Cachimba Reeditado Parte 7

     Sinto-me bem à vontade agora. Estou muito confortável por dentro e com a mente viajando em sonhos. Tudo parece fluir de uma maneira espontânea e honesta. Afinal descobri com o passar do tempo quem são os meus melhores amigos. Cachimba, Sandrinha e  eu formando um belo trio! Com muita expectativa tenho todos estímulos movendo os sentidos de uma forma ordenada. Sei que os meus sonhos ainda estão um pouco desordenados, porém, coloridos. Estou vivendo nesse momento a experiência seguinte da vida. Vou construindo vagarosamente os pensamentos, trabalhando emoções no domínio da realidade. Com toda essa força que recebo de Sandrinha consigo elaborar melhor os planos. Não são mais ideias absurdas de um universo caótico, mas sim coisas produtivas, úteis e completamente disciplinadas.
       São quase cinco horas da tarde tenho Cachimba em sono profundo aconchegada no meu colo. Desperto a menina devagar assoprando duas vezes o pêlo do seu focinho. Ela acorda abrindo os olhos, se remexe um pouco. Está molenga de sono, mesmo assim coloco a menina preguiçosa no chão. Ela se sacode inteira da cabeça ao rabo. Arrasto o sofá para sala, ajeito os objetos do jeito que estavam antes. Está bem próximo do horário que a mãe retorna do trabalho. A minha menina meiga anda atrás de mim pela casa. Vamos para o quintal, a mãe não quer pêlos espalhados pelo chão, muito menos voando por cima dos móveis. Aperto a corrente no arame da coleira, a outra ponta vai para o gancho na parede. A moça bebe água e entra na casinha improvisada buscando a tradicional posição em caracol. Ouço o portão batendo, logo em seguida passos no corredor lateral. A mãe acaba de chegar. Ela dá uma pequena parada na esquina dos fundos da casa. Estou abaixado fazendo carinhos na cabeça da meiga menina. A mãe pergunta: “Oi filho, tudo bem?” Levanto o rosto balançando a cabeça timidamente em sinal afirmativo. Ela me olha fixamente e seus olhos crescem. Fica muito brava: “O que são essas manchas vermelhas no seu rosto?” Ela me puxa pelo braço com tanta força que acaba me colocando em pé. Chega bem perto para olhar. Sinto o hálito quente da respiração ofegante da chegada. “Pedro, como conseguiu essas queimaduras?” “Mãe, - dou uma breve pausa para mostrar convicção -  Eu me queimei fritando ovo. Coloquei muito óleo na frigideira. Quando vi já estava espirrando em mim”.
          “Vem menino, vamos cuidar disso!” Ao entrar pela porta da cozinha ela dá um passo e pára estupefata diante de tamanha bagunça. Balança a cabeça, não acreditando no que está vendo. “Pedro, como conseguiu fazer tanta sujeita para fritar um ovo?” “Você vai limpar essa bagunça, agora!” Ela vai trocar de roupa, então fico aliviado por não receber um grande castigo, isso, pelo menos, por enquanto.
Ela volta com um tubo de pomada. Passa o creme carinhosamente com a ponta do dedo, puxa devagar espalhando pela pele. Quando termina de cuidar das queimaduras, segue até a parte baixa da pia, ao se abaixar pega algumas coisas que não consigo ver. Então, diz:
“Segure essa esponja pelo lado áspero. Passe o lado liso com um pouco de detergente por cima do fogão. Retire as partes das bocas e acendedores com cuidado. Vá passando a esponja devagar até sair toda gordura”. Ela coloca um pouco de água numa pequena bacia de plástico, vai derramando detergente, em seguida mistura tudo para molhar a esponja, em seguida vai aos poucos passando no azulejo da parede. Depois disso usa um pano seco para retirar a espuma. A minha parte é esfregar por cima do fogão e também nas laterais dele. Faço tudo do meu jeito. Ela olha e reclama: “Faça a limpeza bem feita! Não deixe nenhum pedacinho com gordura”. Sigo... Vou fazendo por etapas. Até a tampa do fogão precisa ser limpa. Depois de tudo desengordurado vem a checagem do olho clínico da mãe. Ela inspeciona, olha tudo nos detalhes. Em pouco tempo já está acenando com a ponta do dedo indicador: “Ali não ficou bom. Limpe de novo aquela parte perto da boca dos fundos!” Depois do seu olhar detalhado e do serviço refeito, vem à aprovação contrariada.
Os acessórios dos acendedores também são retirados e recolocados no lugar. Estão lavados e lustrados com palha de aço. Serviço feito! Agora é só esperar o jantar. Ela dá nova ordem: “Menino, vá tomar banho, e não demore no chuveiro!”. 
          Passa das oito horas da noite, a temperatura é quente no ar parado. Os mosquitinhos da noite voam pra lá e pra cá. Estou sentado na calçada com as costas apoiadas no muro. Dobro os joelhos passando os braços ao redor. Fico nessa posição para olhar a janela do quarto da mãe de Sandrinha. A luz daquele quarto está apagada, vejo a luz da sala acesa com a claridade saindo pelos vãos da porta. A rua está tão vazia nessa noite. Todos enfiados dentro de casa esperando as cenas reveladoras da novela com alto índice de audiência. O fundo do grande beco é um breu que amedronta. Do lado oposto vejo a grande avenida mantendo o movimento de pessoas indo e vindo por ali. Sinto que sou como um estranho, um estranho solitário que observa o mundo. Vejo as estrelas e a lua no canto do céu noturno. Parado observo os minutos passando e nada acontecendo. Nem mesmo um pensamento presente que seja diferente desse desejo enorme de observar Sandrinha aparecendo na janela. 
