quinta-feira, 27 de julho de 2017

Olhos Vazios

   Diante do espelho, com esses olhos vazios, vejo algo me corroendo lentamente por dentro, é como se fosse uma faca afiada cortando as entranhas. Em certos momentos torturo o pensamento sobre essa dor, mesmo que faça rápidas mudanças de atitude que me ajudam a esquece-la no dia a dia. Ainda assim, nada consegue cessar essa sensação tão inquietante que fustiga de um lado para o outro e quase nunca se modifica. E para ser exato, com isso me torturo sem dó indo direto da geladeira para a fornalha. A minha carne se estorrica quando lembro das histórias que um dia escrevi. Lendo outra vez toda a porcaria que sempre escrevo sobre isso, mais uma vez me arrependo por estar tão entregue, e por tanto tempo. Parece que me maltratei de propósito me deixando maltratar. Olhando no espelho vejo que não foi pouco o que mudei. Muita coisa pode ficar diferente no semblante de um ser atormentado pela tristeza. Hoje eu sei que não faz nenhuma diferença para quem dediquei meus bons pensamentos e intenções. Essa pessoa nunca teve qualquer interesse na mudança dos vincos mais definidos desse rosto, e muito menos na desilusão dos olhos vazios que insistem em permanecer molhados. Não sei se consigo botar algum sentimento nessas palavras ou, se de repente, decorei tanto o mesmo discurso que o faz parecer vazio e sem significado, mas mesmo assim continuo.
     Com o passar do tempo, percebo o quanto alguém que foi ferido pode se tornar duro por dentro. O quanto um amor que não foi cuidado, pode virar uma marca permanente de decepções e rancores. São por essas cenas que vão e voltam, ecoando na mente dia e noite, que explode esse vulcão de insatisfação que existe em mim. Ele transborda algo incandescente por toda natureza singela que existia aqui; torna tudo áspero, duro e praticamente morto. Enquanto isso acontece, tenho a nítida sensação de ouvir vozes gritando, vozes do infinito encobertas por um sentimento de perda. Esses sons surgem como ondas enormes de calor até o momento que todos se calam. Acontece que o meu pensamento desconhece esse silêncio. Ele insiste em funcionar ininterruptamente pelo desejo da salvação de uma dor que permanece. Antes que eu tenha tempo de imaginar qualquer nova solução, logo me vem outro pensamento trazendo outras coisas, e é como se tudo estivesse acontecendo agora. Essa imagem é do microssegundo em que nossos corpos se cruzaram numa esquina qualquer. Puxa vida... Foi naquele momento que as constelações giraram sobre nós. Dessa memória viva ainda guardo aquele céu, ele se desdobrou e nada mais que importasse existia. Era, apenas e tão somente, você e eu, e com todas vibrações positivas magnetizando o mesmo interesse. Olhando, eu imaginava que finalmente tinha encontrado a felicidade abaixo desse céu tão lindo. O meu mundo acabava de entrar numa viagem fantástica e cheia de encantos. O som dos anjos fazia a trilha sonora do meu espírito. Nós imitávamos os anjos enquanto voávamos de mãos dadas com mil novas sensações. Finalmente estávamos aceitando que o abismo entre nossos mundos acabara de se estreitar.
       Quando fico mergulhado assim nos sonhos desconheço que essas são minhas palavras. E somente minhas. Palavras que vagueiam pela mente alcançando um passado que deveria ser esquecido e que se parece com o seu. Eu sei. Sei sim... Sei que na metade do tempo essas palavras duras são melodiosamente disfarçadas em fantasia e a outra metade em ilusão tola. E que meus lábios nunca acompanharam o desejo interior, por isso sempre fiquei com esse silencio profundo da alma. Queria tanto que um dia essas palavras soassem encantadoras e esperançosas para você. Que fossem um estimulo à sua vida e daqueles que se entristecem por tanta tragédia. Mas quando começo a relatar tudo isso de novo, fico meio perdido sem saber o que posso lhe oferecer, mesmo que ainda tente de alguma forma encontrar ajuda nos outros. Têm horas que esqueço que palavras e fatos são como vozes distintas que entoam o mesmo canto. É como se fosse uma nota musical de duas pontas soando uma interrogação eterna. Talvez somente aqueles com o coração cortado em pedaços entendam o que isso quer dizer. Talvez você e eu entendamos agora o que isso quer dizer.
