Cachimba Reeditado Parte 2

     Uma pirâmide linda foi formada com pelo menos dois metros de altura. Cada um dos lados têm uns três metros de comprimento, toda a base com toras grossas.
  As outras toras de madeira, empilhadas. Na parte de dentro muitos gravetos, galhos secos e móveis velhos.Tudo num enorme amontoado no centro do grande triângulo.
    Um senhor conhecido por Seu Toninho é que comanda toda organização do grande evento do beco. Ele foi por muitos anos organista da igreja do bairro Santo Antonio. Lá do grande depósito de entulhos daquela igreja, acabou trazendo os sete bancos de madeira compridos que agora estão colocados estrategicamente na rua. Nesses bancos duros os mais idosos se sentam para papear.
     Seu Toninho é um homem de cabelos brancos que aparenta uns sessenta anos.  Ele gosta muito de fazer essas festanças na rua. Ele fica do demais contente quando percebe que todos moradores participam. Ele se torna um tipo de conciliador daqueles que brigaram e ficaram de mal.
     Esse velho homem é muito ágil para botar fogo na grande pirâmide.
      Tem uma habilidade mágica. Ele o faz como se fosse uma dança solo de cigano, saltita pra lá e pra cá. 
      É um momento solene para todos expectadores. Isso com certeza é sim!
      Todos rodeiam o grande monte de madeiras, ele segura uma garrafa de vidro. Balança pra cá, balança pra lá, abre e espalha. O que sai dali é uma rajada de liquido incolor que se espalha sobre as toras.
      Logo em seguida ele sai, entra em casa. Retorna empunhando um pedaço de papelão enrolado, vem pegando fogo. Enfia rapidamente por entre a primeira e segunda toras.
Uma chama grande explode e abaixa, vai se espalhando rapidamente. Segue com muita volúpia até ir amainando, mantém-se na mesma intensidade por um tempo. Agora a chama queima as cascas finas dos gravetos empilhados. 
     Depois de observar atentamente toda essa linda cerimônia da iniciação do fogo, volto para casa. Pretendo trazer Cachimba para cá.
Essa será a primeira vez que a minha menina estará envolvida no meio de uma multidão tão barulhenta. Espero que se comporte e fique bem, principalmente sem aqueles temores anteriores.
     Entro rapidinho, vou pela porta da sala, a mãe está sentada na poltrona de dois lugares assistindo TV.  Conto que as pessoas estão se aglomerando na rua para ver a grande fogueira do Seu Toninho. Pergunto se ela me deixa passear por lá com a menina medrosa. 
     Ela acena com a cabeça, isso sem olhar pra mim, e diz:
    -Leve um agasalho. Não fique perto demais da fogueira.
     Sigo feliz para os fundos da casa.
     Acho melhor, por pura cautela, trazer a menina para rua com coleira e corrente.
     A rua está repleta de pessoas conversando. As mulheres das casas vizinhas trouxeram cadeiras e se acomodaram um pouco mais cedo. Os meninos sentam-se em cima dos muros. Dali observam o fogo tímido que ainda não ousa sair pelas frestas dos troncos.
     O beco tem mais ou menos duzentos e cinqüenta metros de extensão, outro dia contei 25 casas de um lado e 20 do outro, entre as casas ainda existem muitos terrenos vazios cheios de mato alto que ninguém cuida. 
      Olhando minha casa de frente, vejo do lado direito um muro bem alto, é de tijolos sem reboque, por detrás dele tem um terreno com vários pés de milho plantados, esses milharal tem quatro fileiras com mais de trinta árvores em cada uma, formando três longos corredores centrais e dois laterais. O terreno está abandonado faz um bom tempo, por isso que o mato já alcança mais de meio metro de altura lá dentro. As espigas de milho pendem completamente desanimadas, parecem mortas, ressecadas.
     Vou andando devagar pela rua, conduzo Cachimba pela corrente. Ela a todo instante se assusta com a movimentação de gente indo e vindo. Em alguns metros caminhados a menina já trava as patas no chão. Dou um puxão mais forte para, quem sabe na sorte, ela me acompanhar direitinho, mesmo contrariada. Chegamos devagar perto da fogueira. Percebo que ela sente medo do fogo, nisso me afasto para perto da calçada onde estão dois grandes bancos da igreja. Cachimba se enfia por debaixo do banco comprido, deita em forma de caracol. Descobri que ela toma essa posição quando está com medo.
