sábado, 7 de abril de 2012

Cachimba Reeditado Parte 3

     O som é muito alto. É entoado um grande batuque no começo de tarde. As batidas são de atabaques em ritmo acelerado.
Lavo o rosto, penso um pouco, levanto o olhar diante do espelho velho completamente amarelado pelo tempo. Esse espelho já estava na parede do banheiro quando mudamos para cá. A música alucinante estimula os sentidos, ferve o sangue. Balanço e sacudo a cabeça. Bato com a ponta dos pés no chão enquanto penteio os cabelos. A música alta rompe todas fronteiras da vizinhança. Abro a porta do banheiro, piso no corredor. Dou de cara com a mãe saindo do quarto. Ela esbraveja: “- De onde vem essa música infernal? Esses vizinhos sempre perturbando o sossego da gente. Que saco é isso! Estou indo trabalhar. Cuide direitinho da casa! O seu almoço está em cima do fogão. Deixe tudo limpo, por favor”.
          Ela dá um beijo na minha testa, em seguida sai pela porta da sala.
Faço o caminho oposto, vou pela porta da cozinha. O som vem do fundo do quintal, bem perto do banheirinho de bichos rastejantes.
A melodia vai ficando mais nítida e envolvente quando me aproximo.
Na casa ao lado mora Peppers. Ele colocou caixas de som no quintal. O equipamento é potente. Um dia me falou que gosta de ser chamado de Peppers porque é fã dos Beatles. O seu nome verdadeiro é Roberto.
Ele usa cabelos compridos e bem encaracolados. Tem uma barbicha mal cuidada com um bigode mal feito, pendem vários pêlos entrando na boca. Veste calças de veludo azul muito desbotadas que combina com a camiseta florida.
Os olhos azuis contrastam com a pele morena do sol. Ele se parece com o Jesus cristo que vi um dia desenhado na parede.
Eu acho que ele tem mais ou menos vinte anos de idade. Ouvi dizer que ele faz filosofia na universidade da cidade vizinha. É um tipinho bem esquisito esse meu vizinho. Sempre é visto passando pela rua carregando um punhado de livros. E mais, sempre tem vários discos de rock debaixo do braço.
           Hoje é segunda-feira, meus ossos doem. Nem quero saber de ir para escola. A minha cara está inchada, fiquei com olheiras grandes. Com toda certeza é o resultado daquele sono com pesadelos.
Peppers está debruçado no muro olhando Cachimba toda esticada ao sol.
Quando ele me vê saindo pela porta, diz: “- Garoto, vem aqui!”.
Respondo: “–Agora não posso. Tenho que cuidar da minha menina”.
Ele diz: “- Venha quando terminar. Vamos ouvir algumas músicas. Agora estou ouvindo Carlos Santana. Você conhece?” Faço um aperto nos lábios de um jeito contrariado enquanto balanço a cabeça num aceno negativo.
Apresso o meu trabalho. É hora de lavar e esfregar as vasilhas da menina.
Noto que Cachimba está mais disposta que nos dias anteriores. Está tão animada que fica pulando de um lado para outro. Acaba se enroscando na minha perna enquanto jogo água no cimentado cinza. Brinco. Atiro respingos de água na doce menina. Ela foge para dentro da casinha toda faceira. Em seguida coloca a cabeça para fora quando  viro de costas. Lá vem de novo. Pula nas pernas outra vez. Atiro mais água e ela dá uns passos para trás sacudindo o corpinho. Vou aproveitar o sol para dar um belo banho nessa mocinha, assim ela se seca rápido. Encho o tanque até a metade. A água parece morna em cima, talvez um pouco fria no fundo.
     Coloco Cachimba devagar dentro do tanque. Primeiro mergulho as patinhas traseiras. Vou jogando água com as mãos, passo a pedra de sabão esfregando a pelagem da moça. Ela gosta tanto de sentir essa sensação da água no pescoço que dá vontade ficar fazendo assim a tarde toda. Ela treme de vez em quando, não está mais gostando, também pudera, já estamos aqui tem mais de dez minutos. Pego a toalha de banho da minha mãe que está pendurada no varal. Com ela enxugo a menina. Começo pela cabeça, passo por cima e por baixo do corpinho até chegar no rabinho fino. Bato a toalha para soltar os pêlos que grudaram. Penduro de novo no varal do jeitinho que encontrei. Ela estava presa com três prendedores, não esqueço nenhum. O sol está tão quente agora.  Em alguns minutos iremos passear um pouco na casa de Peppers, só para ouvir música de gente maluca.
