Dear Miss C Part 11


Dear Miss C

      Tenho doze ligações perdidas no celular, nem me importo... Duas aparecem como número restrito. De quem será? Se for importante que mande mensagem.
        Salesópolis é uma cidade muito interessante em seus caminhos que levam à nascente do rio Tietê. O sol arde na testa enquanto sigo pela estrada de asfalto que passa perto da cachoeira da porteira preta - local onde se reúne um grupo de motociclistas extremamente solidários. A caverna dos morcegos fica na descida da serra; no sentido da rodovia dos tamoios. Nessa caminhada cheia de sobe e desce com curvas perigosas, lembrei que um dia me disse que sentia arrepios ao ler as minhas longas cartas pedindo que saísse do casulo. Hoje me parece muito difícil lembrar com tantos detalhes daqueles momentos; tempo em que vivíamos numa roda gigante de emoções conflitantes. Mesmo assim sigo em frente tentando colocar cada coisa no eixo certo ao relatar a minha impressão pessoal. Embora, tenha comigo, seja muito complicado acreditar que tudo aquilo existiu de verdade em nossas vidas. Vários meses depois de iniciar o  tratamento tive muitos sonhos com você. A sua imagem era sempre presente com um sorriso no rosto. Num desses sonhos você se aproximava vindo em cima de uma bicicleta e sorria gentilmente. Falava de uma forma como eu nunca vira antes - assim como eu também nunca soube que tivesse a habilidade de andar de bicicleta. Então fiquei imaginando a realidade encantada e cruel em que vivemos. Não era mesmo de espantar que o seu mundo fosse tão cheio de conflitos e desconfianças, já que você sempre teve comportamentos incrivelmente diversos a respeito da necessidade de cada um. E com esse modo diferente de se relacionar possuía opiniões completamente estreitas sobre a vida - a única certeza que você demonstrava era que a sua opinião era a correta, já que se baseava na memória das experiências pessoais malfadadas. Por isso que o seu sorriso no meu sonho foi tão significante me trazendo alegria, talvez porque eu nunca houvesse de verdade percebido em você tal sensação. Com uma maior compreensão da realidade já consigo entender o crescimento espiritual que há em mim; ele se baseia na saúde mental perdida no tempo da nossa guerra santa. Uma guerra na tentativa de destruição de duas personalidades, e que no final apenas matou o conhecimento ultrapassado daquilo que se julgava inquestionável. Matamos um ao outro com nossas atitudes e as ideias mais simples da capacidade vital de enxergar o mundo tal qual ele era de verdade. Forjamos através do fogo, com o qual brincamos e desafiamos, a experiência da realidade que fugia dos ensinamentos familiares dados como definitivos em nossas vidas. Ah, Miss C, você foi a mulher mais assustada que já conheci. Lembro disso quando eu a via chorar de maneira inconsolável pelos martírios que passava em sua casa.  O seu medo de socialização e de lugares públicos também era bem notável e até mais questionável do que o medo de ficar sozinha. (Você se lembra, minha musa, quando no camping em Monte Mor, eu saí para buscar o café e a deixei dormindo na barraca? Puxa vida, você acordou chorando por se encontrar sozinha. Você ainda se lembra do momento seguinte, quando eu retornei e a abracei para num único gesto enxugar as lágrimas que desciam?). Ah, Miss C, durante os meses seguintes o seu comportamento continuava o mesmo: uma total incapacidade de comunicar qualquer coisa que não fosse a sua convicção interior de ser uma pessoa infeliz e incompreendida, inclusive por mim. O que não sabe é que durante muitos dias, após o nosso retorno do acampamento, as suas histórias contadas em códigos emergiam na minha mente, pedaço por pedaço feito um quebra-cabeça. Você não conseguia confessar os seus pecados nos desejos mais intensos, mas sentia-se aliviada ao colocar para fora o que podia. Naqueles momentos eu era uma espécie de tripé de segurança: namorado-amigo-psicólogo. Assim