodrece a carne. Celebre a maravilha do amor. Encontre o seu lugar nesse chão porque uma grande provação o espera!
- Que provação?
- Não devo dizer.
- Por quê?
- Talvez não seja agradável.
- Como assim?
- Silêncio! Sinta o vento. Encontre o seu ponto.
- Não vou procurar ponto algum. O que significa “provação”?
- Silêncio! Vejo diante de você um cão de quatro cabeças. As patas são mãos entrelaçadas. E um homem de braços cruzados no peito com olhar arrebatador.
- Meu Deus, Zé. Vamos parar com isso. Veja lá: Nanda e Tom estão de volta!
- Venha comigo!
- Vou aonde com você?
- Venha comigo!
- Zé, você está sentado.
- Vou cuidar do seu espírito enquanto estiver aqui. Venha comigo. Feche os olhos e diga o que vê.
- Vejo cores em modulação. Uma flor amarela. Um pássaro preto comendo grãos espalhados no chão. A escuridão em volta de mim está mudando. A flor amarela agora virou para um tom esverdeado e depois mudou para roxo.
- Agora abra os olhos e fique com eles abertos. Repita detalhe por detalhe de tudo o que viu.
- Eu vi a flor mudando de cor e o pássaro preto comendo grãos. Isso significa alguma coisa?
- Você confia em tudo o que viu?
- Como assim?
- Você confia em tudo o que viu sem enxergar?
- Confio por que foi tudo imaginação.
- Você tem certeza?
- Claro que sim! Eu imaginei essas coisas com a minha mente.
- Levante-se e vá até atrás dessa pedra grande. Olhe com cuidado, volte e me conte o que viu.
   Achei estranho o pedido, mas fui olhar com jeito zombeteiro. No canto da pedra, onde batia um fino raio de luar, balançava num caule longo uma flor roxa, logo mais ao fundo um pássaro ciscando o chão no escuro.
   Zé continuava imóvel na mesma posição e de olhos fechados.
   - O que viu?
   - Vi a flor e o pássaro.
   - Agora você confia mais nos seus olhos ou naquilo que não vê, mas sente a presença?
   - Eu já não sei mais no que confio.
   - Por isso precisa desenvolver o “poder” incutido em você. Procure o seu ponto.
   - Está bem, Zé, farei uma última tentativa.
   Levantei-me devagar e procurei o lugar onde estava a flor e o pássaro. Não havia nada em nenhum dos lugares. A flor e o pássaro desapareceram. Fiquei apreensivo com a situação. Fiz um grande esforço para me controlar. Já sentia uma nítida sensação de pânico tomando conta do meu pensamento. Pensei que talvez ele estivesse me vigiando com o seu “terceiro olho”. Sentei no chão e encostei as costas do lado oposto da pedra. Pus as mãos no peito e senti o coração pulsando rápido, já parecia um pouco ofegante de ansiedade. Veio um cansaço tomando conta do corpo. O corpo pouco a pouco relaxou e caiu encostando-se completamente na pedra, até que eu perdesse os sentidos. Ouvi Zé louco rindo por cima de mim. Acordei assustado.
   - Você achou o seu ponto! Como se sente? – ele disse.
   - Achei? Tem certeza que achei? Eu me sinto bem, mas com um pouco de sono.
   - Sim! Você finalmente achou. Faz mais de meia hora que dorme como um bebê.
   Ele garantiu que aquele era o ponto certo. O lugar onde confiei a minha alma a Deus. Tornou a perguntar como eu me sentia e eu respondi que não via diferença nenhuma dos outros pontos. Ele desafiou-me a sentar em outro lugar e ter a mesma sensação. Por um incrível motivo, que talvez seja inexplicável, eu tive medo de me sentar em outro ponto. Acabei insistindo que fossemos embora dali naquele instante. Seria melhor voltarmos ao camping para celebrarmos com os amigos. Ele concordou. Descemos o morro aos tropeços até chegarmos à margem da estrada. Talvez essa lição tenha me ajudado a perceber diferenças que eu não sabia que existiam.
   Sabe de uma coisa, minha musa? São essas lembranças que ainda me fazem dar algum sentido à vida. Pois, a cada carta sinto o quanto o meu mundo foi se desfazendo em pedaços com coisas estranhas acontecendo no meio do caminho. Não agüento mais pensar em tantos momentos marcados a ferro, fogo e paixão; e depois, com a maior tristeza de toda essa vida, lembrar o que você fez no final com tanta frieza. Por que agiu assim minha musa? Por quê? A mente sempre fervilha quando o corpo começa mostrar fraqueza. Hoje é mais um dia importante em nossa história, digo “nossa história” porque estou vivo e sinto permanentemente a sua presença ao meu lado – enquanto você fizer parte de mim seremos um único Ser em busca do mesmo conhecimento -; sinto o seu cheiro, o seu olhar, a sua insegurança e aquela magia perpétua gravada no último sussurro de prazer. Lamento que - ao nos tornarmos inimigos - perdemos a clareza de pensamento. E, depois de tempos, ainda se