       A notícia da grande fogueira se espalha rápido pelo pequeno bairro. Pessoas vão chegando, aparecem aos montes da avenida de terra, passam pelos dois lados do cavalete que bloqueia a rua do tráfego de veículos. Alguns entram no beco por curiosidade e outros são convidados de moradores daqui.
        Dona Fátima, esposa do seu Toninho, é a pessoa encarregada de servir todos presentes na festa. Ela traz vasilhas enormes com pipoca para as crianças, também têm travessas cheias de bolos de laranja e fubá. Tudo parece bem cortadinho em pedaços quadrados. Ela passa andando devagar, vai servindo as pessoas conhecidas e depois retorna para encher novamente as vasilhas.
        Fico muito quieto por um tempo, observo com curiosidade toda movimentação. Espero que Cachimba se acostume logo com o barulho das conversas e da intensa correria da criançada. Alguns gravetos da fogueira estalam de vez em quando. Isto deixa a menina medrosa bem mais insegura. Ao ouvir o estampido acaba se encolhendo mais por debaixo do banco.
         Velhinhos e velhinhas saem das casas. São tias, tios, avôs e avós dos jovens presentes ao redor da fogueira. Alguns deles só se locomovem com a ajuda de bengala. Acabam por ocupar todos os bancos, jogam conversa fora. Timidamente apontam para os lados. Provavelmente comentam sobre a pintura das casas ou coisas sem importância aparente para mim. Eles não demonstram muita alegria com o acontecimento. Nenhum deles sorri ou faz movimentos ousados. Ficam quase inertes.É uma observação aparentemente triste. Alguns quase cochilam sentados. Imagino: “Estes aí já estão com o pé na cova! Essa droga de rua parece um depósito de gente velha”.
         De repente Seu Toninho chama alguns dos idosos para adentrarem a casa, vão cinco homens quase se arrastando. O retorno deles é um pouco demorado. Alguns minutos se passam, de repente, é quando todos ouvem ruídos diferentes. É o momento que os velhinhos saem de dentro da casa, cada um segura um instrumento. Vejo violão, cavaquinho, pandeiro, sanfona e uma zabumba. Param na calçada, olham ao redor.  Algumas pessoas rapidamente afastam os bancos, as cadeiras, todos dão espaço aos tocadores. Um dos velhinhos abre a contagem: “Um, dois, três...” A música começa. Seu Toninho canta, todos os velhinhos se levantam, seguram nas mãos de suas velhinhas. Levam as companheiras de uma vida inteira para o meio da rua. O clarão da fogueira ilumina bem o piso de terra seca. Começa uma dança tímida. Todos vão se soltando aos poucos, alegremente sorriem, gritam uns para os outros. Fico atônito observando a agilidade dessas pessoas. Como pode? Elas que, há poucos minutos atrás, mal conseguiam andar sem auxilio. É um milagre! A primeira música acaba, entra a segunda, o ritmo cresce. Os velhinhos se empolgam, dançam no meio da rua totalmente a vontade, agem como se estivessem em casa. Depois de duas músicas alguns se cansam, acabam voltando para os bancos, estão esbaforidos da ginástica noturna.
Parece que aqueles que eu rotulei como quase mortos estão bem mais vivos que eu.
   Puxo Cachimba para fora do esconderijo. Pego a moça no colo, vamos para perto da enorme fogueira. Agora sim, as belas labaredas estão altas.
         Avisto Dona Terezinha chegando com uma bandeja enorme nas mãos.  Ela é uma mulher muito grande.  Eu não sei bem, mas acho que pesa uns cento e trinta quilos. Ela anda como uma pata manca. As pernas estão arqueadas e a barriga pende como se fosse um lastro imenso. Ela caminha toda desajeitada. Está curiosa e apressada, segue na direção da fogueira. Logo atrás seguem suas filhas. Lá vêm Sandrinha e Solange.  Volto rápido para o grande banco de madeira. Coloco Cachimba bem acomodada no meu colo. Dona Teresinha entra direto para casa do seu Toninho, acho que vai conversar com dona Fátima a respeito do que trouxe para a festa. As meninas ficam na beira da fogueira. A todo instante Sandrinha olha insistentemente para cá, resolve se aproximar.
