domingo, 15 de abril de 2012

Cachimba Reeditado Parte 5


   Acorda Pedro! Acorda menino!
   A mãe chama puxando pelo braço. Abro os olhos, esfrego os dedos nas pálpebras. Anoiteceu e continuei dormindo deixando a casa toda aberta.
          “Filho o que significa aquela carta em cima da mesa?”.
          “Mãe, um menino derrubou as lancheiras dos pequenos. Ele botou a culpa em mim, mas eu não fiz nada, juro”.
          “Aqui na carta diz que você cometeu ato de indisciplina”.
          “Então mãe, quem aprontou foi o Jorginho. A diretora acreditou quando ele disse que eu fiz”.
           Ela olha refletindo os pensamentos. Demora um pouco e no final pergunta: “Como pode não ter feito nada e ter levado a culpa?”.
          Por mais um instante ela pensa... Dá o veredicto:
 “Você ficará sem assistir televisão por três dias”.
         Imagino comigo mesmo: "Menos mal. Ao menos não apanharei ou ficarei trancado naquele banheiro fedido do quintal".
        Ela continua, avisando: “Hoje vamos dormir cedo. Amanhã não  irei trabalhar porque tenho que vender algumas jóias antigas. Você vai comigo no ourives”. Em seguida muda o tom para: “Menino, vá logo tomar um belo banho por que você está fedendo mais que cachorro molhado”.
      Estou deitado na cama depois do banho. Olho o telhado com telhas apoiadas em várias ripas de madeira. Existe uma grande tora cilíndrica que vai de uma ponta a outra do teto. Através do vão no beiral do telhado entra o vento que assovia pelos cantos. Por esse espaço também entram morcegos voando sobre a minha cabeça. Eles fazem uma curva pela grande tora de apoio e saem de volta pelo mesmo vão. Tem noite que esses bichos fazem um barulho infernal. Batem asas no vai e vem pela fresta. Quando estou quase dormindo pulo num sobressalto assustado. A janela que dá para o milharal está aberta, mas os morcegos não se arriscam passar por aqui, apenas o vento entra sem pedir, mas nem ele consegue refrescar os meus pensamentos. A lua brilhante vai subindo no horizonte. A sua luz bate no chão do quarto chegando até o canto e iluminando as gavetas da velha cômoda. São duas horas da manhã, assisto de camarote as estrelas cadentes pintando o céu, caem uma atrás da outra ensaiando um balé mágico colorido de azul. É tão lindo quando riscam rapidamente do meio do céu em direção ao horizonte. Isso me fascina tanto enquanto o meu sono vai e vem.
        Silêncio quase total no milharal, apenas o pequeno ruído das folhas balançando com a brisa da madrugada. Do lado oposto da casa tem o corredor, na saída do meu quarto à direita tem a cozinha e à esquerda a sala, antes passo pelo corredor à esquerda que leva ao banheiro e ao quarto da mãe.
       Agora me deu insônia, talvez um pouco de água com açúcar ajude a acalmar essa ansiedade. Vou descalço até a cozinha sem acender a luz. Não faço um único barulho. A luz do corredor está acesa, os seus flashes chegam até a pia através da janela da cozinha com cortina quase transparente. Paro no meio da cozinha quando ouço passos no corredor lateral. Passos contínuos que logo cessam. As minhas pernas bambeiam, o coração dispara. Estou suando na testa. Os passos continuam, percebo que agora são leves. Seria o mesmo da noite dos pesadelos? Volto devagar. Ando de costas até a divisa da cozinha com a sala. Acerto o rumo indo direto até o quarto da mãe. Viro a maçaneta. Por sorte ela deixou a porta destrancada desta vez. Chamo baixinho: “Mãe acorda, tem gente no quintal”.Ela não entende a situação, demora para se localizar, abre e fecha a boca seca. Parece querer salivar para falar, mas não consegue. Fica sentada na beirada da cama sem entender o que acontece. Chamo outra vez: “Mãe! Vamos ver quem é?”.
Ela responde: “Espera!”.