mantenha a permanente sensação que fomos cruelmente derrotados por uma intuição. Não há nada que se possa fazer quando não se tem domínio sobre si ou quando um Ser derrotado não consegue enxergar o seu erro para se emendar. Você, minha musa, tinha medo. Um medo tão grande de se sentir inferiorizada que fechou a sua jornada ao conhecimento. Eu tentei desafiá-la para mudar esse “status quo” danoso em sua vida, mas não adiantava, eu sempre perdia o último round da luta - quando suas palavras me reduziam a uma criatura incapaz, velha e burra. Daí em diante eu não tinha mais paciência e nem tampouco receio do inexplicável. A minha clareza de espírito estava ofuscada por um desejo irresistível de desistência. Você tornava-se pouco a pouco o meu inimigo invencível sem saber. Nenhum momento de clareza, conhecimento ou poder seria suficiente para mudar a ordem da situação naquele momento. Justamente porque o principal aspecto no comportamento de um lutador derrotado, é a necessidade de recuperar a confiança em si para poder levantar e seguir adiante, isto é, tendo a garantia que o propósito daquela luta chegou ao devido fim. Mas nunca foi assim conosco. As noções variáveis eram tantas, que nunca soube ao certo quando eu estava ganhando ou perdendo, mesmo que ao final eu me sentisse exaurido em minhas forças vitais de tanto pensar. Contrabalançado por um valor negativo que ficou dessa impressão, sigo o caminho com o coração aberto, porque estou de frente ao mundo e suas novas sensações. Essa é uma maneira metafórica de dizer que estou num período transitório importante dessa jornada. Uma jornada em busca de satisfação e realização. A busca por um lugar onde a mentalização me fará escolher qual a alternativa mais acessível para desvendar os mistérios do coração que, outrora, ficaram fora do meu conhecimento. Mistérios capazes de “nos” transportar para além dos limites determinados. Você sempre teve medo de ser transportada e esse medo a distinguia das pessoas comuns, o que a colocava em pouco tempo de volta à redoma de vidro. Mas eu fui um aliado importante na sua dor ali dentro. Um aliado escravizado por sua imprevisibilidade e inconstância, mas que estava muito consciente disso. Alguém que se colocava diante de tantos infortúnios apenas como um mero ouvinte - mesmo em situações extraordinariamente fora do comum e que nunca eram elucidadas completamente. O meu papel era de um ouvinte com data e hora marcada de acordo com a sua vontade, posto no papel insólito de um psicoterapeuta leigo e pouco apto a lidar com o tamanho do desafio. Nessa situação tudo parecia muito aterrorizador e confuso a princípio, mas a cada novidade as coisas iam se tornando mais precisas nessa minha falta de aptidão. E de repente um mundo totalmente novo se abria na minha frente. Um mundo inimaginável que deveria ser tratado com o mais delicado carinho; daquele tipo que somente se faz ao Ser amado. Ah, minha adorável Miss C, nessa hora eu a protegia e vigiava. Depois de longos minutos desabafando vinha o silêncio e você abria os olhos, fazendo de mim um grande homem perante a sua permanente carência de compreensão. No entanto, esse papel era muito pequeno para minhas ambições; eu desejava insistentemente saber se um dia deixaria de ser o mero ouvinte e passaria a um papel principal em sua vida. Tornando-me um homem de conhecimento pleno na sua constante luta de reconhecimento pessoal e de progresso em todos os sentidos; sabendo assim, muito claramente, quais seriam os nossos objetivos ou projetos juntos. Era isso que a assustava “objetivos ou projetos”. Sinônimos de um comprometimento que dificilmente venceria o seu medo. E assim vivia se debatendo a todo instante com o primeiro dos seus inimigos naturais. Você tinha um medo terrível, traiçoeiro e difícil de combater. Uma pessoa apavorada e com cara de inofensiva, mas que de qualquer forma, ou a qualquer momento, poderia fugir e se esconder até que a pressão do tal inimigo natural diminuísse. Mas, e agora? Para onde foram os seus medos na terra do “faz-de-conta”? Você se tornou capaz de compreender melhor todas as coisas, medindo tudo com cuidado antes de dar novos passos? A clareza de pensamento era o seu segundo inimigo nessa lista. Você teve coragem de desafiar esse inimigo também? Lutou contra ele e venceu? Ou esse inimigo a tornou uma pessoa mais cruel, medrosa e mimada do que era antes? Conseguiu decifrar que a clareza de pensamento que tinha antes a levou a um erro de avaliação, fazendo com que perdesse a maior batalha de toda sua vida? Minha