Cachimba Reeditado Parte 6


   Outra vez diante do velho espelho os cabelos são puxados para trás. Um bocado de pomada em cada ferida deixa a cara toda lambuzada. No fundo dessa imagem não há mais o horizonte infinito. Existe apenas uma porta de maldade aberta para um tipo de mundo que nunca foi meu. O antigo mundo que era de fábula acabou. Agora ando livre tentando desvendar coisas estranhas que tomam conta do meu pensamento. Eu tenho certeza que Cachimba sente como eu sinto. Sei que respira no mesmo ritmo que eu, mesmo que esse ritmo seja acelerado e louco. Percebo o quanto ela conversa comigo através do olhar piedoso. Ela sabe que tenho diante de mim paisagens ilimitadas. Ela reconhece os meus pensamentos voando pelo vazio e novamente refletindo nesse espelho desgastado pelo tempo. Ela percebe os gestos das mãos se movimentando numa dança louca. Ahhh... Como ela sabe bem o quanto converso sozinho! Sabe sim! E que nesses momentos de loucura concordo discordando de mim mesmo. Diante do velho espelho não vejo os animais no pasto, nem o céu azul do alvorecer. Onde foi parar aquela estrada colorida que se quebrava em ondas até o horizonte? Cadê as estrelas que pontuam o anoitecer? Não vejo sequer uma folha de grama ou raiz morta. Persiste apenas uma imagem disforme à frente onde não pode mais prevalecer o desespero que me come por dentro. Virei um alquimista, um Ser transformador que deforma a alma. Sou o dono do líquido que se fundirá na pele de alguém, modificando completamente os formatos naturais. Depois disso não haverá mais aflição na alma e nem dores no corpo. Não haverá temores em mim. O êxtase da consciência predominará para sempre aqui dentro, mesmo que eu me sinta isolado ou jogado em um canto qualquer de um reformatório. Sei que serei visto como alguém que é diferente de um jeito ruim.
Estou me tornando uma grande caixa de espelhos que reflete todas as imagens de Sandrinha.  Depois desse dia olharei a vida que ficou para trás, mesmo que não compreenda tudo o que se foi, ainda assim sentirei orgulho. Quando passo pela rua segurando minha meiga menina nos braços, noto que as pessoas me consideram um tipo meio maluco. Fazem sinais furtivos nas minhas costas ou, às vezes, sem desfaçatez, na minha frente, isso como seu eu fosse um retardado que não entendesse o que significam os sinais. Então, lembrando de tudo novamente diante do espelho, eu vôo. Só porque voar é a coisa mais fácil do mundo. Eu vôo com o outro corpo, o meu corpo celestial. Vou deixando esquecidas todas as lembranças que machucam. Quando me detenho nesse momento para refletir, acabo sempre me perguntando por que vôo dessa maneira? Por quê o meu outro corpo ficou lá no piso frio do banheiro molhado? Seria aquele o meu “eu” integral? Eu vôo com a luz do dia porque preciso de um caminho iluminado. Há alguma coisa estranha nesses vôos. Talvez seja essa a razão dos meus devaneios noturnos não ocorrerem mais. Uma voz maluca soa na cabeça, mas não responde o que preciso ouvir. Ordena quietude. Orienta os sentidos sussurrando baixinho: “Siga seus passos, menino!” Ela mostra esse caminho e silencia no final.