Então, levanta devagar, sobe numa banqueta da penteadeira, tateia por cima do guarda roupas. Lá tem duas malas de viagem enormes, no vão entre as duas malas há uma caixa de sapatos. Ela puxa essa caixa de sapatos joga em cima da cama. Dentro há uma garrucha. É uma arma estranha com dois gatilhos. Vejo que as balas estão soltas dentro da caixa. Ela pega cuidadosamente duas balas, destrava o cano da arma, encaixa as balas ali dentro do cano em seguida fecha travando bem.
     Ela despertou. Vai decidida em direção à cozinha. Vamos descalços. De repente ouvimos uma tosse pigarrenta vindo lá de fora. Ela me empurra para trás do seu corpo. Estamos próximos da janela da cozinha, ela vai bem devagar olhando pelo canto, só tem um vãozinho aberto, diz numa fala quase muda que esta vendo alguém. Enfia a ponta da garrucha na fresta justa da janela e dá um tiro a esmo. Ouvimos um grito de dor e na seqüência um impacto no chão. Alguém geme. Saímos pela porta da cozinha enquanto o sangue escorre no piso cinza. O invasor levou um tiro de raspão no pescoço, parece que pegou numa veia mais grossa por isso desata em sangue. Olhando mais de perto reconheço  o rosto dessa figura.
O homem é aquele bêbado que encontrei no meio do mato quando voltava da escola. Conto para mãe quem é ele. Ela me olha com aquele olhar de interrogação. Não sabe o que dizer ou fazer.
       Seu Toninho aparece na frente da nossa casa perguntando o que houve.  Ele conta que ao ouvir o estampido ficou preocupado. Coisa muito rara é ouvir barulho de tiro nessa cidade. Minha mãe pede a ele que entre para ajudar. O homem no chão agoniza imóvel. Seu Toninho levanta o invasor e o coloca sentado de costas para a parede. Estica as pernas do infeliz, enquanto a minha mãe corre para pegar uma faixa que eu usava quando quebrei o braço. Seu Toninho aperta a ferida para estancar o sangue. A bala raspou queimando o pescoço do homem. Felizmente o sangue pára de descer. Minha mãe pega um pedaço de gaze com algodão, faz um curativo com esparadrapo amarrando a faixa por cima. O homem parece bêbado. Logo outros vizinhos aparecem para testemunhar o fato inusitado. Altas horas da madrugada com uma multidão na calçada da minha casa. Isso é novidade por aqui. Seu Toninho vai trocar de roupa, sugere que devemos levar o bêbado até a santa casa. Logo ele volta com o seu carro último tipo. É um Ford corcel vermelho ano 1973. O invasor é colocado no banco traseiro do veículo enquanto minha mãe vai ao lado dele. Ela segura na mão do individuo que ela nunca vira antes. Eu fico em casa aguardando. Tranco tudo e volto para cama. Agora que o meu sono me abandona de vez. Estou tremendo de nervoso. Abro a porta dos fundos, ponho Cachimba para dentro. Sento no sofá da sala, a menina meiga fica no tapete. Descanso a cabeça no braço do sofá com a metade do corpo para o lado de fora e os pés arrastando no chão. Durmo assim, meio largado. Acordo de repente com o barulho da porta da sala se abrindo. O dia está bem claro. É minha mãe. Ela retornou da santa casa, a coitada está acabada, num desanimo só. Pergunto se o homem contou porque invadiu nosso quintal na madrugada. Ela responde que ele estava bêbado e não sabia o que fazia. Mesmo assim ainda disse que veio atrás da cachorra, já pela segunda vez. Minha mãe diz que ele chorou confessando que sentia saudades da minha menina. Ele veio com o desejo de apenas acariciar a menina meiga, aquela que ele mesmo batizou de Cachimba. Minha confirma que ele ficou bem, foi um ferimento de raspão sem maiores conseqüências. No entanto, ela teria que dar explicações na delegacia. O policial de plantão deu três dias para que ela compareça diante do delegado.
     Olho para Cachimba deitada no tapete. Ela nem imagina o que aconteceu com o antigo dono.
     Coloco a cabeça embaixo da torneira do tanque de lavar roupas, qualquer coisa serve para me estimular da noite mal dormida. Penteio os cabelos com o pente que carrego no bolso. A mãe avisa que iremos tomar o café da manhã e em seguida iremos ao ourives.
