segunda-feira, 2 de abril de 2012

Cachimba Reeditado Parte 1

                                            

                                                          PREÂMBULO

    Foi-se o tempo em que minha cabeça vivia cheia de fascinação. Era um desejo por brinquedos, objetos esquisitos, figurinhas e adoração por animais. Eu tinha uma profunda admiração pela novidade. Fazia tudo com muita pureza e simplicidade. A vida se resumia ao contato com amiguinhos e familiares. A rotina era dos deveres de casa pela manhã, e período da tarde no ginásio.
     
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    Cidade do interior de gente pacata. Poeira nas estradas e histórias de lobisomem para contar. As noites escuras do outono ficavam com cara de inverno. A maioria dos alunos indo para a escola em bicicletas, coisa muito comum em cidades pequenas. Bairros distantes do centro. Vida bem comum. Todo dia respirando a mesma poeira da estrada de terra.  Um pouco adiante tive que cruzar a via férrea. Lá vinha o trem de carga com mais de sessenta vagões. Parei, esperei. Olhei para a cancela. Contei um por um dos vagões. 

     Final de tarde em que a mesma situação se repetia. O sino avisando perigo. A cancela sendo baixada em ritmo lento. O cabo de aço puxado por uma enorme roda de ferro com puxadores. Enquanto admirava aquela roda imaginava o desenho do Sol com um círculo cheio de traços pontudos. O funcionário tinha braços fortes para girar a roda de ferro. O apoio de madeira batia no chão.  

      Hoje é uma terça-feira como outra qualquer. Retornando da escola vejo os obstáculos nos cinco quilômetros da longa jornada ciclística. Já estou chegando ao bairro Santo Antonio - que faz divisa com o bairro da porteira preta. Lugar famoso por suas mulheres que vivem na janela esperando o namorado. Cada dia as moças têm um namorado novo, às vezes até mais que um namorado no mesmo dia. A minha mãe dizia que elas eram moças indecisas, por isto se portavam assim. Na beira da estrada, com uma vegetação mal cuidada, me deparo com várias pessoas se aglomerando num burburinho. Falam e comentam coisas que eu não consigo entender. Paro de pedalar  e apoio o pé esquerdo no chão para manter o equilíbrio. São oito pessoas, sendo: três mulheres, três crianças e dois homens. Todos olham alguma coisa no meio do mato. Uma das mulheres lamenta o acontecido. Ela usa um vestido desalinhado que parece apertado para seu corpo deformado pelo tempo. Ela diz: "Coitadinho"! As crianças ao redor da cena sorriem e querem chegar mais perto. Aquela que parece a mãe de um dos meninos o puxa pelos braços. Dá a ordem: “Fica quieto!”. Um dos homens, o que usa um chapéu de cowboy e fuma um cachimbo muito fedido, exclama em bom tom: “Melhor chamar a polícia!” ·   Todos falam e ninguém se entende. Chego um pouco mais perto e tento entender o que está despertando tanta curiosidade naquelas pessoas. Olho para dentro do mato. Há um homem bêbado tombado ali. Parece que ninguém conhece o indivíduo. Afinal de contas numa cidade pacata, todos os bêbados de um bairro são conhecidos. Provavelmente ele é um forasteiro perdido. O homem descansa tranquilamente deitado de lado e baba um pouco. O local está fedendo. Há algo incomum nesse quadro. Ele abraça algo que parece uma criança novinha. Não dá para enxergar direito por causa do mato. Alguém precisa cutucar o homem. É necessário saber do que se trata, já que todos parecem assustados com a cena. O homem que usa chapéu de cowboy resolve se mexer. Toma a iniciativa de chutar com a perna do bebum. Nada, ele nem se mexe. Uma das mulheres, aquela que estava mais impaciente com a situação, grita: “Acorda tarado!” “Vagabundo!”. A outra, incentivada pela iniciativa da amiga, resolve pegar um pedaço de madeira na beira da estrada. Toma fôlego e grita: “Vou arrebentar a sua cabeça, vadio!” ·    Finalmente o bêbado se mexe, muda um pouco de posição, se ergue e fita a multidão incrédula. Pergunta com olhos marejados e voz tremula: “O que querem?” Uma das mulheres grita: “Larga a criança, seu pervertido!” Ele olha ao redor, aperta os olhos - fechando e abrindo rapidamente. A claridade do pôr do sol incomoda bastante. Ele não entende o motivo da ordem daquele mulher. Então responde: “Que criança dona, a senhora bebeu? Ela se irrita. Balança os braços e aponta o meio do mato. O lugar tem folhagem alta. Tudo bem ressecado pela poeira que levanta da estrada. O bêbado descobre o que estava sob a jaqueta de  napa azul marinho.  Exclama para o espanto geral: “É Cachimba dona"! Todos voltam os olhares para o mesmo ponto e tentam definir o que seria aquilo com nome tão esquisito.  Ao revelar o ser escondido, imediatamente vem um ar geral de admiração dos presentes. Um grande “Ahhhhhh.” de alívio. A roda de pessoas vai desfazendo. As mães puxam os filhos pelas mãos. Uma das crianças ainda pede: “Mãe me deixa ver mais”. Os homens se olham não acreditando no tempo que perderam olhando o bêbado e a cachorra. Cada qual segue seu destino. Alguns dão risadas sacudindo a cabeça inconformados. Fico mais um tempo, sou a última testemunha. O bêbado tenta se levantar. Balança, balança. Busca se encontrar, nem imagina onde está, muito menos qual rumo é o norte. Bate timidamente as duas mãos na roupa. Tira fos fiapos de mato seco. Dá um passo adiante e tentar sair. Agora vem na minha direção. Faz um assovio baixinho. Ele pouco tem ar para aguentar assoviar. Que infeliz!. Chama: “Vem, Cachimba!”. A cachorra se levanta e sai debaixo da jaqueta surrada. Ela tem um olhar tímido e parece bem assustada. Fica atônita balançando o rabinho como uma vira-latas. O homem vem mais perto. Equilibra-se e balbucia: “Leva esta cadela pra você"!  Sai andando sem olhar para trás. Tropeça nas pedras e tropeça de novo. Segue na direção do centro da cidade. Cachimba me olha com um jeito pidão. Acerto a posição em cima do selim e a chamo pelo nome. Ela me segue, vou pedalando bem devagar para chegar no lar doce lar. Busco um cantinho no quintal para a nova moradora. O único lugar é debaixo de um cobertinho com telhas plásticas.  

