terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Dear Miss C Part 9

Miss C.
     Novamente estou aqui para dizer coisas que talvez não lhe tenham alcançado, dentro de um sentido amplo e admirável, ou ao menos do que eu no fundo desejava que fosse. Depois de tantos dias não recebi nenhum telefonema da sua mãe ou irmã. Talvez tenham mudado de ideia ou se arrependido de terem vindo até mim, afinal de contas foram tão bem recebidas como eu nunca o fora em sua casa. Devem ter ficado envergonhadas. Escrevo esta carta praticamente no escuro e tremendo de medo. Tem gente estranha na sala conversando algo referente a mim. Parece que combinam alguma viagem ou passeio que pode demorar dias. Eles cochicham e às vezes vão para o lado de fora e voltam apressados. Ouço alguém dizendo: “Ele fez isso, ele fez aquilo...”. Fico bem quietinho para que ninguém note que escrevo nova carta para você, minha musa. Caso queiram me levar pretendo fugir antes. Escondi a mochila de lona no forro do quarto. Coloquei lá um colchonete bem amarradinho, roupas e comida em lata; também um canivete multifuncional, uma machadinha e um facão pequeno - ninguém percebeu o desfalque na despesa; a compra do mês chegou esses dias. Quando começo escrever o meu pensamento se embala por ecos da saudade que - nos menores ou maiores acontecimentos - desdobraram-se nesse destino cruel imposto a nós. Alguns fragmentos ainda aparecem como ressonâncias sem fim, num jogo de palavras habilmente inspirado nas visões que tive e que fizeram as coisas estremecerem sem controle. Ah, minha musa, você sempre soube que eu era um cara muito observador e permanentemente sujeito as mais tênues razões da emoção. As sensações advindas daquela emoção se perpetuavam como um enigma dentro de mim. Quando eu imaginava estar ao seu lado, eu sentia aquele estado em que os pensamentos só flutuam e não se tem controle nenhum sobre eles. Os pensamentos nunca souberam o que era de verdade a tristeza, muito menos o remorso ou a culpa: eram somente feitos de saudade. Eles fluíam na maioria do tempo sem qualquer significado amplo. E logo depois da mente passear descontroladamente nessa condição, eu começava a notar que os acontecimentos da nossa vida ficavam alarmantes. Ainda assim seguia em frente sem prestar muita atenção nos sinais indicativos de perigo. Ia adiante movido pela teimosia e não havia nada que pudesse me tirar da ideia da comunicação constante com você; mesmo que fosse uma via de mão única. - foi um tempo de luta para compreender melhor o seu jeito de ser. A divisa entre o bem e o mal era apenas uma fina membrana que nos separava, eu sei bem disso: a mesma que separa a morte da vida; a tristeza da alegria e o amor do ódio. Em seguidos momentos ela foi destruída e refeita aos poucos. Eu estava certo que pensar no tempo que se foi, era o mesmo que fechar a porta de um novo caminho que estava se abrindo para nós; assim eu tentava esquecer o passado inquieto. No entanto, eu era parte do destino imponderável agindo e tudo continuava acontecendo apenas por vontade dele; fora do meu agrado. Ele trazia até mim um novo tipo de pensamento que crescia e conquistava. Eu sabia que era preciso superar tudo e seguir. Essa sensação me mostrava o quanto a minha emoção era imperecível e talvez estivesse nela todo mistério das dúvidas que carregava. E mesmo que não soubesse, e pensando nisso hoje em dia é que noto, foi desse momento em diante que a insanidade tomou conta de mim ao não seguir esses sinais. Sabe de mais uma coisa, minha musa? Por você, tive que esperar até que se formasse uma quantidade suficiente de ideias para serem escritas e enviadas; contando melhor toda a história do meu desencanto. Em muitos dias e noites fui me arrastando, meio sem jeito, e com uma série de pensamentos esquisitos. Vivia dias e mais dias de vislumbres por uma realidade que passou. Daquilo tudo que permaneceu grudado como tinta na cal, eu tirava em palavras o fruto do desespero.
    Estou insistentemente me dirigindo novamente a você, sabe por quê? Porque você foi a principal pessoa que soube o quanto me segurei durante muito tempo, numa espetacular habilidade, para não distorcer os fatos a fim de obter vantagem diante do seu silêncio. Essa minha habilidade foi imensa, não foi? Você sabe que continuei me fortalecendo de uma forma triste a contragosto seu. Procurei entre tantas palavras uma palavra: a palavra certa. Aquela expressão sui-generis para acalentar o seu prazer em se sentir minha dominadora. Era a coisa que você tanto queria para gerar a impressão conveniente: a verdadeira suspeita entre o real e o imaginário de nossas vidas, para toda e qualquer pessoa da sua família que mostrasse interessada. Foi assim por uns tempos, você sabe bem disso, não sabe? Eu era aquele que estava à espera de ser servido das suas vontades e ideias, apenas no momento em que você achasse conveniente: tudo pela graça de seu imediato capricho feito por motivos que atendessem aos seus propósitos infindáveis. Quando finalmente aconteceu aquele tempo em que não se tem como retroceder, parece que todos os pensamentos giraram dentro da cabeça de uma só vez, foi aí que eu escrevi algumas palavras e apaguei, porque