Cachimba Reeditado Parte Final

    A mãe retorna com noticias. Iremos embora desta casa daqui três dias. Caminho de volta para o antigo lar na capital.
O caminhão da mudança chegará às oito horas da manhã do próximo domingo. Será uma viagem cansativa de mais ou menos 200 quilômetros.
         Ela me chama para ir até seu quarto. Senta-se na banqueta da penteadeira e pede que eu me sente na cama. Começa conversar com olhar triste:
     “Pedro, tenho algo para te contar. Pensei muito sobre o assunto e achei melhor dizer hoje. Porque assim terá tempo de encontrar uma solução para esse problema. A casa da capital é pequena e não cabe cachorro, lá não tem quintal. Infelizmente você não poderá levar Cachimba conosco. Tente encontrar algum menino da escola que queira ficar com ela. Alguém que goste de cachorrinhos”.
      Permaneço em silêncio olhando dentro dos seus olhos pálidos e pesados.
     O meu mundo parece virar de cabeça para baixo de novo. Recuso-me a pensar na ideia de me separar da minha menina.
     O caos dos acontecimentos acaba se juntando com o caos da mente. Isso é uma sina que nunca termina nesse destino que já está traçado na minha vida.
     Levanto devagar enquanto a mãe em silencio permanece ali. Vou para o cantinho do banheiro dos fundos. Encosto na parede apoiando o pé na mureta. Não agüento pensar em tudo isso, começo a chorar. As lágrimas descem queimando a pele. Olho de longe a meiga menina deitada ao lado da casinha improvisada. Ela dorme tranqüila. Sempre tem o sono inocente. O que será da doce e fiel companheira depois da nossa partida? São tantos pensamentos...
        Quando levanto os olhos vejo Peppers chegando perto da mureta.
       “Garoto, por que está chorando?”.
        “É que nós vamos mudar para a capital. A mãe disse que não poderei levar Cachimba”.
        “Isso é um problema sério. Imagino o quanto deve estar triste, já que é tão apegado a ela”.
         “Minha mãe falou que não podemos levar porque a casa não tem quintal. Não sei o que fazer por isso estou aqui pensando”.
         “Garoto, tenho uma solução para te ajudar. Deixe a cachorra comigo. Prometo que tratarei bem dela. O quintal daqui é grande, ela se sentirá praticamente em casa. Poderá visitá-la caso um dia voltem aqui na cidade”.
         “Vou pensar na proposta, depois te falo, agora preciso entrar”.
        Vou para perto da minha doce menina. Ela respira calmamente. Fecho os olhos ao acariciar suavemente o seu corpo quente. Nada pior poderia acontecer além da nossa separação. Desde quando ela chegou aqui sempre fomos dois em um na mesma sintonia de vida. O mesmo raio de luz que se dividiu em dois.
          Na varanda dos vasos me recomponho olhando o brilho do sol que enfraquece no fundo do beco. O sol se põe devagar enquanto as cores vão morrendo no horizonte. Amarelo e vermelho se misturando no último brilho do entardecer por detrás da montanha distante. A sombra da noite chega jogando o seu manto pesado.
       Esse dia avançou em um ritmo alucinado. Todos os dramas dessa vida se desenvolveram em velocidade acelerada. Sei que existe algo dentro de mim que destruirá muitos dos meus sonhos, se é que ainda existem sonhos para serem destruídos aqui dentro. Esta será mais uma noite estranha e cheia de pesadelos. Sei que os medos irão aflorar e sumir enquanto novas convicções surgirão. Sei muito bem que é interessante levar um pouco mais longe a farsa com Sandrinha.
O velho espelho amarelado do banheiro ficará para sempre encravado na parede desta casa, totalmente esquecido na escuridão. Não poderei mais refletir pensamentos diante dele e nem rir por muito tempo ao lembrar que a minha menina meiga não mais estará comigo. Com uma cruel intimidade os meus olhos repousam diante da janela da casa de Sandrinha. Ela não apareceu mais para me mandar recados, nem mesmo em meus pensamentos puros. A vida segue enquanto os planos voam nessas fugitivas expressões de todos os meus anseios. Tudo que é estranho e inexplicável está aqui nesse pensamento.