        Cachimba é uma cachorra esperta e desconfiada. Muito faminta. Sirvo a sobra de comida do almoço. Carne, legumes e arroz. Parece que ela não come faz um tempão. Acho que passou dias comendo lixo. Ela devora rápido. Engole o que pode no menor tempo possível - nem mastiga direito. No final enfia o focinho com força no fundo da vasilha.

    Vem o dia seguinte e descubro a medida da fome dela. Estabeleço um limite. Durante os primeiros dias, acabo notando que ela fica muito tempo dentro da casinha. De noite nem aparece no quintal. São várias horas de conversa e tentativas de aproximação. Quando a menina sente o cheiro da comida,  sai com metade do corpo para fora do seu ninho. Com olhar sorrateiro abana o rabo. Mas quando eu faço um gesto ela volta rápido para dentro e se encosta na parede do fundo com olhar medroso. Não encontro solução para a socialização dela. Resolvo então, com decisão, tomar uma providência. Coloco em seu pescoço uma coleira de couro e uma corrente novinha e levo a moça para a rua. É uma rua de terra, por isso, quando chove, vira lama. Mas, no tempo seco, a poeira fininha entra pelas frestas dos sapatos ou gruda na pele do rosto. Quando o ventinho bate levanta uma cortina de terra fininha em círculos marrons. A rua é uma pequena travessa da avenida larga que liga o centro até o final da cidade; chão bruto. Essa rua termina numa cerca de arame farpado que protege uma propriedade particular. Após a cerca têm um barranco com uma escadinha de oito degraus bem escorregadia e traiçoeira. Em seguida vem o campo aberto aonde tem grama e trilha. Ali as pessoas passam para atravessar o rio numa pinguela feita de dois troncos largos de árvore cascuda. Na beira do rio pedras grandes e altas. Meninos escalam e pulam lá de cima nas águas escuras. Outros meninos da rua quando não estão saltando da pedra ficam empinando pipas no fundo do beco. A minha luta é tentar trazer Cachimba para fora. Ela cola o traseiro no chão e não levanta de jeito nenhum. Empaca feito um burro velho. Abro o pequeno portão da minha casa e saímos. Ela insiste em não se mexer. Vira a cabeça para trás e quer voltar ao ninho. Quando deixo a menina solta, aí sim, ela me acompanha. Quando paro, ela pára. Quando o mudo o curso, ela tenta fugir pelo corredor que leva ao fundo do quintal. Pego na corrente e puxo na estocada. Só assim ela pára de fugir. Como está difícil esta missão! Estou aprendendo que é uma tarefa que tenho de realizar com paciência. O meu pensamento é ensinar para tirar o seu medo, vou gerando confiança no pequeno animal que parece sofrido. A solução é pegar no colo e carregá-la até o final da rua. Coloco a menina de volta ao chão, retiro a corrente da coleira, deixo livre. Ela para ao lado do meu pé direito e treme. Olhar curioso. A gritaria das crianças assusta a menina, ela fica inquieta. Procura refúgio na minha perna. Dou um passo à frente, ela se levanta e encosta de novo. Resolvo sair dali e corro uns metros. Ela fica imóvel e volta a tremer. Chamo pelo nome e ela atende. Anda devagar com rabo entre as pernas. Encosta de novo nas minhas pernas. Resolvo voltar com ela no colo. ela ainda não está preparada para passear guiada pela corrente. Passo pelo portão e sigo pelo corredor lateral. Coloco a menina medrosa no chão, retiro a corrente e a coleira. Ela entra em seu ninho com segurança e se deita em cima do saco de estopa marrom. Fica dali me olhando com a cabeça apoiada em cima das perninhas dianteiras. O dia seguinte chega para um novo passeio programado. A minha estratégia é diferente. Passei a noite pensando em como fazer a minha menina perder o medo.