eu ia obtendo pouco a pouco os fatos básicos de tudo o que parecia lhe amedrontar e entristecer. Até certo ponto, pensava eu, havia uma visão cética em sua mente. Uma visão tomada por conceitos cristãos e educação rígida baseada no argumento duro de crime e castigo. Talvez a essência desse ensinamento estivesse na disciplina e nos métodos sugeridos ou até nas meias-verdades que os seus pais lhe contavam. Eu percebi que era muito difícil que questionasse de maneira razoável essa doutrina familiar, ou até quem sabe, tivesse o seu próprio modo de pensar sobre tudo. No convívio que tive com seus familiares não percebi nenhuma evidência de preocupação por parte deles - de que a doutrina ensinada houvesse sido exagerada, rígida demais ou propensa ao mau uso e interpretações erradas por você ou cada uma das irmãs durante o crescimento. Talvez uma forma menos dolorida de analisar o problema, minha adorável musa, é que se eu tivesse acreditado inteiramente em tudo o que lhe fora ensinado, com certeza, também não conseguiria questionar, desafiar e pensar por mim mesmo, porque estas convicções seriam tão fortes e determinantes a ponto de dobrar as que eu tenho hoje. Graças a Deus eu consegui me livrar dessa opressão. No entanto, Miss C, a sua família é bem típica, já que ninguém fez qualquer esforço para ajuda-la a desenvolver um modo apropriado e original. Parece que optaram por um jeito comum a todos e muito semelhante no tratar aos de dentro da família; uma doutrina bem trabalhada dando a sensação de acolhimento, segurança e progresso material. E aos de fora restou apenas o repúdio e indiferença. Ah, minha musa, eu me lembro que aquele dia em Monte Mor transcorreu na maior normalidade e na manhã seguinte você estava bem melhor, bem distante do medo da solidão por se sentir protegida por mim. Foi então que teve forças para se abrir um pouco mais sobre aquilo que lhe causava frustração. Nesse momento iniciou-se uma nova fase da tríplice aliança, porque você se permitiu confiar mais em mim. Eu entrei no jogo mesmo a contra gosto - no fundo, eu queria namorar, passear e me divertir muito. Mas parece que Deus me incumbiu da missão de ouvia-la por horas e horas a fio. Entendendo assim a missão, dei toda corda que podia, até que chegasse o momento de ouvir situações que abominava e nada podia fazer além de ouvir tudo calado.
- Sabe de uma coisa? Mesmo que não acredite em mim ou ache que estou errado, preciso dizer que muito do que lhe foi ensinado me parece estranho.
- Re, por que está dizendo isso?
- Bem... Eu não sei tudo sobre a vida, mas sei mais do que você porque já vivi muitas coisas. E já convivi com pessoas que me contaram praticamente a vida inteira que tiveram; suas alegrias e frustrações. Por exemplo: muitas vezes eu vi homens e mulheres, muito parecidos com você, que desejavam ser felizes. Mas buscavam o caminho errado porque não tinham uma visão mais ampla do mundo que os cercava; isso os fazia voltar rotineiramente para conversar comigo, reclamando sempre das mesmas coisas. Veja bem: no nosso caso, se nos unirmos e “trabalharmos” juntos numa mesma sintonia, poderemos aprender um com outro como alcançar a felicidade, assim descobrirá que não é uma pessoa má como sua família desenha, e eu saberei que consegui ajuda-la de alguma forma. Vamos começar tocando num ponto crucial, então me diga: por quê você prefere ficar distante da sua família e sem contato telefônico durante dias?
- Olha... Não sei por que fica me perguntando essas coisas. Eu não preciso de um psicólogo, e mesmo que precisasse, procuraria um de formação. Você não consegue ser apenas o meu namorado?
- Por favor, não seja grosseira. Eu estou apenas tentando entender melhor as coisas que acontecem com você enquanto está comigo. Acho justo, já que é a mim que procura nos momentos de desabafar.
 A conversa parou por um minuto. Detectei no seu olhar uma espécie de fúria ou raiva momentânea em relação a mim.
