Dear Miss C Part 2

Dear Miss C,

      Decorreu algum tempo desde que lhe escrevi a última carta. Não me guarde rancor por isso; queria que esse novo escrito viesse dos meus melhores dias: dias tranquilos e bons. Quanto a solidão que ainda persiste - mais dificilmente do que o era antes - sei que é grande e penosa. Mas o que importa mesmo é o que nasce aqui dentro para ser colocado em prática olhando ao redor. Quero dizer-lhe que ninguém poderá aconselhá-la. O único e mais curto caminho é o de entrar em si mesma, estendendo suas raízes pelos cantos mais profundos dessa alma que carrega um tipo de ingenuidade. Com isso poderá investigar o motivo de tantas tristezas, confessando ao seu âmago por que tem necessidade em viver coisas simples de forma impossível. Talvez sua vida não seja tão fácil de traduzir ou explicar, pois, por si só, sempre foi uma vida de sonhos ricos em substâncias, porém fraca na prática de boas intenções. Equivale dizer inicialmente que, é curioso notar, o quanto o efeito das minhas cartas tem mudado sua vida. Essa é uma das mais autênticas consagrações que pude obter, principalmente nas cenas tão misteriosas que de alguma forma sempre ocultou de todos. Agora sei, que na verdade, não tenha sido eu a inspira-lhe um comportamento mais digno, mas sim sua veemente esperança na mudança que, com toda certeza, de tempos para cá têm trazido mais benefícios do que prejuízos a longo prazo. Eu reconheço o quanto tenho sido o intermediário na revelação de tantos mistérios, e até mesmo os meus escritos ainda sejam uma espécie de presságio, deste que tão humildemente sempre lhe escreve, e frequentemente são consultados por você; de uma forma ou outra mostrando a verdade de um tempo que gostaria tanto de esquecer. Saiba que nunca foi minha intenção colocar uma nuvem sobre os seus sonhos de ser e fazer alguém feliz. De muitos modos lhe teria indicado o caminho e condições adequadas para que essa nuvem que surgiu jamais tombasse sobre sua cabeça. E dessa maneira se aproximasse cada vez mais do belo objetivo que nunca se transportou para realidade palpável, uma vez que nunca se permitiu a essa travessia e quando, no acaso desse destino que seria certo, chegou praticamente até a margem e retornou. Nós descobrimos agora que nem sempre a travessia tão esperada seria permitida; e o afastamento nos mostrou o que era precisar de alguém para desvendar tantos segredos da vida. Sabe Miss C? Há nessa vida coisas que estão tão longe de serem totalmente dizíveis; ou meramente palpáveis; quem sabe imaginariamente exprimíveis; para nos fazerem crer no quanto as intenções seriam diferentes se não fossem tão efêmeras e tomadas de uma ironia cruel. Mesmo assim sabemos que existe um espaço que a palavra nunca ousou pisar: a gratidão por um aprendizado tão sofrido na gravidade dessa evolução sob pedras. Talvez somente lá no íntimo você possa encontrar, numa hora mais silenciosa, tais palavras que respondam as perguntas mais perturbadoras. Então se lembrará de mim e de que a bondade é um sentimento que carrego e sei apreciá-la muito bem, por isso lhe desejo muito mais do que aquilo que consigo exprimir aqui. Um dia, Miss C, após ter feito uma bela descida dentro de si, descobrirá no mais profundo recanto desse ser solitário, o quanto de felicidade teve que renunciar para chegar aonde chegou. É muito triste estar mais uma vez de mãos vazias tentando agarrar-se numa vida que nunca foi sua por opção. Por ora, imagino que se sinta desajeitada ao buscar as concepções de coisas que derivam exclusivamente da necessidade do seu ser. Saiba que quando novamente estiver sob a influência dessas coisas consideradas graves, com efeito, não se deixe dominar por elas, sobretudo nos momentos em que não souber por qual caminho seguir. Sirva-se desses infortúnios, e não se envergonhe pela falta de iniciativa que carrega consigo; nunca tema a intimidade excessiva com a vida, busque o que lhe for indispensável e aprenda com isso o que deve ser aprendido. Um novo mundo se abrirá aos seus olhos, esses lindos olhos redondos e assustados que mais parecem de um coelhinho fora da toca. Ahhh Miss C, quanto mais eu escrevo sobre tudo isso, mais tenho a impressão de que essas coisas ainda estão aqui dentro de mim: desde o seu perfume mais discreto até a grave expressão do seu olhar mais pesado. Há tantas coisas nessas linhas que não foram compreendidas, nem apanhadas como se apanha o fruto maduro do pé, e pouco vividas como se vive o prazer do amor terno com os ecos vibrantes da saudade. Essa saudade a que nos submetemos é como um sedoso tecido, que de um lado os dedos escorregam com uma ternura infinita sentindo a cada fio vagarosamente, e do outro são espinhos finos como o destino cruel que nos foi oferecido. Não continua sendo engraçado como tenho uma linguagem toda própria de definir coisas tão comuns? Eu sei, sei sim, que ao reler tudo o que já foi dito, sentirá o mesmo assombro das ressonâncias sem fim que tomaram sua vida por causa disso. Mas a vida é cheia de fé, mesmo que acabe se enganando mais uma ou duas vezes, um dia essa fé, que tenho a certeza tem na vida, lhe mostrará o quanto é importante ter humildade e paciência, porque a vida não pode ser acelerada no seu desenvolvimento natural. O tempo que conhecemos pouco serve como medida; um ano, cinco anos, dez anos não são nada. O aprendizado que necessita não pode ser calculado ou contado, precisa apenas ser vivido como uma árvore que enfrenta tempestades, ventanias e nunca teme que depois venha um dia ensolarado; ainda que saiba