quarta-feira, 11 de abril de 2012

Cachimba Reeditado Parte 4

    Pensamentos vão se espalhando. O chão está fugindo de mim. Sinto febre, as pernas bambeiam. Os olhos ardem, o peito lateja com tanta palpitação do coração apertado. Sob a luz da lua,  que clareia o piso cinza cimentado, ando pelo corredor lateral. Sigo pela rua até a grande avenida. Paro na esquina e olho para os dois lados. Pessoas passam tão apressadas que nem dão conta do meu olhar tristonho. O ônibus da noite que carrega os trabalhadores da usina de açúcar pára no ponto.
            Fico em dúvida. Não sei de que lado procurar. Seria melhor direita ou esquerda?
             A tristeza toma conta do pensamento.
             Queria tanto encontrar minha menina meiga revirando alguma lixeira. Ficaria feliz se encontrasse essa mocinha em algum canto de muro com o rabinho enfiado entre as pernas.
             Sinto um tipo de  raiva cega que me corroí por dentro. Eu sou o culpado. Larguei a moça abandonada. Sei que ela sentiu minha falta e foi atrás do meu cheiro.
             Escolho o caminho. Vou rumo ao centro da cidade. Olho pelos cantos de paredes, em buracos no mato ao lado da estrada. Já andei  cinco quarteirões. Estou novamente diante da  igreja de Santo Antonio. “Santo Antonio me ajude, por favor”. As lágrimas enchem meus olhos. O velho sino badala oito vezes. Tenho que voltar para casa. Vou  refazendo o caminho pelo lado oposto dessa grande avenida. Vou tropeçando e apressando o passo.
         De volta à velha esquina do beco, desço em passadas rápidas. Diante  da nossa casa está minha mãe. O seu olhar é feito um raio que queima. É uma expressão de insatisfação misturada com raiva.
            - Onde esteve menino? Tem quase duas horas que te espero aqui.
           - Mãe, Cachimba fugiu.
          - Pedro, Pedro, meu filho. Você não tem jeito! Vamos! Abra logo a porta que estou morrendo de cansaço. Esqueceu que dei minhas chaves pra você?
           A casa está com um odor insuportável. É o ar impregnado de ambiente fechado misturado com o cheirinho da fumaça daquela erva maldita. O cheiro ficou no sofá quando deitei nele. Tem comida vencida em cima do fogão.  O cheiro do ralo da pia da cozinha é esquisito. O aroma dos lírios no quintal da vizinha não consegue disfarçar o que temos aqui. Lembrei de um comentário estranho que Peppers fez enquanto ouvíamos musica de gente maluca, ele disse assim: “Um dia ainda vou fazer chá desses lírios”. Eu nem entendi. Nunca soube que se faz chá de uma flor. A minha mãe sempre me dá chá de erva-doce. Diz que é bom pra dor de barriga.
           Minha mãe é tão impaciente. Toda vez que chega em casa logo vai puxando cortinas, abre portas e janelas. Diz que é para o ar circular.
          Depois se acomoda no pequeno banco de madeira e pensa na vida um pouco. Ela sempre pensa muito antes de falar qualquer coisa. Pensa demais quando a bronca é forte. Estou preparado. Lá vem a bronca.
        - Eu te falei que não era para ir lá no meu trabalho, não falei?
        - Eu sei mãe, mas como eu iria entrar em casa?
       - Você deveria esperar por aqui que eu retornasse. Jamais faça isto de novo, entendeu? Se perder a chave outra vez vai apanhar. Estou muito brava com você. Ultimamente só tem me dado problema. Outra coisa: por quê está tão preocupado com a cachorra? Você encontrou esse bicho sem dono tem menos de uma semana, agora está todo apegado a ela. Estou vendo que você tem esquecido de fazer outras coisas, por exemplo, cuidar do seu quarto. Não estou gostando do seu comportamento. Já que a cachorra vira-latas foi embora, vou te prometer uma coisa: caso você se comporte bem daqui pra frente, te darei de presente uma cachorra bem novinha e de boa raça. Mudando de assunto: Vou deixar o dinheiro para que mande fazer a cópia da chave. Amanhã sairei cedinho, vou trabalhar, não tenho ideia de que horas voltarei para casa. Agora vá logo tomar o seu banho. Ajeitarei a bagunça que você deixou aqui, em seguida prepararei a comida. Você sabe muito bem o quanto odeio louça suja na pia. Vai logo menino! Saia da minha frente antes que eu resolva te dar uns tabefes por me irritar tanto! 