         O ar da noite tem o cheiro forte dos lírios que florescem nos quintais. 
         Dois focos de luzes despontam na esquina do grande beco. É um carro vindo devagar, logo pára bem diante da minha casa. O motorista é um homem de bigode largo com barba por fazer. Ele pergunta: “Você mora aqui?”. Digo que sim. Ele pergunta de novo: “A sua mãe está em casa?”. Eu só aceno afirmativamente com a cabeça. Ele desliga o carro e desce. O homem é desalinhado, usa terno marrom amarrotado com uma gravata torta. Vejo que na camisa bege falta um botão. O homem esquisito pede para que eu chame a mãe dizendo assim: “Fala pra ela que o Tião está aqui!”. Entro rapidinho cruzando a varanda dos vasos. Abro a porta da sala, dou de cara com ela sentada no sofá vendo o jornal nacional que está quase acabando, ela também espera a novela com ansiedade, quando ela me olha, eu digo: “Mãe, tem um moço chamado Tião te chamando!” Ela ajeita o corpo como se levasse um susto. Parece que despertou de um cochilo, vai assim atender o homem. Vou atrás devagarzinho. Antes de chegar perto do portão ela pára e olha fixamente nos olhos dele. O homem do lado de fora pergunta: “Você arrumou o dinheiro!” Ela diz: “Sim, espere um pouco que vou buscar!” Ela segue para dentro pisando duro. Fico ali parado só observando os acontecimentos. O homem fuma um cigarro sem filtro. Pergunto: “ÔÔÔ Moço, o senhor trabalha com que?” “Sou detetive, menino”. De olhos arregalados eu continuo: “O senhor mata pessoas?” “Não, garoto. Eu investigo pessoas!”.
Então respondo: “Ahhhhh.....”
Ele anda de um lado para outro por cima da velha calçada. Não fala nada, parece que está bem impaciente. Fico quietinho só olhando o jeito dele se segurando no portão. A mãe retorna com passos decididos. Olha novamente fixamente dentro dos olhos dele ao entregar um pacote de dinheiro que ainda está com o elástico vindo do ourives. Ele olha e pergunta: “O combinado está todo aqui?” Ela balança a cabeça com olhar severo nos lábios apertados. “Sim, está!” Ela me afasta para trás de si. Dá outro passo atrás guardando maior distância dele. Retira das costas a velha garrucha que trouxe escondida nos quadris. Aponta diretamente para o rosto do homem dando a ordem: “Nunca mais me procure. Caso eu o veja na minha porta de novo, saiba que não levará dinheiro e sim outra coisa. Está me entendendo?”. “Sim dona, eu entendi. O trato está cumprido. Nunca mais me verá por aqui. Nem precisava me apontar essa arma velha e enferrujada para dizer isso!” Ele dá as costas, entra no carro. Volta de marcha ré até a grande avenida, segue no sentido do centro da cidade. Ela me olha com um ar triste ao mesmo tempo em que entra cabisbaixa em busca do sofá onde se acomoda. Parece abatida. Agora ela chora. “Mãe, o que aquele homem queria com você?” “Nada filho, nada...” Continua chorando e olhando o revolver em cima da mesa de centro. Segura na minha mão me puxando de novo num sopetão, desta vez para junto dela. Vem um abraço forte. Coloca a minha cabeça sobre o lado esquerdo do peito. Nem se dá conta de que ainda sinto o ardor das queimaduras. Soluça um pouco e pára, logo em seguida me solta. Olha direto nos olhos e diz chorosa: “Se algo me acontecer procure dentro da minha agenda o endereço do seu pai. Arrume um jeito e vá até ele, jamais se esqueça disso, entendeu?”. 
O seu rosto ficou completamente triste tomado por olheiras profundas de repente. Ela silencia, pensa... Fica quieta por muitos segundos que parecem minutos. Saio de perto. Percebo que precisa ficar sozinha por um tempo. Volto pela varanda dos vasos. Estou de novo na calçada vou me ajeitando na mesma posição de antes. Agora penso mais naquele homem do que em Sandrinha. Nunca vi esse homem antes. Quem é ele e o que veio buscar? Por quê ela deu tanto dinheiro para ele? Por quê ela me falou para procurar meu pai caso algo acontecesse? Por quê ela ficou tão abalada com a situação? A luz da sala da casa de Sandrinha se apagou. Tudo fica morto no meu pensamento. O vento da noite aparece de repente vindo lá do fundo do beco escuro. A lua vai caindo pelo céu beijando o horizonte distante. Ouço um assovio estranho. Não vejo ninguém enquanto ele se repete.  É Sandrinha no vão da janela. Ela abriu uma pequena parte da janela para dar um aceno. Faz um sinal com as mãos em seguida atira uma pedra enrolada num papel. A pedra passa por cima da cerca de arame farpado caindo no meio da rua. Desenrolo rapidamente. Vou até a varanda dos vasos onde a luz ilumina o suficiente para ler o que está escrito. No bilhete diz: “Oi Pedro, pensei em tudo que conversamos. Já tenho todo o plano elaborado. Preciso que me encontre amanhã perto da sorveteria. De preferência ao meio dia e meia em ponto, pois nesse horário estou retornando da escola, só assim teremos algum tempo para conversar. Vamos executar logo nosso plano antes que o peste apronte de novo com você. Tenho certeza que vai adorar tudo o que planejei. Beijos com carinho. Sandra Regina”.