    Sigo a mesma velha rotina. Já é sexta feira, esse fim de semana será de novas atividades com a minha amiga. Ela é o centro de toda dedicação desde do dia que a encontrei. Eu também sou muito retraído e tímido. Ainda nem senti o sabor de um beijo na boca. Alguns dos meus colegas dizem que é muito bom. Fico distante das meninas, não sei como fazer. Evito toda e qualquer aproximação e ando com as mãos nos bolsos. Não tenho amigos que vão em casa, porque sou novo na cidade. Os garotos não me conhecem, então, não me deixam participar dos jogos de futebol na rua, joguinhos chamados de quatro contra quatro ou cinco contra cinco. Quase sempre fico sentado em cima de uma pedra oval diante de um terreno baldio. Observo quieto o desenrolar de cada partida. No final, vejo alguns dos meninos saindo abraçados e outros xingando. Sinto calores pelo corpo todo, parece febre. O meu rosto fica vermelho quando percebo que estou sendo olhado por uma vizinha. Um dia ela me falou que tinha dois anos a mais que eu.

      Um fato inesperado surge na cena toda, a minha mãe não gostou da cachorra. Ela resolve implicar com o tempo que dedico à menina. Eramos dois, minha mãe e eu. Uma harmonia perfeita. O meu pai foi embora, isso já têm três anos. Eles nunca se entenderam muito bem. Brigavam por qualquer motivo. Mas, quando notavam que eu estava prestando atenção, paravam a troca de ofensas. Ainda me lembro que alguns palavrões surgiam entre uma frase ou outra. Eles diminuíam o volume e se fechavam no quarto. Ficavam ali trancados por muito tempo. Tinham assuntos que eu, na minha meninice, não entendia. Muitas vezes eu ouvia barulhos fortes. Então eu me aproximava da porta, ficava ouvindo e batia duas vezes com o punho fechado. Pedia para pararem com aquilo. Depois vinha o silêncio, em seguida as vozes num tom baixo. Com muito esforço, tentava escutar o que se passava ali dentro. Logo em seguida ouvia o ruído dos moveis sendo arrastados, nesse instante o barulho da conversa aumentava. Eu me esforçava, mas não compreendia, eram frases entrecortadas pelo ruído dos moveis sendo arrastados. Não conseguia identificar uma só palavra. Eu sabia que quando eles brigavam algo poderia não acabar bem. O meu coração sempre disparava com aquela ansiedade do fim incerto. Ele, um homem de um metro e oitenta de altura, com braços fortes e músculos definidos, trabalhados pela dureza da vida de caminhoneiro, botava medo só de olhar para alguém. Naquele tempo ele tinha um caminhão Scania cor de laranja com doze pneus e com pára-choque dianteiro niquelado. Aquele pára-choque brilhava de ofuscar a vista da gente quando refletia a luz do sol. Dentro da cabine havia uma imagem de nossa senhora Aparecida, ficava pendurada na alça de apoio do espelho retrovisor central. Forrando toda a beirada de cima da cabine, tinha uma fita larga e com franjas amarelas e vermelhas, pregada com pequenos arrebites de cabeça redonda no grande borrachão. Foram muitos anos de brigas, até que um dia para nosso alivio, ele nos comunicou que iria embora. Pegou uma mala velha, que ficava em cima do guarda-roupa, jogou as coisas de uso pessoal e fechou tudo lá dentro com muita facilidade, parecia que ainda sobrava espaço para outras peças, segurou na alça e partiu. Pouco antes de chegar perto da porta, ainda me deu um beijo na testa. Foi embora sem dar tchau para a minha mãe. Subiu na boléia do caminhão cor de laranja e dirigiu para nunca mais voltar. 

