terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Uma Breve Vida PARTE 9

     Sou um idiota! Eu me mexo e viro, não encontro uma só posição correta para esticar o espectro. Quando estou de lado no escuro os meus pensamentos não ficam certos. Tenho uma dificuldade muito grande para os movimentos, quando os meus motivos nunca são entendidos. Tudo o que consigo ver é uma fatia do tempo. O tempo daqueles atos insensatos que revelaram debilidade. Um tempo em que eu dizia: “Um dia voltarei para refazer a minha vida”.
      Hoje refaço essa vida aqui, bem embaixo, é o lugar onde tenho tudo o que ninguém pode tirar de mim. Estou falando da relação que existe entre a diferença do tempo que passou e do tempo que me une a uma missão. A fada e suas guardiãs cruéis ficarão surpresas ao se depararem novamente com seus problemas cruciais, aquilo tudo que motivou essa cena.
      Úrsula, eu sei que está aí fora me observando, esperando um passo em falso. Saiba que tenho a prática de enfrentar o desconhecido, e também encaro missões desbravadoras e definitivas. Não tenho medo porque isso me excita. E você... Ahhh... Você me provocou com todos aqueles pensamentos arrogantes e autoritários. Ficou tentando fazer chantagem, achando que sou bobo, mas saiba que vou acabar com sua existência conhecida. Nem que faça uma boa ação não será liberada desse destino. Eu também gosto de ganhar. É muito divertido ter que enfrenta-la, saiba que é inútil resistir por que está em minhas mãos. Antes de você agir assim comigo eu só pensava numa coisa, num mesmo propósito sempre, mas você me obrigou a pensar em dois a partir de então. Agora passo essa existência inteira pensando em como calar sua boca imunda, em como derrubar esse corpo enorme que vive a mando da fada. Nesses vôos, em que ofusca as estrelas com essa silhueta desproporcional, acha que causa medo e traz devastação? Saiba que onde eu moro não existe mais medo nem falsos temores. Você não sabe quantas almas dos vivos já devastou, mas o seu mal não mais me atinge. Eu sei que você não é tão forte assim. Nos momentos em que não estou pensando na fada penso em você. É nesse instante que as paredes do meu recanto ficam com uma negritude que reflete o vermelho que escorre pelas paredes. Todos os meus pensamentos se rebelam quando penso na mordaça que tentou me colocar. Saiba que mesmo que eu esteja totalmente destruído, ou inteiramente impossibilitado de qualquer coisa, as pessoas continuarão vendo e sentindo as imagens que permanecem ocultas no tempo. Se quando eu lhe perguntei coisas você respondesse com educação, se quando eu falei pela primeira vez, você não se calasse covardemente, nenhuma missão teria sido planejada e eu descansaria em paz. Mas você é uma reles emissária, é apenas aquela que dá o recado de quem manda. Aqui do meu cantinho não ouço o barulho das aves matutinas muito menos o velho cantar distante do galo, a única coisa que ouço é o seu pensamento me perseguindo, atormentando e espezinhando. É como se ouvisse sua voz horrenda trazida com ecos dos corredores escuros da casa que fede. Olha, Úrsula, saiba que não tenho mais corpo, não sou mais matéria-viva. Você não pode atingir o meu fígado. Como anda o fedor da sua casa depois de toda sexta-feira? A falsidade impregna e fede não é mesmo? Esse é o paraíso preferido de todos que vivem aí, isso eu sei. Um lugar cheio de fartura, dinheiro, danças e sorrisos falsos estampados nos rostos daqueles que repartem a dor da infelicidade. Conte-me uma coisa: Quando saem mundo afora de cabeça erguida ainda se aproveitam para pisar nos cachorros largados e nos menos favorecidos? Fico tão decepcionado por não conseguir exprimir tudo o que penso de vocês e pode falar bem mais dessa existência cinzenta e da expressão exagerada que carregam, típica dos que não tem visão da realidade. Vocês já sabem que agora não pertenço mais ao mundo dos que se ferem com o sofrimento físico, porém, mesmo assim ainda temos alguma história para contar juntos, uma história triste. Olhe sempre em volta. Pare, observe e escute. Existem coisas imponderáveis nesse mundão de Deus. Alguém admira você, Úrsula? Você admira ou ama alguém