Coloco a coleira na menina para irmos até a casa do meu amigo mais velho que eu. Passo Cachimba por cima do muro, entrego em suas mãos. Ele demonstra ter carinho por animais. Escalo a pequena muralha, num movimento pulo para dentro do quintal batendo com as plantas dos pés no chão. O maluco pede para que eu me sente num tronco de madeira redondo que é usado como banco. Mostra uma pilha de discos de vinil dentro de uma caixa de madeira. Diz que posso mexer passando um após o outro. Retira do meio dessa pilha um disco que tem uma capa linda. É todinha preta com listas coloridas. Tem o desenho de um triangulo bem no meio da capa. De um lado entra um foco de luz branca e do lado seguinte do triangulo sai um foco colorido. Ele diz que esse desenho é de um prisma.
 Coloca o disco de vinil na vitrola, aumenta o som, diz assim: “- Agora você vai fazer uma viagem pelo universo dos efeitos sonoros”.
O som é da batida do coração, pulsa devagar e  vai aumentando. Uma voz sai das caixas de som falando coisas incompreensíveis, tudo em inglês. O som de um relógio marca o ritmo. Faz um tipo de toc toc que hipnotiza a gente. No ápice da seqüência surge um grito de loucura.
Peppers olha para o céu e diz: “- No dia que você compreender esse tipo de música estará pronto para sentir as emoções da intuição. Enxergará o vislumbre das cores opacas que emanam do universo, tudo vindo lá de cima num raio mágico e doce”.
Não entendo o que isso quer dizer. Tento decifrar esse enigma por alguns segundos. Cachimba está quieta. Encontrou um cantinho para deitar perto do tronco que virou banco, ela coloca as patinhas da frente dobradas e o queixo rente ao chão. Na continuação da música aparecem novos sons esquisitos, são passos seguidos de algo parecido com anúncio de aeroporto que já vi nos filmes de tv, logo depois aparecem risadas. Cachimba levanta as orelhas, olha para a caixa de som. Ao barulho de badaladas de relógio ela começa latir para o alto falante. Nós ficamos surpreendidos com a atitude dela. Peppers pega no pequeno braço do toca discos, vai com todo cuidado posicionando a agulha na parte anterior da música. Recoloca bem de onde a menina havia se levantado para latir. Novamente o mesmo efeito sobre ela. A moça fica inquieta, se mexe, tenta de todo jeito avançar na caixa de som. Seguro pela coleira. Peppers abaixa a música que nem é música, é só uma espécie de ruído.
 Ordeno: “- Quieta Cachimba!” Passo a mão por cima dela até que se acalme. Olha brava para a caixa de som. Nós rimos muito da situação.
Ele pergunta: “- Você já fumou alguma vez?” Respondo: “- Claro que sim. Fumei uma vez. Roubei um cigarro na carteira da minha mãe”.
 Ele diz: “- Você não sabe o quanto é bom fumar um cigarro diferente daquele que sua mãe fuma. Fique aqui que já volto”. Ele segue para dentro da casa e retorna em menos de 1 minuto.
Aparece esfregando os dedos da mão direita na palma da mão esquerda. Vejo alguns galhinhos secos e umas sementinhas sendo apertadas. Ele aperta com mais força, parece impaciente. Puxa do bolso um papel branco, diz que aquilo se chama seda. Bota todo o mato amassado cuidadosamente no papel dobrado, isso sem derramar nadinha. Aperta uma ponta, vira e aperta a ponta do lado oposto. Passa delicadamente o dedo indicador deslizando com o polegar por toda superfície do cigarro cilíndrico artesanal.
