Dear Miss C Part 13

 Eu não resisto à tentação de escrever para você, minha musa. De tanto dirigir em vão palavras aos seus cuidados, no tempo em que estivemos juntos, peguei esse hábito de escrever mesmo sabendo que nunca receberia qualquer resposta da sua parte. E assim continuo aqui sentado lembrando de todo o passado que fez marcas definitivas em nossas vidas. É óbvio que fica bem mais fácil analisar tudo por outro ângulo de visão quando se está de fora. Ou quando aquilo que nos é ameaçador e pouco familiar, coloca a nossa mente no caminho de buscar ativamente respostas quanto à validade daquilo que nos foi ensinado e valorizado, que nunca aplicamos na totalidade das nossas vidas. Por que o caminho de qualquer vida está no conhecimento de questionar tudo, inclusive aquilo que é invisível aos nossos olhos ou a nossa melhor capacidade de discernimento.
      Senti bastante fome depois da longa caminhada; o banho morno foi bem relaxante. Entrei, saí e o cachorro vira-latas continuou quieto num canto. Pouco abriu os olhos para ver quem era, ainda que recebendo os respingos do chuveiro que soltava água à prestação. O lanche de pernil serviu para enganar o apetite - uma fome de leão e dor nos calcanhares devido à pisada dura. Não vejo a hora de chegar até a caverna dos morcegos para ter o meu momento de comunhão com Deus; na mais pura essência de toda sua criação. Aquele será o lugar de onde os pensamentos irão se alinhar para a noção mais próxima que tenho da vida ou da morte, com todos espíritos que regram o milagre da evolução interior. Dentro e fora do meu ser encontrarei a mim mesmo pronto para alcançar cada vez mais a sabedoria, o perdão e a graça; numa total consciência com atividade amorosa suficiente para eliminar aquilo que é repugnante ao meu equilíbrio perfeito. E que tudo isso finalmente me traga a paz tão esperada.
   Mal saí do quartinho onde me troquei, quando Nanda acena gritando meu nome: “Re... Re... Veja lá no fundo quem chegou e procura lugar para montar barraca!”.
    Minha musa, lá estava o nosso amigo Zé Louco com uma de suas namoradas; desta vez a arquiteta Simone. Zé louco foi o melhor amigo que tive nos tempos de estrada. Pessoa solidária sempre disposta a uma boa conversa. Um parceiro guerreiro cheio de ideais revolucionários. O seu grande pecado era a cada final de semana trazer uma namorada diferente ao camping; e ainda se vangloriar disso. Você odiava esse jeito dele, lembra, minha musa? Um dia poderia estar com a enfermeira, outro dia a arquiteta, outra vez, aquela vendedora com traços de índia paraguaia e, em alguns casos, a própria esposa com seus mais de vinte anos de união inseparável - que fazia de conta que não sabia de nada, mas sabia de tudo. Ela também gostava de acampar. Tirando esse lado mulherengo, Zé Louco sempre foi ponta firme no que alguém precisasse dele - atendia gente conhecida ou estranha sem fazer qualquer distinção. A figura de Zé Louco era hilária e diferente. Um baixinho do tamanho de nada, tatuado – tatuagens desbotadas pelo tempo -, cabelos e barba praticamente brancos e desalinhados, roupa surrada e suja da poeira da estrada, dentes cariados, bigode amarelado pelo excesso de cigarro; e ainda um chapéu de cowboy todo torto e seboso. Ainda assim ele era aquele cara extremamente carismático, popular e muito respeitado no meio em que vivíamos, lembra disso? Ele era uma lenda viva rodando pelas estradas em sua motocicleta velha vazando óleo, e por onde algum parceiro seu chegasse sempre tinha alguém para perguntar se ele também viera junto – e se via logo a frustração da pessoa quando a resposta era: “Não desta vez”. Ganhou esse apelido “Zé louco” devido ao temperamento pouco previsível, principalmente em situações em que deveria agir com bom senso - ele não era muito de debater. Aparentemente muito autoritário era um amigo para todas as horas, jamais deixaria um companheiro na mão.