musa, minha musa.... Uma vez que esses inimigos dominaram você por tanto tempo, não havia nada que eu pudesse fazer para ajudar. Apenas você poderia fazer por si. Você considerou que verdades e mentiras eram coisas tão inofensivas que poderia brincar com elas, assim como se brinca de blefar num jogo de cartas. Nunca imaginou que o pior se voltaria contra si e isso a faria renunciar a tantas coisas que gostava. Nota agora que a essência dessa renúncia residiu na capacidade de manter o equilíbrio entre metas, deveres, responsabilidades, direções na vida e respeito aos limites? O seu sistema de resposta a tudo isso sempre sofreu inadequações por você ser tão inflexível. O verdadeiro papel atribuído indiretamente a mim - por suas atitudes ofensivas - era o de pacientemente torná-la uma pessoa apta a fazer escolhas certas. Pode parecer estranho, mas a maioria das pessoas sempre escolhe o caminho mais fácil, o que nem sempre é o ideal, e por conta disso, acabam parando antes de concluir o trajeto. Sempre foi assim com você, não foi, minha musa? Com isso nunca aprendeu que era mesmo necessário renunciar ao que parecia confortável e estabelecido, mesmo que isso causasse uma dor tão insuportável quanto uma dor física das piores. As experiências humanas mais dolorosas são aquelas que nos trazem os melhores aprendizados. Em muitos casos uma parte da gente precisa morrer, para modificarmos um padrão de comportamento. E se não matarmos essa parte - que durante toda a vida não achamos ser tão danosa assim - então continuaremos transportando para sempre amargura e lágrimas desnecessárias. Nesse pensamento fica o aprendizado que ao renunciar ao antigo damos espaço ao novo. Só assim é possível desenvolver novas ideias, novos conceitos, nova forma de vida e uma compreensão melhor da missão que temos aqui. Abrir o caminho, que deve ser sempre de evolução espiritual até um nível de consciência, por onde a dor do sofrimento seja diminuída e totalmente aceita; é a única maneira dessa dor não ser encarada como um sofrimento. Isso é um grande desafio, eu sei. E que talvez esteja além das suas capacidades. No entanto, esse tipo de desafio é estritamente necessário para o ajuste de toda e qualquer consciência das percepções reais; sejam elas dolorosas ou prazerosas. Talvez o processo que precisa ser executado dentro de nós, ou de você - morrer / renascer - esteja ligado a uma vida de total honestidade. Com um olhar contínuo no automonitoramento, assegurando a plena comunicação com o interior e exterior – interior que faça refletir sobre os atos e exterior na relação de interação com outros semelhantes – e invariavelmente refletindo com a máxima exatidão, não apenas nas palavras que se diz, mas essencialmente na forma como se diz. Alguns seres humanos possuem uma tendência tão ilegítima de ignorar a força da palavra, que acabam subestimando a inteligência dos outros – isso talvez tenha acontecido com você e sua família, minha musa. Por exemplo, quando um aviso chega através da palavra, – seja por que meio for - torna-se necessário avaliar o propósito maior de tal feito. Ao ignorarmos, dando nenhum valor ao seu executor, ou mesmo ao conteúdo explícito das cartas, estamos de uma forma ou outra questionando a sua legitimidade como forma de expressão racional, mesmo que nessas palavras esteja envolvida a mais profunda verdade. Vale lembrar que nesse caso não existem muitas regras a serem seguidas, exceto uma que mostra o valor de tais verdades e dos bons valores recebidos dos pais. Porque, na concepção de algumas pessoas, e minha também, o ato de ocultar o que é verdadeiro torna-se potencialmente uma mentira. E se omitir, numa hora tão delicada como essa, uma covardia. Mesmo que pareça um ato de irresponsabilidade do seu feitor, a revelação da verdade pode ser encarada como uma atitude sábia de amor ao próximo. Mesmo que pareça uma atitude interminável, chata e quase impossível de suportar. Ah minha musa, essa missão tornou-se um fardo crônico na minha vida. Por isso continuo em busca de uma fonte de iluminação e clareza, pois o meu amor-próprio me obrigou a fazer essa viagem e experimentar as deliciosas sensações do renascimento, cada vez mais para atingir uma ampliação pessoal num nível mais elevado de consciência espiritual. Só por isso ainda estou aqui, mesmo que para algumas pessoas isso pareça uma perda de tempo. Mas perder tempo escrevendo cartas e as enviando a quem nunca as lerá, parece ser um ato bem menos pernicioso do que o praticado por você durante o tempo relembrado aqui.