    É de manhã saindo do banheiro com a cara lavada, os dentes escovados e os cabelos bem penteados, sigo para a mesa do café na copa. A mãe acorda cedo, bem antes de mim. Ela me espera sentada em um banco alto de madeira fosca, sempre chego enquanto passa margarina na banda de um pão amanhecido. Ela diz: “Bom dia!” Eu respondo: "Bom dia, mãe". Coloco o leite quente no copo. Ela me pergunta: “Filho, o que pretende fazer com esta cachorra medrosa?” Respondo: “Vou cuidar dela.” Ela retruca: “Mas filho, você sabe que nunca gostei de animais em casa, ela vai dar trabalho. Eu que vou ter que limpar a sujeira toda. Terei que dar água, comida, remédios e vacinar. Nós sabemos que a sua empolgação acabará em poucos dias. Quando isso acontecer vai sobrar para eu cuidar". Olho  para ela com olhos tristes, nem sei direito o que responder. Eu sabia que no fundo ela tinha toda a razão. Mordo o pão amanhecido, bebo o  café com leite com muita pressa. Levanto num pulo só, saio da mesa e cruzo a copa. Corro em direção à porta dos fundos. Vou procurar Cachimba em sua casinha provisória, só para me certificar que está tudo bem com a doce menina. Os primeiros raios de sol batem na cobertura, é um teto bem improvisado com madeiras velhas. A menina está encolhida no canto. Parece um caracol. Chamo seu nome, ela não se mexe. Chamo a segunda vez, e nada. Enfio o braço para dentro, toco devagar em seus pêlos. Ela se mexe, se encolhe mais. Olha... Estou ficando sem paciência. Cutuco mais forte. Não tem jeito. Vou ter que puxar a menina para fora. Agarro as patas traseiras e a trago arrastando. Quando largo das patinhas, ela volta para dentro e tenta se esconder. Que saco ta sendo isso! Eu realmente não estou conseguindo dominar essa situação. Minha mãe aparece na porta e observa de longe a minha cara de desespero. É quando fico totalmente frustrado. Só para me provocar ela solta uma frase de efeito: “Um dos dois está com a atitude errada, acredito ser você, já que ela reage apenas por instinto”. Trocando em miúdos, ela quis dizer:" Está faltando inteligência da sua parte". Não entendo muito bem o que significavam tais palavras, eu estou muito irritado para poder parar e pensar.   Novamente pego a menina no colo, ela precisa se acostumar e ter confiança em mim. Na frente da casa há um quintal grande onde ficam os vasos de flores. Eles estão apoiados em tripés de ferro que têm pequenas vasilhas de plástico embaixo. O muro amarelo é baixo, se estende pelos cinco metros da frente do imóvel, é um muro vazado. É naquele estilo de casas de cidades pequenas. No meio do percurso do longo muro, há o portão de metal branco que também é todinho vazado.  Ele foi fabricado com ferros desenhados e retorcido. Coloco novamente a menina no chão. Ficamos observando a rua. É cedo e as pessoas passavam para ir ao trabalho. Também tem os escolares caminhando e fazendo zoeira - movimentos contínuos de gente conversando pra lá e pra cá. Um cenário ideal para tornar a moça mais sociável. Ela fica imóvel durante algum tempo olhando a rua. Quando alguém passa falando mais alto, ela recua dois passinhos para trás. Em seguida volta e fica olhando pelas frestas do portão. Já é um bom sinal. Parece que encontrei o método do ensino ideal. Agora basta insistir até o fim. Irei para a escola no horário vespertino, no retorno, lá pelo final da tarde, voltarei ao meu convívio com a minha mais nova amiguinha. Penso comigo que novamente a colocarei diante do vai e vem de gente. Nessa rua tem movimento até quase às oito horas da noite. Ficaremos sentados pertinho um do outro. Eu verei as figuras dos gibis e ela observará pessoas. Depois disto a rua ficará silenciosa com as luzes das varandas acesas por mais algum tempo. Portas e janelas fechadas e trancadas. Haverá aquele cheiro forte do lírio que impregna o ar. O longo beco não tem iluminação nos postes e termina na trilha do barranco de terra batida;  tudo muito escuro depois de certa hora. Esse novo terreno tem que ser explorado por mim e por ela, e isso acontecerá amanhã logo cedo.