Após um longo e apertado abraço, com direito a tapas nas costas e murros suaves por cima dos ombros, nos soltamos para olhar com mais atenção os detalhes um do outro.
- Meu patrão o que faz por aqui depois de tanto tempo? (ele mantém o costume de chamar a todos de “meu patrão”)
- Caramba Zé, você é a última pessoa que eu pensaria encontrar nessa caminhada.
- Meu patrão, nós tentamos entrar em contato com você por várias vezes. Mandamos convite das festas que fizemos nos aniversários dos nossos amigos estradeiros. Você não recebeu? Eu mandei e-mail em todos seus endereços eletrônicos e torpedos no celular. Pedi ao meu cunhado que fosse de moto até São Paulo para saber de você, mas ele voltou sem noticias porque não encontrou ninguém em casa. Caralho! Fiquei chateado, meu patrão... Você nunca respondeu uma única mensagem.
- Zé... Se eu contar o que me aconteceu você não vai acreditar. Eu não podia responder mensagem de celular nem internet. Eu fiquei meses em tratamento numa clínica em Itapira. Ainda não falei disso ao Tom e Nanda, então vamos falar baixinho que depois, com mais tempo, eu explico tudo em detalhes.
- Meu patrão, fala sério, vai. Para de brincadeira! Você aparece do nada e já vem me zoando, né? Que parra é essa de tratamento? Você por acaso virou um daqueles zumbis da cracolandia? Essa história não me convence. Tudo bem que você está diferente com esse visual de Jim Morrison em seus últimos dias, mas até aí eu também ando assim. O que me admira é que, em vista do cara vaidoso que você era, parece que mudou bastante, talvez até tenha sentido saudade do meu estilo e resolveu adota-lo. Mas ficar piradão da cabeça a ponto de ser internado é difícil acreditar...
- É... Não adianta mesmo tentar explicar. Você continua o mesmo baixinho cabeça dura de sempre, mas mesmo assim eu gosto pacas de você.
- Eu também te considero pra caralho. Uma pena a gente ter se afastado durante tanto tempo. E a namorada veio com você?
- Nós não namoramos mais.
- Sério? Caralho, meu patrão, vocês pareciam se dar tão bem. Faziam um casal até que bonitinho. Tá certo que ela era bem calada, tímida e muito na dela. Mas a gente gostava de ver vocês juntos. Não arrumou outra ainda?
- Ainda não. Estou dando um tempo, colocando a cabeça no lugar. Andei pensando em fazer umas coisas ruins que agora me arrependo um pouco.
- Caralho, véio! O que ela fez de tão grave? Ela me parecia uma pessoa tão legal. Todo mundo gostava dela e admiravam o jeito que vocês andavam pelo camping de mãozinhas dadas e tudo, com aquele ar de casalzinho apaixonado. Quando vocês se trancavam na barraca, eu lembro bem, ninguém incomodava porque todos sabiam que o casalzinho de pombinhos estava em lua de mel. Aquela barraca tremia, hem, meu patrão? Fala sériooo... A gente ouvia de fora vocês mandando ver ali dentro... Ainda bem que era uma barraca para quatro pessoas, porque se fosse do tamanho da minha, vocês rolariam com barraca e tudo por cima das outras.
- Você é fogo. Não perde a oportunidade de tirar um sarro.
Nesse momento Tom aparece com o prato cheio de carnes saídas da churrasqueira. Asas e coxas de frango, picanha, lingüiça e pão fatiado por cima: “Divirtam-se com isso, se acabar eu trago mais. Ah... Se quiserem cerveja e refrigerante é só pegar na caixa de isopor no porta-malas do meu carro”. Zé responde: “Eu não bebo mais, só fumo. E não consigo parar com esse veneno que vai acabar me matando! Vou provar uma asinha e um pedaço de lingüiça com pão, depois vou montar barraca naquele pedaço de chão lisinho que encontrei beirando a cerca de arame farpado”.