também? Isso é perigoso, sabia?.Você me excitou demais ao fazer desafios e determinar regras. Quer dar um pulinho na minha casa? Venha, eu lhe mostrarei como se deve ser hospitaleiro sem que se bajule o mestre. Aqui não se compra admiração e hospitalidade. Traga a fada com você. Serão bem recebidas. A minha casa é pequena, praticamente uma caixa, aqui existe respeito para quem vem de longe. Venha tranqüila. Lembro que vocês têm fama de gente que não gosta de conversar com quem julgam inferior. Ainda assim venha e sinta-se à vontade no meu sofá, eu servirei alguns docinhos, trarei numa bandeja de prata um enorme jarro com suco gelado, só para abrandar o calor que consome você e a fada por dentro. Venham e cruzem as pernas, quero ver a coxas gordinhas e brancas que carregam algumas marcas roxas da última noite. Não se acanhem. Estou cheio de ficar sozinho, me façam companhia pelo menos algumas horas, só até quando o dia ameaçar clarear. Venham... Eu sei que estão sempre disponíveis para aquilo que gostam de fazer. Contarei as novidades. Coisas importantes que nos envolvem. Mesmo que a fada continue calada, ainda assim, poderemos trocar muitas palavras. Ela sempre me estimulou a ser um ouvinte compreensivo. Deve ser esse o grande motivo do seu pavor em relação a mim, o conhecimento que trago me dá força e proteção. Eu quebrei uma regra depois de tantas que ela quebrou, foi apenas um cisco no universo de mentiras criado por ela. Mas um grande segredo ficou, talvez seja esse o mistério que ainda nos una. Em meus sonhos eu gostava de vê-la novamente à beira daquela piscina moldada na pedra, feita do desvio do curso do riacho repleto de pedras grandes. Um lugar rodeado de amigos. Os amigos que trouxeram um pouco de companheirismo e amizade, mas ela não aprendeu nada. Eles mostraram toda a consideração reservando um assento para ela na hora do jantar ou convidando-a para um passeio descontraído sob a luz da lua. Admiração, respeito e lealdade; ela não aprendeu mesmo. Nem no momento em que via as pessoas que vinham de longe e dividiam o mesmo pão, o mesmo espaço e a mesma vontade de se socializarem e serem compreendidas, ela não se sensibilizou. Ela nunca aprendeu o significado do respeito ao próximo.
Na transparência daquela água a sua pele se destacava pela brancura, mas com alguns pontinhos quase imperceptíveis de sardas. Quando ela saía dali o reflexo do sol batia em seus ombros molhados, fazendo as gotas brilharem como um arco-íris. Aquela cena produzia em mim uma sensação de alegria interior. Os seus músculos, de exímia nadadora, estavam em destaque, então ela vinha para fora daquela água gelada como se fosse impulsionada por uma força invisível. A sua saída durava horas na minha observação, era o momento em que eu pensava em tantas coisas loucas. Nós tínhamos todo o tempo do mundo e, no entanto, eu ia perdendo um pedaço de mim a cada vez que ela fazia o seu vôo em direção ao topo da empáfia. Mas eu sabia que era o momento para escrever em definitivo o meu nome em sua existência. E naquele momento eu me alegrava que fosse tudo assim. Não tínhamos muita dificuldade nos caminhos retos, o que pegava mesmo eram as curvas das nossas motivações interiores. Durante muito tempo eu cheguei a pensar que ela não existia de verdade. Cheguei a duvidar que ela tivesse um corpo, um nome, uma profissão e até que fosse um perfeito exemplar do sexo feminino. Mesmo com tantas lamúrias e angústias me fazia acreditar que as memórias tristes do passado iriam se apagando aos poucos. Ela não imaginava que pequenos problemas tornam-se grandes confusões quando se tenta reconstruir uma velha história em outro lugar. Quando percebia que acontecia isso eu me imaginava olhando para ela com os olhos de outra pessoa, alguém com a qual ela não tivesse qualquer intimidade e nem soubesse do tipo de sensibilidade com a vida. Uma pessoa comum entre tantas outras que poderia andar num shopping center chique ou fazer da vida um hobby para viajar por mar, terra ou água. Alguém que apenas olhasse e buscasse algum prazer em seu visual. Isso sem qualquer esforço ou observação mais apurada. Alguém que encontrasse um descanso descomprometido através do seu pensar. Imagino o quanto seria difícil para essa pessoa diferenciar a fada do monstro. Talvez só se colocando em meu lugar por algum tempo. Não que eu necessariamente desejasse isso para quem quer que fosse. Afinal não é fácil ser despojado dos sonhos, das ideias e formas como seriam colocadas em prática numa vida futura.  