A frigideira, com uma quantidade generosa de óleo de soja, está sobre a chama do velho fogão Dako. Na boca do fundo a panela de arroz vai sendo aquecida, isso bem ao lado da panela de feijão. O óleo chega na temperatura certa para fritura. Quebro o ovo na beirada da frigideira. Parte da clara se espalha por cima da superfície esmaltada. Putzgrila! Sou um desastre na cozinha! Quebro outro ovo, desta vez consigo jogar sem cair nadinha para o lado de fora da frigideira. O arroz gruda no fundo da panela, novamente esqueci de colocar um pouco de água. O feijão ferve e borbulha. Depois de colocar toda comida no prato, retorno com a frigideira para cima do fogo alto. Encho um copo com água da torneira, enfio os dedos e espirro em cima da frigideira quente. O óleo se espalha pela tampa do fogão. Respinga no chão e sobe alcançando a janela de vidro. Deixo tudo assim: sujo. Essa será a justificativa para as queimaduras. Se eu contar para a mãe que apanhei na rua, nem imagino qual o castigo ela vai me dar. O almoço segue, separo uma parte da minha comida para Cachimba. Coloco sua bacia bem pertinho da mesa. Essa menina está sempre faminta, tanto que até lambe o fundo até que não reste nada. E depois de engolir tudo de qualquer jeito, fica com o olhar pidão de quero mais. Digo: “Não tem menina!”. Terminado o almoço, jogo o que está sujo dentro da pia. A bacia da menina meiga volta para a porta da casinha improvisada.
        A minha mãe odeia bagunça. Tudo deve estar limpo e organizado. Sempre tem a preocupação de deixar a comida pronta. A roupa sempre está arrumada dentro do guarda roupa. Mesmo com a jornada dupla de trabalho ela não abre mão da arrumação do nosso cantinho. O trabalho da noite dentro de casa nunca tem hora para acabar. Muitas vezes quando vou dormir ainda ouço o barulho da água correndo no tanque. Ela deixa toda roupa de molho e estende no varal quando está saindo para a casa de dona Marília, isso antes do dia amanhecer. E com certeza quando o meu relógio desperta sempre encontro um bilhete em cima da mesa dizendo: “Filho, retire a roupa do varal antes de sair para escola porque pode chover. Te amo!” Seus passos leves marcam o terreno, o olhar apurado sempre confere se todas as coisas estão no lugar. Os seus movimentos são sempre os mesmos e na mesma seqüência. Não há um só dia que ela não me diga assim: “Quando você for morar sozinho a sua casa será uma bagunça e a sua cama um chiqueiro!” Então, nessa hora eu sempre sorrio de canto escondendo o rosto, dou uns passos e sumo de mansinho.
        Quando abro o seu guarda-roupa vejo na porta os cintos pendurados. Calças compridas, saias e vestidos bem acondicionados em cabides. Pijamas, casacos e blusas em outra divisão. Na parte de cima existe uma prateleira grande onde ficam as bolsas de um lado e do outro as roupas de cama. Bem no canto tem uns livros empilhados. As blusas ficam bem dobradinhas em pilhas divididas por cores e preferência de uso. Acompanham o mesmo formato e tamanho no acondicionamento. As preferidas da minha mãe ficam sempre por cima. Na outra porta tem o local onde ela guarda sutiãs dobrados com as respectivas calcinhas dentro deles. Tudo estrategicamente facilitado para a hora de se vestir. Os sapatos ficam empilhadinhos. Ocupam menos espaço assim, dando uma melhor visualização na hora de combinar as cores da roupa com o calçado. Em outra porta, feita pelo lado de dentro, ficam os lenços, cachecóis e cintos menos usados. O meu guarda-roupa não é assim, nem passa perto. Nunca encontro nada dentro dele. Acho que a minha mãe tem razão quando diz que preciso melhorar.
       Bom... Já passa do meio dia, vou descansar com Cachimba na varanda dos vasos. Arrasto o sofázinho de um só lugar, levo até embaixo da sombra das samambaias. Estou bem de frente observando a casa de Sandrinha. Janelas e portas fechadas, nenhum movimento à vista.