senti em seu entendimento a censura; mesmo antes dessas palavras terem chegado ao seu conhecimento e de todos endereçados. Repeti dezenas de vezes a mesma cena na memória de formas diferentes, tudo na tentativa de não ser tão atroz. Era um dilema cruel imaginar o jeito de cada um ler o que eu tinha a intenção de dizer sobre você. O dia fatal chegou e, finalmente, coloquei na mente que precisava de algo que, imaginariamente, emanasse calor e ternura, mesmo sendo duro na revelação da verdade e minhas intenções: isso em nome de todo amor que sentia. Eu desejava não ter um tipo de inspiração advinda da tortura psicológica, aquela que me foi imposta durante o tempo em que estivemos juntos, mas não conseguia sair desse círculo vicioso horroroso. Vou dizer: eu tinha muito medo de me precipitar cortando o fluxo verdadeiro das intenções nas minhas cartas; que fosse rompido aquele veio de amor sublime que carregava e tudo de bom desaparecesse tomado por pura fraqueza de espírito. Como ditos pensamentos parecem tão incompletos e inconstantes nesses momentos, não é mesmo? Eles são tão limitados e ingênuos que até causam vergonha. Alguns até poderiam dizer: “Que coisa mais esquisita é essa de lembrar o que passou e ao mesmo tempo ter devaneios de hospício?”. Pois é... Depois de dormir tantas noites ao seu lado, olhando o seu rosto sereno, foi na clínica o melhor lugar em que acordei, para depois olhar no espelho as marcas do que se foi. Com certeza, nessa hora havia uma salvação, era aquele bom ar fresco vindo da janela me revigorando para pensar no que mais escrever para você, minha musa inspiradora. Como rejuvenescia o pensamento o ar dos campos de flores e aquelas fragrâncias inebriantes! Aromas que evocavam a memória dos mortos. Não dos mortos comuns que conhecemos e que estão em outro plano, mas aqueles que morreram na decepção e na miséria do pensamento ou que numa curta fração de segundo surgem presos pelas garras do tempo nos fazendo amar ou odiar. Eles há muito estão todos mortos aqui dentro acompanhando você no mesmo velho ritual de aparecer e desaparecer trazendo risos e lágrimas. Enquanto isso acontece, eu lembro que fui metido numa camisa branca com amarras: vestimenta feita para loucos, e alguém, que eu nunca via o rosto, me informava que era tudo em nome do destino que jamais imaginei que teria. Eu aprendi de cor e salteado o que tenho de novo ou velho para lhe dizer: é tudo o que me trouxe a observação da nossa convivência num cotidiano cheio de regras podres. Era o tempo em que me sentia tão livre quanto numa armadilha para ratos. Ah, Miss C, estou agora num novo lugar; onde não preciso mais me esforçar para manter uma conversa tola ou ouvir evasivas de você. Tudo nesse canto acontece naturalmente; vivo num ambiente onde todos os subterfúgios com respostas lacônicas para mim mesmo sempre prevalecem. Essas são as tragédias do meu dia a dia. Esse é o lugar definitivo que preciso e de onde tudo um dia ganhou notoriedade sórdida e sem controle; palavras direcionadas viajando através de um mundo meramente virtual. Depois desse acontecimento tudo se tornou uma ferida aberta que sangrou sem parar, e com uma hemorragia mantida em limites determinados, mas que continuava sendo uma droga que insiste em sangrar num desativo, frente às conseqüências da sua fuga e da minha iniciativa. Sabe Miss C? Não são somente palavras soltas que existem nessas cartas, digo, na pura essência do que seriam palavras, mas sim da verdade que deu origem a essa ferida que sangrou sem parar. Sabemos que ela jamais matará de hemorragia, mesmo que alguém novo chegue devagar, remova a fina casca e cutuque mais fundo. Esse é o seu destino inexorável...
     Miss C: saiba que eu fui endurecido pelos maus tratos. De tanto receber pancadas tornei-me muito parecido com você: uma pessoa taciturna, difícil de derramar uma lágrima e intolerante. Ao partilhar tantos sentimentos diferentes com objetivos opostos, acabamos ficando unidos de um jeito inusitado. Uma aura de angustia nos acompanhou todo o tempo; o que no final resultou numa explosão de dor e lamentos. Tomado pela compaixão, eu assumi toda a nossa loucura como sendo apenas minha diante de tanta aflição. Muitas vezes corava em silêncio de tantas leviandades que ouvia, porém, diante daquela linguagem segura e opressiva que usava, eu me apiedava e a deixava falar até se cansar daquele rogo doloroso. Quando a sua respiração ficava irregular e entrecortada é que eu notava que se aproximava o momento em que iria finalmente calar-se, ou, após minutos de impaciência, abordaria algum assunto que dissesse respeito única e exclusivamente a nós dois. Jamais esquecerei a primeira vez em que tentei cortá-la do relato de assuntos referentes a outras pessoas, e você de súbito, praticamente enterrou as unhas postiças na palma da mão, trincou os dentes e murmurou impropérios contra a minha atitude; tomada por minutos de um frenesi de fúria sem motivo. Você nunca notou que aquilo que tagarelava tanto sobre os problemas pessoais de pais, família e do ex-namorado pouco me interessaria saber, já que o meu verdadeiro intuito era o de me unir a você com um compromisso mais sério. Então, você insistentemente dizia:

- Re, a minha vida mudou muito de uns tempos para cá. Nunca mais consegui arrumar um emprego em que ficasse mais de três meses... As pessoas sempre esperam algo mais de mim... Algo que não sei o que é...

- Bom... Não sei como era antes, mas agora você parece não ligar muito para dinheiro, não é mesmo? Tanto que aceita qualquer emprego fora da sua área de formação e por qualquer salário. O seu pai não acha isso ruim, já que ele pagou a sua faculdade?

- Ah, Re. O meu pai não está nem aí... Ele tem tanto dinheiro que nem sabe ao certo quanto. A cada ano que passa ele vai ficando mais rico e com esquisitices, como por exemplo: joga vídeo game e comprar vários instrumentos musicais para ver se aprende tocar alguma música dos Beatles ou Bee Gees para a minha mãe.

- Bem... Notei que o seu pai é um sujeito bem áspero em alguns momentos. Talvez se ele não tivesse me largado falando sozinho no dia de ano novo, eu guardasse uma impressão boa dele.

- É... Ele é assim... Quanto menos lidar com ele, melhor. Ele é mais duro, em termos de sentimento, do que uma pedra.

- Desculpe a pergunta, mas gostaria de saber como é sua mãe dentro de casa com vocês!

- Ah Re, é tão difícil dizer essas coisas. A minha mãe é uma pessoa que protege a gente, se uma de nós aparecesse grávida do namorado, com certeza, ela ficaria do lado da filha enquanto nosso pai tentaria matar a infeliz. No entanto, eu creio que ela nunca esteve bem com ele. Ela fala muito e reclama de tudo, tanto dele quanto da gente. Isso é sinal de insatisfação com a vida. A vida dela, apesar das viagens pela Europa, América do sul e tantos outros lugares, nunca foi uma vida equilibrada. Muitos altos e baixos emocionais; entende? Tanto é que: ela prefere viajar com a minha tia como companhia do que o meu pai, e nas fotos de viagem ela nunca aparece sorrindo. Uma coisa é certa: ela sempre foi muito voluntariosa!

   Ah, Miss C, lembrando desses diálogos agora percebo o quanto eu sempre me limitava a olhar e escutar tudo o que tinha para contar, isso até que a paz voltasse aos seus pensamentos e pudéssemos namorar um pouco. Eu partilhei muito dos seus sentimentos, mas quando eu caí você se recusou a esticar a mão em meu auxílio. E hoje, depois de mais dois anos, a sua mãe me pede para encontrá-la e não dá mais notícias, justamente quando comecei a pensar com mais carinho no caso, apesar de todas as manifestações de desprezo de sua parte. Incrível isso! Agora eu vivo inquieto e apreensivo com as circunstâncias vindouras desse pedido. Parece que as más palavras que um dia você e sua família entenderam nas minhas cartas, perderam o sentido. Talvez só porque eu a amava de verdade e eles nem sequer sonhavam o quanto esse amor era maltratado. Hoje eu noto que todos os seus de sangue estão mais calmos e já não carecem tanto de consolo; talvez por não saberem onde foi o erro, ou de quem foi ao certo. Eles já conseguem se consolar uns aos outros sem a sua presença. E fazem orações e votos que a família permaneça salva e unida, já que todas repreensões sofridas por você durante anos agora fazem parte de uma página definitivamente virada na vida de todos. Ainda que você se lembre, com ar de nostalgia cruel, o tempo em que o “velho” enumerava censuras ásperas ao seu amado e você o provocava com jeito malicioso de contrapor suas ordens; fazia exatamente aquilo que ele odiava em você: respostas na ponta da língua afiada. Saiba minha musa, eu escrevi para o seu pai dando a minha opinião, de forma resumida, sobre tudo o que vivemos e não vivemos, mas ele nunca me respondeu.
Eis aqui a cópia da carta:

Bom dia, Senhor Severino

 Escrevo esta carta para esclarecer alguns pontos que ficaram obscuros nos acontecimentos que se sucederam meses atrás. Tomo a liberdade de usar essa via e não pessoalmente, já que nunca tivemos muita proximidade. Quero que saiba que entendo perfeitamente a dor que um pai pode sentir diante de uma grande decepção, principalmente de uma filha (e essa não é a primeira vez que vive isso, eu sei). Quero esclarecer que não me orgulho disso: expôr de uma forma tão cruel e franca, a sua família e seus problemas. Porém, diante da situação vista e analisada por mim, não há outra maneira para que alguma ação surta o efeito desejado. Não vou negar que sinto raiva pelo mal que ela causou a mim e a vocês, indiretamente, por motivos diferentes aos meus. Como o senhor bem sabe, a sua filha nunca possibilitou que você e eu, ou os demais membros da sua família, tivéssemos a oportunidade de ter uma convivência próxima. A intenção dela era de me manter o mais distante possível, justamente para que não houvesse uma relação de amizade entre nós, e com isso, uma maior intimidade com liberdade para que coisas fossem perguntadas ou contadas; principalmente a respeito da convivência dela com o ex-namorado e o dia a dia ao lado dos pais e irmãs. No entanto, por causa do comportamento totalmente fora do padrão aceitável que ela tem, percebi que a sua resistência a contrariedades não existe. Quando contrariada ela se transforma em outra pessoa. Então, nesse momento, tudo se torna distorcido diante do seu olhar obtuso. Ela, se sentindo traída, logo ofende, agride e torna-se arredia diante de circunstâncias simples. Enxerga tudo de uma forma distorcida. Como você bem soube no dia que fomos apresentados, eu nunca me formei em nada, por isso não tenho embasamento acadêmico para dar diagnósticos, porém tenho experiência de vida e um bom modo de observação do jeito das pessoas. Bem... a moça tem esses tipos de estalos repentinos, onde de uma hora para outra, distorce os fatos de uma situação; muda o foco para um objetivo totalmente inaceitável e incompreensível com comportamento estranho; muda o sentido das coisas: cria, inventa e preenche tudo com mentiras. Ela tem absoluta certeza que o seu pensar deve ser absoluto e o único a ser respeitado. Por ter tido esse convívio complicado com ela, é que insisto tanto em passar a você, o pai e pessoa capaz de arrumar uma solução para o caso, aquilo que testemunhei. Desde os primeiros meses ela não me pareceu uma pessoa normal. Observei, através dos detalhes, que algo estranho e diferente existia ali na forma dos seus trejeitos e no modo de se comportar, ou até de entender as coisas. Isso me pareceu como os transtornos de humor tão divulgados hoje em dia nos meios de comunicação. Seria interessante se o senhor, julgando necessário, a encaminhasse a uma consulta. Não custa nada fazer isso em beneficio de uma filha. Eu sei perfeitamente que tudo o que ela me revelou, e que agora estou contando para cada um de vocês, foi por um tipo de confiança, principalmente na inteligência que ela tem com uma base estratégica forte, pois ela achava que tinha a situação na mão quando tudo acabasse entre nós – eu magoado pelo comportamento agressivo e a falta de lealdade dela - nada poderia fazer, já que sempre fui mantido distante de vocês. Eu ainda acredito, mesmo aparentemente, no fato de um dia dizer não ter qualquer consideração pela minha pessoa; os seus atos, claro que nos momentos de aliviar as dores, demonstravam justamente o oposto. Tanto que me parece ela não tem amigos. Nunca teve uma pessoa com quem pudesse conversar coisas de menina