Hoje existe entre nós uma espécie de murmúrio. Um monólogo de vozes raivosas que dizem algo assim: “Não gostamos de você”, “O que tem a dizer não nos interessa”, “Você só nos traz o mal”, “Está nos incomodando. Não enxerga que somos seres superiores?” É o murmúrio da fada, guardiãs e seguidores que ecoam do norte para o sul. Olha só que coisa mais engraçada que me ocorreu agora: Eu consigo pensar em tudo isso com racionalidade. Eu existo e não existo, eu sou e não sou. Gostaria tanto de ver a cara daquele sabichão que se senta na ponta da mesa ao ler essas linhas. Fico imaginando o que ele iria dizer. Como comentaria tantas revelações? Talvez isso acontecesse na hora do café da manhã, quando ninguém fala e o único ruído que se ouve é o som das bolachas sendo trituradas pelos dentes finos. Ele fica sempre em um plano mais alto que os demais, fala de cima para baixo em um tom forte e agressivo, o que denota a hierarquia e o seu grau de denominação sobre todos. Mas a mesa em que se instalam é um retângulo e não um grande círculo com um ponto no meio, ali não reina nenhum tipo de paixão humana, nem tampouco é um círculo com triangulo no centro, que serviria como base de um ato racional no comportamento sob a luz da verdade. Não falei? Quanto mais penso em motivos, novas situações inovadoras aparecem. Bem, imagino que talvez ele nem resista tanto a pelo menos uma ou duas cenas fortes, afinal ele é velho e velhos são emocionais, mesmo que saibam que carregam a metade da culpa por fadas-monstros existirem e persistirem em fazer mal aos outros. Por isso estou empenhado nessa missão como se fosse a coisa mais decisiva de toda minha existência. Em nenhuma dessas situações sinto medo por que sei que a minha sobrevivência na paz celestial depende disso. Sei que em determinado momento esse mestre também se esconde e passa trancas na porta, praticamente entra em pânico. Não aceita em seus domínios quem não se submeta aos acordos elaborados e assinados em sangue. Mas no fundo ele sabe que esse tipo de privação também dói dentro dele. Ele é a primeira vitima da armadilha que criou. Onde estão os seus amigos, vizinhos e parentes? Que desfaçatez a minha sair assim me enfiando em sua vida particular! São os meus pensamentos que caminham por contornos indefinidos. A vida oculta do mestre terrestre da fada é como um piano desafinado. Será que essa noção de impossibilidade funciona como uma limitação para manter a impunidade? A impunidade que o Ser de cabelo pintado, rosto pálido, olhos fundos e com máscara pregada o tempo todo, carrega e respira ofegantemente pelos cantos da casa em escombros. Ninguém nunca ousou indagar os seus princípios ou destrinchar essa estrutura de poder? Perguntas intragáveis que nunca foram respondidas. Tão somente por que ele vive encerrado em sua fortaleza, divide-se através de pactos e conchavos para a dominância do poder interno e externo da sociedade. Mas, no passado, a partir de um momento tudo obscureceu, um tempo sombrio pairou sobre a cabeça de todos subservientes. E por detrás dos falsos sorrisos e abraços de corpos distantes, era demonstrada a fragilidade das questões pessoais mal resolvidas. Mesmo quando Úrsula, com seus cabelos pintados de loiro, resolveu gerar uma intervenção plena na situação. Isso não ajudou, pelo contrário, piorou. Tudo poderia ter sido um caso abafado, os assuntos decididos com cautela e conveniência, mas no meio do furacão a falsa solidariedade escorreu pelo ralo. E isso agora vai custar caro. Por que a cultura do prazer ao custo da tristeza alheia não traz a garantia da felicidade para ninguém. A banalização de sentimentos é que traz o desperdício de pessoas que poderiam ser legais. Tudo se perde na arrogância dos tiranos individualistas que habitam essa casa. E como eu sei disso!. Eu nunca imaginei que seria testemunha