      Fico por horas pensando o que restou daqueles dias. Nunca encontro nada que me alegre de verdade ou me faça esquecer; tudo porque foram os melhores dias que já tive. Hoje, quando acordo de manhã, estou cheio de feridas que não são curadas pela noite. Feridas feitas após aquela vida que um dia vivi com toda emoção sincera que pude oferecer. Existe um rosto que insiste em permanecer solto nessa mente, ele aparece quando lembro de tudo isso. No entanto, eu sei que por estar mergulhado em sonhos, nada me acontecerá além das próprias ilusões que carrego. Mesmo que a realidade dessas angustias ainda insistam em correr pra lá e pra cá. O meu desejo sempre foi o de permanecer eternamente imerso usufruindo lembranças alegres. Isso poderia durar um tempo infinito e brando, como aquele beijo imaginário que trocamos na última vez. Você ainda se lembra disso? Foi ele que selou para sempre a lembrança dessa ferida que ainda tenho aberta. Quando tento acordar e viver outra vida, vejo que é inútil. Constato friamente que a única coisa que ficou em mim, foi um restinho de tristeza com a lembrança daquela realidade bucólica e profunda, éramos nós dois olhando nuvens passando no céu. Luto todo santo dia para não cair nessa condição de lamentador outra vez. No meu pensar, isso tem que ter algum significado maior além de apenas mais uma neurose. Já sabendo que a minha vontade é insuficiente para dominar essa dor, sinto como se fosse um idiota que não faz outra coisa além de contar o que viveu.
      Esses sonhos trazidos diariamente para a realidade me fazem morrer por dentro mais um pouco. Vejo neles o meu corpo jogado num piso frio onde muitos suplicam misericórdia. Como posso me deitar novamente tendo sonhos assim ou sabendo que tenho que encarar essa realidade todos os dias? Como posso seguir adiante com tantos sentimentos cortantes? Estou numa esteira interminável de dor e esperança, e não tenho como escapar. Sinto como se o diabo perseguisse meus pensamentos, ocultando nessa escrita misteriosa a vida que tive; sempre relatando tudo tão cruamente para me manter no inferno. O meu alívio é que, depois de um certo tempo, as imagens ficam como fragmentos e as palavras dos momentos que nunca se completaram, somem. Novamente a única coisa que se destaca claramente no pensamento, é um rosto. Com esse rosto tudo se explica. Por ele são esses sonhos com causas variadas, e que vão do ódio ao amor, da traição ao perdão e terminam com um pensamento permanentemente belo. Por esses motivos existem mentiras confrontadas num eterno viver na indecisão. Um lugar onde tudo finalmente aparece com um significado maior que vai além de meras desilusões. Nessa hora o rosto esbanja temor e tranqüilidade, o pensamento carrega paz sem carregar culpa. Como eu queria me convencer de que tudo foi para o seu bem e sem remorso, ou achar que o destino nunca se enganou em nos colocar no mesmo caminho.
     Eu entendo que muitas vezes não usei palavras exatas, que talvez me faltou um jeito lento e delicado de expressão, e que fiz tudo como se estivesse falando de nós dois numa eterna confissão íntima. Saiba que esse foi único jeito que consegui me acalmar. Bom... Agora farei um repouso a fim de me tranqüilizar um pouco mais de todo esse desgaste desnecessário. Depois de alguns instantes terei fechado os olhos para seguir os sinais. Eles me farão chegar num lugar onde poderei começar tudo de novo, e claro, de um jeito melhor. Vou pelo mesmo caminho todos os dias quando quero lembrar de você de um jeito meigo e dolorido.  Quero que saiba que agora retorno outra vez para dentro de mim, e por um único motivo: aqui é o lugar que restou para refletir toda a tristeza desses olhos vazios.

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