O velho sorriso volta ao rosto chamuscado. Ele saúda a noite como os pássaros saúdam os primeiros raios de sol. Olhando ao redor sinto a calmaria. Os pensamentos voam para tão longe. Ahhhh... Sandra Regina! Há algo em seus gestos que me agarra pelos cabelos. É como se todo amor que sinto estivesse saindo pelos poros. Há um fenômeno estranho nisso tudo. Uma coisa que ainda não consigo compreender e que é revelada através da intuição. Sinto que estou tão vidrado em seus passos, nessas novas atitudes e gestos que a mente até fica parada no mesmo pensamento. Sinto que estou vivo outra vez, muito pleno e feliz. Mexo na fechadura da porta da sala passando a chave silenciosamente. A mãe já foi dormir. Apago as luzes da varanda e da sala ao mesmo tempo, em seguida sigo para o meu quarto. Deito na cama fria. Deixo que esse milagre entre por completo na mente feliz. Rodo a cabeça para que a luz interior brilhe. O fogo está aceso. Ele é intenso e constante. Agora não tem mais jeito, ele tomou conta de mim sem que eu pudesse dominar. Experimento cada nova sensação enquanto tudo circula assim por dentro. Ela me disse que o nosso plano está elaborado. Finalmente! Agora temos dois planos elaborados. O meu plano e o dela. Só que ela ainda não sabe que eu também tenho um plano. Talvez ela nunca saiba que eu tenha feito um plano. Amanhã tudo será revelado. Nós teremos uma boa conversa, isso com toda a certeza. Será uma conversa que lembrarei para o resto da minha vida porque sei que tudo se encaminhará para um desenlace triunfal. Mesmo que isso possa surpreender até a mim mesmo. Agora se aproxima cada vez mais o momento da decisão. E nesse momento eu finalmente cumprirei as promessas que fiz a mim mesmo diante do velho espelho do banheiro. Empenhei nisso todos os meus esforços com toda criatividade que possuo. Assim irei continuar vivendo dominando o medo, mesmo que uma carga de culpa me acompanhe por um tempo sem fim.
         A natureza é muito ciumenta dos seus mistérios. Quando achamos que conseguimos explicar as coisas, lá vem ela e desnorteia até o intelecto mais sofisticado, por mais espantoso que tudo isso possa parecer. Sendo assim reconheceremos que nunca sabemos nada a respeito de qualquer coisa, e que principalmente as aparências enganam muito. O medo torna as pessoas destemidas, essa é uma grande verdade. O mundo está cheio de animais ferozes espreitando pessoas sem qualquer noção do perigo. Esse é o meu mundo, estou aqui totalmente indefeso diante das feras. Tenho certeza que o meu medo é o que alimenta a minha coragem.
       Nasce o último dia da suspensão escolar. São novamente oito horas da manhã. outra vez o calor do sol está como se fosse do meio dia. Caminhando em direção ao banheiro vejo a mãe tentando enfiar o vestido por cima da cabeça. Ela usa uma calcinha bege enorme, porém bem ajustada ao corpo. Os seus contornos são mostrados em detalhes bem desenhados pela natureza. O sutiã branco tem um enchimento de espuma por dentro. Ela nunca se inibiu ao me mostrar o corpo com naturalidade.
    O vestido enrosca nos cabelos. Puxa daqui e puxa dali, com grande dificuldade escorrega pelo corpo. Fica apertado na cintura, logo se ajusta nos ombros quando finalmente fica no caimento perfeito por inteiro. Fica tão ajustado que quase arrebenta a costura lateral. É realmente um lindo vestido vermelho. Ela então procura uma bolsa grande onde deixou os documentos, em seguida escolhe o par de sapatos mais bonito. Aos poucos vai encaixando seus anéis em três dedos da mão direita, na outra mão um anel com coroa de pedras coloridas. Leva delicadamente o revolver velho para dentro da bolsa prateada. Ajeita os cabelos jogando para frente e para trás. Olha no espelho para empurrar um punhado de cabelo para o  lado direito, deixando assim a lateral do rosto descoberta. Coloca uma presilha e diz: “Filho, vou até a delegacia. Quer vir comigo?” “Mãe, posso levar Cachimba?” “Ai filho. Eu acho que em repartição pública não deixam entrar com animal”. “Mãe, eu levo a menina no colo”. “Ta bom filho, leva. Mas se não puder entrar você fica me esperando do lado de fora”. Depois de tomar o café da manhã visto a roupa que está mais fácil de pegar, é a mesma de ontem. Cachimba está toda esticada na sombra que bate bem ao lado da casinha improvisada. Seguro a menina no colo para irmos todos para a grande avenida. O ônibus demora a chegar. Quando aponta lá longe vem levantando a poeira. A mãe fica brava porque o pó marrom vai estragar a sua maquiagem. Muita terra fina voa para cima dos caminhantes da beira da estrada que vão a pé para cidade. Subimos no coletivo pela porta detrás. Uma densa nuvem de poeira chega depois do ônibus. Ainda bem que o motorista nem reparou que carrego um animalzinho, era perigoso ele me mandar descer. O trajeto curto é feito em menos de quinze minutos. Descemos na praça que fica em frente à rodoviária. A delegacia é na rua paralela. Levo a menina o tempo todo junto de mim. Ela vai com as patas dianteiras sobre meu ombro