Uma Breve Vida PARTE 8


     Sinto que estou caindo outra vez, sempre caindo. Só em pensamento. As partes internas estão apodrecidas e esfareladas. Os panos brancos de algodão cru que forram as laterais, estão manchados com a tinta da madeira podre. Nada aqui é o mesmo de antes. Toda matéria-prima está sendo lentamente destruída. Não sei  quantos anos já se passaram. Talvez, dois, cinco ou, quem sabe, oito. O ambiente continua esquecido mantendo um tipo de clima constante e incansavelmente triste. O tempo corre sem marcação alguma. Não existe mais aquele relógio de parede com fundo branco sob os ponteiros grandes ou, muito menos, qualquer coisa que se possa constatar o tempo presente. A cada novo passeio descubro coisas novas nos trajetos inusitados. É uma pena não ter onde possa anotar minhas lembranças. Como seria bom um caderno e uma caneta qualquer. O único amor que possuo nesse momento é o amor por esse lugar. Já tentei mudar de casa, mas não adiantou. Estou preso aqui, esse buraco tem uma enorme capacidade de emitir sinais que são captados por uma intuição infinita. Nas rondas noturnas percebo que estou sendo seguido, que sou comentado como o protagonista de muitas recriminações e perseguições. Sinto que meus pensamentos são proibidos e censurados a cada minuto, ou até alguns segundos depois de nascerem. Se eu pudesse determinar um horário para o exame dessa censura, eu diria que acontece oito e meia da manhã de cada dia, logo depois que estou imerso por mais de duas horas de sono profundo. Tudo acontece clandestinamente, é claro! Mas aqueles que me censuram sabem que é inútil tentar gravar os meus pensamentos, porque só eu sei que eles são feitos de imagens loucas. As ideias se confundem e as palavras se misturam. As cores podem ser leves e suaves, mas a mão do pintor é pesada e rude, porém, num estilo figurativo abstrato. Assim tudo vai mudando, revezando de lugar e de sentido. São situações e pessoas que se parecem com a realidade, mas ao mesmo tempo nota-se que nada faz parte desse mundo real que conhecemos como mundo. Sei que as imagens poderiam ser mais belas, sossegadas e sem cargas emocionais tão densas; pena que não seja possível. Nessa breve vida tudo foi sentido de uma forma intensa e cruelmente triste por mim. Mesmo que existam muitas controvérsias nesses planos, a única coisa que resta é esperar. Assim o tempo correrá no seu ritmo certo e eu poderei dar andamento no elaborado intento, e sem atropelos. Nada disso é feito como vingança, é sim como uma deliberação de um conselho bom. Isso pode até parecer uma forma simples demais para justificar certas atitudes, todavia, é a única forma que eu sei fazer. Logo, é assim que eu faço com a orientação dos meus amiguinhos de olhos brilhantes. Vou sempre usando como base os fatos que possuo, aqueles que lembro e outros que eles me trazem. Mesmo que, numa breve vida, tenha fracassado inúmeras vezes nas coisas que buscava, eu persisto. Mas, alguns fracassos talvez sejam comuns aos obstinados. Depois de um tempo começo a acreditar fortemente nisso. Posso até justificar, com centenas de descrições e exemplos do mundo humano em que vivi o porque penso essas coisas. Reconheço que sempre fui um tanto exagerado. Num passado distante, antes da fada-monstro existir, bastava ter um pingo de dúvida sobre qualquer coisa para jogar tudo por terra. Um dia parei para pensar e passei a agir de um modo que toda certeza só poderia vir de uma grande soma de dúvidas. Eu sempre odiei limitações e estreiteza de pensamentos, nunca admiti que era estreito e limitado, mas aprendi a ser mais paciente. Então, sendo assim, nunca desistia porque achava que poderia tentar outra vez e outra vez e assim por diante, sem nada para determinar rumo ou objetivo, sempre acreditando ser protegido e invulnerável. Eu não percebia o quanto era frágil tudo aquilo que me rodeava. E quando tudo acabou eu não disse uma só palavra de condenação por minha escolha, ainda que tivesse avisado de todas insanidades aprontadas pela fada, numa breve vida. Eu avisava: “Essa será a última vez que te apoio, não haverá segunda”. Mas não adiantava, lá vinha ela aprontando outra vez. Como me culpo por essa fragilidade! Como eu pensava de modo ingênuo e romântico! Foi apenas mais uma mentira, nessa breve vida, que preguei em mim mesmo.  