- Pois é meu amigo. A vida prega peças na gente. A minha mãe anda muito doente. A minha internação só fez o estado dela piorar. Você se lembra quando contei que ela quebrou tudo em casa num ataque de fúria?
- Lembro sim, meu patrão. (de boca cheia mastigando pão com lingüiça)
- Então... Depois disso vieram as alucinações constantes. O estado mental foi piorando; o físico também foi dando problemas. Ela sentia dores na coluna e os ossos rangiam mesmo estando parada. A cabeça doía tanto que ela queria dar com ela na parede. Os remédios fortes para amenizar as dores acabaram afetando a mente. Foi um tempo complicado. Agora parece que está tudo controlado porque o médico conseguiu encontrar uma medicação certa para o problema.
- Meu patrão... É triste isso, heim.Vem cá! Quem internou você? (ainda de boca cheia)
- Foi o meu filho mais velho.
- Por quê ele fez isso? (engolindo)
- Olha Zé, eu estava com depressão. Não saía mais de casa. O meu passatempo era escrever cartas para aquela infeliz. Chegou um tempo que ele resolveu me internar na tentativa que eu melhorasse e voltasse a ser sociável.
- Entendi... Agora você está bem? Não vai atacar a Simone e eu enquanto dormimos, né? (E dá risadas sem parar até quase engasgar)
- Não, Zé. Pode ficar tranqüilo que essa fase já passou.
Em seguida Tom aparece de novo, fica menos de um minuto e vai correndo para cuidar do ponto da carne e da altura do fogo. A partir daquele momento, demos muitas risadas enquanto Tom ia e vinha para dividirmos em três o que tinha no prato; no final da comilança nos abraçamos emocionados pelo reencontro, principalmente agradecendo a Deus pelo pão nesse ato de celebração. O palco já estava montado e a música tomando conta do ambiente no começo da trilha ecológica; o lindo caminho para a cachoeira da porteira preta. O ambiente preenchido com som mecânico, até que a primeira banda subisse ao palco para tocar clássicos do rock. Nanda ajudou no preparo do churrasco: cortou, temperou e trouxe baciadas de carne para a churrasqueira. E Tom comandava o ponto da retirada. Ela sempre vinha dançando; fazia malabarismos com a bacia como se fosse Carmem Miranda, e nós morríamos de rir do jeito dela. Uma verdadeira palhaça, no bom sentido, é claro! Ao final do churrasco nos sentamos numa roda de cinco para falar um pouco da vida de cada um. Miss C, por mais que eu não quisesse o assunto acabou sendo você outra vez.
- Puxa vida, meu patrão, fiquei chateado por vocês terem terminado.
- Foi melhor assim. Ela nunca gostou do Re de verdade. No entender dela aquilo era apenas diversão. – rebateu Nanda antes que eu abrisse a boca.
- Não sei. Eu geralmente não me engano com as pessoas. Ela tinha um olhar bom e um jeito discreto. Sempre me tratava bem quando eu aparecia na barraca deles para pedir qualquer coisa – afirma Zé ainda meio chateado.
- Ah Zé... As aparências enganam... Ela não era nada do que se mostrava. A gente que é mulher sabe observar bem esses detalhes em outra mulher – continuou Nanda tentando convencer Zé Louco que Miss C era uma fraude.
- Vocês não têm assunto melhor para conversar? – apartou Tom – vão ficar o tempo todo falando de quem já “morreu”?
- Ele precisa confrontar os fantasmas que o perseguem dia e noite. Não existe outro jeito que não seja a eterna busca de explicações para encontrar as respostas. Renunciar ao passado não funciona; uma hora ou outra tudo volta à tona. O melhor é trabalhar a mente na busca do auto-entendimento. Isso tem que ser feito com muita coragem, principalmente para enxergar onde errou e tentar consertar – afirmou Nanda enquanto Tom se levantou para cumprimentar amigos que chegavam.