      Ela separa cuidadosamente as jóias. São brincos, anéis e correntes de ouro. Todo o passado da família dentro de uma caixa forrada de veludo vermelho. A cada jóia ela dedica um último olhar de nostalgia. Vejo os seus olhos marejando enquanto enrola tudo rapidamente num lenço vermelho estampado.
      A oficina do ourives fica no centro da cidade. Vamos com o ônibus que passa de hora em hora na grande avenida de chão batido. Já estamos no ponto e para nossa sorte ele não demora a chegar. No centro da cidadezinha tem a rodoviária com quatro baias onde param os ônibus que vêm da capital. Nessa praça tem pontos de charretes ao lado dos pontos de táxi. É uma praça com muitas árvores. Tem também bancos de cimento com encostos de madeira em ripas. No centro dessa praça existe um chafariz desativado com uma fonte onde os pássaros pousam na esperança de encontrar água.
        Caminhamos pela rua paralela à via férrea. Seu Lucas é o ourives que minha mãe vai procurar. O portão da sua fortaleza é imenso. Uma armação de ferro com lanças pontiagudas apontadas para cima. Ela toca a campainha. Um senhor grisalho, aparentemente muito educado atende. Esse é o senhor Lucas, ela diz baixinho. Ele pergunta: “O que desejam?” Ela  retira o lenço de dentro da bolsa mostrando as jóias. Diz que tem interesse em vender. O homem abre o grande portão para entrarmos.
         O ourives analisa peça por peça dando o seu preço. Ela faz cara de descontente. Anda de um lado para outro. Faz menção de pegar tudo de volta. Enquanto tudo isso vai acontecendo, aproveito e dou uma volta observando melhor o lugar. Do lado de fora da porta, bem no corredor de acesso, existem vidros cheios de liquido amarelo. Parecem frascos transparentes de maionese. São seis vidros cheios bem fechados e encostados na parede. Retorno perguntando ao senhor Lucas o que é aquilo. Ele responde que são frascos de  ácido. Estão do lado de fora à espera de serem recolhidos como lixo tóxico. São produtos usados na limpeza das peças de metal. Ele recomenda que eu não mexa de jeito nenhum. Alerta num tom bem severo. Diz que pode queimar a pele provando queimaduras muito graves.
        Finalmente eles chegaram num acordo. Seu Lucas nos convida para retornarmos outro dia. Sei não, acho que ele gostou da minha mãe. Na tentativa de agrada-la me faz elogios: “O seu filho é um menino muito educado”. Ela sorrindo, agradece. O caminho de volta para casa será demorado porque o ônibus acabou de passar. Ela resolve que vamos embora de charrete. Obaaaa! Que legal! Uma aventura e tanto andar de charrete. Ao chegarmos na porta de casa o charreteiro recebe duas notas novinhas. Passamos pela varanda dos vasos. Ela avisa que vai preparar o almoço. Eu digo que  vou ao banheiro porque estou com dor de barriga. Acho que o balanço da charrete desarranjou minhas tripas. Dentro do banheiro me sinto em dia de ano novo quando os fogos espocam. Barulhos esquisitos com muitas explosões ecoando ao longe. O túnel de vento teve a sua válvula principal liberada. Toda água do fundo do vaso balança em ondas. Estou ficando limpo por dentro. Depois de alguns minutos a barriga murcha.
        Volta a seqüência do meu sonho no pensamento. Agora sei que as gargalhadas mudarão de personagem. Elas serão minhas quando ecoarem pelos corredores da escola. Nada será igual ao que já foi antes. Tenho ideias por isso sei que todos elementos serão alterados, estou certo que não sentirei remorso. A derradeira sensação será a mesma que sinto agora: a de alivio profundo. O espelho do banheiro é meu conselheiro sempre que estou diante dele. O caminho está traçado na mente fortalecida com um plano elaborado. Estou absolutamente imunizado de ressentimentos. Assim continuarei por mais dois dias de castigo injusto, só maquinando.
Por quê ele agiu daquele jeito comigo? Por que ele age sempre deste jeito comigo? Nunca fiz nada para feri-lo, fiz? Espelho me responda! Eu fiz alguma coisa pra essa peste de moleque?
Uma melodia estranha e sem sentido soa por dentro da cabeça, o espelho embaça no instante que silencia. Os pensamentos pedem descanso. 