O mundo dos homens e das mulheres foi visto por mim como uma peculiar união de sombras e sonhos. Com o cair da tarde toda dor se erguia da terra como se fosse um nevoeiro fugidio. Vinha tristeza e ansiedade pairando sobre um coração solitário. Eram as minhas carnes famintas e loucamente desesperadas para que um milagre acontecesse. Muitos outros iam vomitando suas sementes de angustia pelo caminho por onde eu passava, buscando conselhos, todos aqueles que se sentiam acorrentados pelos fatos controversos que viveram. É justamente nessa parte que lembro mais fortemente da fada. Fico imaginando porque ela teve a coragem de sacrificar toda a nossa vivência, em nome da busca de um fantasma prostrado que jazia como múmia nas teias do passado. Parece que quando o mundo caísse aos pedaços, esse fantasma ainda a faria ofegante e com brilhantes orgasmos de tremer o chão. Uma coisa eu penso: O que aconteceu entre nós, - pelo menos no que se refere a mim, - foi algo que balançou tanto que acabou levando a vida para outra esfera. Um lugar onde eu não sei como estou; ou se ainda permaneço vivo ou se morri. O meu fluxo emocional passou por uma transformação. Eu vivo não como era antes, hoje eu vivo por mim, porque tenho uma missão. Nessa vida não existem mais cumprimentos e nem saudações, sequer endereço de correspondência ou datas fixas. Existe apenas o tempo sem controle. Por isso, quer ela ainda goste de mim ou não, - apesar de que eu creio que me odeia profundamente, - é bom que saiba que ainda está muito próxima de mim. Ela vive em meus pensamentos porque eu morri. Eu morri de um jeito especial, é algo muito mais intenso do que estar simplesmente morto. Talvez seja essa a razão que ainda tenho tanto medo de vê-la novamente cara a cara; ainda mais com suas guardiãs ladeando e esbravejando impropérios pela eternidade. Ela sabe que me pregou uma grande peça quando fez os meus fluxos emocionais se inverterem. Com toda certeza lembrará muito bem que tenho uma linguagem toda própria de me fazer entender, por isso estou aqui. Ela me trouxe até aqui com suas atitudes perante o mundo e diante de Deus. Quando estou sozinho, porque agora só vivo sozinho, eu penso nela, eu converso com ela, eu sonho com ela. E, de uma forma singela, aprecio muito tudo isso. É a primeira vez nessa vida que acho que a morte pode ser algo fascinante. Sonhando assim, tudo faz com que eu me sinta melhor do que quando estava vivo ao lado dela. Porque naquele tempo tudo parecia envolto numa espécie de agonia, mas não agora; não mais. Agora são somente sonhos do meu jeito. Quando eu sentia grande emoção em toca-la era porque eu queria que estivesse viva para morrer de prazer, mas eu sabia que estava mais próximo dela do que poderia estar, uma proximidade perigosa. E quando eu a olhava e tocava devagar, apertando aos poucos a ponta do dedo em sua pele, era só para chamar a atenção e ganhar um olhar carinhoso de canto de olho. Era bom tudo aquilo! Imaginava que ideia fazia de mim, se tinha pensamentos puros e ingênuos de tudo que estava acontecendo, ou não. Eu agora penso nela porque mesmo na morte ela é a única vida que tenho, isso até o fim da missão. Se ela pudesse notar, perceberia que tudo que vem acontecendo é apenas por que ficou presa em mim como algo essencial. Seja como for, só existe um caminho, são os planos que foram traçados e determinados. Eu sou o executor e ela terá que se submeter por um bem maior. Nos meus sonhos, que trazem o passado de volta e duram dias e até anos, penso tanto se ela estaria ansiosa para me ver novamente numa