          A janela do meu quarto ficou aberta durante toda tarde. A ventania trouxe poeira. No chão há uma camada de pó marrom. A colcha amarela da minha cama também está empoeirada. Ai, ai, ai! Se a minha mãe vir isto estou frito!
            Atrás da porta tem um espanador com o cabo quebrado. Está numa sapateira onde coloco chinelos e tênis. Ele tem penas cinzas e brancas. Espano toda a cama e os móveis, faço tudo bem rapidamente. Passo no chão a camiseta suja, empurro toda poeira para debaixo da cama. Abro a gaveta em busca da roupa de dormir.
          Já estou no banheiro bem diante do velho espelho cheio de manchas. Que rosto triste! Numa observação mais demorada começo notar que há traços distorcidos na boca e no nariz. Estou no meu parque de diversões particular. No espelho vejo os cabelos escorrerem pelo pescoço. Os lábios parecem duas bananas sobrepostas de tão inchados.
            Na profundidade desse espelho vejo o brilho da menina do olho. Ela cintila límpida, está tão clara nessa cavidade da testa curvada. O pensamento sempre contradiz as emoções furtivas que tenho a respeito da vida que levo aqui.
            Sandrinha onde está você? Estou segurando o meu brinquedo. Quando penso em você ele fica tão rebelde que nem me obedece mais, age por instinto. Dizem que estou na puberdade. Isso modifica reações.
                 Ouço gritos.
              - Filho, não demore no chuveiro!
              Puxa vida. Nem acabei de entrar e já está me apressando.
               Novo grito estridente:
            - Você está aí tem mais de quinze minutos, saia logo!
           Enxugo os cabelos com a toalha manchada de cândida. Vou até o quintal estender o tecido úmido no varal debaixo do cobertinho do tanque.
           O jantar vai ser servido. Mesa forrada com  toalha estampada em tom azul e cinza. Dois pratos e quatro talheres. A jarra de suco cor de laranja marca o centro da mesa com os copos ao lado.
         A panela de pressão dá o último apito. O feijão será o complemento de amanhã. Só falta temperar.
          Levo o prato até o fogão e vou me servindo com várias colheradas do arroz branco. Noutra panela tem almôndegas com molho de tomate. Coloco três bolinhas por cima do arroz, espalho cuidadosamente o molho grosso por cima de tudo. Na panela pequena tem purê de batatas requentado.
           O ar que permanece na mesa é de silencio. Apenas olhares furtivos durante a refeição. Mas nem sempre foi assim, antigamente nosso lar era completo e bem mais feliz que agora. O barulho dos talheres ecoa pelos cantos das paredes.
           Olho para ela. Ela é minha mãe. É o meu único porto seguro. Tento adivinhar o que vêm passando nos seus pensamentos.
       Imagino como se ela fosse duas pessoas em uma, e uma delas me observasse o tempo todo. Fico com tanta raiva desse tipo de sensação. Tento me matar por dentro quando o que temos para conservar só resume em broncas. O silencio é tanto que até ouço zumbidos estranhos penetrando na mente. Nisso tenho uma visão na qual me vejo de cima. As nossas cabeças estão enfiadas dentro dos pratos com as almôndegas escorregando pelas beiradas. O molho vai pingando lentamente, gota por gota, no chão onde vejo bichos brancos rastejando, parecem grãos do arroz cozido tentando subir nos pés da cadeira. Novamente pratos, talheres e copos estão empilhados dentro da pia. A minha primeira tarefa é lavar tudo pela manhã.