Ela diz:
-Oi.
Penso comigo: “Ela tem uma voz tão meiguinha. É quase um suspiro”.
Ela continua: - A cachorra parece medrosa.
 Eu respondo: - Sim. Acho que ela não tem jeito. Nunca vai ser corajosa.
Sandrinha fica em silencio, olha nos meus olhos. Sandrinha passa a mão sobre a pelagem da menina, acaricia vagarosamente o pescoço peludo. A cachorra gosta tanto que até se estica. Isso alivia o seu medo do ambiente hostil. As unhas já não apertam tanto nas minhas pernas.
         O meu olhar e o de Sandrinha se cruzam em alguns momentos, tudo acontece ao mesmo tempo em que olhamos a cachorra preguiçosa se esticando cada vez mais. Esses segundos passam rapidamente. Sandrinha levanta e sai sem dizer nada. Pára diante da fogueira, acompanha a irmã que ficara solitária.
           Estava tudo indo muito bem até agora, mas de repente vejo lá no inicio do beco três meninos chegando. Eles andam pelo meio da rua como se fossem bandoleiros de um filme de bang bang, até parecem os donos da rua. Os predadores chegaram! – Imagino -
 Pedro chulé, Zé preguinho e Jorginho espoleta, esse trio tem fama por aqui.
      Param diante da fogueira. Ficam bem ao lado das meninas. Mais próximo de Sandrinha está Jorginho Espoleta. Ele se aproxima, sussurra na orelha dela algo que ela não gosta. Parece que o tempo vai fechar. Ela fica com cara de brava, sai de perto do moleque atrevido. Caminha em direção à casa de Dona Fátima. De longe faz um gesto com as mãos mandando ele para “aquele” lugar. Elas vão chamar a mãe para tirar satisfações com Jorginho. Algo estranho, que ninguém entendeu, aconteceu ali. Jorginho que se prepare porque Dona Terezinha não leva desaforo para casa, ainda mais se tratando de ofensas às suas filhas.
    As labaredas já estão bem altas.  Toda multidão fica em volta do grande totem. As línguas de fogo têm cores vermelhas, azuis, amarelas. Uma fumaça bem clara sobe tomando conta do céu.
Os meninos predadores procuram alguma coisa provocativa para fazer. Com certeza vão destruir ou quebrar o que acharem pela frente. Ou pior, vão chamar alguém para uma briga desleal. Eles precisavam a todo custo manter a fama de maus. Eles sabem que este é o lugar ideal para que isso aconteça e o boato se espalhe que nem fogo no chão.
Dona Terezinha sai de dentro da casa seguida pelas duas filhas. Ela parece muito brava. O seu olhar busca alguém no meio da multidão. Os três meninos estão de canto, olham de longe, estão encostados no muro de uma casa no outro lado da rua.
       Dona Terezinha caminha até eles a passos firmes e bem tortos.
       Com esses passos arrastados, que levam a poeira do chão, chega perto de Jorginho Espoleta. Ele nem se mexe. Ela coloca o dedo em riste, aponta direto para o nariz dele.  Fala uma porção de palavras que ninguém ouve porque o barulho da festa está muito alto. O rosto dela vai ficando cada vez mais vermelho, os olhos vão arregalando e arregalando mais, o dedo balança furiosamente para cima e para baixo. O grande corpo que carrega com sacrifício, sacode.  A banha balança enquanto esbraveja o esculacho. Jorginho Espoleta fica quieto, abaixa a cabeça, se faz de coitadinho. Quem o visse assim imaginaria uma vítima inocente. Dona Terezinha vendo que não resultaria em nada o tal discurso, resolve repentinamente virar as costas e ir embora. Chama as filhas com um aceno.