dessa loucura, ninguém jamais se conscientizará que eu agora estou fazendo o meu melhor. Grande parte da construção dessa missão é feita a partir de códigos de honra que foram desrespeitados. Esses códigos são, portanto, alimentados pela justiça que carrego. Esse calor está fazendo com que as coisas se decomponham mais rapidamente, eu devo estar me decompondo somente com a quentura que emana dos meus pensamentos. Sigo no transe com as questões simbólicas que ocupam esse espaço, só penso naquilo que chamo de “passagem”. Alguém pode sugerir que minha cabeça é louca, mas tenho só essa e é assim que eu vivo. Então, do nada, começo a sentir um cheiro de café fresquinho. Estou diante de um halo de vapor que sobe. Engraçado como a minha vida com a fada teve uma série de rituais repetidos freqüentemente. Fazíamos uma comemoração a nossa maneira. Nas vasilhas plásticas havia bolachas doces e salgadas, bolos, muitos biscoitinhos recheados com goiabada e pão de forma. O silencio da cumplicidade nos envolvia nessa hora e nós nos bastávamos. Cada vasilha daquela era cuidadosamente vedada para conservar os biscoitos sempre sequinhos e crocantes. Comíamos as coisas mais sensíveis em primeiro lugar, depois as outras nos dias subseqüentes. Nunca eram abertos todos os pacotes numa única vez. O café recém passado era misturado ao leite, em seguida adoçado. Esses flashes repentinos custam a satisfazer a minha nostalgia. Lembro que no inverno fechávamos tudo, ficávamos num tipo de operação complicada para manter o aquecimento interno, enquanto isso os corpos colados tinham a missão de confortar um ao outro. 
TRAIÇÃO!! Sinto como se tivesse sido traído na mais profunda fé no ser humano. Se tivesse imaginado, quem sabe teria abandonado tudo antes da calamidade. Acaso alguém imagina essa cena? Acho que não... Todas fantasias provocadas pela fada fizeram a cabeça girar, elas são apenas minhas nessa hora.
-         Ainda pensando nela, heim? – Pois é, tenho pena de você.
Viro um pouco a cabeça para cima, ouço fortes batidas de pé sobre a terra, como se uma manada de elefantes desfilasse por cima da minha morada, a terra treme e a poeira se levanta. Ao olhar para cima mais atentamente, vejo o vulto de um homem vestido de preto, chapéu jogado de lado, sapato de bico fino que brilha no escuro, carrega um longo charuto aceso entre os dedos da mão esquerda, com a mão direita segura uma bengala que tem um dragão dourado na ponta. Os seus traços são firmes, o bigode se destaca por cima da boca torta.
Ele diz:
-Estou de olho em você agora, você sabe que ficará por muito tempo nessa condição se continuar com pensamentos nostálgicos. Surpreende-me que o tenham escolhido para essa missão. Você é fraco e patético. Quanto tempo faz agora? Você nem sabe... Um dia você disse que quinze dias era muito tempo para esperar... Mas e agora? Sabe há quanto tempo espera?
-Quem é você para me questionar assim? – Digo -
-Eu sou aquele que vai mostrar como alguns seres podem ser escabrosos a ponto de perpetrarem coisas aviltantes contra o próximo, usam sempre de artifícios que ninguém espera. Farei isso de um jeito muito especial, através de imagens que você não espera receber. Para que tudo dê certo precisará dançar comigo.
Vamos, levante-se dai, venha dançar. Não ouve a música? Sacuda as cadeiras, toque os pés no chão, para frente e para trás, faça a poeira levantar. Dance sozinho, mesmo que se sinta meio bambo. Você será intoxicado por uma graciosidade que nunca teve. Se quiser pode cantar enquanto dança. Solte a voz, inspire-se no ritmo. Todos se erguerão de seus lares eternos e o acompanharão. Em seguida cada um fará a sua própria dança. Alguns terão um sorriso aberto, outros pedirão algumas moças para dançar. Nessa dança não existem ricos e nem pobres; apenas seres alegres. Não existem preconceitos e nem mesquinharias, muito menos grupos segregados, todos irão se erguendo em distinção à graça e a liberdade de ser o que é. Todos que dançam são comuns no sentido mais comum da palavra. Para quem preferir uma música especial terá um samba, para outros uma valsa ou um tango. Quem sabe um axé ou uma polca. Tchaikovsky produz um efeito assustador e surreal, mas é calmante. Não se deixe enganar com facilidade por tanta opinião de gente inteligente que polui a sua mente. Ninguém jamais poderá se sentir pior do que aquele que foi completamente enganado e caiu numa armadilha do destino. Mude a freqüência. Alegre-se com isso!