ou de adulto; até mesmo para sair, trocar ideias e falar de namorado. Não tendo ninguém, achou em mim a válvula de escape para tudo que estava preso na garganta há anos. Bem... Quero que entenda que o meu principal intuito é o de abrir a visão de vocês quanto ao comportamento dela, pois quem está de fora muitas vezes enxerga o que quem está dentro não vê. Por gostar muito dela pensei que nesse caso deveria fazer algo para ajudar a todos, inclusive a mim mesmo – não queria passar o resto da vida mal por não ajudar alguém quando podia – ou remoendo todas as dores que ela me fez sentir, e sem poder retribuir de uma forma oposta a toda aquela coisa ruim do passado. Nem preciso dizer que sempre gostei muito dela e só por causa disso estou aqui dando a cara para bater; apesar de ter vivido ao seu lado uma situação muito sofrida durante muito tempo. Eu sempre soube que deveria me afastar porque no final o único machucado seria eu, mas não conseguia. Até que um dia dei um basta quando voltávamos de um camping (nem imagino qual história ela contou para vocês sobre o nosso final), desde então nunca mais nos encontramos, apesar que demonstrei interesse em saber de seu estado de saúde, isso através de algumas cartas que escrevi e ela nunca me respondeu. Hoje guardo comigo as cartas que trocamos quando ainda éramos namorados. Eu as leio e releio de vez em quando, e sofro com o conteúdo que não encontro explicações. Depois que terminamos houve um período em que me segurei; não atendi alguns pedidos que ela me fez para encontros, pois ela queria reatar o namoro do jeito dela. Quero que saiba - e o senhor com sua experiência saberá entender o que isso significa - é que eu confesso que me iludi durante muito tempo, principalmente depois de perceber que estava sendo feito de bobo e sofrendo com os maus tratos que ela me impingia. Mas, como bom otimista que sou, achava que poderia mudar a cabeça dela a tratando muito bem, mas não era assim, já que o que faltava era o amor da parte dela em relação a mim. Eu me convenci no final que não era uma simples mudança de pensamento ou atitude da minha parte que resolveria. Afinal de contas o problema era mesmo outro e só a família poderia resolver, principalmente o senhor. Peço desculpas pelo mal jeito das coisas e agradeço que pense nisso tudo. E que a perdoe. Ela carrega um tipo de desequilíbrio que atrapalha a vida dela e de todos. Aconselho muito apoio familiar, que ela nunca se sinta abandonada ou segregada. Eu me empenho nessa comunicação, apesar de tudo que sofri, justamente por ela ter sido alguém que um dia teve algum tipo de participação importante na minha vida. Deixo em aberto a oportunidade: caso um dia, quando estiver fazendo terapia, ela queira ter a iniciativa de conversar comigo. Quanto a isso, eu me colocarei sempre à disposição. Tenho consciência desse jeito diferente que ela tem. Imagino cá com meus botões o quanto tudo isso alterou a vida da sua família  Talvez brigas e acusações ocorreram por causa do que ela falou de cada um. Penso que algumas pessoas da casa perderam um pouco a alegria de viver e a confiança uns nos outros, mas tudo isso passa; vocês são fortes. Diante de tudo que ela me revelou, fui sabedor dos seus princípios rígidos e da filosofia que segue. E também da educação severa e regrada (que está baseada em ensinamentos divinos e de doutrinas comportamentais exemplares) que sempre tentou transmitir a elas quando crianças. Reconheço em seus esforços o bom pai que é; alguém que procurou dar o melhor que pode aos seus. Admiro-o muito por sua luta e espero que observe com bons olhos a minha iniciativa.