O Ciúme é um monstro de olhos verdes. Afirma a mais vã filosofia que melhor exprime a vida como ela é. Nenhuma competição existiria sem o ciúme. Nenhum conflito ou mágoa prevaleceria sem a rivalidade imposta por esse  sentimento. Nenhum progresso ou destruição se manteria. Estamos todos sujeitos à provação. Cada qual abaixe a cabeça e cumpra sua sentença em silêncio!
        Mais um dia amanhece, a luz do sol fustiga a veneziana. Os raios entram buscando um canto para clarear. São várias frestinhas nessa janela de madeira pelas quais os raios de sol iluminam o ar. Flutuam resíduos de poeira pelo ar do quarto.
     Levanto impaciente. Caminho até o quarto da mãe. Ela já saiu para trabalhar. Seguiu rumo à casa de Dona Marília. Deixou a cama de casal muito bem arrumada. Ela tem xodó por uma colcha vermelha com franjas nas laterais. Tem um bordado no centro com imagens de jovens orientais segurando véus. São olhares tão misteriosos e sedutores dessas figuras desenhadas no tecido. Elas ficam com as mãos esticadas buscando flores com pétalas grandes. Flores em formato de pássaros. Uma vez perguntei para minha mãe que planta era aquela que as japonesas seguravam. Ela respondeu que se chama estrelícia. Eita! Que nome mais esquisito! Faz até ventinho no meio dos dentes quando tento repetir. Nossa! Como a minha mãe gosta tanto de plantas! As ramas compridas das samambaias sempre roçam na cabeça da gente quando passamos pela varanda dos vasos. Vou ao banheiro que é a parada obrigatória depois que se acorda. Escovo os dentes, lavo o rosto com sabonete, penteio os cabelos. O meu amigo espelho ainda dorme. Bate uma dor no coração. Saudades da minha menina meiga. Chegando na cozinha destranco a porta dos fundos. Na casinha improvisada a meiga menina dorme encolhidinha. Nem me ouve chegando às pressas. Pego a bacia da donzela adormecida para reabastecer com água fresquinha. O pratinho de comida está vazio. Ela já me viu. Agora estica o pescoço, levanta e sai da casinha abanando o rabinho. Dá uma bela espreguiçada sacudindo os pêlos. Cheira o meu pé, pula nas minhas pernas. Saio andando enquanto ela pula na batata da minha perna direita. “Quieta menina! Fica quieta senão não tem café da manhã!”.
        A bacia de comida está engordurada. Lavo na pia da cozinha esfregando com detergente e palha de aço. A minha menina vai provar o meu delicioso café da manhã. Coloco na vasilha café com leite, pão francês picado, um pouco de sucrilhos, um tantinho de farinha de milho em flocos que é tão amarelinha e dá vontade de comer pura.
A minha mãe falou um dia: “Coma sempre assim de manhã que ficará forte e bonito pra vida toda”. Cachimba vai ficar forte e bonita como eu, eu sei. Ela come de bocados. A aveia endureceu o caldo nos cantos, mesmo assim ela lambe ansiosamente. O chão da cozinha fica sujo com os restos de toda mistureba. Termino a minha parte da refeição. A menina fica solta. Percebo que ela quer ir até o matinho mais próximo. Ela vai e volta logo, isso enquanto passo o pano de chão na sujeira do piso da cozinha. É hora de um passeio por lugares mais sossegados. Seguimos rua acima outra vez. A grande avenida está movimentada hoje, desisto. Retorno em direção ao fundo do beco em direção à escada com degraus irregulares cavados no barro. Desço devagar apoiando nos galhos das árvores, Cachimba no meu colo me deixa sem equilíbrio perfeito. Dou uma pisada em falso. Acabo rolando pela escada. Desço escorregando pelo barro liso com o traseiro batendo nas pontas de pedras incrustadas na terra. Chego quase arrebentado no final apertando Cachimba contra o peito. O cotovelo esquerdo esfolou um pouco. Os joelhos ardem. A menina está um pouco assustada. Fico todo sujo com barro e terra, mesmo assim seguimos em frente mancando e tropeçando. Atravesso o grande pasto, na frente tem a ponte de madeira que leva ao bairro alto. É um atalho para o bairro da porteira preta. Na rua que sai da ponte de madeira encontro Zé Preguinho e Pedro Chulé. Os dois meninos estão agachados no meio da rua, um de frente para o outro, vou passando ao lado enquanto um deles me chama: “Moleque vem aqui, vem ver uma mágica!”.