Timidamente eu pergunto: - Existe alguma razão séria para as coisas serem assim?
Ele responde: - Sim, você morreu, dizem os relatos. Mas o seu espírito tem salvação mesmo sendo um ser atormentado e trágico. A sua obsessão em eliminar a fada o fará alguém feliz em algum momento. Antes do fim fará com que o seu núcleo brilhe tanto como se estivesse em chamas. Mas ainda assim vale a pena fazer uma tentativa de mudar o ritmo da dança, até mesmo para que outros sejam felizes com você. Faça a dança do jeito certo e todos se sentirão contagiados, principalmente aqueles que o cercam.
Digo: - Está bem, farei a tal dança. Como é?
       Nesse momento perco o total domínio dos movimentos, começo a agitar os braços. As pernas entortam como se fossem de borracha. É uma dança solitária e insegura. Fico imaginando o quanto esse sujeito é mais maluco que eu. A cabeça começa pender para frente e para trás sem controle, o corpo balança em ondas, o tronco se curva enquanto vai um passo para frente e outro para trás. A música é dissonante e com ritmo inconstante. É a melodia dos meus pensamentos que faz a marcação. Todo o lugar toma a forma de uma grande apresentação em grupo, um enorme palco ao ar livre sendo ocupado aos poucos. Novos dançarinos de ambos os sexos vão chegando em farrapos, todos com olhar altivo, cada um em seu estilo próprio. Luzes piscam e rabiscam o céu. Dig e Shine aparecem distribuindo flashes de todas as cores e intensidades. Algo me diz que assim as coisas vão acabar funcionando direitinho. Uma multidão dança e flutua no mesmo passo lateral até o infinito. Nenhuma conversa irritante existe aqui. Como é bom respirar a brisa da noite! Toda essa harmonia feita com um ar real e natural, nenhum olhar maldoso. Posso visualizar perfeitamente o homem de chapéu, está com o charuto na boca e com a bengala debaixo do braço, ele bate palmas. Será que percebe que estou feliz por um instante? Uma jovem linda de cabelos ao vento se aproxima pelo meio da escuridão, pergunta: - Para quem está dançando assim tão feliz? Eu respondo: - Para mim mesmo! Ela diz: - Sendo assim, pode segurar na minha mão que eu o acompanharei em seus desejos. O meu nome é Desire estou aqui a pedido do meu amo e senhor.
No momento em que seguro na mão da moça encantadora a paisagem muda. Nós estamos agora debaixo de uma árvore curvada, bem ao lado de um brejo rodeado de folhagens densas e de serpentes enroladas. Enquanto segura a minha mão, com um tipo de ternura angelical, ela diz: - Todos os seus problemas serão resolvidos, conte-me do que precisa para que tudo aconteça. Enquanto isso veja o seu corpo, ele está mais cheio e pesado. Respire fundo. Você já pode respirar. Nada de luzes amarelas ou violeta, agora você recebe a luz vermelha do néon em seu rosto, isso indica o progresso dos homens em suas descobertas daquilo que existe e é invisível. Percebe o quanto isso é bom?
Indaguei: - Por quê está fazendo isso?
Ela: - Sei que pensa numa mulher, numa jovem que é amante do luxo e do dinheiro, é umas das cortesãs mais solicitadas do nosso clã. Vou trazê-la até você e poderá ficar o tempo que quiser com ela, isso até quando puder agrada-la com presentes finos.
Nada digo, apenas um aceno com a cabeça.
Ela aponta para uma das cobras, o animal vai se desenrolando devagar, fica ereto e com a cabeça balançando de um lado para outro. Quando termina de erguer-se há uma transformação, a cobra vira a fada. Ela é tão real que sinto a necessidade imediata de contar tudo o que vivi. Ela surge inalterada, igualzinha a última imagem que guardo no canto da mente reservado às memórias boas. Ela se aproxima e enrosca o braço no meu, caminhamos de braços dados como se fossemos namorados. Fico esperando que diga alguma coisa, mas ela não diz nada. Os seus cabelos tingidos estão escovados, uma rosa vermelha aberta permanece firmemente posta do lado esquerdo, ela fuma com piteira preta, sacode as jóias caras que enfeitam o pulso, o batom tem cor berrante e a cor das unhas acompanha o tom da rosa.