    “Pedro! Pedro! Sai dessa varanda. Entre para jantar!”.
     Sigo até a cozinha. A comida está no prato, mas hoje, muito estranhamente, não tenho fome. Quero mesmo é ficar sozinho com a minha menina.
     “Pedro, você não vai comer de novo?”. – Diz a mãe preocupada -
      “Não mãe, não estou bem, hoje só quero dormir. Vou trazer Cachimba para dormir comigo”.
      “Menino, nem vou falar nada. Já tenho problemas demais para pensar. Amanhã cedo você limpa os pêlos dela no lençol”.
       “Já sei, mãe, já sei...”.
       “Pedro, vou sair bem cedinho para a casa de dona Marília, quero acertar as minhas contas. Almoce antes de ir para escola. Você sabe que tem que chegar uma hora antes do horário e passar na diretoria. Não esqueça disso!”.
       “Vou dormir, mãe. Boa noite!”.
        “Boa noite, filho”.
       O dia nasce depois de uma noite agitada de quase insônia total.
       A mochila da escola está com livros, cadernos, lápis, caneta, borracha, apontador, frasco pequeno de ácido, esponja e luvas de borracha que a minha mãe usa para lavar a louça.
        Durante o café da manhã imagino os detalhes da chegada na escola enquanto a minha menina toma uma sopinha de pão com leite. Toda vez nessa hora ela faz uma sujeira no chão. A menina meiga está sempre faminta que não se contenta em comer devagar. Já olho os seus movimentos com ar de saudade.
     A bicicleta vermelha está preparada. A hora de pegar o caminho pela grande avenida chegou. Sigo em direção à escola com tudo planejado. Uma parte boa de mim foi traída por Sandrinha. Também por isso a alma tem sede de vingança, e eu a saciarei. 
Pelo caminho da grande avenida vejo homens, mulheres e crianças passando diante dos meus olhos tomados pela neurose. Não mais reconheço beleza nas coisas. Estou tão determinado que não sinto a presença de nada ao meu redor. Vejo sombras que passam na velocidade da luz. Por um instante fico manso e discreto, recebo uma paz maravilhosa que cai sobre mim. Sinto um rio correndo através do meu corpo. Um rio de emoções que conduz o passado e o presente num curso fixo. Chegando na escola olho em volta inquietantemente. A turma que sai ao meio-dia já foi embora. O pátio da escola está vazio. Alguns professores estão na sala em que se reúnem nas aulas vagas ou intervalos. A diretora não está em seu posto de comando. A sua assistente recebe a carta de suspensão assinada, após checar a assinatura pede que eu espere no pátio até o momento em que as filas se formam. Sigo pelo corredor, subo as escadas chegando no primeiro andar. Entro na sala de aula vazia e vou logo encostando a porta até que o trinco se encaixe na fechadura, sigo até a carteira de Jorginho Espoleta. Ele se senta bem no fundo. Faz questão em ser o último do canto direito. A sua carteira é exclusiva. Foi toda personalizada por ele. Esculpiu desenhos na madeira, com a ponta do compasso deixou o seu nome marcado em letras de fôrma. Ninguém ousa sequer encostar ali. Ele é o rei da classe. O assento está descascado, as partes de metal amassadas e enferrujadas. Na parte debaixo, onde se coloca o material escolar, tem chiclete grudado, papeis amassados e cascas de lápis. Retiro cuidadosamente o frasco com ácido. Enfio com dificuldade as luvas nas mãos, abro o pequeno frasco e vou derramando um filete de líquido na esponja. Quando percebo que está bem molhada passo sobre o assento da carteira. Por causa do desgaste a velha superfície está com as partes debaixo da madeira bem à mostra. Vou encharcando o assento inteiro com o veneno. Olho a todo instante no relógio de pulso que a minha mãe me deu como presente de natal. Faltam ainda vinte minutos para o sinal de entrada. Guardo tudo com cuidado, abro a porta devagar e saio sem que ninguém me veja. Caminho até o pátio entrando na fila como quem acabou de chegar da rua. Jorginho Espoleta fica por último até nessa fila. Como eu não sou bobo fico bem longe dele. Peço licença para um colega, furo a fila para me colocar num lugar bem no meio. Ouço Jorginho zombando das meninas e dando tapas na cabeça dos meninos da sua frente.  