- O que ela fez de tão ruim para ele? Eu não entendo porque você a critica tanto assim! – Zé louco agora parece indignado.
- Ela não presta, fazia dele um palhaço todo o tempo! – Nanda exclama, parece brava e continua - Re... Conte a ele o que ela fez. Não precisa contar tudo, apenas dê uns dois exemplos.
- Ok, gente. Não briguem por causa disso. Eu conto sim. Bem... Que coisa mais chata isso! Vou começar falando a respeito de telefonemas: era muito difícil falar com ela no celular porque sempre dava caixa postal. Mesmo depois nunca retornava a ligação. Eu só conseguia algum contato quando ela queria falar comigo. Ou então, quando por um milagre, atendia, logo batia o telefone na cara na primeira palavra que não gostasse. Depois de umas dez vezes que fez isso acabei desistindo de ligar. Eu notei que depois de um ano nunca ouvira o seu celular tocar - ela o escondia bem lá no fundo da bolsa. Um dia eu disse assim: “Por quê você esconde o celular? Tem medo que alguém ligue para você enquanto estamos juntos no camping?” Ela respondeu; “Ninguém vai me ligar!”, e eu retruquei, “Mas e a sua família? Ninguém se preocupa se você está bem ou se chegou direitinho ao destino?”, novamente veio a resposta, “Eles não vão me ligar e ponto final!”. Pois é... Era assim que funcionava, se eu fosse um maníaco e a esquartejasse em qualquer cidade distante do interior, enterrando os pedaços ou dando aos cães, ninguém saberia. Depois de um tempo o nosso contato ficou restrito à internet. Bom... Ela nunca me ligou nos dias que ficávamos distantes, nem para perguntar se eu estava bem. Nem no meu aniversário me ligou... Quando retornávamos do camping, – em todas as vezes que viajamos junto - isso depois de duzentos quilômetros ou mais, ela nunca me convidava para entrar em sua casa; não perguntava se eu queria descansar alguns minutos, comer um lanche, beber água ou ir ao banheiro, antes de seguir para minha residência distante dali mais de uma hora. A minha parada naquele portão era apenas para retirar os seus pertences e ser dispensando o mais rápido possível, fosse debaixo de chuva ou tempo bom.
- Não acredito que ela fazia isso com você! – Zé incrédulo, balança a cabeça.
- Verdade. E tem mais. –continuei – Certa vez combinamos de ir ao motel num sábado. Ela me convidou para ir a sua casa assistir um filme que passaria na tv a cabo. Ficamos ali na sala assistindo o tal filme que nem lembro mais o nome. A sessão terminou vinte e duas horas, foi quando tudo aconteceu:
- Está pronta?
- Sim estou.
- Você avisou a sua mãe que vamos dormir fora?
- Não avisei.
- Por quê?
- Porque eu não vou dormir fora com você. Quero que me traga de volta no máximo às duas horas da manhã.
- Mas eu não posso. Você esqueceu que moro longe e o meu bairro está super perigoso? Se for assim é melhor a gente deixar o motel para amanhã mais cedo.
- Eu não quero. O melhor mesmo é você ir embora agora!
Nesse momento ela abriu a porta da sala e me indicou a saída.
- Não seja mal educada. Estou dizendo que fica perigoso chegar em casa no meio da madrugada, mas isso não me impede de ficar aqui por mais uma hora com você. Podemos fazer alguma outra coisa.
- Não quero saber. Vai embora! – (largou a porta aberta e se encolheu no sofá)
- Por quê está fazendo isso? - eu disse.
Fechou os olhos e se manteve calada. Foi quando me levantei e fechei a porta. Ela foi lá e abriu de novo sem falar nada. Resolvi ir embora, não agüentava mais aquela situação. Dois dias depois ela apareceu no msn e disse “Oi” como se nada tivesse acontecido.