Que Deus esteja ao seu lado.
               Do seu admirador.
                                    Re.

8 comentários:

  1. Um capítulo muito interessante,sobre o reencontro do admirador Re. e Zé Louco,não foi a toa parada que fez.Mesmo tendo lembranças do passado com sua musa,foi uma auto-ajuda e análise que Re. fez,pois Zé Louco um homem espiritualista ajudou o admirador a buscar respostas dentro dele mesmo,pois não adiantaria ir pra caverna dos morcegos sem o auto-conhecimento do acontecia com sua e mente e seu coração,mesmo Re. duvidando do que Zé Louco falava e agia.Era uma forma de mostrar paz interior ,aceitação porque Re. passou por tudo aquilo com sua musa.Vidas passadas???Mesmo depois da experiência Re. teve uma nova visão dos fatos.E quis escrever pra sua amada mesmo que em vão dizendo que a melhor forma de descobrir resposta é olhar pra dentro de si,pois estarão todas lá.
    Mesmo dizendo que senti sua falta,senti seu cheiro,está sendo sincero apesar de tudo,que poderia ter sido diferente pena que ela não tenha sido sincera e honesta principalmente com ela mesmo,vivendo de mentiras e fantasias.Temos que buscar a paz espiritual pois Miss C vive na escuridão dos seus sentimentos.
    Por isso que ele sempre termina dizendo:"Que Deus esteja sempre ao seu lado"Parabéns pelo texto Renato.até.

    ResponderExcluir
  2. Re. contando sua passagem ao camping e relembrando fatos marcantes do encontro do seus amigos,e nesse percurso seu grande amigo Zé Louco lhe chamou e convidou pra ir ao local mais calmo onde pudesse conversar mais.E foi a surpresa do Re. Zé Louco mudou totalmente de atitude e modo de falar parecendo outra pessoa.Se sentou como se estivesse hipnotizado e fora da ali,e começou a dizer coisas que Re. no presente momento não estava entendo,mostrando e falando coisas espirituais,mesmo duvidando daquilo tudo o admirador colocou em prática tudo que o amigo pediu e o seu espanto sentiu vibrações,que até então duvidava.Zé Louco apenas mostrou um caminho ao Re. que não adiantava ir a caverna dos morcegos se não as encontrasse dentro do seu coração respostas ainda obscuras ao ocorrido do seu rompimento com Miss C.Uma experiência nova que o ajudou a compreender melhor e aceitar o seu sofrimento.
    Nada nessa vida passamos em vão tudo tem um propósito,boas ou ruins servem de aprendizados.Mesmo com tanta dor e saudade que Re. senti pela sua musa,espera que faça o mesmo busque respostas a tudo que se passou na sua trajetória vida de mentiras e ilusões,para que assim possa ser uma pessoa melhor e feliz.
    A paz interior é muito importante sem isso,não terá felicidade completa.Que texto mais espiritual seu autor,excelente a vida como ela é.Parabéns!!!Adriana.