Acende com o isqueiro. Sobe uma grande chama que se forma na ponta. Ele balança forte até que a chama some e fica só uma brasa. Dá uma tragada forte, segura o ar. Que careta feia ele faz após alguns segundos segurando a fumaça dentro da boca! Solta toda fumaça cheirosa bem na minha cara. O cheiro agrada, é bem diferente. Peppers oferece:
“- Pega aqui na ponta segurando bem firme. Dá uma sugada, segura um pouco, feche a boca e o nariz”.
Fico cismado com a cena. Imagino se a minha mãe descobre o que estou fazendo aqui.
Agora ordena: “– Vai moleque, toma coragem, dá logo um brilho na mente, fume um bocado”.
Encosto os lábios na ponta babada do cigarro de mato, dou uma tragada, seguro a fumaça dentro e solto. Passo de volta para não aceitar mais.
Do nada surgem ruídos, ouço máquinas registradoras abrindo e fechando. As moedas estão se chocando. É um vai e vem de gavetas que não pára mais. Moedas começam flutuar no ar, notas de dinheiro sobem na direção do céu. Um trem apita ao longe. Óia só, lá vem o trem! “– Peppers você ouve o trem?”. Ele vem chegando com um carregamento de moedas de ouro, é o ouro que reluz e cega. Veio das nuvens junto com papai Noel em seu trenó de madeira. “– Peppers você vê Papai Noel?”.  Os meus olhos estão ardendo tanto, a boca ressecada está grudada. Os movimentos do corpo são em câmera lenta e o raciocínio em fantasia. Tento abaixar para pegar Cachimba. Tenho que voltar para casa agora. O percurso até a minha menina é tão longo. Fico parado minutos na mesma posição. O azul do céu insiste em mudar para branco na direção do horizonte. Os pensamentos são dinâmicos e fora de lógica. Talvez a imagem daquele tanto de dinheiro indo para o céu se inverta, quem sabe chova sobre a minha cabeça todas notas e moedas que vi sumindo na imensidão, ou talvez, quem sabe, caía do céu doce de abóbora em formato de coração. A melodia da música de gente doida rola solta pela vizinhança. Um sorriso aparece nesse rosto machucado. Que legal, estou entorpecido, não sinto nenhuma dor. Estou tomado pela fantasia de viajar por céus de marmelada, sei que agora estou bem vivo, mas, em outro mundo. Vou cantando a música que nunca ouvi, canto sem mover os lábios. Ouço perfeitamente tudo, imagino letras na forma de um grande luminoso passando diante de mim. São letras enormes saltando da tela do cine união, o único cinema dessa cidade que só tem ruas de terra e paralelepípedos.
Peppers deita de costas no chão cimentado, coloca um livro aberto sobre o rosto. Estica as pernas cruzando uma sobre a outra, fica imóvel. Essa música que não pára de girar na minha cabeça diz algo assim:

The lunatic is on the grass.
The lunatic is on the grass.
Remembering games and daisy chains and laughs.
Got to keep the loonies on the path

O lunático está no gramado
O lunático está no gramado
Lembrando-se de jogos, correntes de margaridas e gargalhadas.
Temos que deixar os loucos no rumo

    As horas passam, a música acaba, Peppers ronca no cimentado. O efeito da fumaça vai embora da mente. Sinto uma fome imensa, também sede de deserto. Quero recostar, porque deu uma moleza no corpo, preciso dormir.
Aviso para Peppers que vou embora, ele nem se mexe.
Passo Cachimba por cima do muro. Largo a menina solta para que siga até a casinha improvisada. Pulo numa ginástica desajeitada para dentro do meu quintal. Ainda estou sem equilíbrio, por isso quase me esborracho no chão de terra. Abro a geladeira, remexo as panelas em cima do fogão, abro o armário chamado dispensa. Tenho que matar urgentemente essa fome que nunca senti antes nessa vida.
      Molhado, sinto que estou muito molhado.   Já são duas e vinte e cinco da tarde e o meu dia não rendeu. O grande relógio redondo pendurado na parede da sala sempre é muito pontual. Sinto o nariz pingando, a orelha direita está encharcada. Quando abro os olhos me deparo com Cachimba lambendo minha cara. Ela lambe tudo que pode, molha cada pedaço do meu rosto. Começa pela orelha, passa pelos olhos até chegar na testa. Estou com a  cabeça fora do travesseiro. Acordo todo torto no sofá e com os pés largados no chão. Não lembro ao certo, mas acho que desmaiei e peguei no sono depois de ter comido até as raspas do fundo da panela.