         As meninas queriam ficar mais tempo por aqui, parece que vão embora contrariadas. Vejo Sandrinha entrando por último no portão de madeira. Dona Terezinha dá um olhar frisante dirigido à roda de pessoas. Ela continua muito brava com os três encrenqueiros, principalmente com o líder deles.
         As horas passam e pouco a pouco as pessoas vão retornando para suas casas. Os meninos que estavam sentados em cima do muro já foram embora. Os velhinhos se recolheram rapidamente com medo do sereno que começou cair como uma neblina.
Os três predadores continuam sentados em cima de blocos de construção. Ficam conversando bem próximo da fogueira. Jogam pedras no meio da desordem empilhada, fazem isso só para ver o brilho dos estilhaços das brasas espocando no ar.
         A grande fogueira está reduzida a um monte de madeiras caídas queimando devagar.
        Acordo Cachimba que dorme aconchegada no meu colo. Levanto, coloco a menina no chão com muito cuidado. Ela dá uma bela sacudidela no corpo. Seguimos no rumo de casa porque o sono chega devagar.
         Após caminhar uns dez passos percebo que estou sendo seguido. Estou cercado por Jorginho e amigos. Encurto a corrente que guia Cachimba, trago a moça para mais próximo do meu pé, paro a caminhada.
         Jorginho interroga:
          - Lá na beirada do rio você mandou enrabar minha irmã, não foi? –Repete agora se for homem!
          Eu tremi na base, afinal são três contra um.
          Fico em silêncio.
          Jorginho impaciente, pergunta de novo:
           -Não vai responder, marica?
           Tento dar um passo à frente, mas sou parado com a mão no peito. É Zé Preguinho, ele fecha o caminho.
            Jorginho me olha de cima em baixo. Ameaça dar um murro direto na cara. Eu me encolho todo de medo.
             Jorginho diz: - Vi você segurando essa cadela no colo feito uma boneca de menina.
              Tento abaixar para segurar Cachimba e sair correndo. Recebo um chute forte na barriga, nisso caio rolando por cima da minha menina que grita. Zé Preguinho chuta meu corpo, tenta acertar um chute no meu rosto. Eu me viro e o chute dele passa de raspão. Consigo levantar catando cavaco, dou um passo. Jorginho Espoleta coloca o pé em forma de alavanca. Caio de novo, agora de costas na terra. Pedro Chulé puxa a corrente de Cachimba, arrasta a minha menina, ela enfia as unhas no chão de terra e ele insiste nos puxões. Consegue prender a corrente no portão da casa que tem muro amarelo. Deixa a minha menina quase estrangulada com a corrente enrolada no pescoço. Pedro Chulé pega uma pedra grande, é parte do bloco que sentava em cima. Arremessa bem na direção da minha testa. Sinto o vento, a pedra passa de raspão. Jorginho puxa minha camisa, rasga, arranca os botões.  Tenta esmurrar para quebrar meus dentes. Um dos murros desferidos acerta em cheio o meu nariz. O sangue desce.
    Grito. Peço socorro. Grito: Manhêêêêê!!! Tento correr. De novo um dos moleques coloca o pé na frente. Outra vez me esborracho no chão. Raspo cotovelos, joelhos e a pele dos quadris. Estou todo esfolado, sangrando.
           Seu Toninho aparece no portão, olha a confusão.  Grita para que parem a surra. Nesse momento minha mãe aparece no meio da rua. Ela vem praticamente correndo. Os três moleques fogem em desabalada carreira na direção da grande avenida. Seu Toninho me ajuda a levantar. As pernas doem muito. Os braços estão dormentes, o rosto inchado, o nariz sangrando.  Estou chorando, um pouco aos soluços, um pouco aos prantos. As lágrimas rolam misturadas com o sangue que desce do nariz.
           Minha mãe pergunta: - Por quê você arrumou briga na rua? – Eu já não te falei que não era para apanhar de outros moleques?
            Sou levado amparado no ombro dela. Seu Toninho traz Cachimba, deixa a menina na varanda da frente. Agora recebo mercúrio nas feridas, ela cuida dos galos na cabeça e dos hematomas que aparecem no corpo todo.
Ela está muito chateada. Deixa bem claro um aviso: - Agora vá deitar, amanhã a gente conversa direitinho sobre o que aconteceu!