Eles olham para uma latinha de pasta de engraxar sapatos, ela está com um punhado de graxa marrom dentro e um pouco de líquido. Pedro chulé tem uma lata de óleo de cozinha que foi cortada ao meio. Zé preguinho segura em uma das mãos a caixa de fósforos, são palitos grandes e rosados nas pontas. Risca o palito e joga na latinha. O fogo sobe. Vem Pedro Chulé tampa com a lata de óleo até o fogo apagar. Repetem a cena.
Zé Preguinho é uma figura e tanto. É um moleque negro que carrega uma cicatriz embaixo do nariz, fica bem no meio do lábio superior. Os lóbulos das orelhas são diferentes, estão totalmente fixados na lateral da cabeça, onde tem uma pequena membrana rosada que sobressai em sentindo vertical descendo até na linha do pescoço. Ele puxa conversa comigo. Fala de Sandrinha e Jorginho. Diz que Jorginho quer namorar ela por isso me considera um rival. Jorginho Espoleta anda dizendo pra todo mundo que quando me encontrar vai quebrar a minha cara. Falo para Zé Preguinho: “Eu não tenho medo”.
Ele reforça: “Jorginho vai te catar, vai ver só o quanto vai penar na mão dele. Ele falou que vai quebrar seus dentes. Acho melhor você ir andando porque ele ficou de encontrar a gente aqui. Vai logo! É melhor pra você”.
       Quando faço o movimento de sair quem aparece? Jorginho! Vem numa bicicleta velha. Quando me vê, joga a bicicleta no chão. Faço de conta que nem vi nada. Fixo o olhar na latinha que tem a chama que levanta. Ele vem chegando perto, dá a volta por detrás de Zé Preguinho, num lance rápido chuta a lata em direção ao meu rosto. Esbraveja alto: “Sandrinha não vai te querer com cicatriz de queimadura na cara, moleque marica!”
O rosto arde. Não consigo abrir o olho direito, Cachimba pula do meu colo. Jorginho monta na bicicleta enferrujada, vai embora. Pedro Chulé segue atrás correndo. Zé Preguinho me segura pelo braço. As costas das minhas mãos ardem. Os pelinhos do braço chamuscaram também. Em cima da sobrancelha arde e dói.
Zé Preguinho pergunta se quero ir para casa. Balanço a cabeça positivamente. Procuro Cachimba. Ela está encolhida e com a parte traseira tremendo. Olhar triste.
Peço para Zé Preguinho segurar a menina. Ela fica um pouco arisca, mas aceita o colo dele. Ele nos leva até na porta de casa. Coloca a menina no chão para o lado de dentro do portão de ferro branco.
Entro pela porta da frente deixando a menina na varanda dos vasos. Corro para o banheiro a fim de passar creme dental nas queimaduras.
Tudo arde, tudo está vermelhão... Parte do rosto dói, justamente onde ficou a pele repuxada, bem pertinho do olho. O creme dental parece saído do congelador. Lembro que não devolvi a pomada cicatrizante que Peppers  emprestou para cuidar de Cachimba. Passo a pomada no rosto. Alívio! A pele tem pequenas marcas redondas dos respingos. Essas marquinhas vão virar bolhas de água. Tenho certeza! Sinto que fiquei aliviado pela mistura da pomada com creme dental. Apareço no quintal da frente assoviando para Cachimba, ela atende e me acompanha. Prendo a corrente na coleira e a outra ponta no gancho fixado na parede. Volto para dentro da casa, vou ao quarto da mãe. A caixa de jóias forrada com veludo vermelho está dentro do guarda roupas. Abro a caixa que tem um gancho de metal dourado. Ela deixou ali a aliança de ouro que tem o nome do meu pai gravado. Guardo a aliança no bolso. Esvazio a mochila da escola, ajeito nas costas. Recoloco a caixa de jóias no mesmo lugar de onde tirei. Tranco a porta da frente com a chave. Monto na bicicleta vermelha seguindo em direção ao centro da cidade. Todo o velho percurso que já conheço de olhos fechados. Estou cego de loucura, estou com o espírito de vingança. A pele arde enquanto a mente trabalha em ritmo acelerado. Mil pensamentos se passam na cabeça atordoada, mas nenhum deles pára o tempo suficiente para cativar a idéia. Muitas sugestões intuitivas surgem embaladas com planos mirabolantes. Ideias perversas quase criminosas. As casas passam rapidamente diante do olhar. A terra do chão parece uma esteira se movimentando enquanto pedalo. Vou pedalando... O suor salgado desce pela testa atingindo todos os pontos ardentes. Isso faz arder mais e mais. A raiva cresce com a dor. É quando o ódio impera dominado pela ira. Pedalo mais forte. A bicicleta treme no corpo que balança. O corpo que arde em chamas por dentro e fora. A fogueira está acesa. Uma imensa fornalha arde na mente e no coração.