          Estou na sala onde a televisão fala sozinha. O vento frio da noite entra pelas frestas da janela que dá para o corredor lateral. Sem ter o que fazer folheio página por  página de uma revista de moda. Viro folha por folha bem devagar. Vejo tudo e não vejo nada. Ela finalmente foi deitar. Sempre passa a chave na porta do quarto. Percorro os cantos silenciosos dessa casa térrea perguntando onde estará minha menina.
        Desligo a televisão e apago a luz da sala. A porta do meu quarto range, não encaixa no batente enquanto não dou uma batida forte. Melhor deixar só encostada para não levar outra bronca.
       Sento na beirada da cama enquanto sigo pensando por alguns segundos em tudo que vivi neste dia. As lembranças correm pela mente como se fosse a trilha de um filme antigo feito em preto em branco. Um filme mudo. São movimentos rápidos com flashes de saudades da minha menina meiga.
         Sinto nesse último aperto no coração, o último flash da doce menina no meu colo. Vejo nitidamente o seu olhar pidão naquela aconchegante soneca debaixo da árvore. Nesse aperto ainda sinto aquele último olhar dizendo: Não me deixe sozinha.
            Um novo dia amanhece. O caminho hoje é de terra barrenta. Choveu durante a noite toda. Os pneus da bicicleta derrapam nas marcas profundas deixadas por ônibus e caminhões. A trilha é reta, porém traiçoeira.
             Chego bem horário em que o sino da escola toca. Encosto a bicicleta no bicicletário. A roda da frente entra entre duas colunas de ferro, então passo o cabo de aço encapado com plástico alaranjado e giro a chave no cadeado.
            No pátio há filas de cada classe. Fila de meninos e fila de meninas. Todos esperando a professora que guiará as filas de meninos e meninas até a sala de aula correspondente. Antes de seguir todos cantam o hino nacional. A primeira e segunda parte inteirinha sem errar. A posição com a mão direita sobre o peito é obrigatória. Ali, bem firme em cima do coração. Em nome da pátria amada, salve, salve.
       Ao lado do pátio tem uma pequena mureta. Essa mureta tem mais ou menos um metro de altura. É a divisória que separa a fila dos menores, que fazem até quarta série, dos maiores que cursam da quinta a oitava. Os pequeninos colocam suas lancheiras de plástico em cima da mureta. Dentro de cada uma tem sanduíche, biscoito e garrafa plástica com suco.
    Jorginho Espoleta aparece no portão principal sozinho. Ele  cursa a 6ª série C, justamente a minha classe. Toda vez é a mesma coisa, sempre o velho tormento quando ele chega. Ele chega chutando todo mundo, empurrando... Ninguém reclama. Segue até o final ficando por último na fila só para zombar dos que estão na frente. Estou bem ao lado da mureta. Jorginho passa entre mim e as lancheiras. Num leve gesto ele faz questão de derrubar tudo o que pode. As crianças do outro lado correm em desespero. Os recipientes foram abertos. Pão com patê rolando pelo chão, suco de groselha escorrendo pelo piso. Todas lancheiras estouram com o impacto. Alguns sanduíches embalados em papel alumínio ficam intactos. Imediatamente aparece o professor de educação física, instrutor Romualdo, assim ele gosta de ser chamado. Ele pergunta quem foi o autor da arte de derrubar o lanche dos pequenos. Jorginho mais que depressa aponta na minha direção e grita para que todos ouçam: “Foi ele!” Todos, conhecendo a fama de Jorginho, se calam. O instrutor olha com ar desconfiado, faz uma pergunta em tom mais severo: “Alguém aqui viu mais alguma coisa?” Silêncio.
       O instrutor faz um gesto com a mão, o famoso: “Venha comigo”. Vira de costas, sigo atrás enquanto todo mundo fica olhando em silencio. Vamos pelo corredor que leva à diretoria. Lá está sentada, numa mesa imponente, Dona Lígia, senhora extremamente severa em seus conceitos sobre as regras de disciplina escolar. O instrutor explica o ocorrido. A diretora então se dirige a mim perguntando: “Por quê você fez isto?” Eu, com a voz tímida e medrosa, digo: “Eu não fiz nada, foi outro menino que fez. Ele jogou a culpa em mim”.Ela então pergunta de novo: “Qual o nome deste menino?” Eu digo: “Jorginho”. Ela então retruca: “Alguém mais viu isso. Alguém confirma o que está me dizendo?” Eu paro e penso por um segundo, titubeio na   resposta: “Todos viram, mas ninguém vai falar nada porque ele bate em todos da escola”.