       Cachimba se acomoda no meu colo. Ela olha o céu e abaixa a cabeça como se estivesse com sono. A turma da escola está voltando pra casa. Sandrinha aparece e nem me vê aqui. Ela avança pelo portão de sua casa, em seguida tenta abrir a porta. Dá uns solavancos e pára. Vai até a lateral da construção, dá uma olhada e faz meia-volta. Sai pelo portão olhando para os dois lados do beco. Fica parada por um instante. Continuo aqui sentado sem que ela me veja. Decido chamar o seu nome. No mesmo instante ela me olha com ar de curiosidade e preocupação. Ela veste uma saia azul marinho que bate no joelho. Está com uma camisa branca bem justinha no corpo. De longe dá para ver a marca do sutiã. Ela cruza a rua vindo ao meu encontro. Pára diante do portãozinho branco sem dizer nada. Eu digo que para entrar é só puxar o trinco. Enquanto se aproxima o cheiro do perfume de alfazema vai ficando mais forte. Ela sorri e pergunta se Cachimba está bem. Respondo que sim, graças a Deus. Comento que retirei todos os carrapatos da menina. Levanto da poltrona oferecendo o lugar para Sandrinha. Ela agradece a gentileza dizendo que prefere ficar de pé. Digo para esperar um momento que vou buscar uma coisa na cozinha. Deixo Cachimba no chão. Sandrinha se abaixa e acaricia calmamente a minha menina que sempre aceita os carinhos dela. Corro de volta trazendo uma cadeira.  Dessa vez ela se acomoda. Pego Cachimba no colo de novo. Ficamos os três vendo o tempo passar. Então pergunto: “Não tem ninguém na sua casa?”.
   Ela diz: “Minha mãe foi na santa casa fazer pré-natal. Ela está grávida de três meses. Estou estranhando, ela já deveria ter voltado”.
      Ela continua:  “Nossa! O que foi isso em seu rosto?”.
          Respiro fundo e penso se devo contar o que aconteceu.
      Ela insiste: “Você se queimou como?”. – Diz meio indignada -
      Falo timidamente:   “Foi o Jorginho que chutou uma lata com fogo na minha cara”.
          Ela fica de olhos arregalados: “Aquele covarde te machucou de novo! Você já contou pra alguém o que aconteceu?”.
Respondo: “Não tenho para quem contar”.
          Sandrinha olha fixamente. Observa os vários ferimentos no meu rosto vermelho.
          Ela pergunta: “O que você pretende fazer?”.
          Digo: “Vou me vingar dele!”.
                     “Que tipo de vingança? Por acaso vai bater nele? Você sabe que não conseguirá. Ele é maior e mais forte que você”.
            Fico pensativo enquanto ela me olha com aquele ar de interrogação.
           Resolvo abrir o jogo: “Vou te contar algo que não pode revelar pra ninguém. Você jura que vai guardar segredo?”.
            Ela acena com a cabeça em sinal afirmativo.
           Vou contando com riqueza de detalhes todo o plano. Explico como será a abordagem, a estratégia de ataque e finalização do ato. Depois de ouvir tudo em silencio, ela simplesmente abaixa a cabeça por um minuto enquanto permanece pensativa. Parece que ficou triste e preocupada de repente.
             Então desata a falar: Pedro, não é certo o que vai fazer. Ele não merece um castigo tão severo assim. Se por acaso for pego vão te levar para a polícia. A coitada da sua mãe ficará muito triste com você. Eu com certeza ficarei triste em saber que foi para o reformatório de menores. E o que será de Cachimba? Terei que cuidar dela até você completar dezoito anos e voltar? Minha mãe não vai deixar. Ela não gosta de bichos. Sei que você sente dores, mas a dor do arrependimento é bem pior que a dor física. Daqui alguns anos você vai se arrepender do que fez. Não faça isso! Pense no seu futuro. Todos nós carregamos uma dose de medo. Eu, por exemplo, tenho medo da minha mãe porque ela é muito severa. Também tenho medo de ficar velha, feia e ninguém me querer. Tenho muito medo de passar dos trinta e não casar. Até medo de lobisomem eu tenho. Sei que talvez não entenda nada do que isso significa, afinal você é homem e os homens são assim mesmo, meio desligados. A vida de menina é sempre mais difícil. Olha... Vou dar uma sugestão. Espero sinceramente que pense sobre isso. Ok, moço?