- Desculpe, Re. Mas é que nunca ninguém se preocupou de verdade comigo. Aliás, nunca fui tratada como você me trata. Está bem... Vou começar falando do meu pai, coisas que você já sabe. Ele sempre foi um homem de luta. Conseguiu subir na vida com muito esforço e determinação. Porém, ele se tornou um pouco distante da gente. O seu foco é o trabalho; é assim até hoje. Quando chega em casa é para sentar-se na poltrona predileta com o seu copo de vinho na mão. Exceto nas noites de quarta, quando vai encontrar-se com um grupo de amigos para estudar uma doutrina de comportamento e colaboração mútua. Até hoje eu sinto que ele tenha essa maneira tão distante, emocionalmente falando. Eu me vejo praticamente uma órfã psicológica presa num mundinho só meu, você entende? Nós brigamos muito. Tem época em que ficamos dias, semanas e até meses sem dirigir a palavra um ao outro. Eu detesto brigar com ele. Eu detesto brigar com você também. Vejo em vocês muita coisa parecida. Talvez seja alguma característica astrológica. Eu fico muito sentida porque acho que ele transferiu todo o amor que deveria ter por mim para a minha irmã Roberta. Ela é uma pedra no meu sapato, vive me criticando por tudo. Nem te contei né? Semana passada o namorado dela foi almoçar lá em casa, isso depois de meses sem aparecer. Ele é formado em educação física e meu pai apóia a relação deles com restrições, você vai entender... Estávamos reunidos, comendo e bebendo, e a conversa fluindo bem. De repente o rapaz começou a soltar “pérolas”, ninguém acreditava nas coisas que ele falava. Cada besteira! Coisas sem nexo! A Roberta dava risada das bobagens enquanto a gente ria dele. Depois que ele foi embora o meu pai comentou: “Toda vez que esse rapaz vem aqui ele fala bobagens! Bem formado, mas... Eu fico admirado com as minhas filhas, sendo tão inteligentes o quanto são e não sabendo escolher o par ideal para namorar. Não entendo... Todas se deram tão bem nos testes de Q.I. aplicados na escola. Acho que essas meninas emburreceram depois de crescidas!”.
- Sério? O seu pai falou isso mesmo?
- Falou sim. Ele fala pouco, fala mais quando está com raiva ou indignado. Apesar desse jeito dele, é a minha mãe que manda na família, isso de uma maneira peculiar. Sozinha, determina os movimentos de cada uma de nós. Nunca houve alguma oposição ou contestação aos seus métodos. Ela é generosa, mas com um ar de austeridade. Apesar de reclamar de tudo, sempre foi pacifica com olhar crítico. Antigamente ela nos dizia: “Filha, não deve usar essa saia. Meninas de boa família não andam assim”. “Filha, não deve responder asperamente a ninguém, muito menos aos mais velhos. Meninas educadas não fazem isso”. Devagar nós aprendemos como era o poder da nossa mãe dentro da família, uma pessoa preocupada, suave e tão dominadora que parecia muito perigoso tentar enfrenta-la.
  Novamente houve uma pausa. Ela me olhou em silêncio. Balançou um pouco a cabeça e continuou:
- Eu a odeio!
- Como assim? Por quê odeia a sua mãe?
- Eu a odeio sim!  (disse mais alto como se quisesse ouvir o som da própria voz, ou se ela própria quisesse acreditar naquelas palavras tão temidas).
- O que ela fez de tão ruim?
- Ela nunca me deixou ser eu de verdade. Ela quis me fazer à sua própria imagem, assim como também faz com as minhas irmãs. Veja uma coisa: até o meu corte de cabelo se parece com o dela. Ela dá sugestões em tudo o que vamos fazer. Até hoje eu não entendo o que o meu pai faz ao lado dela. Se fosse eu em seu lugar já teria me separado há tempos. Ela é insuportável e está ficando gagá. Por isso não agüento mais ficar em casa. Nem posso mexer no armário para pegar panelas e fazer comida que ela reclama. Muitas vezes prefiro ficar com fome ou comer lanche pronto de forno microondas. Basta uma coisa fora do lugar na cozinha para criar uma tempestade num copo d´água. Estou cansada disso! A empregada vem uma vez por semana, sabe o que a minha mãe faz? Ela avisa para a moça: “Se você sentir fome tem um miojo no armário”. Você acha justo que uma pessoa que vai esfregar chão, limpar banheiro e os vidros das janelas, mais a limpeza geral de uma casa grande como aquela, se mantenha o dia inteiro com um miojo? O pior é que lá em casa nunca tem nada para comer durante a semana, mas quando tem festa a minha mãe faz um banquete que deixa todos admirados pela fartura. E no natal então... Você nem imagina como é! Ela combina com a minha tia, irmã dela, revezamento; num ano a ceia é na casa dela e no outro é na nossa casa. Sempre a mesma conversa, as mesmas piadas e nada diferente para contar que seja realmente importante para alguém. E quando é na casa da minha tia é horrível, temos que levar a minha cachorra no carro; na volta corremos riscos porque é perigoso dirigir na madrugada com tantos bêbados alucinados na rua. Ontem, quando você me pegou em casa pela manhã e paramos na estrada para almoçar, foi o primeiro dia da semana que almocei comida de verdade, porque, como já disse, lá em casa nunca tem nada. Se eu pudesse fugiria para a Bahia com você.