     Não lembro de absolutamente nada, muito menos de  como o travesseiro veio do quarto até o sofá.
     Os flashes de algumas  lembranças aparecem. Lembro da fumaça daquele cigarrinho do diabo, passando diante dos meus olhos.
     Aquilo no primeiro momento me trouxe um tipo de sentimento excitante. Jamais  senti  uma sensação assim. Pela primeira vez me vi sorrindo. Eu tinha um sorriso que não fechava. Aquilo me fez uma pessoa inspirada e feliz por alguns instantes, mas depois caiu um sentimento de culpa e desanimo no corpo.
        Eu sei que vi luzes e  admirei o verde da natureza que parecia mas verde do que na primavera. A cabeça dói tanto, parece que chacoalha alguma coisa lá dentro.
     O relógio da parede que sempre marca a hora exata, foi um presente da tia da minha mãe. Tia Mariquinha faleceu há mais de dois anos. A coitada  morreu num asilo. Quando eu tinha sete anos vi tia Mariquinha pela última vez.  Ela conversava bem, contava histórias dos tempos que freqüentava a igreja de Santo Antonio do Pari, ali pertinho do bairro do Brás. Falava com entusiasmo de um padre bonitão que conduzia a missão no domingo pela manhã. Ela se sentia seduzida pelos encantos do homem jovem e proibido.
     Os pequenos olhos dela, castanhos claros da cor do mel, brilhavam com as lágrimas vinham do  fundo quando falava do tal padre.
     Ao final da missa dominical  ele fazia sempre  o mesmo ritual. Ficava parado na porta da igreja pegando na mão de todos que iam saindo. Tia Mariquinha era esperta. Esperava no final da fila, sempre por último, só para receber um aperto de mão mais demorado do belo padre.
     Tia mariquinha era tão boa de conversa, mas nunca conseguia dizer uma só palavra quando o padre segurava em sua mão. Quando íamos fazer uma visita na casa de tia Mariquinha, ela sempre perguntava se tínhamos levado bombons, ela  adorava chocolate. Revelava orgulhosamente  a todos que era viciada. Dizia que depois de  viúva vivia  solitária, e o  único sinônimo de felicidade que conhecia vinha do amargo do cacau que ela não dispensava um só dia.
     Levanto do sofá, abro a porta da sala, saio para a varanda dos vasos.  O sol brilha tão intensamente nessa tarde. Não vejo nenhuma nuvenzinha no céu, só a poeira marrom da rua que sobe e se acumula por cima da terra preta dos vasos.
      As flores exalam um perfume maravilhosamente adocicado durante essa  tarde. Minha mãe tem um carinho especial por uma planta que fica no canto. Diz que são seus xodós os  espigões eretos dos dedos de moça. Nesses últimos tempos eles estão bem vermelhos, se destacam  pendendo gloriosamente entre as ramas da samambaia. Os xaxins foram estrategicamente apoiados em hastes de metal fixadas com ganchos nas pontas pendurados no teto.
     Retornando ao fundo do quintal refaço o caminho pelo lado externo da casa. Em cima da casinha improvisada da menina está a corrente que serve de guia. A minha menina está tranqüilamente sentada na porta da cozinha, bem do lado de dentro.   
    Prendo a corrente na coleira e vamos passear um pouco na rua.
     Sigo na direção da grande avenida. Virando para o lado direito iremos no rumo do estádio. Cachimba às vezes me irrita com essa mania de ficar cheirando chão por todo lugar que a gente passa. Ela tem que parar, cheirar, e cheirar mais até cansar. Demora a sair do lugar. Roda, roda e faz meia volta. Muitas vezes perco a paciência e dou um puxão na corrente, só assim ela entende e continua andando.
     O sol está tão quente a essa hora, o suor escorre pela testa, os pés de chinelos estão ásperos com a terra da estrada grudada nas solas. A grande avenida passa pelo estádio e termina na rodovia federal. Vamos devagar andando pelo canto. Algumas pessoas passando olham e brincam com a minha menina.No caminho alcançamos quatro carroças conduzidas por meninos sujos. Duas são bem bonitas, duas são velhinhas caindo aos pedaços. Os cavalos parecem bem alimentados.