Sendo assim, nada poderei fazer a seu favor, ficará suspenso por três dias. Sua mãe ou responsável terá que comparecer na diretoria para ser comunicado do fato. Vou redigir uma carta que deverá ser entregue à sua mãe. Nela explicarei o motivo da sua suspensão. Aguarde no corredor enquanto faço a carta. 
       Espero sentando no grande banco de madeira. Encosto a cabeça na parede, fiquei completamente desolado com a situação. Penso em qual desculpa vou inventar para minha mãe. Cachimba sumiu e agora essa suspensão por indisciplina. O que mais pode me acontecer? Só falta o trem me atropelar na hora que eu cruzar a via férrea de bicicleta na volta para casa.
      O instrutor me entrega a carta, seguimos de volta pelo corredor. Aviso que preciso ir até o bicicletário. Ele me acompanha. Destravo o cadeado, amarro a corrente encapada embaixo do selim, empurro a bicicleta até o portão principal. O instrutor puxa o ferrolho de ferro. Ao sair olho para os lados, vou pedalando. Penso: "O que fazer agora?".
       Subo a rua Dom Bosco, cruzo a via férrea, olho para dois lados para me certificar que não vem trem, sigo pela grande avenida até a igreja de Santo Antonio. Depois da igreja acaba o asfalto. Jorginho mora na primeira rua do lado esquerdo. Eu moro na sexta rua. Não sei porque, mas resolvo entrar na rua que ele mora só para contar para mãe dele o que ele fez na escola. Vou pedalando bem devagar. Olho casa por casa do beco que sai no grande campo de dá para o rio.
       Paro diante da casa de Jorginho. Janelas e portas fechadas. O portão da casa dele é feito de estrado de cama de casal. A casa parece abandonada, aspecto de casa assombrada. Jorginho mora com a mãe e duas irmãs mais novas que ele. A pintura é bem antiga, por isso está descascando tanto. As calhas da parte da frente estão apodrecidas e enferrujadas. Há montes de entulho na entrada. Na parte do quintal da frente tem um sofá velho, ripas de madeira espalhadas pelo chão, restos de canos e uma vara de pescar enorme encostada na parede. Desço da bicicleta, puxo a pequena haste conhecida como pezinho. Bato palmas e espero. Nada. Bato palmas outra vez. Ninguém atende. A vizinha do lado direito sai na janela e não diz nada. Pergunto: “A Senhora sabe se a mãe do Jorginho está em casa?” Ela responde: “Não tem ninguém. Todos saíram deixando uma cachorra sem água e comida desde ontem. Eu vejo tudo pela janela do meu quarto dos fundos. A cachorra estava bebendo água que empoçou da chuva. Uma judiação com o pobre bicho”. Logo me vem uma cena na cabeça. Digo a ela: “Senhora. A cachorra é minha. Eu emprestei para o Jorginho. Agora pouco encontrei com ele na escola. Ele me disse que eu podia passar aqui e pegar de volta”. Ela pensa um pouco e diz: “Ah menino, sei não. Vá lá. Entre e pegue a bichinha. Tadinha dela. Esse pessoal é muito malvado com os animais. Essa é a quinta cachorra que eles trazem em menos de três meses, vai logo, pegue e vá embora!”. Empurro o portão de estrado de cama, ele trava no chão de barro. Passo apertado pelo canto. No corredor, deitada por cima de papelão molhado, está Cachimba bem desolada. Ela levanta os olhos, olha com olhar de arrependimento. Seguro a menina no colo, saio quase correndo. Ela está com um ferimento na orelha esquerda. Também carrapatos grudados na pele da barriga. Um enorme bicho cinza grudado no pescoço. Deve haver vários escondidos. Seguro a menina no colo, subo na bicicleta, saio agradecendo aquela senhora boazinha. Com uma das mãos seguro no guidão, com a outra empurro cachimba contra a minha barriga. Vou meio desajeitado até chegar em casa. Coloco a menina no corredor. Ela anda, busca o caminho da casinha improvisada. Vai devagar, vira na esquina da construção. Deita sob o cobertinho. Ela está com aparência de doente. Busco comida e água para a menina cansada. As duas vasilhas ficam repletas. Empurro para pertinho dela. Ela come e depois bebe água. Em seguida a doce menina estica a cabeça, faz do corpo um caracol, enfia o focinho entre as pernas dianteiras e fecha os olhos ficando  bem quietinha no canto.