Uma longa e barulhenta espera até o momento de cantar o hino nacional. Agora todos em silêncio para o coro de centenas de vozes. Essa é a mesma rotina de sempre dessa escola. As filas indianas dos meninos ao lado das filas indianas das meninas. Algumas turmas vão seguindo pelo corredor térreo e outras pelas escadas. Todas com um professor à frente conduzindo. Os alunos se ajeitam nas velhas carteiras fazendo o mesmo barulho de arrasta-arrasta até que todos se acomodem. Jorginho não me dirigiu uma só palavra hoje, apenas olhares. Ocupo o meu lugar no meio da fileira de carteiras. Jorginho passa por mim em busca do seu canto. Sorri fazendo chacota. Mal olha por onde pisa com tanta empolgação na vontade de mostrar que é esperto. Joga de qualquer jeito o seu material em cima da carteira enquanto se senta de lado. Sente que molhou a bermuda azul marinho. De soslaio vejo que ele se levanta rápido. O tecido de algodão parece que grudou na pele. Ele reclama da ardência. Pula de um lado para o outro como se fosse uma ave pula-pula. Ele não entende o que está acontecendo. Passa a mão sobre a roupa em seguida sacode a mão que também parece arder. Alguns alunos riem do trejeito do “menino pula-pula”. A professora de língua portuguesa foi quem nos conduziu no percurso do pátio até a sala de aula. Ela se chama Adelaide. Está de pé atrás da sua mesa batendo uma régua de madeira por cima dos grandes livros. Ela pede silêncio. Jorginho fica de cócoras, levanta e abaixa três vezes. A professora se aproxima afastando os alunos curiosos. Ela se assusta com o estrago na pele do menino. Fica sem saber o que fazer enquanto os seus lábios tremem. Puxa Jorginho pelo braço, leva o menino para a enfermaria da escola. Enquanto vai saindo avisa que não devemos nos aproximar daquela carteira. Os alunos ficam sem saber o que aconteceu. Jorginho segue amparado, vai pelo corredor gritando e chorando. Ele arrasta a perna direita  que mal consegue dobrar para caminhar. O burburinho se instala. As meninas comentam o acontecido fazendo rodinha, alguns meninos riem, mas ao perceberem que os aliados de Jorginho estão observando, ficam quietos. A escola é tomada de pânico. Os professores saem das salas para olhar do que se trata toda a essa movimentação no corredor. Alguns abandonam tudo para seguir até a enfermaria. Outros alunos se bandeiam para o corredor para se apoiarem no muro que dá vistas para o fundo do pátio. Todos esperam noticias com o retorno dos professores. O meu grande dia está transcorrendo melhor do que imaginei. O tempo vai passando. O portão principal é aberto pelo servente da escola para a entrada de uma ambulância. Desce um enfermeiro que abre a traseira do veículo. Ele puxa uma maca e rapidamente segue para a enfermaria. A luz vermelha no teto da ambulância pisca incessantemente. Na porta do lindo automóvel branco está escrito: “Governo municipal atende o povo”. Mais alguns minutos de espera ansiosa. Lá vem a maca aparecendo no meio do pátio empurrada pelo enfermeiro. A diretora anda de um lado para outro. Os professores seguem inconformados até a porta do carro só para olhar Jorginho quase inconsciente. Parece que ele foi sedado. O grande carro branco parte em velocidade fazendo barulho pela rua enquanto o portão é fechado. Os alunos retornam devagar para as classes. Os professores ficam em grupinhos comentando o fato. A diretora e a professora Adelaide sobem as escadas. Os alunos ocupam seus lugares rapidamente, a diretora e a professora entram pela porta. Todos se levantam como foi ensinado desde o primeiro ano. A diretora faz um gesto com as mãos para que todos se sentem. Pergunta para a professora onde é a carteira de Jorginho. Elas seguem até lá. A diretora olha sem tocar, no detalhe percebe alguns sinais de ácido borbulhando nas frestas da madeira. O assento da carteira até mudou de cor. Pergunta à classe se alguém viu algo estranho ou pessoa diferente entrando fora do horário de aula. Todos ficam em silêncio. Sabedora do medo que os alunos têm em conversar com ela, volta para perto da mesa da professora. Segue para a porta de saída chamando o nome do servente. Pede que ele vire