     Mais adiante vai uma carroça lotada de mato verde. Ela viaja praticamente no ritmo do meu caminhar. Em seu coche um homem velho carrega uma barba totalmente branca. Esse homem tem uma barriga saliente que salta para fora da calça. Nota-se que é feita de um tecido cheio de remendos. O que segura suas calças é uma corda amarela no lugar da cinta. A carroça está cheia de capim gordura e as ramagens escorrem até o chão pelo fundo sem tampa do veículo surrado.      
     Aquele rabo de mato vai levantando a poeira da estrada. Atravesso para o outro lado da avenida apressando o passo, fico sufocado com a poeira que esse arrasto de mato levanta.
     Do lado direito da avenida vejo casas pequenas, são moradias humildes de gente pobre.
      Do lado oposto vejo só mato. Lá longe, no final do longo caminho de poeira, surge um comboio de vacas, bois e vaqueiros. Há nesse comboio um cavaleiro em destaque, vem bem à frente como líder. O homem usa roupa de couro e um chapéu de aba larga enfiado na cabeça até as sobrancelhas. Carrega na mão direita um chicote cheio de franjas na ponta. Vamos chegando cada vez mais perto da grande boiada. Muitos bichos juntos fazendo barulho. Cachimba se assusta e empaca. Percebo no seu olhar que o humor mudou. Ela trinca os dentes, quer avançar em uma das vacas. Justamente na vaca preta que carrega  manchas brancas no dorso. Ela não tem cara de bons amigos, parece não gostar de cachorro. As tetas dela são enormes e quase se arrastam no chão. O vaqueiro vestido em seu gibão (Eu li essa palavra na escola outro dia. Foi num conto da Raquel de Queiroz) pousa intrépido em cima do cavalo baio que tem como destaque: uma crina prateada e bem escovada. Esse vaqueiro mantém com energia o gado na trilha lateral da avenida.
    Ele não fala uma só palavra que se entenda. Ele emite urros, gritos, assovios. Manda um: Eia, eia, eia. Estala com os beiços.
    Cachimba continua tão inquieta com essa passagem, parece muito impaciente com as vacas. Seguro a moça no colo, apressamos o passo.
     Logo à frente paramos diante de uma árvore grande. É uma sombra perfeita para descansar dessa marcha acelerada e poeirenta.
        Encosto um pouco no tronco, deixo a menina solta para que caminhe e cheire o terreno. Ela vai cheirando o mato, procura sei lá o que. Escava um buraco. Cava, cava, cava. Joga terra em mim. Faz com mais força, cava mais rápido e pára de repente. Enfia o focinho no buraco. Fica estática por um instante. Estica o rabinho. Nunca tinha visto esse rabo numa postura horizontal tão perfeita. Em poucos segundos desmonta o porte de caçada e volta ao normal. Olha meio desanimada e retorna devagar para perto das minhas pernas. Em poucos segundos se ajeita e dorme. Fico imaginando o que será que ela viu. Seria alguma toca? Um buraco de tatu? Ninho de coelhos?  Nunca vi coelhos por aqui.Vai saber...
       Já passam das quatro horas da tarde, o sol está escaldante. Mesmo descansando sombra dessa grande árvore o suor escorre pela testa.
      A menina descansa como uma criança. Agora dorme recostada em minha perna. Fico orgulhoso do seu jeito, pois parece que ela se sente tão segura perto de mim. Percebo que sonha porque mexe os olhos de vez em quando. O que será que sonham os cachorros?
      Já está tarde, temos que seguir o caminho de volta. Fico com dó de acordar a menina, mas precisamos caminhar de novo.
     É hora de voltar para estrada de terra poeirenta que leva para a casa que pertence a nós dois.
      O retorno para casa até que foi rápido e tranqüilo. Levo Cachimba para os fundos, a casinha dela agora está na sombra.    
      Eu não quero que ela fique perambulando pelo quintal cutucando a terra. Deixo a minha menina presa à corrente que se encaixa num pequeno gancho pregado na parede.      