esquerdo. Olha quem vem e quem vai. De vez em quando vira a cabeça passando o focinho no meu pescoço. Seguimos pelo calçadão até a rua paralela, encontramos pelo caminho várias lojinhas de artigos femininos, variedades, calçados, e na seqüência dois botecos, um bem de esquina. Chegamos à porta da delegacia onde não há ninguém à vista. Ela segura no puxador redondo da porta de vidro para empurrar. Estamos diante de um grande hall vazio. Na nossa frente um corredor com três portas de cada lado. Tem uma no fundo bem de frente, é a única aberta. Barulho de pessoas conversando e som de máquina de escrever que não identificamos de onde vem. No vão entre cada porta existem dois bancos de madeira bem compridos que estão dispostos com quatro lugares cada um. Ficam encostados na parede do lado direito. A mãe chega até a porta de uma das salas, eu vou timidamente ao seu lado. Avisto uma mesa pequena no meio dessa sala onde atrás dela um homem de cabelos grisalhos bate furiosamente com um dedo de cada mão nas teclas da máquina de escrever. Ele parece muito concentrado no trabalho. Ao fundo dessa sala tem outra mesa. Ali está sentado um homem bem mais jovem que o primeiro. Quando nos vê parados na porta, esse homem se levanta saindo detrás da mesa. Chama a mãe pelo nome: “Olá Dona Maria José, finalmente voltou para acertarmos as pendências do caso em aberto”. “Sim doutor, vamos conversar a respeito”. Ele olha demoradamente para a mãe, medindo o seu corpo de cima até embaixo. Ele pede: “Vamos até a minha sala do outro lado do corredor!” Ele me dirige um sorrindo passando a mão levemente na cabeça de Cachimba. Ele usa um terno cinza bem bonito, mas mantém o paletó aberto. A sua mesa está bem arrumada e limpa. Em cima dessa mesa tem uma placa comprida em formato triangular. Tem o seu nome escrito em letras de fôrma douradas. “Luís Fortunato Ramos. Delegado titular”.
“Dona Maria José o homem em quem a senhora atirou está bem recuperado. Sorte dele o tiro ter sido de raspão. Ele já nos deu algum trabalho no passado dormindo várias vezes no xilindró para curar a bebedeira. Temos duas situações aqui. A primeira é que ele invadiu o quintal e a senhora se defendeu. Muito bem! É um direito legítimo se defender de um invasor, já que não sabemos quais seriam suas intenções ao adentrar ali. No entanto, temos o problema da arma. Gostaria que me apresentasse o registro da mesma. Em caso negativo peço que me apresente a arma, pois ela ficará confiscada até que a senhora providencie o porte devido. Alguma dúvida até aqui, senhora?” A mãe balança a cabeça ao falar baixinho: “Não senhor, pode continuar”. “Então... Achei melhor arquivar as informações até o momento, para assim não acusá-la de nada sobre o ocorrido. Bem... temos alguns outros problemas que são bem mais graves que este e que precisamos resolver hoje”. Ela, então, se mexe na cadeira, parece surpreendida diante da afirmação do delegado: “Como assim doutor?” Ele abre a gaveta retirando um calhamaço de papelada. Começa a relatar o que tem escrito nas folhas brancas: No dia que esteve aqui registrando o ocorrido em sua casa, todos os seus dados pessoais ficaram na ficha do boletim de ocorrência. Esses dados foram para nossa central na capital.”. - Ele faz uma pequena pausa e prossegue em clima de suspense –“ Ontem recebi, via telex, algumas respostas. Constatei que de acordo com os números dos seus documentos a senhora é procurada por roubo e seqüestro. A sua ficha criminal está bem detalhada. Vou citar alguns pontos: Duas mulheres - ex-patroas da senhora lá da capital - registraram queixa por subtração de jóias e outros objetos de valor. Inclusive uma delas, segundo informações de um colega delegado que pegou o caso, colocou um detetive particular com o intuito de encontra-la e recuperar as tais jóias. Não sei se esse detetive já entrou em contato com senhora ou não, no entanto, vou lhe dar um aviso: caso ele ainda não a tenha encontrado com certeza a encontrará. Esse homem é pessoa perigosa e chantagista. É um velho conhecido nos meios policiais do estado por sua crueldade. Quanto ao seqüestro: É uma queixa registrada pelo pai do menino. Esse pai relata que a senhora levou o menor de idade para distante dele. Afirma que a senhora acabou mudando de cidade sem avisar.”. Ele pára de falar enquanto Cachimba se mexe no meu colo. A mãe abaixa a cabeça ensaiando um choro. Ela chega a derramar algumas lágrimas. Eu sinto que o mundo dela está se destroçando aos poucos. “Ela é uma ladra! Alguém procurada pela polícia”. Fico com os olhos vidrados olhando fixamente na mesma direção. Não enxergo nada diante de mim. Sempre aconteceram coisas em minha mente, mas agora não consigo imaginar aonde esse destino vai nos levar.