a carteira de ponta cabeça colocando um pano no pé de metal, e que então a leve com cuidado para o depósito de carteiras velhas. A rotina volta quando a nova lição está escrita no quadro negro. Mesmo assim alguns meninos e meninas comentam em voz baixa o acontecido. O sinal de saída toca forte. As bicicletas saem pelo portão principal praticamente atropelando os alunos que vão embora caminhando. Sigo pela rua como se estivesse em um desfile heróico. Vejo bandeiras e bandeirolas sendo agitadas, o meu nome sendo saudado por todos por onde passo. O sol está se pondo outra vez, o dia se acaba em cores mais vivas. Voltei a ter intensidade na emoção de ver coisas coloridas. Jorginho foi maltratado, pagou o preço por suas perversidades. O meu retorno para casa é como o retorno ao paraíso. Vejo um caminho lindo enfeitado com flores e aromas naturais suspensos no ar. Finalmente estou convencido de que sou capaz de um ato para perder o medo e ser respeitado. Quando finalmente chego em casa parando diante do portão branco, sinto que ela se aproxima rapidamente. Viro a cabeça e lá vem ela como um foguete. Pela primeira vez vejo a realidade do seu andar autoritário que mais parece uma marcha militar. É Sandrinha chegando perto de mim. Ela exclama!
“Você fez sua vingança, não é mesmo? Você é mais esperto do que eu imaginava. Você sabia que o Jorginho está na Santa Casa e que poderá ficar com marcas no corpo para sempre? Vou te denunciar para a diretora da escola. Você foi muito cruel, perversidade demais para um menino de doze anos. Você não passa de um marginal-mirim com cara de bonzinho! Você não tinha o direito de fazer isso!”.
   Ouço tudo sem descer da bicicleta. Ela continua esbravejando sem parar. Além de ameaçar me entregar na escola também diz que contará tudo para a minha mãe assim que ela chegar.
Quando finalmente termina o seu discurso eu falo bem calmamente:
“Sandrinha, tenho só uma coisa para te dizer: se alguém souber que fiz isso, tenha certeza que a sua mãe saberá que você transa com o Jorginho na beira do rio todo dia quando você volta da escola. Vi vocês dois lá embaixo da pedra grande. Tirei fotos com a máquina fotográfica que era do meu pai. Tenho várias fotos de vocês dois deitados juntos. Só falta mandar revelar”.
       Ela fica com o olhar parado e não diz uma única palavra. Deixa cair uma lágrima de raiva pelo canto do olho. Dá as costas e vai embora em silêncio. Entra deixando aberto o portão de madeira da sua casa. Encosto a bicicleta na varanda dos vasos e sigo rápido pelo corredor lateral. A minha menina meiga vem ao meu encontro pulando pelas pernas. Ela sorri enquanto os seus olhos brilham. Ela sassarica ao redor dos meus passos até chegarmos na porta da cozinha. A mãe ainda não voltou. A porta está trancada por dentro. Dou uma checada nas vasilhas da menina para ver se tem água limpa. Retorno para a varanda dos vasos. Lembro dos momentos em que vi Jorginho pulando feito um canguru. Essa noite será como nenhuma outra, pois finalmente dormirei em paz.
        O sábado é de arrumação e desmontagem dos móveis. Várias caixas de papelão com etiquetas discriminando o que tem dentro. Subo na mureta do quintal dos fundos e dou um grito por Peppers. Ele aparece. Digo que aceito a proposta porque não tem outro jeito. Ele sorri, parece feliz com a ideia. Ele leva a menina para passear no quintal, cheirar o novo terreno é muito importante. Vou ajudar a mãe no acondicionamento das caixas. Ela já avisou que o caminhão de mudança chegará cedo. O tempo passou rápido, já são dez horas da noite, do meio da escuridão no quintal grito o nome de peppers. Digo que vou levar Cachimba para passar a última noite comigo. Ele sorri dizendo que tudo bem. Dá um assovio e a menina vem lá dos fundos. Parece que ela já se acostumou com o jeito dele e também gostou da nova casa. Pego a menina meiga no colo acariciando o pêlo. Essa será a nossa última noite nessa casa, a última noite nesse beco, nessa cidade. A última conversa que tive com Sandrinha ficará marcada na lembrança triste. Ela revelou em seu discurso por quem era a sua verdadeira preocupação.