Penso o que farei com Jorginho e sua turma? Imagino o que minha mãe fará comigo quando souber da suspensão.
Elaboro alguns planos de vingança.
    Jorginho vai me pagar por cada carrapato que eu retirar de Cachimba. Penso em algo prático, uma lição. Algum plano que não me exponha como autor, ou ao ridículo de receber a culpa. Mas se acontecer de ser reconhecido culpado, será com justiça. Serei digno dessa culpa. Terei o reconhecimento em ter feito algo que muitos gostariam de fazer e não fazem por medo.
Serei justo, mas, impiedoso. Tão malvado como ele é.
Ao descobrir essas coisas que ele faz me torno outra pessoa. Esse menino aqui não levará mais desaforo pra casa. Cachimba me inspira a lutar por ela e por mim. Minha mãe me ensina a ser forte. A vida me mostra o quanto preciso ser destemido.
      Olhando essas feridas nas marcas do sangue sugado pelos carrapatos relembro dos fatos. Chega até mim a visão daquela surra na rua que ainda carrego dores. Lembro do meu nariz quase quebrado por ele, das minhas dores no corpo, do meu sono interrompido, do meu sobressalto na madrugada com os passos no corredor, lembro muito bem da visão de Jorginho falando bobagens no ouvido de Sandrinha. Vou remoendo tudo inclusive a minha corrida pelo pasto e o medo da diretora da escola. Jorginho é o culpado por tudo. Terá sua pena paga em minhas mãos. Eu me libertarei de todos os pesadelos dessa vida. Da sua covardia em ser sorrateiro tirei o ensinamento. Ele me fará um herói. Desse medo alcançarei a libertação. Aguarde Jorginho, o seu dia vai chegar!
        Os pensamentos mudam de situação. Tenho praticamente o dia inteiro para buscar uma explicação muito justa para dar à minha mãe. Já decidi. Contarei a verdade, nada mais que a verdade. Foi tudo culpa do Jorginho.
              É um momento de inteligência e solidão. Assim penso melhor em todas as frases extraordinárias que ouvi durante essa manhã agitada.
           Toda adversidade tem um lado bom, aquele de quão bela é a vida . Mas isso só acontece quando demonstramos compreensão dos fatos. Em todas atitudes repensadas enxergo os meus erros e minhas escolhas.