               O delegado continua: “A senhora tem algum dinheiro que possa dispor para tentarmos chegar a um ponto de interesse mútuo?” Ela balança a cabeça negativamente enquanto continua olhando para o chão. Ele então sugere outra situação: “Peça para seu filho esperar lá fora”.  A mãe pede: “Filho, fique lá fora um pouco que o doutor quer conversar com a mamãe em particular!” Saio devagar, Cachimba está agitada no colo e impaciente. Deito no banco de madeira para esperar a mãe. Ouço o barulho da porta sendo trancada por dentro. Minutos de silencio. Coloco a menina em cima de mim. Barulhos estranhos vêm de dentro daquela sala do delegado. Ouço o arrasto de móveis pelo piso. Gemidos contidos. Ruídos estranhos vindos de lá. Mas Depois de algum tempo o silencio total.
          Ouço o som da porta sendo destrancada, a mãe sai porta afora ajustando o vestido. o cabelo está praticamente todo desarrumado. O delegado sai atrás ordenando: “Dona Maria José, volte aqui amanhã nesse mesmo horário para darmos continuidade no acordo que firmamos hoje”. Ela está visivelmente constrangida, totalmente contrariada diante da cena. Nós vamos embora em silencio. Ela não diz uma só palavra enquanto caminhamos rapidamente. Chegando à praça da rodoviária; por sorte o ônibus está parado no ponto. Subimos, sentamos um ao lado do outro em silencio. Ela permanece em silencio mortal. Digo: “Mãe vou descer dois pontos antes, quero passar na sorveteria”.
    Ela apenas dá um balanço tímido de cabeça, parece que está em outro planeta. Fica permanentemente estática nessa posição pensativa. O ônibus passa diante da igreja de Santo Antonio, o velho relógio marca meio dia e quinze. “Tchau mãe!” “Tchau, Pedro.”. Finalmente ela diz algo com a voz insegura e meio chorosa. Desço no ponto certo, atravesso a rua para esperar Sandrinha na porta da sorveteria. O meu grande momento se aproxima. Pela primeira vez vou encontrar uma menina para fazer algo grandioso. “Sandrinha chega logo!” Arrumo um canto para sentar bem na porta da sorveteria, na beirada da calçada. Os minutos passam tão devagar quando esperamos alguém. Ouço o sino da igreja badalar uma vez, já é meio dia e   meia. A ansiedade cresce, as mãos vão ficando suadas. Cachimba está com a língua de fora, parece com sede. Peço um pouco de água na sorveteria. Bebo metade, coloco o restante na palma de mão em concha para a menina. Os minutos passaram já é meio dia e quarenta e cinco. Onde estará Sandrinha? O sino da igreja dá mais uma badalada. Uma hora da tarde. Minha espera termina. Sigo o caminho da grande avenida de chão bruto indo para casa muito tristonho. Mais uma grande decepção nesse dia horroroso. Cachimba está inquieta, coloco a menina no chão e ela vem seguindo cheirando a terra. O que teria acontecido com Sandrinha? Sinto que a última esperança está se acabando. Chego devagar pelo corredor lateral, a porta da cozinha está aberta, a mãe permanece sentada imóvel no seu banquinho de madeira preferido. Ela nem teve animo para tirar o vestido vermelho. Fuma pensativamente. Olha para mim e diz: “Filho, que bom que você chegou logo. Tomei uma decisão que vai mexer com nossas vidas. Estava esperando que chegasse para avisar que vamos mudar daqui o quanto antes. Vamos voltar para a capital”.
       Olho para ela fixamente por alguns instantes. O cigarro que ela fuma já está pela metade enquanto examina o teto com o olhar passando os olhos lado a lado pelos cantos da casa. Sigo com Cachimba para meu quarto, deito na cama para pensar em tudo o que aconteceu e tudo o que virá pela frente. Os meus pensamentos fogem enquanto a minha imaginação morre no leito de delírios infinitos. Uma coisa eu sei: só me restou Cachimba para trazer algum conforto.
               Esse é o grande momento para restabelecer laços perdidos com o tempo. Uma oportunidade para aumentar a visão e ampliar a consciência para a realidade. A abertura do horizonte está distante.    Continuo vivendo no meu mundo de fantasia e credulidade. Alguns poderiam não suportar tão intensa pressão vinda de cima; esmagando os pensamentos. O tempo irá permitir secretamente que tudo tome o seu devido lugar no espaço e na hora justa. Nesse momento, a vida irá transcorrer de acordo com o livre processo de atração que todos nós estamos sujeitos enquanto estamos vivos. Continuarei atraindo coisas para mim através dos pensamentos, seja o bem ou o mal; quanto mais paz na consciência eu tiver mais recompensado serei. Tenho uma escolha: eliminar uma causa. Poderia chamar isso de acidente, mas sei que acidentes não acontecem por acaso, pois o pensamento rege a vida. Quanto mais sólido me torno por dentro mais substanciais parecem os fatos, a realidade não é palpável, foi um dia nos meus sonhos loucos. Ela é agora apenas um mero espectro delicado e extravagante para fora do qual estou sendo empurrado. Cada vez que passa uma fração de segundo diante dos meus olhos emudeço meus pensamentos. Tudo está sendo filtrado, inflado, traçado e elaborado. Todos os pensamentos se voltam para um estado de tensão nunca antes presente na mente fértil. Finalmente tudo está em um momento crítico e absolutamente fantástico. São emoções novas, pensamentos firmes sobre o mesmo tema. Esse é o meu último momento, não tenho mais o poder de alterar as coisas. Perco completamente a ilusão por crer em quem não merece confiança. O mundo desdobra-se em vários caminhos, com todos os dramas e conflitos ficando equilibrados