            É manhã de domingo. Toda mudança já foi colocada dentro do caminhão. A casa está vazia. Pelos cantos agora só ecoam os gritos daqueles que perderam a identidade ficando na infinita solidão. A mãe demora um pouco para perceber, mas logo percebe o meu olhar triste. Ela sabe que ainda tenho uma dor. Sei que ela não quer viver um novo drama, por isso nem falo mais nada. Vou até os fundos buscar Cachimba, volto com ela no colo, venho andando bem devagar pelo corredor lateral. É nosso instante de despedida. Peppers me espera no portão da frente. Fico imaginando minha menina inalando toda aquela fumacinha do diabo, sendo a companheira de Peppers nas viagens pelos planetas e galáxias. Deixo a moça meiga nos braços dele pela última vez. O motorista liga o caminhão, ouço o ronco forte do motor. A mãe está do lado de fora pedindo para eu me sente entre ela e o motorista.  Ela quer ir encostada na porta tomando ar. Notei que o olhar alegre de ontem sumiu da expressão de Cachimba. Ela está triste agora. A visão da menina triste no colo de Peppers me faz chorar. A mãe passa a mão na minha cabeça fazendo um carinho confortador. O motorista pergunta se podemos seguir. A mãe diz que sim. Vamos devagar enquanto choro mais e mais. Ela pede ao caminhoneiro que pare um instante. Olha nos meus olhos e diz em tom contrariado:
“Vai menino, pega a cachorra e seja o que Deus quiser!”.
        Ela abre a porta colocando as pernas para o lado de fora dando espaço para que eu pule num salto só. Desço correndo pelo beco até chegar perto de Peppers. “Peppers, Peppers, a mãe deixou levar Cachimba!”. Ele diz: “É melhor assim... ela ficaria mesmo muito triste sem você”.
      Subo todo desajeitado na boleia do caminhão. Quando dobramos a esquina vejo Sandrinha pela última vez, ela vem cabisbaixa pelo canto da grande avenida. Provavelmente foi visitar o menino com ataduras. Seguimos em direção a rodovia federal. A nossa longa viagem para uma vida nova começou nesse caminho de volta.
       
     Quarenta anos depois relembro de tudo isso. Estou confortavelmente sentado olhando pela janela do meu escritório, que fica no vigésimo andar de um prédio da Avenida Paulista. Avisto daqui o grande planalto coberto por concreto. Passei esse tempo pensando tudo isso a fim de tomar uma decisão muito importante. A minha empresa transportadora é a segunda maior do país. O território de atuação vai desde o Rio Grande do Sul até o sul de Minas Gerais.  A maior empresa do país detém uma fatia de mercado maior que a minha. E atua em praticamente todo o território nacional não dando chance para os concorrentes expandirem os negócios. A terceira empresa do ranking chama-se: JBR Transportes. Essa é a minha concorrente direta. Brigamos por espaço dentro desse mercado há anos. Enviei uma proposta através do meu advogado, na tentativa de um acordo para a compra de parte das ações desta empresa. Com a porcentagem certa destas ações me tornarei o líder. Recebo a notícia através da secretária que em poucos minutos o dono da JBR irá me ligar. Aguardo.
O telefone toca, a secretária anuncia no viva-voz que é ele. 
O nosso diálogo começa assim:
“Alô Jota. Tudo bem? Como estão os novos caminhões com rastreadores?”.
“Oi Pedro. Os motoristas estão se adaptando. Recebi a sua proposta para a compra de 51% da minha empresa. Acho que os valores não estão justos”.
“Pois é, Jota, esses são os valores de mercado. Você o sabe o quanto está difícil para todo mundo hoje em dia. É melhor nos juntarmos para derrubar a gigante dos transportes. Juntos chegaremos ao topo. Tenho uma sala ao lado da minha esperando por você. Pode até trazer sua secretária de confiança. Se precisar lhe darei mais tempo para pensar sobre o assunto. Será bom para nós dois, você sabe muito bem que toda empresa precisa crescer, mesmo que seja na união com outra”.