Então resolvo quebrar o gelo dizendo: - Você nunca teve o menor respeito por mim, não é mesmo? Insultou-me na frente das pessoas e nunca chegou a mostrar qualquer interesse por meus problemas. Encontrou um novo brinquedo nos últimos tempos?
Ela vira-se e diz secamente: - Como você é bobo! Continua igual. Não vejo por que você supõe tantas coisas a meu respeito. Eu apenas queria agrado. Você nunca me deu um tecido sedoso ou um perfume caro. Você não me deu nada em troca do sexo que ofereci de graça. Poderia ter sido sábio, paciente e tolerante, aceitando ser meu escravo para sempre.
-         Eu sei – respondo, olhando suavemente o seu rosto na escuridão – diga-me por que nós nunca aprendemos a nos amar e nem pudemos ser amigos com ternura? Por quê você nunca se mostrou desinteressada e desapegada dos bens materiais?
Percebi que havia dito algo errado. Nesse momento ela muda a feição e arremata: - Como pode saber qualquer coisa, se na verdade nunca viu os meus olhos contraídos pela dor que outro homem me causou?
Então respondi: Eu não causei dor nenhuma a você, nem mesmo pelo falso amor que dizia sentir por mim, foi sim, por seu orgulho ferido no passado que carrega toda essa carga de dor pelo mundo. Mas de qualquer modo não me interessa mais saber os seus motivos, agora estou empenhado numa missão salvadora.
Ela pára a caminhada e muda o tom, parece indescritivelmente triste e extenuada, me olha nos olhos e pergunta: - Qual é a sua missão?
Fico em silencio. As palavras não fluem. Tento responder, não sai nada.
Ao ver a minha angústia, ela emenda: - Não importa o que pretende fazer. Mesmo que quisesse me matar dentro de você, isso não aliviaria a sua dor. É pura ilusão, pois nunca irá me alcançar, eu já tenho dono. Mas, se puder e quiser, você poderá me oferecer alguns presentinhos, só assim será possível um acordo que atenta o meu capricho e satisfaça a sua vontade.
    No mesmo instante em que ela encerrou a frase os meus pensamentos voltaram-se para os conselhos de Shine e Dig, coisas que me falavam sobre a necessidade de continuar aprendendo a ter força no pensamento, pensar coisas boas. A fada larga o meu braço, vira-se de costas, some na escuridão. Diante de mim o homem de chapéu e charuto, lança um rápido olhar de compaixão e diz: Ouve os tambores? Agora você sabe como funciona o jogo dos enganos e daqueles que por detrás de palavras simples e atos comuns mudam o destino de tudo. Você ficou em dúvida com a imagem que viu? Eu sei... Esses foram os sinais que você nunca soube decifrar e que acabaram exercendo uma estranha influencia diabólica em você. Tudo o deixou confuso em relação a ela, isso já é bem sabido. Mas... No momento que vi o brilho dos seus olhos diante da imagem dela, me senti triste também, porque acabei comprovando toda minha suspeita sobre suas fraquezas. Infelizmente, parece que de certa forma, cada um de vocês encontrou o seu igual. Por isso nunca confiou nela um só instante e nem ela em você. Ela acha que não a merece e o despreza, até o chama de filho da puta, isso é bem tradicional para o tipo de pensamento dela, por outro lado, você pensa que ela não o valoriza mesmo tendo se esforçado para tira-la do inferno em que vivia. Saiba que nesse momento ela está dizendo as mesmas coisas que diz dela. O discurso é bem parecido, olha só: ainda existe uma coisa pendente, é a face negativa de cada imagem vindo de ambos em busca de uma redenção. Isso é o que faz tudo terminar novamente num grande ponto de interrogação. Ela, tanto quanto você, precisa se libertar da escravidão. O seu livre arbítrio nessa dança decidirá o rumo que tomará toda a simbologia que isso representa quando a terra parar de tremer. 
        Tudo volta a ficar calmo de um instante para outro. 
        Eu me mexo, viro, finalmente encontro uma posição confortável. A imagem do homem de chapéu some no espaço escuro.
     Não há mais vozes, nem música, nem mesmo uma linda garota me tirando para dançar. Agora é o silencio, somente o silencio dos meus sonhos que me conforta e sufoca.     