             Meu corpo não pára de doer. É o dia seguinte. Amanheço com um lado do rosto bem mais inchado, o nariz está ferido por dentro e muito esfolado por fora. No canto da boca tem um corte que me incomoda. Vou para a mesa tomar o café da manhã. Ela me espera com olhar severo.
               Diz: - Come bastante que você vai ficar de castigo! Eu te avisei que não era para arrumar briga. E caso apanhasse na rua iria apanhar de novo em casa. Então agora chegou a vez de acertarmos as diferenças.
            -Terminou o café? - Ela pergunta -
            - To terminando! - Eu digo -
-         Então agora vem logo comigo, vamos até o quintal dos fundos.
Ela me leva até diante do banheirinho dos fundos que está desativado, ficamos parados diante dele.
Ela ordena, em tom severo: - Entra aí. Só sairá quando eu vier te buscar. Vai passar o domingo sozinho. Este será o seu castigo por me desobedecer. Se tentar sair sem que eu veja, vai apanhar de cinto.
              O banheiro é muito sujo, está infestado de bichos esquisitos. São criaturas que habitam a podridão. Vivem na umidade e na escuridão durante todo o tempo. Este lugar mais fedido é esse? Tem um tablado podre de madeira carcomida, a madeira está esfarelando. Há um buraco quadrado que vai direto para a fossa, olhando no fundo é muito assustador, é tudo escuro. Vejo grandes lesmas passeando pelas paredes, elas deixam rastros gosmentos. Há baratas em todos os cantos. Mosquitos enormes entram voando de vez em quando, passam pelo buraco quadrado que há na parede, esses bichos voadores descem direto para a fossa. O buraco na parede parece um respiradouro por onde entra o ar e sai o fedor, há dois buracos desses lá no alto, um em cada lateral do cubículo.
           No começo até parece fácil ficar aqui, o sol está alto, aproxima-se o horário do almoço e isso me dá fome.  O ambiente começa a esquentar, está virando sauna.
Sinto uma mistura de cheiros, primeiro vem o delicioso aroma da comida sendo preparada. Aquele cheiro gostoso da fritura e do tempero do arroz. Mas o que prevalece na ponta do nariz machucado é o odor de bosta antiga que impregna o ar, isso irrita até os olhos. Agora que já me acostumei com o escuro, tento olhar dentro do buraco, lá no fundo vejo líquido preto borbulhando, parece lama negra espessa. Com o olhar mais atento percebo uma pequena coluna fina de fumaça subindo de lá do fundo, ela vem com cheiro de enxofre. Eu não sei o que é cheiro de enxofre, foi minha mãe que falou um dia que o cheiro era esse.
             A porta do banheirinho é de madeira. É dessas que abrem para fora. Tento empurrar um pouco na tentativa de respirar ar puro. Minha mãe trancou por fora, passou um tipo de tramela que não deixa a porta se mover.
             Enfio o pé num buraco escavado na parede, coloco o nariz perto do respiradouro para tentar tirar o cheiro de bosta que impregnou até os meus cabelos.  Eu já não estou agüentando mais esse cheiro horrível. Acho que vou chorar.
Esbarro sem querer com a palma da mão numa lesma. A gosma escorre na minha pele.  Tento limpar na calça, mas não sai todo esse melado esquisito. Que nojo!
             Gritei: - Mãeeeeeeee abre aqui, por favor!
              - Quero... Quero fazer coco, me ajuda!
                Ela grita lá de longe: Você está no banheiro, faz ai mesmo!
                Eu retruco: - Mas não tem papel, está cheio de bicho aqui.  Abre a porta!
                 Ela responde:- Espera um pouco, já vou até ai.
                  Então finalmente a porta do banheirinho se abre. Ufa! Que alívio! Coloco o pé para fora, mas ela me empurra de volta com uma das mãos. Diz: - Você não vai sair, pára de manha! – Eu trouxe o seu almoço. – Come tudo!
             Em seguida empurra a porta com força, passa de novo a tramela.