Cordialmente me despeço.
                                     Re.

  Minha musa, esse foi o conteúdo da carta que nem sei se chegou a ler. Quando medito sozinho sobre essas coisas acabo sempre passando mal. Chega um pavor repentino e um amargor corre por dentro. A todo momento tento convencer a minha consciência de que fiz a coisa certa na esperança de ajudar; mesmo que, até eu duvide das minhas palavras. Eu sei que tudo vai ruindo com o passar do tempo, tal qual paredes antigas. 
    Minha adorável Miss C, esta é a única maneira especial que encontrei para enfurecer os seus conceitos, porque me falta exaltar as suas virtudes. Então, acima de tudo, reconheço a minha solidão, agora cercada de palavras que mais parecem zombarias que atingem a sua personalidade. Talvez se tivéssemos algo mais importante a dizer um ao outro, isso nem fosse necessário nesse momento de nossas vidas. Que maravilha teria sido se tivéssemos assuntos menos frustrantes e doloridos. É... Eu estou nessa vida para ser instruído, outras vezes, subjugado ou, quem sabe, amado ternamente e até odiado com fervor. Você também pode fazer isso. Na realidade você já fez um pouco de cada coisa comigo, não é? Algo temos em comum: nossas habilidades distintas impressionam e surpreendem a todos quando menos esperam algo de nós. Encerro por aqui desejando que Deus sempre a acompanhe.

Felicidades e até a próxima.

Do seu mais profundo admirador.

Re.

9 comentários:

  1. Vejo que o Re.continua na sua busca de "respostas",enquanto não souber de tudo não irá ter sossego e principalmente paz.A mãe de Re. preocupada com o comportamento do filho tenta de novo interná-lo muito triste,pois notam que ele não está preparado ainda pra seguir a vida como antes.Nisso Re. já fica alarmado só de pensar em ficar longe tudo e todos e começa a planejar uma fuga,a que ponto chega um ser humano,depois que perde seu equilíbrio emocional!!!O que mais me choca a veneração que tem pela Miss C!!!Escreve uma carta pro pai dela dizendo o que acontecia, seu comportamento,sua personalidade,enfim fazendo uma revelação de quem era de fato sua musa.Acho que mesmo com tudo isso ele só sofreu mais,pois não obteve resposta do pai.Terminou o namoro depois da viagem!!Pudera né depois de ouvir tudo e se continuasse se afundaria mais.Apesar que ele confessou que com a convivência e os aborrecimentos do namoro ficou igual a ela,não é pra menos.Acho que o Re. demorou muito pra sair de um namoro doentio que pelo jeito só pisou em ovos o tempo todo.Parabéns Renato,aguardo os próximos capítulos desse conto muito intrigante,srsrsr.Mil pra vc.

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  2. Bom dia,li o capítulo e fiquei feliz que o Re. tem uma família que se preocupa com ele a mãe,que pesar querem interná-lo de novo,imagino o sofrimento que passa em pensar na sua amada Miss C!!!Depois da visita a mãe dela não entrou mais em contato acho que isso só ajudou a ficar de novo na paranóia.Ele revelando que escreveu uma carta para o Seu Severino que diferença que fez nisso???Só piorou a situação pois a família simplesmente o ignorou.Ele terminou o namoro depois da viagem,srsrsrsr.Acho que prolongou uma relação sem futuro,só o destruiu.Se preocupou tanto com ela se esqueceu dele próprio,pensar muito se vale a pena investir num relacionamento onde a pessoa não está na mesma sintonia.Bjs!!!Adriana.

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  3. PELO QUE VEJO O ADMIRADOR RE. CONTINUA SUA AGONIA SEU AUTOR???COMPLICADO SUA MÃE SUPER AFLITA PELA RECAÍDA DELE,FICO IMAGINANDO SERÁ QUE MISS C ESTÁ NESTA AFLIÇÃO TAMBÉM???POIS UM HOMEM QUE AMA DESSA FORMA??QUE FAMÍLIA MAIS SEM CORAÇÃO VENDO O SOFRIMENTO E AINDA POR CIMA PROCURA O RAPAZ PRA AJUDAR A FILHA!!FICOU PIOR DEPOIS DISSO ELE AINDA ESTÁ MUITO ABALADO COM TUDO,SÓ DE PENSAR QUE SUA MUSA COMO ELE A CHAMA TER USADO.DEMOROU MUITO PRA TERMINAR ESSE NAMORO,ESPERO QUE O RE. REAJA A TUDO ISSO.ATÉ.

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  4. Patricia Ramos Sodero12 de dezembro de 2012 22:13

    Penso que, nosso protagonista, realmente sente-se perturbado toda vez que seu pensamento volta-se a coisas relacionadas ao seu envolvimento com Miss C, e sua família um tanto quanto conturbada.Faz sua mãe se preocupar a tal ponto de pensar em uma nova internação.Não!!!Não!!! Re não suportaria mais isso...só de pensar,já providenciou algumas coisas,suficientes para uma fuga e sobrevivência, até saber o que fazer de verdade em sua vida.
    Sabe,admiro o jeito com o qual Re trata de toda essa situação,pois é sutil até em momentos delicados,que machucam e mostram como o ser humano é ingrato.Digo isso porque o Re,sempre foi uma pessoa educada,solícita...nossa!!! E no meio de uma família,onde nem entre eles, existia o respeito do espaço de cada um, e muito menos, a comunicação.
    Acho que para um desfecho importante acontecer,o Re deveria pensar realmente em fazer algo para que esse encontro acontecesse,só Miss C e ele, sem incomodações ou conselhos alheios de ninguém,de sua família,já que só servem para as críticas destrutivas,e,como bons amigos,analisar cada erro cometido no passado,visando pontos negativos e positivos,para quem sabe,começar do "ZERO".Só assim,duas pessoas que se gostam de uma certa forma,podem se entender.Talvez,por Miss C ter tido uma educação do tipo que já sabemos,nunca tomou atitudes devidas a certas situações relacionadas ao seu "EU".
    Esse sofrimento todo merece sim,que sejamos otimistas!!!
    Bem, adorei seu texto, como sempre,muito bem escrito e desenvolvido.Aguardo os próximos desfechos ansiosa...muito ansiosa!!!
    Grande bjo, parabéns e até o próximo.