- O que iríamos fazer na Bahia? Não tenho ninguém lá. De onde tirou essa ideia?
- Você um dia me perguntou se eu não queria fugir para a Bahia com você, lembra?
- Ahhh é mesmo! Mas foi linguagem figurada. “Fugir para Bahia” quer dizer o mesmo que te levar para uma ilha deserta. Acho que interpretou errado.
- Sim. Talvez.
- Mas, voltando... Conte mais sobre a sua mãe.
- Ah Re, que saco! Eu não quero falar nada. Vamos comer alguma coisa. Eu trouxe pistache para você. Lembrei que um dia havia dito que gostaria de provar.
- Obrigado. Mas depois iremos comer pistache namorando e observando a lua. Por enquanto seria bom que falasse mais um pouquinho dos seus medos. O seu jeito me deixa preocupado, gostaria de entender melhor. Faço isso porque gosto e me preocupo com você, ok?
- Re, eu nunca te contei uma coisa. Eu fiquei sem fazer sexo por quase quatro meses antes de te conhecer. Mas não é porque eu não sentisse vontade, isso eu sentia sim, mas era por medo de me envolver e acabar gostando de alguém. Depois que terminei com o meu ex, arrumei um “ficante”; não era nada sério. A gente se via pouco e logo o meu interesse acabou. Nesse tempo eu me masturbava toda noite antes de dormir, era uma tentação incontrolável que tomava conta de mim; vivia envolta em fantasias e imagens de homens morenos tatuados; uns caras altos e fortes. Eu me sentia culpada e carregada de um peso na consciência - fui ensinada desde muito pequena que era pecado. Não sei ao certo quem me disse que a masturbação era um tipo de pecado. Talvez quando freqüentávamos a igreja católica ou quem sabe lá na escola Liceu; ou até antes disso, sei lá... Sabe? O sexo nunca me completou de verdade. Quando eu namorava o meu ex, a gente transava uma ou duas vezes por semana nos últimos anos do namoro. No começo eu demorei praticamente um ano para sentir algo parecido com o que se chama de orgasmo. Depois me acostumei a não sentir nada. Era muito raro ter a sensação de recompensa, mesmo sendo apaixonadíssima por ele. A freqüência sexual na nossa relação talvez nem fosse o mais importante. O que importava mesmo era a noção sentimental que eu tinha daquilo que eu chamava de amor; ou do sonho do meu pai entrando na igreja comigo. Ah Re, eu não sei ficar falando muito sobre esse tipo de coisa. Isso me deixa muita estranha por dentro. Parece que o meu interior mudou de uns tempos para cá; que o meu mundo mudou e eu vivo sensações diferentes dos meus sonhos. Eu acho que conhecer você me fez bem. Acho que eu mudei... Parece que me abri um pouco para o mundo e a tristeza me deixou por um tempo. Antes eu andava sempre com roupas escuras; tons cinzas... Não me preocupava nem em fazer as unhas. Agora eu uso cores vivas – vermelho, laranja, amarelo e tons de azul -, eu pinto as unhas e faço desenhos nelas, uso sombras nos olhos em tons mais claros que levantam o meu semblante. Você gosta desse batom? Eu me sinto tão bem quando me olho no espelho. Eu me sinto como se fosse parte de um quadro admirado por suas cores vivas, e embora eu mesma não possa ver muito desse quadro eu sei que estou na totalidade dele.