        Sabe de uma coisa? Eu detesto o Jorginho por tudo que ele já me fez na escola durante todos esses anos que estudamos junto. E isso já tem mais de cinco longos anos. Eu conheço bem aquele peste. Apesar de saber que ele até merece ser castigado não posso aprovar tudo isso. Você está exagerando na dose. Eu prometo que pensarei em algo para fazermos contra ele. Mas isso só poderá ser feito se você desistir desse plano maluco. Quero que me entregue o frasco com ácido. Eu me encarregarei de jogar fora. Pense apenas que juntos seremos sempre fortes.
     Ela pára por um instante para respirar, pensa e diz mais:
    Faremos alguma coisa que nos livre desse peste por um bom tempo. Concordo com você nisso, mas algo que não machuque, digo fisicamente. Preciso ir. A minha mãe pode voltar do hospital a qualquer momento. Vou ficar lá no corredor esperando por ela. Fique tranqüilo, assim que eu puder conversarei mais com você. Nós decidiremos o plano. De comum acordo? Certo?
            Ela vai embora apressada. Fico imaginando no sonho que tive antes. Ele se desfez agora. Sandrinha trouxe o alívio para as feridas. Deu um novo rumo para história. Enquanto penso nela apoio à cabeça no encosto da poltrona, não demoro a cochilar ouvindo o som da sua doce voz ecoando dentro da cabeça. É o sono de uma criança, um sonho de herói reconhecido por alguém. A vida segue na realidade desse sonho bom. Sandrinha e eu no mesmo destino e com a mesma intenção. Estou feliz por esse dia.
     Ela é meu anjo. Um adorável anjo bom. Ela é de enlouquecer. Ela é tão fascinante que ninguém poderia imaginar que nesse meu sonho a inocência pertence metade a mim e outra metade ao destino. Eu posso emergir e submergir nele. Posso me esconder e afundar ou subir e respirar. O meu corpo não mais me pertence nesse momento de glória. Sinto como se fosse uma serpente adormecida eternamente grudada na terra num transe mortal. O corpo parece possuir um peso antinatural com uma respiração quase parada. Estou apenas um ponto acima da linha da morte. Fui ligado a uma corrente magnética onde poderei viver eternamente irradiando energia. Sou tomado por uma luz hipnótica que me envolve em paixão. Nessa imobilidade do sono renovo toda a energia desperdiçada por um fio de esperança. A minha vida finalmente fica intacta.
      Venha Sandrinha, venha e tome a minha mão agora, segure firme! Isso, assim... Agora caminhe ao meu lado sem medo. Olhe dentro de mim e veja as estrelas que piscam por você. Preste atenção, aqui dentro existe um grande céu azul para admirarmos juntinhos. Poderia esperar a vida inteira por um momento com você. Toda essa imagem de nós dois acontece no meu longo cochilo que virou sono profundo. A vida se estende momento a momento rumo ao infinito. Nada pode ser mais real para mim agora do que aquilo que eu suponho que seja. Tudo o que eu penso é real, tudo o que desejo existe. Sandrinha! Venha para perto de mim! Venha, por favor. O meu pensamento se tornou uma ação que desencadeou outra, e assim sucessivamente. Tudo está fazendo parte de um grande sistema criado por nós. Fixei-me na realidade por um segundo, foi o que me permitiu trazer você até a mim. O meu poderoso pensar fluiu transformando-se em desejo intenso que flutuou pelo universo em busca de ti. Tomei consciência do salto libertador que isso pôde me dar. Senti que fiquei livre do mal que me assolava arrancando o coração. Agora pareço ter absoluta liberdade. Recostado nessa poltrona enquanto sonho e vôo outra vez, Cachimba sonha meus sonhos, segue meus passos, aprende as lições que aprendo. Isso cada vez mais depressa. Tudo passa muito rápido em nossas vidas. É uma nova semana chegando quase ao final e continuamos aqui reunidos no mesmo sonho: eu, a meiga menina e Sandrinha. Completamente calmos e totalmente loucos numa união indivisível. Os dois brilham através de mim iluminando o meu caminho. O monstro que