    ResponderExcluir
  3. Dear Mister R,

    E essa busca por decifrar, despir, desnudar os sentimentos e emoções de Miss C o levou a exaustão...como se parte dele se misturasse a ela e no fim (que não existe e talvez nunca existirá) eles tornam-se apenas um.
    Em qualquer momento, por qualquer tempo, sim eles seguirão, tão completos por suas diferenças que não reconhecerão outra forma de amar senão a completa e absoluta entrega de si para si mesmo...
    Desejo isso ao nosso querido personagem, que ele ao evitar tanto essa "mistura" aceite o passado e refaça o presente. Que dores tornem-se cores e um esboço venha devagar, surgindo e delineando uma nova vida...

    ResponderExcluir
  4. Patricia Ramos Sodero22 de janeiro de 2013 22:39

    Sem sombra de dúvidas,Zé Louco,que já era uma figura importante na vida do Re,como um grande amigo,passa agora a ser,como um conselheiro espiritual.Nosso protagonista se assusta um pouco,diante da situação.Mesmo sabendo que há uns anos atrás,seu amigo já desenvolvia sua mediunidade.Os ensinamentos aos quais Zé Louco se referia,com certeza foram os rituais que praticou,etapa por etapa,junto de seu amigo,para que chegasse à Caverna dos Morcegos,de corpo e alma limpos,revigorados.
    Sim,porque era isso que Re precisava,para acabar com o grande conflito entre o "bem" e o "mal"...o amor e o ódio....a tortura de seu passado.
    Passado onde fora maltratado por diferenças materiais e ensinamentos sem regras.
    A "viagem" feita por Re,comandada por Zé Louco,ainda não o convencia.Apenas após a visualização concreta da flor que viu,na cor amarela,que depois torna-se roxa,e o pássaro,no escuro,o fez relaxar,que até dormiu.Encontrou o seu verdadeiro "EU".
    Acredito que,existe um grande enigma a ser descoberto,com certeza.Porque o nosso protagonista,ainda descreve as cartas de sua musa,como se ela nunca fosse lê-las.É como se sua musa,já não fizesse parte desse mundo.
    A razão pela qual Re termina sempre sua narrativa dizendo: " Que Deus a acompanhe sempre...."
    Belo capítulo,Renato....Espiritualidade é um assunto que nos envolve muito....
    Vamos aguardar o desfecho desse enigma,com muita ansiedade....
    Grande beijo...e até.

    ResponderExcluir
  5. Então eu estava certa qdo batizei "sua musa", não é mesmo Sr. Autor?!
    Antes de mais nada, quero parabeniza-lo pela beleza do texto, um dos mais belos q vc já escreveu, Renato!
    Fiquei admirada com a inesperada "transformação" do Zé Louco q aki aparece como um Guru daqueles q atrai inumeras pessoas com seu carisma, sua sabedoria e espiritualidade, bem diferente do "maluco beleza" do capítulo anterior!...
    Uma nobre atitude do Zé Louco em querer ajudar seu amigo a se encontrar... Com certeza seus ensinamentos serao de gde valia no momento em q Re se deparar com verdades evidentes, bloqueadas inconscientemente por ele mesmo num instinto de proteção para q não sofresse ainda mais.
    Mtos fatos crueis ocorreram para q o relacionamento dos dois tivesse um trágico fim. Circunstância esta q, provocada pela pessoa para quem nosso protagonista dispensou tanto do seu amor e dedicação, ocasionou tamanha decepção bloqueando mtas das respostas q ficaram reprimidas lá no fundo do seu íntimo mortificado...
    Pelo visto, o prejuízo foi gde para ambos, mas nosso amigo se mostra mais forte e disposto a enfrentar o q vier para, finalmente, transpor os limites e mistérios do seu coração. Ele já consegue visualizar o verdadeiro papel a q foi submetido sem degustar o destrutivo sentimento de vítima da situação. Seus olhos já veem td por um ângulo diferente e sua mente da um sentido novo aos fatos e o envolve com a coragem da transformação, de renascer para conhecer a verdadeira essência de viver, para si e para o próximo!
    Mais uma vez, Parabéns Renato! Adorei! BJSSS - Edneia