“Sim Pedro, vou refletir melhor e amanhã darei a resposta”.
“Ei Jota, as cicatrizes desapareceram depois da cirurgia?”
“Sim, um pouco, mas nenhuma cirurgia consegue corrigir 100%”
“É amigo Jota. Foi mesmo muito triste o que aconteceu naquele tempo. Descobriram quem foi que colocou o ácido na sala de aula?”
“Sabe Pedro, nunca ninguém ficou sabendo. Mas eu sempre suspeitei que foi a Sandrinha que me aprontou isso. Ela estava com raiva naquele dia porque eu havia dito que não queria mais encontrar com ela escondido”.
“Sério, Jota? Vocês namoravam escondidos? Que revelação! Nunca imaginei... Sabe o que aconteceu com ela?”
“Bom... Depois de dois anos minha família se mudou aqui para a capital. Foi quando minha mãe se casou de novo. O meu padrasto era o dono dessa empresa. Depois que ele morreu eu assumi. Fiquei sabendo pouco do que aconteceu com Sandrinha no decorrer dos anos. Posso te dizer que ela apareceu grávida poucos meses depois que vocês se mudaram de lá. Ela foi sacana comigo, no tempo em que fiquei no hospital, ela passou a namorar o filho mais novo de uma ricaça da cidade chamada dona Marília”.
“Serio, Jota?”.
"Sim. Essa mulher era dona do puteiro vip da região. Um lugar frequentado só por empresários e gente endinheirada. Era uma casa que funcionava vinte e quatro horas por dia. Sempre um entra e sai de carros luxuosos. Foi o maior escândalo da cidade quando o delegado mandou fechar o local e acabou prendendo dona Marília. Foi noticiado na rádio como um grande acontecimento. Durante meses só se falou nisso. Bom... Eu sei que Sandrinha se casou com esse rapaz e eles se mudaram para Brasília. Ele seguiu carreira como assessor de deputado. Mal sabe o coitado que de repente aquele filho pode ser meu. Vi a criança novinha. Ela era bem moreninha”.
"E sua mãe Jota? O que ela faz da vida atualmente?"
“Ela continua distribuindo sopa para os pobres que vivem na Praça da Sé. Ela é uma pessoa muito caridosa. A sua mãe ainda continua sendo empresária do prazer?”
“Sabe Jota? Nunca fui muito a favor do que a minha mãe faz, mas essa é a alegria da vida dela. Ela continua assim. Ainda mantém a casa de stripper. Aprimorou bem os negócios abrindo uma filial em Miami e outra em Amsterdam. Ganhou muito dinheiro com a prostituição nos anos setenta e oitenta. Parte do dinheiro foi investido nessa empresa de transportes. Ela é esperta pra caramba! Montou “filiais” com strippers locais em várias capitais. Administra tudo com mão de ferro. Quando eu tinha quinze anos, ela conheceu um homem rico que arrumou a nossa vida. Tiramos o pé da lama, literalmente falando. Ele era alto funcionário de banco estatal. Nossa vida foi muito boa desde então.”
“Puxa vida Pedro, muito legal saber mais de você. E a nossa cachorrinha viveu quantos anos?”
    “Meu amigo, vou te contar. Eu sinto tanta saudade dela. A minha menina morreu de velhice com mais de quinze anos. Teve várias crias. Mantive um dos filhotes por alguns anos, mas depois que ele morreu desisti de ter cachorro. Amo demais esses bichinhos. Eles, sim, é que são os nossos verdadeiros amigos. Cachimba foi única na minha vida. Éramos muito unidos. Demorei para me recuperar depois que ela partiu. Restaram apenas as doces lembranças daquele tempo de descobertas. Amigo, essa prosa está muito boa, mas preciso ir embora. Aguardarei sua ligação amanhã; espero receber um belo sim da sua parte.
Lembre-se sempre : Unidos seremos fortes!”
"Até amanhã, Jorginho!" 
 “Tchau, Pedro!"

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