             Não sei o que fazer com a comida.  O cheiro do arroz com feijão, mais a carne ensopada é muito bom. O fedor desse ambiente me causava enjôo, não vou conseguir comer. Jogo toda a comida dentro da fossa. Aquele monte de comida caindo lá dentro me causa uma sensação tão estranha. É um barulho muito esquisito que faz o mergulho da comida. Parece o ruído de quando se anda com sapatos folgados na lama.
           Na frente do banheirinho tem um enorme quintal com vários pés de árvores frutíferas. Nas costas do cubículo tem o quintal da casa vizinha. É um quintal bem cimentado com um muro baixo que divide as duas propriedades.
             O dia já está terminando, o sol deixa a porta de madeira muito quente porque bate de frente. Os bichinhos voadores da noite começaram entrar pelos buracos da parede. Já são quase oito horas de um domingo no cárcere. Minha mãe abre a porta, saio sem dizer uma palavra. Vou caminhando de cabeça baixa. Passo triste pela casinha de Cachimba, ela está encolhida no fundo e nem se mexe.  Vou rapidamente para o banheiro interno. Tiro toda a roupa, entro debaixo da ducha morna.  Fico assim... Deixo a água cair direto na cabeça enquanto penso em tudo o que aconteceu na noite anterior.
 O céu está maravilhosamente azul, do meio para o horizonte é um azul mais escuro, quase numa tonalidade que pende para o negro.  O brilho das estrelas começa refletir no vidro da janela do quarto. A lua surge devagar no horizonte, vem cheia e bem iluminada. Diante dela uma pequena nuvem com contornos repuxados, ela está amarronzada nas pontas.
      O som no ambiente é o som do nada, o nada da natureza cansada e quase morta desse quintal adjacente à janela do meu quarto. No silencio do nada eu sonho olhando para o céu. É nele que tudo muda pouco a pouco. A posição do cruzeiro do sul cruza do horizonte para o meio, depois que ele subir de um ângulo superior para a lateral infinita e profunda, ficará no plano reto da minha visão.
      Na escuridão eu durmo e acordo; penetro nos sonhos e soluço com os pesadelos. A imagem de Jorginho e seus está bem presente. Há uma dor pelo corpo que ainda me incomoda muito. Esse calor da noite é sufocante, seco e árido. Nem a brisa da madrugada aparece para balançar as folhas ressecadas que se encostam bem no cantinho da velha janela. O milharal moribundo está dormindo comigo.
      Todas as cores do arco-íris saem do cinza-fosco tornando-se vivas no negro da escuridão. Como a mais bela obra de arte feita de tinta reluzente, ilumina os meus sonhos. Muitas ondas se movem em contornos azuis, vermelhos, verdes, amarelos e marrons. É uma longa estrada colorida que aparece sendo feita de linhas retas que se mexem em ondas para cima e para baixo, a estrada vai até onde os olhos podem ver. Ao lado dessa estrada colorida há cavalos, vacas e cabras que pastam numa planície dourada. O gramado não é de uma vegetação verde. Não, não. Ele é feito de fios de cabelos coloridos, alguns amarelados pelo tempo. No cocho há líquido em abundancia, um líquido espesso e espumante azulado, mais para o branco. Há bolhas que sobem como bolas de sabão espocando no ar. Em cada espoco há mugidos de vaca e um assovio. É justamente quando os cavalos ficavam de pé em duas patas e dizem bom dia para quem passa. O olho da cabra gira como o olho de um camaleão. Vai para frente e pára, volta para trás e remexe por todos os lados.  Suas patas dianteiras exibem unhas compridas e muito pontiagudas que batem todo o tempo no chão dourado feito de vidro.  Em cada batida ecoa um som, deste som corre uma onda cheia de cores preenchendo a estrada que vai até o limite do horizonte. Essa onda colorida dobra para a beirada do mundo. Na margem esquerda da estrada vejo Sandrinha. Ela está sentada num grande banco de madeira bem comprido, banco esculpido em formato de concha. Ela penteia os longos cabelos que vão até os pés. Faz isso com muita calma e sutileza. Após a primeira escovada me chama com um aceno do dedo indicador.  Aponta indicando a bacia na qual os seus pés estão enfiados. Dentro da bacia vejo minhocas se movendo, formigas tanajuras e outros insetos com grandes ferrões se agitam. Eles andam uns sobre os outros, entram pelas unhas e subem pelas pernas dela. Ela nem se mexe, não parece apavorada. Na palma da mão direita há uma grande escova de madeira com dentes encurvados para trás.