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  5. Bom dia,vim aqui pra tentar entender melhor esse conto seu autor???No começo desse conto o admirador Re. relatando sua relação conturbada com sua musa Miss C,passou por várias fases complicadas,internações depois do término do namoro.Quando ele descobre de fato era que estava sendo usado pela sua amada que decepção!!!Apesar que ela já dava indício que tinha uma personalidade nada admirável.E a família dela então!!Nossa como o Re. suportou tanta arrogância,prepotência,vixi.Mas uma coisa me chama atenção será que o admirador já tinha algum problema antes de conhecer sua musa???E com isso só agravou mais o seu psicológico???Até.

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  6. NOSSA!!!QUANTOS ENCONTROS E DESENCONTROS DESSE CONTO!!!DESDE O COMEÇO O ADMIRADOR RE. ESCREVENDO CARTAS PRA SUA AMADA,JOGANDO PRA FORA TODA SUA DOR E INDIGNAÇÃO POR TER SIDO HUMILHADO E ENGANADO PELA MISS C.E FOI A FORRA COMO DIZ JOGOU TUDO PRO AR RELATANDO PRA FAMÍLIA DELA QUEM ERA DE FATO.MAS MESMO ASSIM ELE AINDA A AMA E MUITO PELO JEITO.ESPERO QUE ELE POSSA UM DIA VIRAR A PÁGINA E DIZER "ADEUS" A TUDO ISSO.BJS.WAL.

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  7. Olá tudo bem!!!Esse conto está cada vez mais misterioso,srsrsrsr.Quando penso que está chegando ao fim,nem começou ainda,o desenrolar da história desses dois que mesmo separados estão unidos por uma força maior.Parece vidas passadas que estão resolvendo agora.Re. tinha que passar por isso era o destino dele sofrer passar por tudo.Miss C perdida,sem vida totalmente sem emoção nenhuma depois da desilusão com seu "ex".A família dela então esnobe só pensando na posição social e querendo manter só o bom nome da família típico desses "ricos".Acho justo que o admirador vá atrás de respostas,pois o fizeram de fantoche.Parabéns seu autor,está ficando muito interessante,até.Lilian.Obs.A Andréa que me indicou seu blog é sua fã de carteirinha,srsrsrsr.

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  8. Bom saber q a familia do Re esta presente e preocupada c/ ele. Ela deve ter sido seu porto seguro nos momentos mais dificeis q ele enfrentou e tbem agora qdo ainda perdido nos mistérios de suas emocoes .
    É admirável q, msm desolado por tnt sofrimento, ele escolha com miNey nucias as palavras p/ encaixa-las de maneira a não ser tão maquiavélico e ao msm tempo ser coerente na intenção de não denegrir seus sentimentos e enviar um sinal de alerta e socorro ao q se revelava nessa conturbada convivência.
    Nosso amigo Re percebe as mudanças em si causadas por sua musa e até chega a compara-se a ela. Por mais q ele faça comparacoes, essa experiência, apesar das cicatrizes, deixou tbem marcas de coragem, de vontade de viver e de deixar viver... Deixou um aprendizado cruel porém necessário ao amadurecimento da mente e do espírito. É possível notar esse engrandecimento de alma na carta q ele escreve ao pai "dando a cara para bater" e "retribuindo de forma oposta" as dores q ela o fez sentir por tnt tempo.
    Apesar de não parecer, analisando profundamente, só os fortes agem assim!!!
    Parece q o Re é o cara msm! Espero não estar enganada pois estou cada vez mais fã dele! E sua tbem, Renato! BJSSS - Edneia


    Apesar de não parecer, analisando profundamente, só os fortes agem assim!!!

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  9. "Lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente".
    William Shakespeare

    Simone

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