        São dez e pouco da manhã, nem tirei a roupa da escola. Reviro todas gavetas da cômoda onde minha mãe guarda seus apetrechos de beleza. Encontro uma pinça de metal. Pego o cinzeiro da mesa da cozinha. Agora vou ao quintal dos fundos em busca de cachimba. Ela dorme serenamente na mesma posição de caracol. Puxo a menina pelo dorso. Ela está molenga. Os ossos das costelas parecem bem salientes na pele. Deito a moça em cima da minha perna. Encontro os carrapatos grudados na sua barriga. Eles têm cor cinza com pontinhos pretos. Vou arrancando um por um com a pinça. Coloco as pestes dentro do cinzeiro. Vou juntado mais. Tem carrapatos pequenos e achatados, muito difíceis de arrancar. A orelha da menina está machucada. Na beirada da ferida tem uma fileira desses carrapatos achatados. Enquanto puxo um a um ela reclama virando a cabeça de lado. Aprendi na escola que estes carrapatos grandes transmitem uma doença mortal chamada leisch... Não sei falar o nome direito. Tenho que consultar o livro de ciências. Todos carrapatos grandes foram desgrudados. Procuro os pequenos por debaixo dos pêlos. Largo a menina um instante. Preciso de fósforos. Rasgo e amasso um pedaço de papel de embrulhar pão, ateio fogo. Jogo dentro do cinzeiro. É uma fogueira de carrapatos. O fogo levanta enquanto as pestes ardem. Vou até a casinha de Cachimba buscar o pano em que ela dorme. Levo o pano infestado para a parte de terra do quintal, chego bem pertinho da bananeira. Risco um fósforo, mas o vento apaga. Vejo no chão um pedaço de jornal antigo, risco outro fósforo em cima do jornal. Ele pega fogo, atiro em cima do pano velho cheio de carrapatos. O pano impregnado começa pegando fogo pelos fiapos puxados nas beiradas. Fico feliz. Checo as minhas roupas nos detalhes. Vejo marcas de sangue na camisa da escola, sujeira na bermuda azul marinho. Alguns carrapatos pequenos ainda insistem em se esconder no pano de algodão da bermuda. Arranco a roupa no quintal, fico só de cuecas. Chego no tanque de lavar roupas, passo a escova na camisa e na bermuda. Em seguida mergulho as duas peças numa bacia com água misturada com sabão em pó. Vou dar um descanso de duas horas para depois torcer.
          Visto a roupa de ficar em casa, retorno até o fundo do quintal. Peppers ouve rock a toda altura. Vou até o muro que divide as casas, grito o seu nome. Ele aparece na porta da cozinha com rosto amassado, cabelos desgrenhados,  barba por fazer. Os olhos estreitos piscam muito, parecem incomodados com a claridade do sol. Comento que preciso de um remédio para passar em Cachimba. Relato detalhes da história dos carrapatos. Ele vira de costas sem falar nada e adentra a casa coçando a bunda. Eu aguardo um pouco. Logo retorna com um tubo de pomada, mais umas ervas esquisitas na outra mão. Boceja o tempo todo  enquanto orienta: “Isto se chama erva de santa Maria. Faça um chá. Quando esfriar passe com um chumaço de algodão nas partes onde os bichos grudaram. Deixe agir por alguns minutos. Depois passe essa pomada cicatrizante nos pontos machucados, use pouca pomada porque se ela lamber faz mal, não esqueça disso”.
          Agradeço e corro para casa. Coloco a chaleira no fogo com meio litro de água, quando começa a fervura desligo o fogo e vou mergulhando o mato verde. Empurro com uma colher de pau, tampo e deixo ali por um tempo, isso até esfriar.
        Depois de fazer tudo direitinho vou almoçar. Fiz tudo do jeito que Peppers mandou.
       Já arrumei a bagunça cozinha. Tudo lavado e guardado. Vou dar uma lição de ânimo na menina. Seguro a moça nos braços e saio para rua. Novamente a grande avenida é o nosso destino. O rumo é o centro da cidade. Já passa do meio dia e meia e os alunos voltam da escola. O sol deixa o barro da grande avenida duro e esfarelando. Vou conversando com a minha menina, mas ele nem responde. De vez em quando levanta a cabeça para olhar para trás. Parece que agora só quer ficar no colo. Sei que precisa de muito carinho, mas assim não dá. Deslizo a minha mão por sua cabeça, ela amolece de preguiça.
      Ando dois quarteirões quando acabo encontrando uma turma de meninos da escola. Eles estão parados conversando. Eu me aproximo deles tentando participar da conversa. Eis que surge, saindo da sorveteria, Jorginho Espoleta. Ele me olha de longe, quando nota que Cachimba está em meus braços vem igual uma fera no rumo da gente. Os meninos pressentindo que poderia acontecer coisa ruim se afastam para longe de mim. Jorginho chega e pergunta: “Encontrou sua namorada? Agora você está feliz, né muleque? Tem com quem dormir abraçadinho. Vou te dar de presente uma boneca sem cabeça que a minha irmã jogou fora. Você é bem mariquinha mesmo!”. Os meninos olham e ameaçam rir. Jorginho continua: “Olhem pra ele, tem como namorada uma cachorra. Nunca vi este moleque com uma menina. Só pensa em andar pra cima pra baixo com esta cadela fedida.” Os meninos desatam a rir da situação. Tudo está do jeito que Jorginho gosta. Ele é o centro das atenções.