Estou na rua lateral que acompanha os trilhos. Casas e mais casas, muros, postes e fios. O grande portão com lanças bem diante de mim. A campainha no alto. Desço da bicicleta, o pezinho de metal que apóia novamente entra em ação. Toco a campainha. Espero. Ninguém sai. Fico chateado com a demora. Ando de um lado para outro, me viro para montar na bicicleta e ir embora. Então, de repente, lá do fundo vem a voz: “Já vai!”
        Lá vem seu Lucas. Ele me olha intrigado: “Olá menino, o que faz aqui?”.
        Eu digo numa voz firme sem gaguejar: “Seu Lucas, minha mãe pediu para que eu trouxesse uma peça que senhor precisa dar o preço. Ela não pôde vir porque está trabalhando”.
         Ele me olha desconfiado e pergunta: “Sua mãe te pediu mesmo para fazer isso?”
        Eu respondo: “Sim senhor. É só para dizer o preço. Ela falou que depois vem aqui conversar com o senhor.”
        Ainda com um pouco de desconfiança ele pede para que eu entre. Avisa: “Deixe a bicicleta aqui no corredor”.
         Ele me olha mais atentamente e pergunta: “Menino andou brincando com fogo?” “Está cheio de manchas vermelhas, o que aconteceu?”
         “Seu Lucas, minha mãe trabalha e eu gosto de comer ovo frito no café da manhã. Fiz bobagem hoje. Coloquei muito óleo na frigideira. Esqueci que o ovo estava na geladeira. Quando fui fritar o ovo gelado no óleo quente, tudo espirrou em mim”.
          Ele me olha torcendo a boca como se não estivesse acreditando na história.
            Retiro a aliança do bolso, dou na mão de dele. Ele pede para eu me sente enquanto olha na lente de aumento. Ele pinga uma gotinha de um liquido por cima da aliança. Levanta uma fumacinha. Pergunto o que é. Ele responde que tem que pingar para saber o quilate da peça. Não entendo muito bem, mas aceito a explicação. Olho ao redor. Digo a ele que vou pegar a pomada para queimaduras dentro da mochila que ficou pendurada na bicicleta. Ele balança a cabeça sem dar muita atenção enquanto examina detalhadamente a aliança. Vejo os frascos. Potes com rótulos brancos. Seguro um deles com cuidado, sem balançar. A tampa tem um lacre de papel vedando por baixo. Escondo devagar dentro da mochila. Entro e me sento na cadeira como se nada tivesse acontecido. Ele olha com uma lente de aumento que cobre o olho esquerdo.  Ela presa com uma tira de borracha que segura a estrutura da lente por detrás da cabeça. Ele puxa a tira de borracha retirando a lente da frente do olho, em ato contínuo estica a mão devolvendo a aliança. Avisa: “Fala para sua mãe que vale duzentos!” Guardo no bolso, vou saindo devagar. Encubro a mochila com o corpo, ele passa por trás de mim seguindo em direção ao grande portão de lanças. Retira o cadeado, abre o portão até o canto da parede. Passo empurrando a bicicleta. Desço da calçada até o meio fio. Deixo a mochila no guidão mesmo para não despertar suspeita. Sigo devagar até em casa. Ao chegar retiro o frasco comm o líquido precioso. O banheiro do quintal é o melhor esconderijo. Lá dentro tem uma lata de tinta toda amassada que com um montão de tranqueira dentro. Tem pincel velho, resto de pano endurecido e uma embalagem vazia de removedor. Coloco o frasco precioso bem no fundo. Cubro com o pano endurecido por tinta branca. Vou para o chuveiro. O banho purifica as ideias. Tira o suor que arde na pele incomodando mais que pimenta na língua. O vapor sobe no ambiente fechado. De repente sinto que ela se aproxima devagar. Vem por impulso. Vira a cabeça. Vejo seus olhos brilhando de alegria. Pela primeira vez observo os detalhes de como ela anda. Ela rebola os quadris. Mexe o restante do corpo como numa dança de música lenta. Ela parece um pássaro. Ela um pássaro que canta suave e se  veste de menina. Ela tem a pele macia e o olhar inocente. Ela é decidida. Desliza, plaina no mais lindo vôo cheio de graciosidade. Ela é tão sublime! Atinge com toda força o meu pensamento. Um pensamento que flui da esperança até a desilusão. O espelho do banheiro clama vingança.  