 Acorda, filho! A mãe me chama em voz baixa. Vem com o dedo indicador colocado sobre os lábios. Faz zumbido de "psiu". Pede silêncio. O relógio marca exatamente duas e trinta e cinco da manhã. Ela ainda diz: “Tem alguém andando no quintal. Vamos para sala. Ao meu sinal você acende as luzes de fora. Fique perto do interruptor que eu vou para janela da cozinha, quem sabe consigo enxergar alguma coisa”. Ela segue, na ponta dos pés, até a cozinha. A janela é daquele modelo comum em casas humildes. Tem vários vidros retangulares e um puxador de metal em forma oval. O puxador é ligado a um ferro comprido que movimenta quatro partes em forma de basculante. O enfeite é uma cortina de plástico amarela. Que fica dividida ao meio, como se fosse um vestido chique, daqueles longos com abertura cavada na lateral. Uma vez vi um no baile de formatura da minha prima. Os lados da cortina estão amarrados com uma fita, é um laço de pano na mesma tonalidade do enfeite sintético estampado, que ainda tem desenho de girassóis. A mãe puxa devagar um dos lados, é o lado direito que cobre o puxador da janela. Abre, então, um pequeno vão por onde possa enxergar. Pisa dois passos para trás, faz o sinal de positivo com o dedo polegar da mão esquerda. Eu estou pronto para mexer no interruptor que vai acender duas lâmpadas do quintal. Uma luminária está próxima do começo da casa e outra no final do corredor, justamente onde termina a parede da cozinha, que então dobra fazendo um ângulo de noventa graus. Uns dois metros, da esquina onde a parede dobra, fica a casinha feita para Cachimba. As luzes se acendem. Nenhum movimento. Nada de ruído. Sigo rápido para cozinha, vou até a janela. Talvez eu consiga avistar algum estranho correndo pelo quintal. A mãe olha de um lado para outro, tenta flagrar pelas frestas, algum intruso da madrugada. Nada se vê, além do correndo vazio até onde se pode enxergar. O vento balança as folhagens em cima do muro que ladeia a casa. Ficamos em estado de atenção por alguns minutos e nada. Tudo é silêncio. Passado o susto, nos sentamos um pouco nos banquinhos de madeira rústica. Estão bem próximos da geladeira. Eu um daqueles bancos, ela fica sentada durante o dia. É quando fuma cigarrinhos com ar de contemplação aos pés de banana. A calçado dos fundos tem quatro metros de piso cinza. Em seguida vem um grande terreno de terra, justamente onde tem os pés de frutas. No cimentado também fica o tanque de lavar roupas e varais. No quintal de terra úmida tem árvores frutíferas de todo tipo, por exemplo: Pés de goiaba, jabuticaba, banana e ameixa. Nesse trecho de terra, adiante uns vinte metros da calçada, têm uma pequena casinha de alvenaria, é um banheiro desativado. Lá dentro tem uma fossa negra coberta por tijolos e madeiras, um buraco quadrado bem centralizado, de mais ou menos trinta centímetros de cada lado. É ali onde quem quisesse poderia aliviar-se na hora do aperto das necessidades fisiológicas. A porta é de madeira, tem tábuas largas e mal pregadas. São muitos os entre as tábuas. O lugar é bem escuro e fétido. Está cheio de baratas e outros insetos. Alguns são bem pretos e parecem com moscas grandes, ainda têm lesmas nas paredes. Depois de ficar pensativa por um tempo, a mãe fala: “Filho. Que cachorra é essa que nem late, nem sequer rosna e praticamente nem se mexe quando tem gente estranha no quintal?” Respondo: “A senhora tem certeza que ouviu alguém andando por aqui?” Ela fica pensativa por um tempo, nada responde. Levanta-se, acende uma boca do fogão branco e coloca o bule de café para esquentar. Tem só um restinho no fundo que ela nem percebe. Quase ferve. Ela derrama uns poucos goles na xícara e bebe num lance só. Chama: “Vamos voltar para cama!” “Apague as luzes e vamos descansar. Devo ter sonhado, acho que estou ficando louca!" É sábado, estou com tempo para me dedicar à menina medrosa. Na mesa, da refeição matutina, nenhum comentário sobre o susto da madrugada. Como meu pão, engulo o café com leite, dessa vez mais   devagar. Levanto no mesmo pique de ontem e saio porta afora. Qual não é minha surpresa quando deparo com a menina deitada no piso de cimento. Está bem à vontade, toma sol de olhos fechados. Chego devagar diante dela, é quando abre os olhinhos, vira a cabeça, balança o rabinho. Está pedindo um carinho com o olhar. Escorro a mão