       Ela aqui tem todo o espaço necessário para andar, comer, beber água e até se ajeitar na posição que quiser  dormir.        
       A porta dos fundos está trancada por dentro. Retorno pela lateral da casa, caminho  para a varanda dos vasos para entrar pela sala. Remexo nos bolsos. Onde está a chave? Procuro de novo, nada...
      Meu Deus! Acho que perdi a chave no caminho de volta ou talvez lá debaixo da árvore. E agora?       
        Minha mãe trabalha como empregada doméstica na casa de uma família muito rica. Um povo influente na cidade.
        Tenho que ir até lá. Sei que ela irá me dar bronca ou talvez trame algum castigo quando chegar em casa.
       Volto até o fundo do quintal, monto na bicicleta vermelha, é um modelo dobrável. Pedalo para o centro da cidade, vou rumo à casa dos milionários.
        Vou pedalando enquanto lembro das coisas que ela contou da Dona Marília.          
        Ela me disse que Dona Marília é viúva do homem mais rico que já existiu nessa cidade.
       Ele foi o proprietário da grande usina de açúcar da região, isso nos idos dos anos 50 e 60.
       O império foi crescendo rápido. Gente vinha aos montes de cidades próximas só para trabalhar na famosa usina. Era um tipo de emprego que dava orgulho aos que conseguiam se firmar. Era bem melhor que trabalhar na roça.      
        Dona Marília tem quatro filhos homens. Minha mãe sempre diz que os meninos são gênios. Rapazes muito inteligentes que vivem uma vida de dedicação aos estudos.   
         Minha mãe me contou que dona Marília sempre foi uma mulher excêntrica e cheia de manias esquisitas.
          Ela sempre ia ao restaurante mais chique de qualquer cidade para jantar, pagava caríssimo só para ficar sentada à mesa sem comer nada. E se pedia comida era um punhadinho de coisas sem graça. Quando estava em casa gostava de caminhar de um lado para outro, mas era preguiçosa com qualquer serviço de casa porque tinha empregadas para fazer. Ela nunca colocava mão na louça suja. Minha mãe me disse que os livros da estante pesavam quinze quilos cada um, que eram enciclopédias estrangeiras, escritas em inglês, alemão e até francês. Os livros eram tão impecáveis que pareciam novos. As cores das capas duras chamavam a atenção de longe. Cada capa vermelha tinha um tom cruelmente forte, as amarelas eram ofuscantes e as marrons eram como madeira envelhecida. Uma coisa impressionante, dizia ela.
      Minha mãe falava que Dona Marília tratava os empregados como escravos, mas que ninguém tinha coragem de reclamar, justamente porque a mulher era muito brava e impiedosa. Mandava embora qualquer um que reclamasse do serviço ou falasse que ela era ruim.
     Estou quase chegando, logo após cruzar a linha do trem interestadual, sigo direto pela Rua Dom Bosco na direção do bairro nobre. Onde tudo parece mesmo muito nobre. Os pardais pulam nas árvores da grande alameda. É tão engraçado como eles possuem uma postura diferente dos pardais do meu bairro. Os pássaros desse lugar têm um ar de arrogância, uma falsa dignidade no pousar sobre os galhos das árvores frutíferas nos quintais das mansões. Eu acho que esses pardais têm nome, sobrenome e endereço.
        Aqui tudo é diferente. A rua que chamam de  alameda está muito limpa. Vejo poucas folhas caídas sobre a calçada. O silencio mortal reina em cada esquina. É um cenário diferente do que estou acostumado.
         Eu saio do calçamento de paralelepípedo para um chão preto bem lisinho. Isso que é  asfalto do bom! Não há uma só ondulação nesse piso. O guidão da bicicleta não treme, nada trepida. A roda gira com  uma elegância silenciosa.
Em uma pequena guarita existe o guarda da rua. Ele observava atentamente quem vai e vem. Nem se importa com a minha passagem.
        Eu procuro a casa que tem o número 33.  Vou observando número por número das paredes e muros altos.
        Alguns muros são extensos nas longas propriedades. A alameda está totalmente deserta e as folhas altas das árvores se movem com a suave brisa da tarde.        