- Eu queria um homem paciente assim. Por quê você é tão impaciente, heim Zé? – observa Simone.
- Fica quieta mulher! Foi só isso que ela fez, meu patrão?
- Não Zé. Ela me fez mais. Outra vez foi no aniversário da sua irmã Roberta.
- Meu patrão... Uma coisa. Desculpe cortar, pintou uma curiosidade. Você viu alguém da família depois que terminaram o namoro?
- Eu vi fotos. Roberta parece bem bonita. Tingiu os cabelos numa cor mais clara, o que combinou bem com o tom da pele. Ela estava com olheiras, apesar da maquiagem disfarçar um pouco. Ela é muito parecida com Miss C nos traços, principalmente naquele jeito de esticar o pescoço e olhar de cima para baixo, e é óbvio, sem um sorriso no rosto. Eu sempre tive simpatia por ela e pela mãe que sonha em ser avó de pelo menos cinco pimpolhos. Elas foram as duas pessoas que melhor me trataram naquela casa. O pai apareceu com o semblante bem mais velho, um olhar triste... Deve andar decepcionado com tudo o que Miss C aprontou na vida. Célia está gorda. Um tanto mais gorda que antes, tenta disfarçar usando roupas largas, o que não ajuda muito. As banhas parecem dobrar na barriga. Foi o que eu vi um tempo atrás. Posso continuar?
- Pode sim, meu patrão. Vai lá! Isso mais parece uma novela mexicana.
- Onde parei? Sim... Nesse aniversário ela me comunicou que traria para festa a afilhada do seu ex-namorado (aquele por quem ela ainda era apaixonada), uma menina de onze anos. Ela me disse que iria buscar de carro a mocinha. Eu falei que sendo assim eu não iria à festa, já que parecia que ela não queria esquecer o passado. Ela – na tentativa de me convencer – disse que o velho Severino havia comprado um jogo novo, tipo playstation; e ela, (Miss C), queria aproveitar a oportunidade para deixar a menina brincar. Eu disse que se fosse assim não iria mesmo, e ela que convidasse os parentes do ex-namorado, já que fazia tanta questão de se relacionar com eles. No dia seguinte ela me disse pela internet que eu poderia aparecer na festa, pois havia desistido de convidar a menina. E sugeriu que ao final de tudo, lá por volta da meia noite, iríamos sair para dormir num motel. E eu, inocentemente, acreditei. Fui à festa, mas cheguei atrasado, pouco mais de uma hora do horário marcado. Pensei comigo: “Tudo bem... Ela está confortavelmente em sua casa, e vai entender que moro longe e às vezes tenho problemas no deslocamento”. No portão veio a bronca e ela quase não me deixou entrar. O seu olhar era de quem queria me mandar embora dali mesmo. Finalmente entramos. O tempo passou na festa. O velho Severino registrando tudo com a filmadora, inclusive nós dois aos abraços no sofá. Quando deu meia noite perguntei: “Que horas vamos sair?”, ela respondeu: “Assim que os convidados forem embora”. E eles foram embora em seguida. E lá estava eu sentado no sofá vendo tv sozinho. Deu uma hora da manhã: nada! Deu uma e meia: nada! Eu sozinho. Duas horas da manhã ela aparece na sala. Eu disse: “Podemos ir?”, ela respondeu: “Não vou sair com você hoje. Estou com sono e dor de cabeça. Pode ir embora”, retruquei, “Não foi isso que combinamos”, contrariada respondeu: “Não interessa. Vai embora que eu quero descansar!”, novamente arreganhou bem a porta e me mostrou o caminho da rua. E eu fui embora muito triste no meio da madrugada que seria uma noite de amor.
- Meu patrããããooooo! Que gelada você foi se meter! Ela não tinha cara de quem faria coisas assim.
- Mas ela fez. Foi o castigo que recebi por discordar que a menina viesse à festa e por ter chegado atrasado.