suavemente por cima da sua barriga peluda. Depois em sua cabeça. Demoro demais, ela se sente um pouco incomodada. Então se vira, fica em pé nas quatro patas. Anda um pouco para frente, espreguiça e senta. Olha para o corredor, por onde o suposto invasor da noite anterior passou. Levanta-se, vai andando devagar. Cheira o chão, continua assim por uns três metros. Observo o seu comportamento sem entender muito bem. Ela pára de frente para a parede, está bem perto da janela por onde havíamos espiado. Apóia suas duas patinhas dianteiras na parede, passa o focinho na tintura da cal. Desce, anda um pouco e volta para próximo do meu pé. Estou achando muito estranho essa atitude da menina. Vou até o local olhar mais de perto. Dessa vez ela não me acompanha. Olho no lado de cima, olho no lado de baixo; nada! Busco alguma sujeira ou cheiro diferente. Tem que ter algum detalhe que revele a presença de um estranho por ali. Encosto o nariz na parede, não sinto nada além do cheiro da própria parede. Isso está me deixando com uma interrogação no pensamento. Qual motivo que levaria a cachorra a ter essa atitude, justamente em um exato lugar? Abro o pequeno portão branco e chamo Cachimba com um assovio. Vou novamente tentar andar com ela pela rua, dessa vez sem a condução da corrente. Ela vem e não sai pelo portão. Eu faço de conta que não estou vendo nada e continuo caminhando. Assovio de novo. Ela vem bem desconfiada, segue devagar. Descemos em direção ao final do beco. Continuo assoviando em intervalos de mais ou menos 1 minuto, ela vem vindo atrás, mas, desconfiada. Paro perto da pedra oval, de onde ontem observava os meninos jogando futebol. Encosto um pouco, deixo a menina ter a iniciativa de fazer algo sem que eu tenha que mandar. Ela busca um canto do lado frio da pedra, justo onde não bate sol; encosta lá. Olho tudo, espero um pouco. Cansei, vou descer os degraus do barranco de terra. Ao perceber que estou distante, ela levanta-se rapidamente e vem atrás. Desço o barranco, sigo para o grande campo aberto de grama e arbustos irregulares. Ela também desce, mas com alguma dificuldade, pois os degraus são estreitos. Logo adiante os cavalos e vacas pastam, vão até quase na beirada do rio. Sigo a trilha dos animais do pasto. Cachimba acompanha, parece mais tranqüila. Nos aproximamos de uma vaca. Ela come grama e rumina um pouco. Cachimba pára uns dois passos distantes de mim. A vaca fica impassível, nem se importa com nossa presença. Continua a refeição como se nada estivesse acontecendo. Viro para o lado esquerdo, sigo em direção às grandes pedras da margem do rio. Quando dou mais três passos, ouço o primeiro latido forte de Cachimba. Ela sabe latir. Fico tão feliz. Agora ela rosna para a vaca, está com os dentes travados. A vaca nem se mexe, tem um punhado de grama caindo pelos cantos do enorme beiço inferior. Olha para Cachimba como se ela não fosse nada. Então antes que a vaca zangada e nos dê uma carreira, chamo a menina para perto de mim. Cachimba me olha e nem se mexe do lugar, quer continuar enfrentando a vaca. Late mais duas vezes. É quando a vaca mexe uma das patas dianteiras, nisto Cachimba corre para meu lado, quer proteção. Pára no meio do caminho e ainda encara a vaca. Chego mais perto, me abaixo, pego a menina no colo. Ela está nervosa, por isso se debate um pouco. Vamos para a beirada da pedra grande. Sentamos ali, coloco a menina de lado. Agora olhamos os meninos pularem em saltos praticamente ornamentais. Eles pulam da enorme pedra que fica na outra margem. Eles pulam, um após o outro, com intervalos de segundos, é tempo suficiente para o último saltador sair nadando em direção à margem. Desse local privilegiado observo, como bom expectador àquela brincadeira aquática que eu também gostaria de participar. Cachimba   descansa bem acomodada, fica com as pernas traseiras esticadas para trás. As dianteiras se dobram para frente, a cabeça bem ereta. Que olhar altivo ela tem agora! A danadinha só observa a queda dos meninos. Às vezes ergue um pouco mais o olhar, só para observar os pássaros em vôos rasantes, que seguem entre os pés de eucalipto que ficam na outra margem. De repente, do nada, aparece no alto da pedra, bem do lado oposto da margem; Jorginho Espoleta. O moleque mais perverso das redondezas, o mais temido. Adora atazanar os alunos da