em um meridiano que não tem eixo. Sinto que tudo será justificado, plenamente justificado no meu juízo de valor. Todas as minhas guerras interiores estão fervendo, prontas para emergirem em um estado maligno de ebulição. Vejo no futuro a miséria e as manchetes de jornais com letras garrafais. A qualquer instante posso estar frente a frente com o absoluto e monstruoso momento do sentimento mais vil. Quero muito plantar rosas sobre um monte de esterco. Por uma razão ou outra procurarei o milagre e para que ele se realize preciso chafurdar-me em ódio e talvez em sangue. O sangue que corre dos olhos junto com as lágrimas de decepção. Todas as idéias estão corrompidas, reduzidas a uma sombra hedionda de frustração e medo. Quando fechei meus olhos nessa cama, a minha realidade se apagou; toda crença interior surgiu de algo que acontecerá. Esse é um pensamento que flutua dentro da cabeça, indo e voltando, perturbando a normalidade. Não há mão que possa alcançá-lo, não há nada naturalmente inteligível que possa pará-lo agora. Se Sandrinha aparecer de repente e sem aviso em meus pensamentos, tornar-me-ei um cego. Isso; imagino eu, seria a mais bela forma de exprimir o meu desagrado por sua desfeita. Diante disso sigo no meu pensamento, o pensamento do sono vespertino frustrado. Onde qualquer um poderia participar e sugerir mil possibilidades para esse desencontro fatal. Mas ninguém jamais imaginou e jamais imaginará o quão louco e incerto podem ser os julgamentos definitivos, o quão incerta pode ser a imagem que fazemos daqueles que nos são próximos e queridos. O quanto custa ficar intacto diante de tantas ilusões em ruínas. Mesmo que agora Sandrinha seja a menina mais brilhante e encantadora do mundo, nada fará diferença nas minhas decisões. Eu não sei atirar, mas posso fingir que sei. E fingir é algo que está faltando para que eu possa alcançar outros lugares e outras verdades. A verdade que rasga o coração, que extirpa a alma, que humilha o sentimento. A verdade que coroa o êxito da realização. Lembrando de  todas aquelas coisas que foram pressentidas, não percebidas e não atendidas. Reconheço o meu maior castigo pela falta de sensibilidade na emissão dos sinais do universo. Daquilo que chamo de intuição. Todas essas imagens que passaram na minha mente estão mortas. E o que me deixa mais desesperado é a sensação do impossível acontecendo. Para que tudo se torne “possível” é necessária a busca de indícios. Meu universo está se expandindo muito depressa, tão rápido que poderá estourar. E se isso acontecer só sobrará cacos e restos mortos. Se tivesse seguido os sinais e soubesse que seria assim jamais teria saído de casa nesse dia. 
      Acorda Pedro, venha almoçar! Uma hora se passou desde que deitei ao lado da minha menina meiga. Ela ainda dorme quieta. Água jogada na cara na pia do banheiro que têm manchas amarelas nos cantos. São manchas parecidas com ferrugem que nunca descolam. Sigo para cozinha onde a mesa está posta. “Filho; já almocei. Vou até o posto telefônico no centro da cidade, preciso dar alguns telefonemas para pessoas da capital. Estou saindo, volto daqui duas horas. Cuida da casa”. Ela mudou o seu jeito, o rosto mudou. Olho o prato, mas estou sem fome, desanimado e sem inspiração. Cachimba aparece abanando o rabinho. Pego a vasilha da menina para colocar toda a minha comida ali. A vasilha fica pesada. Chamo a moça para o quintal, quando ela sente o cheiro pula nas minhas pernas. Coloco a vasilha no chão, olho enquanto ela come e lambe as beiradas. No meu céu não tem mais aquelas nuvens em formato de flocos de algodão doce. Pego a minha meiga menina no colo para irmos passear pelo pasto que acaba no barranco do rio. O mesmo velho e bom caminho que já conhecemos tão bem. O único trecho que nos dá liberdade para sermos felizes sem preocupações. O ar puro refresca inspirando muitos movimentos. As plantas despontam na terra úmida do cenário verde, os botões de flores aparecem nas árvores pequenas. Todo esse reino vegetal foi fertilizado por bois, vacas, cavalos e cabras que já pastaram aqui. O chão armazenou toda a energia necessária para a vida continuar. Nós estamos sentindo a força dessa natureza com o impulso da luz criativa e vital que nos alimenta todo dia. Sentimos dentro de nós a sensação de recomeço em algum lugar desconhecido. A natureza pinta o seu quadro criativo com todo esplendor e bom gosto. Em cada caminhada nesse ambiente sentimos que estamos preparados para dar os primeiros passos em uma longa jornada. Diante de nós só existe o pasto, um celeiro de vida abundante e subterrânea.