      Sandrinha se levanta, mas continua com os pés mergulhados na bacia. Agora vejo em detalhes o vestido azul clarinho que veste. É uma roupa cheia de babados com pregas da cintura para baixo.  Na parte rodada do vestido forma-se um círculo grande, quase chega nos tornozelos. O rosto dela fica pálido, o corpo se distorce em curvas de baixo para cima, todas as cores da estrada do arco-íris desfilam através do seu rosto. Do tom branco da palidez às cores reluzentes no brilho dos olhos parados. Ela está emudecida como uma estátua de bronze. A estrada colorida passa através do seu corpo, segue para o céu. Em cima da cabeça dela ainda permanece o último brilho do rabo do arco-íris. É essa luz que vai se apagando até que fico completamente tomado pela sombra do quarto escuro.
       Ouço passos na escada. Engraçado ter essa sensação já que nessa casa não tem escadas. Percebo um intenso burburinho de pessoas conversando. Mas o silencio da noite é sempre tão parecido com o silencio do sepulcro.
        Um homem de chapéu branco está na porta. Ele usa uma fita vermelha no chapéu. O seu olhar é direto para a minha cama. É ele quem vigia o meu sono e viola os meus sonhos, derruba toda minha crença. O homem de chapéu branco está imóvel, ele observa calado.
         A luz da lua não ilumina mais o milharal, muito menos os cantos do quarto. Por debaixo da porta existe um breu. É o escuro impenetrável e misterioso da minha casa. O homem de chapéu branco se mantém insistemente diante da porta.
        Da cozinha ouço ruído, são panelas caindo do armário.  As portas da dispensa batem se parar. A porta barulhenta do forno do velho fogão Dako abre e fecha várias vezes. Que barulho horrível faz esse fogão!  Vassouras, rodos e espanadores continuam caindo dos suportes. Toda louça, incluindo pratos e copos, se estilhaça no chão. Os quadros despencam da parede da sala. Lá, do lado de fora, Cachimba dorme um sono calmo enquanto as bacias de roupas rolam pelo chão, nisso ela acorda e late.
        Corro a mão pela parede em busca do interruptor de luz.
        A luz acende. Barulhos cessam. O homem de chapéu branco sumiu. Minha mãe bate com força na porta. Dou um pulo da cama e abro o trinco. Ela me pergunta se ouvi todos aqueles barulhos. Digo que ouvi sim.
        Exclamo em voz tremula: "- Tinha um homem de branco aqui. Ele sumiu quando acendi a luz!"
        Corremos para a sala. Tudo em perfeita ordem. Seguimos para a cozinha. Tudo no lugar. Ela acende a luz de fora. Abre a porta dos fundos, no quintal tudo continua arrumadinho como antes.
         Olho dentro da casinha improvisada. Lá está Cachimba dormindo como sempre dorme; toda encolhida em forma de caracol, enfiada no canto da parede.
          Retornamos para cozinha. Ela me pede para tirar o pijama que iremos sair. Eu pergunto: Por quê vamos sair a está hora da madrugada? Aonde iremos? Ela diz: Não discuta, veste logo outra roupa vai de chinelos, não temos tempo para calçar tênis.
          Ficamos na rua, os dois sentados na pequena calçada cimentada. Fico encolhido no canto do muro, agora eu pareço Cachimba. Recosto a cabeça tentando dormir. Ela olha para o nada de um jeito como nunca vi antes. Olha para um ponto fixo bem diante de si. Foca um alvo, mas está em tão profundos pensamentos que não vê coisa alguma, só o medo e o delírio silencioso que carrega. Nem imagino o que se passa em sua mente nessa hora.
          O homem que entrega o leite pontualmente cinco e meia da manhã está chegando de bicicleta. Pergunta o que aconteceu para estarmos diante da casa tão cedinho. Ela responde ao homem que nossa casa fora infestada por ratos, ficamos com medo por isso saímos apavorados. Diz ainda que  esperamos o dia amanhecer para procurar ratazanas escondidas no forro do sofá.