tomava conta da imaginação se foi para sempre. Restou o espírito para transmitir percepção aos detalhes do sonho. Às vezes estremeço um pouco trincando os dentes quando vejo o filme da minha vida numa tela gigante dentro da cabeça. Imagino que mais nada poderá acontecer quando estou assim. Lembro outra vez da linha imaginária que separa sandrinha de mim. Estamos tão próximos e tão distantes. Percebo agora o quanto ela se aproximou nesses dias. Lembrar disso me dá uma sensação tão maravilhosa. Que belo sonho eu tenho com ela! Ela está de pé no portão, talvez quando eu chegar mais perto ela abra os braços me recebendo com carinho. Não existe mais fronteira entre nós, há apenas a linha imaginária. Tudo é uma criação da mente modelada à minha maneira. É o lugar onde traço um mapa do meu amor por Sandrinha. Muitas vezes não me reconheço nessa tela do sonho, imagino que seja tudo inventado. Esqueço onde está o meu “Eu” verdadeiro. É quando vagueio desconsolado e tristonho. Fico totalmente desesperado procurando a imagem do meu corpo que se partiu em dois. Parece que entre o sonho e a realidade existe uma fina linha dividindo tudo. Perdôo a mim mesmo pelos maus pensamentos que tive. Faço isso por Sandrinha. A fraqueza e a força que há nisso me envolve. A vida me oferece a oportunidade que jamais rejeitaria. É por causa disso que, de uns tempos para cá, penso nela dia e noite. Virei um maníaco do pensar. Hoje é dia de mudança da alma. Mudança do ritmo de sonhar. Passou a fase da desorientação quando chegou a fase da reorientação, mesmo que haja um grande mistério na compreensão dos novos fatos. O cérebro agora trabalha para assimilar, ordenar, classificar e sintetizar todas essas informações confusas. É como se fosse uma limpeza dos pensamentos impuros com novas ideias para uma vitória triunfal. Sandrinha é meu anjo do pensamento. Tenho medo de toca-la quando chego perto. O meu corpo passa por uma mudança radical várias vezes durante o dia. Em cada mudança existem modulações em que a pele muda, os músculos enrijecem e o rosto fica vermelho. Tudo isso quando eu a vejo ou imagino o seu corpo nos meus sonhos. Eu continuo cultivando a sua beleza em cada gesto. Todo esse encantamento puramente envolvente que possui. Por isso que vivo constantemente diante do espelho estudando cada movimento meu. Justamente porque preciso mostrar o melhor de mim. Mesmo sabendo que em cada movimento nada penso além de criar mudanças abrindo uma fenda no tempo. Uma fenda pela qual sempre passa a minha comunicação telepática. Esse pensamento puro e fascinante traz Sandrinha até mim, mesmo que em alguns momentos seja tudo inconsciente, eu me delicio. Ao olhar no espelho do sonho tenho acessos de risos, um riso maluco, mas muito esperto. É o que me faz estremecer da cabeça aos pés pensando cada vez mais em ser melhor do que sou. Sendo assim vejo Sandrinha admirada por minha imagem. Ela olha fixamente dentro dos meus olhos desvendando toda a intimidade mais profunda. Por detrás de toda essa imaginação há a calma. Uma realidade com fatos que não foram esquecidos sendo ponderados. Cada coisa assumindo novas proporções. No momento em que eu abrir os olhos estarei inteiramente desperto. Todas as luzes do mundo irradiarão sobre mim. O calor da vida reinará e num instante entrarei em plena atividade. Voltarei para realidade natural que me sufoca. Continuarei deitado no sofá e Cachimba sobre o meu corpo. Não sei se estarei dormindo ou acordado. A menina se movimentará enquanto sentirei os pêlos roçando no braço ferido. A luz direta no rosto me aborrecerá. Acordarei de vez em quando xingando o sol. Xingando o clarão da realidade que me sufocará e ao mesmo me alegrará. Parece um  grande cerimonial o ato de acordar com a boca amarga e com os olhos teimando em não abrir. Ainda tenho muitas missões a cumprir nesse dia. Entre o momento em que dormi e que acho que acordei, eu vivi uma