trégua com tempo determinado, só para saber como estou. Mas não, nenhuma palavra, nenhuma linha, nenhum sinal, ela só pensa em ficar flutuando por cima das pedras quentes do inferno onde nasceu. O único meio de contato que nos liga é essa linguagem de morto-vivo, que nada mais é do que mensagens vindas do campo de batalha, palavras venenosas para anunciar a todo mundo que a guerra continua sem trégua. Eu sei, positivamente, que ela me odeia, mas imagino que tenha emoções contraditórias, que ao mesmo tempo pensa que sente falta de tudo aquilo que passou e imagina o quanto é duro viver longe do único amigo de confissões que teve numa breve vida. Talvez tudo tivesse corrido satisfatoriamente bem se eu me permitisse levar tantas chicotadas sem chorar. Devo reconhecer: Eu tinha uma genuína afeição por ela. Isso quando ela era só fada. Chegava a dar-lhe um abraço para dormir ou até, sem que percebesse, um beijo nos cabelos. Eu nunca queria ver um rosto triste. Queria um semblante alegre, entusiasmado, sereno e otimista. Eu nunca disse isso a ela, naturalmente, mas vivia orando pelos cantos para que tivesse paz de espírito e mente tranqüila. Era para que nunca estourasse uma guerra entre nós, uma guerra que eu sabia seria dura e com um final significativamente triste. Toda essa conversa ainda me perturba um pouco, pois nada me satisfaria mais se as coisas tivessem sido diferentes. Agora tudo o que me resta é rodar pelo cemitério em busca de algum aconchego. A cada noite fica mais adorável o passeio, talvez pela força do hábito ou pela companhia dos meus verdadeiros amigos, Shine e Dig, que me aconselharam a pensar assim; sem tantas tristezas. Os mesmos conselhos que um dia eu dei para a fada; e ela nunca ouviu. Agora os meus pensamentos são bons, são tão generosos que até faria questão de me encontrar com ela, somente para tomarmos uma taça de vinho importado daquela garrafa que nunca abrimos, ou talvez saborearmos um queijo quente com pão italiano. Deixaria-me levar com ela por lugares onde já estivemos e outros que nunca pensamos. Imagino que poderia ter existido um futuro bem diferente, por mais modesto que ele pudesse ser. Talvez um dia antes de ir embora de vez, eu imagine tudo de novo e com mais detalhes. O mais estranho é que, passear assim de mãos dadas com ela, por todos os ambientes da vida que fomos testemunhando, continua me deixando muito mal-acostumado.
      Naquele tempo eu sabia que aos poucos iria conquistando a sua confiança e abriria caminho para salvar o seu coração saturado, que fora lançado no mesmo abismo que lançaram Satã. Devagar iríamos ficando mais conhecidos um do outro, mais íntimos e agradados por um tipo de senso comum de aventura, tentando a filtragem dos pensamentos impuros para alcançar a glória. Eu gostava das suas maneiras que pareciam de sabedoria e mistério, mas que sempre tinham uma pontinha de dor no final. Tudo bem... Ainda assim, ela era uma fada.  Pena que eu não soubesse que suas ideias de manipulação seriam tão diabolicamente inteligentes depois. Não imaginando essa coisa chata que aconteceu, é possível sentir uma espécie de música melodiosa saudando a sua imagem entrando no meu pensamento. Lembro do aroma das flores daquela escadaria em que demos um dos últimos abraços sinceros, tivemos o cristo de braços abertos como testemunha. Lá de cima tudo parecia bem mais fresco e os montes distantes eram de se perder de vista no horizonte claro. Nenhum homem poderia compreender o encanto da natureza até sentir o quanto tudo é marcante ao estar ao lado de quem se ama. Naquele dia havia em seus lábios um tipo de sorriso inexplicável e jovial. Era um instante que se destinava a transmitir tantas coisas que palavras não conseguiam definir de forma absoluta. Agora estou aqui me agarrando novamente naquele sorriso inexplicável. Tudo para ficar ciente de quanta ingenuidade existente nesse meu pensar. Toda vez que isso acontece abre-se uma fenda, como