- Ahhh, meu patrão. Se fosse comigo. Eu fazia de conta que estava tudo bem, convidava para ir num camping bem longe. Quando chegasse numa rodovia vicinal deserta, mas muito deserta mesmo! Largava essa coisa ruim no meio do nada. Assim ela aprendia não fazer os outros de besta. Jogava fora a mala dela como a gente vê nos filmes americanos. Você fez a coisa certa terminando o namoro. Gente que faz isso não gosta de ninguém. Segue a sua vida. Siga o meu exemplo que nunca vai faltar companhia.
- Então Zé? Agora você me dá razão? O que ela fez com ele não tem justificativa, se não gostava do Re era só largar e pronto. Eu avisei várias vezes que não valia a pena, mas quem é teimoso não aceita conselho e quebra a cara – arremata Nanda em seu estilo intelectual.
    Minha musa, o papo continuou assim por horas. Não vou contar tudo nessa carta, pois ainda preciso lembrar de outros detalhes, o que a situação do momento não me permite. Quero apenas que saiba que estive pensando em tudo; nos fatos que ficaram marcados naquele tempo e num dia em especial. O dia que tudo explodiu e minhas palavras foram para cima de você se mostrando mais verdadeiras do que seria o meu desejo. O meu interior se enfureceu com toda história tendo conseqüências muito mais complicadas que qualquer um pudesse imaginar. O velho ódio que estava armazenado foi despejado de uma vez; motivado por tanta degradação desnecessária imposta a mim - por você, minha adorável musa. Sei que é redundante dizer - o que já disse em carta anterior - que você foi o ser mais filha-da-puta que conheci em toda minha vida. Pensei em vingar-me, demorasse o tempo que fosse, torcia muito para que você não morresse ou mudasse de país antes de acontecer. A sede de vingança nunca cessava porque você foi cruel, falsa e maquiavélica demais. Ahhh... Por quê me desprezou, minha musa? Por quê traiu o seu próprio coração que via em mim um abrigo? Depois de tanto tempo a única coisa que tenho para lhe dar é uma palavra de consolo, várias palavras de consolo talvez lhe alcancem. Imagino que mereça mesmo o que já sofreu, tudo porque se matou com as próprias mãos e matou a mim também. Agora você pode imaginar todos os beijos que trocamos e chorar em sua cama cheia de vermes. Pode, inclusive, arrancar de mim os mesmos arrependimentos que só servem para condena-la ainda mais. Não entendo uma coisa: se um dia teve alguma simpatia por mim que direito tinha de fazer o que fez? Você, por sua única e exclusiva vontade, nos separou para sempre. Eu nunca despedacei o seu coração, nunca! Foi você... Você o despedaçou sozinha. E com os pedaços dele esmagou o meu também. Vamos, me diga! Que miserável capricho foi aquele que nos levou a uma desgraça, a uma praga mandada por Deus, ou quem sabe por Satanás, e pôde nos separar tanto assim? Isso passou, eu sei, e os fatos que me levaram a esse pensamento continuarão marcados para sempre em nossas vidas - de um jeito, tenho certeza – que nenhum de nós gostaria que fosse. Percebo que o meu estado de espírito nesse momento é demasiadamente ativo e cheio de minúcias importantes, vejo daqui o passado rico em substâncias em ebulição e o medo fatal que pairava sobre nossas almas antes de tudo acontecer. Juro que depois de um tempo parei de sentir certos temores ao cultivar reflexões peculiares aos nossos momentos mais íntimos. Juro mais ainda que tentei trabalhar o meu espírito de várias maneiras; por caminhos que não me fizessem enxergar sempre as mesmas caras e os mesmos atos passando diante dos olhos. Eu busquei ajuda de tantas formas diferentes, relutei em muitas delas e, em outras, fui submetido a uma disciplina tão dura que seria muito difícil não recuperar o tino perdido nos dois anos que passei acreditando em você, e mais, nos outros dois que me submeti ao tratamento com