          O homem acredita na história e vai embora. Ela rompe o lacre de alumínio da garrafa e oferece o leite. Fala para que eu tome ali mesmo na boca do vasilhame. É uma garrafa de vidro com uma boca bem grande.
          Os primeiros raios de sol aparecem no céu. As estrelas já não brilham mais como antes, uma estrela solitária insiste em clarear a imensidão. Um tom bonito de amarelo surge de um lado do céu, o azul escuro na parte da frente vai clareando. Onde os raios ainda não rompem a escuridão fica negro. Lá do fundo do beco vem um ventinho gelado. A brisa da manhã surge como se fosse o último suspiro da madrugada.
           Ela levanta, me chama para irmos até à casa de alguém. Subimos a rua dobramos a esquerda em direção ao centro da cidade, caminhamos pela grande avenida. Nossos passos são apressados. Passamos quatro quarteirões, em seguida entramos numa rua à esquerda, paramos diante de uma grande casa que ocupa dois terrenos. Ela bate palmas com um ar impaciente. Agora são quase seis horas da manhã. Ninguém atende. Nós esperamos mais alguns segundos e batemos palmas os dois juntos. Aparece uma mulher na janela. Está completamente descabelada, tem aquele olhar de quem acabou de acordar. Ela abre uma das partes da janela de madeira composta por duas partes. Segura no trinco e pergunta o que queremos tão cedo na porta dela.
A mãe pergunta àquela senhora se ela ainda se lembra do trabalho espiritual feito mês passado. A senhora da janela abre e fecha os olhos, parece meio tonta, diz que se lembra sim. A mãe conta dos barulhos que ouvimos. Relata todos acontecimentos da madrugada. Diz que eu vi o homem de branco usando chapéu. A senhora pede que retornemos tranqüilos para casa que nada de mal nos acontecerá. São apenas entidades que ela mandou para vigiar o nosso lar.
A senhora aconselha minha mãe a elevar os pensamentos pensando muito em Deus. Pedir proteção ao Senhor.
E por final diz assim: - “Sua fé sustentará sua vida. Pense que toda a força está naquilo que acredita. Pense somente coisas boas, que os bons fluidos recairão sobre sua família e seu lar”
     Retornamos devagar para casa, ainda com algum receio. No caminho vejo os meninos indo para escola. É a turma do período matutino. Todos passam em bicicletas. Alguns param para perguntar se vou para escola hoje. Respondo que não sei.
Outro garoto pergunta por que meu rosto está com inchaço. Eu respondo que caí da bicicleta.
Outro moleque retruca de longe: "É mentira! - Você apanhou do Jorginho, toda vizinhança já sabe da surra que levou!” Eles seguem pela estrada de terra da grande avenida.
        Chegamos em casa. Entramos pela porta da frente.
        Vou para o quarto. Encosto a porta, fecho a janela corrediça. Puxo a cortina para ficar escurinho. Deixo uma fresta para entrar um pouco da claridade do dia. Deito na cama com os pés sujos de terra. Ajeito o travesseiro, jogo a fina colcha por cima da cabeça. A melhor posição de dormir é de lado. O braço esquerdo dói. Agora tudo mudou. Não existe mais o som do nada. Não existe o brilho das estrelas e nem a estrada colorida que se move em ondas. A minha respiração fica tão ofegante quanto o ritmo da mente que trabalha em processo acelerado. O corpo não quer relaxar. Demora em entender que é a hora do repouso. Relaxo só a mente, deixo a alma viajar. Mergulho no sono mais profundo que já tive. É um sono sem sonhos, pesadelos ou vigílias. Um sono reparador. O corpo franzino está tão fraco. A mente parece débil e fora da realidade. Sinto que não sou mais dono de mim. Na última lembrança do inexplicável, repousa um pedido de paz. Nessa paz todos os brilhos que vi se apagam vagarosamente por debaixo da colcha marrom que é o meu último abrigo. 

Continua. A publicação da parte 3 será dia 7 de abril.

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