   A lembrança para de repente. O chão se move rapidamente embaixo dos meus pés nessa caminhada. Movimento-me de novo para fora do cinturão da realidade, onde via as suas mãos cheias de flores jogadas ao vento. Estendo o meu olhar em sua direção, minha musa, nos meus pensamentos favoritos você sempre me faz suar e balbuciar as palavras mágicas. Por um instante fico parado no topo de um morro... Isso é tão maravilhoso e salutar. Talvez eu finque raízes e me transforme numa árvore frutífera. Isso até que chegue a primavera - no inverno comerei os meus próprios frutos adubados por você. Ficarei de pé dias a fio assistindo o ciclo da natureza, só para que alguém enfie facas no meu tronco. Sentirei uma experiência onde não haverá dor e verei os rasgos se fechando sem rastros de sangue. Em todas as partes do meu corpo haverá eletricidade estática até que seja visível o meu esqueleto. Observarei o seu quadro em cores vivas, desde o momento em que saiu do útero, até a ultima impressão que deixou na minha memória, - ainda que seja ela a eterna foda do rato com o coelho, e no final, o coelho não resistindo à tentação de destruir o rato, dará o seu salto. Você conseguiu o que queria, por isso estou aqui, Dear Miss C! Ao nosso tempo eu dou o nome de “grandes fodas”, porque era um momento de desafiar a velocidade, os cálculos da razão e todas imagens em tons cinzas. É essa sensação constante das nossas fodas que me torna fugidio na caminhada em busca de respostas. Vamos lá! Avante campeão! E novamente dentro daquela tenda virávamos e revirávamos o nosso mundo de desejos. A principio você sempre resistia, mas logo que sentia o negócio escorregando para dentro se soltava toda. Isso me deixava realmente bem excitado. Mal havia enfiado o pau por completo quando já sentia que você queria mais e mais fundo. Enfiava tanto até que as paredes internas fossem rasgadas aos poucos. Quando eu queria virá-la de costas - para enraba-la -, você dizia que seria melhor fazermos num motel. Eu respeitava o seu desejo, minha musa. Era nessas horas que eu tinha a nítida sensação que o membro crescia uns dois ou três centímetros a mais. Em seguida, com seu balançar dos quadris, vinha um esguicho tão prolongado como se eu não gozasse há tempos. Não posso negar: você tinha muita presença de espírito nessas horas. Eu ainda não sei como passei a fazer parte dessa natureza quase imortalizada. e que me faz desperdiçar tempo demais em sofrimento pensando nessas cenas. Mas partindo daí é que começa a verdadeira excursão com algum significado para mim. Há aqui dentro uma condição de miséria imposta por você que é irremediavelmente enfadonha. E por alguma estranha razão, mesmo que eu caía no chão, abra um buraco e me enfie dentro, jamais esquecerei os nomes e datas de tudo isso. O tempo em que nasci me arrastou para um mundo irreal quando toquei o seu corpo. Quando pus o meu sexo no seu sexo, exercendo pressão pela primeira vez, entrei num mundo de efeitos devastadores. Foi como um colapso gigantesco de Dante, onde o mundo para por um momento no vislumbre que se tem da alma em pânico regada a sexo e futilidades.
       Posso continuar pensando por quilômetros nessa condição efêmera - de passarmos dia e noite dentro da barraca de camping entrincheirados como soldados em combate ou um casal em lua de mel ardente. Mas há um momento em que é preciso romper com tudo para compreender o verdadeiro sentido de cada coisa. É assim que eu faço agora. Parece estranho, mas a descoberta de tudo foi igual à descoberta de uma faca espetada no estomago. Esta vida que levo se tornou a minha amiga inseparável ao me ensinar que não tenho a necessidade da sua presença física para ser feliz. Deu-me a coragem de ficar sozinho e apreciar a vida com gosto; muito mais do que quando vivíamos como gato e rato. Eu, a bem da verdade, nunca compreendi você; sei que estive a ponto de compreende-la, mas nunca compreendi realmente; foi tudo ilusão. Talvez fosse mesmo mais importante não compreende-la e muito menos buscar explicações. Porque tudo flui com mais facilidade quando não compreendemos a vivência de cada um e suas significações. Há muitas maneiras de não compreender uma pessoa; e a não compreensão cria um mundo de diferenças que não conseguimos administrar. Tudo que um dia eu pensara ter compreendido em você se desfez e fiquei como um idiota sendo ignorado por todos.
      Saberia dizer o que há de tão espantoso nessas linhas, algo capaz de significar tanto para mim e tão pouco para você, minha musa? Em algum momento pensou que estou certo em achar que todo mistério veio da sua desorientação e da experiência mais maravilhosa que pude ter na vida? Saiba que foi com a cara e a coragem que fiz a limpeza de todos os medos e ansiedades, na medida em que o mundo se movia igual para mim e para você. Assim pude progredir para escrever essas cartas sem qualquer pudor. Você seguiu para frente em busca de novos triunfos e derrotas, enquanto eu procurei novos campos de atuação para atingir todos que ignoram revelações e me criticam por eu ser assim. Do fundo do meu coração desejo que morram abraçados placidamente em suas camas forradas por vermes, ou, que aprendam de uma vez por todas que tudo que sobe um dia desce; por isso é melhor viver sem praticar o desrespeito ao próximo, o preconceito e a discriminação.     

            Novamente desejo que Deus a acompanhe.
             
                           Do seu admirador

                                                        Re.                    

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