    ResponderExcluir
  6. A QUE PONTO CHEGA UM SER HUMANO TOTALMENTE DESEQUILIBRADO DEPOIS DO FIM DE UM RELACIONAMENTO.COMO SE DIZ:UM AMOR SE VIVE A DOIS ,PELO JEITO RE. NÃO TEVE ESSA SORTE.COMENTA-SE TAMBÉM QUE OS 'OPOSTOS SE ATRAEM' NA MINHA PERCEPÇÃO DEPENDE MUITO ATÉ QUE PONTO FAVORECE ISSO.NO CASO DO ADMIRADOR SÓ O DESTRUIU.UM HOMEM SOCIÁVEL DE BEM COM A VIDA,CHEIO DE AMIGOS E UMA FAMÍLIA LINDA.
    MISS C TOTALMENTE INVERSO UMA MULHER SEM ESCRÚPULO SÓ ENTROU NA VIDA DELE PRA TIRAR O MELHOR E VANTAGEM DE RE.ACABANDO COM O SONHO DE SER FELIZ.
    MAS TUDO TEM UMA EXPLICAÇÃO,QUE RE. LOGO CHEGARÁ A CONCLUSÃO QUE APESAR DE TUDO VALEU.SEU AMIGO ZÉ LOUCO ENCAMINHOU O MODO CERTO DE OBTER TANTO AS RESPOSTAS QUE RE. PROCURA.
    DEVEMOS SEMPRE PROCURAR NOSSA FELICIDADE DENTRO DA GENTE,SENDO ASSIM,ESTANDO COM ALGUÉM OU NÃO SERÁ APENAS UM COMPLEMENTO E NÃO PORTO SEGURO.
    PARABÉNS RENATO,UM TEXTO ONDE MOSTRA QUE PODEMOS SER FELIZ ESTANDO BEM CONSIGO MESMO.WAL.

    ResponderExcluir
  7. Nossa parece que esse conto Miss Dear C que o admirador Re. relata sobre seu relacionamento conturbado.Parece uma despedida a sua musa que não está mais presente nessa Terra??Coisa estranha no começo diz coisas meio que sem sentido um desabafo mais pra ele do que pra sua amada.
    Será que essas cartas que ele escreve é uma forma de despedida por não ter tido oportunidade de dizer tudo que sente por ela???
    Quando ficou internado,depois fugiu da sua família pra se situar do inferno que vivia,vai saber,né.Tem muitas coisas detalhes que seu autor não revelou ainda,espero que com decorrer desse conto possa tirar nos dúvidas e esclareça fatos obscuros aqui.Abraços.

    ResponderExcluir
  8. A ida a caverna significa o convite a introspecção e a reflexão.Por qual motivo nosso herói não conseguia "um ponto" onde se sentisse confortável para iniciar a visita ao seu próprio eu? Será que se dá ao fato de estar ainda muito fragilizado e sem paz interior?Como Re ainda remoe a dor da perda,projetando no outro o fracasso da relação não consegue facilmente encontrar o equilibrio, tranquilizar seus pensamentos e tentar buscar dentro dele as respostas que tanto procura.Seu amigo Zé Louco,por ser carismático e merecedor da confiança do Re,conseguiu junto a ele dar o primeiro passo para a então busca interna.Quando Re percebeu que Zé Louco estava no caminho certo,não conseguiu seguir em frente e recuou,pedindo que retornassem ao acampamento (medo de se deparar com a verdade dos fatos?) e foi prontamente atendido por Zé Louco.

    Vamos torcer, para que essa busca interna por respostas progrida e que Re se liberte das amarras e que seja realmente feliz.

    Um abraço.
    Simone

    ResponderExcluir