6 comentários:

  1. Remorso, culpa, arrependimento, rancor, desejo de vingança, amor não correspondido, sentimentos dos quais ele não consegue se libertar.
    Esse capítulo me deixou um pouco confusa, será que nosso amigo é mesmo capaz de vencer essa batalha? Será que ele é capaz de abandonar todos esses sentimentos e se empenhar em cumprir sua missão a qualquer custo?
    Ele tem muitos inimigos a serem vencidos, não é só a fada, suas guardiãs, cada uma delas tem alguma coisa que o atormenta, pelo visto Úrsula é a próxima da lista, com certeza o feriu mortalmente, a mando da fada é claro, mas isso não irá diminuir sua culpa.
    E o que foi aquilo? Um baile dos mortos para testar nosso amigo? Quem será esse homem que surgiu e põe em dúvida a capacidade dele cumprir sua missão? De qual lado ele estará? A mando de quem ele surgiu? E essa aparição da fada, teria sido ela mesma, ou os pensamentos mais loucos que habitam a mente desse homem obcecado? Que regra será essa quebrada por ele? E qual será esse segredo que o une a fada?
    Pois é senhor autor, são tantas questões a serem respondidas, não é mesmo?
    Desde capítulo o que fica, na minha humilde opinião, é o velho e comum sentimento que todos nos carregamos em determinados momentos de nossas vidas, o de “Um dia voltarei para refazer a minha vida”.