internações e retornos ao lar com data marcada. Não foi nada fácil esse período. Mas você nunca se importou com algo que não lhe dissesse respeito, ou particularidades alheias à sua vontade de ser única. O seu egoísmo era a bandeira ostentada com grande orgulho para que todos vissem. Revelo aqui que me doeu demais ver em você o ar indiferente dessa pessoa sem sentimentos, que num instante esquecia o sofrimento de todos, e logo em seguida mergulhava em seus próprios prantos e sofrimentos como se vivesse num eterno purgatório. Eu me lembro bem quando as suas faces ficavam em fogo e as lágrimas de crocodilo corriam sobre elas, e eu nada podia fazer por não entender o motivo de tanta lamentação. O acumulado de tantas cenas parecidas me tirou do sério; a paciência um dia se esgotou definitivamente e desse esgotamento veio a loucura. É estranho, mas, enquanto penso nisso não tenho dor alguma, pois a minha vida é tomada de uma musicalidade infinita. Eu vivo e respiro através de todas as artes que emanam energia, alegria e cor. Eu vivo a natureza dia após dia. Eu vivo os sonhos das palavras que um dia gostaria que tivesse ouvido. Justamente por isso, minha musa, mesmo que eu a xingasse mais vinte mil vezes, isso não a tornaria mais feia ou mais bonita para mim. A sua imagem sempre será a mesma nessa diferença tão marcante que temos de quinze anos um do outro. E você sendo mais nova teve em mim toda a oportunidade do seu rosto se iluminar com alguma felicidade um dia - para definitivamente mover a sombra antiga que carregava. Não achou que podia, não é? Vendo tudo de onde vejo, eu sei que você podia, sim! Posso indicar-lhe em detalhes antigos truques que se recusou a aprender – faço isso porque a conheci tão bem a ponto de saber que poderia melhorar. Imagine que essas são as palavras do meu sonho sendo reveladas a você: "Olhe no espelho agora, veja as rugas que apareceram ao lado dos seus olhos depois dos trinta e poucos anos – os famosos pés de galinha - e essas marcas de expressão na testa nua. Preste muita atenção! Chegue mais perto do espelho e olhe bem no fundo desses globos castanhos escuros, quase pretos, que mais parecem dois demônios de tão enterrados; olhos que nunca se abriram verdadeiramente às janelas do mundo ou preferiram viver furtivamente pelos cantos espiando timidamente. Minha musa, suas sobrancelhas parecem tão espessas que ao invés de sustentarem aquele ar jovial se afundaram no meio como as de uma anciã. Sugiro que aprenda alisar essas rugas do mau humor e abra os seus olhos com leveza de espírito e beleza de caráter, transformando todos demônios que carrega em anjos determinados a trazer felicidade para si e aos outros, e que não alimente mais dúvidas ou suspeitas contra ninguém, que veja sempre amigos onde nunca existiram inimigos. Não prossiga com a cara de cachorro maltratado que não reconhece merecidos os pontapés que recebeu, e, no entanto, depois de um tempo, cobre com o seu ódio, não apenas aquele que o maltratou, mas qualquer um que se aproxime. Garanto que bons pensamentos e um bom coração poderiam deixar o seu rosto tão lisinho como a pele do mais lindo bebê recém-nascido. Maus pensamentos num mau coração, continuamente, transformaram o seu rosto tão bonito numa coisa pior do que a cara do monstro do lago Ness. Desmanche essa carranca e vista-se como uma princesa, que todo momento que viver se tornará mais agradável. Abdique do orgulho que tanto a faz forjar tristezas com as próprias atitudes. Faça tudo isso com boas intenções e o efeito que sentirá será de alivio e renascimento. E assim siga adiante um passo por vez em busca da sua paz de espírito para a leveza da alma".

Cordialmente me despeço desejando que Deus ilumine o seu caminho.

Do seu admirador.
Re.

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