escola. Ele é maldoso e sabotador. Bem pervertido em suas atitudes. É lascivo e obsceno também. Sua mãe lhe deu esse apelido, provavelmente devido às reclamações constantes de outras mães das redondezas. Jorginho é agressivo e gosta de impor suas regras através da violência física. Ele tem treze anos. Num salto vertical ele mergulha fundo no rio, emerge, vai com braçadas nadando em nossa direção. Sai do rio, olha para cima da pedra, de onde observo tudo com Cachimba. Sobe pelo barranco íngreme, que está cheio de vegetações espinhosas e também árvores pequenas com galhos compridos. Jorginho vem trocando de mãos, puxa o corpo até alcançar o topo. Imagino: “Lá vem encrenca. Ele está bem esbaforido, senta-se na pedra, observa sem nada dizer. Cachimba fica entre ele e eu. Ele está todo molhado. Vira-se para mim, olha direto em meus olhos, solta a pergunta: “Você agora tem cachorro?” Respondo: “É uma cachorra, achei na rua e estou cuidando dela”. Ele olha para Cachimba e pensa por alguns segundos. Está elaborando algum plano ruim, tem em um breve pensamento. Silencia. Ele diz: “Seu cachorro sabe nadar?” Olho para ele e depois de uma breve pausa respondo: “Não sei.” Jorginho sorri pelo canto da boca, aquele sorriso maldoso da estratégia elaborada. Solta uma frase: “Vamos fazer o teste?” Puxa de repente a menina pelas patas dianteiras, ameaça atirar do alto da pedra. Grito para parar, que pare de torturar o animal indefeso. Sou mais incisivo na segunda vez. “Deixa a cachorra quieta!” Ele então fica em pé na pedra, nessa hora faz um gesto bem obsceno. Segura o pinto por cima do calção molhado e diz: “Dá uma chupada aqui que eu não jogo ela no rio”. Levanto num baque só, tomo Cachimba das suas mãos. Carrego no colo. Dou um salto da pedra em direção ao gramado. Saio andando. Depois de ficar a uma distância segura, faço um gesto com o dedo médio, bem em destaque, dou um grito: “Manda sua irmã chupar o meu!” Ele ameaça pular na grama para nos perseguir. Inclina-se para o lado do rio, salta da pedra para um mergulho nas águas. Sigo o rápido que posso, em direção ao beco. Carrego a menina no colo para não me atrasar. Subo os oito degraus da escada com bastante   dificuldade. Agora já posso colocar a menina no chão. Seguimos em direção à nossa casa. Abro o portão branco, ela passa rápido em direção à área da frente. Lá onde ficam os vasos em formato de pingo. Vai até debaixo de um deles e bebe a água escorrida na vasilha. Volta, me olha. Fica esperando a ordem do que fazer a seguir. Fico sentado do lado de fora do muro, é uma pequena calçada. Nós ficamos ali por um tempo. Na casa da frente mora Sandrinha; Sandra Regina. Ela tem dois anos a mais que eu. Tem uma irmã mais nova com onze anos. Meu coração disparava quando Sandrinha aparece na janela. Ela sempre me olha e dá um cumprimento com um aceno tímido. Tenho quatro meses de admiração solitária, ela nunca conversou comigo. Sandrinha aparece no portão e sempre me vê sentado ali na calçada. Dessa vez resolve atravessar a rua para dizer: “Que graça de animalzinho, é macho ou fêmea? Meu padrasto não deixa criar bicho em casa. Eu adoro cães”. Ela então chega perto, fica do lado de Cachimba. Passa a mão no dorso da minha menina. Admira a cachorra como se fosse uma joia rara. Pergunta: “Posso vir aqui de vez quando ficar com ela, você se importa?” Com um leve movimento afirmativo, digo: sim. Passamos alguns minutos em silêncio, ambos acariciando Cachimba. Ouço meu nome sendo gritado lá de dentro de casa. É hora de almoçar. Levanto, chamo minha doce menina. Digo para Sandrinha: “Até mais tarde”. Entro apressado pelo corredor, Cachimba vem e empaca na porta da cozinha. Espera seu almoço com ansiedade. Como às garfadas, fico sorrindo a toa. A mãe me olha desconfiada, mas, nada comenta da minha atitude diferente. Encho a bacia de comida, coloco no cantinho do quintal onde bate sombra. Com uma vasilha de água ao lado para acompanhar o ritual. Sigo para meu quarto, estou louco para tirar o cochilo da tarde. Deito-me, fico pensando nos momentos anteriores ao grito estridente da minha mãe. Fecho os olhos e as horas passam rapidamente. A noite de sábado se aproxima, os vizinhos vão fazer uma enorme fogueira na rua. Com certeza vão jogar batatas nas brasas, vai ter pipoca de montão e quentão. Esse será o nosso novo passeio.