    Nisto surge do nada, Sandrinha. Ela chega perto. Os meninos silenciam. Ela olha o jeito de Cachimba, tasca a pergunta: “Ela está doente?” Antes que eu responda Jorginho se adianta: “Ele deu um beijo na boca dela, por isso a cadelinha ficou desmilinguida! É a namorada dele!”. Os meninos riem timidamente.
Sandrinha percebe o ar zombeteiro de Jorginho. Então surpreende a todos com uma declaração: “Eu que sou namorada dele!” Todos param de rir no mesmo instante. Jorginho arregala os olhos. O globo ocular de branco vira vermelho. Ele fica muito impaciente.  Olha pra cima em seguida para o chão. Pensa um pouco e sacode a cabeça em sinal de reprovação. Sai sem falar nada. Os meninos seguem o caminho porque a chacota acabou. Sandrinha pergunta onde estou indo. Digo que estou passeando. Ela então diz que vai até a sorveteria, comenta que o dinheiro que tem dá para dois sorvetes. Eu vou com ela. Fico parado na porta com Cachimba nos braços, digo para Sandrinha que pode me trazer um sorvete de chocolate. Demora um pouco, logo ela aparece com dois picolés de chocolate. Fazemos o caminho de volta junto. O calor é forte e os pingos do sorvete caem por cima de Cachimba. Caminhamos um pouco em silencio. ela usa um vestido amarelo bem estampado em coloridos vivos. Carrega um girassol nos cabelos. Então de repente pergunta: “Você já namorou?” Fico vermelho da cabeça aos pés. Respondo: “Não ria de mim, mas nunca namorei. Mas já peguei na mão de uma menina”.
Ela diz: “Sério? Então faz assim: agora que terminou o sorvete segura na minha mão!” Meus dedos estão grudando, a mão começa suar e o coração dispara sem controle. Ela tem uma mão tão suave quanto o veludo. Ela me olha de lado dando um sorriso fechado, seguimos assim por mais um quarteirão. Chegando perto da nossa rua ela pára. Solta a minha mão e pede para não acompanha-la adiante. Dá um beijo no meu rosto, acaricia suavemente a cabeça de Cachimba, vira-se e segue sozinha. Vou devagar, fico para trás. Caminho admirando esse momento. Nem vejo as pedras na rua, dou topada atrás de topada, chego devagar em casa. Estou com as pontas dos dedos do pés doendo. Coloco a menina no chão do corredor lateral. Vou deitar e sonhar com Sandrinha. É o sonho vespertino de um coração incontrolável. Tive Cachimba no meu colo e Sandrinha na minha mão. O vento quente entra pela janela da sala levantando a cortina empoeirada. Do sofá vejo o céu azul onde tem uma trilha de nuvens claras. Adormeço. Sonho sonhos malucos, sonhos bons. Penso em Sandrinha. Sonho com Sandrinha. O meu sonho repete a vida. A respiração é tão ofegante quando penso nela. Tenho uma conversa interior. Ela diz que tenho que sonhar. Sonhar um mundo inacreditável e colorido. Um mundo cheio de cores no tecido e flores no cabelo. Os dedos escorregam pelo corpo, o olhar se perde, a dor da saudade fica no tempo que demora a passar, por isso tento dormir. Que toda alegria ressurja na hora que eu acordar desse sonho. Que a minha ilusão seja a grande companheira que se torna realidade. Cachimba é a melhor companhia, Sandrinha é a maior esperança. Que o sol continue a brilhar enquanto os seus olhos me seguirem. Estou no sofá. O vento quente do começo da tarde ainda entra pela janela. O meu coração dispara porque estou em êxtase. Entrei na esfera que gira me trazendo sempre ao mesmo  ponto de onde parti. Sou agora o espírito que viaja no coração que bate em ritmo disparado. A mente planeja o caminho para um destino incerto. Todo erro tem castigo. O meu sonho bom que vira pesadelo e o meu pesadelo que vira sonho bom. Sandrinha com seu sorriso está desaparecendo desse sonho. Ouço Cachimba chorando baixinho enquanto Jorginho ri às gargalhadas. Agora estou acuado.