O que eu  fiz? O que farei a seguir? O que será de mim depois disso tudo? O pensamento foge outra vez. Pula da ponte que liga razões e motivos caindo no precipício da insanidade. Sinto o sangue correndo por dentro dos olhos. É quando os meus músculos enrijecem e o globo ocular gira rápido, cada vez mais rápido, tão velozmente que perco o ritmo do pensamento. Ah Sandrinha, o seu ritmo e a sua pose são coisas divinas. Que confiança você me inspira. Que desfaçatez intrigante é tudo isso. Não reparo em mais nada, nem mesmo nos pensamentos. A água cai direto na cabeça escorrendo pelo corpo que não dá a menor importância a coisa alguma. De segundo em segundo a histeria toma conta da mente. Mas só da mente. Faz o veneno escorrer pelos cantos. Sandrinha segure minha mão agora. Eu preciso tanto de você! Caminhe ao meu lado sem medo. Pois aqui dentro as estrelas piscam num céu inteiro para desbravar. Sandrinha venha até aqui. Sente-se e conte quem você é. Mostre que você é aquela do meu sonho colorido. Aquela pessoa maravilhosa com a qual eu sonho todo dia.
As noites passadas foram longas, sem sono e sem sonhos. Como eu saberia o que é sonho nessa vida, se não houvesse você?
A realidade mostra o caminho. Às vezes sinto que nossos mundos são tão distantes. Percebo no olhar que o destino está selado. Existe uma viagem programada onde o meu espírito avisa que descansará em paz. Sei muito bem que essa intuição é áspera e cruel. O meu mundo vai girar mais rápido. De hoje em diante não haverá mais sulcos no piso de paralelepípedos da avenida central. Nem haverá memória inocente. Não existirá um começo apenas um fim. Não haverá saídas, talvez nem paradas. O que manterá a mente funcionando são os caminhos incertos da perfeição. A pele seca e marcada pelo ciúme retorna ao passado. O grande momento do crime com castigo está chegando. Só nessa hora há perdão sem misericórdia. O poço sem fundo que está se formando dentro de mim é algo que não consigo capturar com o espírito que vaga sem destino. Agora sou uma cria da filosofia do terror. O banho acaba enquanto o corpo treme. Estou encharcado, nu e livre. A natureza me guia por mais fortes caminhos. Vou pelos caminhos da igreja de santo Antonio. Lá é onde se lava a escadaria como se lava a alma de um redentor. E o cenário mudará de paisagem. A folhas cairão quando tudo renascer na primavera da vida. Mas antes disso uma semente precisa ser plantada.


Continua... Próxima publicação dia 19 de abril

4 comentários:

  1. Patricia Ramos Sodero15 de abril de 2012 19:13

    Em meu último comentário,pensava justamente o porquê que Jorginho sentia tanta raiva de Pedrinho...e finalmente,vejo que tirei as conclusões certas.O que o ciúme e a inveja podem causar na vida de uma pessoa???Ou melhor,o que uma pessoa é capaz de fazer por não aceitar a derrota???Um menino ingênuo, chegado a pouco na cidadezinha,de boa e rígida educação,que não se envolve em problemas....pq ele???Sandrinha foi quem se aproximou dele,justamente por seu jeito meigo e simples de ser...Mas, o egoísmo de Jorginho é maior....e além disso,tem a índole ruim....nunca está só em suas maldades,é ameaçador e coloca medo nos meninos mais fracos.
