Dear Miss C Part 4


  De passagem por caminhos que levam até a cachoeira Machado II, perto de Bueno Brandão, Minas Gerais.

    Dear Miss C

  Deixei Águas de Lindóia há uns três dias, estava bastante indisposto e cansado; apesar de toda beleza local e carinho do povo onde fiquei como hóspede. Fui trazido para esta parte mais isolada onde a vastidão do céu silencioso há de me curar do mal que carrego. Mesmo sendo movido de inquietação e incerteza, aproveito este primeiro momento para cumprimentá-la mais uma vez. Estou num lugar onde ouço o filete de água escorrendo mansamente na pedra da montanha - nessa época de inverno a exuberância da cachoeira é tão tímida quanto você. Faço essas linhas com muito gosto por que estou tomado de nostalgia boa. No meio do dia descanso diante do lago de água empoçada depois da queda, e que mais a frente seguirá pelo curso do rio. Vejo no alto o céu azul livre de nuvens. Foi duro chegar até aqui pelo meio das pedras e das trilhas improvisadas com tocos de madeira. Sem esperar, fui guiado numa noite fria até um lugar perto desse recanto, cheguei coberto de poeira; com nariz e garganta ardendo com a secura do ar dessa região. Hoje o sol brilha forte, dando toda claridade necessária para encaminhar esses pensamentos que mais uma vez me remetem a você. Esse lugar é muito peculiar a nós dois, - você sabe disso - além de ser bem diferente de São Paulo, onde tudo esmorece e ressoa de outro modo com o agito maluco que faz as coisas tornarem-se necessidades imediatas - ele guarda lembranças de quando passamos por aqui. Ao redor de mim não há fronteiras visíveis, apenas a vasta região de grandes morros onde o vento frio vindo do sul assovia ao cair da tarde. Há mais de dois anos andamos por essas bandas, lembra-se, Miss C? Com certeza há de se lembrar dos caminhos esburacados por onde o carro chacoalhava de um lado para outro, as subidas e descidas da estrada mal-desenhada. Caminhos forrados com pilhas de folhas mortas se levantando no meio da onda de poeira deixada para trás. A carvoaria na beira da estrada continua bela, tosca e triste. Eu fui lá e vi os homens com seus mantos cobrindo a cabeça, aquele ar sofrido pela perda de dez anos em um, e praticamente todos com marcas permanentes nos rostos pintados de negros. E as pontes de madeira Miss C? Você ainda tem medo de pontes? Ainda fecha os olhos ao passar sobre elas? 
    A natureza abraçando a gente era tão simples no amor singelo que nos ofertava inesperadamente. A natureza é assim: discreta e fugaz num oferecimento praticamente insignificante que ninguém vê e que desconhece qualquer senso de medida. 
   E aquelas vaquinhas pastando na divisa da estrada, ali, bem no limite da cerca de arame farpado, lembra disso? Elas pousavam para as fotos com falta de firmeza no foco. 
Ah, Miss C, você haverá sempre de guardar esses momentos ensolarados daqueles tempos.  
   Entre tantas cartas que trocamos durante mais de dois anos, estava relendo uma em especial. Eu a trouxe comigo para refletir neste belo lugar calmo. É uma daquelas cartas que a gente relê quando a encontra em meio às outras e acaba ficando sempre em busca de um novo significado para coisas incompreensíveis. É do dia cinco de fevereiro do ano em que você ainda alimentava uma esperança cruel - confiando no meu total desconhecimento dos seus passos. Esse dia provavelmente não esqueceu, até por terem essas palavras dado ensejo a tudo que se seguiu até hoje. Ao lê-la no grande silêncio, que na verdade não é silêncio, pois o som da correnteza que bate nas pedras numa cessa, fico novamente abismado com o frio temor que tomou conta de si naquela onda de insegurança e fraqueza. Foi a fraqueza humana que se apossou do seu coração em prantos e da arrogância dos últimos dias de convívio. O relato que me passou foi o pivô do desativo que jamais poderia imaginar. Foi a partir de então que todos aqueles olhos tristes passaram a segui-la pelos cantos da casa, isso de uma forma mais perturbadora ainda, tornando-a uma pessoa completamente arredia. Ah, minha adorável Miss C... Percebe agora o quanto da sua vida sacrificou por ele? Consegue notar o tanto que perdeu não se desvencilhando dos laços que não desatou e do fino fio de esperança que ainda