6 comentários:

  1. Patricia Ramos Sodero2 de abril de 2012 21:19

    Que estória encantadora!!! Confesso que estou me identificando demais...Pedro, um menino que teve de tudo que pedia, sempre foi premiado com presentes...mas, na verdade, de uma vida simples,sofrida,por ver seus pais a brigar,e depois, vê-lo sair de casa de vez, abandonando sua mãe e ele,sem nem olhar pra trás...
    Que delícia as passagens em uma cidadezinha do interior.....Mas, claro...sem deixar de ter áquelas velhas situações que já estamos calejados de saber: as fofoqueiras....futriqueiras da cidade, que só sabem analisar as coisas,por conta de colocar "lenha na fogueira"!!!
    Diante da situação....um amor lindo acontece....uma cadela e um menino...a certeza de que nada mais os separaria!!!
    Os dois passam a viver inseparadamente,um ensinando ao outro....cúmplices...E o que Pedro não faz por essa "menina"??? E o que passa na mão de meninos perversos???
    Tem o lado bom da estória, onde revivi muito minha infância.....fogueira,pipoca,quentão, dança,alegrias....primeiro amor....No caso de Pedro....Sandrinha!!!
    Sem dúvida nenhuma, uma estória cheia de encantos,sofrimentos,dor,raiva,medo....enfim, mistura de sentimentos,que o autor relata muito bem neste texto.
    Parabéns....aguardo ansiosa pela continuação dessa estória fascinante!!!
    Bjão grande...

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  2. Querendo muito ler a sequencia, porque o inicio é ótimo. Poderia ser a estoria de um protetor, ou só a estoria de um menino comum, que foi criança na época que eu também fui.Que está na epoca de conhecer amores, de enfrentar rivais juvenis, e ter a companhia de uma cachorra, de testar a conquista de confiança através dela, aos poucos, tateando, e contando suas coisas de menino.
    Lindo blog, que vou ler todinho, sempre esperando a proxima postagem. Linda descoberta de você no meu rol de amizades(é, não é?). Beijos aguardando por mais...

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  3. Cidade pequena, bairros no interior...Coisa gostosa ler isso, voltamos a infância rapidamente. Ruas de terras, portões de madeira, vizinhos na rua no fim da tarde. Tempo bom esse que uma criança achava um animalzinho na rua e já levava para casa, eu fiz muito isso. O melhor mesmo era que sempre ficávamos com eles. Pedro é uma criança normal, com sonhos e impaciência. Mas já deu para perceber que tem um enorme coração e sentimentos bons. Lamentável crianças terem que convver com brigas diárias de pais, medo, desconfiança e traumas. Melhor mesmo a separação, acredito que o sofrimento seja menor. A doce menina, já deve ter passado uns bocados para ser tão desconfiada e arredia. Com calma Pedro a fará mais decidida. Festa na rua, que delícia! Acredito que a maioria das crianças de hoje não terão esta lembrança. Uma fase esta de tantas descobertas, adorei o texto e me faz bem saber que tive uma infância e o que recordar. Parabéns mocinho! Vc encanta sempre. E claro que para comemorar seu lindo aniversário, nada melhor do que receber tantas palavras maravilhosas, vc sim faz parte do nosso dia a dia, nos emocionando, nos fazendo rir e chorar com suas escritas. Bjs no coração.

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  4. Adorei o inicio dessa história, tem encantamento, delicadeza, pureza de sentimentos. Pedro e Cachimba se descobrindo mutuamente, criando uma relação linda de confiança.
    Achei lindo o respeito do menino pelo tempo de sua "menina", como também achei linda a relação de mãe e filho, parceiros.
    A descrição de toda a cena, do lugar, ruas de terra, o quintal, os vasos com pratinhos no suporte de ferro, as crianças brincando, o passeio de bicicleta, enfim tantos detalhes, alias ricamente detalhado, me levaram para um tempo distante e ao mesmo tempo tão recente.
    Que delicia poder voltar um pouco à infância, andar com Pedro por lugares tão familiares.
    O primeiro amor, e aquele moleque encapetado, quem não teve isso na infância?
    Engolir o café da manhã, ou o almoço, para não perder tempo, e poder ir rapidamente para a rua... ah saudades!
    E o mistério do quintal? Até isso me lembrou aquele tempo, quando os quintais tinham apenas pequenos portões de madeiras, e o perigo era de invasores noturnos querendo qualquer bobeira que tivesse sido esquecida no quintal.
    Mas o que será que houve no quintal de Pedro e Cachimba? Ansiosa por saber.....
    Parabéns Renato, já entendi porque esse texto fez tanto sucesso.....com certeza será sucesso redobrado agora...Bjs.

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  5. E eles estão de volta!!
    Que fofos. Sou fã desta dupla. O menino ingênuo e puro e a "menina" meiga e medrosa. Depois vou conferir este "vale a pena ler de novo", rsrs.

    Bjo. :)

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  6. Nossa que história hein!!!Interior tempo bom aquele onde se podia dormir até de janelas abertas isso quem conta é minha mãe pois é do interior,a simplicidade,a amizade era realmente sincera,o bom que é tudo perto podia ir a pé.A história desse garoto filho único morava com a mãe.O pai foi embora triste típico de hoje em dia,mas mesmo assim eram felizes arrumou uma cachorra sua fiel companheira.Vejo que as aventuras e descobertas só está começando,seu primeiro amor,hum!!Bjs!!!Andréa Cardoso.

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