      O terreno de grama e arbustos tem desenho irregular. Hoje não tem animais pastando aqui. Estamos totalmente livres no grande campo aberto que margeia por quilômetros o canal escavado pela natureza. Existem depressões que parecem verdadeiros esconderijos; trechos de altos e baixos acompanhando toda a beirada desenhada por pedras cinzas carecas. Algumas dessas pedras são grandes e altas, outras rasteiras e encravadas no chão. O rio faz a curva lá no final do pasto. No meio da curva duas praias pequenas. Uma praia de cada lado da margem que são  forradas pela areia molhada. Na praia do lado oposto tem uma pedra enorme no formato curvo para o lado do céu. Durante o dia ou no fim da tarde os casais descem pelo morro da outra margem se escondendo ali para namorar. O lugar onde estou é um belo mirante para aquele ninho incrustado na pedra grande. Desse lado já vi muitas intimidades nos movimentos secretos dos casais apaixonados. Cachimba está agitada por correr tanto pelo pasto. Ela nunca se cansa de ir atrás dos pássaros que pousam por um instante no tapete verde natural. Busco um lugar na depressão do terreno onde possa me sentar e observar o movimento do outro lado. Quero olhar o céu azul em movimento, quero ver o sol caindo para oeste. Olhando o céu tento incorporar a essência do universo com todas as forças invisíveis que pairam no ar. O meu olhar foge do céu por um instante. Noto que estou ficando fora do meu juízo, pois há algo diferente que parece arrastar a minha atenção para a margem oposta. O morro deserto tem uma trilha feita no meio do mato, é uma picada que desce até a praia. Ao girar o meu olhar naquela direção não saberia dizer se o que vejo é um fenômeno mórbido, um sonho ruim ou uma alucinação. Estou atordoado. Não creio nisso, por tudo de mais sagrado que existe nesse mundo, não pode ser verdade. Queria ser cego e indiferente nesse momento. A vista linda desse rio, do pasto, do céu, das folhagens rasteiras e das pedras exuberantes, tudo se perdendo quando girei a minha visão. Esse é o momento definitivo em que todas as coisas se transformam em caos. O caos da mentira revelada, o caos da mente violentada e mutilada pela constatação da traição. A terra gira indo para algum lugar. Nunca parei para refletir que seria esse o destino inevitável reservado para mim. O meu destino está igual a um túmulo profanado. Todas as coisas bonitas que estavam vivas dentro de mim estão se transformando num grande caos. O meu túmulo é a única certeza que conheço, pois todas as outras coisas me surpreendem nesse instante de uma forma insana. Todas as certezas vindas das promessas do ser humano se tornam escombros aos meus pés. Agora sim estou verdadeiramente sozinho e solitário para construir o meu destino. A minha linguagem secreta continuará sendo exclusivamente minha.
     Vejo descendo nitidamente pela lateral do morro um casal de namorados. Eles vêm chegando cada vez mais perto da margem do rio. Quanto mais eles descem mais a visão se aproxima. É Jorginho Espoleta com Sandrinha. Ele desce na frente e vai segurando na mão dela para dar apoio na descida. Ela veste a saia azul marinho da escola com a mesma camisa branca. Eles chegam até a praia. Param olhando desconfiados para todos os lados. Abaixo a cabeça para não ser visto. Eles entram no esconderijo da grande pedra côncava. Vejo os vultos em movimento. Jorginho sai do esconderijo em busca de várias folhas grandes caídas na beira do barranco. Carrega tudo jogando dentro do buraco onde está Sandrinha. Faz por duas vezes. Ali eles se deitam. Ele se joga por cima dela. Vejo as pontas dos pés dele fincadas no chão. Ele às vezes estica as pernas com força. A sinfonia da tristeza toma conta do meu pensamento. São como longas notas musicais de um piano solitário ecoando por dentro. Nada mais resta em mim de tudo o que fui até esse momento. Sou tomado por uma sensação de estupidez. Estou como se tivesse perdido tudo nessa vida. Uma tristeza desintegra o pensamento. O meu rosto fica com a expressão vazia na imaginação revoltada. A minha tristeza vira pura desilusão. A esperança acaba de ser extinta. Levanto devagar, vou quase caindo. Pego a minha menina fiel no colo para voltarmos pelo grande pasto. Os sonhos vão ficando para trás. Subo a escada escavada no morro, ando pela rua vendo tudo e não vendo nada. Entro pelo corredor lateral, prendo cachimba na corrente. O melhor aconchego para ela agora é seu próprio ninho. Sigo até o banheiro do quintal. O frasco de ácido continua no mesmo lugar que escondi. Dentro da velha lata de tinta tem luvas usadas de borracha. Preciso de um frasco pequeno. Busco no quarto da mãe. Encontro um frasquinho de perfume vazio. Retornando ao banheiro dos fundos coloco as velhas luvas de borracha e abro com cuidado o frasco de ácido. O cheiro é tão forte que quase me deixa tonto. Vou passando o liquido devagar para o novo frasco, sem derramar. Guardo tudo no mesmo lugar coberto com panos velhos e sujos por tinta ressecada. Vou até a varanda dos vasos. É onde as plantam respiram a corrente de ar se alimentando da luz que castiga as folhas que nascem na ponta de cada rama. Estou no buraco negro do nada aguardando pacientemente, sentado no chão frio, Sandrinha retornar. O pensamento corre rapidamente sem rumo por imagens falsas. Muitos minutos se passam assim. Vou para cima do muro. Estou sentando com as pernas balançado para o lado de fora. Olho para o final do beco com uma insistência impaciente. Da grande avenida surge Sandrinha, ela caminha sozinha. Ao se aproximar diz:“Oi Pedro! Por quê olha tanto lá no final do beco?”