restava em seu coração? Voltando alguns anos na sua história: você, filha mais velha do dedicado e preocupado Severino. Já com dezessete ou dezoito anos era cobiçada em toda redondeza daquela cidade pequena. Severino tinha cuidados raros com as filhas, e em especial com você - já se prevenindo de algum incidente não recomendável naquela cidade onde todo mundo sabia da vida de todo mundo. O bom homem Severino, de intransigência moral na educação das filhas, em seus pensamentos sabia do perigo que representava para a honra de um pai ter filhas jovens, bonitas e inteligentes dando sopa entre idas e vindas. Principalmente você, Miss C, o inquietava. Com modos cativantes aos olhos dos homens que buscavam uma virgem para casar se fazia de desentendida, tinha um silêncio ameaçador, insinuante e ausente. Talvez você fosse mesmo capaz de um desses deslizes irreparáveis. Era o que ele pensava. Por isso, ele nunca impedira que namorasse, mas que fosse a sério e às claras. O grande perigo desse desatino chegaria aos seus dezenove anos. Não mais na pequena cidade perdida no meio do mapa fincado na parede, mas numa grande capital rodeada de oportunidades - finalmente você estava livre e solta em São Paulo. Tudo começou quando viu aqueles olhos que a seguiam insistentemente. A princípio achou graça no modo de ser do rapaz de olhar vivaz e postura curiosa que a impressionava. Ele sorria como se fosse dono de você. Ele a eletrizava. Não demorou a perceber naquelas mãos firmes o seu abrigo desejado. Ah, os dedos! Eram esses dedos que supriam o êxtase, ou, de comum acordo, era tomada pelos braços que a conduziam até aquele reservado só para os dois. Desse momento em diante começava a ser mulher. A sua boca mordia os cabelos dele e os lábios afagavam a orelha. Você ficava completamente caída ao se sentir envolvida por aquela carne mansa. No final eram apenas suspiros quando os braços pendiam do corpo justificando tudo. O resto nem é preciso dizer. Se você nasceu para ser de alguém, foi para ele que você nasceu. E assim sempre pensou. Mesmo que depois de anos ainda sentisse uma mistura de gozo e sofrimento pelo infeliz aspecto de decadência que nunca admitiu. Tempos depois foi levada ao desespero e praticamente à loucura, (talvez loucura mesmo), em busca do ciclo rompido que irremediavelmente não seria mais reconstruído. Nem você sabia naquele momento para onde se encaminharia o seu caráter deformado pelas circunstâncias da vida. Aquele jovem não queria mais nada com você. A partir de então, todas as leis sociais e relacionais mudaram diante da sua visão distorcida. A tragédia da solidão tornou-se sua única cúmplice na alma tomada pela dor superior às suas forças. Jamais pensara um dia estar sujeita a tais perigos. Mas eles vieram. Você rompeu com a família e culpou o pai por tudo. O mesmo pai que a alertara, o pai que viu o que você não enxergava. O pai que num ato insano chegou à beira da tragédia por causa da sua ingratidão. Ele, Severino, nunca imaginou em seus mais tenebrosos pesadelos, que a filha querida seria capaz de fazer pior, mas ela fez
     Ah, Miss C, você se fechou durante muito tempo - foi quando o seu coração atravessou noites sem consolo. Ninguém jamais viu os seus olhos molhados de lágrimas no quarto escuro - noites e mais noites tomada pelo transe das palavras doloridas. Numa época à frente, já recuperada em parte desse desespero, sentindo que tinha forças para lutar, seguiu em busca de um alento para ampará-la. Foi quando me encontrou desamparado. Eu entrei em sua vida. Acho que estava muito a fim de descobrir se estava ou não em posse do meu juízo perfeito, digo, para encarar novamente um compromisso com alguém. Pouco tempo depois percebi que o seu olhar era de quem praticamente continuasse à beira da loucura, imerso diretamente no seu passado. Ah, Miss C, as histórias que contava eram um labirinto de ficções intermináveis. Em nenhum momento parecia querer dizer a verdade, mesmo que fosse de alguma questão simples. Você adquiriu esse hábito e dele criou um grande leque de possibilidades para a mesma história fantasiosa. Você temia tanto ser confrontada com a verdade que, quando uma ponta de mentira me motivava desconfiança, se fazia tomada de um acesso histérico, ou