se fosse um túnel do tempo com ventos em rodamoinho. As imagens se misturando, escurecendo e clareando. Parece que o mundo deixa de girar por um instante, tudo fica estático e morto. É quando vejo de novo toda a lenda que ela foi, numa breve vida, e ficou escondida bem no fundo de um labirinto. Dentro desses caminhos truncados ainda vejo um colchão sujo, suor aos pingos e gritos selvagens que surgem ecoando do passado. Os corpos brilhando no escuro como palitos de fósforos riscados na escuridão. Uma cena incontrolável com uma aura sedutora num ninho de amor apoiado no chão. Num lugar onde poderíamos morrer sufocados pelo calor ou pelo silencio pleno dos momentos de um fluxos constantes, com movimentos que levavam para dentro e para fora o desejo intenso de pertencer um ao outro. Esses movimentos iam num crescendo, evoluindo e trazendo para próximo aquilo que estava distante. A sensação era como virar de dentro para fora e de fora para dentro ao mesmo tempo. Ela agora sabe que poderá vaguear por cem anos batendo com seu cajado nas cruzes, e nunca encontrará outra vez essa mesma emoção. Nem mesmo aquela sensação ao dar uma volta por caminhos pedregosos, que levavam para uma imensa queda de águas serenas com o brilho do sol nos nossos olhos, tudo que aconteceu numa linda tarde de fim de inverno. Nesse milésimo de segundo desejo que esse mundo de homens e mulheres que sonho não fale mais comigo assim, não posso ser tão sentimental. Eu sou inumano agora. Eu sou como a fada que virou monstro. O meu mundo transbordou de uma fronteira para outra porque a minha vivência, numa breve vida, pareceu como uma falsificação de intenções. Era como se a vida estivesse pertencendo à vida de outro alguém e também à ausência de vida. Uma situação sendo alimentada por um alimento amargo e sedutor. Mas, seja como for, eu não sabia de nada, estava apenas flertando com o desastre que viria depois. O tempo passou e numa noite tudo estava acabado. Eu já não tinha mais forças para resistir a outro elo que a corrente poderia criar entre nós. Então fui lançado como uma bala para fora do mundo que conhecemos. Agora durmo porque tudo morreu. A cabeça está inclinada, a boca completamente aberta e o corpo seco. Ninguém mais me ouve ou sente o meu calor. A única coisa que eu queria era ir embora daqui, isso em definitivo, porque sinto que eu também estou caindo aos pedaços, mas tenho uma missão que deve ser cumprida. Já é quase hora de sair para os meus passeios solitários, onde renovarei as energias com o ar da noite. Caminharei novamente de uma rua para outra e para seguinte até o dia surgir com seus primeiro raios. Sentarei em qualquer lugar e esperarei a aurora dos tempos, com certeza alguém passará por mim e será seduzido por um sorriso franco e audacioso. Andarei ao redor das pessoas, circularei por todos os cantos, tentarei esperar até que o último traço de escuridão comece a desaparecer. Sou mesmo um estúpido. Penso que tenho agilidade para correr e me esconder por ser magro e comprido, mas existem posições nas quais não consigo equilíbrio, posições imaginárias. Será que ela não consegue entender que estou bem aqui, mas preciso sair. Tenho a todo custo que ir embora e enfrenta-la, mesmo que seja essa a única missão salvadora que ainda me faz vivo? Quem nunca teve medo? Será que ela acha que sou um poço sem fundo de ódio e frustração? Sei muito bem que ela é indiferente a tudo isso. Ninguém liga para ninguém e não importa quem chegará vivo ou morto no final dessa história. Quando os últimos raios do dia penderem no horizonte vermelho e amarelo, a lembrança do que passou acabará, só restará o sonho. Nada se altera diante do que era, a não ser dentro de mim. De tal modo que, uma sensação me invade quando vejo o mundo todo subindo. É como se estivesse em transe e meu gesto fosse sempre repetido na mesma ordem. Somente um louco ou um morto por amor seria capaz disso. Então me aperto todo, tremo