       Paro diante da casa. Ela é cercada por grades altas com pontas de lanças a cada metro de distancia. O portão da garagem está fechado. Ao lado vejo um  portãozinho por onde passa pedestre. Aperto a campainha e não ouço barulho algum. Será que é sempre assim em casa de gente rica?
        A construção do casarão começa após um grande jardim com estatuetas de anões. Há uma fonte com chafariz por onde corre a água limpinha. Fico impaciente com a demora.
        A porta da sala se abre, é minha mãe. Ela aparece, fica parada olhando sem entender minha presença no portão.            
        Ela vem andando com passos firmes. Olha para os lados muitas vezes e de um jeito bem contrariado. Chega perto perguntando:
      “- O que aconteceu filho?” “-  Eu avisei pra você que dona Marília não permite que filhos de empregadas venham aqui”.           
      “- Eu sei mãe, mas é que eu perdi a chave da sala, não tenho como entrar em casa”.           
       “– Caspita! Como você é irresponsável!”
   Nisso ela entra quase correndo para buscar a chave na bolsa.
      Enquanto espero parado no portão, observo os detalhes do casarão. As janelas dos quartos ainda estão abertas. Véus de cortinas jogados por cima do batente no segundo andar. A pintura da parede é novinha. É uma casa enorme, alta e com tem três pavimentos.
       Ela corre, entrega as chaves e pede para que eu vá direto pra casa.          
       Embico a bicicleta no rumo do lado pobre da cidade, sigo devagar.          
       A linda tarde de sol está acabando. O astro rei enfraquece, chega uma brisa gostosa que despenteia os cabelos. Os mosquitinhos da noite fazem círculos sobre a cabeça.
       Paro para descansar diante da igreja de Santo Antonio.  As portas estão abertas. Holofotes iluminam o altar onde o Santo segura uma criança no colo. Beatas em vestidos negros chegam a passos rápidos. elas aparecem sempre com as cabeças cobertas por cachecóis pretos de crochê. O alto falante da igreja começa tocar um discurso em latim.          
      Já que não entendo nada do que está sendo dito é melhor continuar o caminho até em casa.
       Entro no beco. Vejo Sandrinha no portão. Ela está meio encostada no tronco de madeira que apóia o portão rústico. Como está linda! Usa um vestido estampado com várias flores desenhadas no tecido. Está calçada com sandálias de tiras feitas a mão. Sandálias lindas com cadarços compridos que vão trançados até a batata de cada perna.
       Vou pedalando devagar, paro em frente da minha casa, faço um leve aceno.  Ela então levanta a cabeça e sorri.
       Encosto a bicicleta no muro, quando vou me aproximar para puxar assunto surge Dona Terezinha. Ela  aparece na janela perguntando o que Sandrinha faz no portão. Disfarço bem  rapidamente. Recuo no passo dado. Abro devagar o pequeno portão branco da minha casa e entro. Novamente vou pelo corredor lateral só para ver se minha menina está dormindo tranquila.
       A noite já caiu. Está bem escuro no quintal. Quero só ver como a minha menina está acomodada na casinha improvisada. Nem parece tão escuro porque o clarão da lua ilumina o quintal. Qual minha surpresa! Eu não estou vendo a corrente grudada no gancho de metal fixado na parede. Abaixo para olhar dentro da casinha. Passo a mão, vou até o fundo. Nada! Está completamente vazia. Cachimba sumiu...


CONTINUA... PRÓXIMA PUBLICAÇÃO DIA 11 de abril

4 comentários:

  1. Patricia Ramos Sodero8 de abril de 2012 23:15

    Incrível capítulo esse....nosso personagem, Pedro, começa enfim a conhecer novas experiências, com a influência de seu vizinho, Peppers, ou melhor, Roberto.O "famoso cigarrinho", chega em seu alcance....delírios,alucinações...efeitos variados que o fazem cair ali mesmo, em chão cinzento.Fora as músicas, que ajudaram a deixar Pedro enlouquecido.Nunca havia se sentido assim antes.Sorte que, Cachimba, em seu sono tranquilo, não viu seu "amigo" passar por tais situações.