    Ainda bem que, neste capítulo,a mãe de Pedrinho, mesmo que nervosa com a situação de suspensão de três dias na escola,não foi tão rude...acreditou mais em seu filho,e lhe deu um castigo leve,comum.Quem sabe agora,sua mãe passaria a tomar outras atitudes,e passaria ver melhor os meninos maldosos que ali viviam.Isso pq agora, seu filho fora atingido de uma forma mais cruel do que as outras....e as cicatrizes ficariam pra sempre....tanto na pele, como na alma.
    Pelo visto, nosso amigo vai preparar grandes episódios nesses dias de castigo....vamos aguardar...
    Realmente, esta estória está cada vez mais comovente e envolvente....meus parabéns, autor...ou Renato...rsrs...como preferir...
    Bjs...até o próximo capítulo!!!

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  2. E assim mais um inocente perdendo a inocência, acontece muito isso! Pedro sofrendo injustiças pelas mãos de Jorginho, sem credibilidade entre os adultos, castigado por erros que não são seus, e machucado em sua pele e sua alma. Quantos Pedros cruzamos nos nossos dias? Quantas crianças maltratadas, castigadas, espancadas.... indefesas, até chegar no seu limite, e dai partir para a vingança, o sangue nos olhos, a violência como resposta, como caminho para a sobrevivência.
    E na noite anterior, sua mãe trilhou o mesmo caminho, o medo, a impotência diante do invasor, e a solução, um tiro, violência como caminho de sobrevivência. Um tiro num inocente que sente saudades de sua companheira, única companhia de uma vida, perdida num momento de embriaguez.
    E assim inocentes sofrem, inocentes pagam, inocentes viram assassinos e delinquentes, e quando já não existe mais inocência, o caminho é árido e triste, e a violência do corpo e da alma é a companheira da vida, dor para as vítimas, dor para os executores. Então justiça, amor, respeito são apenas palavras num dicionário velho e inútil.

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  3. Mãe é fogo mesmo, não perde uma. Até que o castigo não foi dos piores, apesar de Pedro não merece-lo. Nunca vi um morcego, tb ficaria assustada. Tudo é assim na vida, o medo vem pelo desconhecido. Que delicia naquele momento escutar o vento e observar o brilho das estrelas de janela aberta. Impossível nos dias de hoje. No lugar da mãe de Pedro, faria o mesmo. Bala em quem tivesse rondando a casa, afinal ela é sozinha com uma criança. Como imaginar quem era, felizmente foi só um susto e o coitado queria matar a saudades da menina. Mais essa ainda, dar explicações na delegacia. Porque desfazer de joias de família? Estaria mãe de Pedro em apuros? Intrigante!!!Pedro já começa a imaginar seu plano de vingança ao ver tantos líquidos no ourives. Isso não vai dar certo. Pedro deveria ficar longe deste Jorginho, caramba brincar com óleo asceso, que perigo!!! Esta disputa entre os dois vai acabar em coisa séria. Desta vez foi uma queimadura leve, mas Pedro já esta com seu bicho interior acordado, que pena! Não estou gostando disso.... É Mocinho me preocupei agora.....

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  4. Que história hein!!!Pôxa até que enfim descobriu quem era a pessoa misteriosa que anda pelo quintal na madrugada o ex dono da Cachimba,achei triste a mãe de Pedro vender as jóias da família uma recordação é um valor sentimental.Mas o Pedro coitado sofreu mais ataque daquele Jorginho que absurdo!!!Fico pensando até a onde vai a inveja da pessoa querer destruir muito perigoso isso.Tudo isso porque Sandrinha gosta do Pedro,é tem pessoas que não conseguem ser rejeitados e partem pra vingança isso eu chamo de baixa-estima.Mas tomara que esse Jorginho tome um castigo ou melhor seja humilhado quem sabe passando na pele aprenda a respeitar as pessoas.Bjs.Andréa Cardoso.

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