regressão por isso pensei até como seria quando acordasse de vez. Passei num entreato da vida contada em fases. Imaginei que se  não fossem essas dores que carrego nada mudaria em nossa relação à distância. Tenho certeza que, se não houvesse Jorginho Espoleta ou a meiga Cachimba, nada seria como está sendo. Cachimba me mostra que devo pensar diferente e como devo me defender. Mesmo que seja preciso me esconder para depois atacar sorrateiramente. Ela mostra a sabedoria da autodefesa no comportamento arredio. Com ela aprendo a ter cautela. Olhando em seus olhos vejo um traço da minha personalidade solitária e triste. Sinto no seu olhar a alegria que me comove ao saber que não estou sozinho. Dou um salto no tempo anterior à chegada de  Cachimba. Lembro que eu tinha o hábito de olhar Sandrinha subindo a rua do beco. Ficava olhando pra ela até que dobrasse a esquina. Às vezes tinha a impressão que ela sabia que eu estava olhando. Seja como for, certa vez, ainda era cedo da noite, eu estava sentado na beirada da calçada de casa, sentia calor demais e não pensava em nada. Olhava tolamente a rua quase vazia onde os cães corriam de um lado para outro atrás de uma cadela no cio. De repente surge Sandrinha vindo da grande avenida. Ela quase flutuava naquele pisar leve e solto. Ela pareceu um pouco espantada ao perceber que eu estava ali sentando sozinho, mas não disse sequer uma palavra, apenas uma leve expressão de desconfiança no olhar. Não consegui ficar olhando diretamente para ela por muito tempo. Desviei os olhos por ficar encabulado com a postura resoluta daquela menina decidida. Percebi que ela não fez o menor esforço para olhar diretamente pra mim. Mas eu nem liguei muito, afinal de contas eu nem ia com a cara dela. Achava que ela era muito metida e narizinho empinado. Ela abriu o portão, entrou e sumiu na escuridão do corredor lateral de sua casa. Notei que eu era invisível para ela. Percebi que nunca estaria ao meu alcance, mesmo depois que eu crescesse mais um pouco. Mas agora tudo mudou. Estou sentindo emoções fortes em cores vivas que não consigo definir direito. Com essa lembrança desperto do sono, mas não me sinto seguro em dizer se ainda estou sonhando ou olhando de dentro para fora um sonho real. Talvez nunca chegarei a ter esta resposta de verdade. Estou delirando com toda essa nova energia desencadeada pelo amor que chega em lampejos fosforescentes de esperança, mesmo sabendo que sou apenas um menino se comunicando mentalmente com o universo. A minha comunicação chegou até Sandrinha e ela me transformou em um ser novo, um individuo melhor. Sou alguém pronto para seguir a ordem natural das coisas mantendo a disciplina dos desejos. A emoção me leva às lágrimas, não faço esforço algum para enxuga-las. São lágrimas de alívio pelo desabafo dos pensamentos. Elas jorram impulsivamente, não quero controla-las. Quero que sigam até o fim. Corram até quando acabarem porque agora me sinto corajoso e decidido. Fiquei perto dela por algum tempo e me recuperei. Tenho forças, não sou mais um incapaz. Penso comigo que sem dúvida eu precisava dela. Não apenas por simpatia ou amizade, mas com alguma admiração por mim. Sei que vai começar tudo de novo, mas de um jeito diferente. Eu espero que sua palavra se cumpra quando nos encontrarmos outra vez. Que os planos nos façam sorrir e gritar com os punhos no alto dizendo em bom tom: “Finalmente estamos livres, somos felizes! A vida segue enquanto amamos tudo o que é belo e flui do coração!” Imagino que se tudo aconteceu assim é porque tinha que acontecer, isso graças aos sonhos loucos que tenho todo dia. Com o mais profundo desejo em continuar admirando Sandrinha, fico suficientemente leve para sonhar um sonho bom. É o que me bastará para continuar me fazendo feliz do jeito que estou nessa tarde.

Continua... Próxima publicação dia 25 de abril

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