que o que a sustenta nada mais seja que um palmo quadrado de terra. Se hoje eu tivesse que confessar com quem aprendi muita coisa a respeito da vida, encantos e decepções; só poderia indicar o seu nome, Miss C. Vivi cada momento e aprendi, seja o que for que se tornou a vida depois disso, o que é dado com amor deve ser retribuído mil vezes e, mesmo que a circunstância de desajuste transforme tudo num fardo, a mágoa um dia passará. A experiência sexual, que ora no sofrimento ou no gozo da total entrega, foi num sentido amplo e puro de excepcional importância para abrandar a nossa loucura, teve um simbolismo poético como uma cascata jorrando de uma montanha. Uma força primitiva cheia dos seus próprios ritmos e sutilezas, totalmente desprovida de nossas vaidades tão comuns. (É bem verdade que essa foi uma das provas mais difíceis enfrentada por nós dois). A sexualidade não encontrou em nós pessoas puras, mas encontrou o homem e a mulher como seria preciso, em parte amadurecidos e em parte rudes no instinto básico de macho e fêmea. Nós carregamos no cio da entrega a sensação sexual como algo aparentemente selvagem, regada de ódio e recordações doloridas, agindo como se fosse algo temporário motivado por um equívoco, mas isso nunca diminuiu a bela arte de dar e receber. Aquela volúpia carnal foi uma experiência que tocou todos nossos sentidos, foi um conhecimento sem fim que nos foi dado; e quando mal o aceitamos todo o seu esplendor cessou. Muitas vezes abusamos desse estímulo tão interessante que carregávamos um pelo outro, como uma simples diversão em vez de nos tornamos cada vez mais cúmplices. Foi algo tão diferente, não é mesmo Miss C? A carência tão visível de um lado e o excesso de outro, sempre disfarçando a necessidade elementar da vida. E todas essas necessidades eram tão básicas e rústicas que tivemos uma visão turva para esclarecê-las a nós mesmos e vivê-las totalmente às claras. Tenho certeza que ainda se lembra com clareza da beleza dos animais e das plantas que tanto admirávamos com uma observação silenciosa. Numa vontade e resistência, de um jeito dócil e absoluto, enquanto premiávamos o nosso gozo físico sem dor. Um gozo indescritivelmente belo e tão rico que agora traz novamente essas reminiscências de tantos dias e noites de amor, momentos em que éramos altivos e tínhamos atitude. Você sabia bem que quando nos juntávamos à noite cheia de mistérios, nos entrelaçando num abraço sem fim, sempre acabávamos reunindo doçuras no pensar; alimentávamos uma força que um dia estaria nessas palavras indizíveis daqueles prazeres.
     Mesmo que novamente eu esteja enganado, estou aqui vendo o futuro, com a visão de uma mulher nova se erguendo de tudo isso. Uma personalidade crescendo mais forte e poderosa por ter vivido mal um segredo que foi o seu único pecado: que era nada mais que uma carta lacrada no passado e que se perdeu no tempo.
   Dear Miss C, tudo que anseia e deseja ainda não se cumpriu; a mulher que cresce em você ainda não floresceu totalmente, a grande renovação a libertará dos sentimentos levianos e dos empecilhos; não haverá em sua vida mais contrastes que causem tanta gravidade ou a dor que ainda lhe causa queixas. De agora em diante seja boa para com as pessoas, inclusive aquelas que um dia acabou deixando para trás, mostre-se calma e digna de confiança, espante o mau–humor que causa indignação e rejeição. Procure realizar uma nova comunhão com todos; de uma forma que isso possa se transformar para melhor na medida em que você também se transforma. Evite arrastar o eterno drama entre pais e filhos e conflitos fraternos, porque embora pareçam incompreensivos em muitos momentos, são estes que lhe aquecem e dão abrigo. Esteja certa, Miss C, que a melhor herança que recebe é a força que reside naquilo que eles reservaram para você; primordialmente nesses momentos de solidão do pensamento. Nessa força há a benção que nunca se perderá mesmo que, num ímpeto incontido, parta para muito longe. É bom saber que sei que sua vida íntima tornou-se limitada pelos traumas que ainda carrega; sua vida pessoal se tornou cheia de exigências e carregada de convenções com tantos deveres.
    Miss C, eu quero que saiba que entendo a solidão que sempre se queixou, só por isso estou aqui; sei que ela é uma coisa muito hostil e impenetrável, mas que partindo dela encontrará o caminho dos desejos que a acompanharão pelo resto dos seus dias. Última coisa: jamais pense que aquele amor da sua adolescência não valeu de nada. Na verdade foi por causa dele que vive o que é hoje. Acredito que aquele amor ter persistido tão forte e poderoso na sua memória a faz saber, quase que tardiamente, que aquela foi a sua primeira e mais profunda solidão desses que agora a apóiam. Esse foi o primeiro molde que sua personalidade rebelde recebeu quando descobriu o amor e através dele calcou a sua vida nas escolhas de atitudes erradas. Miss C; despeço-me com muito prazer em saber que meus escritos estão em suas mãos e lhe servem de alguma coisa. Que lhe sirvam como exemplo, e a façam encarar a vida de um jeito mais fácil e harmonioso, por assim dizer, reconciliador na plenitude. E de preferência com todos aqueles que singelamente dedicaram uma parte da vida a você. Os meus bons desejos a acompanham sempre, tanto quanto a minha confiança nessa pessoa melhor que renasceu devido aos meus conselhos e protestos.

Confio que de agora em diante se mantenha alegre e tranqüila.

                            Do seu admirador Re

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