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  2. Um grande desejo de vingança e desprezo para com Úrsula, fiquei bastante intrigada com a afirmação de nosso herói:

    "(...)Se quando eu lhe perguntei coisas você respondesse com educação, se quando eu falei, você não se calasse covardemente, nenhuma missão teria sido planejada e eu descansaria em paz. Mas você é uma reles emissária, é apenas aquela que dá o recado de quem manda."

    Parece que em algum momento ele tentou uma aliança com Úrsula antes de ser lançado para a morte. Será?

    Nosso herói tem doces lembranças de momentos que teve em vida com a fada, mesmo ela sendo um tanto temperamental, parece que ele conseguia ter um 'domínio' sobre a situação, contornando e tranformando a relação em algo acolhedor e aconchegante, mas houve um momento 'x' onde tudo foi modificado, aparentemente Úrsula poderia ter evitado se tivesse sido sincera com ele.

    Envolvido em pensamentos de dor, angústia, vingança, surge um novo personagem. Este vem mostrar o quanto qualquer ação modificadora de sua situação atual, é impossibilitada para um ser perdido e sufocado por ressentimentos. Mostra ao herói a leveza da dança, da alegria, dos bons pensamentos. O poder transformador do ar saudável em carnes apodrecidas pelas mágoas. Um breve momento de paz e novamente a fada invade o pensamento e os espaços de nosso herói.
    Não há acordo, não há trégua, re-sentimentos de ambas as partes (a fada também sofre com tudo isso?).

    Só aguardando o próximo capítulo....
    Aguardo ansiosa, ótimo texto sr. autor.

    Uma frase muito interessante, mesmo destacada do contexto:

    "(...) A banalização de sentimentos é que traz o desperdício de pessoas que poderiam ser legais."

    Concordo plenamente com isso, tentamos sempre encaixar as pessoas dentro de 'caixinhas' pré existentes na nossa mente, esquecemos que o que hoje parece bom, amanhã poderia ser o ótimo, se conseguíssimos aceitar a imperfeição e a particularidade de cada um.

    Seres humanos....tão imperfeitos.... mas vamos seguindo, cada qual tentando dançar da melhor forma que lhe é possível.

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  3. Eu só acredito que o falecido vá realizar a missão porque sabemos que ele é o escolhido. Ele se perde tanto nas lembranças que penso que o sentimento que nutre não seja só o de vingança e que ele nem tenha consciência disto.
    Há mudança de cenário, pensamentos ou acontecimentos tão bruscos, meio confusos, que parecem sonho, mas morto não deve sonhar não é?
    Então um fato novo: o comportamento da fada é resultado de uma decepção amorosa...tinha que haver um homem nesta estória para justificar tamanha frieza e perversidade, tornando-a uma mulher amarga, vulgar, banalizando o sentimento e se limitando aos prazeres e futilidades.
    Pelo menos ele e os vizinhos tiveram alguns momentos de alegria, com direito a vários estilos para sacudirem os esqueletos, rsrs.
    Até o próximo.

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  4. Fantástico e bem arrepiante esse convite de nosso amigo,e nada mal intencionado tbm né rsrsrs...O que será que acontece entre Úrsula e nosso amigo?(MISTÉRIOS)...
    Mas enfim esse cápitulo nos mostra o quanto podemos nos enganar com as pessoas e que tudo que parece pode não ser,e que devemos sempre estar atentos a sinais que por mais pequenos que sejam eles sempre existem...e observarmos que tudo o que pensamos de uma pessoa ,ela tbm pode pensar de nos as mesmas coisas,,e por essas razões os conflitos começam....bjssssss

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  5. Patricia Ramos Sodero3 de março de 2012 16:36

    Meu Deus!Quando será que nosso personagem se libertará de tantos sentimentos misturados entre o amor e o ódio?
    Será que não percebe que isso trata-se de uma "armadilha" que atrasa seu desenvolvimento espiritual?
    Agora,aparece novamente as guardiãs,junto com um homem misterioso,que só perturba mais a sua mente,deixando-o com dúvidas em relação à missão que tem a seguir.
    A mando de quem será que esse homem surgiu?E ainda fazer as coisas acontecerem em meio a um baile,local de festas,alegrias....É cruel mesmo!É para que ele se perca mais em pensamentos e sentimentos.
    Resta saber,qual o caminho que seguirá e se conseguirá se libertar finalmente.
    Acho que a cada capítulo,nosso autor mostra muito bem isso.
    Parabéns...bjos!

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  6. Nossa que história!!Amor e ódio é bem isso,quando penso que ele vai se libertar volta a fada entra de novo para atormentá-lo difícil hein!!!Como esquecer um amor que não dá paz em nenhum momento!!!Espero que ele se liberte disso,como diz tudo que faz mal,deletamos!!Bjs Andréa Cardoso.

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