de cima embaixo porque não consigo deixar de pensar. Malditos são os pensamentos que me consomem em cinzas! O semblante da fada parece nunca envelhecer, é dessa imagem que lembro. Muitas delas atrapalham um pouco os meus pensamentos, fico com uma excitação interior acumulada por tantas cenas adoráveis que poderiam ter permanecido para sempre. A primeira estrela lá em cima traz o mesmo brilho que um dia nos iluminou rolando pela grama molhada, ou então quando tudo estava acontecendo debaixo daquele céu de lua cheia num campo de futebol improvisado, era um abraço carinhoso e protetor que durava para sempre. Eu ali olhando a fada ficava parado, estagnado por tanto transbordamento de sensações insondáveis. Por quê esses pensamentos sempre voltam? Por quê não fazem como os outros que nem lembro? Fico imaginando quais os planos que ela esconde agora em seu rosto calado, ou na boca retorcida pronta para agredir. Sei que agora são outros tempos, ela não explode mais como antes. É praticamente incapaz de soltar um gemido. Apenas observa e elabora planos. Sempre manterá a mesma sensação, a de que está vivendo duas vidas separadas. Uma vida é do seu quarto cheirando a limpeza e perfeitamente organizado, a outra é da porta dele para fora, onde diante do corredor escuro com pilhas de escombros, espreita todos infortúnios da vida. Então percebe que as pessoas a olham como se fosse invisível. Isso acontece até mesmo no simples ato de sentar-se à mesa tentando compreender as coisas inexplicáveis. Então é obrigada a retirar os muros para achar a equação adequada da fórmula de sobrevivência. Quando penso nela assim, juro que não sei o que faço e nem por que estou fazendo. Talvez eu insista nisso por achar que o mundo precisa de paz. O meu mundo precisa de paz. No entanto, não entendo, e que Deus me perdoe, não entendo nada e nem por que fui escolhido no meio de tantos. Não é justo um cadáver como eu vagando assim no frio e no sereno da noite de qualquer tempo. Alguém sabe que já morri? Estão entendendo as minhas perguntas? Por quê toda manhã eu tenho que partir? É... Isso é uma coisa que ninguém sabe ao certo como vai acabar. Tudo dependerá do encaminhamento da imaginação. Em outro sonho fiquei imaginando o que faria se fosse rico e impune como ela. Será que eu seria assim? Uma besta fera pronta a dar patadas nas pessoas? Como explicaria aos meus próximos, quando chegasse em casa, o comportamento que tive na rua? Diria que fui ofendido e afrontado? Ou instalaria uma dúvida permanente que flutuaria entre sanidade, demência e perversidade gratuita? Isso me dá tanto medo, parece que brinco com a morte que carrego, que vou rasgado em tom solene todas as regras compreensíveis de normalidade, que vou rindo como quem risse da própria tragédia. Do riso vou ao choro, sigo chorando para o meu leito de repouso, o tempo de repor as energias acabou, passou rápido demais, foi uma noite em um segundo. Os portões da entrada principal do meu quintal ainda estão fechados, os muros com pintura nova brilham no escuro. Carros funerários entram pelo acesso lateral, trazem novos moradores. Existem convidados reunidos em várias salas. Alguns com copos plásticos na mão tomando um cafezinho, senhores olhando ao redor com ar de reprovação. Existe um cortejo onde mulheres olham espantadas, algumas se assustam, gritam e choram. Uma senhora, usando vestido preto e vermelho com um laço branco na cintura, olha mais demoradamente cada novo morador que chega; outra, ao seu lado, vestida num longo vestido azul esvoaçante, agita-se e foge para fora a cada nova observação nos olhos dos hóspedes. 
Eu desisto! Deixo para trás todo esse burburinho, essa gente não me pertence. Sigo até a quadra da minha morada, entro, deito e durmo. Talvez ao acordar receba algum elogio por mudar o sentido do pensamento. A tampa se fecha automaticamente movida pelo pensamento.           

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