dava às costas pisando duro como se fosse vítima da maior ofensa. Minha adorável Miss C, muitas lacunas ficaram em nossas conversas, até nas conversas prolongadas que aparentemente tinham um tom de sinceridade. Você nunca mencionou uma amiga de infância ou uma brincadeira que gostava - jamais me falou de uma rua onde pulava corda ou de um parquinho onde brincava no escorregador. Quando lhe perguntei o que já havia feito quando criança, apenas disse que nadava na piscina com o papai (até me mandou uma foto desse momento, lembra disso?). Nunca em nossas conversas presenciei um vislumbre em que recordasse uma cena da infância que sentisse orgulho. Jamais se deixou escorregar nesse passado quando as respostas seriam: onde, como, ou os porquês das coisas acontecerem. Várias vezes eu tentei fazê-la retroceder, mas foi em vão. Parece que os detalhes desse tempo a entediavam demais. Quando finalmente relatava algo, era como se fosse uma cena tirada de um folheto de viagens. As reclamações do seu passado recente eram sim muito marcantes. Não há uma só pessoa de quem não falasse mal. O tempo que dispúnhamos era preenchido com reclamações de tudo quanto era tipo. Nada parecia alegrá-la mais do que reclamar em tom de desabafo. Mas o que importa saber disso agora? É melhor desviar a conversa para a carta que mencionei no começo. Relendo esses escritos chego a conclusão que realmente você imaginava que eu tinha memória fraca e não conseguiria observar todas contradições por que passamos juntos. O grande problema é que tenho excelente memória para aquilo que leio e para aquilo que me foi dito. Justamente por isso é praticamente impossível que eu não reconheça um jogo de trapaça ou distorção criada a fim de semear uma nova ilusão. Era esse o seu jogo sempre. Lendo essas linhas me revolto cada vez mais com esse seu mundo de mentiras e falsificações de intenções. Não é de estranhar, portanto, que inventasse tudo para o seu próprio prazer em presenciar o meu sofrimento e até o sofrimento desses que a seguem com olhar dia e noite pelos cantos da casa. Comigo, inevitavelmente, no final sempre dizia: “Você não passa de um patético!”. Sempre querendo dizer com isso que eu não era grande suficiente e nem completo o suficiente, pelo menos na sua visão turva, para participar do seu mundo. Às vezes chegava ao cúmulo de dizer que minhas perguntas eram tão insignificantes que não mereciam respostas. O pior de tudo é que nunca se arrependia do que fazia. Ah, Miss C, infelizmente são essas coisas que rompem o encanto. Você tem esse elemento diabólico habilmente mascarado por ações inocentes que me faziam acreditar que o mal era eu. Não podia ser eu, pois você parece imune a todo mal que venha de fora. Sei que ao ler essas linhas que lhe dedico, novamente estará me desejando o pior porque tudo isso a assusta demais. A verdade a assusta sempre. Motivo, talvez, por que imagina que poderá passar pela vida como se passa entre labaredas sem se chamuscar. Uma hora, quando menos esperar, esse fogo poderá alcançá-la. E no seu rosto torcido pela dor lembrará que mentir, enganar e forjar - mesmo que seja a alguém que sempre desprezou como eu - poderá causar uma das maiores infelicidades nunca antes prevista. Nós dois sabemos, Miss C, que jamais admitirá abertamente que tudo isso aconteceu de verdade. Então saiba que não foi esse mal-feito que me enriqueceu, porque todo mal vindo da perversidade deve ser destruído; o mal que fez a mim e me trouxe até a clínica de repouso em Itapira - de onde freqüentemente sou levado com outros internos para o contato com a natureza e visitas a outras clínicas de cidades próximas - é que faz a sua vida perecer aos poucos; mesmo que aparentemente ache que está tudo certo. Desse mal veio a consciência do quanto pode a liberdade ser colocada à prova em nome do amor. O meu mundo de equívocos me trouxe até aqui para que também colha bons frutos dos conselhos que dirijo a você. No momento estou fora do mundo que criamos, um mundo que eu julgava de direito e beleza, um mundo de esperança. E se de verdade um dia tive esperanças foi você que as aniquilou aos poucos.

Que Deus a proteja sempre.

           Do seu admirador, Re. 

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