   Cachimba dorme. Eu durmo. Sandrinha se mantém no alto do pedestal. Ela é linda como uma santa salvadora. O sonho se apaga da mente enquanto mergulho na escuridão.

Continua... Próxima publicação dia 15 de abril

3 comentários:

  1. Patricia Ramos Sodero12 de abril de 2012 22:11

    Triste realidade vive nosso personagem naquele momento...os efeitos da erva ainda o tormentam...ele sabe que é o culpado pelo sumiço de Cachimba.Um deslize fez a "menina" parar nos braços do seu pior inimigo.Afinal, porque Jorginho Espoleta persegue tanto o Pedrinho??? Seria inveja, por Sandrinha não esconder seus encantos por ele??? Seria o fato de ter uma mãe, que se importava com ele,mesmo sendo muito rude às vezes??? Todos sabem que mãe que é mãe, repreende mesmo.E Jorginho não tinha nada disso.Fazia o que queria e todos se calavam de medo.
    Mas, nosso personagem está se cansando de ser bonzinho e ingênuo.....promete vinganças!!! Isso o consome agora, principalmente depois de ver o que tinha feito com sua "menina"...Sandrinha, com a atitude que teve, o fortaleceu mais ainda.
    Enfim, surpresas incríveis estão por vir....isso é certo!!!Nosso personagem será outro, a partir de agora.....
    Comovente capítulo, Renato....aguardo,ansiosa como sempre,os que virão....
    Parabéns!!! Bjos...

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  2. Que desespero! Onde andará a menina de Pedro? Nem sabe por onde começar a procurar e ainda se culpa por te-la deixado sozinha. Neste momento de aflição até o apelo para o Santo é importante. Desolado com a situação ainda tem que ouvir a ladainha e bronca da mãe. Antigamente as crianças que ficavam sozinhas tinham responsabilidades. Cuidar de louças, roupas,da casa etc etc, que dó...Hora do banho, coisa gostosa ele estar descobrindo sua sensiblidade. E ja entende que brincar no chuveiro e pensar em Sandrinha é uma gostosa brincadeira rsrsrs. Mas os gritos da mãe interrompe sua brincadeira. Vltando a sua realidade, não consegue focar em nada. Novamente esse Jorginho. Que moleque pentelho para aprontar, como sempre Pedro se ferra. Sempre tem um valentão nas escolas. Mais essa agora, uma suspensão. Ainda bem que teve a idéia de passar na casa de Jorginho, assim achou sua menina. Casa não, pela descrição, uma moloca isso sim. O ódio de Pedro nasceu, o menino meigo esta morrendo e deixando um outro nascer. Jorginho se tornou o horror de Pedro e meu também. Coitadinha da menina, machucada e cheia de malditos carrapatos...que praga essa. Mas como td criança que ama seu bichinho, Pedro cuidou, mesmo doidão Peppers ajudou, isso é bem legal. Adorei o bota fora que Sandrinha deu em Jorginho, bem feito!!! Beijo no rosto e mãos dadas...Pedro esta nas nuvens, seu dia se torna bem colorido. Mas afinal, será que Sandrinha esta gostando de Pedro? Fiquei mega curiosa. Gostei do capítulo. Novas descobertas, novos sentimentos... voce é bom heim Mocinho!!!! bjks no coração.

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  3. Nossa até que enfim Pedro encontra Cachimba,que maldade daquele menino que se acha o tal,uma implicância sem fim coitado do Pedro levou suspensão.Fico imaginando a mãe quando souber complicado.Pelo menos Pedro vai começar a tomar uma atitude contra esse menino.O legal mesmo foi quando Sandrinha colocou o infeliz no lugar dele gostei,se acha o gostosão e não é nada a menina tem atitude,srsr.
    Bjs.Andréa Cardoso.

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