    Quando está em pouco mais recuperado, segue de volta pra casa,em meio ainda de tonturas,e vai cuidar de se alimentar...a fome é muita!!!Acorda com Cachimba ao seu redor, sem saber nem como foi parar ali, onde estava.
    Nosso "menino", resolve então,dar umas voltas com sua companheira inseparável....andam muito, mas muito mesmo....lembranças vem em sua mente, como Tia Mariquinha, que já era falecida, mas sofrera com um amor proibido:o padre da cidadezinha.Foram admirando todas as situações que aconteciam no caminho....tudo mesmo.O Sol lhe "torrava",e resolve parar um pouco para descansar e deixar a menina solta, embaixo de uma linda árvore.Típico das pessoas do interior.
    Chega mais uma vez a hora de ir embora.....foi rápido desta vez...na chegada em casa, nosso personagem resolve deixar sua menina mais segura,e como havia tomado banho, não queria que "ela" se sujasse.Deixou-a presa.Acho que a primeira vez que fazia isso.Descobriu que estava sem a chave de casa...teria que ir atrás de sua mãe.
    Num gesto tão rápido,impensado,resolve buscar a chave no serviço da mãe, e deixa a "menina" sozinha.
    Mal sabia ele, que não a encontraria mais em sua chegada.Será que a "menina" sentiu-se abandonada por Pedro, já que iam juntos em todo o lugar???
    Ou será que ela foi justamente procurá-lo e se perdeu???
    Eis a questão....será que Pedro verá sua Cachimba novamente???
    Para isso, temos que aguardar nova publicação do autor...começa a tortura!!!
    Parabéns, Renato. Vamos lá....estou ansiosa pelos próximos acontecimentos!!!
    Bjs...

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  2. Sempre temos um maluco beleza como vizinho, falas altas, musicas altas, pessoas que tem seu mundo e acreditam que ninguém mais existe rsrsrs. E assim vai Pedro, inocente como qualquer criança da sua época. Carinhoso e sendo companheiro inseparável de sua menina, compartilhando e ensinando. Sem mesmo perceber se apaixonando aos poucos por Sandrinha. Esse sentimento é tão gostoso e puro nesta idade. Se bem que nesta idade ainda não sabemos o que é amor. Poxa!!! seu amigo Peppers não deveria dar o seu cigarrinho mágico p Pedro experimentar. Infelizmente isso acontece e quase sempre vicia....mas faz parte dos caminhos de muitos adolescentes. Tudo é novidade, até mesmo o som da época, fácil de se envolver. Lembro-me do meu bairro, havia também uma família de italianos poderosos. Quem conseguia trabalhar na casa ou na oficina de costura, aguentava de tudo só para ter um emprego. Também não podiamos ir falar cm minha mãe e nem podiamos nos misturar com as crianças da família, hoje sei que o preconceito já existia. Mas como Pedro, ficavamos encantado com o tamanho e a beleza da casa. O que será que houve com a menina? Se ela estava presa, alguém a soltou ou a levou....ai ai ai que aaperto no coração. Só no próximo mesmo para sabermos. Ei mocinho! Parabéns, estou adorando....bjks no coração.

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  3. Hum, o próximo capítulo deve iniciar com grande aflição, onde estará a menina tão querida? Dificilmente se soltaria sozinha, seria obra daqueles moleques encapetados? Será que viram quando Pedro teve que se ausentar e deixa-la sozinha?
    Será que nosso amiguinho ainda estava sob efeito da sua primeira experiência com a maconha? O que será real, o que será alucinação? Aquele vaqueiro e suas vacas, estariam no mesmo patamar das moedas voadoras? O que será que houve realmente com nosso amigo e com sua menina?
    A curiosidade e auto afirmação o levaram ao contato com a droga, depois disso qualquer coisa pode ser colocado em dúvida. Aguardemos o próximo capítulo.

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    1. Vejo que aventura de Pedro é um tanto perigosa hein!!!Um amigo que mal conhece oferecendo droga,que cabeça fraca dele de experimentar!!!Não sei como mãe posso dizer é complicado isso.Espero que ele não continue,infelizmente é uma realidade nos dias de hoje.Onde foi parar sua fiel companheira,estava tão inerte que não a onde deixou a pobre,srsr.Bjs.Andréa Cardoso.

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