“Ahhh Sandrinha, estava só olhando o céu. Estou muito chateado com você. Eu esperei conforme havíamos combinado. Fiquei até uma hora da tarde na porta da sorveteria”.

“Pedro. Por favor, me desculpe. A minha mãe teve um problema com a gravidez. O médico disse que é um momento delicado, talvez de alto risco. Eu tive que acompanha-la às pressas até a santa casa. Estou tão cansada. Só agora consegui retornar de lá. Também estou triste com tudo isso”.

“Puxa vida Sandrinha, não sabia que tinha sido algo tão grave. Juro que  pensei que tivesse desistido do que combinamos”.

“Não Pedro! Jamais! Inclusive pensei uma coisa bem legal.  Mas antes vou te pedir uma prova de confiança. Quero que me entregue o frasco com ácido. Preciso ter certeza que não fará nenhuma besteira. Sabe o quanto me preocupo com você, não é mesmo? Eu me encarrego de jogar tudo fora. Se você me entregar agora, aproveito para contar todo o plano que elaborei pra gente dar uma lição naquele peste do Jorginho. Você não imagina o quanto eu odeio esse menino. Odeio tanto que nem consigo falar o nome dele direito".

“Sim Sandrinha, eu farei do jeito que você está pedindo. Mas me diga uma coisa: Por quê os seus olhos estão mais brilhantes hoje? Aconteceu algo diferente? Afinal você acabou de me dizer que está triste por causa da sua mãe”.

“Não, nada me aconteceu. É impressão sua. Os meus olhos sempre foram assim brilhantes”.

“Sandrinha, posso mesmo confiar em você?”

“Sim Pedro, sou sua amiga, nunca se esqueça disso”.

“Tá bom. Vou lá dentro buscar o vidro com ácido. Colocarei o frasco em um saco para você carregar com segurança. Já volto”.

“Aqui está o veneno, Sandrinha! Tome muito cuidado com isso. Você vai jogar fora agora?”

“Claro Pedro, vou sim. Vou jogar dentro de um buraco que tem no fundo do meu quintal. Preciso ir. Vou entrar em casa agora, mais tarde a gente conversa sobre o plano. Por quê você está tão triste? A cachorra ficou doente?”.

“Nada não Sandrinha. Cachimba está bem. Estou assim porque a minha mãe brigou comigo”.

“No final da tarde irei à padaria comprar pão, quero que me espere na esquina para seguirmos conversando sobre os planos, pode ser?”.

“Sim Sandrinha. Ficarei de olho quando você sair. Depois que você dobrar a esquina diminua o passo para que eu possa alcança-la”.

Ela se vira e segue com o frasco. E eu retorno aos meus pensamentos do plano B.


Continua. Próxima publicação dia 02 de maio.

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